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Catar e a Copa das Polêmicas

"Vamos a novos territórios!"


Foi o que disse Joseph Blatter, presidente da FIFA, ao anunciar em 2010 o Catar como país sede da Copa do Mundo de 2022.

Desde então, a Copa do Mundo tem somado escândalos e controvérsias. Nesse sentido, a inusitada e polêmica escolha feita pela FIFA é a coroação de uma estratégia utilizada pelo Catar para se colocar no cenário mundial. Desse modo, para entender as estratégias usadas pelo governo, é necessário viajar um pouco mais no tempo Catari e ir além de sua inesperada preferência.


Catar: de país de várzea à primeira divisão do mundo


No início dos anos 90, o minúsculo país do Oriente Médio não possuía quase nenhuma infraestrutura e também não era o país rico e de referência local, como é hoje. Essa história começa a mudar em 95 quando o Xeique Hamad Ibn Khalifa Al-Thani toma o poder de seu pai.


Hamad tinha um plano para aquele simples país e, desde então, trabalhou arduamente para ser reconhecimento mundialmente. Foi nas mãos desse Xeique que o país deixou de ser majoritariamente voltado à pesca, à exploração de gás e ao petróleo. Foi também em seu governo que o país, que até então possuía um minúsculo aeroporto, passou a ter uma das principais companhias aéreas da Ásia, a Qatar Airways.


O investimento em infraestrutura fez com que o país passasse a ser visto como influente na região, porém Hamad queria mais. Ainda na década de 1990, o país passou a ser a base área americana na região e teve a possibilidade de mediar conflitos entre os EUA e o grupo radical Talebã, tornando-se, assim, um importante mediador político.


Nessa ascensão, o país desenvolveu acordos com os EUA, além de outros países, e trouxe investimentos na área da Educação e dos Negócios. Além disso, realizou parcerias com diversas universidades ao redor do mundo e atraiu centros universitários e pesquisas, o que o fez ser, portanto, uma referência dentro do Oriente Médio.

Ainda dentro da agenda de Hamad, o país p assou a ser sede de eventos internacionais da região e, em 2006, sediou os Jogos Asiáticos, mirando uma possível candidatura a Copa do Mundo que se confirmou em 2010 com o inesperado anúncio feito por Blatter.

A Copa dos escândalos



Concorrendo com países como EUA, Japão e Austrália, a escolha do Catar como país sede foi rodeada de dúvidas e polêmicas. Vista como uma preferência feita por suborno, uma auditoria interna da FIFA não encontrou qualquer evidência de trapaça. Porém, em investigações paralelas feitas pelo departamento de Justiça dos EUA, foram identificados pelo menos metade dos 24 votantes como tendo recebido suborno para selecionar o Catar como país sede, entre eles, Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol-CBF, que também foi alvo de suspeitas de diversos escândalos.

Outras evidências apontam o alto investimento em divulgação de campanha e compra de ajuda, por exemplo, as do ex-primeiro-ministro francês, Nicolas Sarkozy, que foi apoiado pelo ex-jogador Zenedine Zidane como embaixador da campanha. Após a campanha, o país adquiriu o clube de futebol Paris Saint Germain por meio do fundo de investimentos Qatar sports.

Depois da escolha polêmica, o país tinha o que queria (a visibilidade internacional e um evento mundial no seu quintal), mas muita coisa ainda deveria ser feita e uma década de muitos outros escândalos estava a sua frente.

A Copa das mortes


Se a lógica e a razão fossem usadas como critérios na escolha do país sede de um dos mais importantes torneios mundiais, alguns requisitos deveriam ser levados em conta: Garantia dos Direitos Humanos, condições de trabalho, liberdade de expressão, acesso à informação, infraestrutura para abrigar e dar suporte ao evento, transparência no processo de escolha e, no mínimo, proximidade com o esporte a ser celebrado no torneio. No entanto, não é o que aconteceu aparentemente com a escolha do país sede do torneio mais importante e democrático do esporte.

A partir de sua escolha, o Catar deveria construir diversos estádios, hotéis e melhorar sua infraestrutura para a Copa do Mundo de 2022. Por ser um país emergente e estar estrategicamente localizado no Oriente Médio, conseguiu atrair imigrantes em busca de trabalho e melhores condições de vida que vieram da Índia, Nepal, Paquistão, entre diversos outros países da região. Nesse sentido, foi desenvolvido o sistema "Kafala", no qual mediadores ajudavam os imigrantes a entrarem no país para trabalhar nas obras para o mundial. Com a promessa de melhor condição de vida, o programa foi uma fraude e considerado como um dos sistemas de escravidão moderna, pois obrigava os trabalhadores a insanas jornadas de trabalho, em que eram submissos a temperaturas acima de 40ºC com pouca ou nenhuma condição de segurança trabalhista.


Após pressão de diversos governos e entidades como a Human Rights Watch, o sistema chegou ao fim e o governo do Catar prometeu maior rigor com atravessadores e segurança aos trabalhadores. No entanto, houve pouco avanço e há uma estimativa de que mais de 6 mil vidas tenham sido perdidas nas obras para o Mundial.

Segundo o governo do Catar, as mortes são superestimadas e alegam que elas são consequências de problemas de saúde que antecedem as obras. De acordo com especialistas, a projeção é de que para cada gol no mundial, são contabilizadas 39 mortes de trabalhadores escravizados.

A Copa da falta de Direitos Humanos


Embora o país seja um dos mais ricos do mundo e referência na região do Oriente Médio, ele ainda é retrógrado em costumes. Hoje o governo do país é absolutista e tradicionalista e é governado por Emir Tamim Bin Hamad al-Thani, filho do Emir Hamad Ibn Khalifa Al-Thani.

Além das mais de 6 mil mortes, diversos outros Direitos Humanos são atacados no país. Durante entrevistas sobre a organização do mundial, o líder da comissão organizadora, Nasser Al Khater, deu diversas declarações polêmicas, atacando a comunidade LGBTQIAP+. Em uma delas, o embaixador do mundial, Khalid Salman, declarou que ser homossexual é um "dano mental" e não deve ser aceito no país.


No país, ser homossexual é crime, tendo como punição a pena de morte. O país proibiu o uso de bandeiras da comunidade e expressões amorosas em público e em estádios. Além disso, há relatos de pessoas homossexuais apresentando dificuldade de realizar reservas em hotéis para acompanhar o mundial.

Foram tantas declarações e ataques à comunidade que o jogador Josh Cavallo da seleção australiana, único homem abertamente gay na liga profissional de futebol no mundo, se recusou a participar do mundial.

As mulheres também são alvos de violação dos Direitos Humanos, pois, por viver de acordo com as leis teocráticas, elas devem ser submissa às ordens do marido ou seu mentor mais próximo, independente do seu grau de conhecimento, nível social ou independência. Nesse sentido, vale lembrar o caso da mexicana Paola Schietekat que teve uma grande repercussão na mídia. Paola havia se mudado para o país em 2020, a fim de trabalhar na organização do mundial e foi vítima de agressão física. Ao realizar a denunciar, foi acusada de adultério e condenada a prisão, além de receber 100 chibatadas, conforme as leis islâmicas.


O caso repercutiu em todo o mundo e foi oferecido a Paola a opção de ser liberta da condenação. A opção era que ela se casasse com seu agressor. Obviamente, Paola não aceitou e conseguiu deixar o país em 2021, mas a impunidade diante do crime permanece e nada foi feito com o agressor.


A copa dos protestos



A partir das polêmicas e denúncias, desde a escolha como país sede até a realização do mundial, o Catar e a FIFA têm enfrentado diversos tipos de protestos. A ausência de garantia dos Direitos Humanos faz desse mundial um palco de protestos, em que diversas personalidades se recusaram a estar na abertura do evento, como, por exemplo, a cantora colombiana Shakira e a britânica Dua Lipa. Em declaração ao rumor de que se apresentar na abertura do mundial, Dua Lipa declarou:

"Terei o maior prazer em visitar o Catar no dia que ele respeitar os Direitos Humanos!"

Em protestos contra a homofobia no país sede do mundial, diversas seleções se organizaram a favor da comunidade LGBTQIAP+. Sete seleções europeias planejavam usar a braçadeira de capitão com a bandeira da comunidade LGBTQIAP+, porém a FIFA ameaçou as seleções com "sanções esportivas", caso entrassem no estádio com a braçadeira.


Mesmo com a proibição e ameaça da FIFA, o jogo que aconteceu entre Inglaterra e Irã foi marcado por protestos. Os jogadores da seleção da Inglaterra se ajoelharam em protesto a favor dos Direitos Humanos e igualdade. O capitão inglês, Harry Kane, usou a braçadeira com os dizeres "Sem descriminação". Já o time rival, Irã, promoveu outro protesto. Ao ser executado o hino nacional do país, os jogadores se recusaram a cantar. A recusa é a favor das manifestações que acontecem no país há quase dois meses, devido à morte da jovem Masa Amini de 22 anos, por usar o véu de maneira errada.

A copa dos novos territórios


Quando Joseph Blatter declarou que o futebol chegaria a novos territórios, provavelmente ele não imaginava que o esporte levaria na mala diversos assuntos que são extremamente urgentes para a sociedade e que seriam escancarados da maneira que temos acompanhado.


Mais do que nunca está visível que não existe separação entre sociedade e esporte, uma vez que os jogos vão além das quatro linhas desenhadas no campo e trazem consigo o reflexo da sociedade. Mesmo com as imposições e proibições da FIFA, o esporte e os atletas têm encontrado maneiras de expressarem o desejo de maior igualdade e direitos a todos.


Que o mundial mais polêmico dos últimos tempos possa trazer, para as quatro linhas, não apenas belos dribles e jogadas de mestre, mas a promoção da consciência de que somos todos iguais e que os direitos devem alcançar a todos.




Texto escrito por Felipe Bonsanto

Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia.

 

Referências







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