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Revisionismo histórico nas artes: reparação histórica ou apagamento?

Podemos dizer que, de maneira lenta, a sociedade tem vivido um movimento progressista. Esse movimento evolutivo tem ocorrido graças a diversos fatores, como os movimentos sociais, que vem reivindicando e lutando por seus direitos, o acesso à informação e, entre eles, a arte. Sabemos que ela tem um papel fundamental de nos questionar e nos incomodar, provocando debates sobre o normal e o ordinário. Mas o que acontece quando a arte vem carregada de preconceitos e julgamento?


Apesar do sucesso da animação "Pocahontas", o clássico da Disney pouco tem a ver com a história real da indígena nativo-americana, e realça vários preconceitos sobre os povos originários da América do Norte.
Apesar do sucesso da animação "Pocahontas", o clássico da Disney pouco tem a ver com a história real da indígena nativo-americana, e realça vários preconceitos sobre os povos originários da América do Norte.

A expressão artística traz consigo um recorte da sociedade em que ela está inserida. Não é possível que em uma obra de arte a carga histórica, social e cultural seja desvinculada de seu artista. O que é produzido pelo artista, quer ele queira ou não, trará na obra reflexos daquele momento social.


Nossos pais e avós pularam vários carnavais e nós também ainda pulamos cantando "o teu cabelo não nega mulata", de Lamertine Barros e os irmãos Valença, e brincamos entre amigos cantando "olha a cabeleira do Zezé, será que ele é?".


Diversas vezes, durante a década de 1990, demos risadas assistindo à Escolinha do professor Raimundo com o personagem Costinha, vivido por Lírio Mario da Costa, fazendo piadas machistas e homofóbicas. E como não se lembrar também com saudades do monstro da comunicação, Jô Soares, fazendo suas piadas gordofóbicas no extinto Viva o gordo, na TV Globo, no final da década de 80.

Além disso, também apreciamos em diversas outras formas, obras carregadas de preconceito e ofensas em livros, músicas, peças de teatro e exposições de artes.


O nosso amor é a base de açúcar, afeto e machismo


Aos trancos e barrancos, o progressismo tem alcançado cada vez mais espaços. Graças aos movimentos sociais e acesso à informação, preconceitos tem sido questionados, expressões tem sido revistas, vozes antes não ouvidas e validadas tem recebido o devido reconhecimento, dando espaço ao diálogo, aos questionamentos a comportamentos antes considerados normais, mas que agora não são mais aceitos.


Chico Buarque anunciou em 2022, que não cantaria mais a canção "Com açúcar e com afeto", escrita por ele em 1967 e eternizada na voz da falecida cantora Nara Leão. Segundo o compositor e cantor, a música, carregada com conteúdo machista, coloca a mulher como submissa e dependente do marido. De acordo com o pronunciamento, a canção não deve ser mais cantada, uma vez que esse comportamento e postura não deve ser mais aceito na sociedade.


Em movimento parecido, a Disney tem editado e colocado na abertura de alguns dos seus desenhos mensagens alertando sobre o contexto da época e que não são mais aceitos.


No texto acima é declarada a seguinte mensagem: "O programa a seguir inclui representações negativas de pessoas ou culturas. Esses estereótipos eram errados na época e são errados hoje. Ao invés de remover este conteúdo, nós admitimos o impacto negativo do mesmo, aprendemos e gostaríamos de provocar um debate para criar um futuro mais inclusivo juntos. A Disney está comprometida em criar histórias com temas inspiradores que refletem a rica diversidade da experiência humana ao redor do globo. Para aprender mais sobre como as as histórias impactaram a sociedade, visite: www.Disney.com/StoriesMatter

Além dos exemplos acima, temos diversos outros que tem sido trazidos para o debate. Ao escrever "Sítio do pica-pau amarelo", Monteiro Lobato expõe em seus textos o racismo presente naquela época, destacado em falas da Emília sobre Tia Nastácia, em um país praticamente recém saído da escravidão.


Atualmente há um movimento onde Tia Nastácia assumiria papel de amiga de infância de Dona Benta e não mais a empregada, tirando de contexto a obra do autor.


Se reunidas, as obras da autora inglesa Agatha Christie, importante escritora policial do século XX, fica atrás apenas que a Bíblia em quantidade de vendas. Porém, mesmo assim, seus livros não estão isentos do preconceito. Em seus romances, a autora usa estereótipos para se referir ao povo egípcio, em A morte no Nilo, de 1937.


O comportamento da escritora reflete a sociedade inglesa da época, com seu comportamento imperialista e colonizador. Há algum tempo, editoras tem realizado o movimento de retirar expressões e citações preconceituosas dos textos da famosa autora.


Revisionismo ou apagamento?


Diversas outras obras tem passado por um movimento parecido. Ao se debruçar sobre elas, conseguimos visualizar através do seu conteúdo a sociedade àquela época. Seus autores estavam inseridos em um determinado contexto e carregados de uma estrutura social, o que era possível perceber em suas obras.


Esse movimento gera alguns questionamentos: Essas obras devem ser revistas, revisadas e atualizadas? Os preconceitos estruturais contidos nelas devem ser excluídos?


O revisionismo literário nas obras de Monteiro Lobato, Agatha Christie e diversos outros artistas é um tanto quanto problemático. Esse movimento faz com que suas obras não reflitam a sociedade em que viveram, seus comportamentos e descolam o artista da sua época, endeusando o artista e descontextualizando suas obras.


Há um grande perigo nesse movimento. O movimento revisionista faz com que a ligação histórica e suas obras fiquem desconexas. É varrer para debaixo do tapete a realidade daquele momento. É apagar e desqualificar lutas e movimentos sociais, temporais as épocas, que permitiram que a sociedade chegasse aos dias atuais e tivesse a oportunidade de realizar questionamentos sobre essas obras.


A saída então seria o movimento de esquecimento desses artistas e suas obras? O caminho seria deixar que fossem produzidas novas edições dos livros, que as músicas fossem retiradas dos streamings e as obras de artes esquecidas em depósitos?


Acredito que também não é o caminho. Apagar e esquecer obras de autores, artistas e compositores que refletiram a sua sociedade. Esquecer o que já foi produzido nos coloca em um caminho perigoso, onde o comportamento social vivido por esses artistas, de alguma forma, tenha a possibilidade de voltar e direitos e espaços conquistados ao longo de duras lutas sejam colocados em risco.


A arte cumprindo seu papel


Chico Buarque, ao decidir não cantar mais "Com açúcar e com afeto", e a Disney ao colocar mensagens alertando sobre expressões que não são mais aceitas, trazem a tona o papel da arte. O de questionar.


Duvido que nunca mais ouviremos nos streamings de música, Nara Leão cantando:

Com açúcar, com afeto Fiz seu doce predileto Pra você parar em casa Qual o quê Com seu terno mais bonito Você sai, não acredito Quando diz que não se atrasa

Afinal, o machismo ainda é algo impregnado nas nossas canções em pleno século XXI. O que dizer de canções de vários estilos musicais que promovem o machismo e a submissão feminina como em versos produzidos em meados dos anos de 2010:

Tá doido que eu vou Fazer propaganda de você Isso não é medo de te perder, amor É pavor!

Por isso, é extremamente importante que, ao invés de apagar ou deletar qualquer tipo de obra, devamos nos debruçar e analisar esses comportamentos, refletindo sobre as estruturas preconceituosas da sociedade, trazendo debates a partir delas, com a devida crítica e respeito a importância de cada uma delas.


Nós ainda vamos assistir Peter Pan e sentir a nostalgia de nossas infâncias, porém, porquê não usar essas e outras obras como ferramentas de discussão?


Porque professores não poderiam usar textos de Agatha Christie para contextualizar o imperialismo inglês nas salas de aula? Utilizar textos de Monteiro Lobato e apresentar como o racismo estrutural está enraizado em nossa sociedade?


A opinião desse colunista é que essas e outras obras devem ser usadas como referências de um tempo onde esses comportamentos foram aceitos, porém não cabem mais para a sociedade atual e para o futuro.


A arte tem cumprido seu papel, o de nós questionar e nos incomodar. É necessário, a partir da nossa sociedade atual, que sejam produzidas novas obras, com novos conceitos, reflexo do progresso que tanto é pregado. É importante que daqui há 50, 70 anos, se verifique a evolução que tanto é sinalizada.


Devemos sim, nos debruçar sobre essas obras, nos questionar como sociedade e realizar à luz do que foi construído e fazer as devidas críticas sobre elas é o que ela espera de nós.



Texto escrito por Felipe Bonsanto

Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia.


Revisão: Mateus Santana

Edição: Eliézer Fernandes

 

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