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A Classe Média e a sociedade brasileira



A classe média sempre teve um papel importante nos processos históricos do país, sejam seus resultados bons ou ruins, e assim foi nos últimos anos. O Brasil passou pelo processo turbulento de pré-eleição até chegar às eleições neste ano de 2022, que foi decidida em dois turnos, e durante esse processo o interesse pela política cresceu significativamente, principalmente pela classe média brasileira. No entanto, antes de nos aprofundarmos, vamos conhecer um pouco mais sobre essa parcela da sociedade que sempre atraiu os olhares dos cientistas políticos e sociólogos.


A classe média surgiu com a consolidação do capitalismo, isto é, uma consequência do desenvolvimento econômico, muito ligado à industrialização. No Brasil, embora tendo encolhido de tamanho em relação a 2011 (de 51% da população para 47% em 2020), segundo dados da PNAD, a classe média ainda representa uma grande parte da sociedade com cerca de 100 milhões de brasileiros, graças às gritantes desigualdades que assolam nosso país.


Essa classe social é composta por pessoas que não são ricas, mas que conseguem ter um padrão de vida acima dos pertencentes às classes D e E. Tem como característica, por exemplo, adquirir uma casa financiada, ter um carro na garagem, um plano de saúde, pagar mensalidade de uma escola particular, viajar ao menos uma vez ao ano e consumir fast food aos finais de semana ou diariamente. Além disso, essa classe também tem grau de ensino superior.


Essa parte da sociedade, que por sinal é bem consumista, também é conhecida por ser bastante conservadora, uma vez que segue padrões e não aceita mudanças por medo de perder seu status, por medo de ser confundida com as classes inferiores. Apesar de ter ganhos e poder de consumo maiores do que o das classes D e E, a remuneração e a consciência financeira estão bem abaixo dos padrões europeus. Infelizmente, a complexidade na cobrança de impostos e as altas taxas tributárias consomem parte dos seus ganhos, fazendo com que a renda seja algo muitas vezes algo bem limitado para a classe média.


Empobrecimento

Nos últimos anos, a classe média foi bastante prejudicada, principalmente no contexto da pandemia, que fez com que essa parcela da sociedade que representava mais da metade da população brasileira, encolhesse e passasse a ter o tamanho das classes D e E.


No entanto, foi somente em 2020 que mais de quatro milhões de pessoas deixaram a classe C e migraram para as classes D e E. Esses números estão diretamente ligados à redução do consumo, causados por demissões, falência de negócios e até mesmo reorganização das finanças, isto é, medo da incerteza do futuro. O reflexo que a pandemia causou foi para além dos problemas de saúde, uma vez que houve prejuízo financeiro para boa parte da sociedade, tornando insustentável manter o mesmo padrão de vida de antes dessa catástrofe, exceto para aqueles que pertencem ao topo da pirâmide, que ficaram muito mais ricos e poderosos.


Política e consciência de classe


O interesse da classe C por política não é novidade, mas tem se intensificado nos últimos processos eleitorais. O Brasil, por exemplo, passou por um processo eleitoral bastante tenso a partir de 2013 e foi ficando mais complicando com o impeachment da ex-presidente Dilma em 2016 até o processo eleitoral deste ano de 2022. Esse processo foi um dos mais divididos. Aliás, a classe média teve uma atuação fundamental para chancelar o impeachment por meio das grandes manifestações protagonizadas por essa camada da sociedade, pois estava insatisfeita com a crise econômica que afetava o país naquela época e colocava em risco o seu status.


Infelizmente, o impeachment foi usado por quem queria assumir o poder, que seguem participando ativamente do processo eleitoral, das discussões em redes sociais, dos grupos de mensagens e dos atos públicos em defesa de suas ideias conservadoras. Neste último processo eleitoral, boa parte da classe média também participou, embora tudo leve a crer que a mentira disseminada pela elite política e financeira serviu para desinformar as pessoas. Podemos lembrar, por exemplo, das pautas em relação ao banheiro unissex, ao kit gay, à Venezuela e à ditadura comunista. Com isso, muito conteúdo de desinformação foi utilizado para disseminar e induzir as pessoas ao erro, de modo que as discussões mais importantes, como o crescimento do país de maneira sustentável, foram deixadas de lado.


Contudo, acreditamos que o fato mais curioso a ser destacado é que essa parcela da sociedade que faz questão de se distinguir das classes inferiores, que age quando vê ou pensa que seu status de elite está sendo ameaçado demonstra uma ausência de consciência de classe, já que, em quase sua totalidade, não é detentora do capital e, sim, parte da classe trabalhadora. Apesar da classe C ganhar mais, ainda tem direitos concedidos, parecidos com os das classes trabalhadoras D e E.


Nesse sentido, por não ter a consciência de classe, acaba apoiando governos que precarizam as relações de trabalho e segregam direitos. Além disso, essa classe C vende a imagem de conservadora, pelo fato de sempre estar no meio da cadeia social e não se identificar com a massa trabalhadora.

Esse assunto, portanto, cabe muita discussão. Porém ressaltamos que a classe média é muito grande e que este artigo tenta não generalizar, mas sim contribuir para uma análise mais crítica do processo eleitoral e da ausência de consciência de classe na população, especialmente na classe C. Assim, esperamos ter contribuído para a continuidade das discussões em torno da classe média brasileira.



Texto escrito por Ivo Mendes

É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia.

 

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