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O declínio dos EUA e a ascensão da China

Nas Relações Internacionais alguns conceitos são bastante difundidos, como o da polaridade e o da balança de poder.


Tabuleiro de xadrez - EUA x China
Tabuleiro de xadrez - EUA x China

Resumidamente, a balança de poder mostra como o mundo se organiza durante as disputas entre países pelo poder.


Por vezes, eles podem se alinhar em blocos menores para tentar resistir à influência de potências maiores ou assumir uma posição de aliança e “reboque” com uma das potências maiores.


Já o conceito de polaridade serve para explicar de que forma ocorre essa distribuição de poderes e potências.


Um exemplo bastante eficaz deste conceito é a análise feita durante a Guerra Fria, com duas potências bem definidas e opostas (Estados Unidos e União Soviética) que exerciam influência e atração nos demais países. Por meio disso, dizia-se que ocorria uma divisão do mundo entre dois polos, uma bipolaridade.

Com o final da União Soviética e a diminuição do poder de um desses polos, passou-se a uma situação descrita como unipolaridade, tendo os EUA como superpotência dominante capaz de exercer sua influência em uma nova escala durante os anos 1990.


Entretanto, na virada do século XXI outros países ganharam destaque por seus atributos, normalmente ligados ao campo econômico ou populacional. China, Índia e a União Europeia fortalecida passaram também a exercer seu poder de influenciar outros países e trouxeram uma nova configuração para a balança de poder global.


Ao invés da unipolaridade, passa-se para uma situação que alguns acadêmicos descreveram como uma uni-multipolaridade. Vale lembrar, nesse sentido, que os EUA ainda continuavam como a principal potência, mas era notório o aparecimento de novas potências com menor poder, ocupando um outro patamar.


Clivagens entre potências


A discussão de qual seria a próxima potência que disputaria em escala global com os EUA já passou por diversos momentos distintos, como, por exemplo, quando a União Europeia adotou uma moeda única de fato e discutia-se a preponderância do dólar como reserva de valor e meio de troca global.


Na virada para o século XXI um outro “desafiante” continuava sua longa caminhada e ascensão no cenário internacional: a China. Esta combinava o peso geográfico de ser a maior população com o constante crescimento, e acima da média global, de sua economia. Sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) e projeções apontavam a possibilidade de o produto interno bruto chinês ultrapassar o estadunidense em algum momento no futuro não tão distante.

Dólar X Yuan
Dólar X Yuan

Parte da estratégia chinesa passava por validar suas posições e ocupar novos espaços como um importante player global.


Essa estratégia, em parte, estava ligada à presença chinesa no financiamento de grandes obras e ao fluxo comercial global, de modo que serviram como catalisadores no processo de crescimento do poder chinês.


Para tanto, tornou-se comum fazer referência à presença de empresas e até mesmo de mão de obra chinesa em grandes obras no continente africano, oferecendo recursos e aprofundando o nível de relacionamento com esses governos. Um dos projetos mais ambiciosos, nesse sentido, é o Belts and Roads ligando a diversos países no hemisfério oriental e que se expande cada vez mais em seu escopo.


Ao mesmo tempo, a China tornou-se o principal parceiro comercial de diversos países nos últimos anos.

Parcerias China X EUA: Fonte: The economist
Parcerias China X EUA: Fonte: The economist

Essas novas parcerias fizeram com que muitos países adequassem suas estratégias visando não comprometer o acesso ao gigantesco mercado chinês.


Ainda cabe apontar o papel do governo chinês em investir pesadamente em educação, pesquisa e desenvolvimento, passando de um país que fabricava bens de baixo valor agregado em grande escala para um capaz de desenvolver novas tecnologias e participar na parte mais avançada da cadeia global de valor.


Joseph Nye Jr, importante acadêmico das Relações Internacionais, apontava que a China buscava um caminho suave de ascensão, sem uma confrontação direta com as potências já estabelecidas, seja por meio de seu soft power ou por ocupar espaços que haviam sido deixados de lado, ainda que momentaneamente, pelas potências ocidentais. Essa estratégia parecia caminhar sem muitas surpresas até a questão do “Mar do Sul da China”.


Essa importante área, disputada por diversos países da região, acabou tornando-se um importante ponto de clivagem com os EUA. Os chineses reivindicavam o controle da região e passaram a construir ilhas artificiais e estruturas para efetivamente ocupar a região e estender seu território. Pequenos incidentes entre embarcações chinesas e estadunidenses ocorriam com maior frequência e por algum tempo a tensão foi crescente a ponto de despertar o medo de um conflito mais aberto que poderia acontecer.


Além dessa disputa mais geográfica, a competição passou a ocorrer em outras áreas, como a tecnológica. O avanço da internet e o novo padrão de navegação conhecido como 5G explicitou a diferença de propostas para a infraestrutura necessária para seu funcionamento.


Dada a sua natureza, aqueles que optassem pela abertura ao fornecimento desta por empresas chinesas estariam potencialmente separados de redes construídas pelos EUA ou Europa.


Ainda nessa disputa havia a constante preocupação e denuncia que a tecnologia chinesa permitiria a espionagem e a coleta de todo tipo de informação sensível por parte do governo chinês, ou seja, era uma tentativa de dissuadir os países de abrirem suas licitações e mercados para as empresas de alta tecnologia chinesa na instalação da infraestrutura necessária para o 5G.


Essa escalada das clivagens entre a China e os Estados Unidos parece ter atingido seu ápice com a chamada “Guerra Comercial” durante o governo de Donald Trump. A balança comercial dos EUA com a China apresentava um déficit na casa dos US$ 400 bilhões, fazendo com que o governo de Trump denunciasse práticas ilegais do governo chines, como subsídios.


A resposta da Casa Branca foi a imposição de tarifas alfandegárias em centenas de produtos vindos do país asiático, inclusive do aço. A resposta chinesa foi a adoção de tarifas em produtos variados, de matéria prima a bens de luxo.


Os reflexos dessa disputa foram imediatos e espalhados pelo mundo, aumentando tanto o pessimismo quanto a diminuição do comércio global. Com isso, os índices de bolsas espalhados pelo mundo também apresentaram quedas e ainda nem sabíamos o que estaria pela frente em 2020 com a pandemia.


Voltando a questões de segurança regional, a China investe cada vez mais no seu orçamento militar e de defesa, desenvolvendo novas tecnologias e aumentando seu arsenal.


Nesse sentido, passou a ser uma fiadora importante dos processos de paz na região, pois detém força e capacidade para garantir que os acordos sejam cumpridos. Quando não age dentro desse papel de fiadora, a China tem buscado também mostrar sua capacidade de mediação dos conflitos, oferecendo planos e meios de negociação para o conflito decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia.


No oriente médio, espécie de palco de atuação necessário para qualquer grande potência, a China ajudou a costurar a retomada de relações diplomáticas entre Arabia Saudita e Irã, rompidas 7 anos antes com o assassinato de Nimr al Nimr e as depredações da embaixada saudita em Teerã pela enfurecida população iraniana.


No plano financeiro, uma iniciativa chinesa que tem atraído mais adesões é a utilização de moedas locais nas trocas comerciais com outros países ao invés do dólar americano.



As razões para essa iniciativa são diversas, desde a falta de acesso a reservas cambiais, a imposição de sanções econômicas e até a proteção contra flutuações cambiais decorrentes da política de juros dos EUA.


As consequências dessa nova forma de fazer comércio são a efetiva perda de força do dólar ao longo do tempo e o enfraquecimento das sanções unilaterais, uma vez que países alvos das mesmas não dependem de dólares para continuar fazendo comércio.


Também ocorre o fortalecimento dos BRICS e a criação de um Novo Banco de Desenvolvimento com uma estrutura de financiamento bastante robusta e alternativa aos bancos já existentes e alinhados com EUA ou países europeus.


O número de países que passaram a demonstrar interesse em fazer parte da iniciativa dos BRICS tem crescido nos últimos anos e, em 2023, 19 países demonstraram interesse em participar.




Para concluir, cabe salientar que as estratégias adotadas pela China e as correções de curso ao longo dos anos tornaram a análise política internacional sobre a polaridade e a potência um assunto cada vez mais importante e obras, como “A Ascensão e Queda de Grandes Potências" de Paul Kennedy, voltaram a ser referência para novas análises e ajudam a definir se de fato viveremos mais uma mudança drástica na balança de poder e um redesenho da polaridade.


Texto escrito por João Guilherme Grecco

Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia.



Revisão por: Mateus Santana

Edição por: Felipe Bonsanto

 

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