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Elis Regina e a breve finitude da existência

Cristalizar a imagem, por meio de foto ou vídeo, de alguém que partiu foi uma forma de manter viva a memória de uma pessoa querida. Mas, e se pudéssemos trazê-la à vida para uma última aparição?


Vídeo que mostra Elis Regina, recriada com uso de IA e Maria Rita, conduzindo um veículo da Volkswagen. Foto: Reprodução/Volkswagen
Vídeo que mostra Elis Regina, recriada com uso de IA e Maria Rita, conduzindo um veículo da Volkswagen. Foto: Reprodução/Volkswagen

Elis Regina reaparece, décadas após sua morte, num dueto emocionante com sua filha, Maria Rita, ao volante de um modelo de carro extremamente emblemático, conectando passado e presente.


O simpático personagem Chaves reaparece em uma peça publicitária, ressuscitando o falecido comediante Roberto Bolaños. Ele, o personagem, contracena com o ator Eugenio Derbez, fazendo uma homenagem à cultura mexicana e latina.


Os dois casos que menciono aqui são apenas alguns dos mais emblemáticos envolvendo o retorno de artistas falecidos para o público, por meio da inteligência artificial.


A ressurreição de pessoas através da Inteligência Artificial (IA), sem o seu consentimento, é um tema complexo e ético, que levanta várias questões importantes.


Sobre conforto e alento


A ideia de usar a IA, para trazer de volta pessoas queridas que já partiram, pode oferecer conforto e alento para aqueles que estão de luto.


Imaginar que poderíamos interagir novamente com entes queridos que faleceram, mesmo que em uma forma digital, pode ser uma fonte de consolo para muitas pessoas que enfrentam a dor da perda. Além disso, a possibilidade de ressurreição virtual pode ser vista como uma forma de preservar a memória e o legado de pessoas notáveis ​​ou influentes da história, permitindo que suas ideias e conhecimentos continuem a ser compartilhados e aprendidos por gerações futuras.


No entanto, por mais tentador que possa parecer, isso levanta questões éticas e filosóficas profundas. Uma das preocupações mais óbvias é o respeito à privacidade e à autonomia dos indivíduos falecidos. Se essas pessoas não deixaram registros explícitos de que desejavam ser revividas digitalmente, a ação de fazê-lo pode ser interpretada como uma violação de sua identidade e vontade.


Recentemente, Madonna, uma das mais influentes e importantes cantoras da música pop mundial, manifestou sua opção de não ter sua imagem revivida em qualquer formato. Após passar por um processo infeccioso, que a levou para a UTI, a intérprete de sucessos como “Like a prayer”, “Material girls” e “La isla bonita”, resolveu mudar seu testamento e proibiu quaisquer tentativas de que sua imagem fosse ressuscitada digitalmente.


Madonna em uma apresentação na Alemanha. Foto: Getty Images, Cassy Athena
Madonna em uma apresentação na Alemanha. Foto: Getty Images, Cassy Athena

Além disso, a própria noção de reviver alguém através da IA pode ser percebida como uma forma de negar a mortalidade e a importância do ciclo natural da vida.


A mortalidade é um aspecto intrínseco da condição humana. Nascemos, vivemos e inevitavelmente morremos. Essa impermanência da vida é o que confere significado, urgência e beleza à nossa existência. No entanto, com o avanço da tecnologia, a inteligência artificial tem apresentado a perspectiva de contornar os limites da mortalidade humana, e é fundamental refletirmos sobre a necessidade de respeitar esse aspecto natural da vida.


Uma história da mortalidade


A compreensão da mortalidade tem sido um elemento central em diversas culturas e filosofias ao longo da história da humanidade.


No Egito Antigo, a partir do Livro dos Mortos, havia a compreensão de que o ser humano era composto por diversos elementos, materiais e imateriais, mortais e imortais.

Dentre eles, o ka (força vital que acompanha a pessoa por toda a vida) e o ba (um princípio de movimento, que faz o indivíduo se manifestar) acompanhavam o defunto para o Duat (o além), momento em que o Tribunal de Osíris faria seu julgamento: o coração do morto era pesado tendo do outro lado uma pena da deusa da justiça, Maat.


Livro dos Mortos (cujo nome original, em egípcio antigo, era Livro de Sair Para a Luz) é a designação dada a uma coletânea de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias do Antigo Egito, escritos em rolos de papiro e colocados nos túmulos junto das múmias. Foto: Arcanoteca Blog
Livro dos Mortos (cujo nome original, em egípcio antigo, era Livro de Sair Para a Luz) é a designação dada a uma coletânea de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias do Antigo Egito, escritos em rolos de papiro e colocados nos túmulos junto das múmias. Foto: Arcanoteca Blog

Se o coração pesasse menos do que a pena, o defunto teria acesso ao Duat no Reino de Osíris, a vida após a morte.


Nas tradições orientais, que recorrentemente chamamos de Hinduísmo, a essência vital do ser humano tem um caráter imortal, retornando de tempos em tempos ao mundo físico, mediante uma série de reencarnações, condicionadas a conduta do indivíduo na vida anterior.


Saindo da matriz religiosa e indo para a filosófica, Platão legou ao pensamento ocidental a perspectiva do Mundo das Ideias: a princípio, todas as coisas existem, de maneira perfeita, num local imaterial e puro. Ali estaria nossa alma (psiche), que não morreria, por ser a existência humana cíclica, composta por várias mortes e renascimentos.


Em “A República”, no livro X, Platão conta o “Mito de Er”, a história de um camponês que vai ao Hades após sua morte e contempla as almas em seu estado puro. Aquelas que se destinavam a retornar à vida eram forçadas a beber das águas do Rio Lethe (esquecimento).


A finitude como orientação


A consciência de que nossa existência é finita impulsiona-nos a atribuir valor ao tempo que temos e a buscar significado em nossas ações. A apreensão da morte também estimula a criatividade, a inovação e o desejo de deixar um legado positivo no mundo enquanto estamos aqui.


Criar uma cópia digital de alguém pode levar a dilemas sobre o que realmente define uma pessoa: sua consciência, suas experiências vividas ou apenas uma coleção de dados e informações?


Essas questões têm implicações profundas em relação à nossa compreensão de nós mesmos como seres humanos.



Texto escrito por Pablo Michel Magalhães

Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021).



Revisão por Felipe Bonsanto

Edição por Eliézer Fernandes

 


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