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  • Por que a Geração Z rejeita o modelo tradicional de trabalho

    Esse grupo já ocupa espaço nas corporações, mas ainda enfrenta resistência e choques culturais em ambientes mais conservadores. Uma geração que, hoje, conquista seu espaço no mercado de trabalho; Crédito: Imagem gerada por IA A Geração Z, formada por pessoas nascidas entre meados da década de 1990 e 2010, é conhecida como “nativa digital”.  O termo descreve aqueles que cresceram em meio às inovações tecnológicas como internet, computadores e smartphones, e que, por isso, desenvolveram uma relação natural com o ambiente digital. Esse grupo traz consigo características marcantes, como a capacidade de realizar múltiplas tarefas, pensamento ágil e criatividade, atributos que se revelam promissores no campo profissional. Ano após ano, cresce o número de indivíduos da Geração Z que ingressam no mercado de trabalho, um movimento natural, já que boa parte dos “zoomers”  atingiram a maioridade. De acordo com relatório da consultoria McKinsey, em 2025 esse grupo representou um quarto da força de trabalho global. A projeção indica que, em aproximadamente cinco anos, essa participação poderá chegar a  30%. Com base nesse cenário, é possível afirmar que a crescente participação da Geração Z tende a redefinir padrões de produtividade, comunicação e relacionamento dentro das organizações. No entanto, os zoomers ainda enfrentam obstáculos para se adaptar a ambientes tradicionais e lidar com expectativas profissionais que, muitas vezes, não dialogam com sua visão de mundo. Uma geração criada em meio à recessão Se os Millennials  já haviam rompido barreiras, abrindo espaço para novas formas de trabalho e enfraquecendo estruturas rígidas, a Geração Z aprofunda ainda mais essa transformação. Diferentemente de seus antecessores, os zoomers não apenas desejam flexibilidade e propósito: eles consideram esses elementos indispensáveis para permanecer em uma empresa. Esse pensamento exerce pressão sobre organizações que ainda operam em modelos hierárquicos tradicionais, exigindo transformações culturais que vão além da adoção de tecnologias. Trata-se de uma revisão profunda de valores, práticas de gestão e dinâmicas de convivência no cotidiano corporativo. A nova geração vê o trabalho como necessidade; Crédito: Imagem gerada por IA Além disso, boa parte da Geração Z cresceu em meio a períodos de recessão econômica, o que faz com que o trabalho seja percebido mais como uma necessidade do que projeto de vida ou realização pessoal. Assim, quando as condições oferecidas não correspondem às expectativas de estabilidade, reconhecimento e bem-estar, o ambiente profissional tende a se tornar fonte de frustração. Ademais, os jovens da Geração Z enfrentam, atualmente, desafios ligados à valorização da carreira por meio dos estudos, já que o diploma deixou de oferecer as garantias de outrora. Com o avanço acelerado da  tecnologia e a crescente competitividade, faltam alternativas de emprego para profissionais qualificados, sobretudo vagas que reconheçam e valorizem sua formação acadêmica. Comportamentos na esfera profissional A Geração Z se apresenta como um grupo que se relaciona com o trabalho de uma forma bastante distinta, sem apego ou fidelidade a um único emprego e com uma necessidade constante de mudança. Esse comportamento está diretamente ligado à socialização desses jovens em um mundo acelerado, digital e altamente competitivo, no qual novas oportunidades surgem a todo instante. Por isso, eles tendem a priorizar experiências que promovam aprimoramento profissional, bem-estar e alinhamento com seus valores pessoais. Os zoomers esperam um ambiente de trabalho mais leve e colaborativo; Crédito: Imagem gerada por IA Nesse cenário, as práticas tradicionais das corporações mostram-se  insuficientes, exigindo das empresas estratégias mais flexíveis, transparentes e centradas no indivíduo. A Geração Z valoriza empregadores que escutam seus colaboradores, cultivam ambientes leves, oferecem flexibilidade de horários e estimulam a criatividade. O que esperar do futuro Atualmente, muitas empresas vêm se adaptando para acompanhar as novas demandas do mercado. Observa-se uma abertura crescente para inovações tecnológicas, maior incentivo ao diálogo interno e flexibilização de horários, incluindo a adoção de modelos híbridos e do trabalho remoto. Ao mesmo tempo, os zoomers têm se mobilizado de forma mais ativa em defesa de melhores condições de trabalho. Um exemplo é a campanha pelo fim da escala 6x1, que busca reduzir jornadas exaustivas e promover uma valorização mais justa da força de trabalho. Paralelamente, o avanço acelerado das ferramentas de Inteligência Artificial tende a remodelar diversas funções, exigindo da geração Z um aprimoramento contínuo de competências. Das empresas, por sua vez, será necessária uma postura mais atenta às capacitações e ao equilíbrio entre tecnologia e humanidade. No futuro, cresce também a necessidade de redefinir o próprio sentido do trabalho. Para a Geração Z, equilíbrio emocional, saúde mental e propósito ocupam posição central, fatores que devem levar as corporações a repensar suas práticas internas e a  valorizar de forma mais consistente a contribuição desse grupo. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Referências https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/89704409/1569-libre.pdf?1660580971=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DGeracao_Z_Uma_analise_sobre_o_relacionam.pdf&Expires=1764020647&Signature=S~apbk3XJwTtLWj3UVit6ezAR97S6Xnr-LIvFDYxGCExxVPMHXAzu2nFWjkOovx83gkYVQeyuZ4WI~RXO5JPo5VBoe4~l6rXhxuW7j9xQbvLFH1j1YEMpR0122DRY-f2dvJWKdLPAJG7Vum3AKihpHo-86jpQ-1BB2-MMDZkJiMQ3UsUQcmdSeL-palbKRbbKp9LSzo-GCA8Svnct1EmKKJdFOADv~7XBN26b2OXuOyzxKvSlFTOnU07lRRiYDbx-SA9eSYrDhXga6vH1vHigCTp~cOTajtB4OnGug9jOG3P796wDWgBCkZhDJdPnevV3yqVcP1zYgsrVBEhrTWnyQ__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA https://ric.cps.sp.gov.br/bitstream/123456789/17067/1/Gest%c3%a3o_empr_2023_1_Fl%c3%a1vio_Augusto_da_Silva_Gera%c3%a7%c3%a3o_Z_no_mercado_de_trabalho.pdf https://forbes.com.br/carreira/2025/01/geracao-z-um-quarto-da-forca-de-trabalho-o-que-esses-profissionais-querem/

  • Mete Marcha Negona! Como a Marcha das mulheres negras ocupa espaços e projeta o Brasil do Bem Viver

    Um Encontro com a História e o Propósito Foto por: Thaynara Fernandes Participar da Marcha das Mulheres Negras em Brasília, em 25 de novembro de 2025, foi um encontro inadiável com a minha própria história, vivido ao lado de companheiras potentes. Como mulher negra e especialista em Gestão da Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), tive a felicidade de, em cumprimento de agenda profissional no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), viver esta experiência que transcendeu a teoria. Foi a materialização de séculos de resistência e a expressão de um movimento que mobilizou cerca de 300 mil mulheres , vindas de diferentes regiões do Brasil e de mais de 40 países. A emoção que me atravessou em meio à multidão é a certeza de que este é um movimento sem retorno. Sua potência não nasceu agora: a Marcha foi idealizada e organizada por lideranças como Nilma Bentes , referência política e articuladora histórica, que dedicou sua vida a dar visibilidade à mulher negra, tantas vezes "imprensada" entre o machismo e o racismo. Naquele espaço, senti-me carregando inúmeros gritos, sobretudo os das mulheres que pavimentaram meu caminho para que eu pudesse estar ali. Nosso trajeto é sempre para frente , na busca incessante de conscientizar nosso povo sobre sua ancestralidade e capacidade. Fomos ensinados a acreditar que éramos pequenos, incapazes; mas somos descendentes de reis e rainhas. A Marcha reafirma nossa grandeza, lembrando-nos que todas as mulheres ali presentes são grandiosas. Nossa luta, hoje, é clara e urgente: ocupar espaços. A Interseccionalidade em ação: os clamores dentro do clamor A Marcha é o maior e mais potente exemplo da interseccionalidade em movimento. O grito central das mulheres negras — situadas no cruzamento entre racismo e sexismo, conforme teorizado por Kimberlé Crenshaw — desdobra-se em múltiplos "clamores internos" por justiça. Embora o movimento tenha alcançado uma magnitude histórica, é preciso reconhecer que muitos gritos talvez ainda não tenham sido representados . Por isso, o horizonte da próxima Marcha, marcada para daqui a cinco anos, em 2030, reforça a certeza de que novas lideranças surgirão e novos caminhos serão abertos, permitindo que mais vozes sejam ouvidas e garantindo que a Marcha avance em sua proposta de inclusão. A presença de diversos grupos na Esplanada dos Ministérios evidenciou que a sobreposição de identidades e opressões gera demandas específicas, mas profundamente coesas. As mães  que perderam seus filhos para a violência do Estado clamavam pelo fim da Necropolítica; as mulheres idosas  traziam a sabedoria da ancestralidade e reivindicavam o direito ao descanso; as mulheres quilombolas  exigiam a defesa do território e a justiça ambiental; as jovens da Baixada Carioca  lutavam pelo direito à cidade e à segurança; as representantes de religiões de matriz africana  manifestavam-se contra a intolerância religiosa; as mães solo  demandavam apoio estatal diante da sobrecarga do cuidado; as trancistas  reivindicavam autonomia econômica e valorização estética; e a comunidade LGBT negra  lutava pelo reconhecimento de suas identidades e contra a violência de gênero, raça e sexualidade. Além destes, inúmeros outros grupos, igualmente potentes, levaram seus clamores à Brasília, reforçando que a pauta interseccional da Marcha constitui um universo vasto e em contínua expansão, comprometido em não invisibilizar nenhuma luta. Reparação e Bem Viver: o salto político O lema da Marcha, "Por Reparação e Bem Viver" , sustenta o projeto político que dá corpo ao movimento. Ele amplia o conceito de reparação, transformando-o em uma proposta estrutural capaz de garantir vida plena, dignidade e autonomia à população negra. O Bem Viver exige o resgate de acessos historicamente negados.  Isso significa ir além do básico e afirmar, de forma contundente, que temos direito a ter direitos . Entre esses direitos fundamentais estão a saúde, a moradia digna, o saneamento básico, a segurança, a educação, a cultura, bem como o direito de cultuar a fé, exercer a sexualidade e tantos outros que compõem a experiência de uma vida plena. Conforme o Manifesto Econômico da Marcha, a reparação é uma urgência que se concretiza em eixos claros : o enfrentamento direto da pilhagem econômica histórica ; a transformação radical das relações de trabalho , assegurando a remuneração digna e previdência; e a ruptura com a lógica macroeconômica   concentradora de riqueza , por meio da tributação progressiva e do direcionamento de investimento público e crédito justo para os territórios e empreendimentos de mulheres negras. A Justiça Climática  emerge como componente essencial desse Bem Viver, uma vez que as comunidades negras estão entre as mais impactadas pelas crises ambientais. A urgência e a resiliência deste movimento são impulsionadas pelo grito de ação repetido por todas as participantes: "Mete Marcha Negona" . Essa energia coletiva dialoga com a fala de Conceição Evaristo, que ecoou sua frase na primeira Marcha (2015) e a repetiu em 2025, reiterando o lema de resistência presente em seu livro Olhos D'Água . "Eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer." Esse compromisso com a vida se traduz em políticas públicas e conquistas concretas. Entre as ações afirmativas e iniciativas de combate ao racismo que buscam mitigar seus impactos, destacam-se: Avanços Legislativos : O esforço para institucionalizar a reparação é contínuo, destacando-se a PEC-27/2024, que visa criar o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial. Cotas Raciais (Lei nº 12.711/2012) : As cotas representam a mais poderosa ferramenta de reparação no acesso. O ingresso no ensino superior federal por meio de ações afirmativas cresceu 167% em dez anos (Fonte: Inep), e a representatividade de pessoas negras no serviço público federal passou de 17% em 2000 para 38% em 2020 (Fonte: IBGE). A presença de lideranças históricas como Benedita da Silva, a primeira mulher negra a se tornar deputada federal no Brasil , que, aos mais de 80 anos, esteve ativamente na Marcha, reforça a força e a continuidade da luta. Em seu discurso, Benedita reafirmou a importância da presença e da garra das mulheres negras: "Com a nossa garra, nós fazemos a diferença no nosso país. Vamos continuar fazendo a luta, ainda que eles não queiram. Vamos seguir lutando pelo bem viver. Queremos as mulheres negras vivas, ganhando salários justos." Sua participação é símbolo de que a luta pela ocupação de espaços políticos, iniciada com sua pioneira eleição em 1982, permanece como um legado em movimento. A certeza da ocupação e a transversalidade da luta O aumento da inserção de pessoas negras em todos os âmbitos é a prova viva de que o projeto de nos menorizar falhou. Somos a maioria da população (55,5%, Censo IBGE 2022) e, com a força da nossa coletividade, estamos exigindo e ocupando os espaços de poder e decisão. Sinto-me honrada ao escrever este artigo sobre a Marcha para o Portal Águia, constatando, mais uma vez, que a luta contra o racismo e pela inclusão é transversal a todos os temas  – da economia à justiça climática, passando pela educação e política. Essa transversalidade é a lição central que conecta este texto aos três outros artigos que publiquei neste portal ao longo de 2025. A emoção que vivi em Brasília se transforma em convicção: este é um projeto político de nação. Estamos retomando o caminho da história que nos foi roubada, reescrevendo-a com a força da nossa luta e com a certeza do nosso Bem Viver. Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • Reforma Administrativa: o que está em jogo

    A reforma administrativa voltou a ocupar o centro do debate público em Brasília. Em 2025, novas propostas e discussões sobre mudanças nas regras de ingresso, estabilidade e gestão do serviço público  reacenderam questionamentos: a modernização trará maior eficiência  e qualidade no atendimento ou implicará perda de direitos e precarização  das condições de trabalho? Este artigo apresenta os principais pontos em discussão, o estágio atual de tramitação e os impactos práticos para cidadãos quanto para servidores. Foto: imprensa ANDES_SN  A origem do debate A ideia de “reforma administrativa” não é nova no Brasil. A versão mais recente, a PEC 32/2020 , já havia gerado intensos debates, mobilizações de servidores públicos e ampla repercussão social. Contudo, após a troca de governo em 2023, o texto perdeu força e acabou arquivado. Com a nova conjuntura política e econômica, o tema voltou à pauta. Em 24 de outubro de 2025, foi protocolada a PEC 38/2025 , acompanhada de um projeto de lei complementar (PLP) e de um projeto de lei ordinária (PL), ambos com 171 assinaturas, abrindo oficialmente a tramitação da proposta. A justificativa apresentada pelos proponentes é direta: modernizar a administração pública , introduzir mecanismos de eficiência, reduzir “privilégios históricos”  e adaptar a estrutura do Estado às demandas contemporâneas, incluindo digitalização e metas de desempenho. Para o governo, representado pela ministra Esther Dweck, responsável pela gestão do Estado , a reforma não se trata de “desmonte”, mas de “transformação”: tornar o Estado mais ágil, eficaz e capaz de entregar políticas públicas com qualidade. Segundo a ministra, o debate supera a lógica da PEC 32 , ao priorizar governança, carreira e inovação. Mas afinal, qual é o conteúdo da proposta e o que pode mudar concretamente para servidores e cidadãos? PEC 38/2025: os quatro eixos estruturantes A PEC 38/2025 organiza suas propostas em quatro eixos principais , voltados à reformulação da lógica de gestão pública no Brasil. 1. Estratégia, Governança e Gestão Implementação de planejamento estratégico no setor público, com metas e objetivos definidos para órgãos e entidades. Estabelecimento de acordos de resultados e metas de desempenho vinculados à execução orçamentária e à avaliação gerencial. Criação de mecanismos de controle e responsabilização, reforçando a proposta de “gastar melhor” os recursos públicos. 2. Transformação Digital Digitalização integral dos serviços públicos, com interoperabilidade entre sistemas, governo eletrônico, atendimento remoto e simplificação de processos burocráticos. Expansão do uso de tecnologia para tornar o Estado mais acessível e eficiente no atendimento à população. 3. Profissionalização do Serviço Público Reformulação das carreiras públicas: progressão por mérito e desempenho, com múltiplos níveis salariais e fim da progressão automática apenas por tempo de serviço. Estágio probatório mais rigoroso: avaliações detalhadas, com possibilidade de exoneração caso o servidor seja considerado inapto. Uniformização das tabelas remuneratórias: incorporação de gratificações e adicionais à remuneração básica, eliminando benefícios automáticos vinculados ao tempo de serviço. 4. Extinção de “Privilégios” e Regras de Remuneração Revisão de regimes e benefícios: mudanças em aposentadorias, adicionais, férias e folgas consideradas “excessivas” ou “privilégios históricos”. Principais propostas: redução do período de férias, limitação de adicionais de insalubridade e periculosidade, fim da conversão de férias em pecúnia e estabelecimento de teto remuneratório para empresas estatais. Abrangência nacional: aplicação das medidas à União, estados e municípios, com impacto direto   em toda a estrutura do serviço público.   Em síntese : a PEC 38/2025 busca redesenhar de forma profunda  o modelo de serviço público brasileiro. A proposta substitui pilares históricos - como estabilidade, incentivos vinculados ao tempo de serviço e vínculos garantidos - por um sistema orientado à meritocracia, ao alcance de resultados  e à adoção de contratos mais flexíveis. O olhar dos defensores Os defensores da PEC 38/2025, entre eles membros do governo, parte da bancada parlamentar e analistas da área de administração pública, argumentam que o Brasil precisa modernizar o Estado por diversas razões: Eficiência e boa gestão:  um Estado moderno deve contar com estruturas flexíveis, foco em resultados e capacidade de adaptação às demandas contemporâneas. Superação da rigidez : o modelo tradicional, considerado excessivamente burocrático, dificultaria respostas ágeis, inovação e o uso inteligente dos recursos públicos. Combate a privilégios e supersalários :  há críticas de que cargos públicos, adicionais e regras de aposentadoria tradicionalmente favorecem segmentos específicos, gerando distorções e desigualdades. A reforma propõe corrigir isso. Atualização das carreiras e meritocracia : a lógica de evolução baseada em mérito, e não apenas por tempo de serviço, poderia estimular maior produtividade, incentivar a qualificação contínua e gerar resultados concretos para a população. Estado adaptado aos desafios modernos:  com digitalização, planejamento estratégico e práticas de governança, o serviço público estaria mais preparado para enfrentar demandas contemporâneas, responder a crises e garantir maior eficiência administrativa. Declaração do governo Segundo a ministra responsável pela gestão do Estado, o objetivo da reforma é “ não desmontar o Estado, mas transformá-lo ”, de modo a tornar cada real gasto mais eficaz e assegurar a entrega de políticas públicas com qualidade. O olhar dos opositores Por outro lado, diversas entidades sindicais, especialistas em administração pública, representantes de servidores e parte da sociedade civil levantam preocupações sérias e críticas à PEC 38/2025. Entre os principais argumentos contrários: 1. Precarização do serviço público e dos vínculos Insegurança para servidores : a substituição de vínculos permanentes por contratos temporários ou sujeitos a avaliação contínua pode gerar instabilidade, demissões arbitrárias e pressão excessiva por metas. Risco à autonomia e imparcialidade:  a estabilidade, historicamente garantida, seria enfraquecida, comprometendo a independência do servidor frente a pressões externas. Limitações da meritocracia por metas : esse modelo tende a desconsiderar contextos estruturais e desigualdades regionais, favorecendo áreas menos vulneráveis e penalizando setores mais críticos. Avaliação de desempenho questionada:  especialistas alertam que os critérios podem se tornar subjetivos e suscetíveis a influências políticas, comprometendo a justiça e transparência do processo. 2. Riscos à continuidade e qualidade dos serviços públicos Deterioração de serviços essenciais : a redução de quadros, a limitação de gastos e a possível substituição de servidores por contratados podem comprometer áreas fundamentais como educação, saúde, segurança e assistência social, especialmente em regiões periféricas ou menos atrativas. Impacto nas políticas de longo prazo : a ênfase em metas de curto prazo pode fragilizar iniciativas estruturais, limitar a inovação institucional e prejudicar a formação de capacidade técnica do Estado. Perda de memória institucional : a rotatividade e a flexibilização dos vínculos podem enfraquecer a continuidade administrativa, afetando a excelência e a qualidade dos serviços públicos. 3. Erosão da independência técnica e risco de politização Estabilidade como pilar institucional:  a estabilidade dos servidores é considerada essencial para garantir impessoalidade, autonomia técnica e proteção contra interferências políticas. Risco de politização : ao revisar esse modelo, a reforma pode abrir espaço para pressões externas e comprometer a neutralidade das instituições públicas. Desvalorização de funções especializadas : a uniformização das tabelas salariais e a eliminação de adicionais podem reduzir o reconhecimento de atividades que exigem alta especialização ou envolvem risco, tornando o serviço público menos atrativo e qualificado. Para muitas entidades, a PEC 38/2025 representa não representa apenas uma reforma administrativa, mas sim um desmonte do modelo republicano de serviço público.  esse modelo, historicamente sustentado pela estabilidade, pela impessoalidade e pela universalidade, seria colocado em risco diante das mudanças propostas. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados. Fonte: Agência Câmara de Notícias Onde estamos agora: tramitação, mobilização e incertezas A PEC 38/2025 foi protocolada em 24 de outubro de 2025, com o apoio inicial de 171 parlamentares. A proposta seguirá para análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), depois para uma comissão especial e, caso aprovada em primeira instância, será encaminhada ao plenário da Câmara. Para avançar, são necessários ao menos 308 votos favoráveis.   Em paralelo, cresce a mobilização de entidades representativas de servidores, sindicatos e movimentos sociais, que organizam protestos, audiências públicas e manifestações contrárias. Recentemente, houve ato massivo em Brasília contra a reforma. Entre parlamentares, crescem os sinais de recuo ou insegurança: já há retiradas de apoio à proposta por parte de alguns signatários. Alguns setores da própria base governista demonstram reservas quanto ao avanço da reforma. O debate em torno da PEC 38/2025 está longe de se encerrar. O processo pode envolver recuos, emendas e negociações intensas, ou até mesmo resultar em uma nova versão do texto. A mobilização social e o escrutínio público terão papel decisivo na definição dos próximos passos, influenciando diretamente o rumo da reforma administrativa. O que muda e o que permanece em aberto Para o cidadão comum, para quem planeja concursos e para servidores atuais ou futuros, os impactos da PEC 38/2025 podem ser significativos. Caso a reforma seja aprovada, alguns pontos concretos se destacam: Carreira mais volátil: menor rigidez e previsibilidade, com contratos vinculados a metas e avaliações de desempenho. O não cumprimento dos requisitos pode resultar em desligamento, tornando o emprego público menos estável. Redução de benefícios : eliminação ou limitação de adicionais automáticos, o que pode reduzir a remuneração efetiva, sobretudo para servidores com longo tempo de serviço ou em funções de risco. Risco de precarização do atendimento:  serviços essenciais — como saúde, educação, segurança e assistência social - podem sofre com redução de quadros, terceirização ou restrições orçamentárias para expansão de pessoal. Desigualdade regional:  funções essenciais em áreas remotas ou menos "visíveis", podem ser negligenciadas, resultando em menor qualidade de contratação e agravando disparidades entre regiões. O dilema da modernização vs. a proteção do Estado A reforma administrativa proposta pela PEC 38/2025 surge em um momento de tensão entre duas missões fundamentais: modernizar o Estado brasileiro e preservar a função pública como pilar da democracia, do atendimento igualitário e da justiça social. É legítimo, e talvez urgente, repensar estruturas, ajustar rigidezes, buscar eficiência e eliminar distorções. No entanto, a experiência internacional e os alertas de especialistas indicam que tais reformas devem avançar com cautela. A austeridade ou o corte de gastos, por si só, nem sempre resultam em maior qualidade. Para que a mudança cumpra seu propósito sem causar danos irreversíveis, são indispensáveis: objetividade nas avaliações, salvaguardas contra a politização, garantias de direitos e um forte compromisso com a universalidade dos serviços públicos. O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio : modernização com responsabilidade; eficiência com compromisso social; meritocracia com justiça e, sobretudo, transparência e participação da sociedade. Enquanto a tramitação avança e o debate se intensifica, cabe aos cidadãos, servidores e à sociedade civil acompanhar de perto, informar-se e participar ativamente. Afinal, a forma como o Estado se organiza, e quem são os servidores que o compõem, impacta diretamente o cotidiano de todos nós. Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências PEC 38/2025 — texto de 24 de outubro de 2025, protocolo na Câmara dos Deputados. Disponível em: https://noticias.r7.com/brasilia/pec-da-reforma-administrativa-e-oficialmente-protocolada-na-camara-25102025/ Relato oficial da apresentação da proposta e síntese dos quatro eixos da reforma. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1209763-pec-da-reforma-administrativa-promove-resultados-governo-digital-e-combate-a-privilegios/ Análise da estrutura de carreiras, avaliação de desempenho e remuneração previstas na reforma. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/a-reforma-da-administracao-publica-e-o-fim-do-modelo-burocratico-analise-critica-da-pec-n-38-2025-e-seus-impactos-sobre-concursos-e-carreiras-publicas/ Posicionamento do governo — visão de modernização e reconstrução do Estado — declarado pela ministra responsável. Disponível em: https://www.gov.br/gestao/pt-br/assuntos/noticias/2025/agosto/trabalho-de-transformacao-do-estado-feito-pelo-governo-federal-mudou-o-debate-sobre-a-reforma-administrativa-diz-esther-dweck ? Críticas, mobilização de entidades, riscos de precarização e impactos sobre serviços públicos. Disponível em:   https://unacon.org.br/2025/11/24/reforma-administrativa-em-marcha-a-re-2-a-pec-38-2025/

  • Eleições na Venezuela: os dilemas e o alinhamento dos países na América Latina

    As eleições da Venezuela serão em 28 de julho , e o clima já esquentou entre a oposição e o atual governo de Nicolás Maduro . Ou melhor, ex-oposição, já que, de acordo com as autoridades venezuelanas, a candidata da oposição não pôde se registrar para concorrer, pois tinha cometido “ ações desestabilizadoras ”, segundo palavras do Ministério Público do país sul-americano. Vamos entender mais sobre esse assunto tão polêmico. A ex-candidata às eleições da Venezuela, Maria Corina Machado, do partido Vente Venezuela, era a maior rival do atual presidente Nicolás Maduro nas eleições de 2024. Porém, nesse cenário, há um grande problema: Machado e outros possíveis candidatos foram, pouco a pouco, vetados nesse processo eleitoral. Fonte: Carta Capital / ex-candidata Maria Corina Machado do partido Vente Venezuela, oposição de Maduro De acordo com o sistema eleitoral, o Ministério Público e outras autoridades do país, Machado cometeu alguns atos, que até o momento não foram devidamente explicados ao eleitor venezuelano, e a sua possível substituta, Corina Yoris, da Plataforma Unitária Democrática (PUD) , não conseguiu fazer a inscrição para as eleições, pois também foi vetada. Analisando o cenário eleitoral da Venezuela, percebe-se que Maduro está desesperado com o provável resultado dessas eleições, e de acordo com as pesquisas o atual governante tem entre 15% e 20% das intenções de voto . Ou seja, Maduro já sente que será derrotado. Apoio Internacional Perante aos atuais acontecimentos, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do Brasil, e Gustavo Petro, da Colômbia e até Emmanuel Macron, da França, apoiaram a oposição de Maduro, manifestações que foram agradecidas por Maria Corina Machado, que em seus últimos discursos disse que o apoio desses líderes mostra que seu partido está no caminho certo e justo. A ex-candidata ainda pediu aos líderes democráticos do mundo que apoiassem a plena implementação do Acordo de Barbados¹. Fonte: Jornal O Globo / o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. O avanço eleitoral da oposição de Maduro Após um grande pleito, com discussões e impedimentos, a PUD informou a aprovação por unanimidade da candidatura de Edmundo González Urrutia, a alternativa após a tentativa da candidata anterior (Yoris) de concorrer pelo partido. O secretário-executivo da PUD está otimista e diz que “ será uma campanha vitoriosa ”, e declarou que o candidato está devidamente inscrito no Conselho Nacional Eleitoral. Ou seja, finalmente a oposição conseguiu colocar um candidato para concorrer com Maduro. Protestos Internacionais Ante toda essa polêmica, muito países (além do Brasil, da Colômbia e da França) como Costa Rica, Argentina, Equador e outros, protestaram em relação a PUD não poder inscrever Corina Yoris no processo eleitoral e fizeram um grande protesto internacional, frisando que todo processo de eleição precisa ser democrático, manifestando um grande descontentamento e sérias preocupações com os obstáculos impostos por todo o sistema eleitoral da Venezuela. Fonte: Human Rights Watch - Relatório Mundial 2024 A Venezuela sofreu um grande êxodo político e econômico , resultando na saída de mais de 7,5 milhões de pessoas do país, segundo os dados do Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), algo que chama muito a atenção da comunidade internacional; países como Brasil e Costa Rica recebem muitos desses imigrantes, que estão saindo de seus lares, em busca de uma vida melhor, pois se sentem econômica e politicamente ameaçados. Agora, somente nos resta aguardar o resultado das eleições. Ou antes, nos resta ver os próximos capítulos dessa corrida contra o tempo, e contra o sistema venezuelano, na tentativa de melhorar a condição do povo através do voto. Texto escrito por Caroline Prado Professora de Cultura Brasileira e Português para Estrangeiros, internacionalista, estudante de Filologia e Línguas Latinas, Embaixadora do Projeto Libertas Brasil na Costa Rica, apaixonada por plantas, livros e fontes confiáveis. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto ¹ Acordo de Barbados: O governo brasileiro congratula-se com o governo e a oposição da Venezuela pela assinatura dos Acordos para Promoção dos Direitos Políticos e Garantias Eleitorais e para Garantia dos Interesses Vitais da Nação, em 17 de outubro, em Barbados. Os Acordos, assinados no contexto de processo de mediação conduzido pela Noruega, são resultado dos esforços de diálogo promovidos por diversos países, inclusive o Brasil, junto aos atores políticos venezuelanos, com vistas à construção de consensos que permitam ao país realizar eleições presidenciais em 2024. Na esteira dos entendimentos consignados nos Acordos de Barbados, o governo brasileiro saúda o anúncio da libertação de oposicionistas presos, pela Venezuela, bem como o levantamento parcial, pelos Estados Unidos, de sanções impostas àquele país. Trata-se de passos relevantes, que comprovam que o diálogo constitui o melhor caminho para a solução dos desafios sociais e políticos enfrentados pela Venezuela. No entendimento de que sanções unilaterais são contrárias ao direito internacional e prejudicam a população dos países afetados, o Brasil acredita que o levantamento total e permanente de sanções contribuirá para normalização da política venezuelana e estabilidade regional. Texto adaptado do site www.gov.br FONTES: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eleicoes-na-venezuela-maria-corina-machado-agradece-posicionamentos-de-lula-e-macron/   https://exame.com/mundo/eleicoes-na-venezuela-entenda-as-opcoes-da-oposicao-para-enfrentar-maduro/   https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72p812yyxvo   https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv2092ygyllo   https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/acordos-de-barbados-sobre-o-dialogo-politico-na-venezuela#:~:text=O%20governo%20brasileiro%20congratula%2Dse,17%20de%20outubro%2C%20em%20Barbados .   https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/acordos-de-barbados-sobre-o-dialogo-politico-na-venezuela#:~:text=O%20governo%20brasileiro%20congratula%2Dse,17%20de%20outubro%2C%20em%20Barbados .

  • Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Desafios e Perspectivas de Políticas Públicas e Socioeconômicas

    A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é uma organização multilateral que reúne nações de quatro continentes - África, América do Sul, Ásia e Europa  - unidas pela língua portuguesa. Criada em 1996, a CPLP é composta por nove países : Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Os objetivos da organização são amplos e diversificados, incluindo  a promoção da cooperação política e diplomática, o fortalecimento da língua portuguesa e o apoio ao desenvolvimento socioeconômico entre os Estados-membros.  A cooperação e o intercâmbio abrangem ainda áreas como educação, saúde, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, justiça, segurança pública, administração pública, cultura, esporte e comunicação social. Apesar de sua agenda ambiciosa, a CPLP enfrenta desafios complexos, que incluem a harmonização dos sistemas políticos com as realidades econômicas, a superação das assimetrias sociais e a construção de uma visão compartilhada capaz de acomodar os interesses de cada  Estado-membro sem comprometer sua soberania. Apesar de possuir um mandato e um estatuto ambiciosos, os mecanismos institucionais da CPLP permanecem relativamente frágeis. Diferentemente de outras organizações regionais, como a União Europeia (UE), a União Africana (UA), a Organização dos Estados Americanos (OEA), e a Comunidade do Caribe (CARICOM), a CPLP carece de autoridade supranacional  e depende fortemente da tomada de decisões por consenso. Com um orçamento bastante modesto , sua capacidade de implementar projetos conjuntos é frequentemente limitada pela escassez de recursos e pela dependência das prioridades definidas pelos Estados-membros. Essas limitações têm levantado questionamentos sobre a eficácia e a real relevância da CPLP , já que suas ações muitas vezes se restringem a gestos simbólicos e declarações de alto nível, vindas  de Presidentes, Primeiros-Ministros, Ministros e Secretários de Estado, com impacto reduzido na vida dos cidadãos  dos Estados-membros. Além disso, persiste a crítica quanto às  profundas desigualdades estruturais entre os países-membros, o que dificulta a construção de uma agenda comum e compartilhada. Desafios e Dinâmicas Políticas Um dos principais desafios enfrentados pela CPLP é a diversidade de sistemas políticos entre seus Estados-membros, que incluem democracias consolidadas, regimes híbridos e governos de caráter autoritário. Essa heterogeneidade dificulta os esforços para promover valores compartilhados, como a democracia, o Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos. A inclusão da Guiné Equatorial , em 23 de julho de 2014, foi particularmente controversa. O país,  que possui três línguas oficiais - português, espanhol e francês - é frequentemente criticado por seu histórico deficiente em direitos humanos e pela ausência de liberdades políticas. Sua adesão à CPLP gerou tensões entre as aspirações normativas da organização e a busca pragmática por expansão e influência. Esta situação evidencia os limites da capacidade da CPLP de impor padrões democráticos e revela o desafio de equilibrar inclusão com  coerência normativa. Desequilíbrio e assimetrias entre os Estados-membros O desequilíbrio populacional e  poder econômico entre os países da CPLP tem sido um  fator de constrangimento para a efetiva integração. Brasil e Portugal, como os  membros economicamente mais desenvolvidos, exercem influência desproporcional dentro da Comunidade. Essa dinâmica, em alguns momentos, gera perceções de dominância ou marginalização dos demais Estados. A liderança na CPLP tende a se alternar conforme os estatutos da organização, mas a influência informal frequentemente reflete realidades geopolíticas mais amplas. O Brasil , país de escala continental e integrante dos BRICS, por vezes utiliza a CPLP como veículo para projetar seu soft power  e promover seus interesses diplomáticos . Já Portugal , como antiga metrópole colonial e membro da União Europeia, desempenha papel central na articulação da CPLP com instituições e agendas europeias. A CPLP reúne um amplo espectro de realidades socioeconômicas, que vão desde países de renda média e alta, como  Portugal e Brasil, até nações consideradas subdesenvolvidas ou em desenvolvimento, como Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Essa diversidade impacta diretamente a dinâmica da organização, tornando-a vulnerável e, por vezes, ineficiente. Os países membros, especialmente os africanos, continuam a enfrentar desafios significativos, como pobreza, insegurança alimentar, acesso limitado à educação e à saúde, além de infraestrutura precária. A diversificação econômica permanece restrita, e suas economias dependem fortemente das exportações, em grande parte de bens de primeira necessidade. Já o Brasil e Portugal possuem economias mais diversificadas e robustas, além de bases de capital humano mais desenvolvidas, capazes de enfrentar os desafios contemporâneos e promover o desenvolvimento sustentável. Entretanto, mesmo nesses países persistem desigualdades regionais e sociais significativas. O Brasil, por exemplo, é marcado por profundas disparidades de renda, educação e saúde entre diferentes regiões e grupos sociais. Fica claro que cada Estado-membro possui  interesses e prioridades divergentes.  Neste contexto, a relevância contínua da CPLP depende de sua capacidade de reduzir as assimetrias internas, promover o desenvolvimento inclusivo, diminuir os índices de pobreza e fortalecer os equilíbrios sociais , independentemente da dimensão territorial, populacional ou do nível de riqueza de cada país. Relações com outras organizações regionais A CPLP atua em uma complexa rede de relações externas, tanto com outras organizações regionais quanto com atores globais. Muitos de seus membros africanos participam  simultaneamente de organizações como a União Africana, a CEDEAO e a SADC. O Brasil, por sua vez, integra o MERCOSUL e participa ativamente dos BRICS. Já a adesão de Portugal à União Europeia acrescenta uma camada adicional de complexidade aos alinhamentos externos da CPLP. Essas afiliações sobrepostas geram tanto oportunidades quanto desafios. Por um lado, permitem que os membros da CPLP aproveitem múltiplas redes e desenvolvam estratégias diversificadas de cooperação. Por outro, podem resultar em  prioridades conflitantes e na dispersão do foco institucional. A CPLP tem buscado desenvolver parcerias estratégicas com atores externos, incluindo as Nações Unidas, a União Europeia e diversas organizações regionais. Essas parcerias são geralmente orientadas para a capacitação, a assistência técnica e a promoção da língua portuguesa. No entanto, a escassa influência econômica e a limitação de recursos reduzem a  capacidade de moldar agendas globais ou negociar a partir de uma posição de força. Integração Econômica e Comércio A integração econômic a entre os membros da CPLP permanece bastante limitada . O comércio intra-CPLP corresponde apenas a uma pequena fração do comércio total da maioria dos Estados-membros, reflexo tanto da distância geográfica quanto da ausência de estruturas produtivas complementares.  Além disso, barreiras tarifárias e não tarifárias, infraestrutura deficiente de transporte e logística e marcos regulatórios divergentes dificultam ainda mais o fortalecimento de laços econômicos sólidos. Os esforços para promover a cooperação econômica têm se concentrado em áreas como promoção de investimentos, assistência técnica e harmonização de normas. A organização criou alguns fóruns de negócios e  investimentos, como a Confederação Empresarial da CPLP, com o objetivo de estreitar  vínculos com o setor privado. No entanto, sua  implementação e funcionalidade têm se mostrado frágeis, e a capacidade da CPLP  de facilitar uma integração econômica substancial permanece limitada. Ainda assim, existe potencial para maior cooperação, especialmente em setores como agricultura, energia e turismo. Os laços linguísticos e culturais compartilhados podem favorecer a mobilidade de mão de obra e capital, além de abrir espaço para colaboração em pesquisa, inovação e transferência de tecnologia.  A concretização desse potencial, contudo, exige esforços conjuntos para superar barreiras e construir a infraestrutura institucional e física necessária. Vale destacar também a sólida relação entre bancos comerciais de países africanos, como Angola, Cabo Verde e Moçambique, e instituições financeiras portuguesas, que chegam a atuar como correspondentes bancários em diversas operações internacionais. Parcerias e Troca de Experiências Rumo ao Desenvolvimento do Capital Humano O desenvolvimento do capital humano , especialmente no que diz respeito ao impacto social, deve ser uma preocupação central para os membros da CPLP. A educação permanece como um grande desafio, particularmente nos Estados-membros africanos, onde o acesso a uma educação de qualidade é limitado  e as taxas de alfabetização continuam baixas. A CPLP tem apoiado diversas iniciativas voltadas para a melhoria da formação de professores, o desenvolvimento curricular e o intercâmbio de recursos educacionais.  Esses esforços são reforçados por programas que promovem a mobilidade estudantil e a cooperação acadêmica entre os Estados-membros. Angola mantém boas relações com universidades brasileiras e portuguesas, enviando regularmente  estudantes para realizarem formação superior nesses países, considerando o forte avanço dos seus sistemas de ensino, especialmente no nível universitário e em áreas de especialização. Desse modo, é fundamental promover uma maior participação das comunidades em iniciativas de desenvolvimento,  de forma a facilitar a transferência de conhecimento e de know-how,  contribuindo para o fortalecimento dos povos. A Língua Portuguesa como Instrumento de Integração A promoção da língua portuguesa é uma característica definidora da CPLP  e constitui uma das fontes principais do seu soft power . Estima-se que o português seja falado por mais de 260 milhões de pessoas no mundo todo, o que o coloca entre os idiomas mais utilizados globalmente. A CPLP procura consolidar e expandir essa comunidade linguística, promovendo um senso de identidade partilhada e facilitando a comunicação em diferentes contextos nacionais. A valorização da língua portuguesa como veículo de inclusão social e de afirmação cultural ocupa um lugar central na agenda da organização. Iniciativas como o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) buscam fortalecer os laços linguísticos e apoiar a disseminação do português, um dos aspectos mais positivos da cooperação no âmbito da CPLP. A língua, embora funcione como uma ponte capaz de conectar as pessoas, também pode constituir uma barreira. Em vários países da CPLP coexistem múltiplos dialetos e línguas nativas , e as elevadas taxas de analfabetismo  continuam a dificultar a plena integração de muitos grupos dentro dos próprios Estados. A CPLP tem procurado enfrentar esses desafios por meio de iniciativas que visam padronizar o uso da língua, promover a alfabetização e apoiar o ensino de línguas tanto nos Estados-membros quanto nas comunidades locais. O desenvolvimento do português como língua de ciência, tecnologia e diplomacia internacional constitui um objetivo estratégico para a organização. Esforços destinados a ampliar a presença do português em fóruns multilaterais, fortalecer seu uso em publicações acadêmicas e científicas e promover as indústrias culturais são considerados fundamentais para o posicionamento global da CPLP. Reformas Institucionais e Visão Estratégica Para que a CPLP concretize plenamente o seu potencial como veículo de desenvolvimento político e socioeconômico, o reforço institucional é indispensável.  Isto implica fortalecer a  capacidade da organização para  implementar programas, ampliar os seus recursos financeiros e aprimorar os mecanismos de monitorização e avaliação. O desenvolvimento de uma visão estratégica mais robusta, alinhada com os interesses de longo prazo de todos os Estados-membros, é também fundamental. Uma das vias possíveis para essa reforma consiste na criação e/ou fortalecimento de agências especializadas ou organismos técnicos , dotados de mandatos em áreas como educação, saúde ou desenvolvimento econômico. Tais organismos poderiam facilitar a partilha de conhecimentos especializados, a mobilização de recursos e a execução de projetos conjuntos e integrados. Além disso, um envolvimento mais ativo da sociedade civil, do setor privado e das instituições acadêmicas tem potencial para reforçar a eficácia e eficiência da CPLP, ampliando o alcance e o impacto das suas iniciativas. Outra prioridade é articular uma estratégia externa mais coerente. Isso envolve construir parcerias com outras organizações internacionais, aproveitar o peso coletivo da comunidade lusófona em fóruns globais e promover a língua portuguesa como instrumento de influência internacional. A inclusão deve estar no centro desses esforços. Isto significa dedicar atenção especial às necessidades das populações mais vulneráveis, enfrentar de forma holística as desigualdades entre as pessoas e assegurar que os benefícios das riquezas sejam distribuídos de maneira equitativa. Um fator de destaque é que CPLP possui um perfil demográfico marcadamente jovem.  Por isso, a Comunidade deve aproveitar o potencial desta população, o que implica investir de forma mais robusta em educação, formação profissional e empreendedorismo. A promoção da ciência, da tecnologia e da inovação é igualmente essencial para construir economias competitivas e enfrentar os desafios da era digital. Além disso, é importante considerar que um dos grandes ativos da CPLP são os milhões de migrantes lusófonos que vivem e trabalham em diferentes partes do mundo. Eles contribuem para a vitalidade econômica e cultural tanto dos países de acolhimento quanto dos países de origem , além de enviarem recursos financeiros que impulsionam o crescimento econômico das suas nações de origem. A CPLP encontra-se numa encruzilhada, enfrentando um cenário complexo de desafios políticos, socioeconômicos e culturais. Os seus membros estão unidos por uma língua e uma história comuns, mas também se distinguem por profundas diferenças em dimensão, níveis de riqueza e sistemas políticos. A arquitetura institucional da organização oferece plataformas relevantes para o diálogo e a cooperação; no entanto, a sua capacidade de atuação, sobretudo  em áreas mais sensíveis e prioritárias, permanece limitada devido aos parcos recursos disponíveis e à falta de consenso em temas delicados e potencialmente conflituantes. A recente alteração da lei da nacionalidade portuguesa, que também afeta os cidadãos da CPLP, poderá gerar impactos negativos para a Comunidade.  Com a aprovação da nova legislação, os cidadãos da CPLP passam a ter de residir legalmente em Portugal por, pelo menos, sete anos para serem elegíveis a apresentação da manifestação de interesse para obtenção da nacionalidade. Foram igualmente modificados os procedimentos e prazos relativos à  residência permanente, ao reagrupamento familiar e a determinados pedidos de visto. Essas mudanças terão efeitos imediatos e desfavoráveis para muitos cidadãos lusófonos residentes em Portugal, o que não contribui para o fortalecimento da Comunidade. Resta agora acompanhar a reação dos demais Estados-membros, considerando a eventual aplicação do princípio da reciprocidade, inerente às relações entre estados soberanos.   Apesar destes e outros obstáculos, a CPLP tem demonstrado resiliência e capacidade de adaptação aos desafios do presente e do futuro. A Comunidade tem desempenhado um papel construtivo no apoio às transições políticas, na promoção de laços culturais e linguísticos e na facilitação da cooperação em áreas como a educação e a saúde. O seu compromisso com a solidariedade, a inclusão e o desenvolvimento sustentável constitui uma base normativa sólida para a sua relevância contínua. Assim, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa deve capitalizar os seus pontos fortes e enfrentar as suas fragilidades, de modo a continuar servindo como uma plataforma essencial para a cooperação e o desenvolvimento lusófonos num mundo cada vez mais interligado. Isaac Jorge  - É licenciado no Curso de Relações Internacionais pela Universidade Privada de Angola e trabalhou durante alguns anos na Missão Diplomática da República de Angola em Pretória - África do Sul. Além a experiência diplomática, nos últimos 18 anos tem estado ligado a atividade bancária, tendo assumido várias responsabilidades tais como Subdiretor na Direção de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, onde desenvolveu-se estudos para internacionalização do banco. Foi chefe de Departamento da banca de investimentos e Chefe de Departamento da Direção de Organização e Qualidade. Tem estado ligado a diferentes projetos de desenvolvimentos e de melhorias de produtos e serviços bancários e na formação de técnicos trabalhadores. É amante de esportes, principalmente o futebol Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme  Referências Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: https://www.cplp.org/ Confederação Empresarial da CPLP: https://ce-cplp.org/ Cooperação Económica da CPLP: https://coop-economica.cplp.org/cooperacao-empresarial/ Bancos Comerciais de Países de Língua Portuguesa: https://www.bcplp.org/ Instituto Internacional da Língua Portuguesa: https://iilp.cplp.org/

  • O clima não espera: A COP30 chega a Belém, mas e as nossas vozes?

    Em português, COP significa Conferência das Partes. A COP 30, conferência do clima da ONU , chega a Belém para discutir o futuro do nosso planeta. O tema central é aprofundar o debate sobre a crise climática, buscando acordos para cortar emissões de gases poluentes, ajudar o mundo a se adaptar às mudanças já em curso, garantir mais recursos para os países mais afetados e proteger nossas florestas  e toda a vida que nelas existe. Bonito, né? Foto: Jorge Leão / Brasil de Fato Mesmo sem ser acadêmica ou estudiosa do tema, sabemos que, para que essa conversa faça sentido de verdade, a voz de quem mais sente as enchentes, as secas e o calor insuportável precisa estar presente.  Será que as pessoas que vivem na ponta foram ou serão ouvidas? Ou será mais uma daquelas reuniões de cúpula que prometem muito e entregam pouco? O Brasil, com sua beleza e diversidade, também carrega marcas profundas de desigualdade. O clima pesa mais do nosso lado. Nossas marcas, nossas cores, nossas histórias A Amazônia e Belém são um caldeirão de culturas: povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e uma grande população urbana . Por muito tempo, a "morenidade" tentou apagar a nossa identidade negra, nossa história e a força que carregamos. Mas a verdade é que o povo negro tem raízes profundas na Amazônia , com sua cultura vibrante e sua luta diária. E não somos os únicos que resistem: indígenas, ribeirinhos e outras comunidades também enfrentam seus desafios com força. Falar de justiça climática exige entender e refletir que as mudanças do clima não afetam todo mundo da mesma forma . Pessoas em situação de maior vulnerabilidade são as mais castigadas. Áreas sem saneamento básico sofrem mais com enchentes e poluição, além da dificuldade de acesso a serviços essenciais. E são justamente nessas áreas que vivem a maioria da população negra, indígena e das comunidades tradicionais. Isso tem nome: racismo ambiental  e injustiça climática . Essa realidade não é exclusiva de Belém. É a mesma nas comunidades do Rio de Janeiro, de onde falo, nas favelas de São Paulo, no semiárido do Nordeste e por aí afora. As vozes que vêm das Ilhas, dos Quilombos e das periferias chegam à COP 30? A invisibilidade nos afasta de decisões importantes que impactam nossas vidas. Em Belém, segundo o Censo 2022 do IBGE, quase 75% da população se autodeclara parda ou preta . É uma cidade majoritariamente negra. As manifestações culturais, como o carimbó e as festas de matriz africana, são prova viva da riqueza e resistência do povo negro. Pensemos na Ilha de Cotijuba, pertinho de Belém. Lá não há carros, apenas motorretes (carroças puxadas por motocicletas). Segundo o Sr. Ítalo, morador da ilha e condutor de motorrete, a ideia veio da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. A internet, que parece básica para muitos, só chegou de verdade por lá em 2023.   Vídeo demonstrando como é uma viagem de motorrete. Fonte: Arquivo Tudo se resolve em Belém, a 45 minutos de barco (especificamente do terminal de Icoaraci, que é um distrito de Belém de onde partem os barcos). Como uma pessoa de lá, ou de uma comunidade ribeirinha ainda mais isolada, pode se informar sobre a COP 30 e, prin cipalmente, participar? Foto: Mauro Ângelo / Diário do Pará Invisibilidade e sub-registro civil Entre tantos fatores que tornam pessoas invisíveis, está a triste realidade do sub-registro civil  (nome dado pelo IBGE aos nascimentos não registrados em cartório dentro do prazo legal, que geralmente é o ano do nascimento ou o primeiro trimestre do ano seguinte). Para ter acesso a qualquer direito  - saúde, escola, programas sociais e até um sepultamento digno - o primeiro passo é existir para o governo, ter certidão de nascimento. Sem ela, a pessoa é praticamente invisível. No Brasil, 99,3% das crianças de até 5 anos tinham registro civil em 2022. É um avanço, mas ainda desigual. Na Amazônia Legal, a situação é mais grave: em Roraima, 89,3% das crianças indígenas com até cinco anos não têm registro; no Amapá, esse número é de 6,6%. São crianças que mal existem no papel. Como podem ter voz num evento global? A falta de registro de nascimento pode ser causada por diversos fatores, incluindo a falta de informação sobre a gratuidade e importância do documento, dificuldade de acesso aos cartórios   (especialmente em áreas rurais e remotas) e a um grande número de pais que também não foram registrados e desta forma não podem registrar seus filhos. A pobreza tem cor e gênero Os dados gritam a realidade da desigualdade: 37,7% dos brasileiros abaixo da linha da pobreza são negros, contra 18,6% de brancos (IBGE 2021). 68% das pessoas em situação de rua são negras (51% pardas e 17% pretas), e 87% são homens segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) / Cadastro Único (CadÚnico), dados de dezembro de 2022. Mulheres negras são as mais afetadas pela violência doméstica (cerca de 66%) e pela extrema pobreza. Famílias chefiadas por elas são quase cinco vezes mais pobres que as chefiadas por homens brancos. Barreiras para participar da COP 30 Participar da COP 30 é um desafio gigante : credenciamento, transporte caro, hospedagem, alimentação. Para quem vive em Cotijuba ou em comunidades com pouca estrutura, esses obstáculos se multiplicam. O racismo estrutural e as desigualdades sociais dificultam o acesso e a visibilidade. Será que quem precisa, consegue chegar lá e incidir nas decisões? Muitas pessoas vivem outras urgências: como comprar o gás?  A linguagem e os próprios temas reforçam o abismo entre quem está lá dentro discutindo e quem está aqui fora sentindo na pele. Desde o Acordo de Paris (COP 21, 2015), que sonhava em limitar o aumento da temperatura a 1,5°C , passando pela COP 26 (Glasgow, 2021), com muitos países prometendo reduzir emissões e o desmatamento  e a COP 27 (Egito, 2022) que criou um fundo para "perdas e danos" para países pobres,  uma luta antiga do Sul Global, o mundo se reúne para falar de clima. Mas muitas metas não foram cumpridas.  O planeta continua esquentando, o desmatamento não para e o dinheiro prometido raramente chega. Os países ricos, que mais poluem, continuam se esquivando da responsabilidade. Muitas COPs terminam com mais palavras bonitas no papel do que ações concretas  que mudam a vida das comunidades. É hora de transformar o papo em ação: nosso legado na COP 30 Nós, sociedade civil organizada (entidades, grupos e coletivos que atuam de forma autônoma) temos um papel fundamental como pontes. Traduzir o que é a COP, levar informação acessível às comunidades e construir demandas reais. Queremos que as vozes da Amazônia e das periferias do Brasil sejam ouvidas para que a COP 30 não seja mais uma promessa não cumprida. Que esse evento seja um espelho das injustiças climáticas, do racismo ambiental e da invisibilidade que tantas pessoas vivem.  Que traga melhorias reais para a vida de todas as pessoas em Belém, no Brasil e para todos que sofrem com as mudanças do clima. O mais importante é que a COP 30 fortaleça nossa consciência sobre quem somos (mulheres negras, homens negros, ribeirinhos, indígenas, amazônidas, cariocas, nordestinos e seres humanos) e nosso poder de lutar por mudanças. Que as decisões tomadas em Belém reflitam nossas realidades e ajudem a construir um futuro mais justo e com menos sofrimento para o nosso povo. Nossa voz, nossa força! Foto: Juliana Duarte. Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G

  • “O Agente Secreto”: Arte, Memória e Ditadura na América Latina

    “O Agente Secreto”, filme brasileiro de Kleber Mendonça Filho lançado em 2025, é um thriller político ambientado em Recife, no ano de 1977 , durante a ditadura militar. Estrelado por Wagner Moura, cuja atuação intensa lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator em Cannes, e dirigido por Mendonça Filho, vencedor de Melhor Diretor, o longa constrói uma narrativa envolvente que examina a opressão política, a vigilância estatal e a resistência  diante do autoritarismo. Com estética refinada e performances poderosas, o filme oferece um retrato sensível da sociedade brasileira em uma de suas épocas mais sombrias, explorando temas como memória, trauma e coragem. Divulgação/Vitrine Filmes Temática e Contexto Histórico Ambientado durante o governo de Ernesto Geisel, o filme retrata um Brasil em processo de “abertura lenta e gradual” , ainda marcado por censura, vigilância e perseguições políticas. Essa atmosfera de repressão ecoava por toda a América Latina : na Argentina, a Junta Militar liderada por Jorge Rafael Videla promovia a chamada “Guerra Suja” , caracterizada por desaparecimentos em massa e terrorismo de Estado; no Chile, Augusto Pinochet consolidava um regime personalista  após o golpe contra Salvador Allende, marcado por prisões arbitrárias e torturas sistemáticas. Em comum, esses governos justificavam sua violência como uma defesa contra o avanço do comunismo , criando um cenário regional de autoritarismo sincronizado. Por trás dessas ditaduras pairava a sombra da Guerra Fria e a influência direta dos Estados Unidos. Washington apoiou golpes e regimes militares como parte da Doutrina de Segurança Nacional , fornecendo treinamento, suporte logístico e, em muitos casos, tolerando - ou mesmo incentivando - práticas repressivas. A Operação Condor , rede secreta que articulou Brasil, Argentina, Chile e outros países, exemplifica essa cooperação transnacional voltada à eliminação de opositores. No filme, essa dimensão global aparece como pano de fundo: a paranoia do protagonista não é apenas local, mas resultado de um sistema continental de vigilância e violência . A narrativa lembra ao espectador que decisões tomadas em gabinetes distantes moldaram vidas comuns em Recife, Buenos Aires e Santiago. Paralelos com o Presente Décadas depois, Brasil, Argentina e Chile são democracias, mas ainda carregam as marcas dos anos de chumbo.   No Brasil , a transição sem punição aos militares deixou espaço para discursos autoritários , que ressurgiram em crises recentes, como durante o governo Bolsonaro. Na Argentina , apesar dos julgamentos históricos e da cultura do “Nunca Más”, o negacionismo voltou ao debate  com declarações do presidente Javier Milei, que relativiza os crimes da ditadura. No Chile , a tentativa de substituir a Constituição herdada de Pinochet representa avanços , mas também revela divisões profundas sobre memória e justiça. A força de “O Agente Secreto” está em transformar fatos históricos em experiência sensorial.  A direção de Kleber Mendonça Filho, com sua estética precisa e crítica social, aliada à atuação visceral de Wagner Moura , dá vida a um Brasil sufocado pelo medo. Ao mesmo tempo, o filme dialoga com questões universais : até que ponto estamos dispostos a sacrificar liberdade em nome de segurança? Como lidar com memórias dolorosas sem permitir que elas se repitam ? Em tempos de polarização e revisionismo , essa obra reafirma o papel do cinema como instrumento de memória e resistência. Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G. Referências “The Secret Agent” Review – Wagner Moura em Thriller Brasileiro no Festival de Cannes (Deadline) https://deadline.com/2025/05/the-secret-agent-review-wagner-moura-brazilian-thriller-cannes-film-festival-1236402956/ “The Secret Agent” Review: Wagner Moura em Intensíssimo Thriller Político (The Hollywood Reporter) https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-reviews/the-secret-agent-review-wagner-moura-kleber-mendonca-filho-1236220752/ “The Secret Agent” – Imersão Visual e Memória Histórica (Variety)   https://variety.com/2025/film/reviews/the-secret-agent-review-o-agente-secreto-1236402205/ “The Secret Agent” Review – Análise por Cineuropa   https://cineuropa.org/en/newsdetail/477650 Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade – Volume III (Mortos e Desaparecidos Políticos)   https://www.gov.br/memoriasreveladas/pt-br/assuntos/comissoes-da-verdade/volume_3_digital.pdf Operação Condor – página da Wikipédia (inglês)   https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Condor Operação Condor: o que foi, objetivos, fim, resumo – Brasil Escola   https://brasilescola.uol.com.br/historia-da-america/operacao-condor.htm Operação Condor: análise de documentos desclassificados (Comissão Nacional da Verdade)   https://cnv.memoriasreveladas.gov.br/index.php/2-uncategorised/417-operacao-condor-e-a-ditadura-no-brasil-analise-de-documentos-desclassificados

  • Brasil: País do Futebol e do apagamento trans nos esportes

    Conhecido como País do Futebol , o Brasil é marcado pela pred ominância desse esporte. No entanto, apenas uma categoria recebe maior atenção: o futebol masculino. Entretanto, aos poucos, outros esportes vêm conquistando visibilidade, como o   vôlei, o basquete e o s kate.   Assim como o futebol, todos os esportes apresentam duas categorias  -  masculina e feminin a. E m alguns casos, a moda lidade feminin a chega a ser mais popular que a masculin a , como acontece no   vôlei.   Entretanto, m uitos esquecem que além de homens e mulheres existem outras pessoas que também podem praticar esportes.  A população transexual, em geral, é uma parcela frequentemente invisibilizada quando o assunto é esporte .  Segundo diversas pesquisas, pessoas trans representam cerca de  2% da população brasileira , o que equivale a aproximadamente 1 a 3 milhões de ad ultos . O brasileiro, em geral, não é um grande   praticante de esportes: apenas 42% da população   segue o nível de atividade física recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) . Segundo a Nix Diversidade , no e studo Diversidade & Inclusão no Esporte,   40,8%  dos entrevistados transexuais af irmaram praticar esportes de forma amadora , enquanto  4,4%  di sseram  atuar profissionalmente.  Esses números mostram que uma parcela significativa dessa comunidade é adepta da prática esportiva. Mas onde essas pessoas encontram espaço e visibilidade? Para responder a essa questão, buscamos conhecer um time de vôlei formado p or atletas transexuais  na capital paulista: o Angels Volley . Um coletivo que tornou-se referência internacional Criado em 2008 , o Coletivo Esportivo Angels Volley  surgiu como um espaço seguro para que pessoas LGBTQIA+  pudessem praticar vôlei sem medo de preconceito ou violência. O que começou como uma atividade de lazer entre amigos cresceu rapidamente, ganhou visibilidade e passou a atrair ex-atletas federados, transformando o grupo em uma referência internacional no esporte inclusivo . Há mais de cinco anos, o Angels ampliou sua atuação ao formar um time feminino diverso , composto por mulheres trans, lésbicas, bissexuais e mulheres cis aliadas. Hoje, o coletivo se define como um movimento socioeducativo  que utiliza o esporte como ferramenta de transformação de vidas. Além de treinamentos e competições, a iniciativa oferece suporte integral às  suas atletas: auxílio educacional, bolsas de estudo, cursos, oportunidades de emprego, apoio médico  e  jurídico , além de cestas básicas em situações   emergenciais. Reconhecido como um dos maiores projetos esportivos LGBTQIA+ do mundo , o Angels também exerce um papel político ao defender a existência e a resistência da diversidade no esporte. Enquanto o time masculino participa de torneios de diversidade e campeonatos amadores, o  feminino avança, ainda que de forma gradual, em ligas oficiais ,  enfrentando o desafio persistente da inclusão de mulheres trans . O coletivo aposta no diálogo, na convivência e na performance em quadra  como ferramentas para quebrar preconceitos e reafirmar que  todas as atletas são mulheres . Para seus membros, o esporte é visto como um direito básico  e uma verd adeira ferramenta de sobrevivência . Em um ambiente historicamente marcado p elo   machismo  e  pelo bullying , especialmente contra jovens LGBTQIA+, a manutenção do Angels Volley  ao longo de 17 anos  simboliza resistência, inspiração e a abertura de caminhos para novas gerações. A importância do esporte como ferramenta de sobrevivência Willy Montmann , 40  anos,  ex-gestor da Secretaria de Esportes de São Paulo, é o fundador do Angels Volley , considerado o maior projeto esportivo LGBTQIA+ do Brasil. Criado em 2008 , o coletivo reúne atualmente 353 atletas distribuídos em nove equipes  e tornou -se referência por incluir mulheres trans, travestis, homens gays e pessoas iniciantes em um ambiente seguro e acolhedor. Além do esporte, Montmann atua como produtor, roteirista e diretor de projetos culturais ligados à diversidade , assinando eventos como a Live da Parada LGBT+  e ações de visibilidade trans. À frente da N i x Diversidade , participou do primeiro  mapeamento nacional do esporte LGBTQIA+,  em parceria com a Nike . Com oficinas, campeonatos e palestras em empresas e instituições, consolido u-se como uma das principais vozes do esporte inclusivo no país . Entrevistas: Entrevista com o presidente do Angels Volley Segundo Montmann: "O esporte é um direito básico constitucional. Deveria ser para todas as pessoas. Está na Constituição: Esporte e lazer devem ser acessíveis a todos(...) Se já é complicado em um ambiente cisgênero e heteronormativo, imagine para pessoas trans." Willy destaca ainda a importância do projeto como espaço de acolhimento em uma área já bastante sucateada "Se o poder público não garante esse direito, são necessárias iniciativas como o Angels para atingir essa população e oferecer dignidade, esporte, lazer e saúde mental. Foi muito difícil no início, mas hoje, com apoio, conseguimos nos tornar o maior projeto esportivo inclusivo do mundo. Atualmente, temos 70 mulheres trans e travestis praticando esporte conosco." Sobre o cenário brasileiro, o fundador faz a seguinte análise: "O Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. A cada 24 horas, uma pessoa trans é assassinada. A expectativa de vida é de apenas 35 anos — números dignos de uma guerra civil. Existem países em conflito que não têm estatísticas tão graves.Então, o Brasil não é acolhedor para pessoas trans. Porém, ao mesmo tempo, é o país com mais pessoas trans no mundo. Existe uma resistência enorme dessas pessoas em sobreviver, viver com dignidade, ter visibilidade e voz. É graças a essa força que conseguimos construir um projeto como o nosso, o maior do mundo." Segundo Willy, o processo de acolhimento de uma nova atleta é feito de forma coletiva e afetuosa. "Existe uma irmandade muito forte dentro da sigla T, já que é a mais vulnerável da sigla LGBTQIAP+, então existe uma irmandade entre elas. Quando uma meninas chega aqui temos várias categorias: escolinha, avançado e máster. A atleta é encaixada conforme seu nível. Se ela não sabe jogar, vai para a escolinha; se já joga, vai para o nível adequado. É tudo bem organizado." O projeto se mantém com emendas parlamentares (como as de Erica Hilton e da Bancada Feminista) e com patrocínios de marcas como Nike, Barilla, Vênus, Vichy, Itaú e IBM. "Elas(as marcas) olham para a comunidade trans, mas principalmente para o Angels. Construímos uma história de 17 anos, sendo 6 anos atuando com pessoas trans. É um projeto sério, que transforma vidas, muda narrativas e oferece novas perspectivas além do cárcere, da prostituição, da fome e da vulnerabilidade." O impacto do projeto é concreto: No início, cerca de 90% das atletas trans viviam da prostitução, não como escolha mas como condição de sobrevivência. O projeto estimula a volta aos estudos, acesso à saúde, rede de empregabilidade e auxílio jurídico para retificação de nome e genêro. Segundo Willy: Nosso maior troféu não são apenas os campeonatos, mas as vidas transformadas. O resultado é impressionante. Mais de 90% das atletas trabalham em empresas com carteira assinada, têm uma profissão, estão se formando na universidade. E o projeto não para por ai, o próximo passo segundo Willy é ter uma sede própria ao invés de usar espaços públicos ou alugadas. As Vozes das Atletas Angels Volley. Foto por: Gabriela Monteiro A reportagem conversou com quatro atletas do projeto. A seguir, os trechos editados das entrevistas, organizados para leitura jornalística. Amanda — Ponteira/Oposta: “O Angels mudou tudo na minha vida.” Amanda em ação. Foto por: Gabriela Monteiro A atleta sonha em disputar campeonatos profissionais: “O que me motiva é correr atrás do objetivo. Já participei de torneios profissionais, e foi através do Angels que tudo isso aconteceu.” Sobre representar a comunidade trans: “É muito difícil. A gente enfrenta muito preconceito. Mas é gratificante representar as mulheres trans.” Erika — Ponteira/Oposta:  “Esporte é acolhimento. Não queremos tirar vaga de ninguém.” Erika já disputou a Copa da Diversidade, LMN, Copa Fênix e Copa Angels. Ela acredita que o cenário melhorou pouco para pessoas trans: “A comunidade trans não tem tanto acesso ao esporte. Algumas entidades estão abrindo espaço, mas ainda é pouco.” Para ela, o Angels é essencial: “É um time que acolhe, que dá segurança dentro e fora da quadra. Aqui a gente pode ser quem é.” Sobre preconceito: “Hoje é mais indireto. Não falam diretamente porque sabem que é crime. Mas existe.” E deixa um recado ao leitor: “Esporte é rendimento. Ser trans não dá vantagem. Todas seguimos as regras do COI. O desempenho é individual.” Cid — Levantadora:  “Encontrar pessoas que falam a mesma língua é maravilhoso.” Com 50 anos e desde os 13 no vôlei, Cid nunca desistiu do esporte. Foto por: Gabriela Monteiro Ela afirma sentir o efeito da visibilidade trazida por Tiffany Abreu, primeira mulher trans na Superliga: “Depois que a Tiffany apareceu, tudo ficou melhor.” Sobre acolhimento: “Aqui ninguém te trata diferente. Todas se acolhem, se ensinam, se levantam.” Embora tenha sofrido veto em um campeonato no passado, ela segue otimista: “Mostramos que não somos problema. Somos pessoas que pensam, sentem, trabalham e treinam como qualquer atleta.” Milena — Líbero: “O Angels me ensinou a evoluir mentalmente.” Milena chegou ao Angels com 11 anos; hoje, aos 18, vive seu primeiro ciclo como atleta adulta. “Meu maior desafio era o psicológico. Eu me cobrava demais.” Para ela, o ambiente de convivência foi essencial: “As meninas sempre me respeitaram. Aqui todo mundo acolhe.” A presença da tia, também atleta trans do coletivo, reforça seu vínculo com o time: “Ela era uma pessoa explosiva, e melhorou muito depois que entrou no Angels.” Texto escrito por Kauan Oscar Estudante de Jornalismo, apaixonado por esportes e literatura, encontrou na profissão uma oportunidade perfeita para contar sobre suas paixões por meio de histórias que inspirem outras pessoas. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • Longe da Terra Santa: o plano para um estado judeu no Brasil

    Judeus planejavam criar um estado judaico em 1938 no território de Mato Grosso do Sul. Joseph Hefter, líder político antissionista, publicou panfleto em Nova York defendendo a ideia. No século XIX, uma parcela significativa do povo judeu aderiu ao sionismo como resposta ao chamado “problema judaico” : eram uma nação sem território próprio. A solução proposta pelo movimento foi a criação de um estado judeu na Palestina, considerada a pátria histórica dos judeus. Em 1948, impulsionado pela tentativa mais sinistra dos nazistas de “resolver” essa questão, Israel foi fundado e o sionismo alcançou seu objetivo. No entanto, esta versão do sionismo  focada na Palestina foi apenas um dos muitos projetos territorialistas judaicos . Ao longo do século XIX e início do século XX, surgiram cerca de 30 propostas desse tipo , embora a maioria não tenha passado de slogans utópicos. Um dos projetos territorialistas judaicos mais conhecidos não focados na Palestina foi o Plano Uganda . Apresentado por Theodor Herzl no Sexto Congresso Sionista, em 1903 , a proposta chegou a ficar apenas seis votos abaixo da aprovação pela maioria. O mapa a seguir é uma peça histórica essencial para compreender estes projetos alternativos. Trata-se de uma criação de Joseph Otmar Hefter, uma figura hoje quase esquecida, assim como a política que defendeu na década de 1930: o territorialismo judaico não-sionista. Reprodução do panfleto. Restam poucas evidências do sonho de Hefter de uma Nai Juda (“Nova Judéia”), além do panfleto ‘A Land for the Jews!’, publicado em Nova York em 1938 . Nesse material, ele apresentava sua resposta à questão judaica: uma pátria soberana com todos os atributos de um Estado – bandeira, leis, uma língua nacional (iídiche) e até mesmo um hino nacional. Dez desses projetos aparecem no panfleto de Hefter, que reunia um mapa, um manifesto e descrições de possíveis novos países judaicos. Entre eles estavam Madagascar, Uganda e Birobidzhan, na Rússia, além de propostas para a América do Sul, em territórios que abrangiam o sul e o oeste da Guiana e o sudeste da Venezuela, na fronteira com o Brasil. Outro projeto, porém, situava-se dentro do próprio país, em Mato Grosso do Sul. O texto que acompanha o ponto 6 descreve: “Uma seção da região de Matto (sic) Grosso, ao norte do Rio Paraná, na fronteira com o Paraguai. Encravada, inexplorada, desconhecida, quase inabitada. Uma terra difícil de florestas, perigosa, mas habitável. Rica em recursos. Borracha, ouro, diamantes. Potencial império industrial. Poderia neutralizar grandes colônias japonesas e alemãs entrincheiradas na costa”. O sionismo, no entanto, saiu triunfante e concretizou seus objetivos com a criação, em 1948, do Estado de Israel em território palestino, dando início aos conflitos que, até hoje, marcam a região com violência. Sobre a Palestina e a Terra Santa A região conhecida como Palestina, nome derivado de Filistina ("Terra dos Filisteus"), localiza-se no Oriente Próximo, entre o mar Mediterrâneo e o vale do Rio Jordão. É a Canaã bíblica, também chamada de Sião pelos judeus tradicionalistas. O território já era habitado pelos filisteus , povo com uma cultura metalúrgica bastante especializada e uma tradição religiosa baseada no politeísmo. Sua organização política era descentralizada, estruturada em cinco cidades-estados: Asdode, Ascalão, Gat, Gaza e Ecrom.  Os hebreus , posteriormente conhecidos como israelitas ou judeus, conquistaram a região por volta de 1200 a.C ., após uma série de guerras contra as forças filisteias, que resultaram em um banho de sangue em toda a Palestina. A partir de 587 a.C., com a conquista da Babilônia, iniciou-se um longo processo de diáspora. As revoltas judaicas contra Roma (66-70 e 133-135 d.C.) foram desastrosas: o Templo de Jerusalém foi arrasado e, após a segunda revolta, o imperador Adriano proibiu os judeus de residirem em sua capital. Esse decreto acelerou a dispersão pelo Império Romano e por outras regiões. A Palestina foi, ao longo dos séculos, helenizada, romanizada e, em 395, incorporada ao Império Bizantino. A conquista árabe em 638 a integrou ao mundo islâmico. Mais tarde, entre 1099 e 1187, a região abrigou um Estado Cruzado, antes de ser absorvida pelo Império Otomano em 1517, sob cujo domínio permaneceu por quatro séculos. Império Otomano em 1517, sob cujo domínio permaneceu por quatro séculos. O cenário moderno começou a se delinear em 1896, com Theodor Herzl e a fundação do Movimento Sionista, que defendia a criação de um Estado judeu na Palestina. O projeto ganhou força com o apoio britânico, formalizado na Declaração Balfour de 1917 . Após a derrota otomana na Primeira Guerra Mundial, a Palestina passou ao controle britânico por mandato da Liga das Nações. É importante destacar que, durante todo o período que antecedeu o movimento sionista, árabes muçulmanos e judeus conviveram na região de forma pacífica, numa sociedade campesina que compartilhava vilas e cidades sem qualquer traço de ódio. A crescente imigração judaica, agora guiada pela ideologia sionista, somada à política dos países imperialistas, gerou atritos com a população árabe local e levou à criação da Haganah , uma milícia de defesa judaica. É preciso ressaltar o papel preponderante da Grã-Bretanha nesse processo. Seu intervencionismo imperialista, desde a promessa de estabelecer um estado judeu na Palestina, passando pela criação de um protetorado na Transjordânia  e pelo incentivo à imigração dos judeus europeus para a região , tornou-se um fator decisivo na desestabilização do equilíbrio sociopolítico local. Após a Segunda Guerra Mundial, o fluxo de sobreviventes do Holocausto tornou a situação na Palestina insustentável. Em 1947, a ONU propôs a partilha do território em dois Estados:  um judeu e outro árabe. A recusa árabe à proposta levou à fundação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948 , seguida imediatamente pela invasão dos países árabes vizinhos: Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque. O conflito se estendeu por 15 meses, resultando em milhares de mortes. Apesar da ofensiva, o recém-criado Estado judeu resistiu e não foi derrotado. Com a retirada dos britânicos e a consolidação de Israel como Estado independente, cerca de 750 mil palestinos foram expulsos  e jamais puderam retornar às suas casas. O armistício de 1949 estabeleceu linhas geopolíticas que seriam fragilmente respeitadas: a Cisjordânia, sob tutela da Jordânia, e Gaza, sob administração egípcia, permaneceram como os territórios árabes dentro da nova configuração regional. Desde então, a política colonialista e imperialista de Israel tem resultado em mortes, expulsões e invasões de terras palestinas. Atualmente, Israel é uma democracia parlamentar com cerca de 9,7 milhões de habitantes. Sua capital declarada é Jerusalém, embora a sede do governo permaneça em Tel Aviv. Entre pesquisadores e organizações internacionais, ecoa a acusação de que o Estado israelense adota políticas de caráter fascista em relação aos palestinos, especialmente na Faixa de Gaza. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • O Inimigo Oculto: A Distinção entre o Racismo Velado no Brasil e a Segregação nos EUA

    O Preço da Invisibilidade, a Força da Identidade e o Chamado de Novembro Ilustração mostra diversos punhos cerrados levantados — Imagem: Dora Lia Gomes/Alma Preta Jornalismo A questão racial não é apenas um fator social: é a tensão estruturante que molda a vida, as aspirações e a capacidade de organização dos povos negros em todo o mundo. Para o povo negro, a opressão nunca se apresenta de forma isolada, mas como resultado de múltiplas vulnerabilidades que se entrecruzam – a chamada Interseccionalidade . Minha posição de fala nasce nesta interseção. Sou uma mulher negra, criada no morro, cuja infância foi marcada pela destruição sistêmica da vida de meu pai , que se tornou alcoólatra e faleceu após ter sua carreira e dignidade comprometidas por um flagrante policial forjado. Desde cedo, precisei aprender a navegar pelo complexo labirinto da desigualdade brasileira. É justamente por ter vivido nessa encruzilhada de raça, classe e gênero - e por ser mãe e tia de meninos negros - que o choque foi ainda maior. Durante uma aula no curso de Pós-Graduação em Diversidade e Inclusão , em uma discussão sobre a desumanização da criança negra, tive a mais dolorosa percepção: o impacto do racismo em nossa própria psique. Eu, uma mulher negra, percebi que, por anos, aceitei com naturalidade que as mortes brutais dos "meninos de Belford Roxo" não provocassem no Brasil a mesma comoção que o assassinato igualmente brutal de uma criança branca. Lucas, Alexandre e Fernando, os três "meninos de Belford Roxo" que foram mortos por traficantes em 2021. Imagem: CNN A diferença gritante estava na narrativa pública: a tragédia de Henry Borel Medeiros   (Março/2021) mobilizou o país e foi noticiada com a constante menção ao seu nome, à sua história e ao afeto de sua família. Em contraste, os jovens negros desaparecidos em Belford Roxo em 2020 – Lucas Matheus, Alexandre Silva e Fernando Henrique – eram recorrentemente identificados pela mídia apenas como os "meninos de Belford Roxo" . Sua individualidade foi minimizada, transformando-os em números anônimos na cobertura inicial, como evidenciado em reportagens sobre o primeiro mês de   desaparecimento .   A triste constatação é que os meninos de Belford Roxo não tiveram a centralidade de seus nomes assegurada na narrativa pública. Eu, como parte do povo negro, havia me acostumado a essa invisibilidade. Essa experiência revelou que o racismo é capaz de nos levar a desumanizar os nossos, internalizando o silêncio e o esquecimento impostos pela própria estrutura.   Nosso trágico destino, após a travessia atlântica, foi moldado por diferentes projetos coloniais que, embora igualmente desumanos, desenvolveram estratégias distintas para sustentar a supremacia branca. No Brasil , o racismo se disfarçou sob a máscara do "mito da democracia racial", transformando o opressor em um inimigo oculto . Já nos Estados Unidos , a segregação racial explícita e a rígida definição de raça impuseram uma demarcação nítida . É essa diferença fundamental – o racismo velado versus o racismo aberto – que buscamos centralizar neste artigo. Examinaremos como essas estruturas divergentes influenciam: a luta pela sobrevivência; a dinâmica do Colorismo e a percepção de identidade; a ação do Feminismo Negro; e o custo do pioneirismo na representação. Neste Mês da Consciência Negra, o propósito deste texto vai além da mera exposição da resistência: é um convite à reflexão profunda dirigido a todos os leitores. Para o povo negro, propomos um passo adiante: do "lamento" pela dor imposta ao "projeto" de autoconhecimento , que afirma nossa plenitude e identidade. Para leitores brancos, este é um chamado à compreensão ativa sobre como a estrutura racista brasileira nos obriga a uma luta constante para reconhecer e reivindicar o valor que ela insiste em negar. A pauta da Consciência Negra é, afinal, a pauta da plena humanidade de todos. O Racismo Estrutural: Brasil vs. Estados Unidos (O Fator Colonização) O Inimigo Oculto e a Força Roubada A colonização e o pós-abolição moldaram sociedades de forma distinta: se, nos Estados Unidos cultivou-se - a duras penas - uma consciência de ser , no Brasil, tentou-se instituir uma consciência de não ser . ● EUA (Segregação): A rigidez das leis Jim Crow impôs uma evidência binária. O sistema opressor era visível , permitindo ao povo negro americano acumular um capital de resistência e ser treinado a lutar por direitos. Durante décadas pessoas negras nos Estados Unidos eram obrigadas a frequentar espaços segregados devido às leis Jim Crow. Fonte: El Deber. ● Brasil (Mito da Democracia Racial): O racismo velado minou a força e a consciência para lutar . Ao negar a discriminação e celebrar a miscigenação, o projeto brasileiro esperava que fôssemos todos "pretos gratos" : aqueles que, mesmo diante da exploração e da violência, deveriam demonstrar eterna gratidão pela "oportunidade" de estar incluídos e "tolerados" na sociedade, aceitando a marginalização como destino. As elites transferem a miséria e a falta de acesso para o indivíduo, que passa a acreditar que sua marginalização é falta de mérito, e não de falha estrutural. Esta negação exige que toda a sociedade — incluindo os não-negros — rompa com a cumplicidade do silêncio para enxergar a violência estrutural. Apesar disso, a resistência brasileira floresceu. Luiz Gama , nascido livre e vendido como escravo pelo próprio pai aos dez anos, personificou a fragilidade da liberdade e a engenhosidade da luta. Autodidata, tornou-se rábula  (advogado) e utilizou a lei (a ferramenta do opressor) para libertar mais de 500 pessoas escravizadas. Paralelamente, os Quilombos representaram atos de autonomia e soberania física. O modelo brasileiro nos negou o letramento racial e político , mas não a nossa força. Aqui, a luta é, antes de tudo, pela existência básica e pela validação da nossa humanidade diante de um Estado que mata e finge não ver o crime. 14 de Maio de 1888: A Traição Fundacional O Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão (em 13 de maio de 1888, sob forte pressão internacional e diante da inevitável falência do sistema), perpetuou, no dia seguinte, sua maior traição social: o 14 de maio de 1888 . Missa campal celebrada em ação de graças pela abolição da escravatura no Brasil no campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 1888 — Foto: Luiz Antonio Ferreira/Acervo Instituto Moreira Salles O Estado, que explorou o corpo e o trabalho do povo negro por mais de três séculos, recusou-se a criar qualquer política pública de reparação, acolhimento ou integração. Em vez disso, instituiu um projeto de marginalização ativa, por meio de leis como a de Vadiagem (que criminalizava a ausência de emprego formal, impossível de ser obtido) e do controle policial, como a criminalização do "pito de pango" (uso de cannabis), direcionada à população negra e às suas práticas culturais. A Capoeira , uma manifestação cultural e de resistência africana, também foi explicitamente criminalizada no Código Penal Republicano de 1890, logo após a abolição, reforçando a repressão contra qualquer forma de organização e expressão negra. Enquanto os recém-libertos eram empurrados para as margens da sociedade (dando origem às favelas e aos cortiços), o governo brasileiro investia em políticas de subsídio e atração de imigrantes europeus , facilitando seu acesso à terra e ao trabalho assalariado. Este abandono não foi fruto de inércia: tratou-se de um projeto deliberado de exclusão racial, voltado ao embranquecimento e à substituição da mão-de-obra, que marginalizou a população negra em sua própria terra. O Paralelo com a Reconstrução Americana O abandono brasileiro encontra eco na história americana, ainda que em roupagens distintas. Nos Estados Unidos, o fim formal da escravidão em 1865 foi seguido pela Era da Reconstrução (1865-1877), período em que o governo federal tentou impor direitos civis e políticos (como o direito ao voto) para a população negra do Sul. No entanto, essa tentativa de integração foi brutalmente combatida pela violência paramilitar (exemplificada pela Ku Klux Klan) e pela instituição das Leis Jim Crow . Se, no Brasil, a exclusão se deu pelo abandono e invisibilidade , nos EUA ela se consolidou pela segregação legal e pela violência explícita. Em ambos os casos, o resultado foi o mesmo: a garantia de que, mesmo após a abolição, a supremacia branca permaneceria inabalável, seja pela hierarquia velada ou pela separação forçada. Identidade e Colorismo: O Espectro Racial A forma como cada país define quem é negro determina a coesão social e a percepção da luta. EUA (Regra de uma Gota): Qualquer ancestralidade negra define a pessoa como negro/a, criando uma unidade identitária inegável, centrada na descendência . Uma figura como Mariah Carey é, nesse contexto, inequivocamente Black . ● Brasil (Escala de Cor e Colorismo): O projeto de branqueamento valorizou a miscigenação para diluir a negritude, resultando em uma categorização social baseada na aparência e no fenótipo . O Colorismo tornou-se uma ferramenta do racismo brasileiro para estabelecer hierarquias e fomentar conflitos internos, negando solidariedade e questionando a validade da luta de quem é considerado "não tão negro assim". Imagem sobre colorismo. Fonte: Imagem gerada por IA. Enquanto a rigidez americana força a união, a fluidez brasileira insiste em nos dividir, desviando o debate central do racismo estrutural para o tom da pele. O Feminismo Negro em Perspectiva Comparada O feminismo negro, em ambos os países, nasceu da dupla exclusão, mas com bases conceituais que refletem suas realidades estruturais. ● EUA (Interseccionalidade): Sistematizada por Kimberlé Crenshaw , a teoria da interseccionalidade foca na análise da opressão de raça e gênero que se cruzam, produzindo uma desvantagem única dentro do sistema de direitos. ● Brasil (Amefricanidade): Conceituada por Lélia Gonzalez , a amefricanidade enfatiza a Classe Social e a matriz afro-latino-americana. Suas pautas estão ligadas à estrutura da vida material : o enfrentamento do genocídio, a luta pela saúde e a valorização da trabalhadora doméstica. A objetificação da mulher negra no Brasil se manifesta em duas figuras centrais: a Mulata, representada como corpo disponível para o prazer branco, e a Mãe Preta, reduzida à condição de serviçal, cuidadora e dessexualizada. Ambas funcionam como mecanismos de controle da sexualidade e do trabalho, perpetuando estereótipos que sustentam a exploração e a marginalização. Narrativas de Resistência e o Preço do Pioneirismo: O Legado de Luta e Esperança O custo do pioneirismo no Brasil é desigualmente distribuído. O racismo estrutural impõe um fardo duplo, exigindo o sacrifício pessoal como preço pelo sucesso e, muitas vezes, tentando apagar a excelência intelectual e a liderança. Contudo, as batalhas travadas por esses gigantes não foram em vão. Cada ato de resistência, cada obra publicada e cada papel de destaque ergueram uma base sólida para a ascensão das gerações seguintes, demonstrando que a excelência negra é uma força inegável e que a esperança se renova em cada conquista. A história de João Cândido , líder da Revolta da Chibata (1910), ilustra o preço imediato da ousadia. Ele orquestrou uma revolta bem-sucedida contra os castigos físicos na Marinha, mas sua liderança audaciosa e a vitória momentânea foram seguidas pela traição e pela perseguição do Estado. Sua vida foi marcada pela pobreza e pelo esquecimento oficial, simbolizando como o Brasil não apenas nega o gênio, mas também pune a liderança negra. Ainda assim, sua luta ecoou por todo o século. O reconhecimento de sua dignidade e heroísmo, ainda que tardio, inspira a contínua exigência de justiça e reafirma que a dignidade não se curva à opressão. João Cândido pavimentou o caminho para que, hoje, militares e civis negros exijam e ocupem seu lugar de direito sem o fardo da chibata. Ainda no campo da palavra, a trajetória de Carolina Maria de Jesus é um marco incontornável. Sua obra Quarto de Despejo constitui uma denúncia crua da miséria e uma das vozes mais potentes da literatura brasileira. Embora tenha sido inicialmente tratada pelas elites como um "fenômeno exótico" e tenha morrido no anonimato, seu sucesso efêmero não apagou o impacto duradouro de sua escrita. Carolina provou que a literatura pode - e deve - nascer da vivência da favela, legitimando narrativas até então silenciadas. A persistência de sua obra na academia e nas escolas garante que a voz da intelectualidade periférica tenha espaço, alimentando a Escrevivência que seria mais tarde consolidada por Conceição Evaristo . Conceição Evaristo é considerada um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Imagem: Itaú Social A excelência literária e a profunda contribuição de Conceição Evaristo, que nos presenteou com o conceito de Escrevivência, enfrentaram a longa luta pela validação da excelência negra em um cânone literário historicamente excludente. O reconhecimento consolidado de sua obra na grande mídia e nas academias só foi alcançado após décadas de intensa produção e resistência. No entanto, o seu triunfo é uma vitória coletiva. Conceição não apenas conquistou seu espaço, mas também abriu caminhos para uma nova geração de escritoras e escritores negros que, hoje, desfrutam de maior visibilidade e acolhimento no mercado editorial e nas salas de aula. Sua trajetória demonstra que a persistência transforma-se em excelência e que a palavra negra, quando afirmada, impõe sua legitimidade. Essa imposição também se manifesta nas artes cênicas, através do pioneirismo de Zezé Motta . Ao protagonizar, em 1984, a primeira mulher negra em posição central na teledramaturgia, ela enfrentou uma reação pública profundamente racista, absorvendo os ataques de uma sociedade que se insurgiu contra sua ascensão social. Zezé carregou o peso de ser a primeira, pagando um preço pessoal pela visibilidade. Seu sacrifício, contudo, foi o catalisador de uma mudança lenta, mas irreversível. Graças à sua coragem e talento, atrizes negras hoje ocupam papéis de destaque com maior frequência e centralidade, inspirando milhões e tornando a representação negra na televisão brasileira uma realidade cada vez mais plural e forte. O sucesso negro brasileiro insiste em ser considerado ilegítimo pela estrutura racista, exigindo a luta pela sobrevivência digna do próprio sucesso. Ainda assim, ao revisitar as vidas de João Cândido, Carolina Maria de Jesus, Zezé Motta e Conceição Evaristo, percebemos que essas batalhas deixaram um legado de resiliência inquebrantável. Eles não apenas sobreviveram, mas prosperaram, transformando o preço pessoal do pioneirismo em um investimento para o futuro. Suas trajetórias provam que a luta não é em vão: abriram portas para que a atual geração de líderes, intelectuais e artistas negros não precise começar do zero, mas sim dar continuidade, com maior visibilidade e força, à marcha rumo à plena equidade e ao reconhecimento da excelência negra brasileira. Desmascarando o Velado e Afirmando a Luta O racismo brasileiro é uma máquina de confusão e autonegação . Ele impediu que Carolina Maria de Jesus fosse reconhecida como intelectual e obrigou Zezé Motta a pagar o preço pela ousadia. O choque de perceber que até nós, por vezes, aceitamos a invisibilidade e a ausência de nome para as crianças negras assassinadas (como os meninos de Belford Roxo) é a prova definitiva do sucesso desse racismo estrutural. Esta negação se manifesta até mesmo na memória dos nossos ícones. A narrativa pública sobre Garrincha insiste em destacar o alcoolismo e a tragédia, ofuscando o gênio do drible e o herói absoluto do Bicampeonato Mundial de 1962. O imaginário coletivo que pairava sobre o "Anjo das Pernas Tortas" estava marcado pela hipersexualização do homem negro e pela virilidade. O fato de ter nascido e vivido em Pau Grande reforçava, no subconsciente nacional, a ideia de uma força bruta e descontrolada, minimizando sua inteligência e talento como se fossem meramente instintivos. Já sobre Elza Soares , a ênfase recai sobre a violência sofrida e as mazelas da vida, enquanto se minimiza a "Melhor Cantora do Universo" (título concedido pela BBC em 2000), aclamada por nomes como Louis Armstrong e BB King. O Brasil, de forma recorrente, cultiva o hábito de destacar o sofrimento e a decadência de seus ícones negros, em vez de celebrar o sucesso e o brilho  que eles representam. A luta negra no Brasil é, essencialmente, a luta por letramento e consciência contra uma estrutura que se esconde. Ao desmascarar o racismo "velado" e afirmar nossa identidade, nossa produção intelectual e artística, estamos finalmente nos equipando para desmantelar a engenharia social que nos roubou a força. O projeto não é apenas resistir, mas florescer; não é só confrontar o opressor, mas reconhecer e afirmar o nosso próprio valor. A próxima etapa da nossa jornada é declarar quem somos em nossa plenitude, a partir de nossas vivências e origens, transformando a memória da dor em potência e futuro. A resistência não é um lamento, mas um projeto. No Brasil, ela é, acima de tudo, um ato de coragem contra o silêncio imposto, um grito de afirmação de que estamos aprendendo a reconhecer nosso valor, de que não aceitamos mais viver no quarto de despejo da nação e de que os nossos têm nome, brilho e dignidade . Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • The Swarm: Quando o oceano responde

    The Swarm  é uma série alemã de ficção científica e suspense ecológico que mergulha nas profundezas do oceano — e da consciência humana  — para explorar o impacto devastador da ação humana sobre o planeta. Baseada no best-seller de Frank Schätzing, a produção internacional combina ciência, drama e mistério em uma narrativa que é tão visualmente impressionante quanto intelectualmente provocadora. Imagem promocional da série Enredo de The Swarm O thriller ambiental The Swarm  se passa nos dias atuais, quando anomalias e comportamentos incomuns em animais marinhos começam a causar agitação em todo o mundo. A série acompanha um grupo internacional de cientistas que se reúne para enfrentar um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade. Eles fazem uma descoberta arrepiante: nas profundezas do oceano, reside uma inteligência coletiva  que sofreu os estragos da civilização  em seu habitat - e decidiu revidar. Uma ameaça invisível e global A trama começa com uma série de eventos inquietantes: baleias atacam embarcações, crustáceos invadem praias, e fenômenos sísmicos inexplicáveis ocorrem em regiões costeiras. Cientistas ao redor do mundo começam a investigar e descobrem que esses incidentes não são aleatórios — há uma inteligência desconhecida e poderosa agindo nas profundezas do oceano.  O planeta parece estar reagindo à exploração desenfreada e à negligência ambiental da humanidade. Essa premissa transforma o oceano em um personagem vivo, misterioso e vingativo. A série não recorre a monstros ou alienígenas tradicionais, mas sim a uma força natural que desafia a lógica humana e exige uma resposta ética e científica. Trata-se de um terror ecológico muito bem estruturado, que nos convida a refletir profundamente sobre o que estamos fazendo com a natureza. Realismo científico e tensão narrativa Um dos grandes méritos de The Swarm  é seu compromisso com o realismo científico. A série se apoia em disciplinas como oceanografia, biologia marinha, geologia e climatologia para construir uma trama verossímil e envolvente . Os protagonistas — cientistas, pesquisadores e especialistas — não são heróis convencionais, mas pessoas comuns enfrentando dilemas morais e profissionais  diante de uma crise sem precedentes. A tensão cresce à medida que os personagens descobrem que a ameaça não pode ser combatida com armas ou tecnologia , mas exige compreensão, humildade e cooperação global. Com uma produção de alto nível, The Swarm  impressiona pela qualidade visual: cenas subaquáticas bem executadas, efeitos especiais discretos e uma fotografia que alterna entre o sombrio e o sublime. A ambientação é global, com locações na Noruega, Japão, Canadá, França e Alemanha, reforçando o caráter internacional da ameaça. O elenco é diverso e competente, as atuações transmitem a urgência  e o desespero de quem tenta decifrar um enigma que pode significar o fim da civilização como conhecemos. Mais do que uma série de suspense, The Swarm  é um alerta sobre os limites da exploração ambiental e a arrogância humana diante da natureza.  A narrativa levanta questões sobre mudanças climáticas, destruição de ecossistemas, ética científica e responsabilidade coletiva.  Ao transformar o oceano em um agente de justiça ecológica, a série convida o público a repensar sua relação com o planeta. The Swarm  é uma obra instigante, ideal para quem busca uma ficção científica com profundidade temática e relevância contemporânea.  Embora o ritmo possa oscilar em alguns episódios, a série compensa com uma atmosfera envolvente, personagens bem construídos e uma mensagem poderosa. É uma produção que une entretenimento e reflexão, e que deixa o espectador com uma pergunta inquietante: e se a Terra decidir se defender? Escrevi essa resenha justamente por sua relação com a COP 30, realizada este ano no Brasil. Afinal, trata-se de uma conferência crucial para definir como enfrentaremos o aquecimento global daqui para frente. E a série The Swarm , mesmo sendo uma ficção, nos mostra o que pode acontecer se não levarmos esse assunto mais seriamente. Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão: Eliézer Fernandes Edição: João Guilherme V.G.

  • Quatro motivos para assistir “My Brilliant Friend” e se emocionar

    Acompanhamos a vida das protagonistas da infância ao amadurecimento. Imagem: Reprodução HBO My Brilliant Friend  é uma das séries mais intensas e comoventes disponíveis na Max. Baseada na Tetralogia Napolitana  da escritora Elena Ferrante , a produção mergulha na trajetória de duas amigas, Elena e Lila, desde a infância na Nápoles dos anos 1950.  Trata-se de uma história que vai muito além do retrato de uma amizade: é um panorama sobre como o amor, a inveja e a busca pela independência moldam duas mulheres em um mundo que insiste em limitá-las. Ao longo de quatro temporadas produzidas pela HBO, acompanhamos as diferentes fases da vida dessas protagonistas , da infância ao amadurecimento. É uma obra sensível e realista que revela como laços afetivos se transformam e resistem em meio à pobreza, à violência e às pressões sociais. A seguir, veja quatro motivos para assistir a essa joia da televisão italiana: 1. Uma amizade feminina intensa e complexa A relação entre Elena e Lila foge dos padrões convencionais : é uma amizade marcada por amor, inveja, admiração e raiva. Esse vínculo, muitas vezes contraditório, é o eixo central da narrativa e convida o espectador a   refletir sobre as nuances e verdades ocultas  na dinâmica das duas. Mesmo com atitudes ambíguas e decisões difíceis, a conexão entre elas é construída de forma tão sensível  que o público se vê envolvido em suas dores, conquistas e alegrias . Em um contexto social dominado pela pressão patriarcal, o laço entre Elena e Lila emerge como um gesto de resistência  e uma busca profunda por identidade.   2. Um retrato realista da Itália pós-guerra O bairro de Nápoles não serve apenas como cenário da narrativa - ele se transforma em um verdadeiro personagem. Acompanhamos sua evolução paralela às mudanças que a Itália vivencia ao longo das décadas : de um distrito cinzento e marginalizado, marcado pela pobreza e pela violência, para uma região modernizada, impulsionada pelo crescimento urbano e imobiliário. Movimentos estudantis tinham grande impacto na época. Imagem: Reprodução HBO A série também mergulha nas tensões sociais, culturais e políticas  que marcaram o período. Temas como o avanço do movimento feminista, os protestos estudantis e os conflitos entre comunismo e facismo permeiam a trama,  ao lado da presença de organizações criminosas (máfias)  e da corrupção institucionalizada. Esse contexto histórico dá profundidade à narrativa e reforça os desafios enfrentados pelas protagonistas. 3. O poder do conhecimento           O conhecimento é a força motriz da narrativa. Elena encontra nos estudos e na escrita uma forma de libertação; Lila, por sua vez, enxerga nesse caminho uma oportunidade que lhe foi negada.  Essa ambiguidade - o  saber como ponte e barreira - é o que torna a relação entre elas ainda mais complexa e fascinante. A educação como ferramenta de emancipação feminina  é um dos pilares da série, especialmente em um contexto histórico em que as mulheres eram destinadas quase exclusivamente às tarefas domésticas. A busca pelo saber representa, para ambas, uma tentativa de romper com os limites impostos pela sociedade  e de construir uma identidade própria. Elena encontra nos estudos uma forma de mudar de vida. Imagem: Reprodução HBO 4. Uma cenografia impecável e atuações de tirar o fôlego Com fotografia naturalista, figurinos detalhados, trilha sonora sutil e direção cuidadosa, a série encanta visualmente e emociona profundamente. Cada cenário  parece narrar uma história paralela à das personagens. Da fragilizada Nápoles a efervescente Pisa, as mudanças  de paisagens refletem as transformações  internas de Elena e Lila. Outro destaque são as atuações. As atrizes, em todas as fases das protagonistas, entregam performances comoventes e autênticas, conferindo  realismo e profundidade à trama. É impossível não se envolver com a intensidade emocional que elas imprimem em cada cena. Um relacionamento que se mantém firme mesmo com a passagem do tempo. Imagem: Reprodução HBO Mais do que um drama de época, My brilliant friend é um retrato profundo e comovente do que significa ser mulher em uma sociedade que frequentemente silencia vozes femininas.  A série transcende o tempo e o espaço ao explorar temas universais como identidade, liberdade, afeto e resistência. Com uma narrativa poderosa e estética refinada, ela convida o espectador a refletir sobre os desafios da condição feminina — ontem e hoje — e sobre a força que emerge quando mulheres se apoiam, mesmo em meio às contradições. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G.

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