O Sul Global: A cooperação como caminho para o desenvolvimento
- Katiane Bispo

- 9 de abr.
- 5 min de leitura
Os ventos do Norte não movem moinhos, já cantou o nosso ilustre Ney Matogrosso. Ainda assim, esses ventos insistem em soprar em nossa direção, trazendo consigo velhos projetos de dominação e exploração.

Na geografia do mundo, é a Linha do Equador que corta a Terra em dois sopros: acima, o Norte; abaixo, o Sul. Talvez uma premonição, indicando que o planeta carrega em si um eixo de equilíbrio, capaz de dividir não apenas espaços, mas também destinos.
Quando os ventos do Norte empurraram as caravelas rumo ao Sul, elas não navegaram sozinhas: trouxeram consigo destinos marcados pela morte, pela colonização e pelo saque das riquezas e dos povos que aqui viviam. Sob o pretexto do tempero raro ou do brilho das pedras preciosas, desenhou-se um rastro de ambição que tudo devora - e que, de certo modo, ainda persiste. E, em poucas palavras, Thomas Hobbes parece condensar séculos de violência em sua célebre citação: 'o homem é o lobo do homem'.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo voltou a se dividir - não mais por mares, ventos ou linhas imaginárias, e sim por ideologias.
De um lado, o bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos, que defendia o livre mercado e um Estado mínimo, quase ausente da regulação econômica, entregando às empresas o ritmo e a direção da produção e da riqueza.
Do outro, a União Soviética (URSS), que apostava em uma economia planificada, sustentada por um Estado forte, central e ativo na organização da vida econômica, com a promessa de uma distribuição mais igualitária dos recursos entre os cidadãos.

Eram dois mundos que se encaravam sobre as ruínas de uma Europa exaurida, marcada pelos anos de devastação, violência e opressão, mas também movida por uma intensa vontade de reconstrução.
A União Soviética emergia fortalecida, coroada pela derrota do nazismo em seu próprio território, enquanto seus povos viviam o fervor da utopia de Karl Marx e Vladimir Lenin, acreditando na construção de uma grande nação comunista.
Do outro lado, os Estados Unidos consolidavam sua liderança sobre o mundo capitalista, projetando poder e influência em escala global.

Mas, nessa divisão aparentemente total, havia um silêncio: um espaço que não se encaixava em nenhum dos dois lados.
Era o mundo dos países à margem dessas disputas, carregando heranças coloniais e desigualdades profundas - o chamado Terceiro Mundo.
Naquele cenário, os países pobres permaneciam em um processo tardio de industrialização, tentando encontrar seu lugar em meio às tensões entre capitalismo e socialismo.
O Terceiro Mundo foi uma expressão amplamente utilizada durante a Guerra Fria para designar as nações que não se alinhavam nem ao bloco capitalista (o chamado Primeiro Mundo) nem ao bloco socialista (o Segundo Mundo).
Em sua maioria, eram países da África, Ásia e América Latina, muitos deles recém independentes, que carregavam as marcas profundas da exploração colonial. Entre tensões internas e desafios estruturais, buscavam se desenvolver e projetar-se no cenário internacional.

Ainda que a ideia de um possível terceiro bloco sugerisse uma posição de autonomia, essa neutralidade nunca foi absoluta.
Na prática, essas nações estiveram frequentemente sob a influência - direta ou indireta - de ambos os blocos, sendo disputadas em seus territórios, economias e projetos políticos.
Mesmo assim, mantinham, ao menos em tese, uma distância ideológica que as colocava nessa frágil e condicional ideia de neutralidade: nem totalmente alinhadas, nem plenamente livres das forças que dividiam o mundo.
A origem do termo 'Sul Global'
Com o fim da União Soviética, na década de 1990, o mundo bipolar chegou ao fim. Após quase meio século de disputas, o eixo capitalista ampliou sua influência em escala global, enquanto diversas nações continuavam em busca de seus próprios caminhos de desenvolvimento. Nesse novo cenário, o termo 'Terceiro Mundo' foi gradualmente substituído por 'países em desenvolvimento', em uma tentativa de atualizar a forma de nomear essas realidades.

Ainda assim, essa nova classificação revelou seus limites. Ao priorizar indicadores econômicos e sociais, deixava em segundo plano um aspecto fundamental: o ponto de partida dessas nações. Falar apenas em desenvolvimento não era suficiente para definir suas identidades, pois desconsiderava trajetórias históricas marcadas pela colonização e por desigualdades estruturais profundas.
Foi assim que um termo menos restrito ao campo econômico ganhou espaço: 'Sul Global'. Mais do que uma simples classificação, tratava-se de um conceito geopolítico, que evocava um espaço de articulação, resistência e construção de estratégias comuns diante das desigualdades históricas do sistema internacional marcado pela oposição Norte versus Sul.
A expressão foi utilizada pela primeira vez em 1969 pelo ativista político estadunidense Carl Oglesby, em um artigo publicado na revista Commonwealth, no qual interpretava a Guerra do Vietnã como uma manifestação da dominação do Norte sobre o Sul Global.
Hoje, o termo abrange cerca de 150 países, o que corresponde a aproximadamente três quartos das nações do mundo.
Mais do que uma posição no mapa, o Sul Global se configura como uma construção política, na qual países como China e Rússia - embora situados acima da Linha do Equador - também se inserem por afinidades históricas e estratégicas, e não por sua localização geográfica.
Por isso, apesar de suas realidades diversas, esses países compartilham marcas profundas: o passado colonial, desigualdades sociais persistentes, baixos níveis de escolarização, entre outros desafios socioeconômicos.
É justamente nessa convergência de experiências que o Sul Global ganha força no cenário internacional, afirmando-se como um conceito mais amplo e significativo.
Longe de qualquer idealização, não se trata de ignorar as assimetrias que ainda existem entre estes países, mas de reconhecer a importância das experiências compartilhadas e dos desafios comuns para a cooperação entre eles.
A cooperação Sul-Sul surgiu como uma alternativa para romper com lógicas históricas de subordinação: promove relações mais horizontais na dinâmica de poder, fortalece o intercâmbio de tecnologia e incentiva a transferência de conhecimento, permitindo que esse países pensem em conjunto soluções para desafios comuns.
Se no passado os ventos do Norte determinaram rotas e destinos, hoje é tempo de o Sul Global traçar seus próprios caminhos, com alianças mais equilibradas e menos predatórias.
Porque, quando o Sul coopera, não apenas avança em seu desenvolvimento: redefine seu lugar no mundo e amplia sua relevância no tabuleiro global.
Texto escrito por
Katiane Bispo, é feminista, formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Já atuou em inúmeros projetos de defesa aos Direitos Humanos, Gênero e Educação. Uma curiosa por essência e teimosa por sobrevivência. É podcaster no programa "O Historiante", colunista no Portal Águia.
Instagram: @uma_internacionalista
Revisão por Eliane Gomes
Edição por Eliézer Fernandes
Referências
https://www.gov.br/g20/pt-br/noticias/pod20-brasil/pod20-brasil-17-sul-global - Sul Global - Acessado em 01.04.26
https://conceito.de/terceiro-mundo - Terceiro Mundo - Acessado em 31.03.26




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