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- Persépolis e a revolta das mulheres iranianas
“A revolução despertou [o Irã] de um longo sono de 2500 anos: primeiro, nossos próprios imperadores; depois, a invasão árabe pelo Oeste; em seguida, a invasão mongol pelo Leste e, por fim, o imperialismo moderno”. O Irã vive uma onda de protestos desde o mês de setembro de 2022, após a prisão e morte da garota curda Mahsa Amini, de 22 anos, pela polícia da moralidade, acusada de usar o véu islâmico de forma inadequada. Para entender melhor a intensidade dos protestos e a coragem das mulheres iranianas de enfrentar o governo dos aiatolás, resgata-se a obra Persépolis, uma História em Quadrinhos (HQ), de Marjane Satrapi. Contexto geopolítico O Irã, localizado na região do Golfo Pérsico, é um país estrategicamente muito relevante na política internacional, por ser um grande produtor de petróleo e por ter uma indústria armamentista expressiva. Alicerçado numa cultura de mais de 3 mil anos, hoje o país é governado com mãos de ferro pelos aiatolás, tendo sua autoridade máxima reconhecida pelo líder supremo Ali Khamenei. Profundamente policialesco, o Estado iraniano conta com vários braços armados, dentre eles está a Guarda Revolucionária do Irã, que responde diretamente ao líder supremo e tem o papel de manter a lei e a ordem. É justamente contra essa força estatal que milhares de manifestantes têm ocupado as ruas de diversas regiões do Irã em protestos contra a perseguição às mulheres, acusando-as de usar inadequadamente o véu islâmico. Essa questão não é nova para a sociedade iraniana, pois, historicamente, a nação viveu momentos de maior abertura em relação aos costumes e ao rigor da aplicação da xaria – Lei Islâmica. Já na atualidade, a sociedade convive com um grande arrefecimento da vigilância e punição aos que não seguem a ortodoxia. Persepolis Nesse viés, em Persépolis, Marjane Satrapi conta parte de sua história pessoal aos seus amigos franceses. Nascida em 1969, Satrapi tinha apenas 10 anos de idade quando a revolução iraniana aconteceu em 1979 que se deu contra o Xá, aliado dos Estados Unidos. Apesar de promover aberturas sociais como o uso de biquini nas praias, a revolução foi se tornando muito impopular ao longo dos anos, de modo que se tornou uma ditadura fundamentalista. A primeira página de Persépolis já traz como título “O véu”, em que a narradora personagem descreve o impacto da revolução nos costumes de uma estudante primária no Irã em 1980 e relata que: Em 1979 aconteceu uma revolução que depois foi chamada de “Revolução Islâmica”. Então veio 1980: o primeiro ano em que o véu se tornou obrigatório nas escolas. A gente não gostava muito de usar o véu, principalmente porque não entendia o motivo; e também porque antes disso, em 1979, a gente estudava numa escola francesa e laica, onde meninos e meninas ficavam juntos, e de repente, em 1980... [a]s escolas bilíngues [tiveram] que fechar as portas. [O professor dizia que] elas [eram] o símbolo do capitalismo mundial, da decadência. [Com isso,] [a] gente se viu de véu e separada dos amigos. E pronto! Essa breve descrição revela a situação estabelecida no Irã após a Revolução Islâmica. A HQ retrata também os protestos que se sucederam contra o que a parcela mais urbana e escolarizada do país entendia como um retrocesso. Esses setores da sociedade confirmam a tese de que não existe corpo social homogêneo, ou seja, a influência ocidental dos tempos do Xá se manteve presente no país. A personagem de Persépolis cresceu em um lar com profundas referências da filosofia ocidental e é retratada lendo Marx e Descartes. Contudo, o regime se impôs com um apoio significativo da população e construiu meios de sufocar as oposições e consolidar o poder em torno de um discurso de radical oposição aos valores ocidentais e de islamização de todos os setores da vida pública e privada de seus cidadãos. Nesse mesmo sentido, a morte da garota curda Mahsa Amini, por usar o véu de forma inadequada, é o estopim de um contexto social mais amplo. Obviamente que a causa dos direitos femininos por si só já seria razão suficiente para uma insurgência nacional, porém a economia iraniana também está bastante desfavorável. Por exemplo, os embargos econômicos impostos pelos Estados Unidos após o fim do acordo nuclear, somados aos efeitos da pandemia de covid-19, impactaram muito negativamente o PIB iraniano, gerando menor capacidade de gastos com políticas sociais e investimentos em setores estratégicos. Com isso, houve aumento de desemprego e piora nas condições de vida. Em razão disso, há uma grande dificuldade para nós, informados pelas mídias majoritariamente contrarias ao regime dos aiatolás, de entender o que acontece em países islâmicos de forma não enviesada. Os diferentes grupos políticos e projetos de país em disputa não são acessíveis, a fim de que se possa construir uma opinião mais lúcida sobre os fatos. Reconhecendo isso, Persépolis se torna uma fonte riquíssima de conhecimento sobre a vida no Irã e permite com que se conheça mais de perto esse povo tão diverso que não pode ser emoldurado em torno de uma caricatura do atraso fundamentalista. Texto escrito por Marco Aurélio Cardoso Moura Professor de Língua Portuguesa no Ensino Médio; formado em Letras pela USP e especialista em Juventude no Mundo contemporâneo pela FAJE-BH. Hoje é mestrando em Educação pela FE-USP e colunista do “Zero Águia”. Bibliografia Satrapi, Mariane. Persépolis. São Paulo, Cia dos Quadrinhos, 2000
- Central do Brasil e as raízes do país
No filme "Central do Brasil", Dora (interpretada magistralmente pela atriz Fernanda Montenegro) trabalha escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Ainda que a escrevente não envie todas as cartas que escreve (por exemplo as cartas que considera inúteis ou fantasiosas demais), ela decide ajudar o menino Josué (interpretado por Vinicius de Oliveira, até então desconhecido e ex-engraxate), após sua mãe ser atropelada, a tentar encontrar o pai que nunca conheceu, no interior do Nordeste, tendo suas vidas alteradas e iniciando uma jornada de busca, descobertas e redenção. A busca de Josué pelo pai pode ser interpretada num primeiro momento como o retorno de migrantes nordestinos para suas origens, retornando para "sua terra", representando o fluxo migratório para o Sul/Sudeste do país em busca de melhores condições de vida. Além disso, outra interpretação que podemos fazer é a procura de outro Brasil, sugerindo que os males sociais do passado poderiam ser superados e transformados numa união criativa de um país sofrido e cerceado das liberdades políticas e suas crises econômicas com um novo Brasil de esperança e oportunidades. A empreitada da personagem Dora por seus sentimentos, representa a ruptura de um comodismo e conformismo com uma vida estagnada, tanto socialmente em relações conflituosas e de desconfiança com seus pares, quanto economicamente onde recebe uma pensão insuficiente que recebe como professora aposentada. Dora consegue, ao longo do filme, transpor barreiras e encontrar sentimentos esquecidos de; solidariedade, cuidado e amor. O roteiro desta memorável obra cinematográfica brasileira, de 1998, dirigida por Walter Salles, produzida pela VideoFilmes e escrita por João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. Trata-se de uma obra muito reconhecida, recebendo mais de 50 prêmios e indicações importantes tanto no circuito nacional e internacional de cinema. Para se ter uma ideia, a obra arrebatou o Urso de Ouro em Berlim e recebeu indicações para Oscar, BAFTA, Globo de Ouro e César (prêmio francês). No Oscar, recebeu indicações para Melhor Filme Estrangeiro, porém perdeu para a Vida é Bela (filme italiano) e Melhor Atriz com Fernanda Montenegro sendo a primeira atriz latino-americana a participar do pleito. Para o diretor Walter Salles, o filme é definido como: "Uma pequeníssima odisseia: um garoto em busca do pai, uma mulher à procura de seus sentimentos, um país à procura de suas raízes." Migração e refúgio Já foi mencionado no artigo sobre a vida em movimento que escrevi pouco tempo atrás, que segundo o manual do ACNUR (Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), temos alguns conceitos interessantes que vale reforçar: Os refugiados são pessoas que escaparam de conflitos armados ou perseguições (principalmente políticas e religiosas) com risco eminente de morte. A determinação da condição de refugiado não tem como efeito atribuir-lhe a qualidade de refugiado, mas sim constatar essa qualidade. Uma pessoa não se torna refugiado porque é reconhecida como tal, mas é reconhecida como tal porque é um refugiado. Os migrantes se deslocar é uma escolha, motivada principalmente em busca de melhores oportunidades de trabalho, mais segurança, melhor educação, entre outros motivos que envolvam uma melhoria na sua qualidade de vida. Embora migrantes e nômades não sejam, em termo conceituais a mesma coisa, muitas vezes os migrantes acabam se nomadizando, sendo assim, as migrações estão sendo pensadas como um vetor de desterritorialização e de nomadização. As pessoas são movidas pelo desejo, que funciona na subjetividade de cada um como uma força motriz que o coloca em movimento, e com isso tornam-se capazes de enfrentar obstáculos, refazer caminhos, superar dor e sofrimento em torno do seu objetivo. A felicidade e novos horizontes estão lá, em algum lugar à espera deles. Fluxos migratórios no Brasil No Brasil, temos alguns exemplos de fluxos migratórios motivados em sua grande maioria por modelos econômicos implantados na época, sendo que no momento de esgotamento das possibilidades de uma boa qualidade de vida, seus habitantes necessitam migrar para continuar a viver. Na primeira metade do século XX, com o início da industrialização no Brasil, se iniciou o êxodo rural para as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. A título de comparação: o Brasil era predominantemente rural na década de 40, porém trinta anos mais tarde, já era um país de maioria urbana. Exemplo de movimentos migratórios no Brasil foram a construção de Brasília, na década de 1950, o estabelecimento da Zona Franca de Manaus (AM), nos anos 1960 e a descoberta de ouro em Serra Pelada (PA), na década de 1970. Colonização e as raízes da sociedade brasileira Para falarmos das raízes do país com um bom embasamento teórico, podemos recorrer a obras importantes como "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, "Casa-Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, além de "Formação do Brasil Contemporâneo", de Caio Prado Jr. O receio de mostrar a verdadeira identidade da sociedade brasileira influenciou os primeiros relatos históricos do Brasil, e só foi a partir de 1930 que esta narrativo começou a mudar graças a estes intelectuais que não falsearam o conceito de miscigenação e trataram seus escritos com originalidade e autenticidade. Em "Raízes do Brasil" – publicado em 1936, posteriormente objeto de várias reedições ao longo do século XX e considerado um dos mais importantes clássicos da historiografia e da sociologia brasileira - Sérgio Buarque pontuou as negativas heranças culturais ibéricas deixadas aqui nos trópicos. O conceito de homem cordial, por exemplo, foi o principal ataque ao legado deixado pelos portugueses, esse conceito referia-se àquela pessoa que agia mais pela emoção do que pela razão. Um exemplo de cordialidade era aquele homem que para escolher entre duas pessoas para uma vaga de emprego, escolhia o candidato que fosse seu amigo ou conhecido, ao invés de optar pela meritocracia. Isso serviu, portanto, para atrasar o progresso social, político e econômico brasileiro. Sérgio Buarque afirmou também que, o liberalismo democrático pressupõe o trato impessoal com os governantes, algo que os brasileiros não assimilam, pois preferem a familiaridade do que a distância exigida em cargos públicos. Continua dizendo, que o Brasil só terá democracia plena quando houver uma revolução feita de baixo para cima, ou seja, da camada popular até as estruturas mais altas e que para isso também será preciso aceitar a impessoalidade da democracia e que direitos e deveres são para todos. Por outro lado, não criticou a colonização efetuada pelos portugueses no Brasil, pelo contrário, fez um elogio à falta de orgulho de raça e à fácil adaptação dos lusitanos no território brasileiro. Porém, o que diferencia a obra de Freyre da escrita tradicional anterior a 1930 é a abordagem do processo de miscigenação do povo brasileiro. Em seu livro "Casa-Grande e Senzala", o autor afirma que foi essa falta de orgulho de raça dos portugueses que contribuiu para o sincretismo cultural e para as misturas de raças no Brasil. Os três pilares da colonização portuguesa para Freyre são; a miscigenação, o latifúndio e a escravidão. Como cita Laurentino Gomes na sua obra "Escravidão", volume II, existem muitas Áfricas dentro do Brasil: seus traços estão por toda parte, na dança, na música, vocabulário e na culinária, nas crenças e nos costumes, na luta do dia a dia, na força, no semblante e no sorriso das pessoas. Para Gilberto Freyre, a sociedade brasileira era o resultado da miscigenação cultural entre portugueses, indígenas e negros. Uma das teses mais polêmicas e controversas de Gilberto Freyre foi justificar a escravidão do indígena e, principalmente, do negro como “necessária” para o empreendimento colonial. O latifúndio foi a grande propriedade implantada pelos portugueses a fim de ocupar e explorar a terra. Em contraponto com a colonização inglesa nas Treze Colônias, baseada na pequena propriedade, o latifúndio no Brasil, reforçou o poder patriarcal. Por outro lado, como a terra tinha dono, isso impediu o surgimento de qualquer iniciativa empreendedora, perpetuando o modelo patriarcal e escravocrata por muito tempo no Brasil. Finalmente, Caio Prado Junior, que em seu livro "Formação do Brasil Contemporâneo", publicado em 1942, critica profundamente os portugueses pelo seu caráter de exploração na colonização brasileira. Caio Prado, influenciado pelas teorias marxistas, debate que a função do Brasil Colônia era única e exclusivamente a de exportação dos produtos agrícolas. Por isso, ele afirma que a colonização teve um caráter predatório e os portugueses foram os protagonistas que iniciaram essa prática econômica. Nas jornadas do garoto Josué e de Dora, temos um país à procura de suas raízes, retratado muito bem no longa. Neste ponto, podemos ressaltar como movimentos importantes da nossa história influenciaram (e influenciam) na vivência destes personagens ficcionais e de toda nossa população que foram o período colonial e legado da escravatura. Por isso, se você quer entender a atual realidade sobre a sociedade brasileira, tenha curiosidade e gana de pesquisar mais sobre a nossa história e as linhas de influências ao longo do tempo, porque, parafraseando o poeta Tom Jobim, e encerrando este artigo: "O Brasil não é para principiantes" Detalhes do filme Filme: Central do Brasil (Central Station) Elenco: Fernanda Montenegro (Isadora), Vinicius de Oliveira (Josué), Marília Pêra (Irene) Diretor: Walter Salles Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=JSWgOhRjJmo Trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=OxkVF7G9laI&list=OLAK5uy_lM7802a5n6Kn6k_jbCtIxMRgx8Fil8kE8 Avaliação IMDB: https://www.imdb.com/title/tt0140888/?ref_=nv_sr_srsg_0 (8.0) Avaliação Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/central_station Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Referências https://pt.wikipedia.org/wiki/Central_do_Brasil_(filme) https://pt.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%ADzes_do_Brasil https://www.todamateria.com.br/raizes-do-brasil/ https://www.todamateria.com.br/casa-grande-e-senzala/ https://www.blogs.unicamp.br/uoleo/2014/04/14/resenha-formacao-do-brasil-contemporaneo/#:~:text=Forma%C3%A7%C3%A3o%20do%20Brasil%20Contempor%C3%A2neo%20foi,forma%C3%A7%C3%A3o%20do%20Brasil%20como%20na%C3%A7%C3%A3o. https://www.todamateria.com.br/movimentos-migratorios-no-brasil/#:~:text=Os%20movimentos%20migrat%C3%B3rios%20no%20Brasil,imigra%C3%A7%C3%A3o%20for%C3%A7ada%20dos%20negros%20africanos. https://www.zeroaguia.com/post/nomadland-a-vida-em-movimento https://brasilescola.uol.com.br/historiab/escrita-historia-brasil.htm
- Resgatando a História: Não-Violência
Neste último dia 2 de Outubro foi celebrado o dia Internacional da Não-Violência, coincidindo com a data de nascimento do líder indiano Mahatma Gandhi. Proclamado pela Assembleia Geral da ONU em 2007, o Dia Internacional da Não-Violência busca divulgar a mensagem da não-violência por meios como a educação e o aumento da consciência pública sobre o tema. O que é Não-Violência e Cultura de Paz? Não-violência, em sânscrito ahimṣā, é a prática pessoal de não causar sofrimento a si próprio ou a outros seres sob qualquer circunstância. Ela surgiu da crença de que ferir pessoas, animais ou o meio ambiente não é necessário para se conseguir vantagens. Se refere a uma filosofia geral de abstenção da violência, tendo, como base, princípios religiosos, espirituais e morais. Não-violência parte do princípio que todos os seres humanos tem em si motivos válidos para realizarem suas ações, mesmo que perversas, muitas vezes acreditando estarem fazendo o bem para si, seus ente queridos ou seu país. Porém a não-violência condena as práticas violentas e agressivas, sejam elas partindo de princípios considerados "justos" ou não. História Mahavira (599-527 a.C.), o 24.º tirthankara do jainismo (um ser que conseguiu escapar ao ciclo dos renascimentos e que ensinou aos outros como poderiam também escapar desse ciclo) , introduziu o conceito de "não violência" para o mundo, aplicando-o em sua própria vida. Ele ensinava que, para se obter o nirvana, era necessário se abster da violência. O conceito também possui elementos ativistas, como quando é usado como instrumento de mudança social. Neste sentido, o termo é, comumente, associado à luta pela independência da Índia, liderada por Mahatma Gandhi, e à luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos, liderada por Martin Luther King Jr. O movimento ocorrido na Índia foi fortemente influenciado pelos princípios da religião jainista, pelas ideias de desobediência civil de Henry David Thoreau e do anarquismo cristão de Leon Tolstói. O exemplo indiano inspirou uma série de ações que ocorreram nas décadas seguintes. Na década de 1960, a campanha não violenta de Cesar Chavez lutou contra o tratamento infligido aos trabalhadores rurais da Califórnia. A não violência também inspirou a Revolução de Veludo na Checoslováquia, em 1989. Mais recentemente, a campanha não violenta de Leymah Gbowee e das mulheres da Libéria conseguiu interromper uma guerra civil que já durava catorze anos. Embora a não violência seja, frequentemente, confundida com passividade e pacifismo, tal associação é rejeitada pelos ativistas adeptos da não violência. Não violência é a ausência de violência e se refere à opção de se causar pouco ou nenhum dano, enquanto que passividade significa não fazer nada. A não violência pode ser passiva em alguns casos, e ativa em outros. Uma mesma pessoa pode, contraditoriamente, defender a não violência em alguns casos e ser violenta em outras situações. Por exemploː opositores ao aborto ou à alimentação carnívora podem, eventualmente, matar um realizador de abortos ou atacar um abatedouro de animais, o que as classificaria como pessoas violentas. A Organização das Nações Unidas (ONU) define a cultura de paz como um conjunto de valores e atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados: No respeito à vida, no fim da violência e na promoção e na prática da não violência por meio da educação, do diálogo e da cooperação. "A proposta de uma cultura de paz é de uma revolução muito grande, uma grande transformação individual e social. Porque é necessário modificar todo um sistema educacional, dentro de escolas, universidade, as famílias... Quando digo "famílias", não são apenas pai, mãe e filhos. Família são pessoas que convivem em um mesmo ambiente e o compartilham. São pessoas que se respeitam e se cuidam, que compartilham alimentos, sonhos e realidades." Trecho retirado do livro O inferno somos nós: do ódio à cultura de paz, de Leandro Karnal e Monja Coen. Manifesto 2000 O “Manifesto 2000: Por Uma Cultura de Paz e Não Violência” foi escrito por um grupo de ganhadores do Prêmio Nobel da Paz, com o fim de criar um senso de responsabilidade que se inicia em nível pessoal. Não se trata de uma moção ou petição endereçada às altas autoridades. É responsabilidade de cada um colocar em prática os valores, as atitudes e as formas de conduta que inspirem uma cultura de paz. Todos podem contribuir para esse objetivo dentro de sua família, de seu bairro, de sua cidade, de sua região e de seu país ao promover a não violência, a tolerância, o diálogo, a reconciliação, a justiça e a solidariedade em atitudes cotidianas. O Manifesto 2000 foi lançado em Paris (França), no dia 4 de março de 1999, e apresentado à Assembleia Geral das Nações Unidas em sua reunião da virada do milênio em setembro do ano 2000. A não-violência não é algo simples ou fácil de ser implementado em uma sociedade que vive com medo, sempre em alerta contra o próximo. O medo sempre foi uma das raízes da violência e do ódio porém é dever do ser humano como espécie entender que seu semelhante, mesmo com aspirações e valores diferentes, merece viver em paz. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes Site oficial das Nações Unidas no Brasil: https://brasil.un.org/pt-br/201903-dia-internacional-da-nao-violencia-destaca-legado-pacifico-de-gandhi#:~:text=Estabelecido%20em%202007%2C%20o%20Dia,sua%20estrat%C3%A9gia%20da%20n%C3%A3o%2Dviol%C3%AAncia. Ministério da Saúde do Brasil: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/reflexoes_cultura_paz_nao_violencia_trabalho.pdf Artigo sobre não-violência na Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%A3o-viol%C3%AAncia KARNAL, Leandro. O inferno somos nós: Do ódio à cultura de paz. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2018.
- Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - Educação de Qualidade
O objetivo 04 da ODS é a meta principal, desafiadora e a que aloja o terror da “elite” de muitos países. Pois pessoas que ousam e desafiam a sociedade com esse tipo de projeto logo se tornam alvos de líderes de estado, religiosos e do crime organizado. E podemos verificar que figuras como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e Malala Yousafzai se tornaram inimigos eminentes desses tais líderes. Hoje no Brasil quantas vezes você lê ou ouve esses líderes demonizarem Paulo Freire somente porque ele ousou dizer: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Mesmo podendo verificar de modo empírico que países onde a educação é a base principal de um Estado como os países nórdicos - Finlândia, Noruega, Suécia entre outros - você tem uma sociedade com o menor índice de desigualdade social, menos violenta, com economia mais sólida e com o menor número de templos religiosos. Isso tudo porque você tem uma população muito mais participativa no comando do país. A Educação é muito mais ameaçadora que uma arma ou bomba atômica e podemos ver isso quando uma menina de apenas quinze anos se torna a inimiga mais ameaçadora do grupo fundamentalista sunita Talibã. Este é o caso de Malala Yousafzai, que levou três tiros enquanto ia para escola, simplesmente porque ela e sua família lutavam para que meninas e mulheres tivessem direito à educação em seu país. E como podemos fazer que as metas de objetivo 04 da ODS tornem-se realidade no nosso país? Um exemplo de projeto, já formulado nas décadas de 1980 e 1990 no estado do Rio de Janeiro foram os CIEPs, idealizados e elaborados por Darcy Ribeiro, Brizola e Oscar Niemeyer. É necessária uma mudança de mentalidade em relação ao retorno do investimento nesse estilo de projeto. Pois quando foram criados os CIEPs houveram muitas críticas em relação aos custos para construir e manter esse projeto, que foram sendo sucateados durante os anos pós governo Brizola. Sobre os custos, Brizola tinha uma visão diferente. No debate de 1994 com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ele dizia: “Caro mesmo é a ignorância”. Centro Integrado de Educação Publica o (CIEP) e o Centro de Atenção Integrada a Criança (CIAC) de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro Com uma ampla quadra esportiva, consultórios médicos e odontológicos, salas de leitura e de artesanato e ainda dormitórios para alunos que se encontrassem em situação de vulnerabilidade social, os CIEPs tinham o objetivo de ocupar a criança com atividades culturais, esportivas e integração dos conhecimentos, tinham também a proposta curricular visada na educação integral. O ser humano na sua integralidade, de sentimentos, afeto e cognição. Além da proposta de estudo dirigidos, para que alunos que tivessem dificuldades as vencessem. Em seu período de governo, Darcy e Brizola conseguiram construir cerca de quinhentos CIEPs e quatrocentos CIACs. Hoje esses centros foram sucateados e perderam a ideia original de educação em tempo integral. Quando penso nesse projeto não consigo deixar de lembrar de discursos do Brizola. Na inauguração do CIEP do complexo da Maré no Rio, no qual ele fala que a comunidade tem tesouros escondido e que esses tesouros eram as crianças. Que a única forma de ganhar do crime organizado era ocupar o tempo dos jovens com esporte, cultura e lazer. Assim o crime teria muito mais dificuldade de recrutar os jovens para a criminalidade. Não posso deixar de citar um projeto semelhante, que com muita luta, e apesar das ameaças continua de pé no complexo da Maré. Trata-se do Projeto Uerê, que aplica a metodologia Uerê-Melo visando uma abordagem de ensino diferente para crianças que vivem em ambiente de violência. Por isso digo, aplicar as metas do objetivo 04 da ODS é possível e temos vários exemplos que podemos seguir, aplicar e melhorar. Só basta as verbas serem vistas como investimento e não como custos a serem cortados. Ainda que o resultado não seja tangível, como a construção de uma estrada ou refinaria onde o lucro financeiro seja visto claramente, o resultado desse investimento vem de diversas formas, um exemplo é a diminuição de gastos de combate ao crime, outro é o ganho em bem-estar social. Existem estudos que cada um real investido em educação tem retorno dez vezes maior. A educação é ponto inicial e principal para uma sociedade ter prosperidade econômica, segurança e democracia. Sem educação estamos fadados a viver em uma sociedade corrupta, violenta e economicamente defasada. “O ruim no Brasil e efetivo fator do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus…O que houve e há é uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente”. Darcy Ribeiro. Metas do Objetivo 04 ODS 4.1 Até 2030, garantir que todas as meninas e meninos completem o ensino primário e secundário livre, equitativo e de qualidade, que conduza a resultados de aprendizagem relevantes e eficazes; 4.2 Até 2030, garantir que todos as meninas e meninos tenham acesso a um desenvolvimento de qualidade na primeira infância, cuidados e educação pré-escolar, de modo que eles estejam prontos para o ensino primário; 4.3 Até 2030, assegurar a igualdade de acesso para todos os homens e mulheres à educação técnica, profissional e superior de qualidade, a preços acessíveis, incluindo universidade; 4.4 Até 2030, aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham habilidades relevantes, inclusive competências técnicas e profissionais, para emprego, trabalho decente e empreendedorismo; 4.5 Até 2030, eliminar as disparidades de gênero na educação e garantir a igualdade de acesso a todos os níveis de educação e formação profissional para os mais vulneráveis, incluindo as pessoas com deficiência, povos indígenas e as crianças em situação de vulnerabilidade; 4.6 Até 2030, garantir que todos os jovens e uma substancial proporção dos adultos, homens e mulheres estejam alfabetizados e tenham adquirido o conhecimento básico de matemática; 4.7 Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero, promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável; 4.a Construir e melhorar instalações físicas para educação, apropriadas para crianças e sensíveis às deficiências e ao gênero, e que proporcionem ambientes de aprendizagem seguros e não violentos, inclusivos e eficazes para todos; 4.b Até 2020, substancialmente ampliar globalmente o número de bolsas de estudo para os países em desenvolvimento, em particular os países menos desenvolvidos, pequenos Estados insulares em desenvolvimento e os países africanos, para o ensino superior, incluindo programas de formação profissional, de tecnologia da informação e da comunicação, técnicos, de engenharia e programas científicos em países desenvolvidos e outros países em desenvolvimento; 4.c Até 2030, substancialmente aumentar o contingente de professores qualificados, inclusive por meio da cooperação internacional para a formação de professores, nos países em desenvolvimento, especialmente os países menos desenvolvidos e pequenos Estados insulares em desenvolvimento. “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Darcy Ribeiro Texto escrito por Camila Bellato Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Fontes https://www.cartacapital.com.br/educacao/criados-por-darcy-ribeiro-cieps-completam-30-anos/ https://www.educabrasil.com.br/cieps-centros-integrados-de-educacao-publica/ https://www.youtube.com/watch?v=aGkjbrdNMCA https://www.youtube.com/watch?v=VFovOfyAxd8&t=607s https://www.youtube.com/watch?v=c6RAMsSXDGI https://www.youtube.com/watch?v=QEKPvTbYovw https://www.projetouere.org.br/ https://www.youtube.com/watch?v=v9z38DpMSEQ https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/4
- A origem das favelas e a relação com o livro O Cortiço, de Aluísio de Azevedo
As favelas brasileiras são conhecidas pelo mundo todo, tanto por sua imensidão como pelos polêmicos filmes que as retratam, como os aclamados Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, e Tropa de Elite, de José Padilha. Mas qual é a origem desse tipo de moradia, que se tornou cartão-postal do Brasil para muitos estrangeiros? E o que o Cabeça de Porco, famoso cortiço do livro homônimo de Aluísio de Azevedo, tem a ver com esse tipo de moradia? Já é de conhecimento do grande público que as favelas, assim como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, fazem parte do cenário urbano e turístico da cidade do Rio de Janeiro. Assim como no Rio, em São Paulo e em outras capitais brasileiras, as favelas se fazem presente de maneira clara. Mas a questão é: como surgiu esse tipo de moradia no Brasil? O negro subindo o morro Na época de pós-escravidão, no final dos anos 1880, os ex-escravos não tinham para onde ir, já que o Brasil estava sofrendo um processo de "embranquecimento", no qual eram trazidos imigrantes europeus para o país a fim de que construíssem família e trabalhassem por aqui, dessa maneira eliminando aos poucos os mestiços que já existiam, fruto das relações normalmente não consentidas entre os donos das escravizadas e estas. Mesmo após serem libertados, os negros não eram valorizados como força de trabalho pago, então ficaram a mercê da sorte pelas ruas do país, inclusive no Rio de Janeiro. Sem emprego, sem moradia, sem nada, os ex-escravos começaram a subir o morro, se estabelecendo e iniciando o processo das favelas na capital carioca. Nessa parte, a história das favelas se mescla com a história dos cortiços. E as favelas se misturam com O Cortiço, obra naturalista do autor Aluísio de Azevedo. Ao mesmo tempo em que os negros desempregados subiam o Morro da Providência, cujo nome era associado à divindade, já que as pessoas esperavam uma providência divina, algo que pudesse intervir em suas vidas de maneira positiva, cresciam também os cortiços. Cortiço Cabeça de Porco Os cortiços eram os grandes casarões, cujos donos não tiveram condições de mantê-los sem os escravos para ajudar com a manutenção, então os transformavam em uma casa com cômodos para alugar por valores módicos. Esse era o caso do cortiço Cabeça de Porco, que faz parte da obra literária de Aluísio de Azevedo. O Cabeça de Porco, no Rio e no livro, era um imenso cortiço, perto de uma pedreira, na parte central da cidade, onde seus moradores viviam, trabalhavam e ali exerciam a sua rotina. No livro, o cortiço pertence ao João Romão, um homem ganancioso que tinha no mesmo lugar uma venda, onde os moradores também faziam suas compras, e a dita pedreira. Ele possuía o monopólio nessa região. No Rio, o cortiço Cabeça de Porco, imenso como no livro, foi construído pelo prefeito da época, Cândido Barata Ribeiro, abrigando mais de 4 mil pessoas e a pedreira por perto. Além dos ex-escravizados que buscavam recomeçar a vida da forma mais digna possível, no ano de 1897, após a Guerra dos Canudos, os soldados voltaram para o Rio de Janeiro, pensando que iam ganhar uma casa por sua boa batalha, porém não foi isso que aconteceu. Em reação de revolta, os soldados invadiram o quartel no Rio de Janeiro, destruíram muita coisa e também subiram o Morro da Providência. Logo com essa subida, também veio a mudança de nome do local. Assim que viram o morro, os soldados falaram que ele se assemelhava às favelas que viram em Pernambuco, na guerra. As favelas são plantas bem espinhosas, típicas de lugares secos. Assim, mudaram o nome do lugar para Morro da Favela, se tornando tempos depois, a Favela. Voltando aos cortiços, a obra de Azevedo é fiel à realidade dos cortiços dos anos 1890. Sendo uma obra naturalista, tipo de escrita que preza o real, analisando sempre as situações cotidianas e expondo-as de maneira verdadeira, O Cortiço leva o leitor aos antigos tempos do Cabeça de Porco, mostrando a realidade nua e crua da época. Os personagens também são fiéis aos tipos da época. Mostra o antes citado João Romão, dono do cortiço, o português Jerônimo, a mestiça sensual Rita Baiana, que são alguns dos personagens retratados no livro. Dessa forma, o livro mostrava o olhar das pessoas sobre a sociedade desses tempos. O cortiço Cabeça de Porco já não existe mais, pois foi destruído para ser construído um túnel em seu lugar, mostrando como a urbanização se impôs sobre a população mais desfavorecida. Já as favelas, estão mais fortes do que nunca. Nem sempre as favelas foram violentas, como hoje é mostrado nos filmes e nas séries. A violência começou a aparecer mais na época da ditadura, já que todos os que eram contra o sistema, desempregados ou pobres eram mau vistos pela polícia, que estava mais preocupada em repreender "inimigos" políticos do que controlar a crescente onda de violência no país. Dessa maneira, contraventores encontraram lugar onde estavam os mais vulneráveis. Hoje, uma boa parte das favelas está pacificada, e praticamente são um mundo a parte. Existe turismo na favela, comércio forte, e toda a interação de uma sociedade própria e favelada, que se mantém de uma forma organizada e acolhedora. Alguns morros, como o da Babilônia, têm inclusive atividade turística própria, com guias organizados e prontos para atender aos turistas nacionais e internacionais. É muito importante conhecer a história de um lugar, para valorizá-lo e entendê-lo. Texto escrito por Caroline Prado Professora de Cultura Brasileira e Português para Estrangeiros, internacionalista, estudante de Filologia e Línguas Latinas, Embaixadora do Projeto Libertas Brasil na Costa Rica, apaixonada por plantas, livros e fontes confiáveis. Fontes AZEVEDO, Aluísio de. O Cortiço. Editora Moderna. https://www.vozdascomunidades.com.br/geral/a-origem-das-favelas-no-brasil/ https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/01/conheca-historia-da-1-favela-do-rio-criada-ha-quase-120-anos.html ref. foto: https://veja.abril.com.br/economia/favelas-cariocas-livres-do-trafico-vivem-explosao-imobiliaria-e-comercial/ https://4flyrj.com.br/artigo/7-favelas-para-visitar-no-rio-de-janeiro/ ref. foto: https://riomemorias.com.br/memoria/cabeca-de-porco/ https://www.facebook.com/amastourbabichapeu/
- As capitais de Goiás
Você sabia que nem sempre a capital do estado de Goiás foi Goiânia? Antigamente, a capital de Goiás era a cidade de Goiás, popularmente conhecida como velha Goiás, que foi fundada em 1727 pelo bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva e foi a primeira cidade do estado de Goiás, primeira capital do estado de Goiás. Seu primeiro nome foi Arraial de Sant’Anna com apelido de Goiás Velho, posteriormente recebeu o nome de Vila Boa de Goyas e em 1918 se tornou a Cidade de Goiás. A prosperidade da cidade ocorreu durante a época do ciclo do ouro. Após este período, a justificativa de manter a Cidade de Goiás como capital do estado de Goiás não era mais percebida como conveniente e as cidades do sul do estado ,que eram mais relacionadas com o desenvolvimento da agricultura e a criação de gado, começaram a chamar atenção. Localizada há pouco mais de cento e quarenta quilômetros da atual capital (Goiânia), a cidade de Goiás possui construções com arquitetura colonial em suas casas sendo muitas de pau-a-pique e um vasto histórico cultural. A cidade recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em âmbito mundial, em dezembro de 2001, segundo o portal ALEGO. A mudança de capital Em 1750, o Conde dos Arcos, primeiro governador da província de Goiás, sugeriu a mudança da capital do estado ao rei de Portugal para o município de Meia Ponte – atual Pirenópolis – mas foi na década de 1930, com a revolução liderada por Getúlio Vargas que se realizou uma aliança com figuras políticas goianas e houve a nomeação do médico Pedro Ludovico Teixeira como interventor do estado de Goiás, e o mesmo, buscando uma inovação no estado e também impulsionar a ocupação da região com baixa demografia, resolveu-se colocar o projeto de mudança de capital em ação. A mando de Pedro Ludovico foram realizados estudos “nas localidades de Bonfim (atual Silvânia), Pires do Rio de Ubatan (atual vila de Erigeneu Teixeira, em Orizona) e Campinas (atual bairro de Campinas)” e a região mais favorável foi da “uma fazenda localizada nas proximidades do povoado de Campinas como o local ideal para construção da nova capital”, relata o website oficial do Governo de Goiás. Desta forma estava escolhida a região da nova capital do estado de Goiás, que seria construída de forma planejada. No dia 24 de outubro de 1930, data em que o presidente Washington Luís foi deposto e Getúlio assumiu o poder, “foi lançada a pedra fundamental para a construção da nova cidade”. Cidade esta planejada, com bairros mais tradicionais denominados de “setores” (exemplo “Setor Bueno”, “Setor Garavelo”, “Setor dos Bandeirantes”), muitos parques, nomes de rua de letras e números, (exemplo Rua A-7, Avenida T-9, Avenida T-10, Rua C-87). O nome sugerido para Goiânia seria “Petrônia” em homenagem ao fundador Pedro Ludovico, mas o jornal “O Social” fez um concurso cultural para a escolha do nome. Os nomes que concorreram foram “Petrônia” e “Goiânia”, e apesar do primeiro nome ter sido escolhido por 68 leitores do jornal contra dez votos em “Goiânia”, Pedro Ludovico, por razões não reveladas a ninguém, decidiu por Goiânia e em decreto de 2 de agosto de 1935 formalizou o nome da nova capital. Goiânia (“Goia” [de Goiás] mais Nea [do latim “neo”, novo]. Em resumo: “Nova Goiás”)”. O decreto de número 1816 em 23 de março de 1937 oficializou a transferência da capital do estado de Goiás. Não muito tempo depois, em 5 de julho de 1942, aconteceu o evento oficial do sacramento da transferência, no Cine-Teatro Goiânia, um dos prédios mais emblemáticos da capital. Personalidade histórica da cidade de Goiás Cora Coralina, de gentílico goiana ou vilaboense, nativa da Velha Goiás, premiadíssima com suas obras, foi uma escritora, poetisa e contista de grande nome para a literatura brasileira, abordando muito em suas escrituras a cidade onde nasceu e viveu grande parte de sua vida, tornando-a bem conhecida. Nas obras, além dos relatos sobre a cidade de Goiás, ela também abordava temas e personagens marginalizados, colocando-os em protagonismo, tema muito marcante em suas obras. Conforme observado no site do Caminho de Cora Coralina, após muitos estudos sobre os acontecimentos abaixo citados, foi criada uma trilha de trezentos quilômetros de extensão que engloba 8 cidades do estado de Goiás, são elas: Corumbá de Goiás, Pirenópolis, São Francisco de Goiás, Jaraguá, Cidade de Goiás, Cocalzinho de Goiás, Itaguari e Itaberaí. “A Jornada a Goiás de Luís da Cunha Menezes, desde Salvador, em 1778”, quando este veio empossar-se no Governo da Capitania de Goiás; Os livros “Viagem à Província de Goiás” e “Viagem ao Interior do Brasil” dos naturalistas Auguste de Saint’Hilaire e Johan Emanuel Pohl respectivamente, que passaram por esses caminhos entre 1818 e 1821; “Viagem às Terras Goyanas”, de Oscar Leal, extraordinário relato escrito nos anos 1880; “Relatório Cruls” – Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil que explorou, entre 1892 e 1893, uma ampla região do entorno do Distrito Federal para definir a localização da nova Capital do Brasil. Esta trilha com início em Corumbá de Goiás – GO e término na Cidade de Goiás, foi denominada de “Caminho de Cora Coralina” em homenagem a escritora vilaboense. É uma trilha que exige repouso e muita preparação, realizada por corajosos ciclistas e caminhantes. Além disso, a cidade possui muitas cachoeiras, rios, atrativo para visitantes. Goiânia marcada no mundo Após 54 anos da fundação da nova capital, neste ano de 2022 completou-se 35 anos do acidente que aconteceu em setembro de 1987 em Goiânia, intitulado como o maior acidente radioativo no Brasil, conhecido mundialmente como Césio-137 (137Cs). À luz clara, o isótopo radioativo (Césio-137) visualmente é branco, mas no escuro, ele emite um brilho azulado. O Césio pertencia a um aparelho que, segundo o físico que foi responsabilizado pelo acidente, Flamarion Goulart, deveria estar no ACCG – Associação de Combate ao Câncer de Goiás, Hospital Araújo Jorge, conforme a entrevista que o Goulart permitiu ao Fantástico. Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves, dois catadores de materiais recicláveis, encontraram este aparelho em uma clínica abandonada. Este aparelho, que encheu os olhos dos dois ao imaginarem a venda para um ferro-velho, continha Césio-137, o qual já que era utilizado em terapia para tratamento de câncer. O Césio-137 é uma variação (isótopo radioativo) do césio com número atômico de massa (A) 137, formado por uma divisão nuclear de dois elementos pesados sendo Urânio e Plutônio. O Césio-137 é muito nocivo ao ser humano, já que emite partículas "ionizantes e radiações eletromagnéticas capazes de atravessar vários materiais, incluindo a pele e os tecidos do corpo humano, interagindo com as moléculas do organismo e gerando efeitos devastadores", conforme publicado no site do Brasil Escola. Desta maneira, percebeu-se que o aparelho poderia causar danos muito graves à quem teve acesso a este elemento químico, porém só depois que muitas pessoas já tinham tido contato com o elemento . Na época, houveram quatro mortes, sendo uma delas uma menina que esfregou o pó na pele e o ingeriu com toda felicidade. Cento e cinquenta e uma pessoas foram contaminadas gravemente, 1.143 pessoas afetadas com o chamado “pózinho mágico”. As pessoas afetadas foram isoladas e levadas para hospitais e um prédio de uma antiga Febem na cidade do Rio de Janeiro. A gravidade do acidente não foi só no corpo, mas emocionalmente e psicologicamente, fruto do preconceito reproduzido pela sociedade. Até os dias mais atuais, há moradores que levantam a suspeita de que pessoas próximas aos que morreram de câncer pode ter alguma correlação com este acidente, mesmo anos após o ocorrido. O INCA (Instituto Nacional de Câncer) previu em um estudo para 2020 que o estado de Goiás estaria entre os dez estados brasileiros com maior casos de câncer, sendo o único na lista do centro-oeste brasileiro. Já o site da Abificc (Associação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Combate ao Câncer), a partir de um estudo realizado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), estimou que em 2030 no Brasil teria a “ocorrência de aproximadamente 576.580 casos novos de câncer, incluindo os casos de pele não melanoma, reforçando a magnitude do problema do câncer no país. Sem contar os casos de câncer da pele não melanoma, estima-se um total de 394.450 mil casos novos.” Em conversa com o cineasta brasileiro renomado Ângelo Karlitos Lima, trouxemos algumas de suas observações e considerações sobre uma possível relação entre o câncer na cidade de Goiânia com o acidente do Césio-137 para esta coluna, em parceria com o projeto Desbravando Capitais: Além deste vídeo, abaixo mais sugestões sobre o tema: O Pesadelo é Azul, filme (de 30min), do Ângelo Karlitos: https://www.youtube.com/watch?v=ezEq0tAoE4U Programa Fantástico: https://www.youtube.com/watch?v=VUHLS1WL6FM Aplicação de Césio-137 Segundo o site Mundo Educação, o Césio-137 pode ser aplicado em: "equipamentos de radioterapia no tratamento de enfermidades, como o câncer"; "esterilização em escala industrial"; "preservação de certos alimentos, como frutas e carnes"; “diversas aplicações na área industrial e na área médica”; eliminar “fungos e bactérias que ocasionam a deterioração dos alimentos, como por exemplo a salmonela”. Fica a dica Goiânia tem um painel sobre "Como Nasceu Goiânia". Se quiser vê-lo inteiro, acesse o Google Maps e digite em destino: -16.68260, -49.25692 Não deixe de voltar aqui para nos dizer o que achou. Texto escrito por Fabiana Mercado Pós graduada em Comunicação e Marketing Digital, formada em Publicidade e Propaganda, acumula mais de 9 anos na área, colunista do Zero Águia, curiosa, preza o respeito a todas as pessoas independente de características. Nas horas vagas pratica corridas com o apoio da equipe Superatis. Adora conhecer novas pessoas e lugares, ama viajar e possui um projeto denominado Desbravando Capitais com o marido para morar e vivenciar durante um mês em todas as capitais brasileiras nos próximos anos. Fontes https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/quimica/o-que-e-cesio-137.htm https://mundoeducacao.uol.com.br/quimica/cesio-137.htm https://ipatrimonio.org/ https://www.goiania.go.gov.br/ https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/cora-coralina.htm https://www.curtamais.com.br/goiania/as-10-cidades-mais-antigas-de-goias https://pt.wikipedia.org/wiki/Caminho_de_Cora_Coralina#:~:text=A%20rota%20era%20utilizada%20por,gravadas%20ao%20longo%20do%20percurso https://caminhodecoracoralina.com.br/historia/ https://cidades.ibge.gov.br/brasil/go/goias/historico https://www.google.com/maps https://portal.al.go.leg.br/noticias/118645/294-anos-da-cidade-de-goias-deputados-falam-da-expectativa-para-a-retomada-das-atividades-turisticas-pos-pandemia#:~:text=Fundada%20em%201727%20pelo%20bandeirante,transferido%20para%20a%20grande%20Goi%C3%A2nia http://www.goiasgo.com.br/ https://www.inca.gov.br/estimativa/estado-capital/brasil https://abificc.org.br/noticia/em-2030-havera-mais-de-27-milhoes-de-casos-incidentes-de-cancer/#:~:text=A%20Organiza%C3%A7%C3%A3o%20Mundial%20da%20Sa%C3%BAde,de%20baixa%20e%20m%C3%A9dia%20rendas https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/registros/base-populacional https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/controle-do-cancer-de-mama/dados-e-numeros/incidencia https://www.youtube.com/watch?v=VUHLS1WL6FM https://www.youtube.com/watch?v=ezEq0tAoE4U https://escolakids.uol.com.br/historia/a-fundacao-de-goiania.htm https://www.preparaenem.com/historia-do-brasil/fundacao-goiania.htm https://www.preparaenem.com/historia-do-brasil/fundacao-goiania.htm
- Setembro amarelo e a sociedade do cansaço
A cada 47 segundos uma pessoa no mundo comete suicídio. 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais, com a depressão em primeiro lugar. Estatística extremamente assustadora, que torna a discussão sobre o tema proporcionalmente importante. Campanhas de conscientização e debates sobre o assunto se tornam cada vez mais necessárias. São diversas as causas de transtornos mentais, podendo incluir genética, componentes bioquímicos e traumas. Dados do IBGE revelam um país cada vez mais doente, pois mostram que só em 2019, 16.3 milhões de pessoas com mais de 18 anos sofreram de depressão, um aumento de 34,2% desde 2013. O que teria mudado? Certamente não as características genéticas em um intervalo de seis anos. Um dado mais curioso ainda revela que regiões urbanas registram a maior prevalência de casos de depressão (10,7%), enquanto nas áreas rurais o índice é de 7,6%. Observando esses dados, nós vamos analisar um fenômeno novo relativo a nossa sociedade atual que o filósofo coreano Byung-Chul Han chamou de Sociedade do Cansaço, definida como a mais nova forma de exploração no qual o indivíduo se torna uma espécie de explorador dele mesmo. Estamos em tempos modernos de exploração aonde nos exploramos a nós mesmos em uma espécie de empreendedorismo individual aonde o coletivo não importa mais. A modernidade foi marcada por movimentos sociais, porém a sociedade contemporânea incentiva o contrário, a autocontemplação individual. Em tempos de redes sociais, nossa identidade pessoal é afirmada como se fosse uma empresa que necessita de visualizações e aprovações, tais como likes o tempo todo. A Sociedade do Cansaço é marcada pela afirmação de si mesmo, do eu e pelo narcisismo No regime neoliberal, a exploração é disfarçada como autorrealização e não como auto exploração. Hoje em dia muitos escritórios e salas de estar estão todos misturados, é possível trabalhar em qualquer lugar seja com notebooks ou smartphones. Dessa forma, praticamente não há a separação entre a vida profissional e a vida pessoal. A contemporaneidade acaba produzindo indivíduos mecanizados, que buscam propósitos e metas exageradas tentando alcançar o sucesso, seja qual for o custo. Segundo Marx, o trabalho é uma constante auto desrealização. Byung-Chul Han afirma que a sociedade atual é também multitarefa e que sua glamourização é equivocada pois na verdade a mesma tem origens primitivas. Na vida selvagem, o animal é obrigado a dividir a sua atenção em diversas atividades. Por isso, não é capaz de aprofundamento contemplativo - nem no comer nem no copular. O animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si, pois tem de elaborar ao mesmo tempo o que tem atrás de si, seja para evitar de ser comido, vigiar a prole ou ficar de olho no parceiro. Por essas razões que Nietzsche dizia que por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Na Sociedade do Cansaço, temos graves problemas contemporâneos como depressão, transtornos de déficit de atenção, ansiedade, depressão, esgotamento psíquico e físico. Para Han nós estamos nos transformando em verdadeiros zumbis saudáveis, fitness e com botox. Mortos demais para viver e vivos demais para morrer. Otimizamos nossos corpos e nosso psicológico para a morte. Aristóteles dizia que somente os filósofos, políticos e poetas eram realmente livres pois a eles foram dadas as capacidades de contemplação e aprofundamento das questões. O autoconhecimento e a delimitação de nossos espaços de lazer e de trabalho, são fundamentais para saúde de nossa sociedade. É necessário que recuperamos a vida contemplativa remediando nossa sociedade cada vez mais doente. Estamos no Setembro Amarelo mas o debate e a prevenção devem ser constantes, procure ajuda profissional. Com atendimento gratuito, o CVV ( Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional e ajuda para prevenir o suicídio. Telefone: 188 www.cvv.org.br "As vezes, até o viver é um ato de coragem", Sêneca. Texto escrito por Matheus Noronha Formado em Mecânica Aeronáutica, estudante de Engenharia de Automação e Controle pela Universidade São Judas. Um amante da ciência e literatura e curioso por essência. Fontes Sobre a Brevidade da Vida - Sêneca Sociedade do Cansaço - Byung-Chul Han Pesquisa Nacional de saúde - Biblioteca IBGE
- Rússia e China afirmam laços em meio a tensões com o Ocidente
Líderes dos países realizaram cúpula virtual, enquanto Putin declara as relações Rússia-China "um exemplo adequado de cooperação entre países". O presidente russo, Vladimir Putin, e seu contraparte chinês, Xi Jinping, realizaram uma videoconferência, em meio aos atritos nas relações de ambos os países com o Ocidente. Em seus comentários de abertura na cúpula virtual na quarta-feira, Putin e Xi saudaram as relações entre a Rússia e a China, com o líder russo declarando-as “um exemplo adequado de cooperação entre os países no século 21”. “Um novo modelo de cooperação se formou entre nossos países, baseado, entre outras coisas, em não interferir nos assuntos internos [uns dos outros], respeito pelos interesses de cada um, determinação de fazer da fronteira comum um cinturão de paz eterna e boa vizinhança ”, disse Putin. Xi disse que o presidente russo "apoiou fortemente os esforços da China para proteger os principais interesses nacionais e se opôs firmemente às tentativas de abrir uma divisão entre nossos países". Putin também disse que planeja se encontrar com Xi pessoalmente em Pequim em fevereiro e participar das Olimpíadas de 2022. “Conforme combinado, vamos conversar e depois participar da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno”, disse Putin. As tensões entre a Rússia e os países ocidentais aumentaram nos últimos meses devido a um aumento militar russo perto da fronteira com a Ucrânia. O governo ucraniano acusou Moscou de reunir dezenas de milhares de soldados em preparação para uma possível ofensiva militar em grande escala. O Kremlin nega ter planos de invasão e diz que o Ocidente está dominado pela russofobia. No início da quarta-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que os dois líderes discutiriam as tensões na Europa e a retórica "agressiva" dos Estados Unidos e da Otan. “A situação nas relações internacionais, especialmente no continente europeu, está muito, muito tensa agora e requer discussão entre os aliados”, disse Peskov, referindo-se a Moscou e Pequim. “Vemos uma retórica muito, muito agressiva do lado da OTAN e dos EUA, e isso requer uma discussão entre nós e os chineses”. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, disse que a reunião deve "aumentar ainda mais a confiança mútua de alto nível entre os dois lados". A Rússia tem cultivado laços mais estreitos com a China à medida que suas relações com o Ocidente pioraram, e Putin usou a parceria como uma forma de equilibrar a influência dos EUA enquanto fecha negócios lucrativos, especialmente em energia. Ele e Xi concordaram este ano em estender um tratado de amizade e cooperação de 20 anos. __________________________________________________________________________________ Créditos à reportagem original da Al-Jazeera, que serviu como base para esta matéria: https://www.aljazeera.com/news/2021/12/15/russia-putin-china-xi-to-hold-talks-amid-tensions-with-west
- 6 de Janeiro e o comportamento de manada
Há um ano atrás acontecia uma invasão do Capitólio americano por parte de um grupo de manifestantes influenciados por discursos de Donald Trump, no qual o ex-presidente dizia que as eleições de 2020 haviam sido fraudadas por apoiadores do partido democrata. Um ano após o ocorrido irei analisar a relação entre este violento incidente e o chamado "comportamento de manada", que descreve como as pessoas podem ser influenciadas por seus semelhantes de modo a adotar certas atitudes de forma completamente emocional, sem considerar lógica ou razão. O dia começa com uma manifestação, invocada com intuito de reforçar a falsa alegação de Trump de que a corrida presidencial de 2020 havia sido fraudada. Antes que o Congresso certificasse os resultados das eleições, milhares de apoiadores do ex-presidente se reuniram no National Mall, ao sul da Casa Branca, e ouviram por horas enquanto alguns dos defensores mais proeminentes de Trump, incluindo seu advogado pessoal, o ex-prefeito de Nova York Rudolph W. Giuliani, promoviam fake news. Os organizadores do comício disseram ao Serviço de Parques Nacionais que previam trinta mil pessoas comparecendo. A polícia disse que o tamanho da multidão antes do protesto era possivelmente de 80.000 pessoas, de acordo com o então secretário do Exército, Ryan McCarthy. O tamanho da multidão no comício foi de pelo menos 10.000, de acordo com a Associated Press. Ao meio-dia, a multidão se dirige para perto da Casa Branca, onde Trump inicia um comício: "Nós nunca vamos desistir. Nunca vamos ceder", Trump diz à multidão. Ele conclama o vice-presidente Mike Pence - como presidente do Senado - a rejeitar a vitória de Biden e enviar os votos de volta aos estados. "Mike Pence, espero que você defenda o bem de nossa Constituição e o bem de nosso país", disse Trump. "E se você não fizer isso, vou ficar muito decepcionado com você." Enquanto isso, antes mesmo de Trump terminar seu discurso, as multidões de seu comício começam a se reunir fora do Capitólio dos EUA. Quase ao mesmo tempo, Pence libera uma carta, chamando seu papel na certificação dos votos eleitorais de "em grande parte cerimonial", essencialmente dizendo que não agirá como Trump pediu. “Meu juramento de apoiar e defender a Constituição me impede de reivindicar autoridade unilateral para determinar quais votos eleitorais devem ser contados e quais não,” escreve Pence. O Capitólio Às 13 horas e 5 minutos, dentro do prédio do Capitólio, Nancy Pelosi bate o martelo para iniciar a sessão conjunta do Congresso. Pouco depois, Trump termina seu discurso. "Estamos indo para o Capitólio", diz ele. "Vamos tentar dar a eles [republicanos] o tipo de orgulho e ousadia que eles precisam para recuperar nosso país." Após discursar, Trump volta à Casa Branca. Ele não vai ao Capitólio. Nos degraus da parte de trás do Capitólio, os manifestantes entram em conflito com a polícia, que corre de volta para o prédio. Manifestantes assistindo do lado de fora aplaudem quando uma multidão rompe as barricadas finais das forças de segurança. Dentro do prédio, tanto a Câmara quanto o Senado prosseguem, com os legisladores aparentemente inconscientes do caos do lado de fora. Manifestantes quebram janelas e sobem no Capitólio. Eles abrem as portas para outros seguirem e o caos se instala, com mais de 140 policiais acabando feridos e um total de 5 mortos. Quão fácil é influenciar uma multidão? Iremos agora verificar as estatísticas coletadas após o evento: Em números levantados pelo jornalista Alan Feuer do New York Times, das mais de 700 pessoas que foram acusadas até agora, apenas um em cada 10 era membro de um grupo extremista de extrema direita. 12% tinham antecedentes militares. Mais da metade tinha empregos de colarinho branco ou possuía seus próprios negócios. Haviam médicos, advogados, professores substitutos, diáconos da igreja. Havia um funcionário do Departamento de Estado. Tendo isto em mente, podemos observar que só uma pequena parte da multidão era composta por incitadores e radicais. A grande maioria dos manifestantes eram pessoas comuns, que se descrevem e foram descritos por pessoas que os conhecem como bons vizinhos, freqüentadores de igrejas, líderes comunitários. Muitos deles nunca tinham sido particularmente envolvidos com política no passado. Por que isso é importante? Por que demonstra claramente que não é necessário que exista um grupo inteiro composto por pessoas decididas a tomar uma decisão. Somente uma pequena porcentagem de indivíduos tomando atitudes com confiança influenciam um grande número de pessoas. Isso se chama Mentalidade de Rebanho, ou Mentalidade de Manada. Aliando o discurso inflamatório de Trump, a insatisfação e o medo causados pela pandemia de COVID-19, as incertezas sobre o futuro do país, muitos americanos simplesmente foram para a rua para extravasarem as suas emoções negativas, virando massa de manobra para um pequeno grupo de pessoas da extrema-direita, que já planejavam há algum tempo uma ação mais "forte" em relação às eleições. Essas pessoas acabaram sendo levadas à justiça após o evento, muitas sendo isoladas pelas suas comunidades, amigos e parentes, perdendo emprego e bolsas escolares, como consequência de terem participado da manifestação. Ao serem entrevistadas, elas dizem: "Se eu pudesse, não teria tomado essa decisão. Não teria saído de casa naquele dia." Brasil e as eleições de 2022 Neste ano teremos eleições presidenciais no Brasil, assim como eleições para a Câmara, Senado e governo dos Estados. O que podemos esperar? Aqui, como nos Estados Unidos, temos diversos grupos de direita e extrema-direita em território brasileiro espalhando fake news em relação à diversos temas, tais como a COVID-19, vacinas, urnas eletrônicas, censura, etc. Um exemplo é o post abaixo, publicado pela organização MBL (Movimento Brasil Livre), sobre as políticas de verificação de fatos do Facebook. Há inclusive uma comissão na câmara para verificar notícias falsas, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito - Fake News, com a finalidade de investigar os ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público, a prática de cyberbullying sobre os usuários mais vulneráveis da rede de computadores, bem como sobre agentes públicos e o aliciamento e orientação de crianças para o cometimento de crimes de ódio e suicídio. Com um grande fluxo de informações que raramente são verificadas espalhadas por Whats App e outros mensageiros, a possibilidade de discursos inflamados realizados pelo atual presidente Jair Bolsonaro e um clima de insatisfação geral fomentado pela crise econômica, alta dos preços e variantes da pandemia, não é um absurdo prever que algo semelhante ao ataque de 6 de Janeiro ocorra no Brasil, em 2022. Fontes: Podcast The Daily: Jan 6, Part 1: 'The Herd Mentality' - https://podcasts.apple.com/us/podcast/jan-6-part-1-the-herd-mentality/id1200361736?i=1000546990069 Wikipédia, artigo sobre "Comportamento de Manada": https://pt.wikipedia.org/wiki/Comportamento_de_manada Artigo do El País sobre Fake News: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/actualidad/1526600912_648575.html Números do LA Times: https://www.latimes.com/politics/story/2022-01-05/by-the-numbers-jan-6-anniversary Site do Senado sobre a CPMI das Fake News: https://legis.senado.leg.br/comissoes/comissao?codcol=2292
- O crescimento do neonazismo no Brasil
Grupos neonazistas cresceram 270% no Brasil em 3 anos, tendo amplo eco no populismo de Bolsonaro e nas correntes de ódio que se propagam nas redes sociais. A onda bolsonarista e a falta de conhecimento político tem amplificado o crescimento de grupos extremistas, o aumento de crimes de apologia ao nazismo e a intensa disseminação de conteúdos com teor neonazista na internet, algo que foi identificado em pesquisas publicadas nos últimos meses. Neste artigo irei analisar estes dados e também comentar sobre a falsa noção de que a liberdade de expressão deve ser defendida para discursos totalitários e intolerantes. O que é Neonazismo? O neonazismo é o resgate do nazismo na atualidade, mas com uma face repaginada, a fim de ter mais sintonia com a época atual. Continuam as ideias nazistas, como a do racismo, do nacionalismo, do antissemitismo e do anticomunismo. Para os neonazistas, assim como no nazismo alemão, há apenas uma raça soberana: a “raça pura ariana”. Os principais alvos de discriminação são: comunistas, judeus, indígenas, negros e homossexuais. Da mesma maneira que vários tipos de preconceito se disseminam, como a xenofobia, ele tem causas em questões pelas quais certo país está passando, como desemprego, poucas oportunidades de trabalho, crescente criminalidade, entre vários outros contextos nacionais. Para eles, uma forma de combater esses problemas é depositar a culpa desses problemas na presença e cultura do outro no país, como imigrantes, refugiados, estrangeiros. O grande diferencial do neonazismo é o uso de outra abordagem para a disseminação de suas ideias. Por exemplo, quando defendem suas ideias ao clamar por uma “salvação nacional”, considerando-se “libertadores” que valorizam a pátria e dela se orgulham. Esses são exemplos da utilização de palavras brandas, os famosos eufemismos, para maquiar a origem de seus ideais e ter a possibilidade de atrair mais pessoas, principalmente aquelas que já se identificam com ideais da extrema-direita. O discurso de “nós” contra “eles” é o mesmo, só está repaginado. No Brasil O Neonazismo no Brasil teve início na década de 1980, a partir de alguns grupos de skinhead (“cabeças raspadas”). Sua origem foi influenciada pela estagnação econômica no fim da ditadura militar no país e incerteza política na época da redemocratização. Este contexto facilitou a assimilação por grupos de jovens brasileiros das ideias do movimento neonazista internacional, enquadrando-se também em uma tendência global de expansão do movimento, até então relativamente restrito ao seu berço, o Reino Unido, fortalecido pelo sucesso político da ultraconservadora e racista Frente Nacional britânica. De acordo com a pesquisadora Adriana Dias, o neonazismo vai começar a se desenvolver de fato depois dos anos 2000 com grupos revisionistas do Holocausto, principalmente, no Sul e preferencialmente em Santa Catarina. Ele vai se expandindo cerca de 8% ao ano até 2009, quando ocorre uma briga entre dois grandes grupos e a liderança de um desses é assassinada e, por isso, acabam diminuindo. E a cena “nazi” volta a aparecer em público de novo só em 2011, quando os neonazistas de São Paulo chamam um ato pró-Bolsonaro. Mas eles vêm para a superfície de fato quando o Bolsonaro começa a aparecer na TV e tem a fala inflamatória dele – que é uma pessoa que tem capacidade de fazer movimentos de ódio se manifestarem na sociedade – e isso faz com que os grupos venham crescendo e agora é de uma forma absurda. Hoje são 530 células que estão ligadas a várias vertentes diferentes que não necessariamente conversam entre si. Entre os grupos extremistas, neonazistas são a maioria. Adriana explica que eles têm semelhanças entre si: "Eles começam sempre com o masculinismo, ou seja, eles têm um ódio ao feminino e por isso uma masculinidade tóxica. Eles têm antissemitismo, eles têm ódio a negro, eles têm ódio a LGBTQIAP+, ódio a nordestinos, ódio a imigrantes, negação do holocausto", enumera. Algo que também tem deixado muitas pessoas em alerta é o aumento de crimes ligados ao neonazismo. Um levantamento feito pelo jornal O Globo publicado em maio do ano passado mostrou que as denúncias apuradas pela Polícia Federal para crimes de apologia ao nazismo também explodiram. Até pouco tempo atrás, eram raros os inquéritos, entre 4 e 20 a cada ano. A virada se deu em 2019, quando foram abertas 69 investigações de apologia do nazismo. A situação piorou em 2020, quando os policiais federais investigaram 110 casos — um novo inquérito a cada três dias, em média. Levando em conta as 36 ocorrências investigadas pela PF nos cinco primeiros meses de 2021, é possível esperar que o ano passado tenha mantido a tendência de alta dos dois anteriores. Governo Bolsonaro e o neonazismo Na visão de Odilon Caldeira Neto, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a associação entre o nazismo e a figura do presidente pode ser estabelecida, mas é complexa. O pesquisador, que é um dos coordenadores do Observatório da Extrema Direita no Brasil, aponta que é preciso entender o que diferencia o "bolsonarismo" do próprio Bolsonaro. "É bom sempre separar o governo Bolsonaro, essa instância mais institucional de representação, um governo como tal, do que é o bolsonarismo (...). O bolsonarismo é um fenômeno que transcende ao governo em si. Ele não é tutelado pelo governo", diz. Caldeira Neto afirma, contudo, que o governo federal, em diversas oportunidades, sinalizou aos apoiadores mais radicalizados, ligados inclusive ao pensamento neonazista: "A presença de símbolos fascistas ou nazistas não é apenas fruto exclusivamente da associação de indivíduos e militantes neonazistas ao bolsonarismo. Muitas vezes, esse é um esforço do próprio governo". "A utilização de slogans, de figuras de linguagem, de simbologias nazistas ou fascistas, é também parte do esforço de se compreender como parte de uma história de uma trajetória da extrema direita brasileira e internacional", defende. "É uma via de mão dupla: de um lado, são os movimentos e lideranças do neonazismo tentando imprimir a sua faceta no bolsonarismo e no governo Bolsonaro; de outro lado, é o governo buscando radicalizar as suas bases por meio da chave, dos lemas e das imagens do imaginário fascista e nazista na atualidade", explica Caldeira Neto. Liberdade de expressão e discursos totalitários Tivemos nesta segunda-feira (7) um episódio na internet que trouxe à tona a antiga desculpa de que a liberdade de expressão deve ser usada para dar fala inclusive por aqueles para aqueles que tem discursos fascistas. Em uma live no Youtube, Monark, apresentador do Flow Podcast, defendeu a existência de um partido nazista no Brasil que fosse reconhecido legalmente. Após a repercussão negativa da fala, o podcaster perdeu patrocínios, pediu desculpa e disse que estava bêbado. O comentário de Bruno Aiub, conhecido como Monark, foi feito na edição desta segunda-feira do podcast, da qual participavam Kim Kataguiri (Podemos) e Tabata Amaral (PSB). Criado por Monark e por Igor Coelho (Igor 3K), o Flow é um dos podcasts com maior audiência do Brasil e tem 3,6 milhões de inscritos só no YouTube. O podcast já perdeu patrocinadores, e em 2021 Monark foi muito criticado após ter questionado no Twitter se "ter opinião racista é crime". Nesta segunda, Monark disse: "A esquerda radical tem muito mais espaço do que a direita radical, na minha opinião. As duas tinham que ter espaço. Eu sou mais louco que todos vocês. Eu acho que o nazista tinha que ter o partido nazista, reconhecido pela lei". Tabata rebateu o comentário e falou que a "liberdade de expressão termina onde a sua expressão coloca em risco a vida do outro". "O nazismo é contra a população judaica e isso coloca uma população inteira em risco", afirmou a parlamentar. Este tipo de atitude é resultado de uma falta de conhecimento político e histórico que vem há anos sendo aproveitada pelos grupos neonazistas e neofascistas para se articularem e ganharem cada vez mais seguidores, principalmente em redes sociais. O analfabetismo político de grande parte da população vai aos poucos deixando claro que "aqueles que gritam mais alto serão ouvidos", mesmo que a mensagem seja de ódio e intolerância. Pesquisadores alertam que quando um grupo de pessoas se organizam em torno da ideia de que é melhor de que os outros por causa da cor da pele, da religião, da região que nasceu, ou pela identidade de gênero ou orientação sexual, o resultado é violência e morte. Isso não deve ser aceito, de forma alguma. Não se deve ser tolerante com os intolerantes. Fontes: Entrevista – Adriana Dias: Bolsonaro e o neonazismo. Uma relação comprovada: https://fpabramo.org.br/focusbrasil/2021/08/15/entrevista-adriana-dias-bolsonaro-e-o-neonazismo-uma-relacao-comprovada/ Reportagem do Fantástico - Grupos neonazistas crescem 270% no Brasil em 3 anos; estudiosos temem que presença online transborde para ataques violentos: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/01/16/grupos-neonazistas-crescem-270percent-no-brasil-em-3-anos-estudiosos-temem-que-presenca-online-transborde-para-ataques-violentos.ghtml Artigo do Politize! - Neonazismo: o rosto do nazismo na atualidade: https://www.politize.com.br/neonazismo-o-rosto-do-nazismo-na-atualidade/ Matéria do Brasil de Fato - Há uma onda neonazista no Brasil? Entenda o que dizem os números e especialistas no tema: https://www.brasildefato.com.br/2022/01/27/ha-uma-onda-neonazista-no-brasil-entenda-o-que-dizem-os-numeros-e-especialistas-no-tema Artigo da Wikipédia - Neonazismo no Brasil: https://pt.wikipedia.org/wiki/Neonazismo_no_Brasil Episódio 149 do Podcast Historiante - O crescimento do neonazismo no Brasil: https://open.spotify.com/episode/397UsRkw3eaXKpka4ij6BS?si=BQzvA7GDTMypQI71ooWPnQ&utm_source=whatsapp&nd=1
- Especial Resgatando a História: Campos de Concentração nos EUA
Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo americano tomou a decisão de internar em campos de concentração os nipo-americanos que viviam nos Estados Unidos na época, com a justificativa de manter a "segurança nacional". Cerca de 120 mil pessoas de ascendência japonesa, a maioria das quais vivia na costa do Pacífico, foram realocadas à força e encarceradas em campos de concentração no interior ocidental do Estados Unidos, de 1941 a 1944. Aproximadamente dois terços das pessoas detidas eram cidadãos dos Estados Unidos. Essas ações foram emitidas pelo presidente Franklin D. Roosevelt via ordem executiva logo após o ataque do Japão Imperial a Pearl Harbor. O internamento foi considerado uma manifestação de racismo - embora tenha sido implementado com a alegação de mitigar um risco de segurança que os nipo-americanos representavam, a escala do internamento em proporção ao tamanho da população nipo-americana superou em muito medidas semelhantes que foram realizados com alemães e ítalo americanos, que eram em sua maioria não cidadãos. A Califórnia definiu qualquer pessoa com 1/16 ou mais de linhagem japonesa como uma pessoa que deveria ser internada. O coronel Karl Bendetsen, arquiteto do programa, chegou a dizer que qualquer pessoa com "uma gota de sangue japonês" se qualificava. Histórico da Imigração Japonesa nos Estados Unidos A sociedade norte-americana recebeu grande número de imigrantes que, na virada do século XIX para o XX, viram no continente americano uma chance de buscar melhores condições de vida. Um dos grandes grupos a migrarem para os Estados Unidos nesse contexto foram os japoneses. Como o Japão enfrentava mudanças radicais desde a Restauração Meiji, os Estados Unidos foram vistos como um local propício para a imigração. Os japoneses que migraram para os Estados Unidos nesse momento concentraram-se no Havaí e na Costa Oeste por causa da proximidade geográfica e trabalhavam em diversas aéreas, principalmente em fazendas e em obras de construção das ferrovias. A comunidade japonesa cresceu rapidamente e, por volta da década de 1920, 110 mil japoneses e descendentes de japoneses viviam nos Estados Unidos. À medida que a população nipo-americana continuava a crescer, os europeus americanos que viviam na Costa Oeste resistiram à chegada desse grupo étnico, temendo a concorrência e fazendo a afirmação exagerada de que "hordas de asiáticos estavam ansiosos para assumir terras agrícolas e negócios de propriedade branca". Grupos como a Liga de Exclusão Asiática, o Comitê Conjunto de Imigração da Califórnia e os Filhos Nativos do Oeste Dourado se organizaram em resposta ao surgimento desse "Perigo Amarelo". Os grupos citados fizeram lobby com sucesso para restringir os direitos de propriedade e cidadania dos imigrantes japoneses, assim como outros grupos semelhantes haviam se organizado anteriormente contra os imigrantes chineses. A partir do final do século 19, várias leis e tratados que tentaram retardar a imigração do Japão foram introduzidas. A Lei de Imigração de 1924, que seguiu o exemplo da Lei de Exclusão Chinesa de 1882, efetivamente baniu toda a imigração do Japão e de outros países asiáticos "indesejáveis". A proibição de imigração de 1924 produziu grupos geracionais bem definidos dentro da comunidade nipo-americana. Os issei eram exclusivamente os japoneses que haviam imigrado antes de 1924, alguns deles inclusive ainda desejavam retornar à sua terra natal. Como não eram permitidos mais imigrantes, todos os nipo-americanos nascidos após 1924 eram, por definição, nascidos nos EUA e, por lei, eram automaticamente considerados cidadãos dos EUA. Os membros dessa geração, nisei, constituíam uma camada distinta da qual seus pais pertenciam. Além das diferenças geracionais usuais, os homens Issei eram tipicamente dez a quinze anos mais velhos que suas esposas, tornando-os significativamente mais velhos que as crianças mais novas em suas famílias. A lei dos EUA proibia os imigrantes japoneses de se tornarem cidadãos naturalizados, tornando-os dependentes de seus filhos sempre que alugassem ou comprassem propriedades. A comunicação entre crianças de língua inglesa e pais que falavam principalmente ou completamente em japonês era muitas vezes difícil. Um número significativo de nisseis mais velhos, muitos dos quais nascidos antes da proibição de imigração, se casaram e já formaram suas próprias famílias quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial. O Ataque de Pearl Harbor Durante as décadas de 1920 e 1930, a relação entre Estados Unidos e Japão sofreu grande desgaste, o que resultou no ataque japonês à base naval americana de Pearl Harbor no Havaí, no dia 7 de dezembro de 1941. A declaração de guerra americana ao Japão aconteceu no dia seguinte. Com o conflito entre essas duas nações, a comunidade japonesa passou sofrer intensa perseguição dentro dos Estados Unidos. Os descendentes de japoneses, ou nipo-americanos, passaram a ser vistos de maneira estereotipada e sofreram as consequências de boatos infundados e acusações de colaboracionismo. A comunidade nipo-americana passou a ser acusada de espionagem e de preparar-se para apoiar a invasão do exército japonês na Costa Oeste. Os boatos eram infundados, e a inteligência americana sabia que não havia nenhum tipo de colaboracionismo presente na comunidade japonesa. Vários questionamentos sobre a lealdade dos descendentes de japoneses pareciam derivar do preconceito racial e não de qualquer evidência de má conduta. O relatório da Comissão Roberts, que investigou o ataque a Pearl Harbor, foi divulgado em 25 de janeiro e acusou pessoas de ascendência japonesa de espionagem. Embora a principal descoberta do relatório tenha sido que o general Walter Short e o almirante E. Kimmel haviam sido negligentes em seus deveres durante o ataque a Pearl Harbor, uma passagem fazia referências vagas a "agentes consulares japoneses e outras pessoas sem relações com o serviço de espionagem japonês" transmitindo informações para o Japão. Era improvável que esses "espiões" fossem nipo-americanos, pois os agentes de inteligência japoneses desconfiavam de seus colegas americanos e preferiam recrutar "brancos e negros". A mídia nacional e da costa oeste, no entanto, usaram o relatório para difamar os nipo-americanos e inflamar a opinião pública contra eles. O General John L. DeWitt, que administrou o programa de internamento, disse repetidamente aos jornais que "Um japonês é um japonês" e testemunhou ao Congresso: "Não quero nenhum deles [pessoas de ascendência japonesa] aqui. Eles são um elemento perigoso. Não há como determinar sua lealdade... Não faz diferença se ele é um cidadão americano, ele ainda é um japonês. A cidadania americana não determina necessariamente a lealdade... Mas devemos nos preocupar com os japoneses o tempo todo até que sejam varridos do mapa." Ordem Executiva 9066 A Ordem Executiva 9066, assinada por Franklin D. Roosevelt em 19 de fevereiro de 1942, autorizou os comandantes das forças armadas a designar "áreas militares" a seu critério, "das quais qualquer ou todas as pessoas podem ser excluídas". Essas "zonas de exclusão", eram aplicáveis a qualquer um que o comandante militar autorizado pudesse escolher, fosse cidadão ou não cidadão. Em 2 de março de 1942, o general DeWitt, comandante da Defesa Ocidental, anunciou publicamente a criação de duas zonas militares restritas. A Área Militar No. 1 consistia na metade sul do Arizona e na metade ocidental da Califórnia, Oregon e Washington, bem como toda a Califórnia ao sul de Los Angeles. A Área Militar No. 2 cobria o resto desses estados. A proclamação de DeWitt informou aos nipo-americanos que eles seriam obrigados a deixar a Área Militar 1, mas afirmou que eles poderiam permanecer na segunda zona restrita. A remoção de pessoas na Área Militar No. 1 ocorreu inicialmente por meio de "evacuação voluntária". Os nipo-americanos eram livres para ir a qualquer lugar fora da zona de exclusão ou dentro da Área 2, com arranjos e custos de realocação a serem arcados pelos indivíduos. A política durou pouco; DeWitt emitiu outra proclamação em 27 de março que proibia os nipo-americanos de deixar a Área 1. Um toque de recolher noturno, também iniciado em 27 de março de 1942, impôs mais restrições aos movimentos e à vida cotidiana dos nipo-americanos. O despejo de nipo-americanos da Costa Oeste começou em 24 de março de 1942, com a Ordem de Exclusão Civil Nº 1, que deu aos 227 nipo-americanos residentes de Bainbridge Island, estado de Washington, seis dias para se prepararem para sua "evacuação" diretamente para Manzanar. O governador do Colorado, Ralph Lawrence Carr, foi o único funcionário eleito a denunciar publicamente o internamento de cidadãos americanos (um ato que custou sua reeleição, mas lhe rendeu a gratidão da comunidade nipo-americana, de modo que uma estátua dele foi erguida em Sakura, em Denver. Um total de 108 ordens de exclusão emitidas pelo Comando de Defesa Ocidental nos próximos cinco meses completaram a remoção de nipo-americanos da Costa Oeste em agosto de 1942. Além de prender os descendentes de japoneses nos EUA, os EUA também internaram japoneses deportados da América Latina. Treze países latino-americanos — Bolívia, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e Peru — cooperaram com os EUA apreendendo, detendo e deportando para os EUA 2.264 japoneses Cidadãos latino-americanos e residentes permanentes de ascendência japonesa. Manzanar Manzanar foi o local de um dos dez campos de concentração americanos, onde nipo-americanos foram encarcerados durante a Segunda Guerra Mundial, de março de 1942 a novembro de 1945. Está localizado no sopé das montanhas de Sierra Nevada, no vale de Owens, na Califórnia, entre as cidades de Lone Pine ao sul e Independence ao norte, aproximadamente 370 km ao norte de Los Angeles. Manzanar significa "pomar de maçãs" em espanhol. Foi o primeiro dos dez campos de concentração a serem estabelecidos, e começou a aceitar detentos em março de 1942. Inicialmente, era um "centro de recepção" temporário, conhecido como Owens Valley Reception Center, de 21 de março de 1942 a 31 de maio de 1942. Naquela época, era operado pela Wartime Civilian Control Administration (WCCA) do Exército dos EUA. O Owens Valley Reception Center foi transferido para a WRA - War Relocation Authority (Autoridade para Realocação em Tempos de Guerra) em 1º de junho de 1942 e tornou-se oficialmente o "Centro de Relocação da Guerra de Manzanar". Em meados de abril, em torno de mil nipo-americanos chegavam diariamente e, em julho, a população do campo se aproximava de dez mil pessoas. Cerca de 90% dos encarcerados eram da área de Los Angeles, com o restante vindo de Stockton, Califórniaa e Ilha Bainbridge, Washington. Muitos eram agricultores e pescadores. Manzanar manteve aproximadamente 10.040 adultos e crianças encarcerados em seu auge. O clima em Manzanar causou sofrimento aos cidadãos, poucos dos quais estavam acostumados aos extremos climáticos da região. Enquanto a maioria das pessoas era da área de Los Angeles, algumas eram de lugares com climas muito diferentes (como Bainbridge Island em Washington). Os edifícios temporários eram inadequados para proteger as pessoas das intempéries. Os verões no solo do deserto do Vale Owens são geralmente quentes, com temperaturas superiores a 38 ° C não sendo incomuns. Os invernos trazem neve ocasional e temperaturas diurnas que geralmente caem na faixa de 4 °C . A poeira sempre presente era um problema contínuo devido aos ventos fortes frequentes; tanto que as pessoas geralmente acordavam de manhã cobertas da cabeça aos pés com uma fina camada de poeira, e constantemente tinham que varrer a sujeira do campo. "No verão, o calor era insuportável", disse o ex-detento de Manzanar, Ralph Lazo. "No inverno, o petróleo escassamente racionado não aqueceu adequadamente o quartel de pinho com buracos no chão. O vento soprava tão forte que jogava pedras ao redor." Depois de serem arrancadas de suas casas e comunidades, as pessoas encarceradas tiveram que suportar condições primitivas e uma extrema falta de privacidade. Tinham que esperar na fila para fazer refeições, nas latrinas e na lavanderia. Cada acampamento foi planejado para ser auto-suficiente, e Manzanar não foi exceção. As cooperativas operavam vários serviços, como o jornal do acampamento, salões de beleza e barbearias, conserto de sapatos, bibliotecas e muito mais. Além disso, havia alguns que criavam galinhas, porcos e legumes e cultivavam os pomares existentes para fruta. Durante o tempo em que Manzanar estava em operação, 188 casamentos foram realizados, 541 crianças nasceram no campo e entre 135 e 146 indivíduos morreram. O fim dos campos Em 18 de dezembro de 1944, a Suprema Corte proferiu duas decisões sobre a legalidade do encarceramento sob a Ordem Executiva 9066. Korematsu v. Estados Unidos, uma decisão de 6 a 3 sustentando a condenação de um nisei por violar a ordem de exclusão militar, afirmou que, em Em geral, a remoção de nipo-americanos da Costa Oeste era constitucional. No entanto, Ex parte Endo declarou por unanimidade naquele mesmo dia que cidadãos leais dos Estados Unidos, independentemente de descendência cultural, não poderiam ser detidos sem justa causa. Com efeito, as duas decisões afirmavam que, embora o despejo de cidadãos americanos em nome da necessidade militar fosse legal, o encarceramento subsequente não o era - abrindo assim o caminho para sua libertação. Alertado para a decisão da Corte, o governo Roosevelt emitiu a Proclamação Pública nº 21 um dia antes das decisões de Korematsu e Endo serem tornadas públicas, em 17 de dezembro de 1944, rescindindo as ordens de exclusão e declarando que os nipo-americanos poderiam retornar à Costa Oeste no mês seguinte. Embora o diretor da WRA, Dillon Myer, e outros tenham pressionado por um fim antecipado do encarceramento, os nipo-americanos não foram autorizados a retornar à Costa Oeste até 2 de janeiro de 1945, sendo adiados até depois da eleição de novembro de 1944, para não atrapalhar a campanha de reeleição de Roosevelt. Muitos internos mais jovens já haviam se "reassentado" em cidades do Centro-Oeste ou do Leste para buscar oportunidades de trabalho ou educação. (Por exemplo, 20.000 foram enviados para Lake View em Chicago). A população restante começou a deixar os campos para tentar reconstruir suas vidas em casa. Os cidadãos que haviam sido detidos receberam 25 dólares e uma passagem de trem para seus locais de residência pré-guerra, mas muitos tinham pouco ou nada para onde voltar, tendo perdido suas casas e negócios. Quando os nipo-americanos foram enviados para os campos, eles só podiam levar alguns itens com eles e, enquanto encarcerados, só podiam trabalhar em empregos escassos com um pequeno salário mensal de US$ 12 a US$ 19. Assim, quando o internamento terminou, os nipo-americanos não só não podiam voltar para suas casas e negócios, mas tinham pouco ou nada para sobreviver, muito menos o suficiente para começar uma nova vida. Alguns emigraram para o Japão, embora muitos desses indivíduos tenham sido "repatriados" contra a sua vontade. Os campos permaneceram abertos para residentes que não estavam prontos para retornar (principalmente idosos Issei e famílias com crianças pequenas), mas a WRA pressionou os últimos a sair eliminando gradualmente os serviços no campo. Aqueles que não haviam saído até a data de fechamento de cada campo foram removidos à força e enviados de volta para a Costa Oeste. Ao longo da década de 1950, uma série de grupos comunitários passou a lutar para defender os direitos da comunidade japonesa nos Estados Unidos, o que resultou em um pedido de desculpa formal dado pelo governo americano durante a presidência de Ronald Reagan, em 1988. Além disso, cada prisioneiro sobrevivente foi indenizado em cerca de 20 mil dólares pelo tempo que passou nos campos. Este episódio vergonhoso da história norte-americana, que é pouco divulgado pela mídia do país, serve para lembrar que a violência do estado, principalmente em tempos de guerra, pode ocorrer sem motivo ou razão, simplesmente baseado em preconceitos. A história registrada nos mostra que, em tempos difíceis, a ignorância e o medo podem ser a causa de muito sofrimento para minorias. Fontes: Vídeo do canal ¡Viva la Revolución! : https://www.youtube.com/watch?v=SAUdb4q0G78 Artigo do História do Mundo: https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/campos-concentracao-nos-eua.htm Artigo em inglês da Wikipédia sobre o fato: https://en.wikipedia.org/wiki/Internment_of_Japanese_Americans
- Guerra da Ucrânia: Crise humanitária e fluxo de refugiados
Após mais de um mês de guerra, o conflito tem deixado cicatrizes profundas no povo ucraniano. Mais de dez milhões de pessoas já tiveram que se deslocar de suas casas, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Com diversos relatos de violência contra civis, muitos ucranianos estão fugindo das zonas de combate, temendo pela vida. Um reflexo dos conflitos desde o início da história humana, o deslocamento forçado de pessoas é hoje uma das principais consequências da invasão russa na Ucrânia. Para onde essas pessoas estão indo? Qual é a situação destas pessoas e como elas estão fazendo para se refugiar tanto dentro da Ucrânia como em outros países? Tentaremos responder algumas destas perguntas neste artigo, analisando também o contexto dessas movimentações em um território assolado pela guerra. Para onde se deslocam os ucranianos em fuga? Os número mostrados abaixo são baseados em uma pesquisa realizada pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) entre 9 e 16 de março deste ano. Das 2.000 pessoas deslocadas internamente: Em torno de 30% vieram de Kiev, mais de 36% fugiram do leste da Ucrânia e 20% vieram do norte do país. Em torno de 40% se locomoveram para o oeste da Ucrânia, com menos de 3% em Kiev. Apenas 5% deixaram suas casas em antecipação à invasão, com a grande maioria fugindo no início da guerra ou quando os conflitos atingiram suas cidades. A OIM estima que mais da metade das pessoas deslocadas internamente são mulheres, e muitas são consideradas particularmente vulneráveis porque estão grávidas, têm deficiência ou são vítimas de violência. O que está sendo feito para as pessoas que fogem dentro da Ucrânia? A ONU, que está trabalhando ao lado de outras organizações para fornecer ajuda às pessoas na Ucrânia, informa que está oferecendo assistência humanitária "sempre que necessário e possível". Isso inclui: Fornecer dinheiro para as pessoas com intuito de suprir o básico, como comida e aluguel. Entregar suprimentos de oeste a leste, incluindo alimentos e lonas para casas danificadas por bombardeios. Fornecer camas dobráveis para pessoas em abrigos antiaéreos. Criação de pontos de recepção e trânsito para pessoas deslocadas internamente. Além dos 6,5 milhões de pessoas que deixaram suas casas, acredita-se que cerca de 12 milhões estejam retidas ou incapazes de deixar as áreas afetadas pelos combates. Para quais países os refugiados da Ucrânia estão indo? Os refugiados também estão se deslocando para países vizinhos a oeste, como Polônia, Romênia, Eslováquia, Hungria e Moldávia. Um relatório da ONU, datado de 27 de março, relata que 3,6 milhões de pessoas deixaram a Ucrânia: Polônia acolheu 2.293.833 refugiados Romênia 595.868 Moldávia 383.627 Hungria 354.041 Eslováquia 275.439 Rússia 271.254 Bielorrússia 9.075 Algumas pessoas viajaram da Moldávia para a Romênia e, portanto, estão incluídas no total de ambos os países, diz a ONU. Como os refugiados estão deixando a Ucrânia? Como eles são recebidos? Os trens em direção à fronteira da Ucrânia estão lotados e há longas filas de carros nas estradas que saem do país. Os refugiados não precisam de todos os seus documentos oficiais, mas são orientados a fornecer documentos de identificação ou passaportes, certidões de nascimento das crianças que viajam com eles e documentação médica. Para obter o status de refugiado, eles precisam ser cidadãos ucranianos ou pessoas que vivem legalmente na Ucrânia, como estudantes estrangeiros. Nos países que fazem fronteira com a Ucrânia, os refugiados podem ficar em centros de acolhimento, se não puderem ficar com amigos ou parentes. Eles recebem alimentação e cuidados médicos, além de informações sobre viagens posteriores. A União Europeia concedeu aos ucranianos que fogem da guerra o direito de permanecer e trabalhar em seus 27 países membros por até três anos. Eles também receberão assistência social e acesso a moradia, tratamento médico e escolas. O governo da Polônia, que recebeu o maior número de refugiados, disse que precisará de mais dinheiro do que a UE está oferecendo atualmente para receber o número de pessoas que chegam ao país, e a Moldávia, que tem de longe a maior concentração de refugiados per capita, também pediu ajuda internacional para lidar com o número de pessoas cruzando as fronteiras. Violência contra civis Desde o início da invasão russa, houve uma escalada da violência contra civis na Ucrânia. Há um grande número de relatos de ataques indiscriminados direcionados a civis, bem como outras atrocidades. As forças da Rússia destruíram prédios de apartamentos, escolas, hospitais, infraestrutura, veículos domésticos, shopping centers e ambulâncias, deixando milhares de civis mortos ou feridos. Muitos dos locais atingidos pelas forças da Rússia foram claramente identificados como sendo usados por civis. Isso inclui a maternidade de Mariupol, como o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos observou expressamente em um relatório de 11 de março, e também inclui um bombardeio que atingiu o teatro de Mariupol, quea havia sido claramente marcado com a palavra “дети” – russo para “crianças” – em letras enormes visíveis do céu. A cada dia que as forças da Rússia continuam seus ataques, o número de civis inocentes mortos e feridos, incluindo mulheres e crianças, aumenta. Em 22 de março, oficiais da cidade sitiada Mariupol disseram que mais de 2.400 civis haviam sido mortos somente naquela cidade. Sem incluir a devastação de Mariupol, as Nações Unidas confirmaram oficialmente mais de 2.500 vítimas civis, incluindo mortos e feridos, e enfatiza que o número real é provavelmente maior. Esse cenário cria consequências catastróficas para a região, porque o pânico gerado pela violência aumenta o deslocamento de pessoas e causa inúmeros problemas de infraestrutura tanto na Ucrânia como em países vizinhos, problemas esses que muito provavelmente irão se estender muito depois que a invasão acabar. Fontes: Reportagem da BBC com os números reportados pela ONU: https://www.bbc.com/news/world-60555472 Declaração do Departamento de Estado dos EUA sobre os crimes de guerra: https://www.state.gov/war-crimes-by-russias-forces-in-ukraine/















