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  • A música e dança estilo Kuduro – Uma expressão da criatividade e da cultura angolana

    O kuduro, um gênero vibrante de dança e música originário de Angola, evoluiu de um fenômeno urbano local a uma expressão cultural reconhecida internacionalmente. A dança, cujo nome (ku-duro) se traduz como “bunda dura” ou “traseiro rígido”, reflete tanto a criatividade quanto as realidades sociopolíticas da sociedade angolana. Sua origem remonta ao final do século XX, emergindo em meio ao contexto socioeconômico da Angola pós-guerra civil, e está intimamente ligada à interação dinâmica entre tradições locais e influências globais. Cena do documentário "I love Kuduro", mostrando uma roda de dança da expressão angola. Foto: Divulgação. Neste texto, faremos uma breve incursão pelo desenvolvimento histórico da dança Kuduro em Angola, examinando suas origens, transformações, significado sociocultural e difusão internacional. Para compreender o surgimento do Kuduro, é essencial situá-lo dentro da complexa história do País. Angola enfrentou séculos de domínio colonial português, seguidos por uma longa guerra de independência (1961-1975) e, posteriormente, uma devastadora guerra civil (1975-2002). Esses períodos de conflito deixaram marcas profundas na população angolana, especialmente na capital, Luanda, onde o Kuduro surgiu. A fragmentação das estruturas sociais, a urbanização acelerada e o deslocamento de grandes contingentes populacionais criaram um ambiente propício para o surgimento de novas expressões culturais, especialmente entre os jovens. O final do século XX foi marcado por uma rápida urbanização e mudanças demográficas, que transformaram Luanda, a cidade capital, em um “caldeirão” de inovação cultural. À medida que as populações rurais migravam para a cidade, traziam consigo diversas tradições musicais e de dança, que se misturavam com a cultura popular urbana. Esse sincretismo alimentou o surgimento de novas formas artísticas, incluindo o Kuduro. Nesse ambiente efervescente, a música e a dança tornaram-se meios vitais de expressão coletiva, de resiliência e de comentário social sobre a realidade angolana. O Surgimento do Kuduro: Inovações Musicais e Coreográficas Casal dançando Semba. Foto: Divulgação Os fundamentos musicais do Kuduro estão enraizados em uma fusão de ritmos tradicionais angolanos, como o semba, e a música eletrônica internacional. O gênero surgiu na década de 1990, fortemente influenciado pela proliferação da tecnologia de produção musical digital e pela circulação de sons globais como techno, house e hip-hop. Entre seus principais pioneiros destacam-se Sebem e Tony Amado, que desempenharam papel fundamental na consolidação do estilo. Os primeiros produtores de Kuduro exploraram baterias eletrônicas, sintetizadores e computadores, criando um som híbrido caracterizado por batidas frenéticas, síncope e vocais rápidos. Para muitos angolanos, o Kuduro representa mais do que entretenimento; é um símbolo de renovação nacional e reconstrução no período pós-guerra civil. O surgimento do gênero a partir das ruínas do conflito e sua celebração da vida urbana angolana ressoam com narrativas mais amplas de resiliência e esperança. A proeminência do Kuduro em celebrações nacionais, na mídia e no discurso público evidencia o papel central do Kuduro na formação da identidade angolana contemporânea . Dançarino de kuduro se apresentando no bairro de Sambizanga, Luanda, 2015. (Foto: Anita Baumann) O estilo de dança associado ao Kuduro é igualmente inovador, distinguindo-se pelos seus movimentos enérgicos, angulares e frequentemente improvisados. A dança Kuduro incorpora elementos de danças tradicionais angolanas, artes marciais e improvisação de rua, resultando num estilo que é simultaneamente exigente fisicamente e visualmente impactante. A coreografia apresenta frequentemente passos rápidos, movimentos de braço precisos e gestos acrobáticos, refletindo o dinamismo da vida urbana e a resiliência dos seus praticantes. Kuduro como expressão social e política O Kuduro é mais do que uma forma de arte: tornou-se um veículo para comentários sociais e expressão política. Na Angola pós-guerra, onde as dificuldades econômicas e a desigualdade social persistem, o Kuduro tem proporcionado uma plataforma para os jovens nos bairros rurais articularem as suas experiências, frustrações e aspirações. Por meio de letras, dança e performance, os artistas de Kuduro abordam questões como pobreza, violência e exclusão social, utilizando sua arte para desafiar narrativas dominantes e afirmar sua autonomia. O Kuduro também serve como um espaço para reposicionar o gênero e a sua identidade. Embora as primeiras cenas de Kuduro fossem dominadas por homens, as mulheres têm reivindicado cada vez mais espaço como dançarinas, produtoras e performers. Essa mudança reflete transformações mais amplas na sociedade angolana, onde os papéis de gênero tradicionais estão sendo redefinidos. Inicialmente, o Kuduro era apresentado em ambientes informais — esquinas, boates e encontros comunitários — fora do alcance das instituições estatais e dos circuitos culturais de elite. Com o passar do tempo, no entanto, o estilo ganhou reconhecimento do mercado nacional, com artistas de Kuduro alcançando status de celebridade e se apresentando em festivais nacionais e internacionais. Essa institucionalização trouxe maior visibilidade, oportunidades comerciais e, às vezes, tensão entre a autenticidade popular e a estética voltada para o mercado. A expansão global do Kuduro está intrinsecamente ligada às redes da diáspora angolana e aos fluxos transnacionais de cultura. Migrantes angolanos introduziram o Kuduro em países europeus como Portugal, França, Espanha, Inglaterra, onde foi acolhido por comunidades africanas e se fundiu com outros gêneros urbanos. Os Buraka Som Sistema em apresentação no Mauerpark, Berlim, em 2013. Foto: Wikipedia O sucesso internacional de artistas como Buraka Som Sistem, que popularizaram a música influenciada pelo Kuduro na Europa, demonstra a adaptabilidade e o apelo intercultural do gênero. Essa difusão contribuiu para reposicionar o Kuduro como um símbolo da criatividade africana contemporânea. Kuduro: Desafios e Transformações A comercialização do Kuduro apresenta tanto oportunidades quanto desafios. De um lado, o aumento do investimento e da visibilidade permitiu que os artistas tivessem acesso a novos mercados e profissionalizassem sua arte. De outro, alguns críticos argumentam que as pressões comerciais podem diluir a força de sua crítica social. A tensão entre inovação e autenticidade continua a alimentar debates dentro da comunidade dos Kuduristas. O advento das mídias digitais transformou a produção, disseminação e consumo do Kuduro. Plataformas de mídias sociais, sites de compartilhamento de vídeos e tecnologia móvel facilitam a rápida circulação de vídeos de música e dança Kuduro, permitindo que os artistas alcancem públicos globais e construam bases de fãs transnacionais. Essa virada digital democratizou a produção cultural, permitindo que novas vozes emergissem, ao mesmo tempo que expõe o gênero a novas formas de mercantilização. O Estado angolano, por vezes, buscou aproveitar a popularidade do Kuduro para fins de construção nacional. Iniciativas governamentais promoveram o gênero como um emblema de modernidade e vitalidade cultural, ao mesmo tempo em que tentaram regular seu conteúdo e formas de apresentação. Essa relação ambivalente reflete tensões mais amplas entre o controle estatal e a criatividade popular no cenário cultural de Angola. À medida que o Kuduro amadurece, questões de legado e inovação vêm à tona. Gerações mais jovens de artistas e dançarinos angolanos continuam a reinterpretar e reinventar o gênero, inspirando-se em novas influências e tecnologias. A proliferação de escolas de dança e organizações comunitárias dedicadas ao Kuduro atesta sua relevância permanente e capacidade de renovação. Esse processo de transmissão intergeracional garante que o Kuduro permaneça uma tradição viva e em constante evolução. O impacto internacional do Kuduro vai além da música e da dança, fomentando o diálogo e o intercâmbio intercultural. A fusão de elementos locais e globais do gênero desafia estereótipos sobre a produção cultural africana e reafirma a capacidade de ação dos artistas africanos na formação do cenário cultural global. À medida que o Kuduro continua a inspirar novas formas de expressão artística em todo o mundo, ele contribui para discussões mais amplas sobre diáspora, hibridismo e globalização. A história da música e dança Kuduro é mais um testemunho da resiliência, imaginação criativa e adaptabilidade dos jovens angolanos. Emergindo do contexto de conflito pós-colonial e da transformação urbana, o Kuduro evoluiu para uma força cultural dinâmica que traduz as complexidades da Angola contemporânea. Sua fusão de elementos tradicionais e modernos, seu papel como veículo de comentário social e empoderamento, e sua difusão internacional ressaltam sua importância como um fenômeno nacional e global. Embora persistam desafios relacionados à comercialização, autenticidade e regulamentação estatal, a capacidade de reinvenção do Kuduro garante sua vitalidade contínua. Enquanto Angola enfrenta os desafios do século XXI, o Kuduro permanece como um símbolo poderoso de alento, alegria, união, identidade e criatividade, uma tradição viva que continua a inspirar e a se reinventar. Isaac Jorge - É licenciado no Curso de Relações Internacionais pela Universidade Privada de Angola e trabalhou durante alguns anos na Missão Diplomática da República de Angola em Pretória - África do Sul. Além a experiência diplomática, nos últimos 18 anos tem estado ligado a atividade bancária, tendo assumido várias responsabilidades tais como Subdiretor na Direção de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, onde desenvolveu-se estudos para internacionalização do banco. Foi chefe de Departamento da banca de investimentos e Chefe de Departamento da Direção de Organização e Qualidade. Tem estado ligado a diferentes projetos de desenvolvimentos e de melhorias de produtos e serviços bancários e na formação de técnicos trabalhadores. É amante de esportes, principalmente o futebol Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme V. G. Referências Moorman, M. (2008) ‘Kuduro, Angola’s Music of War and Peace’, in Intonations: A Social History of Music and Nation in Luanda, Angola, from 1945 to Recent Times. Athens: Ohio University Press, pp. 206–241.

  • Alambamento: o casamento tradicional Angolano

    O casamento é uma instituição fundamental em todas as sociedades humanas, sendo não apenas um evento que celebra a união de duas pessoas, mas também um momento que solidifica laços familiares e comunitários. Cerimônia do Alambamento - Foto: apatria.org/turismo Em Angola, o casamento tradicional, conhecido como alambamento, desempenha um papel significativo na vida das famílias, impactando não apenas os noivos, mas também a todos os envolvidos no processo, como os pais, tios, irmãos e primos. De modos que aqui pretendemos explorar brevemente a natureza do casamento angolano tradicional, analisando suas tradições, rituais e o impacto que tem nas famílias envolvidas. O Alambamento ou pedido é um dos rituais de casamento mais tradicionais em Angola, sendo realizado por diversas etnias do país, acabando por ser um acontecimento mais importante do que o casamento civil ou religioso. Nesta ocasião, a família do noivo pede a “mão” da noiva à sua família, que via de regra é representada pelo tio mais velho do pai. Este ritual não se limita apenas à união de duas pessoas (os namorados ou futuros noivos), mas também envolve ambas as famílias. Antes do casamento, é comum que as famílias dos noivos se envolvam em longas negociações para determinar os dotes e presentes a serem trocados, o que pode ser um processo complexo e demorado. Como acontece? O processo do alambamento, tecnicamente tem o começo no momento em que o homem e a mulher se apaixonam e decidem se casar. Em seguida, ambos decidem comunicar aos seus parentes (pais e/ou tios) sobre a pretensão, e é então “negociada” (acordada) a data para a realização da cerimônia. Porém, é também nesta ocasião que os familiares da noiva, formalizam em carta o que esperam como apresentação do dote por ocasião da cerimônia, sendo que na carta é descrito o valor do dote (dependendo da família o valor pode variar em média entre USD 400 – USD 800 – cerca de R$ 2000,00 a R$ 4500,00). Outros bens como, fato (terno) completo para o pai da noiva, peças de pano africano (panos do Congo) para a mãe e eventualmente tias da noiva, grades (fardo) de cerveja e refrigerante, garrafas de vinho e de Whisky, par de sapatos e sandálias. Foto: https://eradoconhecimentoblog.wordpress.com/2015/10/08/o-casamento-e-o-alambatendo/comment-page-1/ Outro aspecto a considerar é que os pais da noiva ou do noivo não têm nenhum poder de decisão sobre o alambamento, sendo que a decisão é de inteira responsabilidade do tio (irmão mais velho do pai) que na tradição africana é o “chefe, responsável ou cabeça da família” e por esta razão, toma todas as decisões importantes que acontece na família, e o alambamento não é exceção. O dia do alambamento O dia agendado para a realização do pedido ou alambamento, é aguardado com grande expectativa por ambas as famílias, pois estão reservados grandes momentos e emocionantes. Normalmente, quando o noivo em companhia dos seus familiares chega ao local combinado para a cerimônia, é recebido com grande alegria e exultação pelos parentes da noiva, como se fosse um verdadeiro Príncipe! São estendidos no chão peças de pano do Congo, funcionando como uma passadeira, onde o noivo deverá passar, seguido dos familiares que o acompanham. Os familiares encontram também um ambiente completamente decorado com enfeites e flores coloridas. O cenário é de tal forma preparado que mais se parece a um tribunal, pois as famílias são colocadas em lados opostos, e duas cadeiras no centro de um dos extremos onde os noivos deverão sentar. O chefe da família da noiva, toma a palavra dando início a cerimônia, cumprimentando as famílias do noivo, tece algumas breves palavras e em seguida apresenta os membros da família da noiva. Nesta ocasião, o chefe de família pode indicar um outro membro para servir de interlocutor da cerimônia. No final da apresentação, ele passa a palavra ao chefe da família do noivo que também efetua o mesmo procedimento, começando por agradecer a recepção e logo após apresenta os familiares que o acompanham. Depois deste procedimento “protocolar” é dado início às conversações, onde são apresentadas as qualidades e perfil do respectivo noivo e vice-versa. É de realçar, que durante as discussões a noiva está sempre ausente e apenas presente o noivo. No decorrer das conversações, a família do noivo informa a outra parte que gostaria de ler a carta de pedido da noiva (a carta é lida pelo chefe da família ou alguém que ele delegar) e no final da leitura apresenta os bens (dote) trazidos em jeito de rogo pela mão da noiva e agradecimento pela recepção. Apresentação do noivo. Foto: https://www.embassyangolatr.org/cultura-tradicao-angolana/ Após este momento, a noiva é chamada e entregue à sua nova família, no caso a família do noivo sendo que a partir deste momento esta será a sua nova família. Este é certamente o momento alto da ocasião, pois há beijos entre os noivos, breves palavras de amor, troca das alianças de noivado e recepção da “bênção” dos pais, avós, tios e tias. Agora sim, os noivos podem se expressar, passando a explicação dos planos para o futuro, com destaque para a data provável para o casamento civil. Geralmente, no final da cerimônia e logo depois dos cumprimentos aos noivos dá-se início à festa para comemorar a união não apenas dos noivos mas também das famílias. Na festa, é servido comida típica angolana, bolos, vinho e cerveja. O impacto do alambamento na comunidade Durante a cerimônia de alambamento, a comunidade desempenha um papel fundamental, reunindo-se para celebrar a união dos noivos e abençoar a nova família que está sendo formada. É um momento de grande alegria e festividade, marcado por danças tradicionais, cantorias e rituais ancestrais. A presença da comunidade no casamento não apenas fortalece os laços sociais, mas também reforça a importância da família e da tradição angolana. O impacto do alambamento nas famílias envolvidas vai além da simples celebração do casamento. A entrega de dotes e presentes pode ter repercussões econômicas significativas para as famílias, particularmente do noivo, muitas vezes exigindo um grande investimento financeiro. Além disso, as conversas em torno do casamento, em alguns casos podem criar tensões e desacordos entre as famílias, especialmente se as expectativas de ambas as partes não forem atendidas. Outro aspecto importante a considerar é o papel das mulheres no casamento tradicional angolano. Embora o alambamento seja uma celebração da união de duas pessoas, a noiva muitas vezes é vista como um símbolo de status e prestígio para a família do noivo. Isso pode levar a uma valorização excessiva da noiva como um bem a ser adquirido, em detrimento de sua autonomia e liberdade de modo individual. Além disso, o casamento tradicional angolano também pode impactar a dinâmica familiar, especialmente no que diz respeito às relações de poder e autoridade. A partir do momento em que os noivos se casam, as famílias agora alargadas ganham influência sobre o casal, podendo influenciar suas decisões e seu estilo de vida. Isto pode gerar alguns conflitos e desafios para os recém-casados, que muitas vezes precisam conciliar as expectativas da família com os seus próprios desejos e aspirações. Por outro lado, quando surgirem problemas entre o casal, os pais e tios podem ser chamados para servirem numa espécie de mediadores com objetivo de dirimir o conflito entre ambos e voltar a convivência pacífica e amorosa. Finalmente, o casamento tradicional angolano (alambamento) desempenha um papel fundamental na vida das famílias e comunidades do país, sendo mais do que uma simples celebração de união. Suas tradições, rituais e impacto econômico e social podem moldar as relações familiares, a dinâmica de poder e a autonomia do casal. É importante reconhecer as complexidades e desafios que o Alambamento pode trazer, buscando promover um equilíbrio entre a tradição e a evolução da sociedade angolana. O Alambamento nos Direitos Africanos Moisés Mbambi, no artigo: O alambamento nos Direitos Africanos, diz que a palavra “alambamento é um neologismo que os angolanos criaram para preencher a lacuna verificada na língua portuguesa para designar ovilombo (pedido de casamento) em umbundu; ovilombo vem do verbo Umbundu Okulomba (pedir). Há quem refira ainda que alambamento vem da palavra umbundu okulemba (alegrar para consolar), por isso alguns pronunciam alembamento em vez de alambamento: porque a retirada da filha para o seu novo lar pode causar alguma tristeza aos pais, e há que consolá-los (com um presente!) explicam, assim, alguns filólogos a etimologia da palavra alambamento. Porém, acima de tudo, o alambamento é visto pelos africanos como um prêmio à noiva pelo seu bom comportamento pessoal e para seus pais que a criaram, porque não é muito fácil educar uma filha em virtudes, dadas as muitas tentações na vida que a espreitam. O bom comportamento dela pressupõe o bom comportamento dos seus pais, pelo que todos devem ser premiados: a filha e os seus pais! Este prêmio que é exatamente o alambamento!” Texto escrito por Isaac Jorge É licenciado em Relações Internacionais e possui experiência diplomática na Missão Diplomática de Angola na África do Sul. Nos últimos 18 anos, trabalhou no Banco Sol S.A., assumindo diversas responsabilidades, incluindo Subdiretor de Desenvolvimento de Negócios, Chefe de Departamento de Banca de Investimentos e Chefe de Departamento de Organização e Qualidade. Também é apaixonado por futebol. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto

  • O Evangelho segundo o Mercado: A Teologia da Prosperidade

    “Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” Lucas 18:24-25 Representação de um pastor de igreja evangélica e da teologia da prosperidade -Imagem gerada por inteligência artificial Há alguns anos venho observando o crescimento de igrejas e denominações que adotam a chamada "teologia da prosperidade" como estratégia para engajar fiéis. Mais do que isso: até instituições antigas e tradicionalmente distantes desse tipo de discurso, têm ajustado sua pregação para alinhar-se, ainda que parcialmente, a essa vertente. O pastor inicia o sermão com promessas: “Sirva a Deus, e Ele lhe trará riquezas, prosperidade, abrirá seus caminhos com bênçãos inúmeras — carro, casa, dinheiro.” A cada frase, a resposta é imediata. “Glória a Deus! Aleluia!” O público reage com entusiasmo, já projetando mentalmente o dinheiro na conta, o carro novo, a roupa impecável, a possibilidade de ostentar algo visível e recente. Nesse contexto, os sinais de prosperidade deixam de ser apenas consequência e passam a funcionar como validação espiritual e social. Ao longo dos anos frequentando esse ambiente, observei um padrão recorrente: a valorização de marcas visíveis de sucesso — roupas, carros, aparência — como evidência de bênção. Em comunidades mais fechadas, como apontam análises sociológicas, esses sinais também operam como mecanismos de distinção interna, conferindo influência e reconhecimento àqueles que mais se destacam. Essa lógica, contudo, entra em choque direto com os ensinamentos centrais do cristianismo. Jesus, figura essencial da fé, associava sua mensagem ao desapego material, à prática da caridade e à igualdade entre as pessoas. A ênfase não estava em acumular, mas em servir; não em ostentar, mas em renunciar. O que se observa, portanto, é uma transformação no modo de funcionamento dessas instituições. As igrejas passam a operar segundo uma lógica de expansão contínua: mais fiéis geram mais recursos; mais recursos ampliam presença em mídias como rádio, televisão e redes sociais; essa presença, por sua vez, atrai ainda mais fiéis. Forma-se, assim, um ciclo de crescimento que se retroalimenta, no qual a dimensão espiritual se entrelaça, de maneira cada vez mais evidente, com dinâmicas típicas de mercado. O problema, portanto, não é apenas teológico, mas também moral. Quando a prosperidade material é tratada como sinal de bênção divina, a pobreza passa a ser interpretada como falha espiritual. O pobre deixa de ser alguém a ser amparado e passa a ser visto, ainda que implicitamente, como alguém que ‘não teve fé suficiente’. A mensagem que antes exaltava a humildade, o desapego e o cuidado com o próximo é substituída por uma lógica de desempenho: quem prospera, merece; quem não prospera, fracassou. Do ponto de vista sociológico, esse fenômeno não surge de forma isolada, mas em sintonia com transformações mais amplas da sociedade contemporânea. Como já destacou Max Weber, a relação entre religião e vida econômica sempre foi estreita. No protestantismo clássico, porém, o acúmulo de riqueza estava associado à disciplina e ao ascetismo, e não à ostentação. O que se observa na teologia da prosperidade é uma inversão dessa lógica: a ética do trabalho e da contenção cede espaço a uma espiritualidade alinhada à cultura de consumo. Estudos recentes indicam que essa vertente religiosa não apenas convive com o consumismo, mas o legitima como expressão visível de fé, aproximando a experiência religiosa da lógica de mercado e da busca por distinção social, algo que dialoga diretamente com a noção de status explorada por Alain de Botton em seu livro ‘Desejo de Status’. Nesse contexto, a igreja deixa de ser apenas um espaço de orientação espiritual e passa a atuar também como agente de produção de sentido dentro de uma sociedade orientada pelo consumo. Ao apresentar a prosperidade material como evidência de favor divino, instaura-se um ciclo simbólico: testemunhos de sucesso são exibidos como prova da eficácia da fé, reforçando expectativas e incentivando comportamentos semelhantes entre os fiéis. Como apontam pesquisas sobre o neopentecostalismo no Brasil, essa dinâmica encontra terreno fértil em contextos de desigualdade social, nos quais a promessa de ascensão rápida e visível exerce forte apelo. O resultado é uma religiosidade que não apenas dialoga com o mundo material, mas que passa a mediá-lo, redefinindo valores, prioridades e, sobretudo, a própria noção de sucesso dentro da experiência religiosa. Pastores Milionários Templo de Salomão, maior templo evangélico do Brasil - Divulgação/Igreja Universal do Reino de Deus Porém, como em muitos sistemas organizados sob a lógica de mercado, os principais beneficiários dessa estrutura tendem a ser aqueles que ocupam posições de liderança. No caso das igrejas alinhadas à teologia da prosperidade, isso se manifesta na figura dos pastores, que concentram visibilidade, influência e, frequentemente, recursos financeiros. Podemos comparar esta nova onda das igrejas evangélicas com a Igreja Católica medieval: assim como naquele período, observa-se uma aproximação entre autoridade religiosa e poder político. As lideranças religiosas passam a atuar também como agentes de mobilização política, buscando influência sobre decisões públicas e ampliando sua presença em espaços institucionais, o que tensiona, em alguma medida, os limites práticos do Estado laico. O Brasil, em 2026, configura-se como um dos principais cenários desse fenômeno, marcado pelo crescimento expressivo do número de evangélicos nas últimas décadas. Dentro desse universo, a teologia da prosperidade se destaca como uma estratégia eficiente de expansão. Ao oferecer respostas imediatas — prosperidade, ascensão, solução de problemas concretos —, ela se adapta com facilidade a uma lógica de escala. As igrejas mais recentes conseguem atrair fiéis rapidamente, sobretudo pelo uso intensivo das redes sociais e da mídia digital, replicando modelos de crescimento típicos de mercado. Nesse ambiente competitivo, a promessa de resultados tangíveis funciona como diferencial, acelerando a adesão e consolidando a presença dessas instituições. Como já mencionei anteriormente, um dos pilares mais eficazes dessa lógica é o uso de testemunhos como ferramenta de validação. Relatos de fiéis que afirmam ter ‘prosperado’ após contribuições financeiras ou maior engajamento religioso são constantemente destacados como evidência da veracidade da doutrina. Esses casos, porém, não são apresentados como exceções, mas como regra implícita, gerando uma expectativa coletiva de que o mesmo resultado está ao alcance de todos. Trata-se de um mecanismo eficaz: ao transformar experiências individuais em narrativa institucional, a igreja reforça a ideia de causalidade entre fé, contribuição e retorno material, ainda que tal relação não se sustente de forma consistente na realidade. Esse processo é potencializado pelo uso intensivo da mídia e estratégias de comunicação modernas. Igrejas que adotam essa abordagem operam com elevado grau de profissionalização, utilizando redes sociais, transmissões ao vivo e produção de conteúdo para ampliar alcance e engajamento. O ‘pastor influencer’ tornou-se figura marcante da internet brasileira e vem assumindo papel cada vez mais ativo também na política nacional. Nesse ambiente, a fé passa a ser comunicada em formatos curtos, diretos e altamente apelativos, muitas vezes estruturados em torno de promessas e resultados. O discurso religioso, então, se adapta à lógica da atenção: quanto mais impactante e imediata a mensagem, maior sua capacidade de atrair e reter público. O resultado é uma religiosidade cada vez mais orientada pela performance, pela visibilidade e pelo crescimento. Estes elementos reforçam, mais uma vez, a convergência entre prática religiosa e dinâmica de mercado. Conclusão Por fim, cabe ao leitor a pergunta: o que está sendo vendido por essas igrejas? Fé ou expectativa? Na prática, os pastores fazem promessas sem qualquer garantia sobre o resultado de suas palavras. Os sermões desenham caminhos claros para a prosperidade, todavia sem qualquer compromisso real com o resultado prometido. Mas a expectativa é o suficiente. Em um contexto em que recompensas rápidas, estímulos constantes e a busca por mudança imediata moldam o comportamento, a promessa de transformação pessoal e material funciona como estratégia de engajamento. Vender uma expectativa plausível é suficiente. A cada culto, a cada testemunho, reforça-se a ideia de que a próxima conquista está próxima, que a virada de vida está ao alcance. É nesse ciclo, entre promessa, expectativa e renovação da esperança, que o sistema se sustenta. E, assim, o povo sofrido e desgastado pelo capitalismo é novamente explorado em seus desejos e sentimentos, desta vez, pela religião. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e Editor-chefe do Portal Águia, curioso e questionador por natureza. Fascinado por História e Tecnologia, passa seu tempo livre aprendendo sobre outras culturas, jogando vídeo-game e assistindo episódios perdidos de Star Wars e The Wire. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V. G. Referências COSTA, Jefferson Zeferino da. Teologia da prosperidade: uma releitura da Bíblia à luz do neopentecostalismo. Kerygma, Engenheiro Coelho, v. 4, n. 2, p. 45–60, 2008. Disponível em: https://revistas.unasp.edu.br/kerygma/article/view/202. Acesso em: 6 abr. 2026. SILVA, Elielson da. Teologia da prosperidade e sua relação com a sociedade de consumo. 2012. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/9744. Acesso em: 6 abr. 2026. SOUZA, Alexandre de. Neopentecostalismo e consumo: a fé na lógica do mercado. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2018. Disponível em: https://repositorio.metodista.br/items/b3fb17a1-42fd-49f2-b7cc-a475cc19fa32. Acesso em: 6 abr. 2026. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. DE BOTTON, Alain. Desejo de status. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

  • O Governo Bukele: a política de El Salvador pelos olhos de uma cidadã

    Vista aérea da Catedral Metropolitana, no centro histórico de San Salvador. Fonte: Barcelo.com Nayib Bukele, publicitário e presidente de El Salvador desde 2019, iniciou seu mandato com uma postura mais descontraída, chegando a se autointitular nas redes sociais como um “ditador cool”. Com o tempo, porém, o próprio estadista foi abandonando esse rótulo, primeiro em suas mídias e, posteriormente em seu governo. O atual presidente salvadorenho é acusado por diversas entidades de direitos humanos de cometer excessos e aplicar retaliações desnecessárias em seu governo. Desde o início de sua campanha em 2019, Bukele prometeu acabar com a criminalidade que colocava o país entre os mais perigosos do mundo. Apesar de seu território reduzido, El Salvador é conhecido pelo apelido de “El pulgarcito de América”, que em tradução literal para português significa “O polegarzinho da América”. Bukele assume segundo mandato em El Salvador. Fonte: DW.com Para cumprir suas promessas de combate à violência, Bukele mobilizou o exército nas ruas, iniciando uma ampla perseguição aos chamados “delinquentes". Em seguida, mandou construir uma das maiores prisões de segurança máxima do mundo: o CECOT (Centro de Confinamento do Terrorismo). Após a construção do cárcere, o jovem presidente colocou em prática seu plano de “acabar com o terrorismo” no país. No entanto, suas medidas foram além do esperado: desde ex-integrantes de gangues até jornalistas que investigavam a atuação policial dentro do CECOT, milhares de pessoas foram enviadas para essa prisão. Essas medidas não se restringem a criminosos ou a indivíduos que buscam verificar informações sobre a prisão. As ações de Bukele já atingem a população em seu cotidiano, que se vê pressionada e cerceada pelo exercício de um poder desmedido e pouco democrático nas ruas desse pequeno país da América Central, hoje amplamente observado pela sociedade internacional. Detentos na megaprisão Cecot, em Tecoluca, El Salvador, em 24 de fevereiro de 2023. Fonte: CNN en español Relatos de uma salvadorenha Vivendo há 16 anos na Costa Rica, Jessica* deixou El Salvador devido a insegurança, após sua família sofrer pressão constante das gangues locais. Esses grupos tentavam extorqui-los, exigindo uma taxa semanal para “proteger” o negócio familiar. Sua mãe é dona de casa e seu pai, engenheiro agrônomo, e migraram para a Costa Rica na condição de investidores**. Jessica se define como apolítica, não se posicionando nem a favor nem contra o Bukele. Ainda assim, ressalta que os aspectos negativos de seu governo têm impacto profundo sobre a população. “A César o que é de César: ele fez um trabalho muito bom em relação à segurança e às gangues, que sempre aterrorizaram o país. Criou um presídio autossustentável, e esse é o lado positivo. Mas a segurança é relativa, pois a cada 100 metros há um agente do governo armado. Em determinadas áreas há mais sensação de proteção do que em outros bairros, mas existem regiões muito pobres onde as gangues predominam. É preciso andar com muito cuidado”, afirma a salvadorenha. Protestos contra Bukele em El Salvador. Fonte: BBC News Mundo Quando se trata do “regime de exceção” instaurado por Bukele, percebe-se que já não se configura como uma exceção, dado o longo período em que vem sendo aplicado. Segundo Jessica, durante a implementação desse regime os policiais tinham uma cota diária de prisões a cumprir. “Há muitas pessoas que estão na prisão por delitos menores ou, em muitos casos, sem terem cometido qualquer delito.” Embora seja totalmente contrária às “maras”, como são chamadas as gangues em El Salvador, ela ressalta que há inúmeros inocentes encarcerados. “Não se pode criticar o governo ou o presidente em espaços públicos, pois Bukele é considerado intocável. Há relatos de telefones grampeados para verificar se cidadãos estão falando contra o governo ou conspirando. ‘Ou seja, nenhum cidadão tem mais direitos, é como uma espécie de “santa ordem”: tudo o que Bukele diz torna-se lei, independentemente se é algo absurdo ou não. Os salvadorenhos perderam sua liberdade. O governo pode fazer o que quiser com a população, sem ser questionado’, afirma a mulher, visivelmente preocupada. Ele governa sob um regime de mãos de ferro. Há claros exemplos de exilados políticos: o jornal chamado “El Faro”, por exemplo, transferiu suas operações para a Costa Rica após ser expulso do país pelo presidente. A popularidade de Bukele é vista como algo muito perigoso. Jessica afirma que não pretende voltar a viver em El Salvador. No nível econômico, o país enfrenta uma dívida que compromete gerações futuras. Segundo ela, grande parte da população sobrevive com menos do que o mínimo necessário, sem recursos básicos e, muitas vezes, sem dinheiro sequer para a alimentação. O jovem presidente divulga constantemente investimentos em infraestrutura, mas tais iniciativas têm gerado dívidas e empréstimos internacionais. ‘Ele é muito corrupto, pois até hoje ninguém sabe o que aconteceu com os bitcoins*** que o país investiu há alguns anos. Ninguém presta contas desse dinheiro. Há gastos excessivos para manter militares e policiais, além de uma segurança ostensiva para o presidente: foram adquiridos 12 caminhões, dois helicópteros, avionetas, e há sempre pessoas armadas ao seu redor. A cada 100 metros, esquinas são “blindadas” por soldados que o protegem. É um gasto terrível’, afirma Jessica. Imagem: transeuntes na rua com militares. - Fonte: Red PAT O turismo vem crescendo, o que representa um ponto positivo para o país. No entanto, o custo de vida também tem aumentado significativamente: aluguel e aquisição de imóveis tornaram-se praticamente inacessíveis, dificultando a sobrevivência dos salvadorenhos diante da enorme discrepância entre salários e despesas cotidianas. Um ponto curioso é o chamado investimento estrangeiro, frequentemente destacado pelo presidente como resultado da segurança que afirma ter proporcionado ao país. Na prática, porém, grande parte desse capital não é verdadeiramente externo: trata-se de salvadorenhos que emigraram e agora retornam trazendo recursos obtidos no exterior. Nayib Bukele concentra poder absoluto, contando com o apoio dos deputados para aprovar leis conforme seus interesses. Recentemente, militarizou a área da educação ao nomear uma oficial das forças armadas para o Ministério da Educação. Para Jessica, em comparação com a Venezuela, a situação em El Salvador ainda não chegou ao mesmo nível de gravidade. ‘Bukele está apenas tapando o sol com a peneira, investindo em estádios e recorrendo a empréstimos, práticas que revelam um cenário de corrupção semelhante ao do vizinho sul-americano (que foi sitiado por Donald Trump). Inclusive, houve uma caso em que um integrante do governo foi flagrado transportando drogas, mas nada aconteceu, porque fazia parte da administração e o assunto foi abafado’ relata, inconformada. A família do presidente também ocupa cargos no governo, evidenciando práticas de nepotismo. Um de seus familiares, por exemplo, está à frente do Ministério do Esporte. ‘Estão construindo um estádio em parceria com a China. A família já era milionária, pois seus avós vieram de Belém e da Palestina e seu pai nasceu em El Salvador, mas não a ponto de possuir a fortuna que ostentam atualmente’, relata Jessica. “Não é permitido realizar sequer uma marcha pacífica contra o governo. Recentemente, circulou a notícia de que um soldado teria disparado contra uma jovem em um local bastante movimentado, resultando em sua morte. Em vez de responsabilizar o autor do disparo, a polícia prendeu duas pessoas aleatórias e as expôs na capa dos jornais, enquanto o governo abafou o caso.” “No ano passado, estive em El Salvador com minha família e decidimos visitar uma estrada que havia sido recentemente pavimentada. Ao chegarmos, percebemos que apenas um trecho havia recebido obras. No entanto, nas notícias, divulgava-se como se a estrada tivesse sido concluída, apresentada como uma grande obra. Fotos desse pequeno trecho foram veiculadas em rede nacional e internacional, para reforçar a imagem de que o governo estaria investindo fortemente no país.” O mesmo ocorre com uma praia no oriente do país: notícias e propagandas são veiculadas em rede nacional como se tudo se tratasse de uma grande obra. Ao visitar o local, Jessica e sua família constataram que, mais uma vez, tratava-se de um pequeno trecho de estrada, sem relação com o que havia sido divulgado. A impressão transmitida era a de uma grande via central que conectaria San Salvador ao ocidente do país, mas tudo não passava de exagero. Jessica questiona os rumos do país: ‘Há uma enorme perda econômica e, além disso, a prisão de tantas pessoas, muitos delas inocentes, é um excesso. Onde está esse dinheiro?’ indaga, demonstrando indignação. “Jessica observa que o país apresenta algumas melhorias em infraestrutura, ainda que sem investimento estrangeiro direto. No entanto, a população enfrenta dificuldades para arcar com necessidades básicas, já que o preço da cesta básica aumentou consideravelmente, enquanto o governo continua a endividar o país. Ela ressalta que Bukele detém controle absoluto sobre todas as instâncias de poder. Embora não tenha atacado a população de forma direta, suas ações têm impacto indireto: enviou soldados para dentro da Assembleia Legislativa, alterou a Constituição e abriu caminho para reeleições indefinidas do mesmo presidente.” A família de Jessica mudou-se para a zona central, forçada pelas constantes coerções de membros de gangues. Hoje vivem em uma área zona mais tranquila, marcada pela presença de diversas embaixadas. Jessica e seus irmãos estabeleceram-se na Costa Rica, enquanto o restante da família permanece em El Salvador. Jessica relembra uma história dolorosa de sua infância: em sua casa havia uma parede falsa em um dos quartos, criada como rota de fuga caso precisassem escapar dos membros das gangues. A família mantinha cachorros do lado de fora para proteger o lar e oferecer alguma segurança. 'Os pandilleros (membros das maras ou pandillas) não enfrentavam as pessoas de forma justa; sempre apareciam em grupos de 20 ou 30 homens para ameaçar um único indivíduo', relata. O latido dos cães era sinal de alerta constante, e a família vivia em permanente tensão, sem conseguir dormir tranquilamente, temendo que a casa fosse tomada pelas gangues. Em setembro de 2025, Bukele celebrou o marco de “1000 dias sem homicídio”. Contudo, Jessica ressalta que esse dado é bastante relativo, pois há homicídios que não são reportados pela imprensa, o que coloca em dúvida a veracidade da estatística oficial. Um país sem conclusão Embora a violência das gangues tenha diminuído no país, ainda há muito a ser feito para que a população se sinta verdadeiramente segura. Um ‘regime de exceção’, marcado pela presença de militares truculentos e armados nas ruas, restringindo a liberdade do povo, dificilmente pode gerar efeitos positivos duradouros. É, sem dúvida, necessário afastar os membros das gangues para que as pessoas possam viver em paz. No entanto, substituir a coerção das pandillas pela coerção militar não representa uma solução real para o país. Apesar de ser um país pequeno na América Central, El Salvador vem atraindo atenção internacional. O atual presidente tem conquistado admiradores de peso, entre eles a presidente da Costa Rica, Laura Fernández, e Donald Trump. Mesmo em meio ao caos, o povo salvadorenho persiste na luta por sua liberdade de existir e viver dignamente no ‘polegarzinho da América’. *Jessica é um nome fictício. A entrevistada teve sua identidade alterada por questões de segurança. **Ao entrar no país como investidores, sua família obteve um visto distinto daquele concedido a refugiados. O visto de investidor garante liberdade de entrada e saída do país a qualquer momento; já o visto de refugiado impõe restrições severas, impedindo a saída do país por até dez anos. ***Desde 2019, El Salvador ganhou notoriedade por seus investimentos em bitcoin. Um exemplo é a Praia de El Zonte, conhecida como Bitcoin Beach, onde foi realizado um experimento de economia circular com a criptomoeda, impulsionando o turismo e consolidando o bitcoin como moeda legal. Texto escrito por Caroline Prado Brasileira vivendo na Costa Rica, apaixonada por cachorros, plantas e fontes confiáveis. É internacionalista, tradutora e filóloga. Professora de Português como Língua Estrangeira (PLE) e História Contemporânea além de Filóloga especialista em Línguas Latinas. Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Referências https://g1.globo.com/noticia/2025/11/21/o-regime-precisava-cala-la-a-denuncia-contra-bukele-do-marido-de-advogada-detida-ha-meses-em-el-salvador.ghtml https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/08/01/nao-me-importo-que-me-chamem-de-ditador-bukele-o-rei-filosofo-que-pode-governar-por-muito-tempo-el-salvador.ghtml https://cnnespanol.cnn.com/2025/09/03/latinoamerica/bukele-seguridad-salvador-denuncias-abusos-orix

  • A dança Kizomba – Uma expressão social e identitária da cultura angolana

    O continente africano é conhecido por sua rica e diversificada herança cultural , na qual a dança ocupa um papel central como meio vital de expressão social e afirmação identitária. Entre as diversas manifestações, a Kizomba  se destaca como uma das expressões culturais mais significativas de Angola, representando não apenas um estilo de movimento , mas também a história e a identidade  em constante transformação de uma nação. Surgida no final do século XX, a Kizomba expandiu-se a partir de suas raízes nos centros urbanos angolanos até se tornar um fenômeno global, influenciando e sendo influenciada por outros estilos de dança e música em diferentes continentes. Nesta abordagem, iremos explorar as origens, o desenvolvimento e a disseminação internacional da Kizomba, situando-a dentro do contexto sociopolítico e cultural mais amplo de Angola. Ao examinar seu percurso histórico, as influências culturais, a evolução musical e a projeção mundial, buscamos oferecer uma compreensão abrangente de sua relevância tanto para Angola quanto para o cenário internacional. O termo “Kizomba”, que na língua tradicional angolana Kimbundu significa “festa” ou “celebração” , reflete a função social da música como meio de reunião e diversão entre as pessoas. Legado colonial, urbanização e mudança social A história de Angola foi profundamente marcada por séculos de domínio colonial português , iniciado no final do século XV e mantido até a independência em 1975. Esse período  foi caracterizado por intensas trocas culturais, conflitos e pela fusão de hábitos e costumes  entre os dois povos, especialmente nos centros urbanos de Luanda, Benguela e Huambo. Os portugueses introduziram novos instrumentos musicais, ritmos e danças, que interagiram com as tradições indígenas angolanas e deram origem a formas híbridas  singulares. O legado do colonialismo permanece evidente na natureza sincrética de grande parte da cultura popular angolana, incluindo música e dança. Essa mistura tornou-se uma característica definidora do entretenimento urbano , particularmente a partir de meados do século XX, preparando o terreno para o surgimento da Kizomba. A rápida urbanização de Angola no século XX, especialmente nas décadas de 1950 e 1960, abriu espaço para novas formas de interação social e produção cultural. As cidades  se tornaram grandes centros culturais onde migrantes rurais, elites coloniais e comerciantes estrangeiros se encontravam , cada grupo trazendo consigo suas práticas culturais. Esses ambientes urbanos estimularam o surgimento de novas expressões musicais e de dança, à medida que ritmos tradicionais se cruzavam com influências externas. Esse contexto é fundamental para compreender o nascimento da Kizomba , que surgiu como uma dança popular urbana no final da década de 1970 e início dos anos 1980 , refletindo tanto as aspirações quanto as tensões de uma sociedade que estava em rápida transformação. Predecessores: o Semba e outras danças indígenas As raízes da Kizomba estão profundamente ligadas ao Semba, um gênero musical e de dança angolana que remonta ao século XIX . O Semba, marcado por seu ritmo animado e movimentos lúdicos , funcionava tanto como dança social quanto como veículo de narrativas e críticas sociais. Como precursora da Kizomba, forneceu passos fundamentais, estrutura musical e contexto social sobre os quais esta se desenvolveria. Além disso, outras danças angolanas e da África Central, como a Rebita , a Kazukuta  e a Kabetula , também contribuíram para o vocabulário gestual e para o significado social que moldaram a Kizomba. Foto: Angop - União Kazukuta do Sambizanga O cenário musical de Angola no final do século XX foi marcado pela experimentação e fusão de estilos. Nesse período, músicos começaram a desacelerar o ritmo do Semba, incorporando sonoridades mais suaves e sensuais, influenciados por gêneros caribenhos franceses, como o estilo Zouk das Antilhas , além de elementos da Rumba congolesa . Dessa combinação nasceu um novo estilo de música e dança, que passou a ser conhecido como Kizomba, caracterizado por seu compasso mais lento, letras românticas e pela ênfase na melodia em detrimento do ritmo. A coreografia da Kizomba evoluiu juntamente com sua música, enfatizando a conexão íntima entre os parceiros, movimentos suaves e trabalho de pés sutil. Ao contrário do estilo exuberante e às vezes acrobático do Semba, a Kizomba se caracteriza por seus passos firmes e fluidos e pelo abraço íntimo, enfatizando a comunicação entre os parceiros.  A dança tornou-se especialmente popular entre os jovens urbanos, que encontraram nela um meio de autoexpressão e resistência às estruturas de autoridade colonial e pós-colonial. À medida que a dança se espalhou por encontros sociais, casas noturnas e festivais, a Kizomba passou a desenvolver variantes regionais, cada uma refletindo o contexto cultural local. Após a independência de Angola em 1975, o país mergulhou em um longo período de conflito civil  e instabilidade política. Em meio a esses desafios, o governo recém-estabelecido buscou consolidar uma identidade nacional unificada, promovendo a valorização da cultura e das artes indígenas, incluindo música e dança.  A Kizomba, com raízes tanto em formas tradicionais quanto em influências contemporâneas, foi abraçada como símbolo de orgulho e resiliência nacional. Festivais e programas culturais patrocinados pelo Estado ofereceram plataformas que permitiram a músicos e dançarinos de Kizomba profissionalizarem-se e expandirem sua arte. A guerra civil angolana, que se estendeu de 1975 à 2002, provocou uma migração significativa , com muitos angolanos se mudando para Portugal, França e outras partes da Europa. Essa diáspora desempenhou um papel crucial na internacionalização da Kizomba . Os migrantes angolanos apresentaram a dança a novos públicos, misturando-a com as tradições musicais e de dança locais e estabelecendo cenas vibrantes de Kizomba em importantes cidades europeias. Os fluxos transnacionais de pessoas, música e ideias favoreceram o surgimento de subgêneros  e estilos derivados da Kizomba, diversificando e enriquecendo ainda mais essa tradição cultural. Elementos musicais e coreográficos da Kizomba A dança e música Kizomba são caracterizadas por um andamento lento a moderado, melodias suaves e fluidas e letras românticas ou nostálgicas. A instrumentação frequentemente inclui teclados eletrônicos, sintetizadores, guitarras e percussão, compondo uma paisagem sonora exuberante e evocativa. A influência do Zouk caribenho é particularmente evidente no uso de ritmos sincopados  e fraseados melódicos, enquanto a herança angolana é preservada pela incorporação de vocais de chamada e resposta e percussão polirrítmica. Essa hibridez musical torna a Kizomba acessível e atraente para uma ampla diversidade de ouvintes e dançarinos. A Kizomba é tipicamente dançada em um abraço próximo, com os parceiros mantendo contato contínuo através dos torsos e frequentemente se movendo como uma única unidade pela pista de dança. O passo básico, conhecido como “passada”, envolve movimentos suaves e deslizantes que refletem o fluxo delicado da música. A dança valoriza a conexão, a musicalidade e a improvisação, permitindo variações sutis nos padrões de passos e movimentos corporais. Diferentemente de muitas danças de pares europeias, a Kizomba evita o formalismo rígido  em favor da interação orgânica, tornando-a acessível a dançarinos de diferentes níveis de habilidade. Foto: Ampe Rogerio/AFP O papel da internet e das mídias sociais Nos últimos anos, a expansão das mídias digitais desempenhou um papel crucial na disseminação global da Kizomba. Plataformas como YouTube, Facebook e Instagram têm permitido que dançarinos, músicos e entusiastas compartilhassem vídeos, tutoriais e músicas além das fronteiras nacionais, criando comunidades e redes virtuais. Essa conectividade digital democratizou o acesso à Kizomba , permitindo que indivíduos de diversas origens aprendessem, ensinassem e inovassem dentro do gênero. Ao mesmo tempo, acelerou o ritmo de transformações e fusões, tornando as fronteiras da Kizomba cada vez mais fluidas e até certo ponto contestadas. Atualmente, a Kizomba continua a funcionar como um poderoso símbolo de resiliência cultural , terapia e inclusão social. Após décadas de conflito e deslocamento, a dança oferece um meio de reconectar-se com a identidade nacional. Festivais, competições e apresentações de Kizomba proporcionam espaços para celebração, negociação de relações sociais e diálogo intergeracional. A ênfase da dança na conexão e na harmonia ressoa com esforços mais amplos para reconstruir a coesão social e promover a interação entre as pessoas. Para a juventude angolana, a Kizomba representa tanto uma ligação com a tradição quanto uma porta de entrada para a cidadania global.  A popularidade internacional da dança criou novas oportunidades para o intercâmbio cultural, a expressão artística e o empreendedorismo econômico. Jovens dançarinos e músicos encontram na Kizomba uma fonte de inspiração e orgulho, ao mesmo tempo que experimentam novas formas e fusões que refletem suas identidades cosmopolitas. Nesse sentido, a Kizomba incorpora as tensões e possibilidades da modernidade africana contemporânea, equilibrando o respeito pela herança cultural com a abertura para o mundo. Em suma, a Kizomba é um dos elementos que impulsionaram as transformações culturais, sociais e políticas mais amplas de Angola. Emergindo da interação entre tradições indígenas, encontros coloniais e modernidade urbana, a Kizomba se desenvolveu como um gênero de dança e música dinâmico e influente, com alcance global. Sua evolução reflete a capacidade de adaptação da cultura angolana e a criatividade do povo angolano. À medida que a Kizomba continua a evoluir e se espalhar pelo mundo, ela levanta questões importantes sobre autenticidade cultural, apropriação e o significado da tradição em uma era globalizada. No entanto, em sua essência, a Kizomba continua sendo uma celebração da vida, da resiliência, do poder da dança como meio de expressão, conexão e do espírito que caracteriza o lindo povo de Angola. Isaac Jorge  - É licenciado no Curso de Relações Internacionais pela Universidade Privada de Angola e trabalhou durante alguns anos na Missão Diplomática da República de Angola em Pretória - África do Sul. Além a experiência diplomática, nos últimos 18 anos tem estado ligado a atividade bancária, tendo assumido várias responsabilidades tais como Subdiretor na Direção de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, onde desenvolveu-se estudos para internacionalização do banco. Foi chefe de Departamento da banca de investimentos e Chefe de Departamento da Direção de Organização e Qualidade. Tem estado ligado a diferentes projetos de desenvolvimentos e de melhorias de produtos e serviços bancários e na formação de técnicos trabalhadores. É amante de esportes, principalmente o futebol Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G. Referências Kizomba: A dança e a identidade angolana, Luanda, Editora Nacional, de M. da Silva A Música Popular Urbana em Angola: Géneros, Estilos e Identidade, Lisboa, Publicações Lusófonas, de Luísa Ferreira (2017) From Luanda to Lisbon: The Globalization of Kizomba Dance and Music’, African Musicology Review , 12(2), pp. 55–78, Smith, J. (2015) ‘

  • Se a IA pensa, analisa e cria… O que resta à mente humana?

    Foto: Imagem gerada por IA / Divulgação: NARRO Durante décadas, a inteligência artificial foi vista como um conceito distante, algo restrito a laboratórios de pesquisa e às narrativas de ficção científica, como em 2001: Uma Odisseia no Espaço . No entanto, essa percepção mudou de forma silenciosa e acelerada. Hoje, sistemas de IA escrevem textos, produzem imagens, analisam dados jurídicos , organizam rotinas e oferecem recomendações estratégicas em questão de segundos. Tarefas que antes exigiam tempo, esforço cognitivo e especialização passaram a ser parcialmente automatizadas. Diante desse cenário, emerge uma inquietação essencial: não sobre o que a inteligência artificial é capaz de realizar, mas sobre o que os seres humanos estão deixando de fazer por causa dela. Da lógica programada ao aprendizado autônomo A ideia de máquinas capazes de simular a inteligência humana remonta aos  anos 1950, quando o cientista   Alan Turing  levantou a célebre questão: poderiam as máquinas “pensar”? Nas décadas seguintes, os primeiros sistemas de IA funcionavam com base em regras fixas,  estruturas do tipo “se isso, então aquilo”. Esse modelo, conhecido como IA simbólica , revelou-se limitado diante da complexidade do mundo real. A grande virada ocorreu com o avanço do aprendizado de máquina ( machine learning )  e, posteriormente, das redes neurais profundas . Segundo Stuart Russell e Peter Norvig, autores do clássico Artificial Intelligence: A Modern Approach , a IA contemporânea não depende apenas de regras explícitas, mas da capacidade de identificar  padrões em vastos volumes de dados. Isso significa que os sistemas atuais não “pensam” como os humanos. Em vez disso, calculam probabilidades e inferências  a partir de dados históricos, oferecendo resultados que se aproximam de processos cognitivos, mas sem reproduzi-los de fato. Como a IA aprende e por que isso importa A inteligência artificial aprende a partir de dados. Quanto maior o volume e a qualidade das informações disponíveis, mais precisas tendem a ser suas respostas. De acordo com a pesquisadora Kate Crawford, no livro Atlas of AI , esses sistemas não apenas processam dados: eles refletem os padrões neles contidos, incluindo vieses sociais, culturais e históricos . Ou seja: a IA não possui consciência, intenção ou valores próprios. Ela reproduz, em escala, aquilo que foi aprendido. Essa característica levanta um ponto crítico: a aparente “inteligência” das máquinas não corresponde a uma autonomia genuína , mas sim uma sofisticada capacidade de correlação estatística. O humano como filtro ético e contextual Se a IA opera com base em lógica e probabilidade, o ser humano atua com julgamento. Para Daniel Kahneman, autor de Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar , a mente humana não se limita ao raciocínio lógico: ela integra emoção, intuição, contexto e experiência. É justamente essa combinação que permite avaliar não apenas o que é eficiente, mas também o que é justo, adequado e responsável. Uma IA pode sugerir a decisão mais otimizada sob critérios matemáticos. Mas apenas os humanos conseguem ponderar os impactos sociais, éticos e emocionais que acompanham essa decisão. A ilusão da substituição e a realidade do mercado Apesar do discurso recorrente sobre uma substituição em massa de trabalhadores pela inteligência artificial, a realidade mostra-se bem mais complexa. Implementar sistemas de IA em larga escala exige infraestrutura tecnológica robusta, grandes volumes de dados, profissionais altamente qualificados e investimentos significativos.  Segundo relatório da McKinsey & Company, muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para capturar o valor real da IA justamente por esses fatores. Além disso, estudos do MIT indicam que, em diversos contextos, a combinação entre humanos e IA (o chamado modelo híbrido)  gera resultados superiores à automação total. Na prática, o cenário atual não é de substituição completa, mas de reconfiguração do trabalho, em que funções se transformam e novas competências passam a ser demandadas. O verdadeiro risco: a erosão do pensamento crítico Talvez o maior risco da inteligência artificial não esteja em sua capacidade de substituir humanos, mas na possibilidade de torná-los passivos. Pesquisas na área de psicologia cognitiva apontam que a dependência excessiva de ferramentas automatizadas pode reduzir o esforço mental e comprometer habilidades como memória, criatividade e pensamento crítico. O conceito de “ cognitive offloading ”, estudado por pesquisadores como Evan F. Risko, descreve justamente essa tendência de transferir processos mentais para dispositivos externos. Embora essa prática possa aumentar a eficiência no curto prazo, também pode levar, ao longo do tempo, à diminuição da autonomia cognitiva , enfraquecendo a capacidade humana de questionar, interpretar e criar. Fonte: Banco de imagens do Canva Aliados ou substitutos? A escolha é nossa A inteligência artificial é, sem dúvida, uma das ferramentas mais poderosas já desenvolvidas. Ela pode democratizar o acesso à informação , acelerar processos e ampliar a capacidade produtiva em praticamente todas as áreas, do direito à saúde, da educação ao mercado corporativo. Mas, como toda ferramenta, seu impacto depende do uso que fazemos dela. Quando utilizada de forma consciente, a IA potencializa o pensamento humano. Quando utilizada como substituto do esforço cognitivo, corre o risco de enfraquecê-lo. Uma reflexão necessária A inteligência artificial não tornará o ser humano inútil. No entanto, pode contribuir para algo mais sutil e perigoso: a acomodação. O risco não está no avanço da tecnologia, mas na facilidade com que se aceita delegar à máquina aquilo que é essencialmente humano: pensar, questionar, interpretar e decidir. No fim, não se trata de competir com a inteligência artificial, mas de preservar aquilo que ela jamais terá: a capacidade de pensar com intenção, sentir com profundidade e decidir com responsabilidade. Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências RUSSELL, Stuart; NORVIG, Peter. Artificial Intelligence: A Modern Approach . Pearson, 2020. CRAWFORD, Kate. Atlas of AI . Yale University Press, 2021. KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar . Farrar, Straus and Giroux, 2011. RISKO, Evan F.; GILBERT, Sam J. “Cognitive Offloading”. Trends in Cognitive Sciences , 2016. McKINSEY & COMPANY. The State of AI Report , 2023. MIT (Massachusetts Institute of Technology). Human-AI Collaboration Studies , 2022–2024. TURING, Alan. “Computing Machinery and Intelligence”. Mind , 1950.

  • O Sul Global: A cooperação como caminho para o desenvolvimento

    Os ventos do Norte não movem moinhos, já cantou o nosso ilustre Ney Matogrosso. Ainda assim, esses ventos insistem em soprar em nossa direção, trazendo consigo velhos projetos de dominação e exploração. Embora a maioria dos países esteja localizada no Sul, a origem do termo é geopolítica e ultrapassa a geografia, revelando relações históricas e dinâmicas de poder mais amplas. Na geografia do mundo, é a Linha do Equador que corta a Terra em dois sopros: acima, o Norte; abaixo, o Sul. Talvez uma premonição, indicando que o planeta carrega em si um eixo de equilíbrio, capaz de dividir não apenas  espaços, mas também destinos.  Quando os ventos do Norte empurraram as caravelas rumo ao Sul, elas não navegaram sozinhas: trouxeram consigo destinos marcados pela morte, pela colonização e pelo saque das riquezas e dos povos que aqui viviam. Sob o pretexto do tempero raro ou do brilho das pedras preciosas, desenhou-se um rastro de ambição que tudo devora - e que, de certo modo, ainda persiste. E, em poucas palavras, Thomas Hobbes parece condensar séculos de violência em sua célebre citação: 'o homem é o lobo do homem'. As caravelas marcaram o início das grandes navegações europeias rumo às Américas, dando início a processos de exploração, colonização e profundas transformações nos territórios e povos originários. (Reprodução) Ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo voltou a se dividir - não mais por mares, ventos ou linhas imaginárias, e sim por ideologias. De um lado, o bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos, que defendia o livre mercado e um Estado mínimo, quase ausente da regulação econômica, entregando às empresas o ritmo e a direção da produção e da riqueza. Do outro, a União Soviética (URSS), que apostava em uma economia planificada, sustentada por um Estado forte, central e ativo na organização da vida econômica, com a promessa de uma distribuição mais igualitária dos recursos entre os cidadãos. O bloco Socialista foi liderado pela então União Soviética(URSS) - Foto: Moises Gonzalez/Unsplash Eram dois mundos que se encaravam sobre as ruínas de uma Europa exaurida, marcada pelos anos de devastação, violência e opressão, mas também movida por uma intensa vontade de reconstrução. A União Soviética emergia fortalecida, coroada pela derrota do nazismo em seu próprio território, enquanto seus povos viviam o fervor da utopia de Karl Marx e Vladimir Lenin, acreditando na construção de uma grande nação comunista. Do outro lado, os Estados Unidos consolidavam sua liderança sobre o mundo capitalista, projetando poder e influência em escala global. A Alemanha foi um dos países mais afetados na Europa, marcada pela divisão que simbolizou o mundo bipolar. Separada por décadas, sua reunificação só se concretizou nos anos 1990. Na imagem, as ruínas de Nuremberg. (Reprodução) Mas, nessa divisão aparentemente total, havia um silêncio: um espaço que não se encaixava em nenhum dos dois lados. Era o mundo dos países à margem dessas disputas, carregando heranças coloniais e desigualdades profundas - o chamado Terceiro Mundo. Naquele cenário, os países pobres permaneciam em um processo tardio de industrialização, tentando encontrar seu lugar em meio às tensões entre capitalismo e socialismo. O Terceiro Mundo foi uma expressão amplamente utilizada durante a Guerra Fria para designar as nações que não se alinhavam nem ao bloco capitalista (o chamado Primeiro Mundo) nem ao bloco socialista (o Segundo Mundo). Em sua maioria, eram países da África, Ásia e América Latina, muitos deles recém independentes, que carregavam as marcas profundas da exploração colonial. Entre tensões internas e desafios estruturais, buscavam se desenvolver e projetar-se no cenário internacional. Embora tenha surgido como um conceito predominantemente econômico, o chamado “Terceiro Mundo” designava os países colocados à margem das grandes disputas de poder e desenvolvimento. (Foto: Dulana Kodithuwakku ) Ainda que a ideia de um possível terceiro bloco sugerisse uma posição de autonomia, essa neutralidade nunca foi absoluta. Na prática, essas nações estiveram frequentemente sob a influência - direta ou indireta - de ambos os blocos, sendo disputadas em seus territórios, economias e projetos políticos. Mesmo assim, mantinham, ao menos em tese, uma distância ideológica que as colocava nessa frágil e condicional ideia de neutralidade: nem totalmente alinhadas, nem plenamente livres das forças que dividiam o mundo. A origem do termo 'Sul Global' Com o fim da União Soviética, na década de 1990, o mundo bipolar chegou ao fim. Após quase meio século de disputas, o eixo capitalista ampliou sua influência em escala global, enquanto diversas nações continuavam em busca de seus próprios caminhos de desenvolvimento. Nesse novo cenário, o termo 'Terceiro Mundo'  foi gradualmente substituído por 'países em desenvolvimento' , em uma tentativa de atualizar a forma de nomear essas realidades. A cooperação Sul-Sul é uma das principais estratégias para fortalecer o desenvolvimento conjunto, promover trocas mais equitativas e ampliar a autonomia dos países do Sul Global. (Freepik) Ainda assim, essa nova classificação revelou seus limites. Ao priorizar indicadores econômicos e sociais, deixava em segundo plano um aspecto fundamental: o ponto de partida dessas nações. Falar apenas em desenvolvimento não era suficiente para definir suas identidades, pois desconsiderava trajetórias históricas marcadas pela colonização e por desigualdades estruturais profundas. Foi assim que um termo menos restrito ao campo econômico ganhou espaço: 'Sul Global'. Mais do que uma simples classificação, tratava-se de um conceito geopolítico, que evocava um espaço de articulação, resistência e construção de estratégias comuns diante das desigualdades históricas do sistema internacional marcado pela oposição Norte versus  Sul. A expressão foi utilizada pela primeira vez em 1969 pelo ativista político estadunidense Carl Oglesby , em um artigo publicado na revista Commonwealth , no qual interpretava a Guerra do Vietnã como uma manifestação da dominação do Norte sobre o Sul Global. Hoje, o termo abrange cerca de 150 países, o que corresponde a aproximadamente três quartos das nações do mundo. Mais do que uma posição no mapa, o Sul Global se configura como uma construção política, na qual países como China e Rússia - embora situados acima da Linha do Equador - também se inserem por afinidades históricas e estratégicas, e não por sua localização geográfica. Por isso, apesar de suas realidades diversas, esses países compartilham marcas profundas: o passado colonial, desigualdades sociais persistentes, baixos níveis de escolarização, entre outros desafios socioeconômicos. É justamente nessa convergência de experiências que o Sul Global ganha força no cenário internacional, afirmando-se como um conceito mais amplo e significativo. Longe de qualquer idealização, não se trata de ignorar as assimetrias que ainda existem entre estes países, mas de reconhecer a importância das experiências compartilhadas e dos desafios comuns para a cooperação entre eles. A cooperação Sul-Sul  surgiu como uma alternativa para romper com lógicas históricas de subordinação: promove relações mais horizontais na dinâmica de poder, fortalece o intercâmbio de tecnologia e incentiva a transferência de conhecimento, permitindo que esse países pensem em conjunto soluções para desafios comuns. Se no passado os ventos do Norte determinaram rotas e destinos, hoje é tempo de o Sul Global traçar seus próprios caminhos, com alianças mais equilibradas e menos predatórias.  Porque, quando o Sul coopera, não apenas avança em seu desenvolvimento:  redefine seu lugar no mundo e amplia sua relevância no tabuleiro global.  Texto escrito por Katiane Bispo , é feminista, formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Já atuou em inúmeros projetos de defesa aos Direitos Humanos, Gênero e Educação. Uma curiosa por essência e teimosa por sobrevivência. É podcaster no programa "O Historiante", colunista no Portal Águia.  Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Referências https://www.gov.br/g20/pt-br/noticias/pod20-brasil/pod20-brasil-17-sul-global  - Sul Global  - Acessado em 01.04.26 https://conceito.de/terceiro-mundo  - Terceiro Mundo  - Acessado em 31.03.26

  • Mísseis no Oriente Médio e ataques à soberania latino-americana: O caminho que nos levou até aqui

    Manifestante em Teerã segura imagem do aiatolá Ali Khamenei, morto em ataques de Israel e EUA neste sábado — Foto: ATTA KENARE / AFP Janeiro, 2026. Uma operação de extração militar ocorre na Venezuela. Após meses de bloqueio no mar do Caribe, uma ação de inteligência estadunidense, que contou com cooptação de agentes públicos venezuelanos, logrou raptar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa de dentro do Forte Tiuna. Sem a aprovação do Congresso norte-americano ou da ONU, Donald Trump e sua equipe ordenaram a invasão da Venezuela sob a justificativa de combater o narcotráfico. Todos sabemos o verdadeiro motivo. O cheiro de petróleo cobre o ambiente e já manchou o papel em que escrevo este texto . A Venezuela possui 303 bilhões de barris em reservas, a segunda maior do mundo . O foco sempre foi a abertura da PDVSA (estatal venezuelana responsável pelo setor petroleiro) às empresas norte-americanas, a fim de controlar a produção, a extração e a lucratividade do combustível fóssil, além de impedir seu comércio com a China. Trump divulga foto de Maduro após captura do líder — Foto: Reprodução/Redes sociais Fevereiro,2026. Uma série de ataques contra o Irã, em uma manhã de sábado, reduziu a fumaça as praças Jomhouri e Hassan Abad . Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram pessoas em pânico, fugindo das explosões. É possível ouvir gritos e choro enquanto o estrondo das bombas ecoa ao fundo. Mais de 200 pessoas morreram, entre elas Ali Khamenei , marja’ (grande aiatolá) do país persa. Os norte-americanos, em cooperação com as forças israelenses, foram os responsáveis pela ação bélica. Trump manifestou-se em uma mensagem na rede Truth Social , afirmando que Khamenei foi “uma das pessoas mais perversas da história” e que esta seria “a maior oportunidade que o povo iraniano já teve para recuperar seu país”. Mais uma vez, sob a bandeira da liberdade, os estadunidenses apontam seus canhões em direção ao Oriente Médio, como fizeram inúmeras vezes. Claro que isso não teria nada a ver com o controle sobre o Estreito de Ormuz, nem com as reservas de petróleo locais, muito menos com a manutenção da supremacia de Israel como nação imperialista nos arranjos geopolíticos do Oriente Médio. Março, 2026. Estou tranquilamente tomando um café na sala dos professores, quando sou interpelado por um colega: “A Terceira Guerra Mundial começou, Pablo!” . Será mesmo? Respondi vagamente. Às sete da manhã, meu cérebro ainda funciona lento. Com mais vagar agora, proponho ao leitor uma análise um pouco mais densa. O cenário mundial hoje é realmente caótico e problemático, com uma escalada perigosa do conflito — já aberto. Mas o que podemos entender disso tudo, do ponto de vista histórico? O convite que faço a você é que, por alguns minutos, tomemos alguma distância e observemos o tecido do passado e do presente para entender como os EUA se relacionam com o mundo. Um quintal para chamar de meu Os Estados Unidos da América conquistaram sua independência em um contexto histórico particularmente relevante. Antes mesmo da Revolução Francesa, em 1789, os habitantes das treze colônias sob controle britânico na América do Norte empreenderam um processo de libertação singular, guiados por uma inspiração iluminista e por ideais liberais que, à época, já estavam em voga na sociedade ocidental e vinham sendo fomentados na própria Inglaterra desde o século XVII. A partir daí, a independência conquistada pelos estadunidenses reverberou no mundo, especialmente na França do final do século XVIII . O resultado obtido pelos colonos na América do Norte passou a ecoar nos debates entre os intelectuais liberais parisienses, com desdobramentos evidentes no processo revolucionário francês. Em solo norte-americano, um processo ideológico se iniciou. Durante o século XIX, cristalizou-se, nos Estados Unidos, uma crença quase religiosa — uma convicção que extrapolava a mera ideia de conquista territorial e apontava para uma escolha divina sobre a própria nação . Os estadunidenses, de acordo com essa ‘profissão de fé’, estariam predestinados a levar a civilização, a democracia e o progresso, ao restante do continente. Dentro dessa mentalidade, qualquer obstáculo que os demais povos pudessem interpor contra os ‘escolhidos’ poderia ser entendido como um ataque ao seu desenvolvimento, aos ideais democráticos e à liberdade. A transformação dessa ideologia em política oficial deu-se em 1823, com a Doutrina Monroe. Seu slogan era 'a América para os americanos'. Note-se: americanos não são todos, de cima a baixo; são os estadunidenses, os 'legítimos' americanos. A retórica era de união contra o imperialismo europeu, mas, na prática, marcou o início do imperialismo norte-americano sobre os demais territórios do continente. Trocando em miúdos, os EUA demarcaram seu quintal e estabeleceram suas regras. No advento do novo século, Theodore Roosevelt (1901-1909) daria um passo adiante, inaugurando a política do Big Stick . Sua máxima era 'fale macio, mas use um porrete', uma diplomacia que até existia, mas só funcionava porque havia um aparato militar por trás, garantindo acordos pela violência. A imposição econômica desse período visava a garantir a hegemonia norte-americana, submetendo os demais países a uma cartilha neoliberal de exploração até a exaustão do povo e da produção local. E não somente: essa política impunha o dólar como moeda soberana nas transações comerciais. Se algum país saísse da linha, o porrete entrava em ação. Sob a batuta da CIA, a orquestra de intervenções norte-americanas varreu governos nacionalistas na América Latina e os substituiu por governos fantoches, submetidos aos interesses imperialistas dos EUA. Os exemplos são diversos. O Paraguai ‘saiu da linha’ em 1954, assim como o Brasil em 1964, o Uruguai e o Chile em 1973, e a Argentina em 1976 — a lista é extensa e seguiria adiante. Intervenção militar dos Estado Unidos na América Latina — Mapa: instagram @ geografia.online O inimigo mora no Oriente Imagine o ano de 1977. Estamos em Teerã, em um banquete luxuoso. De um lado da mesa, o presidente norte-americano Jimmy Carter levanta sua taça em um brinde animado com Reza Pahlevi, o xá iraniano. Carter celebra o fato de o país persa ser uma ilha de estabilidade em uma região cheia de conflitos. Agora imagine-se dando um salto temporal e caindo em Teerã, hoje, 5 de março de 2026, em meio aos escombros da cidade que exala o cheiro pungente de carne humana queimada logo após os bombardeios norte-americanos. Como tudo mudou tanto? Antes de respondermos, é preciso compreender um conceito fundamental. O realismo ofensivo, conceito elaborado por John Mearsheimer, parte de uma análise crua da geopolítica internacional e talvez possa ajudar a explicar parte das tensões na região que estamos analisando. O sistema internacional viveria em um estado de ausência de autoridade superior. Nesse cenário, o medo ditaria as regras do jogo, e cada nação precisaria exercer certo nível de terror sobre as demais como estratégia de defesa. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA transitaram de uma política isolacionista para uma postura intervencionista, com vistas a conter os avanços da União Soviética. Nessa disputa, que conhecemos como Guerra Fria, o Oriente Médio despontava como zona estratégica, por conta de suas reservas de petróleo, especialmente na região do Golfo Pérsico. O controle desse recurso significava poderio militar. Entraram em ação duas políticas estadunidenses: a Doutrina Truman, que estabeleceu o compromisso de oferecer ajuda militar e econômica para conter a expansão do comunismo, e a Doutrina Eisenhower, que prometia ajuda militar e econômica a países do Oriente Médio para conter a influência soviética. Uma luta do bem contra o 'mal vermelho'? Não: apenas a águia norte-americana com sede de petróleo. Israel, Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Irã foram alguns dos países que receberam proteção da águia da liberdade. Como excelentes exemplos do realismo ofensivo, seus governos, apoiados pelos norte-americanos, receberam armamento, tecnologia e investimentos que desequilibraram a balança geopolítica em favor dos estadunidenses. Irã, 1951. Naquela época, o Irã era uma monarquia constitucional, com um primeiro ministro eleito pelo povo. À época, Mohammed Mossadeq ocupava o cargo. Nacionalista fervoroso, Mossadeq entrava frequentemente em choque com interesses estrangeiros no país, especialmente após nacionalizar a indústria do petróleo iraniano. Isso soou como um alarme de incêndio em Washington, que, junto com a CIA, orquestrou um golpe de Estado no país persa. A derrubada do primeiro-ministro foi seguida pela consolidação de uma monarquia autocrática concentrada no xá Mohammad Reza Pahlavi. Isso garantia um governo capacho aos interesses estadunidenses. Uma vitória tática que gerou, a longo prazo, uma crescente aversão da população iraniana aos norte-americanos. Ironia da história: o programa nuclear iraniano, motivo que os EUA usaram para dizer que o país persa representava uma ameaça à paz na região e no mundo, não foi iniciado pelos soviéticos nem pelos chineses, mas pelos próprios norte-americanos durante o reinado do xá apoiado por eles. O regime do xá, adotando uma política de ocidentalização econômica e social, promoveu um progresso baseado em uma profunda desigualdade social, corrupção e repressão violenta a opositores. O antiamericanismo tomou as ruas de Teerã, unindo líderes islâmicos ultraconservadores a comunistas no movimento de derrubada do regime de Pahlavi, que aconteceu enfim com a Revolução Islâmica de 1979, de onde emergiu a figura central do aiatolá Ruhollah Khomeini, que apelidou os EUA de ‘Grande Satã’. Populares se manifestam antes da deflagração da revolução de 1979. Na imagem, o líder aiatolá Khomeini — Foto: AP Photo, File Uma nova (velha) doutrina O tecido do passado e do presente está aberto diante dos nossos olhos. Vamos mais uma vez observar a América Latina. A invasão à Venezuela parece ter dado luz a uma nova (velha) doutrina. Saem de cena o golpe contra uma suposta ditadura, a entrega do poder a uma oposição ‘democrática’, a tal desculpa civilizatória para o uso da força. Agora, uma espécie de realismo flexível toma lugar, e a força é justificada pela imposição de uma verdade que, por falta de vozes dissonantes, se torna única e incontestável. Na Venezuela, a oposição não recebeu o poder dos norte-americanos. María Corina Machado e Edmundo González não foram agraciados com as rédeas do país. Trump preferiu manter a vice de Maduro, Delcy Rodríguez, e garantir que a máquina estatal continuasse funcionando sem mais rupturas, assegurando a abertura da PDVSA e do petróleo às empresas estadunidenses. Voltemos nosso olhar para o Oriente, mais uma vez. O assassinato de Ali Khamenei foi um rastilho de pólvora aceso rumo a um barril altamente explosivo: o Oriente Médio. Ao longo de sua história de intervenção na região, os norte-americanos construíram uma rede de países aliados que, diante da incursão bélica da águia da liberdade estadunidense, apoiaram a ação contra o Irã (nominalmente, Bahrein, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Jordânia). Mas, definitivamente, a nação mais interessada nisso é Israel. O bastião dos interesses imperialistas ocidentais no Oriente, aliado de primeira ordem dos EUA, o país comandado por Benjamin Netanyahu — diretamente envolvido nos ataques — busca estabelecer sua supremacia geopolítica e bélica na região. A nova (velha) doutrina imperialista sobre o Oriente Médio. A receita que sempre deixa o bolo grande e saboroso (pra você sabe quem). Por ora, vamos fechar o tecido do passado e do presente. Voltaremos em breve com mais provocações históricas. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão e Edição por Eliézer Fernandes

  • As inseguranças de viver em um mundo que odeia mulheres

    Foto por Giacomo Ferroni/Unsplash “A misoginia é histórica.” Ouvi esse comentário durante uma entrevista na TV, na qual uma especialista dissertava sobre a crescente onda de violência contra a mulher no Brasil. Naquele momento, circulavam na mídia notícias de atrocidades ocorridas de norte a sul do país nas últimas semanas: uma estudante morta e abusada sexualmente após sair do trabalho; uma jovem de 20 anos que levou mais de 15 facadas ao recusar um namoro; e o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana. A autoria dos crimes? Todos foram cometidos por homens. Dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que, no ano passado, 1.518 mulheres foram vítimas de feminicídio no país  — o equivalente a quatro mortes por dia . A pesquisa também revelou um aumento em relação ao ano anterior: em 2024, foram registradas 1.458 ocorrências. Diante da divulgação desses dados e da crescente onda de violência contra a mulher que vem assolando os noticiários neste primeiro trimestre, intensificaram-se os questionamentos sobre os papéis de gênero e sobre o ódio estrutural  que continua a perseguir o sujeito feminino. Em uma era em que a mulher ocupa papel ativo e cada vez mais representativo em espaços antes restritos aos homens, permanece a dúvida: existe, de fato, liberdade e o direito de viver plenamente ? Misoginia e sociedade No dicionário Michaelis , o termo misoginia significa “antipatia ou aversão mórbida às mulheres”. Esse comportamento é fruto de uma sociedade  em que os papéis de gênero masculinos são valorizados , enquanto os femininos são desvalorizados . O resultado é uma realidade marcada por casos recorrentes de feminicídio, humilhação e objetificação da mulher. A sociedade patriarcal se mostra predominante há séculos. Até o século XIX e início do século XX, o acesso das mulheres à educação formal era amplamente restrito em diversas partes do mundo. Em muitos casos, apenas uma figura masculina de autoridade tinha o poder de decidir sobre essa tutela. Apesar de termos evoluído significativamente desde nossas ancestrais, ampliando a presença feminina nos espaços de poder e no mercado de trabalho, a equidade de gênero não acompanhou, na mesma proporção, o grande salto da era moderna. Um exemplo disso é a tese da “legítima defesa da honra”, utilizada durante décadas para justificar crimes de feminicídio e violência contra a mulher, e que só foi definitivamente derrubada pelo Supremo Tribunal Federal em 2023 . O argumento sustentava que o assassinato ou a agressão seriam aceitáveis diante da suposta comprovação de que a conduta da vítima teria ferido a honra do agressor. Com base nessa lógica, muitos réus eram absolvidos de qualquer acusação. Entretanto, mesmo diante de avanços legais, a lógica que sustenta a violência contra a mulher ainda encontra espaço em construções sociais profundamente enraizadas. Assim, a misoginia não é apenas um resquício do passado, mas uma realidade constantemente atualizada  e legitimada sob diferentes formas. Ódio as mulheres e comunidades digitais Foto por Imagem: K. Mitch Hodge/Unsplash A internet, refletindo os padrões sociais, tornou-se também um espaço onde ódio e liberdade coexistem. Há anos, homens ocupam ambientes virtuais para propagar ideias machistas sobre hierarquia de gênero e disseminar discursos de ódio contra as mulheres. Dentro desses espaços surgiram comunidades como Incel e Redpill , grupos online que cultivam ódio às mulheres  e as enxergam apenas como submissas. Segundo suas narrativas, vivemos em uma suposta realidade na qual mulheres manipulam e exploram homens, sendo responsabilizadas pelos males que acometem o sujeito masculino. Ademais, vale destacar a constante sexualização dos corpos femininos na internet , muitas vezes impulsionada pelo alto consumo de pornografia. Esse fenômeno, além de contribuir para a objetificação da mulher, reduz sua existência a padrões estéticos e funções voltadas à satisfação masculina — configurando mais uma forma de controle social. Nesse contexto, os meios digitais  potencializam discursos de ódio ao oferecer anonimato, alcance e sensação de pertencimento a indivíduos que compartilham esse tipo de ideologia. O que antes poderia se manifestar de forma isolada, hoje encontra validação coletiva e se fortalece em comunidades organizadas. Sem a devida regulamentação, o ambiente digital transforma-se em uma verdadeira “colônia” para a disseminação de discursos violentos. O que esperar do futuro? Diante dos acontecimentos dos últimos meses, a luta pela vida e pela liberdade feminina tomou os grandes centros urbanos neste último 8 de março. As crescentes mobilizações, que também se espalharam pelas redes sociais, foram fundamentais para a condução de diversos casos e processos relacionados à violência contra a mulher. Mais do que um ato simbólico, essas manifestações reforçam a urgência de políticas públicas eficazes , de educação voltada para a igualdade de gênero e da responsabilização diante de discursos e práticas misóginas — tanto no ambiente físico quanto no digital. Ainda há uma longa caminhada pela frente, mas seguimos firmes rumo a um futuro melhor para as mulheres que virão. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G. Referências https://g1.globo.com/mg/centro-oeste/noticia/2026/02/11/quem-era-estudante-de-psicologia-que-desapareceu-ao-sair-do-trabalho-em-bh-e-foi-encontrada-morta.ghtml   https://veja.abril.com.br/brasil/tentativa-de-feminicidio-jovem-de-20-anos-leva-mais-de-15-facadas-apos-recusar-namoro-no-rio/   https://www.bbc.com/portuguese/geral-58300599   https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2026-03/brasil-bateu-recorde-de-feminicidios-em-2024-e-2025   https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/entenda-o-que-sao-redpill-e-outros-termos-de-odio-contra-mulheres   https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/tese-da-legitima-defesa-da-honra-e-inconstitucional/

  • A menopausa é natural, a desigualdade não

    Este artigo tem a intenção de trazer luz a um assunto tão importante, mas que, infelizmente, ainda é acessível para poucas de nós. Nada melhor do que o mês de março para que, por meio da informação e do conhecimento, possamos nos olhar com mais carinho e atenção, refletindo sobre o nosso papel e os nossos direitos na sociedade. Imagem gerada por IA. Sofri longos anos com sintomas silenciosos e muita culpa. Fui mãe pela primeira vez aos 37 anos e, no pós-parto, os sinais do declínio hormonal misturaram-se com o dia a dia exaustivo da maternidade. O que era uma transição fisiológica foi camuflado pela rotina e, após anos passando por muitos profissionais sem respostas para meus sintomas, conheci a medicina integrativa por meio da Dra. Danyelle Mariaca. Ela me orientou nessa caminhada e pude entender o que estava acontecendo comigo. Ao pensar no tema deste artigo, ela, generosamente, concordou em guiá-lo sob a luz da medicina, para que outras mulheres também encontrem algumas respostas e possam, inclusive, prevenir efeitos mais danosos em seus corpos. “ A menopausa acontece com todas. Mas a forma como cada mulher envelhece não é igual. Enquanto algumas atravessam essa fase com informação, diagnóstico precoce e acompanhamento médico, outras vivem sintomas silenciosos sem saber que o corpo já entrou em transição. ” — Dra. Danyelle Mariaca A perimenopausa invisível e o rótulo do estresse Muitas mulheres ainda menstruam, mas já sentem o impacto: névoa mental, irritabilidade, insônia, ganho de peso abdominal e um cansaço persistente. Na perimenopausa, a progesterona cai primeiro e o estrogênio oscila, desestabilizando o sono, o humor e o metabolismo. Não é 'frescura', é fisiologia. No entanto, mulheres com menos acesso à informação e sob o estresse da sobrevivência tendem a normalizar o sofrimento, chamando de 'estresse' aquilo que já é transição hormonal. Enquanto a mulher com recursos busca ajuda para manter sua performance, a que não tem acesso pode ser rotulada como desatenta ou improdutiva. Aqui, a biologia transforma-se em julgamento. O alerta da menopausa precoce: quando o relógio acelera Existe um grupo de mulheres que enfrenta esse abismo muito antes do esperado. A menopausa precoce não é apenas uma 'irregularidade no ciclo'; é um choque biológico que, muitas vezes, é ignorado em consultórios sob a justificativa de que a paciente 'ainda é muito jovem'. A ausência de diagnóstico precoce nessas situações rouba da mulher anos de proteção cardiovascular e óssea. O estrogênio e o coração: o alvo silencioso Existe um desvio de atenção perigoso: o medo cultural do câncer de mama, muitas vezes, cega-nos para o fato de que, após os 50 anos, a principal causa de morte feminina são as doenças cardiovasculares. O estrogênio funciona como um escudo para os vasos sanguíneos, reduzindo inflamações e melhorando o perfil lipídico. Quando ele cai, o risco de infarto e AVC aumenta devido à rigidez arterial e à hipertensão. VOCÊ SABIA? O coração é o alvo:  no Brasil, as doenças cardiovasculares matam cerca de seis vezes mais mulheres do que o câncer de mama. (Fonte: Sociedade Brasileira de Cardiologia — SBC, 2024/2025). O escudo hormonal:  a queda do estrogênio aumenta a rigidez arterial, a hipertensão e o colesterol LDL.* A “virada” pós-50:  antes da menopausa, os hormônios protegem os vasos; após, o risco cardíaco feminino iguala-se ao masculino.* Efeito dominó:  sem a proteção hormonal, aumentam os riscos de osteoporose, resistência insulínica e declínio cognitivo. (Fonte: Associação Brasileira de Climatério — SOBRAC, 2024). Saúde sexual e a dignidade do cuidado A secura vaginal e a queda da libido são resultados da atrofia urogenital causada pela redução hormonal. Isso pode gerar dor nas relações e infecções urinárias recorrentes. Embora existam tratamentos eficazes, como a terapia hormonal adequada, o acesso a eles ainda é um marcador de privilégio. Nenhuma mulher deveria aceitar a dor como destino por falta de insumos no sistema público. A jornada dupla e o colapso da “máquina” A mulher é frequentemente a cuidadora de todos — filhos e pais idosos —, esquecendo-se de si mesma justamente quando sua biologia mais exige reparos. O estresse crônico dessa jornada 'atropela' o sistema hormonal e acelera o envelhecimento celular. Para as mulheres com menor poder aquisitivo, a sobrevivência depende de saber o que exigir no SUS, como exames de densitometria óssea e perfil lipídico, que são direitos garantidos. Informação é a primeira forma de justiça em saúde. Direitos garantidos Informação é a primeira forma de justiça em saúde. É fundamental que saibamos: o cuidado no climatério não é um favor, é um direito amparado pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher. Exigir exames de densitometria óssea, mamografia e controle metabólico no SUS é exercer a cidadania que nos foi garantida por lei. Esse cuidado deve alcançar todas as pessoas que atravessam o declínio hormonal estrogênico, respeitando suas identidades e garantindo que a biologia não seja um fator de exclusão. PNAISM:  diretriz que garante assistência ao climatério e à menopausa em todas as UBS. Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990):  assegura assistência terapêutica e acesso a medicamentos da RENAME mediante prescrição médica. Lei nº 11.664/2008:  garante a realização de mamografias a partir dos 40 anos na rede pública. Essa proteção estende-se também às mulheres imigrantes que, pela Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017), têm direito ao acesso integral ao SUS, independentemente de sua situação documental. No entanto, o abismo do diagnóstico torna-se ainda mais profundo quando essas barreiras se cruzam com o racismo institucional. É por isso que o nosso arcabouço também conta com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (Portaria nº 992/2009), que obriga o sistema de saúde a combater as desigualdades étnico-raciais e o racismo no atendimento. Para a mulher imigrante e negra, o acesso à saúde na menopausa não é apenas uma questão clínica, mas um direito humano garantido por lei. Um marco, não um fim A menopausa é natural; o adoecimento precoce, contudo, é fruto da desigualdade. Quando há diagnóstico precoce e cuidado, é possível envelhecer com autonomia. Se o sistema já falha com a mulher de forma generalizada, o abismo torna-se ainda mais profundo quando olhamos para quem carrega a maior carga de estresse estrutural em nossa sociedade. A forma como o corpo feminino envelhece no Brasil tem cor e endereço, onde o racismo estrutural, a situação de pobreza e a privação de acessos atuam como fatores de estresse oxidativo que fazem a menopausa chegar mais cedo e de forma mais violenta. Sabemos que a saúde na menopausa é um universo vasto e que este artigo não pretende esgotar todos os temas ou substituir o olhar clínico individualizado. Nossa intenção aqui é ajudar na identificação dos sintomas e de caminhos possíveis para a recuperação do protagonismo sobre o nosso próprio corpo. Cada organismo é único, e a informação é o mapa que nos permite chegar ao consultório médico com mais propriedade e segurança para exigir o cuidado que cada um de nós merece. Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Com colaboração de Danyelle Mariaca ginecologista, endocrinologista e especialista em medicina integrativa Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes

  • Caso Epstein revela o império do silêncio e da exploração

    Reconhecer-se como vítima é, em muitos casos, um processo doloroso. Por isso, em respeito às adolescentes vitimadas pela rede de exploração sexual de Jeffrey Epstein, neste artigo optamos por chamá-las de sobreviventes. Um milionário, uma ilha paradisíaca, conexões com figuras poderosas e a convicção na impunidade: esses foram os elementos centrais do caso Jeffrey Epstein. O financista norte-americano, criminoso condenado, comandou uma extensa rede de tráfico sexual de menores que envolveu nomes da realeza, do Vale do Silício, políticos influentes e até mesmo um ex-presidente da Assembleia Geral da ONU. Jeffrey Epstein foi professor do ensino médio antes de se tornar um financista poderoso – Foto: Getty Images O tráfico de pessoas  costuma ser percebido, no imaginário popular, quase como um mito distante da realidade. Muitos acreditam que é improvável que qualquer pessoa possa se tornar vítima desse crime. No entanto, essa percepção contraria completamente os alertas de especialistas, qualquer indivíduo pode ser um alvo em potencial, desde que corresponda ao propósito buscado pelos criminosos. No Brasil, já foram identificadas cerca de 241 rotas de tráfico de pessoas . A maior parte delas se concentra nas regiões Norte e Nordeste, áreas historicamente marcadas por elevados índices de vulnerabilidade econômica e social. Essa vulnerabilidade funciona como terreno fértil para o aliciamento: promessas de emprego, ganhos financeiros ou até mesmo de uma nova vida são utilizadas como iscas pelos criminosos. O mais alarmante é que, em muitos casos, o próprio aliciador já foi vítima do mesmo crime, perpetuando o ciclo de exploração e violência. As sobreviventes do Caso Epstein relataram que havia um modus operandi no esquema criminoso.  Elas eram convencidas a ir até a casa de Epstein, em Palm Beach, sob o pretexto de realizar uma massagem, mas acabavam sendo forçadas a manter relações sexuais com ele. Além das adolescentes, outra figura central no aliciamento de menores foi Ghislaine Maxwell. O relato de Virginia Giuffre, advogada estadunidense e sobrevivente, falecida em 2025, descreveu como Ghislaine convencia meninas a irem até a casa de Epstein em Palm Beach: “ Ghislaine Maxwell se aproximou de mim na área do spa. Ela me disse: ‘Você está lendo um livro sobre massoterapia?’ e começamos a conversar. Então, ela disse: ‘Sabe de uma coisa? Eu conheço um homem que pode lhe oferecer uma oportunidade, caso queira se tornar uma massoterapeuta de verdade. Podemos treiná-la e você pode ir a uma entrevista hoje à noite. Se ele (Epstein) gostar de você, você será uma massagista de verdade. Conhecerá o mundo e ganhará 200 dólares. ”  O relato da brasileira Marina Lacerda, outra sobrevivente, guarda muitas semelhanças com o de Virginia Giuffre. Marina contou que começou a frequentar a casa de Epstein aos 14 anos e, ao completar 16, ouviu dele que já era “velha demais”. Marina Lacerda, brasileira sobrevivente do Caso Epstein e que foi aliciada aos 14 anos por uma amiga (Reprodução: GMA) As investigações revelaram que o atual presidente norte-americano, Donald Trump, aparece milhares de vezes nos arquivos relacionados a Jeffrey Epstein. Esse fato intensificou a pressão popular nos Estados Unidos para que os documentos sejam divulgados integralmente. Muitos deles, no entanto, foram publicados com tarjas pretas, ocultando nomes e imagens de sobreviventes. Para parte da opinião pública, essa prática estaria, na verdade, protegendo Trump e outras pessoas envolvidas no esquema criminoso de Epstein. Da esquerda para a direita: Donald Trump, Melania Trump, Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. Foto: Getty Images Alguns nomes citados nos arquivos de Jeffrey Epstein já estão sendo chamados a responder, entre eles o ex-príncipe Andrew. Por muitos anos, Andrew contou com a proteção de sua mãe, a Rainha Elizabeth II. Hoje, porém, enfrenta um cenário bem diferente em um Reino Unido sob a liderança de seu irmão, o Rei Charles III. Na foto da esquerda para direita; Ex-príncipe Andrew, Virginia Giuffre e Ghislaine Maxwell. Reprodução Além de Donald Trump e Andrew, outros nomes que aparecem nos arquivos de Jeffrey Epstein incluem figuras de grande destaque internacional, como Elon Musk, Bill Gates, Sarah Ferguson, Richard Branson, Steve Bannon, Miroslav Lajčák, Lord Mandelson, a princesa Sofia da Suécia e Ehud Barak. Os crimes de Epstein e da rede de poderosos que o cercava escancaram uma verdade incômoda: o tráfico humano e a exploração sexual de menores não são realidades distantes , mas problemas que se perpetuam diante dos nossos olhos. Eles revelam como a influência e o dinheiro podem comprar silêncio, abafando denúncias e manipulando narrativas pelo medo e pelo poder, não apenas entre autoridades, mas também em veículos de mídia que, escolheram ignorar as vozes das sobreviventes. Resta esperar que a verdade não seja sufocada e que a justiça finalmente alcance aqueles que acreditavam estar acima dela. O tráfico de pessoas é um crime silencioso que destrói vidas todos os dias. Se você souber ou suspeitar que alguém esteja sendo vítima, não se cale. Denuncie: ligue para o Disque 100 e registre sua denúncia. Texto escrito por Katiane Bispo , é feminista, formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Já atuou em inúmeros projetos de defesa aos Direitos Humanos, Gênero e Educação. Uma curiosa por essência e teimosa por sobrevivência. É podcaster no programa "O Historiante", colunista no Portal Águia.  Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Referências https://news.un.org/en/story/2026/02/1166980#:~:text=By%20Vibhu%20Mishra,Crimes%20against%20humanity%20threshold  – [Relatório ONU]  https://www.youtube.com/watch?v=7j1xEv8ZXFU  – [Relato Virginia Giuffre] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/princesa-sofia-da-suecia-e-citada-nos-documentos-do-caso-epstein/  -  [Envolvimento Princesa Sofia]  https://www.metropoles.com/mundo/ex-principe-e-ex-duque-saiba-quem-e-andrew-preso-nesta-5a  -  [Envolvimento Andrew] https://www.unodc.org/documents/congress/background-information/Human_Trafficking/TIP_Manual_es_module_01.pdf  - [Manual de Combate ao Tráfico de Pessoas] https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/historia-hoje/segundo-arquivos-epstein-cultivava-droga-zumbi-que-anula-vontade-propria.phtml  - [Arquivos Caso Epstein]

  • Por que mulheres não podem ter hobbies?

    IMAGEM: Alice Trindade Hobby , substantivo masculino derivado do inglês, é definido como um passatempo, uma atividade realizada para distração ou prazer. Para alguns homens, pode ser o futebol aos fins de semana ou a tradicional partida de sinuca com os amigos na sexta-feira após o expediente. Já para muitas mulheres, o hobby ainda se apresenta como um luxo distante:  grande parte de seu tempo é absorvida pelo trabalho remunerado e pelas responsabilidades domésticas , o que limita a possibilidade de dedicar-se a atividades de lazer. Dados do IBGE revelaram que mulheres dedicam, em média, 9,6 horas a mais por semana aos afazeres domésticos e familiares em comparação aos homens . Essa sobrecarga é resultado de uma construção social que  historicamente atribuiu às mulheres a responsabilidade pelo cuidado da casa e dos filhos, mesmo quando elas também estão inseridas no mercado de trabalho. Além disso, vale ressaltar que a falta de tempo para o lazer pode ter grande impacto sobre a saúde mental da mulher. O hobby, associado ao descanso e à distração, acaba sendo substituído por jornadas longas e contínuas de trabalho, o que contribui para o aumento do estresse, da ansiedade e da sensação de esgotamento. Dessa forma, enquanto o lazer e o fanatismo masculino são naturalizados em nossa sociedade, do futebol com os amigos aos jogos de videogame, o tempo livre e o direito de ser fã das mulheres são frequentemente questionados ou interrompidos. O corpo feminino e o controle social Crescemos ouvindo qual é o papel da mulher e do homem dentro de casa. Por uma suposta “ordem natural”, as funções de cuidadora e de provedor são bem estabelecidas, o que evidencia que essa construção social de longa data se sustenta principalmente pela naturalização dos papéis de gênero. Nesse sentido, essa ideologia influencia diretamente a forma como as atividades sociais são divididas. Como consequência, praticar hobbies, algo que deveria ser uma livre escolha, transforma-se em uma prática social estruturada para a manutenção da dominação masculina. Assim, quando uma mulher procura romper com esse padrão, acaba tornando-se alvo de hostilização, especialmente em práticas de lazer tradicionalmente associadas ao público masculino. Outro ponto importante é a constante desvalorização do saber feminino, presente em comentários como: “Você gosta de futebol? Então me diz o que é impedimento” ou “ Se você realmente acompanha Fórmula 1, me explica como funciona o DRS” . Além disso, há as frequentes piadas sobre hobbies tipicamente femininos: “Crochê é coisa de velha”, “Você cozinha muito, já dá para casar” ou “Larga de acompanhar grupos coreanos e faz algo de útil” . Independentemente do que a mulher escolha fazer, sempre haverá questionamentos e críticas. Isso evidencia que o problema não está no hobby em si, mas na busca constante pelo controle dos corpos e interesses femininos. Ao limitar o direito das mulheres a experiências e momentos de lazer, reforça-se uma lógica que as subordina à utilidade e à aprovação social.  Dessa forma, romper com esse ciclo passa pelo entendimento de que hobbies não definem valor ou competência, mas sim representam formas de expressão, autonomia e cuidado. Foto: Reprodução / Internet Quem tem o direito de ser fã? Nem todo hobby se transforma em fanatismo, mas todo fã nasce de um interesse que começou pequeno. Enquanto o fanatismo masculino, sobretudo no esporte, foi historicamente legitimado como paixão e tradição, no caso das mulheres não bastam os questionamentos: surge também a cobrança pela perfeição, em que até o lazer ou a admiração exigem maestria.  Não basta gostar de fotografia: é preciso ter o melhor equipamento. Não basta pintar: é preciso produzir com afinco. Não basta produzir conteúdo nas redes sociais: é preciso conquistar muitos seguidores e viralizar. A situação se torna ainda pior quando o gosto está ligado à cultura pop, um território que, por muito tempo, foi tratado como  “coisa de mulher” e, por isso, automaticamente desvalorizado. A intensidade e a admiração das mulheres sempre foram reduzidas a exagero, imaturidade ou superficialidade ao longo da história. Como se sua forma de sentir precisasse ser explicada, controlada ou diminuída. No entanto, a ideia do hobby nasce justamente da necessidade de uma pausa na rotina: realizar algo sem pensar em desempenho, reconhecimento ou lucro. E, na prática, a realidade é completamente diferente. Um exemplo disso é que, historicamente associado ao público masculino, ano após ano as modalidades esportivas ganham cada vez mais mulheres como fãs. De acordo com o estudo da Collective, empresa de consultoria feminina em esportes e entretenimento, 72% das mulheres se declaram fanáticas por uma ou mais modalidades.  Elas acompanham de perto campeonatos, consomem conteúdos, participam de torcidas organizadas e constroem novas formas de se relacionar com esportes que antes pareciam distantes, tornando a experiência de torcer mais inclusiva e comunitária.  Esse movimento também redefine a forma como as atletas recebem visibilidade e reconhecimento. O engajamento feminino passa a impulsionar a audiência, os patrocínios e o debate público sobre equidade no esporte, transformando jogadoras em referências culturais e atribuindo real valor às suas trajetórias, identidades e narrativas dentro e fora das competições. Esse protagonismo também se fortaleceu nos anos 2000, com o surgimento dos fandoms de divas pop, séries de TV e reality shows, das plataformas de fanfics e das torcidas esportivas de jogos online. Segundo pesquisa da Monks, em parceria com a Floatvibes, o perfil do fã brasileiro é majoritariamente composto por mulheres entre 25 e 35 anos , o que comprova que a base dessas comunidades passa, em grande parte, pelas mãos delas. É justamente nesses espaços que milhões de mulheres constroem identidade, linguagem própria e presença cultural. São elas que movimentam, impulsionam e transformam entretenimento em experiência coletiva. Aquilo que por tanto tempo foi reduzido à “coisa de mulher” é, na prática, um dos motores mais potentes da cultura contemporânea. Texto escrito por Alice Trindade e Jeane Queiroz Alice é graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Jeane é jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Referências https://jornal.usp.br/atualidades/mulheres-dedicam-em-media-96-horas-a-mais-do-que-os-homens-as-tarefas-domesticas/ https://www.eufemea.com/2025/03/mulheres-relatam-dificuldades-para-manter-hobbies-em-meio-a-rotina/ https://brazoalimentos.com.br/voce-tem-um-hobby-ou-anda-esquecendo-de-si-por-que-as-mulheres-tem-cada-vez-menos-tempo-livre/ https://vogue.globo.com/vogue-negocios/noticia/2025/05/o-hobby-sem-funcao-o-que-as-mulheres-estao-perdendo-ao-unir-o-util-ao-agradavel-o-tempo-todo.ghtml https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/24616/1/Influ%c3%aanciaG%c3%aaneroLazer.pdf https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2024/10/24/fa-brasileiro-gasta-r-200-por-mes-para-alimentar-relacao-com-os-idolos-veja-raio-x-dos-fandoms.ghtml https://maquinadoesporte.com.br/mercado/pesquisa-mostra-que-72-das-mulheres-sao-fanaticas-por-um-ou-mais-esportes/?utm_source=chatgpt.com

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