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O último samba de Elza e Mané

Atualizado: há 4 dias


Elza Soares e Garrincha, ícones brasileiros, viveram um amor intenso e controverso nos anos 60. Entre a música e o futebol, enfrentaram perseguições e desafios pessoais. Sua história é um retrato de paixão, luta e resistência em tempos difíceis, capturando o coração do Brasil.



Quando ele tinha a bola nos pés, o povo brasileiro vibrava. Quando ela segurava o microfone, suas canções emocionavam a plateia, ora com a suavidade de sua voz, ora com tons arranhados típicos do Jazz.


Eles não eram uma dupla musical, nem um par de ataque de um time. Elza e Mané, amantes, namorados, marido e mulher, formaram um casal improvável em uma sociedade que rejeitava sua união. Durante os anos que caminharam juntos, enfrentaram altos e baixos, passando por uma Ditadura que quase os destruiu até momentos de perdas irreparáveis.


A história deste par, gigantes da cultura brasileira, é narrada na série "Elza e Mané - Amor em Linhas Tortas", disponível no Globoplay. Seus episódios revelam a relação entre a cantora e o jogador, entrelaçando temas e momentos cruciais da história do Brasil.


Divulgação - GLOBOPLAY - Elza e Mané - Amor em linhas tortas

Primeiro acorde


Elza e Mané se encontraram pela primeira vez durante a preparação para a Copa do Mundo de 1962. Elza, convidada a cantar para a seleção brasileira, foi recebida por Garrincha, que ofereceu seu quarto para que ela se arrumasse.


Quem estava presente já sentia uma química entre eles. Nesse encontro icônico, Mané prometeu a Elza a vitória na Copa.


A conquista mundial veio, assim como a aproximação entre a cantora e o craque, que brilhou na competição em uma época em que Pelé, lesionado, não pôde jogar, deixando espaço para o destaque do anjo de pernas tortas.


No entanto, havia um importante e significativo impeditivo para a aproximação do jogador e da cantora. Garrincha era casado, com seis filhas, e vivia com sua esposa em Pau Grande, Magé, no interior do Rio de Janeiro. Qualquer envolvimento com Elza seria um escândalo aos olhos da sociedade.


As ausências de Garrincha nos treinos do Botafogo começaram a levantar suspeitas. Onde estava Mané?



A resposta era simples. Após uma breve investigação de jornalistas amigos do jogador, descobriu-se que ele estava na casa de Elza, na Urca.


Durante esse período, ele nem sequer voltou para sua própria casa. Os jornalistas documentaram seu retorno a Pau Grande, capturando desde a silhueta de Elza até Garrincha com suas filhas, retornando ao lar.


Logo, as manchetes dos principais jornais cariocas estampavam o caso do jogador com a cantora.


Sobe o tom no refrão


A relação enfrentou muitos desafios, sendo o alcoolismo um dos maiores. Garrincha, apreciador de cachaça com groselha, era frequentemente visto bebendo em diversas bodegas da região, enquanto sua forma física deteriorava, especialmente seu joelho, tratado com injeções para aliviar as dores.


Simultaneamente, Elza Soares ganhava reconhecimento musical e sustentava a casa, apesar das acusações de que ela teria destruído a carreira de Garrincha.



A ascensão de Elza foi interrompida pelo golpe militar de 1964. Hostilizados, e com a casa metralhada, o casal buscou exílio na Itália em 1970, onde se aproximaram de Chico Buarque e Marieta Severo, tornando-se grandes amigos.


Elza conquistou os palcos europeus, enquanto a carreira de Garrincha afundava cada vez mais.


Desde que deixou o Botafogo, Mané nunca mais exibiu o futebol brilhante que encantou os estádios do mundo. Todos os entrevistados no documentário (Juca Kfouri, José Trajano, Zeca Camargo, e ex-companheiros de futebol, como Gérson) concordam que Mané não se ajudava.


Os relatos daqueles que conviveram com ele giram em torno de um ponto: Garrincha, bêbado, fingindo jogar enquanto caía pelo gramado. Um fim melancólico para sua carreira.



Elza aguentou até onde pôde. Quando ela partiu, Mané rapidamente encontrou outra pessoa, sem talvez jamais preencher o vazio que ela deixou.


Estrofe final


Passando por derrocadas e redenção, Elza Soares reinventou-se como cantora e produtora cultural. Do samba ao eletrônico das periferias, emergiu nos anos 2000 como a mulher do milênio, eleita pela BBC, integrando um seleto grupo de artistas mulheres ao redor do mundo.


Nesse momento, sua carreira tomou novos rumos com trabalhos autorais marcados pelo posicionamento antirracista e pela afirmação como rainha da música popular brasileira.


Sua passagem pela Terra terminou em janeiro de 2022, mas sua trajetória de superação inspirou muitas pessoas.


As linhas tortas que uniram e separaram Elza e Mané escreveram a história de um encontro entre dois gigantes da cultura popular brasileira. A série da Globoplay capta com sensibilidade essa história de amor.

Texto escrito por Pablo Michel Magalhães

Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021).




Revisão por Eliane Gomes

Edição por Felipe Bonsanto


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