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Combinamos de não morrer e não esmorecer

Atualizado: 9 de abr.

O estudo sobre “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que as populações preta e parda representam 9,1% e 47% da população brasileira, respectivamente, somando 56,1% da população brasileira. Como justificar a naturalização da violência que é o racismo em um país que fecha os olhos para mais da metade da sua população?


Mulher com mão erguida e punho cerrado
Foto: Silvia Izquierdo (Reprodução: El País)

As piadas de Léo Lins sobre a degradação a qual nossos antepassados sofreram não causa dor apenas, causa revolta também. Não por ele considerar aquela fala como piada, mas por ver várias pessoas rirem dela em uma plateia lotada e saber que nem ao menos uma delas se levantou em sinal de protesto.


Em uma analogia, faz recordar que os pelourinhos eram motivos de “descontração” onde os escravizados eram açoitados e causava diversão aos espectadores que se aglomeravam para assistir sua humilhação, degradação e tortura ao ar livre perante todos, assim como acontece hoje, mudam as roupagens mas o modus operandis permanece o mesmo.


Tantos anos de militância ensinam que entre os hostis estarão também alguns pretos, a sociedade racista não se faz apenas de brancos racistas, quando o racismo é estrutural não poderia ser diferente. Nem todo branco é inimigo e nem todo preto estará na luta conosco, é preciso que a sociedade além de não ser racista, seja antirracista, que não tolere, não defenda e denuncie todos aqueles que praticarem casos de racismo.


O racismo é um véu que faz do preto uma pessoa hipervigilante com comportamentos e falas, não apenas dos outros mas as suas também. É algo que faz com que você questione o tempo inteiro sobre as ações aceitas como “normais” como rir do próprio cabelo ou mesmo do formato do seu nariz.


Vini Jr - Jogador de futebol
Vini Jr - Jogador de futebol

Quando um novo caso de racismo ganha notoriedade muitos negros choram - consciente da crueldade que é o racismo - porque o racismo não perdoa nem aqueles que chegaram a elite financeira, como o caso do jorgador Vini Jr, quiçá os que moram longe dos centros urbanos.



O choro vem quando recordações da infância de pessoas pretas vêm à tona, de cuidados que as crianças precisam ter, como por exemplo manter o cabelo de meninos pretos sempre careca ou preso para não serem motivo de chacota na escola, como não andar com um casaco de capuz no frio pois certamente será abordado de maneira truculenta pela polícia ou mesmo confundido com algum foragido do sistema prisional.


O racismo faz com que um homem negro pense em modos de preservar sua vida.


“Já pedi para que minha esposa fosse até a casa da minha mãe comigo de moto por temer ser abordado e ser desrespeitado em abordagens policiais, ou até mesmo agredido e baleado. Pensar nisso me deixava temeroso, pois o racismo nos traz muitas dores e infelizmente continuará trazendo enquanto a sociedade continuar a acompanhar de maneira passiva como faz hoje em dia.”

A reprise eterna da violência


O caso do jogador Vini Jr. doeu em muitos negros, não apenas no jogador que foi revitimizado inúmeras vezes em campo durante todo o torneio. O caso só tomou repercussão quando além de sofrer o ato racista, Vini foi agredido com um mata-leão e expulso de campo. Não o bastante, ao se revoltar com a expulsão e toda a violência que sofreu, houve uma tentativa da La Liga de descredibilizá-lo, ao dizer que a culpa era dele, e que ele havia entendido errado.


Felizmente o jogador não se curvou e manteve um discurso firme pedindo punição aos racistas. O caso de racismo vivido por Vini Jr. foi um pano de fundo para desnudar inúmeras camadas do que é o racismo estrutural. As imprensas espanhola e brasileira entraram em pé de guerra, algo muito incomum quando se fala da classe que costumam se unir e proteger, mas não foram poucas as chamadas de inúmeros veículos de imprensa veiculando a forma desdenhosa com que os espanhóis trataram Vini Jr.


Seria mera coincidência que essa “hostilidade” fosse mirada a um jogador preto e brasileiro?


A violência sofrida pelo jogador também demonstra o quanto ter instituições que combatem e fomentem políticas e ações afirmativas e antirracistas é fundamental para travar essa luta. O envolvimento do Ministério da Igualdade Racial e do Governo Brasileiro junto ao Governo da Espanha ajudou para que inclusive a ONU se pronunciasse sobre o caso e cobrasse medidas. A repulsa de parte da sociedade surtiu efeito, alguns torcedores foram presos e o Presidente da La Liga, o mesmo que no primeiro momento acusou Vini Jr., se desculpou de modo cínico.


Esse desfecho, nós pretos conhecemos bem, centenas de racistas quando pegos ora costumam alegar problemas mentais, ora se desculpam em seus roteiros infames que geralmente começam apelando a laços com pessoas pretas. Não raro em meio a esses discursos constam trechos como “meu amigo é preto”, “minha empregada é preta” ou o famigerado “quem me conhece sabe”.


O caso de Vini Jr. nos faz imaginar os inúmeros pretos que assim como o jogador, são desacreditados, agredidos e ainda precisam provar que sofreram um crime.



É triste, indigesto, chocante e demonstra o quanto muitos racistas conservam seus privilégios. Afinal a sua palavra vale mais do que a do negro que sofreu com preconceito. A dor que Vini Jr. vem sentindo não é só dele, dói em muitos negros.


Sofremos com ele e sabemos o que é sentir diariamente que você não é bem aceito em alguns espaços e visto como estranho ou intruso. Faz lembrar o verso escrito pelo genial Emicida na sua canção Ismália:


“quis chegar ao céu e terminou no chão” em alusão a ascensão da camada pobre e preta em outras classes."

A “demonização”da fé afrodiaspórica


O pensamento de extermínio de tudo que não se adeque a herança europeia não é apenas uma coincidência no Brasil. De tempos em tempos há representantes eugenistas para nos relembrar de que tudo que não seja o tripé do branco-cristão-heteronormativo representa uma tentativa de “sujar” nosso país.


Foto: Arquivo pessoal Katiane Bispo

É uma tentativa (por vezes maquiada) de padronizar o que é aceito ou não é para nossa sociedade. O que é aceitável dentro da ótica colonial e moralizadora cristã do que os portugueses deixaram para nós, um projeto de país em que milhares de nativos foram exterminados pelo colonizador, a liderança no ranking do país que mais mata gays no mundo, no país em que mais de 30 lideranças quilombolas foram mortas na última década, no mesmo país em que casas de cultos de matriz africana são incendiadas. Tem um porquê, tem um motivo: é um projeto.

A morte de mãe Bernardete não é um fato isolado, seu filho Binho do Quilombo foi assassinado em 2017 pelo mesmo motivo. Os quilombos, espaço de resistência negra e de manifestação das suas tradições culturais.


Os quilombos não incomodam apenas os grandes latifundiários, mais conhecidos como “coronéis” dos mais distintos rincões do Brasil, eles são a representação contrária a todo pensamento enviesado pela lógica mercantilista de uso da terra e do lucro do agronegócio. O ex-presidente Jair Bolsonaro, reconhecidamente uma figura da nova extrema-direita brasileira que conseguiu alcançar quase 58 milhões de votos brasileiros no segundo turno das eleições de 2022, nunca fez questão de esconder suas falas racistas e preconceituosas contra os quilombos e sua população


Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem pra procriador ele serve mais”.

Bolsonaro, o projeto fascistóide mais bem-sucedido do Brasil após o fim da Ditadura Militar (1964-1985), não é o único que vê na tradição, vestes e cultura negra motivo para piada, lembra do Léo Lins citado no começo deste artigo? Pois bem, nada está “solto” quando falamos de racismo estrutural. Nada.


A carne mais barata do mercado é a carne negra


O Mapa da Violência de Waiselfisz (2012), reportado pelo Portal Geledés, nos reforça a epidemia de mortes de jovens, pretos e periféricos.


Foto: Arquivo pessoal Katiane Bispo

O estudo demonstra que:


A proporção de homicídios de jovens, desde 2002, sempre teve o conjunto de negros como o grupo mais vitimado” e não só isso “o que chama a atenção contudo, é que a discrepância entre brancos e negros tem crescido. Apesar de negros/as comporem pouco mais da metade da população brasileira, eles estão super-representados naquele quesito, sendo aproximadamente 75% dos casos de homicídio. Isso se deu por dois processos concomitantes: de 2002 para cá, caiu em 33% o número de homicídios de jovens brancos, ao passo que cresceu em 23,4% o número de homicídio de jovens negros


O estudo também traz outro fator que merece destaque e traz ainda mais urgência para ação do poder público que é a idade da vítima dos homicídios:


Tanto entre brancos quanto entre negros, a violência homicida se avoluma na faixa etária dos 20/21 anos de idade. Enquanto a taxa de homicídio de brancos cresce, no intervalo dos 12 aos 21 anos de idade, 29 vezes, com a população negra o crescimento é de 46 vezes: para cada 100 mil habitantes, morrem 2,0 negros de 12 anos de idade, contra 89,6 negros de 21 anos”


Isso nos mostra que a morte de Douglas Martins, Ágatha Félix, Thiago Flausino, João Pedro Mattos, Kauã, Alice, Emilly e Rebecca e tantos outros jovens negros moradores de comunidades no Rio de Janeiro não são fatos isolados.


Ações afirmativas, reparação e letramento racial


Há uma dívida histórica com a população negra, que teve seus direitos excluídos, foram explorados, humilhados, torturados, estuprados, subjugados por mais 300 anos e quando enfim teve sua liberdade precisou começar sem nada. Entrou em uma “corrida”, com a largada já queimada, onde ser negro e ex-excravizado era motivo suficiente para receber um tratamento inferior, como foi por séculos.


Foto: Arquivo pessoal Katiane Bispo

O problema nunca foi a divisão da terra, pois os brancos da comunidade europeia que chegaram ao Brasil para substituir a mão de obra dos africanos receberam um punhado dela como forma de incentivar a sua chegada e “clarear” o Brasil. Afinal, o que fazer com tantos negros se eles não serviam para mais nada? Esse pensamento permeia ainda hoje no inconsciente coletivo.


Não é incomum os descendentes de italianos, portugueses e alemães afirmarem com orgulho da história dos seus avós e bisavós até mesmo com o racismo (nem sempre oculto) na sua ascendência europeia.


Quanto a nós que descendemos de escravizados, não mora apenas a revolta em saber das atrocidades em que eles viveram, do abandono cristão em afirmar que eles “não tinham alma” e que eram animais (e que continuam ainda hoje a animalizar as religiões que de lá eles trouxeram) mas também pelo apagamento da nossa história.


Quem eram eles? De que região vieram? Quais as histórias não-contadas que estamos perdendo? Já dizia Conceição Evaristo:


“Combinaram de nos matar. Mas nós combinamos de não morrer”

E isso não é apenas sobre o fim da vida, é sobre morrer com a nossa história, nossa cultura e nossa população preta.


O letramento racial não deveria ser apenas uma opção para os “descontruídos”, conhecer a história da escravidão nos conta como ela e o pensamento de superioridade do homem branco e dos traços europeus estão tão entranhados na nossa história. Esse assunto não deveria ser para depois. É um assunto para agora, e envolve vários atores nessa discussão pois o racismo é um problema do branco, que marginaliza, violenta e humilha as pessoas pela cor da sua pele e por apresentarem traços diferentes dos seus.


Texto escrito por:

Katiane Bispo

É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista




Ivo Mendes

É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia.



Revisão por Eliane Gomes

Edição por Felipe Bonsanto


 




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