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  • A menopausa é natural, a desigualdade não

    Este artigo tem a intenção de trazer luz a um assunto tão importante, mas que, infelizmente, ainda é acessível para poucas de nós. Nada melhor do que o mês de março para que, por meio da informação e do conhecimento, possamos nos olhar com mais carinho e atenção, refletindo sobre o nosso papel e os nossos direitos na sociedade. Imagem gerada por IA. Sofri longos anos com sintomas silenciosos e muita culpa. Fui mãe pela primeira vez aos 37 anos e, no pós-parto, os sinais do declínio hormonal misturaram-se com o dia a dia exaustivo da maternidade. O que era uma transição fisiológica foi camuflado pela rotina e, após anos passando por muitos profissionais sem respostas para meus sintomas, conheci a medicina integrativa por meio da Dra. Danyelle Mariaca. Ela me orientou nessa caminhada e pude entender o que estava acontecendo comigo. Ao pensar no tema deste artigo, ela, generosamente, concordou em guiá-lo sob a luz da medicina, para que outras mulheres também encontrem algumas respostas e possam, inclusive, prevenir efeitos mais danosos em seus corpos. “ A menopausa acontece com todas. Mas a forma como cada mulher envelhece não é igual. Enquanto algumas atravessam essa fase com informação, diagnóstico precoce e acompanhamento médico, outras vivem sintomas silenciosos sem saber que o corpo já entrou em transição. ” — Dra. Danyelle Mariaca A perimenopausa invisível e o rótulo do estresse Muitas mulheres ainda menstruam, mas já sentem o impacto: névoa mental, irritabilidade, insônia, ganho de peso abdominal e um cansaço persistente. Na perimenopausa, a progesterona cai primeiro e o estrogênio oscila, desestabilizando o sono, o humor e o metabolismo. Não é 'frescura', é fisiologia. No entanto, mulheres com menos acesso à informação e sob o estresse da sobrevivência tendem a normalizar o sofrimento, chamando de 'estresse' aquilo que já é transição hormonal. Enquanto a mulher com recursos busca ajuda para manter sua performance, a que não tem acesso pode ser rotulada como desatenta ou improdutiva. Aqui, a biologia transforma-se em julgamento. O alerta da menopausa precoce: quando o relógio acelera Existe um grupo de mulheres que enfrenta esse abismo muito antes do esperado. A menopausa precoce não é apenas uma 'irregularidade no ciclo'; é um choque biológico que, muitas vezes, é ignorado em consultórios sob a justificativa de que a paciente 'ainda é muito jovem'. A ausência de diagnóstico precoce nessas situações rouba da mulher anos de proteção cardiovascular e óssea. O estrogênio e o coração: o alvo silencioso Existe um desvio de atenção perigoso: o medo cultural do câncer de mama, muitas vezes, cega-nos para o fato de que, após os 50 anos, a principal causa de morte feminina são as doenças cardiovasculares. O estrogênio funciona como um escudo para os vasos sanguíneos, reduzindo inflamações e melhorando o perfil lipídico. Quando ele cai, o risco de infarto e AVC aumenta devido à rigidez arterial e à hipertensão. VOCÊ SABIA? O coração é o alvo:  no Brasil, as doenças cardiovasculares matam cerca de seis vezes mais mulheres do que o câncer de mama. (Fonte: Sociedade Brasileira de Cardiologia — SBC, 2024/2025). O escudo hormonal:  a queda do estrogênio aumenta a rigidez arterial, a hipertensão e o colesterol LDL.* A “virada” pós-50:  antes da menopausa, os hormônios protegem os vasos; após, o risco cardíaco feminino iguala-se ao masculino.* Efeito dominó:  sem a proteção hormonal, aumentam os riscos de osteoporose, resistência insulínica e declínio cognitivo. (Fonte: Associação Brasileira de Climatério — SOBRAC, 2024). Saúde sexual e a dignidade do cuidado A secura vaginal e a queda da libido são resultados da atrofia urogenital causada pela redução hormonal. Isso pode gerar dor nas relações e infecções urinárias recorrentes. Embora existam tratamentos eficazes, como a terapia hormonal adequada, o acesso a eles ainda é um marcador de privilégio. Nenhuma mulher deveria aceitar a dor como destino por falta de insumos no sistema público. A jornada dupla e o colapso da “máquina” A mulher é frequentemente a cuidadora de todos — filhos e pais idosos —, esquecendo-se de si mesma justamente quando sua biologia mais exige reparos. O estresse crônico dessa jornada 'atropela' o sistema hormonal e acelera o envelhecimento celular. Para as mulheres com menor poder aquisitivo, a sobrevivência depende de saber o que exigir no SUS, como exames de densitometria óssea e perfil lipídico, que são direitos garantidos. Informação é a primeira forma de justiça em saúde. Direitos garantidos Informação é a primeira forma de justiça em saúde. É fundamental que saibamos: o cuidado no climatério não é um favor, é um direito amparado pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher. Exigir exames de densitometria óssea, mamografia e controle metabólico no SUS é exercer a cidadania que nos foi garantida por lei. Esse cuidado deve alcançar todas as pessoas que atravessam o declínio hormonal estrogênico, respeitando suas identidades e garantindo que a biologia não seja um fator de exclusão. PNAISM:  diretriz que garante assistência ao climatério e à menopausa em todas as UBS. Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990):  assegura assistência terapêutica e acesso a medicamentos da RENAME mediante prescrição médica. Lei nº 11.664/2008:  garante a realização de mamografias a partir dos 40 anos na rede pública. Essa proteção estende-se também às mulheres imigrantes que, pela Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017), têm direito ao acesso integral ao SUS, independentemente de sua situação documental. No entanto, o abismo do diagnóstico torna-se ainda mais profundo quando essas barreiras se cruzam com o racismo institucional. É por isso que o nosso arcabouço também conta com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (Portaria nº 992/2009), que obriga o sistema de saúde a combater as desigualdades étnico-raciais e o racismo no atendimento. Para a mulher imigrante e negra, o acesso à saúde na menopausa não é apenas uma questão clínica, mas um direito humano garantido por lei. Um marco, não um fim A menopausa é natural; o adoecimento precoce, contudo, é fruto da desigualdade. Quando há diagnóstico precoce e cuidado, é possível envelhecer com autonomia. Se o sistema já falha com a mulher de forma generalizada, o abismo torna-se ainda mais profundo quando olhamos para quem carrega a maior carga de estresse estrutural em nossa sociedade. A forma como o corpo feminino envelhece no Brasil tem cor e endereço, onde o racismo estrutural, a situação de pobreza e a privação de acessos atuam como fatores de estresse oxidativo que fazem a menopausa chegar mais cedo e de forma mais violenta. Sabemos que a saúde na menopausa é um universo vasto e que este artigo não pretende esgotar todos os temas ou substituir o olhar clínico individualizado. Nossa intenção aqui é ajudar na identificação dos sintomas e de caminhos possíveis para a recuperação do protagonismo sobre o nosso próprio corpo. Cada organismo é único, e a informação é o mapa que nos permite chegar ao consultório médico com mais propriedade e segurança para exigir o cuidado que cada um de nós merece. Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Com colaboração de Danyelle Mariaca ginecologista, endocrinologista e especialista em medicina integrativa Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes

  • Mísseis no Oriente Médio e ataques à soberania latino-americana: O caminho que nos levou até aqui

    Manifestante em Teerã segura imagem do aiatolá Ali Khamenei, morto em ataques de Israel e EUA neste sábado — Foto: ATTA KENARE / AFP Janeiro, 2026. Uma operação de extração militar ocorre na Venezuela. Após meses de bloqueio no mar do Caribe, uma ação de inteligência estadunidense, que contou com cooptação de agentes públicos venezuelanos, logrou raptar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa de dentro do Forte Tiuna. Sem a aprovação do Congresso norte-americano ou da ONU, Donald Trump e sua equipe ordenaram a invasão da Venezuela sob a justificativa de combater o narcotráfico. Todos sabemos o verdadeiro motivo. O cheiro de petróleo cobre o ambiente e já manchou o papel em que escrevo este texto . A Venezuela possui 303 bilhões de barris em reservas, a segunda maior do mundo . O foco sempre foi a abertura da PDVSA (estatal venezuelana responsável pelo setor petroleiro) às empresas norte-americanas, a fim de controlar a produção, a extração e a lucratividade do combustível fóssil, além de impedir seu comércio com a China. Trump divulga foto de Maduro após captura do líder — Foto: Reprodução/Redes sociais Fevereiro,2026. Uma série de ataques contra o Irã, em uma manhã de sábado, reduziu a fumaça as praças Jomhouri e Hassan Abad . Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram pessoas em pânico, fugindo das explosões. É possível ouvir gritos e choro enquanto o estrondo das bombas ecoa ao fundo. Mais de 200 pessoas morreram, entre elas Ali Khamenei , marja’ (grande aiatolá) do país persa. Os norte-americanos, em cooperação com as forças israelenses, foram os responsáveis pela ação bélica. Trump manifestou-se em uma mensagem na rede Truth Social , afirmando que Khamenei foi “uma das pessoas mais perversas da história” e que esta seria “a maior oportunidade que o povo iraniano já teve para recuperar seu país”. Mais uma vez, sob a bandeira da liberdade, os estadunidenses apontam seus canhões em direção ao Oriente Médio, como fizeram inúmeras vezes. Claro que isso não teria nada a ver com o controle sobre o Estreito de Ormuz, nem com as reservas de petróleo locais, muito menos com a manutenção da supremacia de Israel como nação imperialista nos arranjos geopolíticos do Oriente Médio. Março, 2026. Estou tranquilamente tomando um café na sala dos professores, quando sou interpelado por um colega: “A Terceira Guerra Mundial começou, Pablo!” . Será mesmo? Respondi vagamente. Às sete da manhã, meu cérebro ainda funciona lento. Com mais vagar agora, proponho ao leitor uma análise um pouco mais densa. O cenário mundial hoje é realmente caótico e problemático, com uma escalada perigosa do conflito — já aberto. Mas o que podemos entender disso tudo, do ponto de vista histórico? O convite que faço a você é que, por alguns minutos, tomemos alguma distância e observemos o tecido do passado e do presente para entender como os EUA se relacionam com o mundo. Um quintal para chamar de meu Os Estados Unidos da América conquistaram sua independência em um contexto histórico particularmente relevante. Antes mesmo da Revolução Francesa, em 1789, os habitantes das treze colônias sob controle britânico na América do Norte empreenderam um processo de libertação singular, guiados por uma inspiração iluminista e por ideais liberais que, à época, já estavam em voga na sociedade ocidental e vinham sendo fomentados na própria Inglaterra desde o século XVII. A partir daí, a independência conquistada pelos estadunidenses reverberou no mundo, especialmente na França do final do século XVIII . O resultado obtido pelos colonos na América do Norte passou a ecoar nos debates entre os intelectuais liberais parisienses, com desdobramentos evidentes no processo revolucionário francês. Em solo norte-americano, um processo ideológico se iniciou. Durante o século XIX, cristalizou-se, nos Estados Unidos, uma crença quase religiosa — uma convicção que extrapolava a mera ideia de conquista territorial e apontava para uma escolha divina sobre a própria nação . Os estadunidenses, de acordo com essa ‘profissão de fé’, estariam predestinados a levar a civilização, a democracia e o progresso, ao restante do continente. Dentro dessa mentalidade, qualquer obstáculo que os demais povos pudessem interpor contra os ‘escolhidos’ poderia ser entendido como um ataque ao seu desenvolvimento, aos ideais democráticos e à liberdade. A transformação dessa ideologia em política oficial deu-se em 1823, com a Doutrina Monroe. Seu slogan era 'a América para os americanos'. Note-se: americanos não são todos, de cima a baixo; são os estadunidenses, os 'legítimos' americanos. A retórica era de união contra o imperialismo europeu, mas, na prática, marcou o início do imperialismo norte-americano sobre os demais territórios do continente. Trocando em miúdos, os EUA demarcaram seu quintal e estabeleceram suas regras. No advento do novo século, Theodore Roosevelt (1901-1909) daria um passo adiante, inaugurando a política do Big Stick . Sua máxima era 'fale macio, mas use um porrete', uma diplomacia que até existia, mas só funcionava porque havia um aparato militar por trás, garantindo acordos pela violência. A imposição econômica desse período visava a garantir a hegemonia norte-americana, submetendo os demais países a uma cartilha neoliberal de exploração até a exaustão do povo e da produção local. E não somente: essa política impunha o dólar como moeda soberana nas transações comerciais. Se algum país saísse da linha, o porrete entrava em ação. Sob a batuta da CIA, a orquestra de intervenções norte-americanas varreu governos nacionalistas na América Latina e os substituiu por governos fantoches, submetidos aos interesses imperialistas dos EUA. Os exemplos são diversos. O Paraguai ‘saiu da linha’ em 1954, assim como o Brasil em 1964, o Uruguai e o Chile em 1973, e a Argentina em 1976 — a lista é extensa e seguiria adiante. Intervenção militar dos Estado Unidos na América Latina — Mapa: instagram @ geografia.online O inimigo mora no Oriente Imagine o ano de 1977. Estamos em Teerã, em um banquete luxuoso. De um lado da mesa, o presidente norte-americano Jimmy Carter levanta sua taça em um brinde animado com Reza Pahlevi, o xá iraniano. Carter celebra o fato de o país persa ser uma ilha de estabilidade em uma região cheia de conflitos. Agora imagine-se dando um salto temporal e caindo em Teerã, hoje, 5 de março de 2026, em meio aos escombros da cidade que exala o cheiro pungente de carne humana queimada logo após os bombardeios norte-americanos. Como tudo mudou tanto? Antes de respondermos, é preciso compreender um conceito fundamental. O realismo ofensivo, conceito elaborado por John Mearsheimer, parte de uma análise crua da geopolítica internacional e talvez possa ajudar a explicar parte das tensões na região que estamos analisando. O sistema internacional viveria em um estado de ausência de autoridade superior. Nesse cenário, o medo ditaria as regras do jogo, e cada nação precisaria exercer certo nível de terror sobre as demais como estratégia de defesa. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA transitaram de uma política isolacionista para uma postura intervencionista, com vistas a conter os avanços da União Soviética. Nessa disputa, que conhecemos como Guerra Fria, o Oriente Médio despontava como zona estratégica, por conta de suas reservas de petróleo, especialmente na região do Golfo Pérsico. O controle desse recurso significava poderio militar. Entraram em ação duas políticas estadunidenses: a Doutrina Truman, que estabeleceu o compromisso de oferecer ajuda militar e econômica para conter a expansão do comunismo, e a Doutrina Eisenhower, que prometia ajuda militar e econômica a países do Oriente Médio para conter a influência soviética. Uma luta do bem contra o 'mal vermelho'? Não: apenas a águia norte-americana com sede de petróleo. Israel, Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Irã foram alguns dos países que receberam proteção da águia da liberdade. Como excelentes exemplos do realismo ofensivo, seus governos, apoiados pelos norte-americanos, receberam armamento, tecnologia e investimentos que desequilibraram a balança geopolítica em favor dos estadunidenses. Irã, 1951. Naquela época, o Irã era uma monarquia constitucional, com um primeiro ministro eleito pelo povo. À época, Mohammed Mossadeq ocupava o cargo. Nacionalista fervoroso, Mossadeq entrava frequentemente em choque com interesses estrangeiros no país, especialmente após nacionalizar a indústria do petróleo iraniano. Isso soou como um alarme de incêndio em Washington, que, junto com a CIA, orquestrou um golpe de Estado no país persa. A derrubada do primeiro-ministro foi seguida pela consolidação de uma monarquia autocrática concentrada no xá Mohammad Reza Pahlavi. Isso garantia um governo capacho aos interesses estadunidenses. Uma vitória tática que gerou, a longo prazo, uma crescente aversão da população iraniana aos norte-americanos. Ironia da história: o programa nuclear iraniano, motivo que os EUA usaram para dizer que o país persa representava uma ameaça à paz na região e no mundo, não foi iniciado pelos soviéticos nem pelos chineses, mas pelos próprios norte-americanos durante o reinado do xá apoiado por eles. O regime do xá, adotando uma política de ocidentalização econômica e social, promoveu um progresso baseado em uma profunda desigualdade social, corrupção e repressão violenta a opositores. O antiamericanismo tomou as ruas de Teerã, unindo líderes islâmicos ultraconservadores a comunistas no movimento de derrubada do regime de Pahlavi, que aconteceu enfim com a Revolução Islâmica de 1979, de onde emergiu a figura central do aiatolá Ruhollah Khomeini, que apelidou os EUA de ‘Grande Satã’. Populares se manifestam antes da deflagração da revolução de 1979. Na imagem, o líder aiatolá Khomeini — Foto: AP Photo, File Uma nova (velha) doutrina O tecido do passado e do presente está aberto diante dos nossos olhos. Vamos mais uma vez observar a América Latina. A invasão à Venezuela parece ter dado luz a uma nova (velha) doutrina. Saem de cena o golpe contra uma suposta ditadura, a entrega do poder a uma oposição ‘democrática’, a tal desculpa civilizatória para o uso da força. Agora, uma espécie de realismo flexível toma lugar, e a força é justificada pela imposição de uma verdade que, por falta de vozes dissonantes, se torna única e incontestável. Na Venezuela, a oposição não recebeu o poder dos norte-americanos. María Corina Machado e Edmundo González não foram agraciados com as rédeas do país. Trump preferiu manter a vice de Maduro, Delcy Rodríguez, e garantir que a máquina estatal continuasse funcionando sem mais rupturas, assegurando a abertura da PDVSA e do petróleo às empresas estadunidenses. Voltemos nosso olhar para o Oriente, mais uma vez. O assassinato de Ali Khamenei foi um rastilho de pólvora aceso rumo a um barril altamente explosivo: o Oriente Médio. Ao longo de sua história de intervenção na região, os norte-americanos construíram uma rede de países aliados que, diante da incursão bélica da águia da liberdade estadunidense, apoiaram a ação contra o Irã (nominalmente, Bahrein, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Jordânia). Mas, definitivamente, a nação mais interessada nisso é Israel. O bastião dos interesses imperialistas ocidentais no Oriente, aliado de primeira ordem dos EUA, o país comandado por Benjamin Netanyahu — diretamente envolvido nos ataques — busca estabelecer sua supremacia geopolítica e bélica na região. A nova (velha) doutrina imperialista sobre o Oriente Médio. A receita que sempre deixa o bolo grande e saboroso (pra você sabe quem). Por ora, vamos fechar o tecido do passado e do presente. Voltaremos em breve com mais provocações históricas. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão e Edição por Eliézer Fernandes

  • Caso Epstein revela o império do silêncio e da exploração

    Reconhecer-se como vítima é, em muitos casos, um processo doloroso. Por isso, em respeito às adolescentes vitimadas pela rede de exploração sexual de Jeffrey Epstein, neste artigo optamos por chamá-las de sobreviventes. Um milionário, uma ilha paradisíaca, conexões com figuras poderosas e a convicção na impunidade: esses foram os elementos centrais do caso Jeffrey Epstein. O financista norte-americano, criminoso condenado, comandou uma extensa rede de tráfico sexual de menores que envolveu nomes da realeza, do Vale do Silício, políticos influentes e até mesmo um ex-presidente da Assembleia Geral da ONU. Jeffrey Epstein foi professor do ensino médio antes de se tornar um financista poderoso – Foto: Getty Images O tráfico de pessoas  costuma ser percebido, no imaginário popular, quase como um mito distante da realidade. Muitos acreditam que é improvável que qualquer pessoa possa se tornar vítima desse crime. No entanto, essa percepção contraria completamente os alertas de especialistas, qualquer indivíduo pode ser um alvo em potencial, desde que corresponda ao propósito buscado pelos criminosos. No Brasil, já foram identificadas cerca de 241 rotas de tráfico de pessoas . A maior parte delas se concentra nas regiões Norte e Nordeste, áreas historicamente marcadas por elevados índices de vulnerabilidade econômica e social. Essa vulnerabilidade funciona como terreno fértil para o aliciamento: promessas de emprego, ganhos financeiros ou até mesmo de uma nova vida são utilizadas como iscas pelos criminosos. O mais alarmante é que, em muitos casos, o próprio aliciador já foi vítima do mesmo crime, perpetuando o ciclo de exploração e violência. As sobreviventes do Caso Epstein relataram que havia um modus operandi no esquema criminoso.  Elas eram convencidas a ir até a casa de Epstein, em Palm Beach, sob o pretexto de realizar uma massagem, mas acabavam sendo forçadas a manter relações sexuais com ele. Além das adolescentes, outra figura central no aliciamento de menores foi Ghislaine Maxwell. O relato de Virginia Giuffre, advogada estadunidense e sobrevivente, falecida em 2025, descreveu como Ghislaine convencia meninas a irem até a casa de Epstein em Palm Beach: “ Ghislaine Maxwell se aproximou de mim na área do spa. Ela me disse: ‘Você está lendo um livro sobre massoterapia?’ e começamos a conversar. Então, ela disse: ‘Sabe de uma coisa? Eu conheço um homem que pode lhe oferecer uma oportunidade, caso queira se tornar uma massoterapeuta de verdade. Podemos treiná-la e você pode ir a uma entrevista hoje à noite. Se ele (Epstein) gostar de você, você será uma massagista de verdade. Conhecerá o mundo e ganhará 200 dólares. ”  O relato da brasileira Marina Lacerda, outra sobrevivente, guarda muitas semelhanças com o de Virginia Giuffre. Marina contou que começou a frequentar a casa de Epstein aos 14 anos e, ao completar 16, ouviu dele que já era “velha demais”. Marina Lacerda, brasileira sobrevivente do Caso Epstein e que foi aliciada aos 14 anos por uma amiga (Reprodução: GMA) As investigações revelaram que o atual presidente norte-americano, Donald Trump, aparece milhares de vezes nos arquivos relacionados a Jeffrey Epstein. Esse fato intensificou a pressão popular nos Estados Unidos para que os documentos sejam divulgados integralmente. Muitos deles, no entanto, foram publicados com tarjas pretas, ocultando nomes e imagens de sobreviventes. Para parte da opinião pública, essa prática estaria, na verdade, protegendo Trump e outras pessoas envolvidas no esquema criminoso de Epstein. Da esquerda para a direita: Donald Trump, Melania Trump, Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. Foto: Getty Images Alguns nomes citados nos arquivos de Jeffrey Epstein já estão sendo chamados a responder, entre eles o ex-príncipe Andrew. Por muitos anos, Andrew contou com a proteção de sua mãe, a Rainha Elizabeth II. Hoje, porém, enfrenta um cenário bem diferente em um Reino Unido sob a liderança de seu irmão, o Rei Charles III. Na foto da esquerda para direita; Ex-príncipe Andrew, Virginia Giuffre e Ghislaine Maxwell. Reprodução Além de Donald Trump e Andrew, outros nomes que aparecem nos arquivos de Jeffrey Epstein incluem figuras de grande destaque internacional, como Elon Musk, Bill Gates, Sarah Ferguson, Richard Branson, Steve Bannon, Miroslav Lajčák, Lord Mandelson, a princesa Sofia da Suécia e Ehud Barak. Os crimes de Epstein e da rede de poderosos que o cercava escancaram uma verdade incômoda: o tráfico humano e a exploração sexual de menores não são realidades distantes , mas problemas que se perpetuam diante dos nossos olhos. Eles revelam como a influência e o dinheiro podem comprar silêncio, abafando denúncias e manipulando narrativas pelo medo e pelo poder, não apenas entre autoridades, mas também em veículos de mídia que, escolheram ignorar as vozes das sobreviventes. Resta esperar que a verdade não seja sufocada e que a justiça finalmente alcance aqueles que acreditavam estar acima dela. O tráfico de pessoas é um crime silencioso que destrói vidas todos os dias. Se você souber ou suspeitar que alguém esteja sendo vítima, não se cale. Denuncie: ligue para o Disque 100 e registre sua denúncia. Texto escrito por Katiane Bispo , é feminista, formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Já atuou em inúmeros projetos de defesa aos Direitos Humanos, Gênero e Educação. Uma curiosa por essência e teimosa por sobrevivência. É podcaster no programa "O Historiante", colunista no Portal Águia.  Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Referências https://news.un.org/en/story/2026/02/1166980#:~:text=By%20Vibhu%20Mishra,Crimes%20against%20humanity%20threshold  – [Relatório ONU]  https://www.youtube.com/watch?v=7j1xEv8ZXFU  – [Relato Virginia Giuffre] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/princesa-sofia-da-suecia-e-citada-nos-documentos-do-caso-epstein/  -  [Envolvimento Princesa Sofia]  https://www.metropoles.com/mundo/ex-principe-e-ex-duque-saiba-quem-e-andrew-preso-nesta-5a  -  [Envolvimento Andrew] https://www.unodc.org/documents/congress/background-information/Human_Trafficking/TIP_Manual_es_module_01.pdf  - [Manual de Combate ao Tráfico de Pessoas] https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/historia-hoje/segundo-arquivos-epstein-cultivava-droga-zumbi-que-anula-vontade-propria.phtml  - [Arquivos Caso Epstein]

  • O Governo Bukele: a política de El Salvador pelos olhos de uma cidadã

    Vista aérea da Catedral Metropolitana, no centro histórico de San Salvador. Fonte: Barcelo.com Nayib Bukele, publicitário e presidente de El Salvador desde 2019, iniciou seu mandato com uma postura mais descontraída, chegando a se autointitular nas redes sociais como um “ditador cool”. Com o tempo, porém, o próprio estadista foi abandonando esse rótulo, primeiro em suas mídias e, posteriormente em seu governo. O atual presidente salvadorenho é acusado por diversas entidades de direitos humanos de cometer excessos e aplicar retaliações desnecessárias em seu governo. Desde o início de sua campanha em 2019, Bukele prometeu acabar com a criminalidade que colocava o país entre os mais perigosos do mundo. Apesar de seu território reduzido, El Salvador é conhecido pelo apelido de “ El pulgarcito de América ”, que em tradução literal para português significa “O polegarzinho da América”. Bukele assume segundo mandato em El Salvador. Fonte: DW.com Para cumprir suas promessas de combate à violência, Bukele mobilizou o exército nas ruas, iniciando uma ampla perseguição aos chamados “delinquentes". Em seguida, mandou construir uma das maiores prisões de segurança máxima do mundo: o CECOT (Centro de Confinamento do Terrorismo). Após a construção do cárcere, o jovem presidente colocou em prática seu plano de “acabar com o terrorismo” no país. No entanto, suas medidas foram além do esperado: desde ex-integrantes de gangues até jornalistas que investigavam a atuação policial dentro do CECOT, milhares de pessoas foram enviadas para essa prisão.  Essas medidas não se restringem a criminosos ou a indivíduos que buscam verificar informações sobre a prisão. As ações de Bukele já atingem a população em seu cotidiano, que se vê pressionada e cerceada pelo exercício de um poder desmedido e pouco democrático nas ruas desse pequeno país da América Central, hoje amplamente observado pela sociedade internacional. Detentos na megaprisão Cecot, em Tecoluca, El Salvador, em 24 de fevereiro de 2023. Fonte: CNN en español Relatos de uma salvadorenha Vivendo há 16 anos na Costa Rica, Jessica* deixou El Salvador devido a insegurança, após sua família sofrer pressão constante das gangues locais. Esses grupos tentavam extorqui-los, exigindo uma taxa semanal para “proteger” o negócio familiar. Sua mãe é dona de casa e seu pai, engenheiro agrônomo, e migraram para a Costa Rica na condição de investidores**. Jessica se define como apolítica, não se posicionando nem a favor nem contra o Bukele. Ainda assim, ressalta que os aspectos negativos de seu governo têm impacto profundo sobre a população. “A César o que é de César: ele fez um trabalho muito bom em relação à segurança e às gangues, que sempre aterrorizaram o país. Criou um presídio autossustentável, e esse é o lado positivo. Mas a segurança é relativa, pois a cada 100 metros há um agente do governo armado. Em determinadas áreas há mais sensação de proteção do que em outros bairros, mas existem regiões muito pobres onde as gangues predominam. É preciso andar com muito cuidado”, afirma a salvadorenha. Protestos contra Bukele em El Salvador. Fonte: BBC News Mundo Quando se trata do “regime de exceção” instaurado por Bukele, percebe-se que já não se configura como uma exceção, dado o longo período em que vem sendo aplicado. Segundo Jessica, durante a implementação desse regime os policiais tinham uma cota diária de prisões a cumprir. “Há muitas pessoas que estão na prisão por delitos menores ou, em muitos casos, sem terem cometido qualquer delito.” Embora seja totalmente contrária às “ maras ”, como são chamadas as gangues em El Salvador, ela ressalta que há inúmeros inocentes encarcerados. “Não se pode criticar o governo ou o presidente em espaços públicos, pois Bukele é considerado intocável. Há relatos de telefones grampeados para verificar se cidadãos estão falando contra o governo ou conspirando. ‘Ou seja, nenhum cidadão tem mais direitos, é como uma espécie de “santa ordem”: tudo o que Bukele diz torna-se lei, independentemente se é algo absurdo ou não. Os salvadorenhos perderam sua liberdade. O governo pode fazer o que quiser com a população, sem ser questionado’, afirma a mulher, visivelmente preocupada. Ele governa sob um regime de mãos de ferro. Há claros exemplos de exilados políticos: o jornal chamado “ El Faro ”, por exemplo, transferiu suas operações para a Costa Rica após ser expulso do país pelo presidente. A popularidade de Bukele é vista como algo muito perigoso. Jessica afirma que não pretende voltar a viver em El Salvador. No nível econômico, o país enfrenta uma dívida que compromete gerações futuras. Segundo ela, grande parte da população sobrevive com menos do que o mínimo necessário, sem recursos básicos e, muitas vezes, sem dinheiro sequer para a alimentação. O jovem presidente divulga constantemente investimentos em infraestrutura,  mas tais iniciativas têm gerado dívidas e empréstimos internacionais. ‘Ele é muito corrupto, pois até hoje ninguém sabe o que aconteceu com os bitcoins*** que o país investiu há alguns anos. Ninguém presta contas desse dinheiro. Há gastos excessivos para manter militares e policiais, além de uma segurança ostensiva para o presidente: foram adquiridos 12 caminhões, dois helicópteros, avionetas, e há sempre pessoas armadas ao seu redor. A cada 100 metros, esquinas são “blindadas” por soldados que o protegem. É um gasto terrível’, afirma Jessica. Imagem: transeuntes na rua com militares. - Fonte: Red PAT O turismo vem crescendo, o que representa um ponto positivo para o país. No entanto, o custo de vida também tem aumentado significativamente: aluguel e aquisição de imóveis tornaram-se praticamente inacessíveis, dificultando a sobrevivência dos salvadorenhos diante da enorme discrepância entre salários e despesas cotidianas. Um ponto curioso é o chamado investimento estrangeiro, frequentemente destacado pelo presidente como resultado da segurança que afirma ter proporcionado ao país. Na prática, porém, grande parte desse capital não é verdadeiramente externo: trata-se de salvadorenhos que emigraram e agora retornam trazendo recursos obtidos no exterior. Nayib Bukele concentra poder absoluto, contando com o apoio dos deputados para aprovar leis conforme seus interesses. Recentemente, militarizou a área da educação ao nomear uma oficial das forças armadas para o Ministério da Educação.  Para Jessica, em comparação com a Venezuela, a situação em El Salvador ainda não chegou ao mesmo nível de gravidade. ‘Bukele está apenas tapando o sol com a peneira, investindo em estádios e recorrendo a empréstimos, práticas que revelam um cenário de corrupção semelhante ao do vizinho sul-americano (que foi sitiado por Donald Trump). Inclusive, houve uma caso em que um integrante do governo foi flagrado transportando drogas, mas nada aconteceu, porque fazia parte da administração e o assunto foi abafado’ relata, inconformada. A família do presidente também ocupa cargos no governo, evidenciando práticas de nepotismo. Um de seus familiares, por exemplo, está à frente do Ministério do Esporte. ‘Estão construindo um estádio em parceria com a China. A família já era milionária, pois seus avós vieram de Belém e da Palestina e seu pai nasceu em El Salvador, mas não a ponto de possuir a fortuna que ostentam atualmente’, relata Jessica.   “Não é permitido realizar sequer uma marcha pacífica contra o governo. Recentemente, circulou a notícia de que um soldado teria disparado contra uma jovem em um local bastante movimentado, resultando em sua morte. Em vez de responsabilizar o autor do disparo, a polícia prendeu duas pessoas aleatórias e as expôs na capa dos jornais, enquanto o governo abafou o caso.” “No ano passado, estive em El Salvador com minha família e decidimos visitar uma estrada que havia sido recentemente pavimentada. Ao chegarmos, percebemos que apenas um trecho havia recebido obras. No entanto, nas notícias, divulgava-se como se a estrada tivesse sido concluída, apresentada como uma grande obra. Fotos desse pequeno trecho foram veiculadas em rede nacional e internacional, para reforçar a imagem de que o governo estaria investindo fortemente no país.” O mesmo ocorre com uma praia no oriente do país: notícias e propagandas são veiculadas em rede nacional como se tudo se tratasse de uma grande obra. Ao visitar o local, Jessica e sua família constataram que, mais uma vez, tratava-se de um pequeno trecho de estrada, sem relação com o que havia sido divulgado. A impressão transmitida era a de uma grande via central que conectaria San Salvador ao ocidente do país, mas tudo não passava de exagero.  Jessica questiona os rumos do país: ‘Há uma enorme perda econômica e, além disso, a prisão de tantas pessoas, muitos delas inocentes, é um excesso. Onde está esse dinheiro?’ indaga, demonstrando indignação. “Jessica observa que o país apresenta algumas melhorias em infraestrutura, ainda que sem investimento estrangeiro direto. No entanto, a população enfrenta dificuldades para arcar com necessidades básicas, já que o preço da cesta básica aumentou consideravelmente, enquanto o governo continua a endividar o país. Ela ressalta que Bukele detém controle absoluto sobre todas as instâncias de poder. Embora não tenha atacado a população de forma direta, suas ações têm impacto indireto: enviou soldados para dentro da Assembleia Legislativa, alterou a Constituição e abriu caminho para reeleições indefinidas do mesmo presidente.”  A família de Jessica mudou-se para a zona central, forçada pelas constantes coerções de membros de gangues. Hoje vivem em uma área zona mais tranquila, marcada pela presença de diversas embaixadas. Jessica e seus irmãos estabeleceram-se na Costa Rica, enquanto o restante da família permanece em El Salvador. Jessica relembra uma história dolorosa de sua infância: em sua casa havia uma parede falsa em um dos quartos, criada como rota de fuga caso precisassem escapar dos membros das gangues. A família mantinha cachorros do lado de fora para proteger o lar e oferecer alguma segurança. 'Os pandilleros (membros das maras ou pandillas) não enfrentavam as pessoas de forma justa; sempre apareciam em grupos de 20 ou 30 homens para ameaçar um único indivíduo', relata. O latido dos cães era sinal de alerta constante, e a família vivia em permanente tensão, sem conseguir dormir tranquilamente, temendo que a casa fosse tomada pelas gangues. Em setembro de 2025, Bukele celebrou o marco de “1000 dias sem homicídio”. Contudo, Jessica ressalta que esse dado é bastante relativo, pois há homicídios que não são reportados pela imprensa, o que coloca em dúvida a veracidade da estatística oficial. Um país sem conclusão Embora a violência das gangues tenha diminuído no país, ainda há muito a ser feito para que a população se sinta verdadeiramente segura. Um ‘regime de exceção’, marcado pela presença de militares truculentos e armados nas ruas, restringindo a liberdade do povo, dificilmente pode gerar efeitos positivos duradouros. É, sem dúvida, necessário afastar os membros das gangues para que as pessoas possam viver em paz. No entanto, substituir a coerção das pandillas  pela coerção militar não representa uma solução real para o país. Apesar de ser um país pequeno na América Central, El Salvador vem atraindo atenção internacional. O atual presidente tem conquistado admiradores de peso, entre eles a presidente da Costa Rica, Laura Fernández, e Donald Trump. Mesmo em meio ao caos, o povo salvadorenho persiste na luta por sua liberdade de existir e viver dignamente no ‘polegarzinho da América’. *Jessica é um nome fictício. A entrevistada teve sua identidade alterada por questões de segurança. **Ao entrar no país como investidores, sua família obteve um visto distinto daquele concedido a refugiados. O visto de investidor garante liberdade de entrada e saída do país a qualquer momento; já o visto de refugiado impõe restrições severas, impedindo a saída do país por até dez anos. ***Desde 2019, El Salvador ganhou notoriedade por seus investimentos em bitcoin. Um exemplo é a Praia de El Zonte, conhecida como Bitcoin Beach, onde foi realizado um experimento de economia circular com a criptomoeda, impulsionando o turismo e consolidando o bitcoin como moeda legal. Texto escrito por  Caroline Prado Brasileira vivendo na Costa Rica, apaixonada por cachorros, plantas e fontes confiáveis. É internacionalista, tradutora e filóloga. Professora de Português como Língua Estrangeira (PLE) e História Contemporânea além de Filóloga especialista em Línguas Latinas. Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Referências https://g1.globo.com/noticia/2025/11/21/o-regime-precisava-cala-la-a-denuncia-contra-bukele-do-marido-de-advogada-detida-ha-meses-em-el-salvador.ghtml https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/08/01/nao-me-importo-que-me-chamem-de-ditador-bukele-o-rei-filosofo-que-pode-governar-por-muito-tempo-el-salvador.ghtml https://cnnespanol.cnn.com/2025/09/03/latinoamerica/bukele-seguridad-salvador-denuncias-abusos-orix

  • Por que mulheres não podem ter hobbies?

    IMAGEM: Alice Trindade Hobby , substantivo masculino derivado do inglês, é definido como um passatempo, uma atividade realizada para distração ou prazer. Para alguns homens, pode ser o futebol aos fins de semana ou a tradicional partida de sinuca com os amigos na sexta-feira após o expediente. Já para muitas mulheres, o hobby ainda se apresenta como um luxo distante:  grande parte de seu tempo é absorvida pelo trabalho remunerado e pelas responsabilidades domésticas , o que limita a possibilidade de dedicar-se a atividades de lazer. Dados do IBGE revelaram que mulheres dedicam, em média, 9,6 horas a mais por semana aos afazeres domésticos e familiares em comparação aos homens . Essa sobrecarga é resultado de uma construção social que  historicamente atribuiu às mulheres a responsabilidade pelo cuidado da casa e dos filhos, mesmo quando elas também estão inseridas no mercado de trabalho. Além disso, vale ressaltar que a falta de tempo para o lazer pode ter grande impacto sobre a saúde mental da mulher. O hobby, associado ao descanso e à distração, acaba sendo substituído por jornadas longas e contínuas de trabalho, o que contribui para o aumento do estresse, da ansiedade e da sensação de esgotamento. Dessa forma, enquanto o lazer e o fanatismo masculino são naturalizados em nossa sociedade, do futebol com os amigos aos jogos de videogame, o tempo livre e o direito de ser fã das mulheres são frequentemente questionados ou interrompidos. O corpo feminino e o controle social Crescemos ouvindo qual é o papel da mulher e do homem dentro de casa. Por uma suposta “ordem natural”, as funções de cuidadora e de provedor são bem estabelecidas, o que evidencia que essa construção social de longa data se sustenta principalmente pela naturalização dos papéis de gênero. Nesse sentido, essa ideologia influencia diretamente a forma como as atividades sociais são divididas. Como consequência, praticar hobbies, algo que deveria ser uma livre escolha, transforma-se em uma prática social estruturada para a manutenção da dominação masculina. Assim, quando uma mulher procura romper com esse padrão, acaba tornando-se alvo de hostilização, especialmente em práticas de lazer tradicionalmente associadas ao público masculino. Outro ponto importante é a constante desvalorização do saber feminino, presente em comentários como: “Você gosta de futebol? Então me diz o que é impedimento” ou “ Se você realmente acompanha Fórmula 1, me explica como funciona o DRS” . Além disso, há as frequentes piadas sobre hobbies tipicamente femininos: “Crochê é coisa de velha”, “Você cozinha muito, já dá para casar” ou “Larga de acompanhar grupos coreanos e faz algo de útil” . Independentemente do que a mulher escolha fazer, sempre haverá questionamentos e críticas. Isso evidencia que o problema não está no hobby em si, mas na busca constante pelo controle dos corpos e interesses femininos. Ao limitar o direito das mulheres a experiências e momentos de lazer, reforça-se uma lógica que as subordina à utilidade e à aprovação social.  Dessa forma, romper com esse ciclo passa pelo entendimento de que hobbies não definem valor ou competência, mas sim representam formas de expressão, autonomia e cuidado. Foto: Reprodução / Internet Quem tem o direito de ser fã? Nem todo hobby se transforma em fanatismo, mas todo fã nasce de um interesse que começou pequeno. Enquanto o fanatismo masculino, sobretudo no esporte, foi historicamente legitimado como paixão e tradição, no caso das mulheres não bastam os questionamentos: surge também a cobrança pela perfeição, em que até o lazer ou a admiração exigem maestria.  Não basta gostar de fotografia: é preciso ter o melhor equipamento. Não basta pintar: é preciso produzir com afinco. Não basta produzir conteúdo nas redes sociais: é preciso conquistar muitos seguidores e viralizar. A situação se torna ainda pior quando o gosto está ligado à cultura pop, um território que, por muito tempo, foi tratado como  “coisa de mulher” e, por isso, automaticamente desvalorizado. A intensidade e a admiração das mulheres sempre foram reduzidas a exagero, imaturidade ou superficialidade ao longo da história. Como se sua forma de sentir precisasse ser explicada, controlada ou diminuída. No entanto, a ideia do hobby nasce justamente da necessidade de uma pausa na rotina: realizar algo sem pensar em desempenho, reconhecimento ou lucro. E, na prática, a realidade é completamente diferente. Um exemplo disso é que, historicamente associado ao público masculino, ano após ano as modalidades esportivas ganham cada vez mais mulheres como fãs. De acordo com o estudo da Collective, empresa de consultoria feminina em esportes e entretenimento, 72% das mulheres se declaram fanáticas por uma ou mais modalidades.  Elas acompanham de perto campeonatos, consomem conteúdos, participam de torcidas organizadas e constroem novas formas de se relacionar com esportes que antes pareciam distantes, tornando a experiência de torcer mais inclusiva e comunitária.  Esse movimento também redefine a forma como as atletas recebem visibilidade e reconhecimento. O engajamento feminino passa a impulsionar a audiência, os patrocínios e o debate público sobre equidade no esporte, transformando jogadoras em referências culturais e atribuindo real valor às suas trajetórias, identidades e narrativas dentro e fora das competições. Esse protagonismo também se fortaleceu nos anos 2000, com o surgimento dos fandoms de divas pop, séries de TV e reality shows, das plataformas de fanfics e das torcidas esportivas de jogos online. Segundo pesquisa da Monks, em parceria com a Floatvibes, o perfil do fã brasileiro é majoritariamente composto por mulheres entre 25 e 35 anos , o que comprova que a base dessas comunidades passa, em grande parte, pelas mãos delas. É justamente nesses espaços que milhões de mulheres constroem identidade, linguagem própria e presença cultural. São elas que movimentam, impulsionam e transformam entretenimento em experiência coletiva. Aquilo que por tanto tempo foi reduzido à “coisa de mulher” é, na prática, um dos motores mais potentes da cultura contemporânea. Texto escrito por Alice Trindade e Jeane Queiroz Alice é graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Jeane é jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Referências https://jornal.usp.br/atualidades/mulheres-dedicam-em-media-96-horas-a-mais-do-que-os-homens-as-tarefas-domesticas/ https://www.eufemea.com/2025/03/mulheres-relatam-dificuldades-para-manter-hobbies-em-meio-a-rotina/ https://brazoalimentos.com.br/voce-tem-um-hobby-ou-anda-esquecendo-de-si-por-que-as-mulheres-tem-cada-vez-menos-tempo-livre/ https://vogue.globo.com/vogue-negocios/noticia/2025/05/o-hobby-sem-funcao-o-que-as-mulheres-estao-perdendo-ao-unir-o-util-ao-agradavel-o-tempo-todo.ghtml https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/24616/1/Influ%c3%aanciaG%c3%aaneroLazer.pdf https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2024/10/24/fa-brasileiro-gasta-r-200-por-mes-para-alimentar-relacao-com-os-idolos-veja-raio-x-dos-fandoms.ghtml https://maquinadoesporte.com.br/mercado/pesquisa-mostra-que-72-das-mulheres-sao-fanaticas-por-um-ou-mais-esportes/?utm_source=chatgpt.com

  • Golpe do Amor: Um negócio altamente lucrativo

    Quem nunca se imaginou como protagonista de uma história de amor com a possibilidade de realizar seu “felizes para sempre” nunca saberá do efeito devastador de sonhar com a realização do amor romântico que nos foi vendido durante toda a nossa vida e ter esse sonho destruído. Os relacionamentos virtuais e a busca do amor romântico O amor romântico, de modo simples, parte do princípio de que o parceiro deve ter características que julgamos perfeitas para nós, e essas expectativas são projetadas na medida que um vínculo se inicia. De acordo com a filosofia sartreana, podemos caracterizar os relacionamentos de modo sádico ou masoquista. O sadismo, parte do pressuposto de que exigimos o adequamento aos nossos ideais de amor, já no masoquismo tentamos nos adequar ao ideal do outro (eu-objeto). Inúmeras canções, filmes, séries, livros e novelas que caem no gosto popular partem desta mesma premissa, o reforço do ideal no amor romântico e que dele pode (e até deve) resultar no sofrimento antes de alcançar o êxito. Uma das canções de maior sucesso nos anos noventa e que relata bem essa dualidade do amor romântico e suas nuances de dor e sofrimento é a do cantor espanhol Alejandro Sanz, chamada “ Y, ¿si fuera ella?”. Na canção, é possível notar a busca pelo amor e a expectativa de encontrar o seu par perfeito, o ideal de amor romântico trazido por Sartre: Ela acaricia e envolve minha alma Eu digo... vem comigo! Minha rival, minha companheira Ela é assim Mas me custa, quando outro adeus se aproxima E a perderei de novo e outra vez perguntarei Enquanto Ela se vai, e não existirá resposta E, se Essa que se afasta A que estou perdendo E se era Ela? E se for Ela? Nesta canção, Sanz narra a busca de uma mulher que ele acredita ser a ideal para ele, o seu amor perfeito, a quem chama de “Ela”. Por isso, o título da canção reforça essa busca “E se for ela?, busca que lhe causa sofrimento constante e a cada relacionamento se vê na expectativa de encontrá-la em suas parceiras. É perceptível notar sua angústia que aquela atual parceira possa ser sua amada ideal. “Ela” é o seu objetivo final, a qual acredita ser o seu “par perfeito”, a que tanto tempo ele buscou (e segue buscando). As nuances do amor romântico são detalhadas em momentos de extrema confusão, em que Sanz narra as fases dos relacionamentos por ele vivido, quando ele se vê certo de que aquela parceira não é “Ela”, o seu amor perfeito, mas sofre por não ter certeza daquilo, e se pergunta: “e se for Ela?”. Também temos canções brasileiras que narram essa busca de amor ideal, um dos exemplos de maior sucesso foi a canção do cantor Roberto Carlos, “Esse Cara sou eu” . A letra da canção relata o comportamento de um homem que está o tempo inteiro à disposição da sua amada e que para isso não mede esforços para que ela se sinta, ao seu ver, “querida” e “cuidada”: O cara que pensa em você toda hora Que conta os segundos se você demora Que está todo o tempo querendo te ver Porque já não sabe ficar sem você E no meio da noite te chama Pra dizer que te ama Esse cara sou eu A letra apresenta uma série de comportamentos alarmantes, mas caiu no gosto popular e não foram poucas as mulheres que afirmavam naquela época que gostariam de um amante tal como “esse cara” , o que nos mostra o quanto o amor romântico é socialmente arraigado. Mas “esse ideal irrealizável não é assimilável ao amor, na medida em que o amor é um empreendimento, ou seja, um conjunto orgânico de projetos rumo às minhas possibilidades próprias”, já nos alertava Sartre. A partir disso, desdobra-se outra faceta do amor romântico: o esforço para que esse amor sobreviva, pois é necessário que ele seja fruto de uma eterna luta em meio a uma constante adequação de expectativas e comportamento. O autor Robert Johnson, manifesta seu ceticismo quanto à idealização do amor romântico e afirma que essa busca é um dos males da era moderna. Para ele, o amor deve ser resgatado do que chamou de “pântanos do romantismo" e que, se nos basearmos apenas nesse ideal romântico pagaremos um preço alto, à medida que nos traria ainda mais dor, não felicidade e alegria, como reforçado popularmente. Por isso, declara que “o amor humano está tão distorcido pelos excessos e pelas perturbações oriundas do romantismo, que quase nunca procuramos o amor pelo amor, e mal sabemos o que procurar quando o buscamos." Apps de relacionamento e a busca do “amor ideal” É justamente a busca desse ideal de amor romântico que leva milhares de pessoas de todo o mundo a se aventurarem no mundo virtual em busca do seu amor perfeito. Com a crescente - e inevitável - informatização, as opções de flertes e manutenção de relacionamentos à distância ganham cada vez mais adeptos. Estão disponíveis inúmeras alternativas para encolher a distância e facilitar essa interação, que vão desde sites de bate-papo virtual a aplicativos de relacionamentos, que podem ser baixados a qualquer momento por aparelhos Android ou IOS, basta apenas ter acesso à internet e tudo se torna possível, e em qualquer lugar do planeta. Todas essas alternativas têm a mesma promessa: conectar você com seu amor. O Tinder, um dos aplicativos mais baixados na loja virtual do Google Play incentiva essa busca com a frase “ Dê um match'. Converse. Encontre ”, já o aplicativo Amor Perfeito vai ainda mais longe com “ Amor Perfeito. Já achou o seu? ”. As narrativas são amplamente reforçadas com as inúmeras histórias de amor que se iniciaram de modo virtual, o que acabou tornando-se um ideal a ser alcançado, todas essas histórias com enredos românticos e com grande apelo emocional. A busca pelo “amor perfeito” envolve uma série de etapas para aqueles que o buscam, que vão de incontáveis horas de conversa por aplicativos de mensagens instantâneas por várias horas ao dia, chamadas de vídeo e até mesmo o envio de fotos com a exposição de partes íntimas, popularmente chamados de nudes . Tudo isso para dar um melhor panorama ao potencial parceiro, de modo que ele possa fazer uma prévia seleção, classificação e qualificação desse flerte virtual, que pode ou não corresponder ao seu ideal de amor perfeito. Somadas a todas essas expectativas de enquadramento e seleção, em um primeiro momento, há um grande motivo de euforia pois existe a chance, mesmo que pequena, daquele “amor perfeito” se tornar algo real. Naquele momento, existe a chance de que os sonhos de uma vida com o amor possível e tão sonhado possam se tornar realidade, e “ quisera as estrelas ” que seja a última vez nessa incessante busca, e que enfim consiga encontrá-lo justificando a sua trajetória em busca do amor ideal. O amor romântico é um ideal reforçado , e alimenta o imaginário popular de muitas formas. Por isso a busca de relacionamento à distância têm se tornado uma boa alternativa, mas diferente do encontro presencial, os aplicativos de relacionamento, em sua face mais sombria podem facilitar tanto a ocultação de informações quanto a criação de perfis falsos para enganar pessoas, o que presencialmente torna-se mais difícil devido a comunicação não-verbal. Essa tem sido uma das armas mais usadas tanto por inúmeros golpistas que agem de modo isolado, conseguindo subtrair de suas vítimas quantias variadas, até o crime organizado que se aproveita da tecnologia para aplicar diversos golpes ou facilitar o tráfico de mulheres para fins de casamento forçado, de exploração sexual ou mesmo trabalho forçado. O Golpista do Tinder: o estelionato sentimental A série “O Golpista do Tinder” , disponível no catálogo da Netflix, chama a atenção não apenas pelo modus operandis de Shimon Hayut, o golpista mencionado no título, mas também pelo roteiro de amor romântico elaborado por ele para manter suas vítimas cativas e apaixonadas. Hayut encantava suas vítimas com uma narrativas comoventes e emocionantes que envolviam diamantes, máfia russa e até perseguição realizada pelos seus oponentes, quando a realidade era uma vida luxuosa, extravagante, que ia desde roupas de grifes, carros de luxo e baladas da high society em diversos países pelo mundo. A busca do par perfeito pode se tornar um pesadelo quando as expectativas de viver esse amor ideal se descobre baseado em uma rede de mentiras e manipulações, e aquele que outrora era a personificação do “amor perfeito” descortina-se como o autor de uma estratégia para obter benefícios, sejam eles de ordem material ou mesmo emocional, os chamados catfish. O nome catfish , é utilizado quando um perfil falso é criado na internet com a intenção de enganar alguém. O documentário sobre os golpes realizados por Shimon Hayut faz uma alerta de como os aplicativos de relacionamentos podem ser uma grande arma para ação de golpistas nos chamados “estelionatos sentimentais” , ou “Golpe do Amor”, caracterizado quando a vítima é induzida pelo golpista a acreditar que está em um relacionamento, mas é lesada financeiramente. Engana-se quem acredita que estes casos só acontecem em locais distantes. Na última semana (25), foi preso no Rio de Janeiro, Luiz Antonio Pereira, 58 anos, conhecido como “Golpista do Tinder do RJ”, que estava foragido há um mês e foi detido por agentes da Delegacia da Mulher (DEAM) de Jacarepaguá/RJ por aplicar o “Golpe do Amor” em cerca de 5 mulheres, segundo as investigações. O sentimento mais comum das vítimas nestes casos é de vergonha ao se reconhecerem em uma situação de exploração. A recorrente culpabilização feita pela sociedade quando ousam expor o ocorrido é uma inversão de papéis de modo cruel e que desnuda a sociedade das “oportunidades”. Não é de se estranhar que Shimon Hayut tenha uma grande quantidade de seguidores ainda hoje - homens em sua maioria esmagadora - mesmo depois de ter seu rosto estampado em jornais de todo o mundo e dos relatos do sofrimento trazido por ele às suas vítimas. Todas as vítimas possuem em comum fragilidades que são exploradas pelos golpistas. Segundo a psicóloga Luciana Zanette: “a vida emocional de um indivíduo tem a sua base na infância, através das relações que manteve com seus pais e outros membros significativos da família, portanto, o contexto familiar impacta no bem-estar biopsicológico de uma pessoa, então seja por ter vindo de uma família abusiva ou carente, seja por ter sofrido algum tipo de trauma, negligência, abusos ou por uma combinação destes fatores muitos indivíduos desenvolvem baixa autoestima e baixa autoconfiança, o que seria um facilitador para a aproximação (dos golpistas)” Luciana continua: “durante o período de sedução, o perpetrador se comporta como uma figura paterna ou uma materna, oferecendo suporte e atenção que geram na vítima uma sensação de segurança, assim elas se sentem protegidas, e confiam cada vez mais no suposto namorado”. A idealização do amor pode levar pessoas a se aventurarem em relacionamentos falidos e por vezes muito perigosos que podem lhes custar não apenas sua integridade física como também fragilizar ainda mais sua saúde mental. O amor romântico pode estar facilitando ainda mais a vida destes golpistas e fazendo dele seu melhor negócio, um negócio muito lucrativo e que ainda não tem ganhado da sociedade a atenção devida. Texto escrito por Katiane Bispo Formada em Relações Internacionais e tem especialização em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster do “O Historiante”, colunista do “Zero Águia” e integrante do Projeto Líbertas onde trabalha com Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Golpista do Tinder RJ: ‘Golpista do Tinder do RJ’ é preso acusado de estelionato (msn.com) – acessado em 30 mai.2022 Amor Romântico ] : https://revistas.unipar.br/index.php/akropolis/article/viewFile/5210/3014 - acessado em 02 set. 2020. Documentário Golpista do Tinder – Netflix - assistido em 18 fev.2022 SARTRE, J. P. O ser e o nada : Ensaio de Ontologia Fenomenológica. 20. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2011. Psicóloga consultada Luciana Zanete - @luciana_zanette_psicologa

  • O preço do acesso: por que o modo premium virou o padrão da desigualdade digital

    ilustração:  gerada via ChatGPT  Nos últimos cinco anos, parece que tudo ganhou uma versão Pro. O que antes era apenas um simples botão de “entrar” agora se apresenta como a opção de “entrar melhor”. Plataformas, aplicativos e até redes sociais passaram a dividir o mundo entre quem pode pagar pela experiência completa e quem precisa se conformar com uma versão limitada, repleta de anúncios, restrições e lentidão. O “modo premium” tornou-se o novo padrão da desigualdade digital. Uma prática aparentemente simples, mas profundamente perversa : empresas oferecem versões gratuitas com o objetivo de manter o usuário preso ao ecossistema, mas limitadas o suficiente para gerar frustração. A cada clique, a cada espera, o sistema sussurra: “sua vida poderia ser melhor, se você pagasse por isso.”  O que antes era gratuito transformou-se em privilégio. O que era básico, converteu-se em luxo. O modelo de negócios da chamada “ economia das assinaturas”  vem crescendo a taxas de dois dígitos ao ano, de acordo com o Zuora Subscription Economy Index (SEI) . O relatório é elaborado pela empresa norte-americana Zuora , fundada em 2007 no Vale do Silício e, desde 2016, especializada em plataformas de gestão de assinaturas, faturamento recorrente e monetização digital.  É o sonho de qualquer investidor:  receita previsível, uma base de clientes cativa e um consumo contínuo que parece nunca ter fim. Do ponto de vista social, porém, o resultado é inquietante. O acesso ao digital, que deveria funcionar como espaço de democratização, passou a reproduzir a velha lógica das classes sociais, agora transposta para dentro das telas. Basta observar o impacto dos preços. Nos Estados Unidos, uma assinatura de US$10  corresponde a cerca de 0,4% da renda média mensal . No Brasil, o mesmo valor ultrapassa 1,5% . Em outras palavras: aqui, ser premium  significa pagar caro por um conforto que, lá fora, é considerado básico. Paralelamente, serviços como Netflix , Spotify , Canva  e até plataformas mais recentes, como o ChatGPT , vem reajustando seus valores muito acima da inflação, em um país onde a renda média é de R$2.979 , segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Esse fenômeno vai além da economia, infiltrando-se na cultura e na psique coletiva . Ter o plano Pro  tornou-se sinal de status, eficiência e produtividade, uma forma contemporânea de distinção social. Quem paga sente-se mais “profissional”, “eficiente”, “evoluído”. É o que o filósofo Byung-Chul Han denomina “sociedade do desempenho”: um contexto em que todos precisam investir continuamente em si mesmos, até nas ferramentas que utilizam. O consumo passou a definir quem somos, enquanto o não consumo é interpretado como falha, atraso ou exclusão. O capitalismo digital descobriu como vender escassez.  As empresas erguem barreiras artificiais, limitações de exportações, marcas d’água e anúncios invasivos, para reforçar a ideia de que a versão gratuita é insuficiente. Dessa forma, o “upgrade” deixa de ser uma escolha e se transforma em uma coerção disfarçada.  E, inevitavelmente, quem não pode pagar é empurrado para a periferia da experiência: uma internet mais lenta, mais ruidosa, mais precária. O “modo premium” é, no fundo, o reflexo de um sistema que transformou o básico em exceção.  Se antes a promessa da tecnologia era aproximar, hoje ela distancia: fragmenta a internet em castas e converte o acesso em privilégios. O problema não está em desejar uma experiência melhor, mas no fato de que o simples direito de existir plenamente no ambiente digital passou a depender do saldo da conta bancária. texto escrito por Filipi Costa Filipi Costa é jornalista formado pela Universidade Paulista e atua na área da comunicação há cinco anos. Possui formação técnica em Processos Fotográficos e é pós-graduado em Roteiro Audiovisual pelo Senac. Pesquisa temas sociais, culturais e ambientais por meio do jornalismo e da documentação audiovisual. Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes

  • Por que a Geração Z rejeita o modelo tradicional de trabalho

    Esse grupo já ocupa espaço nas corporações, mas ainda enfrenta resistência e choques culturais em ambientes mais conservadores. Uma geração que, hoje, conquista seu espaço no mercado de trabalho; Crédito: Imagem gerada por IA A Geração Z, formada por pessoas nascidas entre meados da década de 1990 e 2010, é conhecida como “nativa digital”.  O termo descreve aqueles que cresceram em meio às inovações tecnológicas como internet, computadores e smartphones, e que, por isso, desenvolveram uma relação natural com o ambiente digital. Esse grupo traz consigo características marcantes, como a capacidade de realizar múltiplas tarefas, pensamento ágil e criatividade, atributos que se revelam promissores no campo profissional. Ano após ano, cresce o número de indivíduos da Geração Z que ingressam no mercado de trabalho, um movimento natural, já que boa parte dos “zoomers”  atingiram a maioridade. De acordo com relatório da consultoria McKinsey, em 2025 esse grupo representou um quarto da força de trabalho global. A projeção indica que, em aproximadamente cinco anos, essa participação poderá chegar a  30%. Com base nesse cenário, é possível afirmar que a crescente participação da Geração Z tende a redefinir padrões de produtividade, comunicação e relacionamento dentro das organizações. No entanto, os zoomers ainda enfrentam obstáculos para se adaptar a ambientes tradicionais e lidar com expectativas profissionais que, muitas vezes, não dialogam com sua visão de mundo. Uma geração criada em meio à recessão Se os Millennials  já haviam rompido barreiras, abrindo espaço para novas formas de trabalho e enfraquecendo estruturas rígidas, a Geração Z aprofunda ainda mais essa transformação. Diferentemente de seus antecessores, os zoomers não apenas desejam flexibilidade e propósito: eles consideram esses elementos indispensáveis para permanecer em uma empresa. Esse pensamento exerce pressão sobre organizações que ainda operam em modelos hierárquicos tradicionais, exigindo transformações culturais que vão além da adoção de tecnologias. Trata-se de uma revisão profunda de valores, práticas de gestão e dinâmicas de convivência no cotidiano corporativo. A nova geração vê o trabalho como necessidade; Crédito: Imagem gerada por IA Além disso, boa parte da Geração Z cresceu em meio a períodos de recessão econômica, o que faz com que o trabalho seja percebido mais como uma necessidade do que projeto de vida ou realização pessoal. Assim, quando as condições oferecidas não correspondem às expectativas de estabilidade, reconhecimento e bem-estar, o ambiente profissional tende a se tornar fonte de frustração. Ademais, os jovens da Geração Z enfrentam, atualmente, desafios ligados à valorização da carreira por meio dos estudos, já que o diploma deixou de oferecer as garantias de outrora. Com o avanço acelerado da  tecnologia e a crescente competitividade, faltam alternativas de emprego para profissionais qualificados, sobretudo vagas que reconheçam e valorizem sua formação acadêmica. Comportamentos na esfera profissional A Geração Z se apresenta como um grupo que se relaciona com o trabalho de uma forma bastante distinta, sem apego ou fidelidade a um único emprego e com uma necessidade constante de mudança. Esse comportamento está diretamente ligado à socialização desses jovens em um mundo acelerado, digital e altamente competitivo, no qual novas oportunidades surgem a todo instante. Por isso, eles tendem a priorizar experiências que promovam aprimoramento profissional, bem-estar e alinhamento com seus valores pessoais. Os zoomers esperam um ambiente de trabalho mais leve e colaborativo; Crédito: Imagem gerada por IA Nesse cenário, as práticas tradicionais das corporações mostram-se  insuficientes, exigindo das empresas estratégias mais flexíveis, transparentes e centradas no indivíduo. A Geração Z valoriza empregadores que escutam seus colaboradores, cultivam ambientes leves, oferecem flexibilidade de horários e estimulam a criatividade. O que esperar do futuro Atualmente, muitas empresas vêm se adaptando para acompanhar as novas demandas do mercado. Observa-se uma abertura crescente para inovações tecnológicas, maior incentivo ao diálogo interno e flexibilização de horários, incluindo a adoção de modelos híbridos e do trabalho remoto. Ao mesmo tempo, os zoomers têm se mobilizado de forma mais ativa em defesa de melhores condições de trabalho. Um exemplo é a campanha pelo fim da escala 6x1, que busca reduzir jornadas exaustivas e promover uma valorização mais justa da força de trabalho. Paralelamente, o avanço acelerado das ferramentas de Inteligência Artificial tende a remodelar diversas funções, exigindo da geração Z um aprimoramento contínuo de competências. Das empresas, por sua vez, será necessária uma postura mais atenta às capacitações e ao equilíbrio entre tecnologia e humanidade. No futuro, cresce também a necessidade de redefinir o próprio sentido do trabalho. Para a Geração Z, equilíbrio emocional, saúde mental e propósito ocupam posição central, fatores que devem levar as corporações a repensar suas práticas internas e a  valorizar de forma mais consistente a contribuição desse grupo. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Referências https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/89704409/1569-libre.pdf?1660580971=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DGeracao_Z_Uma_analise_sobre_o_relacionam.pdf&Expires=1764020647&Signature=S~apbk3XJwTtLWj3UVit6ezAR97S6Xnr-LIvFDYxGCExxVPMHXAzu2nFWjkOovx83gkYVQeyuZ4WI~RXO5JPo5VBoe4~l6rXhxuW7j9xQbvLFH1j1YEMpR0122DRY-f2dvJWKdLPAJG7Vum3AKihpHo-86jpQ-1BB2-MMDZkJiMQ3UsUQcmdSeL-palbKRbbKp9LSzo-GCA8Svnct1EmKKJdFOADv~7XBN26b2OXuOyzxKvSlFTOnU07lRRiYDbx-SA9eSYrDhXga6vH1vHigCTp~cOTajtB4OnGug9jOG3P796wDWgBCkZhDJdPnevV3yqVcP1zYgsrVBEhrTWnyQ__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA https://ric.cps.sp.gov.br/bitstream/123456789/17067/1/Gest%c3%a3o_empr_2023_1_Fl%c3%a1vio_Augusto_da_Silva_Gera%c3%a7%c3%a3o_Z_no_mercado_de_trabalho.pdf https://forbes.com.br/carreira/2025/01/geracao-z-um-quarto-da-forca-de-trabalho-o-que-esses-profissionais-querem/

  • Mete Marcha Negona! Como a Marcha das mulheres negras ocupa espaços e projeta o Brasil do Bem Viver

    Um Encontro com a História e o Propósito Foto por: Thaynara Fernandes Participar da Marcha das Mulheres Negras em Brasília, em 25 de novembro de 2025, foi um encontro inadiável com a minha própria história, vivido ao lado de companheiras potentes. Como mulher negra e especialista em Gestão da Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), tive a felicidade de, em cumprimento de agenda profissional no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), viver esta experiência que transcendeu a teoria. Foi a materialização de séculos de resistência e a expressão de um movimento que mobilizou cerca de 300 mil mulheres , vindas de diferentes regiões do Brasil e de mais de 40 países. A emoção que me atravessou em meio à multidão é a certeza de que este é um movimento sem retorno. Sua potência não nasceu agora: a Marcha foi idealizada e organizada por lideranças como Nilma Bentes , referência política e articuladora histórica, que dedicou sua vida a dar visibilidade à mulher negra, tantas vezes "imprensada" entre o machismo e o racismo. Naquele espaço, senti-me carregando inúmeros gritos, sobretudo os das mulheres que pavimentaram meu caminho para que eu pudesse estar ali. Nosso trajeto é sempre para frente , na busca incessante de conscientizar nosso povo sobre sua ancestralidade e capacidade. Fomos ensinados a acreditar que éramos pequenos, incapazes; mas somos descendentes de reis e rainhas. A Marcha reafirma nossa grandeza, lembrando-nos que todas as mulheres ali presentes são grandiosas. Nossa luta, hoje, é clara e urgente: ocupar espaços. A Interseccionalidade em ação: os clamores dentro do clamor A Marcha é o maior e mais potente exemplo da interseccionalidade em movimento. O grito central das mulheres negras — situadas no cruzamento entre racismo e sexismo, conforme teorizado por Kimberlé Crenshaw — desdobra-se em múltiplos "clamores internos" por justiça. Embora o movimento tenha alcançado uma magnitude histórica, é preciso reconhecer que muitos gritos talvez ainda não tenham sido representados . Por isso, o horizonte da próxima Marcha, marcada para daqui a cinco anos, em 2030, reforça a certeza de que novas lideranças surgirão e novos caminhos serão abertos, permitindo que mais vozes sejam ouvidas e garantindo que a Marcha avance em sua proposta de inclusão. A presença de diversos grupos na Esplanada dos Ministérios evidenciou que a sobreposição de identidades e opressões gera demandas específicas, mas profundamente coesas. As mães  que perderam seus filhos para a violência do Estado clamavam pelo fim da Necropolítica; as mulheres idosas  traziam a sabedoria da ancestralidade e reivindicavam o direito ao descanso; as mulheres quilombolas  exigiam a defesa do território e a justiça ambiental; as jovens da Baixada Carioca  lutavam pelo direito à cidade e à segurança; as representantes de religiões de matriz africana  manifestavam-se contra a intolerância religiosa; as mães solo  demandavam apoio estatal diante da sobrecarga do cuidado; as trancistas  reivindicavam autonomia econômica e valorização estética; e a comunidade LGBT negra  lutava pelo reconhecimento de suas identidades e contra a violência de gênero, raça e sexualidade. Além destes, inúmeros outros grupos, igualmente potentes, levaram seus clamores à Brasília, reforçando que a pauta interseccional da Marcha constitui um universo vasto e em contínua expansão, comprometido em não invisibilizar nenhuma luta. Reparação e Bem Viver: o salto político O lema da Marcha, "Por Reparação e Bem Viver" , sustenta o projeto político que dá corpo ao movimento. Ele amplia o conceito de reparação, transformando-o em uma proposta estrutural capaz de garantir vida plena, dignidade e autonomia à população negra. O Bem Viver exige o resgate de acessos historicamente negados.  Isso significa ir além do básico e afirmar, de forma contundente, que temos direito a ter direitos . Entre esses direitos fundamentais estão a saúde, a moradia digna, o saneamento básico, a segurança, a educação, a cultura, bem como o direito de cultuar a fé, exercer a sexualidade e tantos outros que compõem a experiência de uma vida plena. Conforme o Manifesto Econômico da Marcha, a reparação é uma urgência que se concretiza em eixos claros : o enfrentamento direto da pilhagem econômica histórica ; a transformação radical das relações de trabalho , assegurando a remuneração digna e previdência; e a ruptura com a lógica macroeconômica   concentradora de riqueza , por meio da tributação progressiva e do direcionamento de investimento público e crédito justo para os territórios e empreendimentos de mulheres negras. A Justiça Climática  emerge como componente essencial desse Bem Viver, uma vez que as comunidades negras estão entre as mais impactadas pelas crises ambientais. A urgência e a resiliência deste movimento são impulsionadas pelo grito de ação repetido por todas as participantes: "Mete Marcha Negona" . Essa energia coletiva dialoga com a fala de Conceição Evaristo, que ecoou sua frase na primeira Marcha (2015) e a repetiu em 2025, reiterando o lema de resistência presente em seu livro Olhos D'Água . "Eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer." Esse compromisso com a vida se traduz em políticas públicas e conquistas concretas. Entre as ações afirmativas e iniciativas de combate ao racismo que buscam mitigar seus impactos, destacam-se: Avanços Legislativos : O esforço para institucionalizar a reparação é contínuo, destacando-se a PEC-27/2024, que visa criar o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial. Cotas Raciais (Lei nº 12.711/2012) : As cotas representam a mais poderosa ferramenta de reparação no acesso. O ingresso no ensino superior federal por meio de ações afirmativas cresceu 167% em dez anos (Fonte: Inep), e a representatividade de pessoas negras no serviço público federal passou de 17% em 2000 para 38% em 2020 (Fonte: IBGE). A presença de lideranças históricas como Benedita da Silva, a primeira mulher negra a se tornar deputada federal no Brasil , que, aos mais de 80 anos, esteve ativamente na Marcha, reforça a força e a continuidade da luta. Em seu discurso, Benedita reafirmou a importância da presença e da garra das mulheres negras: "Com a nossa garra, nós fazemos a diferença no nosso país. Vamos continuar fazendo a luta, ainda que eles não queiram. Vamos seguir lutando pelo bem viver. Queremos as mulheres negras vivas, ganhando salários justos." Sua participação é símbolo de que a luta pela ocupação de espaços políticos, iniciada com sua pioneira eleição em 1982, permanece como um legado em movimento. A certeza da ocupação e a transversalidade da luta O aumento da inserção de pessoas negras em todos os âmbitos é a prova viva de que o projeto de nos menorizar falhou. Somos a maioria da população (55,5%, Censo IBGE 2022) e, com a força da nossa coletividade, estamos exigindo e ocupando os espaços de poder e decisão. Sinto-me honrada ao escrever este artigo sobre a Marcha para o Portal Águia, constatando, mais uma vez, que a luta contra o racismo e pela inclusão é transversal a todos os temas  – da economia à justiça climática, passando pela educação e política. Essa transversalidade é a lição central que conecta este texto aos três outros artigos que publiquei neste portal ao longo de 2025. A emoção que vivi em Brasília se transforma em convicção: este é um projeto político de nação. Estamos retomando o caminho da história que nos foi roubada, reescrevendo-a com a força da nossa luta e com a certeza do nosso Bem Viver. Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • Reforma Administrativa: o que está em jogo

    A reforma administrativa voltou a ocupar o centro do debate público em Brasília. Em 2025, novas propostas e discussões sobre mudanças nas regras de ingresso, estabilidade e gestão do serviço público  reacenderam questionamentos: a modernização trará maior eficiência  e qualidade no atendimento ou implicará perda de direitos e precarização  das condições de trabalho? Este artigo apresenta os principais pontos em discussão, o estágio atual de tramitação e os impactos práticos para cidadãos quanto para servidores. Foto: imprensa ANDES_SN  A origem do debate A ideia de “reforma administrativa” não é nova no Brasil. A versão mais recente, a PEC 32/2020 , já havia gerado intensos debates, mobilizações de servidores públicos e ampla repercussão social. Contudo, após a troca de governo em 2023, o texto perdeu força e acabou arquivado. Com a nova conjuntura política e econômica, o tema voltou à pauta. Em 24 de outubro de 2025, foi protocolada a PEC 38/2025 , acompanhada de um projeto de lei complementar (PLP) e de um projeto de lei ordinária (PL), ambos com 171 assinaturas, abrindo oficialmente a tramitação da proposta. A justificativa apresentada pelos proponentes é direta: modernizar a administração pública , introduzir mecanismos de eficiência, reduzir “privilégios históricos”  e adaptar a estrutura do Estado às demandas contemporâneas, incluindo digitalização e metas de desempenho. Para o governo, representado pela ministra Esther Dweck, responsável pela gestão do Estado , a reforma não se trata de “desmonte”, mas de “transformação”: tornar o Estado mais ágil, eficaz e capaz de entregar políticas públicas com qualidade. Segundo a ministra, o debate supera a lógica da PEC 32 , ao priorizar governança, carreira e inovação. Mas afinal, qual é o conteúdo da proposta e o que pode mudar concretamente para servidores e cidadãos? PEC 38/2025: os quatro eixos estruturantes A PEC 38/2025 organiza suas propostas em quatro eixos principais , voltados à reformulação da lógica de gestão pública no Brasil. 1. Estratégia, Governança e Gestão Implementação de planejamento estratégico no setor público, com metas e objetivos definidos para órgãos e entidades. Estabelecimento de acordos de resultados e metas de desempenho vinculados à execução orçamentária e à avaliação gerencial. Criação de mecanismos de controle e responsabilização, reforçando a proposta de “gastar melhor” os recursos públicos. 2. Transformação Digital Digitalização integral dos serviços públicos, com interoperabilidade entre sistemas, governo eletrônico, atendimento remoto e simplificação de processos burocráticos. Expansão do uso de tecnologia para tornar o Estado mais acessível e eficiente no atendimento à população. 3. Profissionalização do Serviço Público Reformulação das carreiras públicas: progressão por mérito e desempenho, com múltiplos níveis salariais e fim da progressão automática apenas por tempo de serviço. Estágio probatório mais rigoroso: avaliações detalhadas, com possibilidade de exoneração caso o servidor seja considerado inapto. Uniformização das tabelas remuneratórias: incorporação de gratificações e adicionais à remuneração básica, eliminando benefícios automáticos vinculados ao tempo de serviço. 4. Extinção de “Privilégios” e Regras de Remuneração Revisão de regimes e benefícios: mudanças em aposentadorias, adicionais, férias e folgas consideradas “excessivas” ou “privilégios históricos”. Principais propostas: redução do período de férias, limitação de adicionais de insalubridade e periculosidade, fim da conversão de férias em pecúnia e estabelecimento de teto remuneratório para empresas estatais. Abrangência nacional: aplicação das medidas à União, estados e municípios, com impacto direto   em toda a estrutura do serviço público.   Em síntese : a PEC 38/2025 busca redesenhar de forma profunda  o modelo de serviço público brasileiro. A proposta substitui pilares históricos - como estabilidade, incentivos vinculados ao tempo de serviço e vínculos garantidos - por um sistema orientado à meritocracia, ao alcance de resultados  e à adoção de contratos mais flexíveis. O olhar dos defensores Os defensores da PEC 38/2025, entre eles membros do governo, parte da bancada parlamentar e analistas da área de administração pública, argumentam que o Brasil precisa modernizar o Estado por diversas razões: Eficiência e boa gestão:  um Estado moderno deve contar com estruturas flexíveis, foco em resultados e capacidade de adaptação às demandas contemporâneas. Superação da rigidez : o modelo tradicional, considerado excessivamente burocrático, dificultaria respostas ágeis, inovação e o uso inteligente dos recursos públicos. Combate a privilégios e supersalários :  há críticas de que cargos públicos, adicionais e regras de aposentadoria tradicionalmente favorecem segmentos específicos, gerando distorções e desigualdades. A reforma propõe corrigir isso. Atualização das carreiras e meritocracia : a lógica de evolução baseada em mérito, e não apenas por tempo de serviço, poderia estimular maior produtividade, incentivar a qualificação contínua e gerar resultados concretos para a população. Estado adaptado aos desafios modernos:  com digitalização, planejamento estratégico e práticas de governança, o serviço público estaria mais preparado para enfrentar demandas contemporâneas, responder a crises e garantir maior eficiência administrativa. Declaração do governo Segundo a ministra responsável pela gestão do Estado, o objetivo da reforma é “ não desmontar o Estado, mas transformá-lo ”, de modo a tornar cada real gasto mais eficaz e assegurar a entrega de políticas públicas com qualidade. O olhar dos opositores Por outro lado, diversas entidades sindicais, especialistas em administração pública, representantes de servidores e parte da sociedade civil levantam preocupações sérias e críticas à PEC 38/2025. Entre os principais argumentos contrários: 1. Precarização do serviço público e dos vínculos Insegurança para servidores : a substituição de vínculos permanentes por contratos temporários ou sujeitos a avaliação contínua pode gerar instabilidade, demissões arbitrárias e pressão excessiva por metas. Risco à autonomia e imparcialidade:  a estabilidade, historicamente garantida, seria enfraquecida, comprometendo a independência do servidor frente a pressões externas. Limitações da meritocracia por metas : esse modelo tende a desconsiderar contextos estruturais e desigualdades regionais, favorecendo áreas menos vulneráveis e penalizando setores mais críticos. Avaliação de desempenho questionada:  especialistas alertam que os critérios podem se tornar subjetivos e suscetíveis a influências políticas, comprometendo a justiça e transparência do processo. 2. Riscos à continuidade e qualidade dos serviços públicos Deterioração de serviços essenciais : a redução de quadros, a limitação de gastos e a possível substituição de servidores por contratados podem comprometer áreas fundamentais como educação, saúde, segurança e assistência social, especialmente em regiões periféricas ou menos atrativas. Impacto nas políticas de longo prazo : a ênfase em metas de curto prazo pode fragilizar iniciativas estruturais, limitar a inovação institucional e prejudicar a formação de capacidade técnica do Estado. Perda de memória institucional : a rotatividade e a flexibilização dos vínculos podem enfraquecer a continuidade administrativa, afetando a excelência e a qualidade dos serviços públicos. 3. Erosão da independência técnica e risco de politização Estabilidade como pilar institucional:  a estabilidade dos servidores é considerada essencial para garantir impessoalidade, autonomia técnica e proteção contra interferências políticas. Risco de politização : ao revisar esse modelo, a reforma pode abrir espaço para pressões externas e comprometer a neutralidade das instituições públicas. Desvalorização de funções especializadas : a uniformização das tabelas salariais e a eliminação de adicionais podem reduzir o reconhecimento de atividades que exigem alta especialização ou envolvem risco, tornando o serviço público menos atrativo e qualificado. Para muitas entidades, a PEC 38/2025 representa não representa apenas uma reforma administrativa, mas sim um desmonte do modelo republicano de serviço público.  esse modelo, historicamente sustentado pela estabilidade, pela impessoalidade e pela universalidade, seria colocado em risco diante das mudanças propostas. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados. Fonte: Agência Câmara de Notícias Onde estamos agora: tramitação, mobilização e incertezas A PEC 38/2025 foi protocolada em 24 de outubro de 2025, com o apoio inicial de 171 parlamentares. A proposta seguirá para análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), depois para uma comissão especial e, caso aprovada em primeira instância, será encaminhada ao plenário da Câmara. Para avançar, são necessários ao menos 308 votos favoráveis.   Em paralelo, cresce a mobilização de entidades representativas de servidores, sindicatos e movimentos sociais, que organizam protestos, audiências públicas e manifestações contrárias. Recentemente, houve ato massivo em Brasília contra a reforma. Entre parlamentares, crescem os sinais de recuo ou insegurança: já há retiradas de apoio à proposta por parte de alguns signatários. Alguns setores da própria base governista demonstram reservas quanto ao avanço da reforma. O debate em torno da PEC 38/2025 está longe de se encerrar. O processo pode envolver recuos, emendas e negociações intensas, ou até mesmo resultar em uma nova versão do texto. A mobilização social e o escrutínio público terão papel decisivo na definição dos próximos passos, influenciando diretamente o rumo da reforma administrativa. O que muda e o que permanece em aberto Para o cidadão comum, para quem planeja concursos e para servidores atuais ou futuros, os impactos da PEC 38/2025 podem ser significativos. Caso a reforma seja aprovada, alguns pontos concretos se destacam: Carreira mais volátil: menor rigidez e previsibilidade, com contratos vinculados a metas e avaliações de desempenho. O não cumprimento dos requisitos pode resultar em desligamento, tornando o emprego público menos estável. Redução de benefícios : eliminação ou limitação de adicionais automáticos, o que pode reduzir a remuneração efetiva, sobretudo para servidores com longo tempo de serviço ou em funções de risco. Risco de precarização do atendimento:  serviços essenciais — como saúde, educação, segurança e assistência social - podem sofre com redução de quadros, terceirização ou restrições orçamentárias para expansão de pessoal. Desigualdade regional:  funções essenciais em áreas remotas ou menos "visíveis", podem ser negligenciadas, resultando em menor qualidade de contratação e agravando disparidades entre regiões. O dilema da modernização vs. a proteção do Estado A reforma administrativa proposta pela PEC 38/2025 surge em um momento de tensão entre duas missões fundamentais: modernizar o Estado brasileiro e preservar a função pública como pilar da democracia, do atendimento igualitário e da justiça social. É legítimo, e talvez urgente, repensar estruturas, ajustar rigidezes, buscar eficiência e eliminar distorções. No entanto, a experiência internacional e os alertas de especialistas indicam que tais reformas devem avançar com cautela. A austeridade ou o corte de gastos, por si só, nem sempre resultam em maior qualidade. Para que a mudança cumpra seu propósito sem causar danos irreversíveis, são indispensáveis: objetividade nas avaliações, salvaguardas contra a politização, garantias de direitos e um forte compromisso com a universalidade dos serviços públicos. O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio : modernização com responsabilidade; eficiência com compromisso social; meritocracia com justiça e, sobretudo, transparência e participação da sociedade. Enquanto a tramitação avança e o debate se intensifica, cabe aos cidadãos, servidores e à sociedade civil acompanhar de perto, informar-se e participar ativamente. Afinal, a forma como o Estado se organiza, e quem são os servidores que o compõem, impacta diretamente o cotidiano de todos nós. Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências PEC 38/2025 — texto de 24 de outubro de 2025, protocolo na Câmara dos Deputados. Disponível em: https://noticias.r7.com/brasilia/pec-da-reforma-administrativa-e-oficialmente-protocolada-na-camara-25102025/ Relato oficial da apresentação da proposta e síntese dos quatro eixos da reforma. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1209763-pec-da-reforma-administrativa-promove-resultados-governo-digital-e-combate-a-privilegios/ Análise da estrutura de carreiras, avaliação de desempenho e remuneração previstas na reforma. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/a-reforma-da-administracao-publica-e-o-fim-do-modelo-burocratico-analise-critica-da-pec-n-38-2025-e-seus-impactos-sobre-concursos-e-carreiras-publicas/ Posicionamento do governo — visão de modernização e reconstrução do Estado — declarado pela ministra responsável. Disponível em: https://www.gov.br/gestao/pt-br/assuntos/noticias/2025/agosto/trabalho-de-transformacao-do-estado-feito-pelo-governo-federal-mudou-o-debate-sobre-a-reforma-administrativa-diz-esther-dweck ? Críticas, mobilização de entidades, riscos de precarização e impactos sobre serviços públicos. Disponível em:   https://unacon.org.br/2025/11/24/reforma-administrativa-em-marcha-a-re-2-a-pec-38-2025/

  • Eleições na Venezuela: os dilemas e o alinhamento dos países na América Latina

    As eleições da Venezuela serão em 28 de julho , e o clima já esquentou entre a oposição e o atual governo de Nicolás Maduro . Ou melhor, ex-oposição, já que, de acordo com as autoridades venezuelanas, a candidata da oposição não pôde se registrar para concorrer, pois tinha cometido “ ações desestabilizadoras ”, segundo palavras do Ministério Público do país sul-americano. Vamos entender mais sobre esse assunto tão polêmico. A ex-candidata às eleições da Venezuela, Maria Corina Machado, do partido Vente Venezuela, era a maior rival do atual presidente Nicolás Maduro nas eleições de 2024. Porém, nesse cenário, há um grande problema: Machado e outros possíveis candidatos foram, pouco a pouco, vetados nesse processo eleitoral. Fonte: Carta Capital / ex-candidata Maria Corina Machado do partido Vente Venezuela, oposição de Maduro De acordo com o sistema eleitoral, o Ministério Público e outras autoridades do país, Machado cometeu alguns atos, que até o momento não foram devidamente explicados ao eleitor venezuelano, e a sua possível substituta, Corina Yoris, da Plataforma Unitária Democrática (PUD) , não conseguiu fazer a inscrição para as eleições, pois também foi vetada. Analisando o cenário eleitoral da Venezuela, percebe-se que Maduro está desesperado com o provável resultado dessas eleições, e de acordo com as pesquisas o atual governante tem entre 15% e 20% das intenções de voto . Ou seja, Maduro já sente que será derrotado. Apoio Internacional Perante aos atuais acontecimentos, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do Brasil, e Gustavo Petro, da Colômbia e até Emmanuel Macron, da França, apoiaram a oposição de Maduro, manifestações que foram agradecidas por Maria Corina Machado, que em seus últimos discursos disse que o apoio desses líderes mostra que seu partido está no caminho certo e justo. A ex-candidata ainda pediu aos líderes democráticos do mundo que apoiassem a plena implementação do Acordo de Barbados¹. Fonte: Jornal O Globo / o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. O avanço eleitoral da oposição de Maduro Após um grande pleito, com discussões e impedimentos, a PUD informou a aprovação por unanimidade da candidatura de Edmundo González Urrutia, a alternativa após a tentativa da candidata anterior (Yoris) de concorrer pelo partido. O secretário-executivo da PUD está otimista e diz que “ será uma campanha vitoriosa ”, e declarou que o candidato está devidamente inscrito no Conselho Nacional Eleitoral. Ou seja, finalmente a oposição conseguiu colocar um candidato para concorrer com Maduro. Protestos Internacionais Ante toda essa polêmica, muito países (além do Brasil, da Colômbia e da França) como Costa Rica, Argentina, Equador e outros, protestaram em relação a PUD não poder inscrever Corina Yoris no processo eleitoral e fizeram um grande protesto internacional, frisando que todo processo de eleição precisa ser democrático, manifestando um grande descontentamento e sérias preocupações com os obstáculos impostos por todo o sistema eleitoral da Venezuela. Fonte: Human Rights Watch - Relatório Mundial 2024 A Venezuela sofreu um grande êxodo político e econômico , resultando na saída de mais de 7,5 milhões de pessoas do país, segundo os dados do Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), algo que chama muito a atenção da comunidade internacional; países como Brasil e Costa Rica recebem muitos desses imigrantes, que estão saindo de seus lares, em busca de uma vida melhor, pois se sentem econômica e politicamente ameaçados. Agora, somente nos resta aguardar o resultado das eleições. Ou antes, nos resta ver os próximos capítulos dessa corrida contra o tempo, e contra o sistema venezuelano, na tentativa de melhorar a condição do povo através do voto. Texto escrito por Caroline Prado Professora de Cultura Brasileira e Português para Estrangeiros, internacionalista, estudante de Filologia e Línguas Latinas, Embaixadora do Projeto Libertas Brasil na Costa Rica, apaixonada por plantas, livros e fontes confiáveis. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto ¹ Acordo de Barbados: O governo brasileiro congratula-se com o governo e a oposição da Venezuela pela assinatura dos Acordos para Promoção dos Direitos Políticos e Garantias Eleitorais e para Garantia dos Interesses Vitais da Nação, em 17 de outubro, em Barbados. Os Acordos, assinados no contexto de processo de mediação conduzido pela Noruega, são resultado dos esforços de diálogo promovidos por diversos países, inclusive o Brasil, junto aos atores políticos venezuelanos, com vistas à construção de consensos que permitam ao país realizar eleições presidenciais em 2024. Na esteira dos entendimentos consignados nos Acordos de Barbados, o governo brasileiro saúda o anúncio da libertação de oposicionistas presos, pela Venezuela, bem como o levantamento parcial, pelos Estados Unidos, de sanções impostas àquele país. Trata-se de passos relevantes, que comprovam que o diálogo constitui o melhor caminho para a solução dos desafios sociais e políticos enfrentados pela Venezuela. No entendimento de que sanções unilaterais são contrárias ao direito internacional e prejudicam a população dos países afetados, o Brasil acredita que o levantamento total e permanente de sanções contribuirá para normalização da política venezuelana e estabilidade regional. Texto adaptado do site www.gov.br FONTES: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eleicoes-na-venezuela-maria-corina-machado-agradece-posicionamentos-de-lula-e-macron/   https://exame.com/mundo/eleicoes-na-venezuela-entenda-as-opcoes-da-oposicao-para-enfrentar-maduro/   https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72p812yyxvo   https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv2092ygyllo   https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/acordos-de-barbados-sobre-o-dialogo-politico-na-venezuela#:~:text=O%20governo%20brasileiro%20congratula%2Dse,17%20de%20outubro%2C%20em%20Barbados .   https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/acordos-de-barbados-sobre-o-dialogo-politico-na-venezuela#:~:text=O%20governo%20brasileiro%20congratula%2Dse,17%20de%20outubro%2C%20em%20Barbados .

  • Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Desafios e Perspectivas de Políticas Públicas e Socioeconômicas

    A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é uma organização multilateral que reúne nações de quatro continentes - África, América do Sul, Ásia e Europa  - unidas pela língua portuguesa. Criada em 1996, a CPLP é composta por nove países : Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Os objetivos da organização são amplos e diversificados, incluindo  a promoção da cooperação política e diplomática, o fortalecimento da língua portuguesa e o apoio ao desenvolvimento socioeconômico entre os Estados-membros.  A cooperação e o intercâmbio abrangem ainda áreas como educação, saúde, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, justiça, segurança pública, administração pública, cultura, esporte e comunicação social. Apesar de sua agenda ambiciosa, a CPLP enfrenta desafios complexos, que incluem a harmonização dos sistemas políticos com as realidades econômicas, a superação das assimetrias sociais e a construção de uma visão compartilhada capaz de acomodar os interesses de cada  Estado-membro sem comprometer sua soberania. Apesar de possuir um mandato e um estatuto ambiciosos, os mecanismos institucionais da CPLP permanecem relativamente frágeis. Diferentemente de outras organizações regionais, como a União Europeia (UE), a União Africana (UA), a Organização dos Estados Americanos (OEA), e a Comunidade do Caribe (CARICOM), a CPLP carece de autoridade supranacional  e depende fortemente da tomada de decisões por consenso. Com um orçamento bastante modesto , sua capacidade de implementar projetos conjuntos é frequentemente limitada pela escassez de recursos e pela dependência das prioridades definidas pelos Estados-membros. Essas limitações têm levantado questionamentos sobre a eficácia e a real relevância da CPLP , já que suas ações muitas vezes se restringem a gestos simbólicos e declarações de alto nível, vindas  de Presidentes, Primeiros-Ministros, Ministros e Secretários de Estado, com impacto reduzido na vida dos cidadãos  dos Estados-membros. Além disso, persiste a crítica quanto às  profundas desigualdades estruturais entre os países-membros, o que dificulta a construção de uma agenda comum e compartilhada. Desafios e Dinâmicas Políticas Um dos principais desafios enfrentados pela CPLP é a diversidade de sistemas políticos entre seus Estados-membros, que incluem democracias consolidadas, regimes híbridos e governos de caráter autoritário. Essa heterogeneidade dificulta os esforços para promover valores compartilhados, como a democracia, o Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos. A inclusão da Guiné Equatorial , em 23 de julho de 2014, foi particularmente controversa. O país,  que possui três línguas oficiais - português, espanhol e francês - é frequentemente criticado por seu histórico deficiente em direitos humanos e pela ausência de liberdades políticas. Sua adesão à CPLP gerou tensões entre as aspirações normativas da organização e a busca pragmática por expansão e influência. Esta situação evidencia os limites da capacidade da CPLP de impor padrões democráticos e revela o desafio de equilibrar inclusão com  coerência normativa. Desequilíbrio e assimetrias entre os Estados-membros O desequilíbrio populacional e  poder econômico entre os países da CPLP tem sido um  fator de constrangimento para a efetiva integração. Brasil e Portugal, como os  membros economicamente mais desenvolvidos, exercem influência desproporcional dentro da Comunidade. Essa dinâmica, em alguns momentos, gera perceções de dominância ou marginalização dos demais Estados. A liderança na CPLP tende a se alternar conforme os estatutos da organização, mas a influência informal frequentemente reflete realidades geopolíticas mais amplas. O Brasil , país de escala continental e integrante dos BRICS, por vezes utiliza a CPLP como veículo para projetar seu soft power  e promover seus interesses diplomáticos . Já Portugal , como antiga metrópole colonial e membro da União Europeia, desempenha papel central na articulação da CPLP com instituições e agendas europeias. A CPLP reúne um amplo espectro de realidades socioeconômicas, que vão desde países de renda média e alta, como  Portugal e Brasil, até nações consideradas subdesenvolvidas ou em desenvolvimento, como Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Essa diversidade impacta diretamente a dinâmica da organização, tornando-a vulnerável e, por vezes, ineficiente. Os países membros, especialmente os africanos, continuam a enfrentar desafios significativos, como pobreza, insegurança alimentar, acesso limitado à educação e à saúde, além de infraestrutura precária. A diversificação econômica permanece restrita, e suas economias dependem fortemente das exportações, em grande parte de bens de primeira necessidade. Já o Brasil e Portugal possuem economias mais diversificadas e robustas, além de bases de capital humano mais desenvolvidas, capazes de enfrentar os desafios contemporâneos e promover o desenvolvimento sustentável. Entretanto, mesmo nesses países persistem desigualdades regionais e sociais significativas. O Brasil, por exemplo, é marcado por profundas disparidades de renda, educação e saúde entre diferentes regiões e grupos sociais. Fica claro que cada Estado-membro possui  interesses e prioridades divergentes.  Neste contexto, a relevância contínua da CPLP depende de sua capacidade de reduzir as assimetrias internas, promover o desenvolvimento inclusivo, diminuir os índices de pobreza e fortalecer os equilíbrios sociais , independentemente da dimensão territorial, populacional ou do nível de riqueza de cada país. Relações com outras organizações regionais A CPLP atua em uma complexa rede de relações externas, tanto com outras organizações regionais quanto com atores globais. Muitos de seus membros africanos participam  simultaneamente de organizações como a União Africana, a CEDEAO e a SADC. O Brasil, por sua vez, integra o MERCOSUL e participa ativamente dos BRICS. Já a adesão de Portugal à União Europeia acrescenta uma camada adicional de complexidade aos alinhamentos externos da CPLP. Essas afiliações sobrepostas geram tanto oportunidades quanto desafios. Por um lado, permitem que os membros da CPLP aproveitem múltiplas redes e desenvolvam estratégias diversificadas de cooperação. Por outro, podem resultar em  prioridades conflitantes e na dispersão do foco institucional. A CPLP tem buscado desenvolver parcerias estratégicas com atores externos, incluindo as Nações Unidas, a União Europeia e diversas organizações regionais. Essas parcerias são geralmente orientadas para a capacitação, a assistência técnica e a promoção da língua portuguesa. No entanto, a escassa influência econômica e a limitação de recursos reduzem a  capacidade de moldar agendas globais ou negociar a partir de uma posição de força. Integração Econômica e Comércio A integração econômic a entre os membros da CPLP permanece bastante limitada . O comércio intra-CPLP corresponde apenas a uma pequena fração do comércio total da maioria dos Estados-membros, reflexo tanto da distância geográfica quanto da ausência de estruturas produtivas complementares.  Além disso, barreiras tarifárias e não tarifárias, infraestrutura deficiente de transporte e logística e marcos regulatórios divergentes dificultam ainda mais o fortalecimento de laços econômicos sólidos. Os esforços para promover a cooperação econômica têm se concentrado em áreas como promoção de investimentos, assistência técnica e harmonização de normas. A organização criou alguns fóruns de negócios e  investimentos, como a Confederação Empresarial da CPLP, com o objetivo de estreitar  vínculos com o setor privado. No entanto, sua  implementação e funcionalidade têm se mostrado frágeis, e a capacidade da CPLP  de facilitar uma integração econômica substancial permanece limitada. Ainda assim, existe potencial para maior cooperação, especialmente em setores como agricultura, energia e turismo. Os laços linguísticos e culturais compartilhados podem favorecer a mobilidade de mão de obra e capital, além de abrir espaço para colaboração em pesquisa, inovação e transferência de tecnologia.  A concretização desse potencial, contudo, exige esforços conjuntos para superar barreiras e construir a infraestrutura institucional e física necessária. Vale destacar também a sólida relação entre bancos comerciais de países africanos, como Angola, Cabo Verde e Moçambique, e instituições financeiras portuguesas, que chegam a atuar como correspondentes bancários em diversas operações internacionais. Parcerias e Troca de Experiências Rumo ao Desenvolvimento do Capital Humano O desenvolvimento do capital humano , especialmente no que diz respeito ao impacto social, deve ser uma preocupação central para os membros da CPLP. A educação permanece como um grande desafio, particularmente nos Estados-membros africanos, onde o acesso a uma educação de qualidade é limitado  e as taxas de alfabetização continuam baixas. A CPLP tem apoiado diversas iniciativas voltadas para a melhoria da formação de professores, o desenvolvimento curricular e o intercâmbio de recursos educacionais.  Esses esforços são reforçados por programas que promovem a mobilidade estudantil e a cooperação acadêmica entre os Estados-membros. Angola mantém boas relações com universidades brasileiras e portuguesas, enviando regularmente  estudantes para realizarem formação superior nesses países, considerando o forte avanço dos seus sistemas de ensino, especialmente no nível universitário e em áreas de especialização. Desse modo, é fundamental promover uma maior participação das comunidades em iniciativas de desenvolvimento,  de forma a facilitar a transferência de conhecimento e de know-how,  contribuindo para o fortalecimento dos povos. A Língua Portuguesa como Instrumento de Integração A promoção da língua portuguesa é uma característica definidora da CPLP  e constitui uma das fontes principais do seu soft power . Estima-se que o português seja falado por mais de 260 milhões de pessoas no mundo todo, o que o coloca entre os idiomas mais utilizados globalmente. A CPLP procura consolidar e expandir essa comunidade linguística, promovendo um senso de identidade partilhada e facilitando a comunicação em diferentes contextos nacionais. A valorização da língua portuguesa como veículo de inclusão social e de afirmação cultural ocupa um lugar central na agenda da organização. Iniciativas como o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) buscam fortalecer os laços linguísticos e apoiar a disseminação do português, um dos aspectos mais positivos da cooperação no âmbito da CPLP. A língua, embora funcione como uma ponte capaz de conectar as pessoas, também pode constituir uma barreira. Em vários países da CPLP coexistem múltiplos dialetos e línguas nativas , e as elevadas taxas de analfabetismo  continuam a dificultar a plena integração de muitos grupos dentro dos próprios Estados. A CPLP tem procurado enfrentar esses desafios por meio de iniciativas que visam padronizar o uso da língua, promover a alfabetização e apoiar o ensino de línguas tanto nos Estados-membros quanto nas comunidades locais. O desenvolvimento do português como língua de ciência, tecnologia e diplomacia internacional constitui um objetivo estratégico para a organização. Esforços destinados a ampliar a presença do português em fóruns multilaterais, fortalecer seu uso em publicações acadêmicas e científicas e promover as indústrias culturais são considerados fundamentais para o posicionamento global da CPLP. Reformas Institucionais e Visão Estratégica Para que a CPLP concretize plenamente o seu potencial como veículo de desenvolvimento político e socioeconômico, o reforço institucional é indispensável.  Isto implica fortalecer a  capacidade da organização para  implementar programas, ampliar os seus recursos financeiros e aprimorar os mecanismos de monitorização e avaliação. O desenvolvimento de uma visão estratégica mais robusta, alinhada com os interesses de longo prazo de todos os Estados-membros, é também fundamental. Uma das vias possíveis para essa reforma consiste na criação e/ou fortalecimento de agências especializadas ou organismos técnicos , dotados de mandatos em áreas como educação, saúde ou desenvolvimento econômico. Tais organismos poderiam facilitar a partilha de conhecimentos especializados, a mobilização de recursos e a execução de projetos conjuntos e integrados. Além disso, um envolvimento mais ativo da sociedade civil, do setor privado e das instituições acadêmicas tem potencial para reforçar a eficácia e eficiência da CPLP, ampliando o alcance e o impacto das suas iniciativas. Outra prioridade é articular uma estratégia externa mais coerente. Isso envolve construir parcerias com outras organizações internacionais, aproveitar o peso coletivo da comunidade lusófona em fóruns globais e promover a língua portuguesa como instrumento de influência internacional. A inclusão deve estar no centro desses esforços. Isto significa dedicar atenção especial às necessidades das populações mais vulneráveis, enfrentar de forma holística as desigualdades entre as pessoas e assegurar que os benefícios das riquezas sejam distribuídos de maneira equitativa. Um fator de destaque é que CPLP possui um perfil demográfico marcadamente jovem.  Por isso, a Comunidade deve aproveitar o potencial desta população, o que implica investir de forma mais robusta em educação, formação profissional e empreendedorismo. A promoção da ciência, da tecnologia e da inovação é igualmente essencial para construir economias competitivas e enfrentar os desafios da era digital. Além disso, é importante considerar que um dos grandes ativos da CPLP são os milhões de migrantes lusófonos que vivem e trabalham em diferentes partes do mundo. Eles contribuem para a vitalidade econômica e cultural tanto dos países de acolhimento quanto dos países de origem , além de enviarem recursos financeiros que impulsionam o crescimento econômico das suas nações de origem. A CPLP encontra-se numa encruzilhada, enfrentando um cenário complexo de desafios políticos, socioeconômicos e culturais. Os seus membros estão unidos por uma língua e uma história comuns, mas também se distinguem por profundas diferenças em dimensão, níveis de riqueza e sistemas políticos. A arquitetura institucional da organização oferece plataformas relevantes para o diálogo e a cooperação; no entanto, a sua capacidade de atuação, sobretudo  em áreas mais sensíveis e prioritárias, permanece limitada devido aos parcos recursos disponíveis e à falta de consenso em temas delicados e potencialmente conflituantes. A recente alteração da lei da nacionalidade portuguesa, que também afeta os cidadãos da CPLP, poderá gerar impactos negativos para a Comunidade.  Com a aprovação da nova legislação, os cidadãos da CPLP passam a ter de residir legalmente em Portugal por, pelo menos, sete anos para serem elegíveis a apresentação da manifestação de interesse para obtenção da nacionalidade. Foram igualmente modificados os procedimentos e prazos relativos à  residência permanente, ao reagrupamento familiar e a determinados pedidos de visto. Essas mudanças terão efeitos imediatos e desfavoráveis para muitos cidadãos lusófonos residentes em Portugal, o que não contribui para o fortalecimento da Comunidade. Resta agora acompanhar a reação dos demais Estados-membros, considerando a eventual aplicação do princípio da reciprocidade, inerente às relações entre estados soberanos.   Apesar destes e outros obstáculos, a CPLP tem demonstrado resiliência e capacidade de adaptação aos desafios do presente e do futuro. A Comunidade tem desempenhado um papel construtivo no apoio às transições políticas, na promoção de laços culturais e linguísticos e na facilitação da cooperação em áreas como a educação e a saúde. O seu compromisso com a solidariedade, a inclusão e o desenvolvimento sustentável constitui uma base normativa sólida para a sua relevância contínua. Assim, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa deve capitalizar os seus pontos fortes e enfrentar as suas fragilidades, de modo a continuar servindo como uma plataforma essencial para a cooperação e o desenvolvimento lusófonos num mundo cada vez mais interligado. Isaac Jorge  - É licenciado no Curso de Relações Internacionais pela Universidade Privada de Angola e trabalhou durante alguns anos na Missão Diplomática da República de Angola em Pretória - África do Sul. Além a experiência diplomática, nos últimos 18 anos tem estado ligado a atividade bancária, tendo assumido várias responsabilidades tais como Subdiretor na Direção de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, onde desenvolveu-se estudos para internacionalização do banco. Foi chefe de Departamento da banca de investimentos e Chefe de Departamento da Direção de Organização e Qualidade. Tem estado ligado a diferentes projetos de desenvolvimentos e de melhorias de produtos e serviços bancários e na formação de técnicos trabalhadores. É amante de esportes, principalmente o futebol Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme  Referências Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: https://www.cplp.org/ Confederação Empresarial da CPLP: https://ce-cplp.org/ Cooperação Económica da CPLP: https://coop-economica.cplp.org/cooperacao-empresarial/ Bancos Comerciais de Países de Língua Portuguesa: https://www.bcplp.org/ Instituto Internacional da Língua Portuguesa: https://iilp.cplp.org/

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