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- Eleições na Costa Rica: Economia e Sociedade
No dia 03 de abril (domingo) ocorreram as eleições na Costa Rica, o país mais próspero da América Latina. O país, onde a votação não é obrigatória e teve uma abstenção de mais de 40%, estava dividido entre dois candidatos. O país teve um total de 25 presidenciáveis nesta eleição, um recorde histórico, visto que a população gira em torno de 5,2 milhões. O presidente anterior, Carlos Alvarado, do PAC (Partido Acción Ciudadana), não se candidatou porque a Constituição não permite reeleição. O primeiro candidato, Jose María Figueres, filho de um ex-presidente muito respeitado no país, do PLN (Partido Liberación Nacional), é mais conservador e, de acordo com suas propostas, pensa mais em trazer investimentos para o país, abrindo caminhos para empresas estrangeiras entrarem em território costa-riquenho. O segundo candidato, Rodrigo Chaves, nunca trabalhou em cargos públicos, mas tem um vasto curriculum como economista e consultor internacional do Banco Mundial. O candidato é do PPSD (Partido Progreso Social Democrático). Eleito com 52,8% dos votos, Rodrigo Chaves foi eleito presidente da Costa Rica neste domingo. Contexto Social e Histórico do candidato A Costa Rica é um país que tem quase 100% de sua população alfabetizada, antes da pandemia estava em primeiro lugar no continente no ranking de esperança de vida e é líder mundial em relação aos programas de proteção ao meio ambiente. Apesar de tantos pontos positivos, o país ainda sofre muito com a pobreza, pois todo seu bônus não chega à maioria da população, sendo o Estado em 5º país mais desigual da América Latina e o 19º em desigualdade social no mundo. Esse é o país em que o atual presidente terá que trabalhar. Chaves tinha antes apenas 5% das intenções de voto mas, devido ao histórico de corrupção de seu maior concorrente, essas intenções aumentaram conforme chegava o dia das eleições. Trabalhou como ministro da Fazenda do último presidente, Carlos Alvarado, mas abandonou o cargo por discordar de algumas atitudes do governo. Sua popularidade cresceu devido às suas propostas de governo, como: reforma fiscal, aumento do valor da aposentadoria, cuidar mais do meio ambiente (ponto importante para um país dependente do turismo ecológico), penalizar a corrupção e aumentar o acesso da população aos pacotes de crédito de bens e serviços básicos. Chaves tinha tudo pra ser a escolha perfeita para o país, pois é populista, quer acabar com a corrupção intrínseca no país e tem formação universitária como economista. Mas por que não é a escolha perfeita? O candidato teve muitas e graves acusações de abuso sexual por parte de colegas de trabalho, inclusive dentro do Banco Mundial. No banco, ele foi proibido de entrar, através de uma liminar na justiça, pois suas colegas mulheres não queriam trabalhar com ele por medo do abuso que outras profissionais sofreram no período em que o homem foi consultor internacional do organismo. Apesar de todas as acusações feitas ao presidente, ele foi eleito. A população preferiu votar em alguém “novo”, que não fizesse parte da política tradicional, que não tivesse histórico de corrupção e que tivesse formação acadêmica no tema que mais preocupa o país nesse momento pós-pandêmico: a economia. Você consegue perceber alguma semelhança com outro país? Eleições brasileiras Sim, o Brasil. O atual presidente Jair Bolsonaro ganhou as eleições em 2018 com um discurso muito parecido, prometendo o “novo” e acabar com a corrupção. Por uma terrível experiência própria no assunto, sabe-se que esse tipo de discurso esconde outras intenções e ações por trás, já que o que se promete nunca é cumprido, e cada vez mais o Brasil se vê submergido em escândalos de rachadinhas, cheques, casas milionárias e chocolate. Por enquanto o Brasil tem (de acordo com avaliação feita em 01º de abril) 11 pré-candidatos à presidência da República. Apesar de estar bem polarizado, a população terá um leque interessante de opções sendo que esses candidatos podem mudar, ou ser mudados de acordo com a prospecção de seu partido, até outubro, mês das eleições no país. O pré-candidato João Doria, que já desistiu da candidatura e voltou atrás neste curto período do ano, se anuncia como uma “terceira via”, já que os principais candidatos são Luiz Inácio Lula da SIlva e Jair Bolsonaro. Ambos candidatos têm uma popularidade muito grande, de uma forma boa e ruim, de acordo com seu próprio e fiel eleitorado. Assim, Doria vende seu peixe, alegando ser uma opção viável à esses candidatos. João Doria, atual governador da cidade de São Paulo, tem a seu favor a maneira como lidou com a pandemia, colaborando fortemente no tema das vacinas, viabilizando projetos do Instituto Butantã para a fabricação das vacinas contra o Covid-19. É sabido que o Brasil não está em sua melhor fase neste ano de eleições, com o dólar flutuante e o nível de desemprego altíssimo, então essas eleições de 2022 terá uma votação baseada em paixões, diretrizes políticas e polarização. Isso é algo muito perigoso, já que pessoas guiadas pelas paixões tendem a não ver as coisas de uma maneira ampla e global, como a política deve ser vista. As eleições devem ser encaradas como algo sério e que decide literalmente o futuro de todos, onde todos devem exercer seu direito (e dever) de votar, escolhendo democraticamente seu representante. Parafraseando o filósofo Platão, não há nada de errado com as pessoas que não gostam de política; elas simplesmente serão governadas pelos que gostam. E não adianta reclamar depois. Fontes: Vídeo da BBC sobre Rodrigo Chaves: https://www.youtube.com/watch?v=iBixR4n76cU&t=6s Artigo contando sobre a carreira de Rodrigo Chaves: https://costaricamedios.cr/curriculo2022/rodrigochaves Artigo sobre as denúncias de abuso sexual: https://www.crhoy.com/nacionales/las-mil-y-una-excusas-de-rodrigo-chaves-para-capear-escandalo-por-acoso-sexual/ Reportagens sobre as eleições: https://www.elmundo.cr/elecciones-2022/rodrigo-chaves-es-electo-presidente-de-la-republica/ https://cnnespanol.cnn.com/2022/04/04/elecciones-costa-rica-segunda-ronda-candidatos-abstencionismo-orix/ Reportagens sobre Dória e eleições brasileiras: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/04/terceira-via-promete-candidato-unico-para-presidente-em-18-de-maio.shtml https://www.poder360.com.br/eleicoes/eleicoes-2022-conheca-os-11-pre-candidatos-a-presidencia/
- Um novo amanhecer para Colômbia
Neste último domingo (19) finalizou-se a apuração dos votos para eleições presidenciais na Colômbia, com a vitória do atual senador de esquerda Gustavo Petro, ex-membro do movimento guerrilheiro M-19, que em sua campanha prometeu profundas mudanças sociais e econômicas. Petro é o primeiro progressista a vencer as eleições para o executivo na história da Colômbia. Petro venceu o magnata da construção Rodolfo Hernandez com uma margem inesperadamente ampla de mais de 700.000 votos (50,5% contra 47,3%) no que analistas disseram ser uma demonstração da ânsia dos colombianos por esforços para combater a profunda desigualdade. Petro, ex-prefeito da capital Bogotá, prometeu combater a desigualdade com educação universitária gratuita, reformas previdenciárias e altos impostos sobre terras improdutivas. "A partir de hoje a Colômbia muda; a Colômbia é diferente", disse Petro aos torcedores na arena de shows de Bogotá. "A mudança consiste precisamente em deixar para trás o sectarismo. Não é hora de ódio, este governo, que começará em 7 de agosto, é um governo de vida", disse. Milhares de pessoas saíram às ruas em Bogotá para comemorar, com algumas dançando perto de seu maior local de votação sob chuva intermitente. Esta campanha foi a terceira candidatura presidencial de Petro e sua vitória acrescenta a nação andina a uma lista de países latino-americanos que elegeram progressistas nos últimos anos. "Hoje estou votando pela minha filha - ela completou 15 anos há duas semanas e pediu apenas um presente: que eu vote no Petro", disse o segurança Pedro Vargas, 48, entrevistado pela Reuters no sudoeste de Bogotá na manhã de domingo. "Espero que este homem cumpra as esperanças da minha filha, ela tem muita fé em suas promessas", acrescentou Vargas, que disse que normalmente não vota. Francia Marquez, a nova face da Colômbia Francia Marquez, mãe solteira e ex-governanta, será a primeira vice-presidente negra da Colômbia depois que uma votação histórica no domingo viu o país andino escolher seu primeiro presidente de esquerda, Gustavo Petro. Sua ascensão política durante a campanha segue amplas demandas por mudanças e crescente preocupação com temas socioambientais, disse Daniela Cuellar, da FTI Consulting, à Reuters. “A popularidade política de Francia Márquez fez parte de uma tendência na Colômbia onde a população busca uma mudança e onde as questões socioambientais estão se tornando cada vez mais relevantes”, disse ela. Diante de um fundo estampado com a frase "a mudança é imparável", Márquez agradeceu aos apoiadores de toda a Colômbia por ajudarem ela e a campanha de Petro em um discurso transmitido de Bogotá. "Após 214 anos, conseguimos um governo do povo, um governo popular, um governo do povo com as mãos calejadas... o governo dos ninguéns da Colômbia". A nova vice-presidente eleita da Colômbia vem do município de Suarez, uma área rural da província colombiana de Cauca. Cerca de 80% da população de Cauca vive em alguma forma de pobreza. Marquez é uma célebre ativista ambiental cuja oposição à mineração de ouro em seu município natal a fez receber o prestigioso Prêmio Ambiental Goldman em 2018 - bem como ameaças de morte de grupos armados ilegais. Além de servir como vice-presidente da Petro, Marquez está programada para liderar um novo ministério da igualdade para desenvolver suas ideias de melhorar os direitos das mulheres e ajudar a população mais pobre a ter acesso à saúde e à educação. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes: Colombia elects former guerrilla Petro as first leftist president | Reuters Colombia elects first Black woman VP Francia Marquez, who vows to stand for 'nobodies' (devdiscourse.com)
- Especial Resgatando a História: Hiroshima Day
Há 77 anos atrás os Estados Unidos detonaram duas bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente. Os dois atentados mataram entre 130 mil e 226 mil pessoas, a maioria civis, no que é registrado como sendo o único uso documentado de armas nucleares em um conflito armado. No último ano da Segunda Guerra Mundial, os Aliados se prepararam para uma custosa invasão do continente japonês. Este empreendimento foi precedido por uma campanha convencional e de bombardeios incendiários que devastou 64 cidades japonesas. Hoje em dia, uma campanha de devastação dessa proporção seria impensável, simplesmente pela escala. Porém algo pior estava para acontecer, um evento que iria assustar e horrorizar a humanidade por anos. A guerra na Europa terminou quando a Alemanha se rendeu em 8 de maio de 1945, e os Aliados voltaram sua atenção para a região do Pacífico. Em julho de 1945, o Projeto Manhattan dos Aliados havia produzido dois tipos de bombas atômicas: "Fat Man", uma arma nuclear do tipo implosão de plutônio, e "Little Boy", uma arma de fissão do tipo urânio enriquecido. Projeto Manhattan O Projeto Manhattan foi um empreendimento de pesquisa e desenvolvimento durante a Segunda Guerra Mundial que produziu as primeiras armas nucleares. O físico nuclear Robert Oppenheimer foi o diretor responsável do Laboratório de Los Alamos que projetou as bombas. O componente do Exército do projeto foi designado Distrito de Manhattan, pois seu primeiro quartel-general estava em Manhattan e o nome do local gradualmente substituiu o codinome oficial, Desenvolvimento de Materiais Substitutos, para todo o projeto. O Projeto permitiu o desenvolvimento de dois tipos de bombas atômicas, ambas desenvolvidas concomitantemente, durante a guerra: uma arma de fissão relativamente simples e uma arma nuclear do tipo implosão mais complexa. O design do tipo Thin Man mostrou-se impraticável para uso com plutônio, então um tipo de arma mais simples chamado Little Boy foi desenvolvido que usava urânio-235, um isótopo que compõe apenas 0,7% do urânio natural. Por ser quimicamente idêntico ao isótopo mais comum, o urânio-238, e ter quase a mesma massa, a separação dos dois provou ser difícil. Três métodos foram empregados para o enriquecimento de urânio: eletromagnético, gasoso e térmico. Paralelamente ao trabalho com o urânio, houve um esforço para produzir plutônio, que pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, descobriram em 1940. Após a viabilidade do primeiro reator nuclear artificial do mundo, o Chicago Pile-1, o Projeto arquitetou o Reator de Grafite X-10 em Oak Ridge e os reatores de produção em Hanford, no estado de Washington, nos quais o urânio foi irradiado e transmutado em plutônio. O plutônio foi então separado quimicamente do urânio, usando o processo de fosfato de bismuto. A arma do tipo implosão de plutônio Fat Man foi desenvolvida em um esforço conjunto de projeto e desenvolvimento pelo Laboratório de Los Alamos. Bombardeio atômico O consentimento do Reino Unido foi obtido para o bombardeio, conforme exigido pelo Acordo de Quebec, e ordens foram emitidas em 25 de julho pelo general Thomas Handy, chefe do Estado-Maior interino do Exército dos Estados Unidos, para que bombas atômicas fossem usadas contra Hiroshima, Kokura, Niigata e Nagasaki. Esses alvos foram escolhidos porque eram grandes áreas urbanas que também possuíam instalações militares significativas. Em 6 de agosto, um projétil do modelo Little Boy foi lançado em Hiroshima, ao qual o primeiro-ministro Suzuki reiterou o compromisso do governo japonês de ignorar as exigências dos Aliados e continuar lutando. Três dias depois, um Fat Man foi lançado em Nagasaki. Nos próximos dois a quatro meses, os efeitos dos bombardeios atômicos mataram entre 90 mil e 146 mil pessoas em Hiroshima e entre 39 mil e 80 mil pessoas em Nagasaki. Cerca de metade ocorreu no primeiro dia. Durante meses, muitas pessoas continuaram a morrer devido aos efeitos de queimaduras, doenças causadas pela radiação e ferimentos, agravados por doenças e desnutrição. Embora Hiroshima tivesse uma guarnição militar considerável, a maioria dos mortos eram civis. Guerra Nuclear e a diplomacia O papel dos bombardeios na rendição do Japão e as controvérsias éticas, legais e militares em torno da justificativa dos Estados Unidos para eles têm sido objeto de debate acadêmico e popular. Armas atômicas são fundamentalmente imorais, pois não só causam devastação em uma escala enorme, como também criam consequências praticamente permanentes no território atacado, como níveis de radiação, doenças e poluição. Porém, uma visão que foi popularizada pelo historiador americano Gar Alperovitz em 1965, é a ideia de diplomacia atômica, por exemplo o fato de que os Estados Unidos e a URSS usaram armas nucleares como instrumento de intimidação no decorrer da Guerra Fria. Esta ideia de diplomacia atômica persiste até os dias de hoje, como é possível ver nas negociações da Rússia com a OTAN, ou da China com os Estados Unidos. O poderio bélico em seu ápice é representado pelas armas nucleares e em muitos casos argumenta-se que exatamente pela ameaça de devastação nuclear que uma terceira guerra mundial ainda não foi deflagrada. De qualquer forma, hoje relembramos estes tristes acontecimentos para conscientizar e deixar bem claro que bombas atômicas não são nem de longe a resposta para decidir qualquer conflito ou resolver tensões. Na verdade, se uma guerra nuclear um dia se iniciar, é bem provável que será a última guerra da espécie humana. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes: Bombardeio atômico - https://en.wikipedia.org/wiki/Atomic_bombings_of_Hiroshima_and_Nagasaki Projeto Manhattan - https://en.wikipedia.org/wiki/Manhattan_Project
- A crise do gás em 2022
A gigante estatal russa Gazprom, líder mundial em fornecimento de gás e responsável por 12% de toda produção global, anunciou recentemente mais um novo e severo corte na provisão do combustível à Europa. O gás natural é fundamental para os europeus principalmente na fase mais aguda do inverno, onde é utilizado em aquecedores domésticos e industriais. Logo, a crescente escassez do produto na Europa desencadeada, sobretudo, pelo isolamento russo após a invasão na Ucrânia, é motivo de enorme preocupação não apenas pela extrema importância dessa fonte de energia, mas também pelo seu possível impacto nos preços das demais fontes de energia. A dependência europeia do gás russo não é uma novidade e engana-se quem acredita que essa relação comercial começou com o fim da União Soviética. O estreitamento energético entre Europa e Rússia iniciou-se ainda durante a Guerra Fria: gasodutos que atravessavam a Ucrânia sentido à Europa central operam desde os anos 1970, embora o fluxo do combustível para o velho continente tenha se intensificado com o fim do bloco socialista, o que desencadeou um ciclo inédito de abertura comercial no planeta. A condição de produtora superavitária de gás colocou a Rússia na condição natural de fornecedora do produto para a Europa, uma vez que esta não produzia o suficiente para seu consumo. O gás, portanto, na nova conjuntura pós-invasão da Ucrânia, se torna um importante instrumento de um conflito declarado entre Rússia e Europa: mais uma batalha que, ao menos desta vez, se opera no campo econômico e diplomático. No último dia 27 de Julho, a Gazprom anunciou que o Nord Stream 1, gasoduto que liga Rússia e Alemanha pelo mar Báltico, passaria a operar a 20% de sua capacidade. Inaugurado em 2011, o Nord Stream 1 teria uma capacidade de transportar cerca de 55 bilhões de metros cúbicos anuais, mas a drástica redução do fornecimento acompanha as determinações do governo alemão em paralisar a inauguração do Nord Stream 2, que teria potencial de dobrar a entrega do gás na Alemanha. O anúncio do corte preocupou representantes dos Estados europeus, que agora se articulam com os Estados Unidos para reverter os potenciais danos da medida. O que se vislumbra, portanto, é a substituição energética para a já almejada energia renovável, porém, no curto prazo, será o carvão o substituto imediato que deverá atenuar as drásticas consequências da escassez de gás e também do petróleo, do qual a Rússia também é importante fornecedora. Novos compradores do gás russo e a resposta europeia Enquanto isso, a “isolada” Rússia vai encontrando novos interessados na sua energia embargada pelo Ocidente, com destaque para alguns países da Ásia, como China, Índia, Paquistão e Irã. Para estes, a situação representa uma oportunidade que pode representar um novo salto na produção interna de suas economias, uma vez que estamos falando de um setor altamente relacionado ao PIB das nações. Isso explica em parte a resistência dos países em aderir às sanções impostas à Rússia pela Europa e pelo Estados Unidos. A esperança dos europeus, por sua vez, é que no conflito do gás a Europa saia relativamente ilesa, ao menos até este inverno. Em junho o parlamento europeu aprovou um plano de contingenciamento do gás, que na prática visa conter nos estoques o máximo possível do combustível para se antever à pressão da demanda que ocorrerá no inverno. Com a flutuação da demanda para cima, se criaria pressões sobre outras fontes energéticas, o que poderia desencadear maiores dificuldades para o controle da inflação. Portanto, é estratégico para o bloco europeu que seus integrantes juntem forças num mesmo sentido, sabendo da emergência em relação ao setor energético e da gravidade que se encontra a situação do gás e de suas possíveis consequências sobre a inflação. Agir de modo sincronizado, portanto, será vital não só para o equilíbrio econômico do bloco, mas para a resolução de boa parte dos desafios climáticos que as nações (não só europeias) enfrentarão nas próximas décadas. Não se pode perder de vista que tais desafios exigem respostas coordenadas dos países, tomando os Estados a dianteira de tais processos. Reforça-se assim a lição passada pelos antigos economistas que compreendiam o fundamental papel atuante do Estado para a operacionalização e equilíbrio da economia (e isso, evidentemente, inclui o mercado): princípio este que é inviável sob o prisma liberal, onde se repousa a confiança no mercado como protagonista na solução de eventuais crises. As medidas tomadas pelos principais países do bloco europeu sugerem um novo ciclo na política econômica, principalmente no que toca a questão energética, setor caracterizado pelo perfil predominantemente monopolista. O governo Emmanuel Macron, por exemplo, adquiriu 100% das ações da maior empresa de energia do país, a Électricité de France (EDF), demonstrando uma relativa descrença no setor privado para a resolução de situação tão extraordinária como esta que a Europa atravessa no setor energético. O gás e os Estados Unidos Enquanto os países da Europa se movimentam para atenuar os efeitos da falta do gás (e do petróleo), os Estados Unidos também atuam para evitar uma deterioração da situação energética no país. Apesar da promessa de campanha de manter a Arábia Saudita na condição de pária internacional por conta das constantes violações de direitos humanos, a visita do presidente Joe Biden ao país árabe no mês passado, onde se encontrou com o príncipe herdeiro Mohamed Bin Sauman, acusado de ordenar o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, demonstra as prioridades estadunidenses, ou seja, a questão energética sobrepondo a dos direitos humanos. Os esforços dos Estados Unidos junto aos principais produtores de petróleo do mundo surtiram efeito e já se pôde observar uma queda no preço do barril no último mês, consequência do aumento da oferta firmado com os principais membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Isso ocorre pois também haverá efeitos na própria economia doméstica dos Estados Unidos, dado que as sanções impostas à Rússia afetam a oferta dos derivados de petróleo no mercado estadunidense, uma vez que o óleo russo representava, até o início da guerra na Ucrânia, 8% de todo consumo dos Estados Unidos. Todas essas medidas, isto é, a pressão sobre os exportadores de petróleo para aumentar a oferta mundial, acompanhado de ações da Europa em estocar gás para se antever ao inverno do hemisfério norte, são importantes ações dos países para se prevenirem à uma eventual crise energética generalizada, com potencial de prejudicar sensivelmente os preços. Inflação e consequências econômicas A inflação, por sua vez, já anda fortemente instável e atualmente se encontra em patamares comparáveis ao início dos anos 1980, quando o mundo lidava com as consequências das seguidas altas dos juros por parte do Federal Reserve (banco central estadunidense), que a época visava conter a escalada dos preços em decorrência das abruptas elevações do petróleo no final da década de 1970. A leitura que se faz é que num contexto de inflação elevada como ocorre atualmente, desencadeada, sobretudo, pelos desajustes nas cadeias globais de produção em decorrência da pandemia, da guerra na Ucrânia e da consequente elevação dos preços do petróleo, a situação poderia ser agravada com a redução da oferta de gás no momento de elevação da sua demanda na Europa, esperada para o final do ano. Antever-se aos ciclos e atenuar os efeitos esperados já é prática comum nas economias mundo a fora, que tendem a não crer mais nos “superpoderes” do mercado para resolver suas questões sem a participação estatal. A questão energética assim demonstra não se limitar ao campo estritamente mercadológico e evidencia seu caráter central nas questões geopolíticas mundo a fora. Os efeitos da energia sobre a inflação são fartamente documentados e o atual momento da economia brasileira embasa essa constatação. Após sucessivas altas históricas nos preços do mercado, o banco central brasileiro espera entre dois e três meses de deflação, isto é, de queda nos preços. Isso tudo só foi possível depois que a Petrobras reduziu o custo dos derivados (acompanhando a baixa do petróleo no mercado internacional) e da restrição feita pelo governo federal aos impostos estaduais nas bombas. Apesar disso, a política econômica do governo brasileiro, por sua vez, vai no sentido inverso das nações do norte, isto é, aposta num modelo que privilegia a atuação do mercado em detrimento do planejamento estatal, sendo a privatização da Eletrobras mais um capítulo deste processo. É importante denotar o quanto este setor é entendido indispensável tanto nas relações geopolíticas quanto para a capacidade estatal de planejar e se antever a possíveis situações desfavoráveis à economia como um todo. A crise internacional nesse setor, portanto, liga um alerta sobre os rumos da política econômica brasileira que, aparentemente, se mostra em desajuste com o que as nações desenvolvidas vêm realizando. Texto escrito por João Vitor Bortoleto Professor de História e Sociologia; formado em História pela USP e especialista em Humanidades pelo IF-SP. Atualmente é graduando em Ciências Econômicas pela UNIFESP e colunista do “Zero Águia”. Fontes: Corte no fornecimento de gás - EUA dizem que 'maior medo' virou realidade após Rússia cortar fornecimento de gás na Europa | CNN Brasil Eletricidade na Europa - BP 333 - A dança da eletricidade na Europa; ataque na Crimeia (petitjournal.com.br) NordStram 2 - Nord Stream 2 e a luta pelo poder entre Ocidente e Rússia – DW – 06/02/2022 Produtores de petróleo e gás - Ranked: The Largest Oil and Gas Companies in the World (visualcapitalist.com)
- O Censo e sua importância para a sociedade
Contar o número de habitantes é uma prática bastante antiga, que era conduzida com diferentes perspectivas. Por exemplo, em períodos de conflitos e guerras é importante saber quantos habitantes se encaixam no perfil de soldados e estão aptos a serem treinados. Além dessa contagem mais estática, pode-se verificar o movimento da população dentro do território, em razão da descoberta de riquezas naturais e como controlar a extração destas, como quando houve ciclo do ouro e o adensamento da população na região de Minas Gerais. Oficialmente e em escala nacional, o primeiro censo foi realizado em 1872, ainda no período imperial com o intuito de conhecer melhor a população e o perfil demográfico. Desta forma as informações coletadas permitiram identificar um país com mais homens do que mulheres, predominantemente jovem e com algo em torno de 15% da população representada por escravizados. A construção desse perfil estatístico da população serviu a diferentes propósitos, desde os mais práticos como coletar o número de alfabetizados até outros mais intangíveis, como a construção da identidade nacional, dando cara e corpo a população. Foi apenas na República que o censo passou a ser previsto de forma regular, a cada dez anos, embora nem sempre tenha sido executado conforme o previsto, dadas questões conjunturais como guerras, crises econômicas e revoluções. A constância, ainda que irregular durante o século XX, da realização do censo permitiu observar-se fenômenos importantes para a compreensão do Brasil e a necessidade de novas metodologias e tecnologias para processar o volume crescente de dados, tanto pela crescente população quanto pelo adensamento do questionário com perguntas mais abrangentes sobre educação, economia, família e sociedade. Um exemplo importante de transformação observado no período foi a transição da população, antes majoritariamente rural, para os centros urbanos, que ofereciam novas oportunidades e empregos no crescente setor industrial e posteriormente em serviços. Até o censo de 1960, 55% da população brasileira residia em área rural, porém já no levantamento de 1970 há a observação de uma realidade bastante diferente: 56% passaram a residir em áreas urbanas. Tal fato veio acompanhado também da diminuição dos números de analfabetos. O Censo mais recente: 2010 O último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi no ano de 2010. O mundo era bastante diferente do atual. Acabávamos de enfrentar reflexos da crise econômica e financeira de 2008, smartphones e internet móvel de velocidade eram mais próximos de artigos de luxo, inúmeras carreiras e serviços, como digital influencer nem existiam da forma como atualmente. Foi neste censo que os dados passaram a apontar um Brasil mais feminino e menos branco, ainda mais urbano do que o de 2000, embora tenha registrado o crescimento da população na região Norte e Centro Oeste. Este é um indicativo da expansão agrícola e do aumento das cidades médias, locais onde ocorre a conjunção entre área mais rural recebendo fluxo de migrantes e o processo de urbanização pela demanda de novos serviços e tecnologias. O último censo feito pelo governo federal havia sido em 2010 e no intervalo até o que deveria ter ocorrido em 2020 ocorreram coletas de dados com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) e posteriormente da PNAD Contínua, com uma metodologia mais atualizada. Importância e usos mais recentes dos dados Os dados colhidos na PNAD Contínua desde o ano de 2016 adotam uma nova metodologia mais adequada para fazer o acompanhamento de dados que precisam ser trabalhados e divulgados em prazos menores a fim de servir como parâmetro para políticas públicas e processos de decisões no setor privado e público. Uma das informações colhidas e que tem feito parte do cotidiano de muitos é a taxa de desemprego e o nível de renda por domicílio. Ainda na area econômica, acompanhar a evolução das faixas etárias é importante para entender o mercado de trabalho de forma mais ampla. Quantos atingiram idade para fazerem parte da população economicamente ativa (PEA)? Qual o tamanho dessa população e como ela consegue equilibrar o sistema previdenciário? Qualquer proposta de reforma do setor deve necessariamente estar atenta a esse levantamento bem como políticas públicas que aproveitem momentos de "boom" populacional para alavancar a renda média antes do envelhecimento da população. Além de trazer o retrato socioeconômico do país, saber a população de cada município e as faixas etárias mais comuns é importante para definir a distribuição e o calendário de vacinação contra a Covid-19 e demais campanhas de vacinação. Em suma, todas as informações provenientes dos estudos realizados pelo IBGE são uma importante base para a realização de politicas públicas, já que é possível compreender a ocupação do território e as características de cada região e assim definir o alvo e as necessidades intrínsecas. Para todos aqueles que amam dados, mapas e infográficos, fica a sugestão de uma visita ao site do IBGE para ver a quantidade de material produzida a partir dos censos e das demais pesquisas. Texto escrito por João Guilherme Grecco João Guilherme Grecco é formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Fontes: Manual do Candidato CACD: Geografia (2012) Bertha Becker https://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html - Consultado em 25-08-2022 https://censos.ibge.gov.br/ - Consultado em 25-08-2022
- Resgatando a História: 7 de Setembro
No dia 7 de Setembro é celebrado o Dia da Independência, feriado nacional no Brasil. A data comemora a Declaração de Independência do Brasil do Império Português no dia 7 de setembro de 1822. Porém a independência brasileira não é uma ruptura imediata, que aconteceu de um dia para o outro. Na verdade, o processo se iniciou em 1808 e teve sua conclusão por volta de 1825. Napoleão e a família real portuguesa No ano de 1808, tropas francesas comandadas pelo imperador Napoleão Bonaparte invadiram o reino de Portugal como forma de retaliação ao país ibérico por sua recusa em participar do embargo comercial contra o Reino Unido. Incapaz de resistir ao ataque, a família real, representando o governo português, fugiu para o Brasil, que era então a mais rica e desenvolvida das colônias portuguesas. "Nunca algo semelhante tinha acontecido na história de Portugal ou de qualquer outro país europeu. Em tempos de guerra, reis e rainhas haviam sido destronados ou obrigados a se refugiar em territórios alheios, mas nenhum deles tinha ido tão longe a ponto de cruzar um oceano para viver e reinar do outro lado do mundo. Embora os europeus dominassem colônias imensas em diversos continentes, até aquele momento nenhum rei havia colocado os pés em seus territórios ultramarinos para uma simples visita — muito menos para ali morar e governar. Era, portanto, um acontecimento sem precedentes tanto para os portugueses, que se achavam na condição de órfãos de sua monarquia da noite para o dia, como para os brasileiros, habituados até então a serem tratados como uma simples colônia de Portugal." — Trecho retirado da contracapa do livro 1808, de Laurentino Gomes. Em 1815, o príncipe regente D. João VI criou o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, elevando o Brasil à condição de reino subordinado a Portugal, tornando a administração da colônia menos dependente. Com a presença da Família Real Portuguesa no Brasil registrou-se o que alguns historiadores brasileiros denominam de "inversão metropolitana", ou seja, o aparelho de Estado Português passou a operar a partir do Brasil, que desse modo deixou de ser uma "colônia" e assumiu efetivamente as funções de metrópole. Ao fim da Guerra Peninsular em 1814, os tribunais europeus exigiram que a rainha Maria I e o príncipe regente D. João regressassem a Portugal, já que consideravam impróprio que representantes de uma antiga monarquia europeia residissem em uma colônia. Em 1821, com as exigências dos revolucionários que haviam tomado a cidade do Porto, D. João VI foi incapaz de resistir por mais tempo e partiu para Lisboa, onde foi obrigado a fazer um juramento à nova constituição, deixando seu filho, o príncipe Pedro de Alcântara, como Regente do Reino do Brasil. As Cortes portuguesas e o movimento de independência Também em 1821, a Assembleia Legislativa portuguesa determinou que o Brasil retornasse à sua condição anterior de subordinação, assim como o retorno imediato do príncipe herdeiro do trono português. Dom Pedro, influenciado pelo Senado da Câmara do Rio de Janeiro, se recusou a retornar em 9 de janeiro de 1822, na data que ficaria conhecida como Dia do Fico. Em 2 de junho de 1822, Dom Pedro I convocou a primeira Assembleia Constituinte brasileira. Em 1º de agosto, declarou inimigas as tropas portuguesas que desembarcassem no Brasil e, dias depois, assinou o Manifesto às Nações Amigas, justificando o rompimento das relações com a corte de Lisboa e garantindo a independência do país, como reino irmão de Portugal. Em 2 de setembro de 1822, um novo decreto com as exigências portuguesas chegou ao Rio de Janeiro, enquanto D. Pedro estava em viagem a São Paulo. Sua esposa, a princesa Maria Leopoldina, atuando como princesa regente, se encontrou com o Conselho de Ministros e decidiu enviar ao marido uma carta aconselhando-o a declarar a independência do Brasil. A carta chegou a D. Pedro no dia 7 de setembro. No mesmo dia, em cena famosa às margens do Riacho Ipiranga, ele declarou a independência do Brasil, pondo fim aos 322 anos do domínio colonial exercido por Portugal. De acordo com o pesquisador Laurentino Gomes, autor de livro sobre o evento, D. Pedro "não conseguiu esperar a chegada a São Paulo, onde poderia anunciar a decisão". Gomes acrescenta que ele "era um homem temerário em suas decisões mas tinha o perfil do líder que o Brasil precisava na época, pois não havia tempo para se pensar". Um mês depois, em 12 de outubro de 1822, Dom Pedro foi aclamado imperador e, em 1º de dezembro, coroado pelo bispo do Rio de Janeiro, recebendo o título de Dom Pedro I. As províncias da Bahia, do Maranhão e do Pará, que tinham juntas governantes de maioria portuguesa, só reconheceram a independência em 1823, depois de muitos conflitos entre a população local e os soldados portugueses. No início de 1823, houve eleições para a Assembleia Constituinte que elaboraria e aprovaria a Carta constitucional do Império do Brasil, mas, em virtude de divergências com dom Pedro, a Assembleia logo foi fechada. A 1ª Constituição brasileira foi, então, elaborada pelo Conselho de Ministros e outorgada pelo imperador em 20 de março de 1824. Com a Constituição em vigor, a separação entre a colônia e a metrópole foi finalmente concretizada. Reconhecimento internacional e desdobramentos Após conclusão do processo militar em 1823, restou a negociação diplomática do reconhecimento da independência pelas monarquias europeias. O Brasil negociou com a Grã-Bretanha e aceitou pagar indenizações de 2 milhões de libras esterlinas a Portugal num acordo conhecido como Tratado de Amizade e Aliança firmado entre Brasil e Portugal. Interessada em privilégios comerciais e políticos na América, mas sem perder a aliança com Portugal, a Grã-Bretanha mediou as negociações de Pedro I com a ex-metrópole Portugal. Em 1825, a negociação mediada resultou no reconhecimento português e britânico. À semelhança do processo de independência de outros países latino-americanos, o de independência do Brasil preservou o status quo das elites agroexportadoras, que conservaram e ampliaram os seus privilégios políticos, econômicos e sociais. Ao contrário do ideário do Iluminismo, e do que desejava, por exemplo, José Bonifácio de Andrada e Silva, a escravidão foi mantida, assim como os latifúndios, a produção de gêneros primários voltada para a exportação e o modelo de governo monárquico. Com a separação de Portugal, o Brasil deixou de ser parte do Reinado Português e se torna assim uma nação independente. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes: Artigo oficial da Wikipédia sobre a Independência do Brasil: https://pt.wikipedia.org/wiki/Independ%C3%AAncia_do_Brasil Artigo da Wikipédia sobre o dia da Independência: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_da_Independ%C3%AAncia_(Brasil) 1808: História do Brasil / Laurentino Gomes – 1956. – Planeta do Brasil, 2007
- Desastre climático no Paquistão
Desde junho de 2022, grandes inundações estão acontecendo no Paquistão. Elas foram causadas por chuvas de monção mais pesadas do que o normal e derretimento de geleiras que se seguiram a uma severa onda de calor, tudo isso ligado às mudanças climáticas que vem ocorrendo em nosso planeta. Esta é a inundação mais mortal do mundo desde as inundações do sul da Ásia em 2017 e descrita como a pior da história do país. Em 25 de agosto, o Paquistão declarou estado de emergência por causa das inundações. Em 29 de agosto, o ministro das mudanças climáticas do Paquistão disse que cerca de um terço do país estava submerso, afetando 33 milhões de pessoas. O governo do Paquistão estimou a perda de US$ 30 bilhões até agora com inundações em todo o país. Mais de 500 mil casas foram destruídas pelos alagamentos e chuvas, e cerca de 1 milhão de casas foram danificadas. Sindh e Baluchistão são as duas províncias mais afetadas em termos de impacto humano e de infraestrutura. Trabalhadores humanitários alertaram que a falta de água potável causa um aumento de doenças transmitidas pela água suja, como diarréia, cólera, dengue e malária. Mais de 1300 pessoas já morreram devido aos alagamentos nestes últimos três meses, incluindo cerca de 500 crianças. Mais de 600 mil pessoas estão vivendo em acampamentos temporários por causa das enchentes. O ministro das Finanças do Paquistão, Mifta Ismail, disse que "As inundações causaram pelo menos US$ 30 bilhões de danos no Paquistão." Sherry Rehman, a ministra das mudanças climáticas, disse em 29 de agosto que "um terço" do país estava debaixo d'água e que "não havia terra seca para bombear a água", acrescentando que era uma "crise de proporções inimagináveis". Campos agrícolas também foram devastados pela água. Imagens abaixo mostram o antes e depois das enchentes: O que são Chuvas de Monções? As monções demarcam um tipo de variação climática que ocorre na porção sul e sudeste da Ásia, que por isso também é chamada de Ásia das Monções. Trata-se de um fenômeno atmosférico que propicia a ocorrência de intensas chuvas em um período do ano e secas rigorosas em outro. Os ventos de monções caracterizam-se pela variação de sua direção de acordo com a mudança das estações do ano. Ora o seu movimento vai do Oceano Índico para o continente, caracterizando a monção de verão ou marítima, ora vai do continente asiático para o oceano, caracterizando a monção de inverno ou continental. As monções estão se tornando mais intensas e quentes por conta da mudança climática. Todo ano, ao longo de 4 meses, elas trazem 70% das chuvas que caem no subcontinente indiano. Em linhas simples, o verão aquece o ar sobre o continente indiano que se eleva. Isso praticamente puxa o ar úmido do Oceano Índico que também sobe, esfria e precipita com o Himalaia servindo de barreira ao Norte. Na verdade, o sistema é cheio de nuances e raramente a distribuição da chuva é regular – tanto podem desabar tempestades como haver períodos longos sem chuva alguma. Um trabalho que saiu em abril na Earth System Dynamics mostra que está caindo cada vez mais água ao mesmo tempo em que essa variabilidade também está aumentando, tudo por causa da mudança climática. Uma atmosfera mais quente puxa ainda mais água do Índico com picos de precipitação mais acentuados. Outro trabalho, publicado na Earth-Science Reviews em março, mostra que a poeira poluída nas metrópoles indianas contribui para o aumento das fortes precipitações. Derretimento das geleiras do Himalaia O conjunto de montanhas mais altas do mundo é também o mais ameaçado pelos efeitos do aquecimento global. É o que indica uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Leeds, na Inglaterra. O estudo aponta que a cordilheira do Himalaia, que abriga o Everest, tem perdido gelo em velocidade recorde. Segundo os pesquisadores, as geleiras estão derretendo dez vezes mais rápido nas últimas décadas do que a média de derretimento desde a Pequena Era do Gelo, um período de resfriamento da Terra que acabou por volta de 1800. Na prática, isso significa que o Himalaia perdeu cerca de 40% da sua área desde então. Para chegar nessas estimativas, a equipe da Universidade de Leeds usou imagens de satélite e modelos digitais de elevação, simulando qual seria a superfície do gelo entre 400 e 700 anos atrás — e, portanto, concluindo quanto foi perdido. O derretimento “excepcional” do Himalaia, nas palavras dos pesquisadores, também é recorde se comparado ao de outras geleiras do mundo. A título de comparação, a quantidade de gelo que a cordilheira perdeu desde a Pequena Era do Gelo, algo entre 390 km³ e 586 km³, é equivalente a todo o gelo contido hoje nos Alpes da Europa Central, no Cáucaso e na Escandinávia somados. Para os pesquisadores, esse degelo acelerado e desenfreado do Himalaia não pode ser dissociado do aquecimento global. “Nossas descobertas mostram claramente que o gelo está sendo perdido nas geleiras do Himalaia a uma taxa pelo menos dez vezes maior do que a taxa média nos séculos passados. Essa aceleração na taxa de perda surgiu apenas nas últimas décadas e coincide com a mudança climática induzida pela humanidade”, afirma à imprensa Jonathan Carrivick, um dos autores do estudo e chefe adjunto da Escola de Geografia da Universidade de Leeds. Esse gelo todo, é claro, acaba se convertendo em líquido. A estimativa é que esse derretimento das geleiras do Himalaia nos últimos séculos tenha elevado entre 0,92 milímetros (mm) e 1,38 mm o nível do mar em todo o mundo. Como ajudar? Doações estão sendo arrecadadas por organizações sem fins lucrativos, tais como a Alkhidmat e a Cruz Vermelha, além do ACNUR da ONU. Abaixo estão os links das campanhas de doação: Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes: Artigo oficial da Wikipédia sobre as enchentes do Paquistão: https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Pakistan_floods Artigo da Al-Jazeera: https://www.aljazeera.com/economy/2022/9/7/after-record-floods-now-pakistan-has-to-worry-about-economy Monções: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/moncoes.htm https://climainfo.org.br/2021/06/23/o-aquecimento-global-esta-alterando-as-moncoes-do-sul-da-asia/ Geleiras: https://revistagalileu.globo.com/Um-So-Planeta/noticia/2021/12/geleiras-do-himalaia-derretem-em-taxa-recorde-desde-pequena-era-do-gelo.html
- A Onda de Independência - Por que a América Latina se dividiu e o Brasil se manteve unido?
Você sabia que basicamente toda a América Latina sofreu o processo de independência no mesmo período? Inclusive, que uma parte desses países tem apenas um ou dois anos de diferença em relação ao processo de independência no Brasil? Agora, vamos falar sobre a relação entre os países nesse processo tão importante, se não o mais, da história latina. Colonização Espanhola versus Colonização Portuguesa Como vemos na imagem, um dos países que proclamou sua independência um ano antes do Brasil, exatamente no dia 15 de setembro de 1821, foi a Costa Rica, na América Central. O pequeno país, com menos de 6 milhões de habitantes, foi um dos que participaram desse processo, porém eles proclamaram a independência da coroa espanhola. Nessa época, os criollos, filhos e descendentes dos espanhóis nascidos nessa parte da América, lutaram por sua independência porque, mesmo tendo tantos bens e dinheiro, não tinham a mesma posição perante a sociedade espanhola que os nobres espanhóis. Esse foi um dos motivos. Um ano depois desse movimento, o Brasil completa seu processo de independência, com o jovem Dom Pedro I liderando o movimento independentista, contrariando o que seu pai e seu país de origem queriam (como falamos em nosso artigo "Resgatando a história: 7 de Setembro". Por que o Brasil se manteve unido e a América Latina se separou nesse processo? O Brasil, com seu tamanho continental, esperava-se que sofresse um grande processo separatista, assim como aconteceu na outra parte da América. Mas não foi dessa maneira. Por quê? O Brasil teve, durante um período, o rei de Portugal vivendo em seu território, já que o mesmo fugiu do seu país devido às invasões napoleônicas. Claro, ele fugiu com sua corte, mais ou menos 15 mil pessoas, para sua colônia mais próspera. O rei Dom João VI criou seu filho Pedro no Brasil, e o grande amor de Pedro pelo país resultou em sua independência. Mas, apesar da rebeldia que incitou esse processo, a elite luso-brasileira era muito cuidadosa em seus passos. No período pós independência essa questão de manter a ordem social perante os escravos era um tema muito discutido. Nessa época do movimento independentista, existiam mais negros escravizados no Brasil do que nobres ou trabalhadores com renda. O medo que os nobres tinham era de que os escravos se rebelassem, assim como aconteceu no Haiti - já que os negros haitianos proclamaram sua independência. E esse medo era maior do que sua vontade de se rebelar contra a coroa, ou de se rebelar contra qualquer outra coisa. Eles queriam manter seu status quo. Além do medo de rebelião interna e a presença de um monarca no país, a Igreja tinha seu poder centralizado no arcebispado na Bahia, assim fortalecendo a união do país. O país também era dividido em capitanias gerais, sendo que as principais estavam em cidades costeiras, como o Recife, Salvador e o Rio de Janeiro, por causas de seus portos. No Brasil não existiam universidades, quem podia estudar, ia para Coimbra, dessa maneira criando um laço com o país colonizador. O fato de o Brasil ter um poder maior, o rei, a união da população e a Igreja para um bem comum, foram alguns dos motivos que mantiveram o país unido. Para o Brasil, de uma maneira geral, era melhor que se mantivesse em um único território. Já as colônias espanholas tinham inúmeros motivos para não se manterem unidas. Primeiramente, as colônias eram proibidas de praticarem o comércio entre si, ou seja, não mantinham nenhum laço que as aproximassem. Além de seu território ser muito extenso, "quebrado", as colônias tinham cinco arcebispados; assim todos queriam ter o comando nas regiões conforme o que achavam melhor: isso não facilitava a união das pequenas capitanias. Ainda havia o fato de existirem algumas universidades nas colônias espanholas, como a Universidade do Peru. Ou seja, os criollos desenvolviam seu pensamento crítico e intelectual dentro de seu próprio território. Nas terras espanholas, os peninsulares, pessoas nascidas na Espanha, ocupavam os cargos de mais prestígio, ou seja, os cargos públicos. Já os criollos, apesar de terem muitas posses, estavam perdendo espaço no poder local. Dessa forma, os nascidos em terras latino-americanas organizaram o movimento de independência. Ambas as colônias estavam sob o poder das coroas europeias já citadas: o lado espanhol do continente estava com a dinastia Bourbon e o lado português estava com a dinastia Bragança. Ambas também eram muito exploradas e tinham as suas riquezas levadas para os países europeus. Mas o ponto crucial dessa história é que Dom João VI, quando foi para o Brasil fugindo de Napoleão Bonaparte, fez o que nunca outro monarca tinha feito: Foi viver em uma colônia, trazendo consigo órgãos públicos importantes de Portugal para o Rio de Janeiro, como os arquivos da monarquia e a biblioteca. Assim, por todas as questões vistas e, mais que isso, o desejo de manter uma ordem social baseada em uma monarquia unificada, afim da manutenção do poder em uma pequena elite luso-brasileira, o Brasil manteve a união de seu território, apesar de algumas revoltas internas que almejavam o separatismo em algumas capitanias. Texto escrito por Caroline Prado Professora de Cultura Brasileira e Português para Estrangeiros, internacionalista, estudante de Filologia e Línguas Latinas, Embaixadora do Projeto Libertas Brasil na Costa Rica, apaixonada por plantas, livros e fontes confiáveis. Fontes: http://c.files.bbci.co.uk/668C/production/_103325262_americas-devided-night.jpg https://www.cervantesvirtual.com/images/portales/constituciones_hispanoamericanas/graf/ mapas/01-mapa_independencia_paises_de_america_latina_01_s.jpg https://www.youtube.com/watch?v=8gM6WJ-ED9A&t=3s https://www.freepik.es/fotos-vectores-gratis/america-latina
- ODS Objetivo 03 – Saúde e Bem-estar
O sucesso da aplicação dos protocolos de produção e distribuição da vacina da COVID-19 Se analisarmos os protocolos do projeto inicial da ODM e ODS sendo executados na pandemia de COVID-19, podemos dizer que houve um grande sucesso. Pensar que do momento em que mundo considera que a COVID é uma pandemia, até a criação das vacinas e as mesmas começarem a ser aplicadas nos braços dos seres humanos, tudo durou menos de um ano. Isso demonstra que esses objetivos são possíveis, sendo que nesse cenário o que mais dificultou para que os protocolos estabelecidos a mais de duas décadas fossem cumpridos de forma eficaz foi a falta de compromisso e as atitudes de alguns líderes mundiais. Constatando os pontos mais cruciais desses projetos que foram executados nesse período podemos apontar os objetivos abaixo: Deter e diminuir a incidência da malária e outras doenças; Desenvolver a fundo um sistema financeiro e comercial que seja aberto, baseado em regras, previsível e não discriminatório; Em parceria com a indústria farmacêutica, prover acesso a medicamentos essenciais nos países em desenvolvimento; Em parceria com o setor privado, tornar disponível os benefícios das novas tecnologias, em especial tecnologias de informação e comunicação; Atingir a cobertura universal de saúde, incluindo a proteção do risco financeiro, o acesso a serviços de saúde essenciais de qualidade e o acesso a medicamentos e vacinas essenciais seguros, eficazes, de qualidade e a preços acessíveis para todos; Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas e medicamentos para as doenças transmissíveis e não transmissíveis, que afetam principalmente os países em desenvolvimento, proporcionar o acesso a medicamentos e vacinas essenciais; Aumentar substancialmente o financiamento da saúde e o recrutamento, desenvolvimento e formação, e retenção do pessoal de saúde nos países em desenvolvimento, especialmente nos países menos desenvolvidos e nos pequenos Estados insulares em desenvolvimento; Reforçar a capacidade de todos os países, particularmente os países em desenvolvimento, para o alerta precoce, redução de riscos e gerenciamento de riscos nacionais e globais de saúde. Então para aqueles que insistem em desacreditar a qualidade das vacinas por terem sido produzidas e distribuídas em menos de um ano de quando a COVID-19 se espalhava em escala global, saibam que esses protocolos e protótipos de vacinas e medicamentos estavam sendo estudados e produzidos há pelos menos duas décadas. E o resultado disso são as vacinas produzidas contra o Coronavírus com diferentes técnicas: Vacinas produzidas com vírus inativos, que foram desenvolvidas a cerca de 70 anos, metodologia utilizada pelo o Instituto Butantã; Vacinas com RNA mensageiro, uma tecnologia mais moderna, entretanto, os estudos sobre RNA datam desde 1970 e já buscavam a possibilidade de utilizar o RNA em vacinas. Em 2005, ocorreram grandes descobertas que possibilitaram a criação das vacinas da Pfizer/BioNtech; Vacinas de vetor viral, já utilizadas no Brasil desde 1983 nas vacinas de Hepatite B. Essa metodologia foi utilizada nas vacinas produzidas no Brasil pelo Instituto Biocruz e a Janssen da Jhonsons & Jhonsons; E temos a produção de vacinas pelo método proteicas subunitarias que foi produzida pela Farmacêutica Americana Novavax, as quais não foram aplicadas no Brasil, porém podemos ver essa metodologia sendo utilizada nas vacinas Hepatite B e HPV que já estão inclusas na lista de vacinas obrigatórias nacional a pelos menos três décadas. Então para que fosse garantida essa troca de informação dos estudos, além da produção e distribuição dessas vacinas, foram acionados os protocolos que vêm sendo adotados, estudados e atualizados há pelo menos vinte anos caso ocorresse uma pandemia dessa proporção. Lembrando que, em tempos “normais” os financiamentos e investimentos para essa área são colocados sempre em segundo planos. Um exemplo disso é que antes de João Doria se tornar o “garoto propaganda” da CORONAVAC e o defensor ferrenho do Instituto Butantã, foi um dos prefeitos que mais criticava e cortava verba tanto do Butantã quanto das bolsas de ciências da USP, onde o plano do PSDB era sucatear e privatizar essas instituições que demonstraram grande valor durante a pandemia. Durante muitos anos o Brasil foi case de sucesso no Know-how de erradicação de doenças e vacinação em grande escala. E mesmo lutando contra a maré da má administração vindo do executivo, conseguimos, através principalmente dos seus servidores técnicos concursados, realizar de forma efetiva a vacinação em um país de proporções continentais. Por isso lembre-se que todo investimento que é feito em pesquisas e nos objetivos 03 da ODS sempre é feito para mitigar condições como a que passamos com a pandemia de COVID-19. Analisando como um todo as propostas idealizadas no começo do novo milênio e colocadas em práticas durante a pandemia, observamos que foi possível começar a vacinação nos indivíduos em menos de um ano, enfrentando o descaso de muitos líderes políticos, portanto pode-se dizer que o objetivo 03 da ODS foi completado com grande sucesso, inclusive com análises dos processos empíricos do que funciona e o que não funciona para um projeto executivo futuro. Objetivo 3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades 3.1 Até 2030, reduzir a taxa de mortalidade materna global para menos de 70 mortes por 100.000 nascidos vivos; 3.2 Até 2030, acabar com as mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos, com todos os países objetivando reduzir a mortalidade neonatal para pelo menos 12 por 1.000 nascidos vivos e a mortalidade de crianças menores de 5 anos para pelo menos 25 por 1.000 nascidos vivos; 3.3 Até 2030, acabar com as epidemias de AIDS, tuberculose, malária e doenças tropicais negligenciadas, e combater a hepatite, doenças transmitidas pela água, e outras doenças transmissíveis; 3.4 Até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis via prevenção e tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar; 3.5 Reforçar a prevenção e o tratamento do abuso de substâncias, incluindo o abuso de drogas entorpecentes e uso nocivo do álcool; 3.6 Até 2020, reduzir pela metade as mortes e os ferimentos globais por acidentes em estradas; 3.7 Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo o planejamento familiar, informação e educação, bem como a integração da saúde reprodutiva em estratégias e programas nacionais; 3.8 Atingir a cobertura universal de saúde, incluindo a proteção do risco financeiro, o acesso a serviços de saúde essenciais de qualidade e o acesso a medicamentos e vacinas essenciais seguros, eficazes, de qualidade e a preços acessíveis para todos; 3.9 Até 2030, reduzir substancialmente o número de mortes e doenças por produtos químicos perigosos, contaminação e poluição do ar e água do solo; 3.a Fortalecer a implementação da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco em todos os países, conforme apropriado; 3.b Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas e medicamentos para as doenças transmissíveis e não transmissíveis, que afetam principalmente os países em desenvolvimento, proporcionar o acesso a medicamentos e vacinas essenciais a preços acessíveis, de acordo com a Declaração de Doha, que afirma o direito dos países em desenvolvimento de utilizarem plenamente as disposições do acordo TRIPS sobre flexibilidades para proteger a saúde pública e, em particular, proporcionar o acesso a medicamentos para todos; 3.c Aumentar substancialmente o financiamento da saúde e o recrutamento, desenvolvimento e formação, e retenção do pessoal de saúde nos países em desenvolvimento, especialmente nos países menos desenvolvidos e nos pequenos Estados insulares em desenvolvimento; 3.d Reforçar a capacidade de todos os países, particularmente os países em desenvolvimento, para o alerta precoce, redução de riscos e gerenciamento de riscos nacionais e globais de saúde. Texto escrito por Camila Bellato Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Fontes https://saude.abril.com.br/medicina/uma-conversa-com-katalin-kariko-cientista-por-tras-das-vacinas-de-rna/ https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/4-tipos-de-vacinas-e-o-uso-delas-contra-a-covid-19/ https://www.cartacapital.com.br/politica/projeto-de-Doria-preve-extincao-de-empresas-publicas-e-retirada-de-verba-de-universidades/ https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/3 https://brasil.un.org/pt-br/66851-os-objetivos-de-desenvolvimento-do-milenio
- Breve Histórico das Eleições Brasileiras
Em ano eleitoral alguns termos ganham mais destaque no cotidiano dos noticiários, como por exemplo TSE (Tribunal Superior Eleitora), urnas eletrônicas e voto secreto. Mas como foram as evoluções do nosso sistema eleitoral e do voto até chegarmos aqui, as eleições de 2022? Este artigo tem como objetivo explorar de forma mais extensiva o histórico das eleições brasileiras e a evolução do processo eleitoral durante a República. A Primeira República e Vargas Com a República e a constituição de 1891 definiu-se que o voto seria universal, sem censo econômico, mas que estariam excluídos os analfabetos, os mendigos e os praças militares. As mulheres não eram expressamente citadas na lei, então o direito ao voto era bastante discutível e acabava por ser impedido até pelo menos 1928. Cabe ressaltar que a primeira eleição para presidente e vice-presidente, de chapas separadas, foi realizada de forma indireta. Também ficou decidido que cada Estado teria autonomia para elaborar sua propria legislação eleitoral, um quadro que ressaltava as diferenças regionais e a preponderância da vontade dos civis pela autonomia dos Estados. Nessa perspectiva de autonomia, as comissões distritais continuavam a existir e eram as responsáveis por registrar os eleitores. Eram compostas por autoridades locais e, por deterem o poder de decidir quem estava apto a votar, geravam suspeitas de fraudes em favor de grupos já estabelecidos no poder, enfraquecendo a oposição. Foi apenas em 1916 que essa responsabilidade foi transferida para o poder judiciário, a fim de evitar fraudes locais no alistamento. Apesar da forte presença militar, alguns partidos detinham enorme poder e apoio, sendo um deles o Partido Republicano Paulista (PRP). Este apoiava o vice-presidente, militar, por acreditar que ele traria segurança para a recém-inaugurada República e em troca oferecia-se como base para a governabilidade. O governo de Floriano Peixoto foi bastante conturbado, sobretudo pelas discussões sobre a constitucionalidade da sua permanência no cargo e a manifestação dos seus apoiadores para que ele voltasse ao poder. Nesse contexto houve o rompimento entre o PRP e Floriano e nas eleições de 1894 foi eleito Prudente de Moraes, dando início ao periodo de forte participação das oligarquias de alguns Estados na República. Como ainda existiam as restrições de participação nas eleições, apenas 2,2% da população pôde votar na eleição presidencial de 1894. Em 1932, dando continuidade ao movimento de aperfeiçoamento do sistema eleitoral, foi criada a Justiça Eleitoral que se tornaria responsável por todas as etapas da organização e fiscalização de eleições, sendo um orgão especializado dentro do poder judiciário. Também houve a promulgação de um novo Código Eleitoral e este trazia a previsão de voto secreto, um sistema representativo proporcional. Embora tenha apresentado avanços, ainda existiam falhas no Código, como manter a exclusão de analfabetos, mendigos e praças militares. Neste novo Código Eleitoral, finalmente foi incluído o direito feminino ao voto de forma explícita. Figuras como Bertha Lutz foram fundamentais para essa mudança. Cabe ressaltar que esse período da história vem sendo discutido por diversos estudiosos e estudiosas com o intuito de mostrar a complexidade dessas alianças. Uma das autoras proeminentes sobre o periodo é Claudia Viscardi. Eleições pós 2ª Guerra Mundial e período democrático Um outro momento interessante da nossa história eleitoral e que mostrou as dificuldades da formação de coligações partidárias foi nas eleições de 1951. Dutra, do Partido Social Democrático (PSD) era mais conservador e havia se aproximado da União Democrática Nacional (UDN) até para estabelecer uma base mais sólida no congresso apesar destes fazerem oposição ao getulismo, corrente presente no PSD. O PSD lança a candidatura de Cristiano Machado enquanto a UDN fazia pressão para que Vargas fosse impedido de concorrer, “se concorresse não ganhasse e se ganhasse não assumisse”. Entretanto o Partido Trabalhista Brasileiro lança a candidatura de Vargas e o PSD ficou em uma situação estranha: ter um candidato próprio e ao mesmo tempo apoiar outro, essa situação acabou ficando conhecida como a “Cristianização” já que o candidato abandonado era Cristiano Machado. Dessa forma PTB e PSD buscavam fazer frente a UDN. Vargas acabou eleito novamente. Outra característica eleitoral que causou certa instabilidade na República era a eleição separada para presidente e vice-presidente. As eleições de 1960 tiveram como vencedores Jânio Quadros, do pequeno Partido Trabalhista Nacional (PTN) coligado com uma série de partidos menores de direita e a UDN, e João Goulart do PTB. Na prática foi como se as duas coligações opositoras tivessem obtido os cargos do executivo federal e a já conturbada relação entre Direita e Esquerda ajudou a instabilidade política quando Jânio renunciou e o vice deveria assumir. Pode-se dizer que foi parte do problema que levaria mais tarde ao golpe militar e a ditadura. Ditadura Durante o período da ditadura militar o processo eleitoral esteve suspenso durante longos períodos, a escolha de governadores e prefeitos ocorreu de forma indireta por diversas vezes ao longo do período, bem como a extinção de partidos e a formação do sistema bipartidário com o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Sempre que havia algum movimento eleitoral que causaria o enfraquecimento ou perda de controle de uma região por parte do Regime, algo era modificado para tentar conter o movimento. Foi assim que em 1977 criaram a figura do “Senador Biônico” dentro do Pacote de Abril em resposta a derrota eleitoral no senado em 1974 e as municipais de 1976. Redemocratização Após a redemocratização ocorreram novas atualizações do sistema eleitoral: a unificação do registro dos eleitores em um sistema centralizado para, entre outras coisas, coibir as fraudes relacionadas aos registros duplicados em diferentes Estados ou o uso contínuo de “eleitores mortos”. Conjuntamente houve a informatização do sistema de apuração, mesclando o voto em cédula de papel com a apuração realizada com máquinas mais sofisticadas. Este foi um passo no que futuramente veio evoluir para o uso de urnas eletrônicas. O sistema vem sendo aprimorado com novos testes e tecnologias para manter a segurança e agilidade do processo eleitoral, como por exemplo a inclusão da biometria e a evolução do codigo fonte e dos testes conduzidos por especialistas ao longo dos anos. A urna eletrônica também permitiu agilizar o processo de apuração, o que demandaria cada vez mais tempo e recursos causado pelo aumento do eleitorado. Apenas no periodo entre 2000 e 2022 passamos de aproximadamente 109 milhões de eleitores para 156 milhões. Conclusão Ainda existem muitas mudanças que merecem ser discutidas, como por exemplo o que fazer com cidadãos que ocupam um cargo, seja eletivo ou concursado, que pode influenciar diretamente no processo eleitoral e que decidem sair destes para concorrerem a eleição? Alternar eleições presidências e parlamentares para aumentar o senso de freios e contrapesos entre os poderes? Fica aqui o questionamento. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Fontes História do Brasil. Boris Fausto Teatro das Oligarquias. Claudia Viscardi Manual do Candidato CACD História. João Daniel https://www.tse.jus.br/hotsites/catalogo-publicacoes/pdf/tse-eleicoes-no-brasil-uma-historia-de-500-anos-2014.pdf Acessado em 18-09-2022.
- Mulheres, tecnologia e empoderamento
No auge da corrida espacial travada entre Estados Unidos e Rússia durante a Guerra Fria, uma equipe de cientistas da NASA, formada exclusivamente por mulheres afro-americanas, provou ser essencial para a vitória dos Estados Unidos, liderando uma das maiores operações tecnológicas registradas na história americana e se tornando verdadeiras heroínas da nação. Este é o enredo do filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures em inglês, ou Elementos Secretos em português de Portugal), lançado em 2016, estrelado por Taraji P. Henson como Katherine G. Johnson, Octavia Spencer como Dorothy Vaughan e Janelle Monáe como Mary Jackson, além das participações de Kevin Costner e Kirsten Dunst, sob a direção de Theodore Melfi. Observando a produção com um olhar crítico e superando alguns exageros de Hollywood, nota-se algumas bandeiras muito importantes para nossa sociedade atual: empoderamento feminino de mulheres negras num ambiente social efervescente de luta pelos direitos civis nos Estados Unidos da década de 60. Válido ressaltar que estas mulheres estiveram envolvidas com a finesse da ciência e tecnologia, englobando matemática, física e engenharia espacial dentro do programa da corrida espacial do Estados Unidos. A grandiosa história das senhoras Johnson, Vaughan e Jackson inspiraram movimentos pós filme para a discussão/fomento do STEM (sigla em inglês para Science, Technology, Engineering, e Mathematics). Algumas instituições de caridade, institutos e empresas independentes consideram o filme relevante para a causa da conscientização dos jovens na educação e nas carreiras nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Sendo assim, foram organizadas exibições gratuitas do filme para divulgar a mensagem do assunto do filme. Um esforço colaborativo entre o Western New York STEM Hub, a AT&T e as Girl Scouts dos Estados Unidos (movimento de escotismo) permitiu que mais de 200 alunos da Buffalo Public School, escoteiras e professores vissem o filme. Entre os objetivos do evento, destaca-se o incentivo de uma nova geração de mulheres a considerar as carreiras STEM. Pesquisas indicam que existem mais de 2,4 milhões de empregos STEM não preenchidos. Ainda nesta esteira, as principais atrizes do filme (Henson, Spencer, Monáe e Parsons), diretor (Melfi), produtor/criador musical (Williams) e outros grupos externos sem fins lucrativos ofereceram exibições gratuitas em vários locais de cinema ao redor do mundo. Algumas das exibições foram abertas a todos os participantes, enquanto outras foram organizadas para beneficiar meninas, mulheres e pessoas desfavorecidas. A campanha começou como ativismo individual de Spencer e disponibilizou um total de mais de 1.500 lugares, gratuitamente, para indivíduos e famílias pobres. O resultado foram mais 7 exibições em várias cidades dos Estados Unidos, visando oferecer a oportunidade para pessoas que de outra forma não teriam condições de ver o filme da 20th Century Fox. Em 2019, a Walt Disney Company fez parceria com o Departamento de Estado dos EUA no terceiro programa anual de intercâmbio "Hidden No More", que foi inspirado no filme e traz para os Estados Unidos cinquenta mulheres de todo o mundo que se destacaram em carreiras STEM como engenharia de espaçonaves, soluções de dados, privacidade de dados e educação relacionada a STEM. O programa de intercâmbio começou em 2017, depois que as embaixadas locais dos EUA exibiram o filme para suas comunidades locais. O retorno das exibições foi tão positivo que 48 países decidiram nomear uma mulher com destaque nas áreas de STEM para representar seu país em um programa de intercâmbio de três semanas nos Estados Unidos. Reforçando o conceito, STEM refere-se habitualmente à políticas educacionais e escolhas curriculares para melhorar a competitividade no desenvolvimento da criatividade e da crítica através da ciência e tecnologia. Este acrônimo possui variações tanto nas letras que o compõem quanto na forma de aplicação ao redor do globo, entretanto, compartilham de um conceito comum de uso de tecnologia e ciências num formato mais moderno e orientado a projetos (ou desafios) e modelos de negócio de mercado, a fim de proporcionar aos estudantes uma visão mais holística e prática dos ensinamentos acadêmicos. O STEM education tem como bandeira levar para a sala de aula temas contemporâneos da ciência e tecnologia, buscando incorporar algo que até poucos anos atrás não fazia parte do vocabulário do professorado: computação, robótica, programação, engenharia, tecnologia, design, ambientes virtuais, aplicativos, smartphones, games e assim por diante. Tal incorporação tem gerado efeitos positivos no ensino de ciências: há um esforço, muitas vezes bem-sucedido, do ensino de ciências estar constantemente atualizado e ligado na inovação, mas sem perder de vista alguns de seus conceitos bases. O outro efeito, e que extrapola a dimensão curricular, é o de promover iniciativas de aperfeiçoamento profissional e formação de professores. Válido ressaltar que o modelo também tem suas falhas e uma das críticas remete a uma possível visão simplista ou limitada do que compõe um currículo integrado, porque tratam sobre temas das quatro áreas, mas não estabelecem relações entre ou além deles e ignoram a história das propostas de integração curricular. Além disso, algumas dessas iniciativas colocam para escanteio as artes e ciências humanas, e mesmo aquelas que se propõem a integrar as artes e advogam pelo uso do termo STEAM (Science, Technology, Engineering, Arts, and Mathematics) são criticadas por fazerem das Artes uma ferramenta de suporte e não verdadeiramente um campo do conhecimento integrado. Outro ponto de crítica é que as propostas STEM são fundamentadas no otimismo tecnológico, uma visão positivista, determinista e neutralista da ciência. Há a crença de que a ciência é ideologicamente neutra e livre de interesses, e ignora-se a sua natureza controversa e social, bem como aspectos da natureza e filosofia da ciência. Geralmente as propostas STEM education procuram relacionar as atividades escolares com as práticas profissionais. Em outras palavras, o movimento sendo ligado a uma demanda do mercado de trabalho traz como principal consequência a concepção da escola como sendo um processo de preparação para a vida profissional e para atender as necessidades da economia, ou seja, um modelo tecnicista de escola. Em resumo, é preciso pensar no STEM education como fruto de uma tendência do nosso tempo, trazendo consigo as marcas positivas e negativas vivenciadas pela educação atualmente. De qualquer maneira, o filme Estrelas Além do Tempo trouxe luz à esta discussão, incentivando a reflexão e fomentando um conceito educacional e de empoderamento importante para nossa sociedade. Detalhes do filme: Filme: Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures/Elementos Secretos) Elenco: Taraji P. Henson (Katherine G. Johnson), Octavia Spencer (Dorothy Vaughan), Janelle Monáe (Mary Jackson), Kevin Costner (Al Harrison), Kirsten Dunst (Vivian Mitchell), Mahershala Ali (coronel Jim Johnson) Diretor: Theodore Melfi Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=wx3PVtrU-Os Trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=LiTnod19J8c&list=OLAK5uy_k0nQ2VPs9uxCHip0VXYZODSEat3qLJNLY Avaliação IMDB: https://www.imdb.com/title/tt4846340/?ref_=nv_sr_srsg_0 (7.8) Avaliação Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/hidden_figures Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Referências: https://porvir.org/stem-o-movimento-as-criticas-e-o-que-esta-em-jogo/ https://pt.wikipedia.org/wiki/Hidden_Figures https://en.wikipedia.org/wiki/Hidden_Figures
- China: uma história contada em HQ
“O rio, vasto como uma onda do mar. As margens, sob o vento perfumado das flores de arroz. É aí, nessa margem que eu moro e que escuto as ordens dos timoneiros” (Canção popular chinesa). Os mais de 5 mil anos de história da China guardam muitos eventos importantes, mas nenhum se compara às consequências da revolução comunista de 1949 para o mundo contemporâneo. Neste texto, acompanharemos a vida de Xiao Li e sua família por meio da HQ Uma Vida Chinesa de Li Kunwu e P. Otié. A China construiu uma tradição muito enraizada em seu povo, o que foi fundamental para a preservação de sua identidade. Mesmo a revolução cultural, promovida por Mao-Tse Tung (Mao Zhuxi Wansui), após os primeiros anos da revolução, não foi capaz de destruir os alicerces tradicionais dos povos chineses, já que se trata de um país multiétnico. A história A revolução comunista, ocorrida em 1949, pôs fim ao governo Kuomintang, liderado pelo Partido Nacionalista de Chiang Kai-shek e, pouco antes, já havia expulsado os japoneses de sua ocupação na Manchúria. As forças conservadoras do Partido Nacionalista fugiram da China continental e fundaram a República da China na ilha de Taiwan. A revolução, por sua vez, instituiu a República Popular da China, liderada por Mao Tsé-Tung. É aqui que começa a história narrada na HQ Uma Vida Chinesa. A obra é dividida em 3 volumes: I. O tempo do pai; II. O tempo do partido; III. O tempo do dinheiro. O tempo do pai conta a história da era Mao, o plano do grande salto adiante, a fome extrema e a revolução cultural. O pai de Xiao Li, Li Yunwu, foi uma liderança comunista importante no processo revolucionário e se manteve fiel à revolução, mesmo após passar 10 anos detido em um dos Centros de Reeducação estabelecidos pela revolução cultural. Neste texto me deterei ao Tempo do partido pois, é neste volume que entendemos melhor as reformas promovidas na sociedade chinesa após a morte do “grande timoneiro” em 1976. O pai de Xiao Li foi libertado do centro de reeducação. O jovem Li trabalha para o partido comunista e sonha em seu aceito como membro oficial. Contudo, o contexto é de disputa interna no Partido Comunista Chinês (PCC). Os personagens revelam uma grande reverência pelo líder Mao, mas o desejo de mudança e renovação começou a contagiar a população. Esse desejo foi defendido pela ala Gaigepai, cuja representação se dava por Deng Xiaoping. O lado conservador do PCC era representado pelos Fangepai, fiéis ao presidente Hua Guofeng. A história real e a dos quadrinhos nos ensina que os renovadores ganharam a disputa e que a China deve a essa abertura seu desenvolvimento atual. A propaganda, na qual trabalhava Xiao Li, teve um papel muito importante nesse processo e em seus objetivos pessoais. Em uma das cenas da HQ, vemos um grande painel onde se lê: “Fortaleçamos a defesa nacional, defendamos as 4 modernizações: da indústria, da agricultura, da ciência e da defesa”. (Li; Otiê, 2016, p.131). A saga da China por seu desenvolvimento é acompanhada pela do personagem em busca de se tornar digno de sua família e pátria. O tempo do dinheiro é um mergulho quase antropológico na China moderna. A geração das mudanças ocorridas a partir da década de 1980 viu os chineses migrarem para as cidades, construírem megalópoles e se tornarem o motor do desenvolvimento mundial, às custas de uma grande exploração do trabalho, mas visto pelos chineses como um sacrifício para devolver a China ao seu lugar histórico: a maior nação do mundo. Enquanto isso, os jovens chineses herdam um país desenvolvido e moderno, o que provoca uma profunda transformação cultural e de expectativas do futuro. Será que o modelo chinês resiste às mudanças históricas? A HQ Uma Vida Chinesa de Li Kunwu e P. Otiê é uma excelente obra para compreendermos os desafios geopolíticos globais. Um desses desafios é a disputa que a República Popular da China tem com Taiwan. A ilha, que reivindica independência, é o refúgio dos herdeiros do Kuomintang e possui uma ligação forte com o ocidente. Isso justificou as recentes visitas do grande escalão do governo estadunidense a Taiwan. Para o PCC, Taiwan é parte da China e sua separação representaria grande risco para a integração nacional. Os objetivos do governo chinês dependem da coesão e ordem do país, segundo o PCC. Há outros inúmeros desafios: o crescimento indiano, as disputas pelo mar do sul da China, a hostilidade japonesa e australiana, a questão demográfica e, a mais importante, as confrontações com os Estados Unidos da América. Nada disso pode ser compreendido sem um conhecimento mínimo da história recente da China. Notas 1] Timoneiro era o nome dado aos seguidores de Mao Tse-Tung. O líder comunista da China era conhecido como O grande timoneiro. Texto escrito por Marco Aurélio Cardoso Moura Professor de Língua Portuguesa no Ensino Médio; formado em Letras pela USP e especialista em Juventude no Mundo contemporâneo pela FAJE-BH. Hoje é mestrando em Educação pela FE-USP e colunista do “Zero Águia”. Referência bibliográfica KUNWU, Li. Uma vida chinesa. [3 volumes]. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015.















