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  • Para além do transporte: conheça a “Uberização do Trabalho"

    Quem nunca pegou ou até mesmo ofereceu uma carona com um amigo/amiga? Foi com essa premissa, que o famigerado “ir até ali” se tornou tão fácil e simples e assim que o mundo aderiu ao uso de aplicativos de transporte privado. Uber, 99táxi, InDrive, entre outras plataformas que caíram rapidamente no gosto do público quando se tornaram uma alternativa mais viável e barata para os transportes coletivos e/ou comuns. E essas empresas parecem ter seguido a mesma receita: identificaram uma problemática na mobilidade urbana das cidades, investiram no desenvolvimento de um aplicativo para celular e, então, facilitaram a vida de milhares de consumidores, assim como abriu ao mercado de trabalho uma nova demanda – a de motoristas de aplicativo. O que antes funcionava como uma troca entre amigos e parentes, hoje se tornou uma nova forma de convívio social onde todos podem colaborar uns com os outros. A chamada ‘Economia do Compartilhamento', também conhecida como ‘Economia Colaborativa’, surge como um modelo econômico onde bens e serviços são compartilhados, trocados ou alugados por meio dessas plataformas digitais. “A internet está promovendo um mundo mais promissor, não apenas por nos fornecer mais informação e aparelhos cada vez melhores, mas por remodelar a sociedade inteira. Nós agora temos a tecnologia para resolver os problemas que assolaram a humanidade por séculos, tornando obsoletas as velhas instituições e velhas regras, que são cada vez mais suplantadas pela computação.” – Tom Slee, cientista da computação para o livro “Uberização: A nova onda do trabalho precarizado”. Todavia, no cerne da transição do emprego tradicional para uma economia mais flexível, os trabalhadores da era digital agora atuam como freelancers ou autônomos, isto é, cada vez mais recorrendo à informalidade para manter seu sustento. A natureza temporária e fragmentada dos trabalhos na Economia do Compartilhamento resulta na falta de segurança no emprego, devido à ausência de contratos fixos e benefícios, como plano de saúde e aposentadoria, deixando os trabalhadores mais vulneráveis e sem usufruir dos direitos trabalhistas conquistados pela humanidade. Principalmente após a pandemia do Covid-19, em 2020, onde a humanidade vivenciou um mundo repleto de incertezas, o que impactou diretamente na alta de demissões como corte de custos por parte de empresas. Em 2020, o ano registrou a maior taxa média de desemprego do Brasil, com 13,5%, a maior da série histórica da PNAD Contínua, pesquisa iniciada em 2012. Dois anos depois, em 2022, a taxa caiu para 9,3%. Até agosto de 2023, o país já contava com quase 39 milhões de brasileiros trabalhando na informalidade, segundo o IBGE. A então chamada “uberização” – nome que se popularizou no Brasil para “precarização do trabalho” – levou diversos profissionais, dos mais diversos setores da economia, a enfrentarem condições de trabalho instáveis, baixa remuneração, falta de proteção trabalhista, tudo isso graças à crescente  informalidade, isto é, o trabalho sem carteira assinada. Mas afinal, o que é “uberização” do trabalho? A "uberização" refere-se a uma tendência de organização e gestão no mundo do trabalho, que se deu com o avanço das tecnologias, principalmente com o advento da internet. Esse processo também conta com a quebra da relação patrão x empregado, que agora torna o trabalhador um prestador de serviço à demanda do mercado. O nome se popularizou em solo brasileiro por conta da plataforma americana Uber, fundada em 2009, mas que chegou ao Brasil em 2016, e desde então conecta motoristas independentes – ou “parceiros”, como chama a marca – a passageiros por meio de seu aplicativo. Apesar da explicação óbvia para um app tão popular, a Uber não representa somente um modelo de negócio que tem se expandido, mas sim para além do setor de transporte, um verdadeiro movimento que tem impactado vários outros setores da indústria. E como ela e as demais empresas do ramo fazem isso? Não basta criar apenas um aplicativo. Com seu alto valor para o capitalismo atual, empresas-digitais como a Uber tem investido em propagandas nas redes sociais e na grande mídia para cooptar novos usuários, assim como também novos prestadores de serviços. O lema “seja seu próprio chefe” ou o conceito de “liberdade de escolher quando, onde e como trabalhar”, sem qualquer dúvida, é atraente, mas em contrapartida vem acompanhado dos desafios e precarização das condições de trabalho que colocam em risco não somente a vida e saúde do trabalhador ou trabalhadora, mas como inviabiliza seus acessos a benefícios como férias, 13º salário e plano de saúde, assim como gera instabilidade financeira. E isso não é uma mudança que começa no século da era digital. Voltando aos primórdios A compreensão do cenário atual do trabalho requer uma análise fundamentada na evolução e na atual operação do sistema capitalista. O trabalho, desde os primórdios da humanidade, é uma atividade vital, tanto para o indivíduo quanto para o convívio em coletivo, pois não só gera benefícios que se estendem para além do âmbito pessoal, como também faz com que a sociedade se desenvolva. É inegável também que há mudanças no aspecto sócio político, econômico e cultural de uma sociedade quando se está sob a influência das decisões do âmbito mercadológico e ideológico dominante – como é o caso do grande empresariado que detém os meios de produção. À medida que aspirações naturais para garantir a sobrevivência pessoal e coletiva se transformam em resposta a essas mudanças, moldam-se novos paradigmas que respingam diretamente nas dinâmicas do trabalho contemporâneo. Vale lembrar que o trabalho humano se destaca pela capacidade de dominar e transformar a natureza a seu favor, marcando a principal distinção entre o ser humano e os demais seres vivos. Esse aspecto ressalta a complexidade e a singularidade da relação entre trabalho, identidade e coletividade. No entanto, à medida que a classe burguesa intensifica a massificação do trabalho para aumentar a produção e, em paralelo, polarizar as classes em prol do funcionamento do sistema, priorizando seu princípio de lucratividade acima de todo o processo, torna evidente que o trabalho perde sua essência humanizada, de ter um trabalhador que detém o conhecimento do processo, para apenas torná-lo parte do processo de produção. Este se vê agora obrigado a vender sua força de trabalho para, predominantemente, atender as necessidades e especificidades da classe dominante, enquanto restringindo suas opções de ganho pelo que produziu, se prestando à dinâmica que muitas vezes ignora seu bem-estar e dignidade. “Mas quando a vida humana se resume exclusivamente ao trabalho – como muitas vezes ocorre no mundo capitalista e em sua sociedade do trabalho abstrato –, ela se converte em um mundo penoso, alienante, aprisionado e unilateralizado.” - Ricardo Antunes, sociólogo, para o livro ‘Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0’. Já com a crescente exponencial do consumo da internet, que não somente revolucionou a relação entre pessoas, mas também a forma como consumiam. Essa repercussão é, de certa forma, estratégica no atingir de uma economia, visto que as empresas, até então tidas como tradicionais, passam a ter reconhecimento se detém percepção de mercado dentro do espaço virtual. Restaurantes, consultórios médicos, central de serviços doméstico e entre outros tipos de negócio que não adotassem a tecnologia como parte de seu investimento estariam fadados ao fracasso no mundo atual, mesmo que também predados pela lógica de facilitação do processo através dessas plataformas. Isso significa que o capitalismo encontrou, na subjetividade humana, uma forma de cristalizar, ou seja, mascarar a exploração e expropriação do trabalho e, consequentemente, a interpretação de dominação sob o trabalhador. É lapidar o imaginário e forma de agir desses trabalhadores ao modo burguês, preferencialmente de forma não violenta, mas com convencimento de uma idealização que, em suma, não compete ao trabalhador, mas por vislumbre, o faz perpetuar a ideologia da classe dominante. “A terceirização, a informalidade e a flexibilidade se tornaram, então, partes inseparáveis do léxico e da pragmática da empresa corporativa global. E com elas, a intermitência vem se tornando uns dos elementos mais corrosivos da proteção do trabalho, que foi resultado de lutas históricas e seculares da classe trabalhadora em tantas partes do mundo.” - Ricardo Antunes, sociólogo, para o livro ‘Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0’. “Breque dos Apps”: o início de uma resposta Em julho de 2020, no auge da pandemia do Covid-19, o Brasil foi palco de uma das mais importantes manifestações grevistas por trabalhadores autônomos. Ainda que com boa parte da população em casa, devido ao alto contágio do vírus, diversos trabalhadores que se viram na condição de desemprego e/ou trabalho autônomo tiveram de quebrar o lockdown para manter seu sustento. O movimento "Breque dos Apps" ficou marcado como as paralisações realizadas por trabalhadores de aplicativos de entrega e transporte privado para reivindicar melhores condições de trabalho, salários justos, direitos e garantias sociais. Por dois dias seguidos naquele mês, houve manifestações que também uniram entregadores e entregadoras de diversos locais do Brasil em busca de melhores condições de trabalho, principalmente em boicote a empresas-aplicativos de entrega, como Loggi, iFood, Rappi e Uber Eats. A demanda por ajustes nos valores pagos aos entregadores, o término de bloqueios injustificados, a garantia de apoio em casos de acidentes ou roubos e, sobretudo, a provisão de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) durante a crise pandêmica da Covid-19 foram algumas das diversas reivindicações. A proposta central era unir forças, tanto por parte dos consumidores, que poderiam fortalecer a causa dos entregadores optando por não realizar pedidos através dos aplicativos, quanto por parte dos próprios entregadores, que poderiam recusar demandas, visando alcançar mudanças significativas nas condições de trabalho e na segurança durante a execução de suas atividades. O modelo de manifestação inspirou o mundo, de forma que os trabalhadores dessas plataformas em outros pontos do globo também fizeram manifestações locais. Por mais “desenvolvido” que seja o país, mais evidente se tornam as práticas de trabalhadores com as mesmas condições precárias de trabalho, assim como as questionáveis práticas por parte das empresas que empregam. No Brasil, está caminhando para a reta final um Projeto de Lei (PL 1471/22), que determina a regulamentação dos direitos trabalhistas para prestadores de serviços de aplicativo. As diretrizes dadas as empresas-aplicativos são de piso de salário-mínimo por hora de serviço, assim como: contribuições obrigatórias à Previdência para assegurar benefícios como aposentadoria, auxílio-doença e invalidez, férias remuneradas, além da aplicação do Microempreendedor Individual (MEI). O que se pode concluir... até então! Apesar da proposta inovadora para a modernidade, o fenômeno da "Uberização" tem colocado à prova várias problemáticas para o que tange o trabalho na sociedade atual. A autonomia e flexibilidade, muitas vezes enaltecidas no “discurso empreendedor”, transformam-se em soluções instáveis e suscetíveis ao desemprego contínuo. Isso isenta grandes empresários de responsabilidades trabalhistas, ocultando o bem-estar, autonomia, emancipação e desenvolvimento profissional dos trabalhadores que atuam nesse modelo. É crucial considerarmos que os desafios diários enfrentados por esse proletariado digital, sendo a falta de comprometimento com os direitos trabalhistas, é uma questão central para o futuro do trabalho no Brasil e no mundo, podendo o sistema encontrar formas de usurpar outras modalidades de trabalho. O retrato idealizado do empreendedorismo oferecido por essas plataformas é um exemplo disso, principalmente através dos meios de comunicação de massa e da internet, que não refletem a dura realidade em que os trabalhadores, atuando como prestadores de serviço, se encontram. E mesmo que, muitas vezes, essa tenha sido sua única alternativa para a sua sobrevivência. Apesar de vivermos em um mundo literalmente automatizado e repleto de inovações surpreendentes, as condições de trabalho para esses profissionais e os que ainda virão ainda são consideradas insalubres e demandam um esforço excessivo. Isso é, particularmente, evidente para aqueles que se deslocam de bicicleta ou a pé para entregas, enfrentam jornadas exaustivas de trânsito pelas capitais sem receber uma remuneração adequada pelo seu trabalho empenhado. Esses são alguns pontos dentro das infinidades de outras questões que surgem da discrepância entre a retórica do empreendedorismo e a realidade das condições de trabalho, que destaca a necessidade urgente de abordar e remediar as injustiças inerentes à "Uberização". Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Referências SLEE, Tom. Uberização: A nova onda do trabalho precarizado. 1ª Edição. Editora Elefante, 16 de setembro de 2019, pg 33. ANTUNES, Ricardo. Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0. 1ª Edição. Editora Boitempo, setembro de 2020, pgs. 11 e 28. https://www.youtube.com/watch?v=24b6IwzaH_g https://www.youtube.com/watch?v=JbFk2PdlZqQ&t=2038s https://www.youtube.com/watch?v=yQVO3Cdx9X4 https://quatrorodas.abril.com.br/noticias/governo-apresenta-proposta-para-regulamentar-motoristas-de-aplicativos https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/30235-com-pandemia-20-estados-tem-taxa-media-de-desemprego-recorde-em-2020#:~:text=No%20%C3%BAltimo%20trimestre%20de%202020,estados%2C%20ficando%20est%C3%A1vel%20nos%20demais. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/36351-taxa-media-de-desemprego-cai-a-9-3-em-2022-menor-patamar-desde-2015 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/quase-39-milhoes-de-brasileiros-estao-na-informalidade-aponta-ibge/#:~:text=Quase%2039%20milh%C3%B5es%20de%20brasileiros%20est%C3%A3o%20na%20informalidade%2C%20aponta%20IBGE,-Segundo%20IBGE%2C%20pa%C3%ADs https://www.cnnbrasil.com.br/economia/quase-39-milhoes-de-brasileiros-estao-na-informalidade-aponta-ibge/#:~:text=Quase%2039%20milh%C3%B5es%20de%20brasileiros%20est%C3%A3o%20na%20informalidade%2C%20aponta%20IBGE,-Segundo%20IBGE%2C%20pa%C3%ADs https://www.brasildefato.com.br/2023/07/24/como-a-terceirizacao-e-a-uberizacao-precarizam-as-condicoes-de-vida-dos-trabalhadores#:~:text=O%20conceito%20de%20uberiza%C3%A7%C3%A3o%20do,por%20dia%2C%20sem%20nenhuma%20regalia. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/governo-inicia-discussoes-sobre-regulamentacao-do-trabalho-por-aplicativo/

  • O Brasil na presidência do Conselho de Segurança das Nações Unidas

    Em outubro de 2023 a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) foi exercida pelo Brasil. A presidência tem mandato de um mês e segue a ordem alfabética em inglês, portanto, a China é o país seguinte à presidência. As atribuições do presidente são: organizar a agenda com os temas a serem discutidos, convocar reuniões extraordinárias, seguir e aplicar as regras e procedimentos durante as discussões e votações, e representar o Conselho quando necessário. Um dos membros fundadores da Organização das Nações Unidas, o país é um dos membros não permanentes com maior número de participações no Conselho, ficando atrás apenas do Japão. Cada membro não permanente tem o mandato de 2 anos e, ao fim, precisa se ausentar por igual período antes de concorrer novamente para a posição. Desde esse período, importantes figuras da diplomacia brasileira exerceram a posição, como por exemplo Oswaldo Aranha. Este lidou com a intervenção britânica no Egito e Sudão em 1947. Parte significativa do processo de descolonização foi discutido no conselho, embora parte dos membros permanentes fossem exatamente os colonizadores. Para além da presidência, a representação brasileira no CSNU teve uma alternância. Em alguns momentos os votos eram mais próximos aos dos Estados Unidos, em outros ajudou a construir e trilhar o não alinhamento e uma política externa independente. Outubro 2023: da Invasão Russa à Ucrânia para a escalada do conflito entre Israel e Gaza Outubro começou com uma pauta já definida, uma série de debates e revisões sobre as missões de paz em andamento, conflitos como a invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra civil no Iêmen. Entretanto, no dia 7 de outubro a comunidade internacional assistiu as ações do Hamas em território israelense com assassinatos e sequestros. A presidência brasileira precisou lidar com essa escalada e a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, a escalada de um conflito que se desenhava há alguns anos. Como presidente, cabe ao representante brasileiro organizar a nova agenda com reuniões extraordinárias e os procedimentos durante os debates. Embora presidente do Conselho, o diplomata ainda é um representante do Brasil e alterna entre esses papéis. Foi como representante do Brasil que houve a apresentação da proposta de resolução que pedia cessar fogo, ajuda humanitária para a população de Gaza e a libertação imediata dos reféns em poder do Hamas. A proposta foi bastante discutida e por ser apresentada por um país mais neutro na situação teria mais chance de prosperar do que uma apresentada pela Rússia, atualmente adversária dos Estados Unidos. Conseguiu-se a maioria dos votos favoráveis, contando ainda com a abstenção de alguns dos membros permanentes com poder de veto (Reino Unido e Rússia). Porém a representante dos Estados Unidos da América votou contra a proposta e, como o país possui o poder de veto, ela acabou sendo rejeitada. A justificativa estadunidense foi que o texto não incluía de forma satisfatória a possibilidade de autodefesa por parte de Israel. Durante o mês de outubro não houve uma resolução sobre o assunto que conseguisse passar pelo veto dos membros permanentes, fato que trouxe à tona a discussão sobre a reforma do Conselho e da ONU de forma mais ampla para que ela possa de fato ter ações concretas e impedir ou parar conflitos. Uma das alternativas é levar a pauta para a Assembleia Geral, na qual não há o poder de veto. Entretanto, os documentos aprovados têm um poder ainda mais simbólico do que prático já que não existe a obrigatoriedade de executar as recomendações contidas neles. Imagem da política externa Todas essas participações, e a forma como atuou durante a presidência, ajudaram a solidificar a imagem do país frente a comunidade internacional e abrem espaço para a participação diplomática na solução de conflitos, como a atual situação entre Venezuela e Guiana. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto Fontes: https://funag.gov.br/loja/download/1160-ARTICIPACAO_DO_BRASIL_NO_CSNU_final.pdf https://blog.clippingcacd.com.br/cacd/confira-as-acoes-do-brasil-na-presidencia-do-csnu/ https://www.gov.br/mre/pt-br/Brasil-CSNU/o-brasil-no-csnu-1/historico-brasil-csnu

  • A favela não vai vencer

    “A favela venceu” é uma frase gostosa de falar. Ela ressoa como música no ouvido de quem é pobre. Alguns venceram de fato. Mas quantos? Algumas dúzias de favelados, entre milhões de brasileiros que continuam sem vencer. Óbvio que ficamos felizes com a vitória dos nossos irmãos, eles furaram a bolha. Geralmente jogador de futebol ou Mc. A questão é que eles são apenas atores dessa pornografia chamada meritocracia. Ficam ricos, contam suas histórias tristes e de superação em entrevistas, nas redes sociais e em podcasts. Agora se vestem com as marcas caras, dirigem os carros do ano e frequentam os melhores restaurantes. Isso é extremamente motivador. O menor que veio da mesma realidade que ele acredita que é realmente possível também ostentar a mesma vida. Entenda, não estou nem de perto colocando esses que venceram como culpados. Até porque muitas vezes nem eles entendem o que há por trás deles. É necessário que eles vençam, que eles ostentem o que a maioria não poderá comprar e que contem detalhe por detalhe de como eles trabalharam duro para sair da miséria e conquistar tudo isso. Quando o jovem vê uma história dessas e não consegue progredir na vida, o fracassado é ele, a culpa é exclusivamente dele que não trabalhou o suficiente para conquistar o mesmo sucesso. A frustração chega. A ansiedade aumenta e cada vez mais ecoa na mente que é sua própria culpa. O que seria a favela vencer? Obviamente não tem como todo mundo ficar rico, tem que viver em ilusão para acreditar nisso. Para a favela vencer, minimamente precisa de dignidade. Saneamento básico, alimento, segurança física e emocional. Não tem como metade da favela ser Mc e a outra metade jogador de futebol, não tem espaço para todo mundo. Para a favela vencer precisa ser através do trabalho convencional, mas não da forma como é feita. Poucos sabem trabalhar de verdade, mas porque foram ensinados assim. A mão de obra fica mais barata se a população não for capacitada, então se uma pessoa não se sujeita a fazer determinado trabalho, sempre existe alguém precisando mais que vai aceitar. A solução é o conhecimento e é por isso que a favela não vai vencer. Pelo menos não por enquanto. Mesmo que o conhecimento chegasse, mesmo que as bolsas gratuitas nas universidades fossem duplicadas, triplicadas ou até tivesse faculdade de graça para todo mundo, a favela não venceria. Esse conhecimento chega totalmente elitizado. A base de formação da favela é tão fraca que mesmo tendo acesso ao conhecimento, grande parte não conseguiria entender. Pela falta de nutrientes na alimentação ao longo da vida, pela falta de estímulo intelectual e pela falta de tempo por ter que trabalhar desde cedo para ajudar em casa. É muito fácil falar de sistema, de governo, de capitalismo ou qualquer outro culpado pela situação que a favela vive. É fácil querer que os culpados resolvam, chega a ser engraçado esperar isso. Até quando eles implementam uma possível solução, é apenas um nível mais sofisticado de manter toda a massa controlada sustentando a vida que poucos conseguem levar. É apenas mais um Mc sendo patrocinado por grandes marcas e dando a falsa esperança de que é possível. Qual a solução? Você é a solução! Se você consegue estudar, você faz parte da solução. Basta nós, os poucos que furam a bolha intelectual que a favela vive, simplificar o conhecimento. É um jogo de longo prazo, de muito longo prazo. A favela não vai vencer, se não quiser vencer. E não falo de meritocracia, falo de plantarmos para a próxima década. Não basta se formar, conseguir um cargo razoável em uma empresa razoável e viver o resto da vida ganhando três ou quatro mil reais por mês. Lembra de antes? Quando você que trabalhava para sustentar o estilo de vida de outras pessoas. Agora seu estilo de vida já representa apenas 10% da população brasileira e outros estão sustentando seu estilo de vida, pessoas que vieram do mesmo lugar que você. A solução não vai vir de cima, ela virá de baixo. Precisamos facilitar o conhecimento para as crianças e adolescentes conseguirem terem perspectiva de futuro, que a única referência deles não seja apenas no esporte e na música. É importante tê-los como referência, mas o dia a dia acontece pelos operários, atendentes, professores, recepcionistas, encanadores, etc, etc e etc. Que sejamos referência para os nossos, que a gente permita a favela vencer. Te incluo nisso, se mexa. Ou você joga junto ou você joga contra. Texto escrito por Fellipe Barcelos Barcelos é Influenciador Digital, cria de quebrada e lidera um movimento para pessoas que desejam ser melhores para si e para sua família. Acredita que o conhecimento salvará o povo e atualmente é colunista do Portal Águia. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto

  • O Segredo dos seus olhos

    Um oficial de justiça recém aposentado, busca ocupar sua vida na preparação de um romance investigativo. O romance remete a uma história sombria de sua própria vida: um crime sexual ocorrido há trinta anos. Esta jornada visceral se transforma num turbilhão de emoções ao reviver memórias e anseios que afetam a vida de todos os envolvidos. Este é o fio condutor da obra hispano-argentina O Segredo dos Seus Olhos (El secreto de sus ojos, em espanhol), de 2009. Dirigida pelo prestigiado diretor Juan José Campanella e estrelado por Ricardo Darín, Soledad Villamil e Pablo Rago, conta com importantes participações de Guillermo Francella e Javier Godino. A direção magistral aliada ao roteiro instigante escrito por Campanella e Eduardo Sacheri, é baseado no romance La Pregunta de sus Ojos, de autoria do próprio Sacheri, que faz o expectador transitar por diferentes cenários, mesclando romance, suspense policial e comédia na dose certa. A qualidade da produção cinematográfica, foi reconhecida com premiações no ano de 2010. O filme foi ganhou como melhor filme estrangeiro no Oscar e melhor filme do ano no Prêmio Goya, o mais importante do ramo na Espanha. Além do reconhecimento de público e crítica especializada. "Ler qualquer obra de ficção é um ato simbólico. Nós, leitores, contribuímos com nossa imaginação para a imaginação do escritor ao entrarmos voluntariamente no seu mundo, participando da vida das pessoas que ali habitam e formando, a partir das palavras e imagens do autor, nosso próprio quadro mental de pessoas e lugares. O cenário em qualquer romance é, portanto, um elemento importante de todo o livro. O lugar, afinal de contas, é onde os personagens representam suas tragicomédias, e só se a ação estiver firmemente enraizada na realidade física é que podemos entrar plenamente no mundo deles." (JAMES, P.D., 2012, p.117). Estendendo o conceito apresentado por James, P.D. ao mundo do cinema, devemos usar nossa imaginação para preencher as lacunas dos cenários apresentados. Nesta obra, em especial, se faz necessário ressaltar o contexto político e social de um país latino, neste caso a Argentina, em dois períodos históricos: O primeiro prestes a iniciar uma ditadura militar (1975) e o segundo em meados da revogação de leis de anistia (1999). Ditadura argentina Os principais eventos da narrativa como, o estupro e assassinato da jovem moça, o desenrolar da investigação, a saga para encontrar o assassino, as desventuras jurídicas e políticas, que atrapalharam a devida investigação da justiça, são todos ambientados em 1975. Ano que antecedeu a última ditadura Civil-Militar na Argentina (1976-1983). A terminologia "Ditadura argentina" pode ser referenciada nos seguintes períodos: 1930 - 1932: ditadura de José Félix Uriburu 1943 - 1946: Revolución del 43 1955 - 1958: Revolución Libertadora 1962 - 1963: único caso de um período encabeçado por um civil: José María Guido 1966 - 1973: Revolución Argentina (Juan Carlos Onganía e seus sucessores) 1976 - 1983: Proceso de Reorganización Nacional O Processo de Reorganização Nacional (PRN - Proceso de Reorganización Nacional, em Espanhol), também conhecido como Processo, foi uma ditadura Civil-Militar, que governou a República da Argentina entre o Golpe de Estado (1976) e a rendição incondicional do poder a uma Ordem Constitucional do Governo (1983). O PRN assumiu a forma de um Estado Burocrático-Autoritário (EBA), conceito formulado pelo cientista político argentino Guillermo O'Donnell, a partir da análise das ditaduras militares instaladas no Brasil (1964), Argentina (1966 e 1976), Chile (1973) e Uruguai (1973). EBA é um tipo de Estado que se caracteriza por anular todos os mecanismos políticos e democráticos, para restauração da ordem social e econômica anterior, que havia sido alterada como resultado de uma considerável organização autônoma da população e especialmente os trabalhadores. O regime foi implementado pelas Forças Armadas e setores civis, principalmente o empresariado e a Igreja Católica. O Golpe Militar derrubou todas as autoridades constitucionais, nacionais e provinciais, incluindo a presidente María Estela Martínez de Perón, impondo em seu lugar a Junta Militar composta pelos três comandantes das Forças Armadas. Essa Junta, ditou várias normas de hierarquia supraconstitucional e nomeou um militar, que acumulou os poderes Executivo e Legislativo da Nação e das províncias, que recebeu o título de "Presidente" e cinco funcionários civis, que ocuparam o Supremo Tribunal. Os objetivos declarados do Processo de Reorganização Nacional - PRN - eram de combater a "corrupção", a "demagogia" e a "subversão" e situar a Argentina no "mundo ocidental e cristão". Foi estabelecido um novo modelo socioeconômico, seguindo as diretrizes ideológicas do neoliberalismo, imposto por meio de uma política de violação sistemática dos Direitos Humanos. O modelo estava em consonância com a doutrina de segurança nacional desenvolvida pelos Estados Unidos, articulada por meio do Plano Condor. Dentro do Regime foi adotada a "Guerra Suja" (Guerra Sucia em espanhol), caracterizada por violência indiscriminada, perseguições, tortura, terrorismo de Estado, desaparecimentos forçados, etc. A denominação refere-se ao caráter informal de confronto entre os militares - desligados da autoridade civil - contra os civis e muitas organizações guerrilheiras, que em qualquer momento foi considerado uma explícita Guerra Civil. O uso sistemático da violência e sua extensão contra alvos civis, no âmbito da tomada de poder político e burocrático por parte das forças armadas, determinou a imediata suspensão dos direitos constitucionais e conduziu a aplicação de táticas de guerra irregular e procedimentos a toda população. No entanto, a designação como uma "guerra" é contestada por algumas organizações políticas e pelos Direitos Humanos, alegando tratar-se de um argumento dado pelo Regime Militar, para justificar a repressão indiscriminada. Uma das considerações tidas em conta é a disparidade de vítimas de ambos os lados, o que torna inadequada a definição de "guerra", ao invés disso, a jurisprudência moderna da Argentina, definiu-a como "genocídio". O terrorismo patrocinado pelo Estado da Junta Militar criou um clima de violência, cujas vítimas estavam na casa dos milhares e incluía ativistas de esquerda, militantes, intelectuais, artistas, sindicalistas, estudantes e jornalistas, além de marxistas e guerrilheiros peronistas. Os ataques tiveram o apoio ou a tolerância dos principais meios de comunicação privados e grupos econômicos, a Igreja Católica e a maioria dos países democráticos do mundo. No filme, este período e as relações de poder são representadas no personagem de Isidoro Gomez e sua proteção pelo Governo, devido ao seu trabalho de ajudar a administração e seu sistema judicial ao encontrar, e depois matar, ativistas de esquerda, militantes e guerrilheiros. Desta forma Isidoro Gomez tinha uma condição especial perante o Regime e a justiça, sendo um cidadão "intocável" em relação aos crimes cometidos ou que viera a cometer. Fim da anistia O segundo período retratado no longa é situado em 1999. As leis nacionais conhecidas como "Lei do Ponto Final" e "Lei de Obediência Devida" ainda estavam valendo. De maneira geral, estes mecanismos legais eram popularmente conhecidos como "as leis de anistia", ou seja, impediam a investigação de milhares de casos de abusos aos Direitos Humanos cometidos durante o período da ditadura no país. A Lei nº 23.492, chamada Lei de Ponto Final foi promulgada na Argentina a vinte e quatro de Dezembro de 1986, durante a presidência de Raúl Alfonsín, estabelecendo a paralisação dos processos judiciários contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na etapa de ditadura militar. A Lei que sancionava a impunidade dos militares pelo desaparecimento de trinta mil pessoas, foi objeto de uma grande polêmica. em um dos seus parágrafos indicava literalmente: "Extinguir-se-á a ação penal contra toda pessoa que cometesse delitos ligados com a instauração de formas violentas de ação política até a 10 de Dezembro de 1983." A Lei nº 23.521, conhecida como Lei de Obediência Devida foi uma disposição legal ditada na Argentina em 4 de Junho de 1987, durante o governo de Raúl Alfonsín, que estabeleceu presunção de Iuri, i.e., que não admite prova em contrário, que os feitos cometidos pelos membros das forças armadas, durante a Guerra Suja e o Processo de Reorganização Nacional, não eram puníveis por haver agido em virtude de obediência devida. Esse período da história argentina é apresentado para enfatizar a situação que o personagem de Ricardo Morales enfrentou, focado na impunidade que criminosos e violadores dos Direitos Humanos, como o personagem Isidoro Gómez, desfrutavam na época. Ao mesmo tempo, muitos ex-torturadores e assassinos da ditadura - que poderiam ter sido amigos ou parceiros de Gomez - estavam livres e poderiam se vingar de Morales. Desde 1983, a Argentina mantem a democracia como sistema de governo. Com a eleição de Raúl Alfonsín para Presidente, inicia-se um período conhecido como O retorno da democracia. Em 2003 o clima político mudou e durante a administração do então Presidente Nestor Kirchner, a Lei do Ponto Final e a Lei de Obediência Devida, juntamente com os perdões executivos foram declarados nulos e sem efeito, primeiramente pelo Congresso e depois pela Suprema Corte. Apresentado este contexto, tenho certeza que você terá uma experiência ainda mais rica ao assistir esta produção. Aliás, como todo bom romance policial, o final do filme é surpreendente e nos levar a refletir como as deficiências das instituições, situações extremas de violência e o sentimento de injustiça podem levar os cidadãos comuns a tomarem medidas extraordinárias para aplacar suas angústias e ter paz de espírito. Apesar de quase passados quatorze anos desde sua estreia, a obra cinematográfica se apresenta atemporal e engajada com o compromisso e luta para manter a democracia vigente, no resgate da memória, verdade e justiça. Detalhes do filme: Filme: O Segredo dos Seus Olhos (El secreto de sus ojos/The Secret in Their Eyes) Elenco: Ricardo Darín (Benjamín Esposito), Soledad Villamil (Irene Menéndez Hastings), Pablo Rago (Ricardo Morales), Carla Quevedo (Liliana Coloto), Guillermo Francella (Pablo Sandoval), Javier Godino (Isidoro Gómez) Direção: Juan José Campanella Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=dY-WjN5n2Pc Trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=43Foosf6BaQ&list=OLAK5uy_kVo5fN2sxHGF5zwmnptamkdcC_72YJXCk Avaliação IMDB: https://www.imdb.com/title/tt1305806/?ref_=nv_sr_srsg_0 (8.2) Avaliação Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/secret_in_their_eyes Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Referências: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Segredo_dos_Seus_Olhos https://pt.wikipedia.org/wiki/Ditadura_Militar_Argentina https://es.wikipedia.org/wiki/Estado_burocr%C3%A1tico-autoritario#:~:text=El%20Estado%20Burocr%C3%A1tico%2DAutoritario%20(EBA,de%20la%20poblaci%C3%B3n%20y%20en https://es.wikipedia.org/wiki/Dictadura_argentina https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Suja_na_Argentina https://es.wikipedia.org/wiki/Proceso_de_Reorganizaci%C3%B3n_Nacional OS ESPAÇOS REPRESENTADOS E SEUS SIGNIFICADOS EM LA PREGUNTA DE SUS OJOS, DE EDUARDO SACHERI: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/wp-content/uploads/2014/04/silel2013_1902.pdf JAMES, P.D. Segredos do romance policial. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

  • A consciência e a falta de consciência

    Primeiramente deixo minha saudação a todos os meus ancestrais pretos e pretas que vieram antes de mim e que travaram lutas para que eu pudesse estar aqui hoje escrevendo este artigo sobre a Consciência Negra, ou melhor sobre a falta dela. Salve Aqualtune, Tereza de Benguela, Dandara, Luisa Mahin, Nã Agontimé, Zumbi dos Palmares, Luiz Gama, Francisco José do Nascimento ( Dragão do Mar), Quintino de Lacerda e Cosme Bento (Negro Cosme). Vale lembrar que a abolição da escravidão no Brasil, “Não veio do céu, nem das mãos de Isabel”, cito esta expressão devido a história tentar nos empurrar que a princesa Isabel teve o papel formal de assinar a abolição da escravatura no Brasil, fazendo isso num ato de bondade mas a verdade é que a abolição só veio através de muita luta do movimento negro, composto por muitos nomes que a história tentou apaga. Mesmo abolida, ainda houve muita luta, pois os negros libertos foram abandonados á própria sorte. Nosso País precisa evoluir, dia 20 de novembro é marcado como o dia da Consciência Negra, dia em que Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares foi morto e teve sua cabeça decepada e exposta em praça pública em Recife pelo então governador. A luta pela igualdade racial é longa, e nenhuma das conquistas obtidas até hoje foi sem luta. A escravidão no Brasil durou 388 anos. Pessoas, famílias, crianças foram sequestradas de suas terras e trazidas para nosso País, tiveram todos os seus direitos violados, aliás vale lembrar que a economia do Brasil era ligada a escravidão, portanto o tráfico de escravos era um negócio explorado de maneira cruel por nosso País, que também foi um dos últimos Países das Américas a abolir a escravidão depois de muita pressão dos movimentos negros. Já são mais de 135 anos do fim da escravidão, pouco mais de um terço dos 388 anos de escravidão no País. Avançamos, mas falta muito, um longo percurso para que possamos alcançar a equidade nesse País, foram 388 anos de direitos cassados, não seriam 135 anos suficientes para que os direitos sejam equiparados. Consciência e a ausência da consciência negra Falta a Consciência Negra no povo brasileiro, falta entender nossa luta e parar de menosprezá-la, porque enquanto: Pessoas pretas sofrerem com crimes de racismo e os criminosos nada sofrem, nosso avanço será pouco; Pessoas pretas tiverem seus rostos em livros de reconhecimento policial simplesmente por serem pretas não avançaremos; O padrão para as abordagens policiais for a cor da pele preta, não avançaremos; Formos seguidos e até mortos nos supermercados por sermos pretos, não avançaremos; Crianças pretas sofrerem com atos racistas dentro de escolas, não avançaremos; Nossa cor da pele nos impedir de alcançar os principais postos de trabalho, não avançaremos; Enquanto você leitor(a) não tiver consciência de que não precisa ser preta (o) para ser antirracista, não avançaremos. Avançaremos no dia em que toda a sociedade entender que há uma dívida histórica e que ela ainda não foi paga, pois há uma gigantesca ponte que separa pretos e brancos em vários sentidos, principalmente a ponte das desigualdades sociais e salariais. No dia em que a sociedade passar a condenar de maneira firme cada ato racista cometido neste País e que cada criminoso que comete racismo seja preso com toda a severidade da lei, quando a ocupação de cargos de decisão tenham a real cara do Brasil e não apenas engravatados brancos, quando o parlamento refletir nosso País, aí sim avançaremos. Convido a você leitor a refletir sobre cada ponto elencado neste artigo e se juntar a luta antirracista neste País, e aproveito para lembrá-los de que é preciso ter Consciência Negra todos os dias. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Fontes https://www.geledes.org.br/consciencia-negra-conheca-nomes-que-lutaram-pelo-fim-da-escravidao-no-brasil/ https://www.geledes.org.br/17-mulheres-negras-brasileiras-que-lutaram-contra-escravidao/?gclid=Cj0KCQiAr8eqBhD3ARIsAIe-buO1tbk2UZhJsr7h24bqj7yh6C2FuCYeobIzpnFgZr5aE8C4k6YtIRwaAvGEEALw_wcB https://www.geledes.org.br/nao-veio-do-ceu-nem-das-maos-de-isabel-a-liberdade/

  • Os 35 anos da Constituição Federal do Brasil

    A Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, foi criada após o final da ditadura militar no Brasil, depois de um amplo debate com a população. Daí o nome pelo qual ficou conhecida no país. A Carta Magna do país é responsável por reger o maior conjunto de normas do Brasil, estabelecendo os direitos e deveres dos cidadãos e cidadãs. Também é responsável pelo ordenamento jurídico e por delimitar o papel do poder público, que é distribuído entre o Executivo, Legislativo e Judiciário. Dados históricos A Constituição da República Federativa do Brasil do ano de 1988 é o texto-base para a defesa dos direitos sociais da população, incluindo o direito das minorias (algo nunca debatido antes. Consideramos minorias os grupos que são historicamente excluídos e colocados à margem da sociedade). O processo de redemocratização do país no período pós-ditadura era algo desejado por muitos grupos da sociedade, já que a população ansiava por leis e direitos que resguardassem os seus interesses e proporcionassem o bem-estar. Desde a década de 1970, muitos intelectuais da época sentiam a necessidade de uma nova Constituição, já que o país ainda estava sob a guarda da Constituição de 1967, considerada extremamente autoritária. Essa exigência foi notada quando um jurista e professor universitário brasileiro chamado Goffredo da Silva Telles leu um documento conhecido como Carta aos Brasileiros, onde ele clamava por uma Constituição feita com a participação da população, através de uma Assembleia Nacional Constituinte composta por representantes escolhidos pelo povo. Esse discurso encontrava forças na sociedade, pois já era solicitado o retorno do Estado de Direito no Brasil, a revogação do AI-5 e a permissão para a criação de novos partidos políticos. No ano de 1984 o país presenciou o movimento Diretas Já, que exigia que os parlamentares aprovassem uma emenda que outorgasse o direito de escolher o próximo presidente, em 1985, através do voto democrático da população. Apesar da intensa movimentação da população, a emenda das Diretas não alcançou a quantidade de votos estipuladas para entrar em vigor (298 de 320 votos necessários) e, de maneira indireta, o candidato à presidência eleito foi Tancredo Neves, o qual não tomou posse por problemas de saúde, sendo o seu vice, José Sarney, o empossado. Já no governo Sarney, no final de 1986, foram realizadas as eleições gerais para governadores, senadores e deputados. O povo estava ansioso, já que esses representantes seriam os responsáveis por intermediar as próximas eleições democráticas para presidente. Após os candidatos tomarem posse em fevereiro de 1987, os trabalhos para redigir e promulgar a nova Constituição já começaram e estavam a pleno vapor. Foi um processo extremamente longo, já que o texto foi redigido do zero e houve um amplo debate com a população, para analisar os direitos e deveres de uma sociedade que reclamava sua liberdade após um período tão sombrio. Durante um ano e oito meses os congressistas trabalharam incansavelmente no texto, já que o mesmo visava garantir a democracia no Brasil, inclusive em momentos de crise política. No dia 5 de outubro de 1988 foi promulgada a nova Constituição Federal do Brasil, sendo apresentada por Ulysses Guimarães, o presidente da Assembleia Constituinte. “Declaro promulgado o documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça social do Brasil!" Foram as palavras de Guimarães ao apresentar a nova Constituição. Pontos positivos e negativos da Constituição de 1988 A Constituição Cidadã é considerada um documento bem avançado, já que envolve os direitos dos cidadãos, incluindo as minorias, um feito bastante progressista para a época. Mas claro que não é perfeita, pois apresenta, por exemplo, uma limitação no direito político dos analfabetos, uma vez que eles podem votar, mas não podem se candidatar nas eleições. Esse aniversário da nossa Constituição exige de nós uma certa reflexão: tanto para valorizar esse documento que temos, pois foi primordial na quebra de um período obscuro que o país viveu durante tantos anos, e ele mostra a conscientização da população de não aceitar mais ser subjugado por um governo ditatorial, como refletir em que ainda precisamos melhorar e aprimorar nossas leis e a relação que temos com os direitos individuais e coletivos, mostrando a importância do compromisso contínuo com a (re)construção de um país mais justo e democrático. Texto escrito por Caroline Prado Professora de Cultura Brasileira e Português para Estrangeiros, internacionalista, estudante de Filologia e Línguas Latinas, Embaixadora do Projeto Libertas Brasil na Costa Rica, apaixonada por plantas, livros e fontes confiáveis. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Referências: https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/constituicao-1988.htm#:~:text=A%20Constitui%C3%A7%C3%A3o%20de%201988%20foi,ficou%20conhecida%20como%20Constitui%C3%A7%C3%A3o%20Cidad%C3%A3. https://www.youtube.com/watch?v=DdKCFEogYZM https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Outubro/pilar-da-democracia-constituicao-federal-completa-35-anos

  • Entre Hamlet e o ChatGPT: os reflexos sociais da inteligência artificial

    Em “Exterminador do futuro”, uma das franquias mais emblemáticas da ficção científica dos anos 1980, o mundo enfrentaria, num futuro distante, uma rebelião das máquinas, conscientes de seu poder e protagonismo no planeta. Esta ficção distópica, em maior ou menor grau, permeia o imaginário dos seres humanos desde muito antes, obviamente, e segue impulsionando toda sorte de previsões apocalípticas. Os avanços tecnológicos da inteligência artificial, por exemplo, têm deixado os mais alarmistas de cabelo em pé. Seria o ChatGPT, novo espantalho a ser batido, o apocalipse da vida humana na terra? Essa ferramenta nada mais é do que um gerador de textos que usa como fonte principal o grande universo de materiais escritos que já existem na rede mundial de computadores. Através da inteligência artificial e do que a ferramenta "aprende" no bate papo com humanos, ela analisa padrões para criar composições a partir de palavras e frases que já existem. Ou seja: estamos falando de uma ferramenta tecnológica, utilizada pelos humanos com algum fim. Claro que não posso deixar de levantar algumas reflexões, baseadas em alguns dilemas relacionados a estes possíveis usos. Dilemas éticos Um dos dilemas éticos mais significativos é o viés algorítmico. Os algoritmos são treinados em grandes conjuntos de dados que podem conter viés racial, de gênero, religioso e outros tipos de preconceitos. O resultado disso pode ser desde a perpetuação e até mesmo a ampliação dos preconceitos, levando a discriminação e injustiças sociais. Algoritmos de recrutamento de emprego, por exemplo, podem ser tendenciosos em relação a candidatos de determinadas origens étnicas ou de gênero, levando a desigualdades na contratação. Um segundo dilema ético é a privacidade e a proteção dos dados. A IA depende de grandes quantidades de dados para funcionar efetivamente, muitas vezes incluindo dados sensíveis e pessoais. A coleta, armazenamento e uso desses dados levantam preocupações sobre a privacidade e a segurança das informações pessoais dos usuários. A falta de regulamentação adequada e a má gestão dos dados podem resultar em violações de privacidade e em usos indevidos das informações, como a venda de dados para fins comerciais ou manipulação comportamental. O terceiro dilema ético que posso mencionar é a responsabilidade sobre as tomadas de decisão. Com a crescente automação de processos e a tomada de decisões autônomas por parte da IA, surge a questão de quem é responsável quando algo dá errado. Em situações em que a IA é usada em veículos autônomos, por exemplo, quem é culpado em caso de acidente? O motorista, o proprietário do veículo, o fabricante do veículo ou o desenvolvedor do software de IA? Além disso, há preocupações éticas em relação ao impacto da IA no mercado de trabalho. A automação poderia, de fato, levar à substituição de trabalhadores humanos por máquinas em muitos setores? Isso resultaria na perda de empregos e no deslocamento de trabalhadores. Finalizo levantando mais um ponto: o potencial uso da IA para fins maliciosos, como criar deepfakes ou imagens convincentes, como a fotografia do Papa Francisco de casacão estiloso andando por alguma rua de Roma. Sem contar a disseminação de discursos de ódio e narrativas falsas que podem causar danos significativos à sociedade. Entre Hamlet e o ChatGPT “Ser ou não ser? Eis a questão” Dizia Hamlet em uma profunda reflexão no famoso monólogo da tragédia escrita por Shakespeare, onde ele questiona a existência humana. Hamlet coloca-se em um confronto com a inevitabilidade da morte, refletindo se a vida humana tem algum propósito ou significado em face dessa inevitabilidade. Ele se pergunta se a vida é apenas uma série de eventos sem sentido ou se há algum propósito maior a ser cumprido. Embora a frase "ser ou não ser" trate dessa existência humana e seus dilemas, ela também pode ser aplicada à inteligência artificial. Sendo uma criação humana, ela foi desenvolvida para desempenhar tarefas específicas e aumentar a eficiência em vários setores da sociedade. No entanto, assim como Hamlet questiona o propósito da vida humana, muitos especialistas questionam o propósito da existência da IA, uma criação humana que, portanto, não pode ser vista como tendo uma experiência consciente ou uma perspectiva existencial. Hamlet é um personagem que questiona sua própria existência e consciência, e passa a maior parte da peça tentando decidir qual a melhor ação a ser tomada diante das circunstâncias que o cercam. Ele é um ser humano com livre-arbítrio e capacidade de reflexão, e suas ações são movidas por suas próprias escolhas e convicções. A inteligência artificial, por outro lado, é um produto da engenharia de software, que segue um conjunto de regras e algoritmos programados para desempenhar tarefas específicas. Embora possa parecer que a inteligência artificial toma decisões por conta própria, na verdade ela segue uma lógica pré-determinada e não tem capacidade de questionar sua própria existência ou fazer escolhas baseadas em emoções ou intuições. Assim como Hamlet, a inteligência artificial “enfrenta” (ou gera) questões éticas e morais, como o uso correto e responsável de seus algoritmos e a possibilidade de causar danos inadvertidamente. Além disso, há debates sobre se a inteligência artificial poderia algum dia desenvolver a consciência e a capacidade de tomada de decisão autônoma, o que seria um marco significativo na evolução da tecnologia. Nosso quadro reflexivo fica assim: Hamlet representa a complexidade da natureza humana e suas capacidades de escolha e reflexão; a inteligência artificial contemporânea é uma criação tecnológica com limitações e potencialidades específicas. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto

  • Esquerda de lá, direita de cá, e o povo segue firme tomando no centro

    Não está fácil para ninguém. E quando digo ninguém, eu quero dizer os nossos. O povo, aquele que passa de 3 a 4 horas por dia em transporte público. O que vive para trabalhar e trabalha para sobreviver. Num país onde virou moda ter político de estimação, falar de política já não tem mais o mesmo significado. Um lado finge se importar, o outro claramente não se importa e os que ficam em cima do muro seguem sendo apedrejados pelos dois lados. O jogo político está longe de ser a salvação do povo. Isso não significa que a gente não deva lutar pelos nossos direitos, mas quer dizer que o foco precisa ser outro. Na troca de um governo para outro, seja bom ou seja ruim, você goste ou não, no final quem paga sempre é a gente. Um pouquinho que o país piore é automático no final da linha o aumento de desemprego ou o preço dos produtos no mercado. Quem paga somos nós, sempre foi, independente de quem esteja no poder. Até os que possuem boa intenção vão ter dificuldade para fazer algo, não depende só deles. Rezar para que a política não piore e agradecer o pouco que melhorar. Mas esse não deve ser o jogo do povo. Devemos acompanhar, nos informar e fazer nossa parte, mas colocar toda a energia nisso é desperdício e não vai trazer resultado real para a gente que está todo dia fazendo o país funcionar. Não vai ser uma única grande liderança que vai fazer toda a diferença. Pode até aparecer um novo Martin Luther King, um Gandhi ou quem sabe um Malcolm X, mas qual a chance? Depender disso seria maluquice. Antigamente um discurso em praça pública alcançava, 20 mil, 50 mil, 100 mil pessoas. Hoje um discurso em praça pública alcança 1 milhão, 2 milhões, 10 milhões por causa da internet. Não precisamos de uma única liderança, precisamos de pequenas lideranças. Centenas de pequenas lideranças, milhares de pequenas lideranças. Não precisa necessariamente ser nas empresas, nem no planalto. Essa liderança pode ser muito mais simples. Por mais difícil que seja, a informação hoje chega para uma bolha muito maior da população do que era 20 anos atrás. Hoje qualquer pessoa com um celular e internet na mão consegue acessar conteúdos que antes só a burguesia acessava. “Ah, mas acessar não é o suficiente, uma boa parte não teve estudo para conseguir entender esses conteúdos.” Verdade, acessar está longe de ser suficiente. Esse conteúdo precisa ser mastigado e colocado de bandeja para o povo. O rap fazia e ainda faz muito isso, levar a reflexão e o conhecimento de forma simplificada. Porém é limitado. É difícil fazer um som ensinando o menor a se portar numa entrevista ou a se comunicar melhor. As demais lideranças servem para complementar esse trabalho de levar conhecimento ao povo. Os poucos que conseguirem furar a bolha, devem orientar as pessoas ao seu redor. Essa pequena liderança pode e deve começar dentro de casa, mesmo com coisas simples. Já que dependemos do SUS e do transporte público, por exemplo, precisamos aprender a viver o dia a dia de forma menos estressante. Um moleque que aprende a treinar em casa e consegue motivar sua mãe a treinar junto, é um trabalho de prevenção. Reduz a chance dela precisar ir ao médico ou de gastar com remédios. Isso está ao nosso alcance. Com o dinheiro contado, não sobra muita opção no mercado, porém é possível aprender a reduzir o açúcar, a gordura, o sódio. Esse tipo de conhecimento chega para alguns de nós, apenas precisamos facilitar e espalhar. Aos poucos melhoramos também o sono, a inteligência emocional, os conflitos familiares e por aí vai. Não é da noite para o dia, mas já conseguimos fazer essa liderança em nossas casas, com outros familiares e com amigos. “Esquerda de lá, direita de cá, e o povo segue firme tomando no centro” — Djonga O povo não precisa continuar tomando no centro. Se o povo for pelo povo, é possível fazer mudanças que estão ao nosso alcance. Algumas mudanças não custam dinheiro e fazem bastante diferença, nos dá mais liberdade. Depois, conforme alguns dos nossos conseguirem ter empresas lucrativas, nós também conseguiremos ditar a qualidade dos empregos e do respeito ao trabalhador. Não precisamos ter pressa, apenas precisamos começar. Afinal, já são mais de 500 anos nessa ladainha e nossos netos não merecem herdar guerra nenhuma. Muita fé e progresso pra nós! Texto escrito por Fellipe Barcelos Barcelos é Influenciador Digital, cria de quebrada e lidera um movimento para pessoas que desejam ser melhores para si e para sua família. Acredita que o conhecimento salvará o povo e atualmente é colunista do Portal Águia. Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes

  • Primavera esportiva na Arábia Saudita?

    A Arábia Saudita está no centro das atenções no mundo do esporte devido a investimentos maciços em acordos esportivos desde o início de 2021, totalizando pelo menos US$ 6,3 bilhões (R$ 31,2 bilhões). Essa soma representa quatro vezes mais do que foi gasto nos seis anos anteriores. Esse movimento ousado é parte integrante da Visão 2030, uma ambiciosa iniciativa liderada pelo príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman, que busca diversificar a economia do país e reduzir sua dependência do petróleo. O ponto alto dessa estratégia é a aquisição de quatro dos principais clubes de futebol da Arábia Saudita pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita: Al Ahli, Al Hilal, Al Nassr e Al Ittihad. Além disso, a liga de futebol saudita já era considerada a mais forte da região, o que contribuiu para sua capacidade de atrair jogadores de elite. No epicentro dessas transações está a contratação de Neymar, que fechou um acordo estimado em 90 milhões de euros (R$ 483,5 milhões) com o Paris Saint-Germain para se juntar ao Al Hilal. O contrato prevê dois anos com a opção de um terceiro, e Neymar receberá um salário anual de 100 milhões de euros (R$ 538 milhões), equivalente a mais de R$ 44 milhões por mês. Essa mudança marca o fim de uma era tumultuada de seis anos do astro brasileiro no PSG, onde enfrentou lesões e desafios fora do campo, apesar de conquistar títulos da Ligue 1 e chegar à final da UEFA Champions League em 2020. Neymar não está sozinho nessa revolução esportiva saudita. Outros nomes de destaque, como Cristiano Ronaldo, N'Golo Kanté, Karim Benzema, Sadio Mané, Romarinho, Alex Telles e Malcom, também se juntaram aos clubes sauditas. Essas contratações de alto nível têm chamado a atenção para a crescente influência do país no cenário esportivo global. No entanto, por trás desse ambicioso movimento esportivo, há uma estratégia mais ampla. A Arábia Saudita está adotando uma abordagem de "Soft Power" (Poder Brando) para melhorar sua imagem internacional. O conceito de Soft Power, introduzido pelo teórico de Relações Internacionais Joseph Nye, destaca a capacidade de influenciar o comportamento dos outros para alcançar objetivos desejados, sem recorrer à coação. Para que o Soft Power funcione, é essencial compreender as preferências das partes envolvidas. Nesse contexto, a Arábia Saudita está utilizando investimentos em esporte, entretenimento e turismo como ferramentas para melhorar sua imagem global. Isso é particularmente importante para mitigar preocupações sobre seu histórico de abusos dos direitos humanos, como a criminalização da homossexualidade, a submissão das mulheres aos homens por lei e restrições à liberdade de expressão, além da frequente aplicação da pena de morte. Os esforços do país árabe incluem a realização de grandes eventos que são bem recebidos pela população jovem do país, ao mesmo tempo em que buscam gerar empregos e evitar agitações internas. Assim, a busca pelo Soft Power tornou-se uma parte fundamental da estratégia global da Arábia Saudita para influenciar positivamente as percepções e o comportamento de outros países no cenário global. À medida que os olhos do mundo se voltam para a revolução esportiva saudita, fica claro que esses investimentos bilionários não apenas transformam o cenário esportivo, mas também representam um esforço para moldar a narrativa global em torno do país e de suas ambições para o futuro. A Arábia Saudita possivelmente estaria apostando alto, não apenas no campo esportivo, mas também como um ator influente. Texto escrito por Matheus Noronha Formado em Mecânica Aeronáutica, estudante de Engenharia de Automação e Controle pela Universidade São Judas. Um amante da ciência e literatura e curioso por essência. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Referências: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2023/08/18/compra-neymar-plano-monarquia-arabia-saudita.htm https://www.terra.com.br/esportes/craques/cristiano-ronaldo/como-arabia-saudita-usa-cristiano-ronaldo-e-benzema-para-viabilizar-plano-ambicioso-para-2030,c446c707e9aceba19f4e3ce8540470batff25gcs.html https://www.reuters.com/sports/soccer/neymar-joins-saudi-club-al-hilal-psg-2023-08-15/ http://www.iri.puc-rio.br/wp-content/uploads/2023/02/Eixo-Conflitos_Victoria-Sarno-Monteiro-Fernandes.pdf

  • Porto de Santos - O porto de desigualdades

    O Porto de Santos, fundado em 1892 pela Companhia das Docas de Santos, é conhecido como o maior porto da América Latina. Esse porto gigante abrange três cidades da baixada santista, região sudeste litoral de São Paulo, são elas as cidades de Santos, Guarujá e Cubatão sendo a margem direita do porto na cidade de Santos área insular, e a margem esquerda Cubatão, área continental de Santos e Ilha de Santo Amaro no Guarujá. Os números do gigante impressionam, são mais de 13 quilômetros de extensão, movimenta ¼ ou 25% de tudo o que é importado e exportado em cargas no Brasil, são bilhões de toneladas movimentadas em mais de 5 milhões de containers todos os anos, além dos ricos e imponentes navios de cruzeiros que transportam centenas de milhares de passageiros nas temporadas. O Porto que é fundamental para a logística do País realmente impressiona, mas não é sobre os números do rico porto de Santos que vou falar, quero mostrar o quanto a riqueza portuária diverge com o que há em sua volta. Sítio Conceiçãozinha Ocupado em meados de 1920 pelas primeiras 8 famílias, o sítio Conceiçãozinha que faz parte do bairro Vicente de Carvalho, na margem esquerda na cidade de Guarujá, nem de longe lembra o início da ocupação, as casas eram grandes, mesmo sendo de madeira eram grandes e com o mínimo de estrutura. Com o aumento da ocupação do território, houve um período em 1970 que as autoridades para controlar as construções, instalou uma guarita com segurança na única entrada de terra que leva para a comunidade, impedindo que moradores fizessem melhorias em suas residências, depois de um tempo retiraram a guarita e com a ausência de políticas habitacionais e controle do poder público, houve uma ocupação desenfreada, e a construção de palafitas em cima do mangue, onde vivem atualmente cerca de 1.700 famílias, cerca de 6 mil pessoas. Infelizmente as pessoas que ali vivem são expostas a contaminação por metais pesados, sofrem com a ausência de políticas públicas, a comunidade que fica dentro do Porto de Santos na margem esquerda no Guarujá, é cercada por navios e do outro lado pelos trens de carga. Desigualdade Se por um lado há a riqueza do porto, do outro lado há uma comunidade abandonada, esquecida pelo poder público e além disso, ameaçada pela expansão do porto que de tempos em tempos ameaçam retirá-los. O mais recente episódio é a expansão dos atracadouros de um terminal, essa obra ameaça fechar a única saída para o mar, prejudicando os moradores e principalmente os pescadores que fazem a pesca artesanal, entidades e associação de pescadores e moradores acionaram o MP solicitando a imediata paralisação das obras. O que torna mais curioso é que a autoridade portuária divulga em seus balancetes lucros com recordes de arrecadação, mas junto das autoridades federais, estaduais e municipais, não criam políticas públicas, um plano para ao menos reassentar as famílias que construíram sobre o mangue e vivem de maneira insalubre. A criminalidade também faz parte da comunidade, traficantes internacionais de drogas usam a comunidade pela proximidade com o porto, esse fato exige ainda mais políticas públicas, como as habitacionais e sociais. A relação do porto com as cidades e principalmente com a comunidade do sítio Conceiçãozinha precisa ser aprimorada, um olhar mais humano para o desenvolvimento social deve ocorrer, não é justo que quem tanto arrecada como o porto de Santos, não tenha um olhar para famílias carentes e em condições tão insalubres. Porto e cidade A relação do porto com as cidades ainda é desigual, para se ter noção a travessia da cidade de Santos e Guarujá ainda é realizada por balsas e barcas, causando transtornos e grandes congestionamentos nas duas cidades, ou então por um longo percurso de 45 km por ligação seca, há anos se discute à ligação seca passando pelo canal do porto, um percurso de pouco mais de 800 metros, aparentemente sairá do papel. São mais de 97 anos de discussão, o Governo Federal incluiu o túnel submerso às obras do PAC, Programa de Aceleração e Crescimento e a autoridade portuária já reservou recursos para execução da obra, há também a intenção do resgate da zona portuária do lado Santos, em parceria com a cidade e autoridade portuária vão reformar armazéns abandonados, com a intenção de atrair o turismo para a região. Todo esse esforço também deveria se concentrar em investimentos no lado Guarujá, onde fica o sítio Conceiçãozinha, cercado pelo porto, mas infelizmente não vemos o mesmo empenho. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia. Fontes: https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/comunidade-de-sitio-conceicaozinha-no-bairro-vicente-de-carvalho-luta-por-sobrevivencia-e-contra-expansao-do-porto-de-santos/ https://www.portodesantos.com.br/conheca-o-porto/historia-2/ https://medium.com/yanboechat/um-favela-dentro-do-maior-porto-da-america-latina-b7693673ec2f https://nupaub.fflch.usp.br/sites/nupaub.fflch.usp.br/files/color/moreira.pdf https://www.diariodolitoral.com.br/guaruja/obra-do-teg-e-denunciada-nos-mps-estadual-e-federal-de-santos/165520/

  • João Pessoa Nega, Ariano Suassuna também

    Nascido no dia 24 de janeiro de 1878 na cidade de Umbuzeiro, na Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, mais conhecido como João Pessoa, filho de Cândido Clementino Cavalcanti de Albuquerque e Maria de Lucena Pessoa, irmã do ex-presidente do Brasil Epitácio Pessoa, estudou no Liceu Paraibano na capital do estado da Paraíba, e em 1894 iniciou sua jornada no 27º Batalhão de Infantaria. Em seguida se mudou para o Rio de Janeiro onde estudou na Escola Militar da Praia Vermelha, porém já era considerado revolucionário e foi transferido para Belém do Pará e em seguida desligado da carreira militar no Exército. João Pessoa se formou em direito em 1903 pela Faculdade de Direito do Recife – uma das duas primeiras faculdades de direito do país. Lecionou, exerceu advocacia e foi delegado de ensino na atual capital pernambucana até 1910, momento em que se mudou para o Rio de Janeiro onde foi nomeado representante da Fazenda do Estado, participou no processo para o melhoramento do porto desapropriando alguns terrenos. Por influência do tio Epitácio Pessoa em 1913 se tornou auditor da Marinha e em 1920 foi ministro civil do Supremo Tribunal Militar. Casado com Maria Luísa de Sousa Leão Gonçalves e cercado de pessoas influentes na política, tanto pelo sogro promotor e político Sigismundo Antônio Gonçalves quanto pelo tio ex-presidente do Brasil Epitácio Pessoa, João Pessoa optou por seguir a carreira política. Em junho de 1928 através do Partido Republicano foi eleito para presidente (governador) do estado da Paraíba. João Pessoa e a política Existem relatos que durante seu governo João Pessoa conseguiu reduzir a sonegação de impostos, equilibrar a economia do Estado e estimular a agricultura e a indústria, promover reforma na estrutura político-administrativa, instituir a tributação sobre o comércio entre o interior paraibano e o porto de Recife causando descontentamento entre fazendeiros do interior, além de combater as oligarquias locais e ser contrário aos interesses de grupos tradicionais, embora sua origem fosse de família de oligarcas. Entre as diversas obras que realizou se destacam a Av. Epitácio Pessoa, uma das principais da capital, e o porto de Cabedelo que é importante para o estado. Em um contexto de instabilidade política e crises econômicas do período conhecido como República Velha (1889-1930), o país era governado por uma oligarquia, representada principalmente pelos cafeicultores paulistas e pelos grandes latifundiários do estado de Minas Gerais. Esse sistema político era caracterizado pelo chamado “voto de cabresto”, em que os coronéis exerciam controle sobre o voto dos eleitores, garantindo a permanência no poder das elites agrárias da política “Café com leite” (onde políticos de São Paulo “café” e Minas Gerais “leite” se revezavam na presidência). No aspecto econômico, o Brasil era fortemente dependente da exportação de produtos primários, principalmente o café, que representava a principal fonte de receita do país. Essa dependência econômica tornava a economia brasileira vulnerável às flutuações dos preços internacionais desses produtos, o que resultava em ciclos de prosperidade seguidos por períodos de recessão. Além disso, a concentração fundiária e a exploração desigual dos recursos naturais agravavam as desigualdades sociais no país. Eleições de 1930 e morte de João Pessoa Júlio Prestes foi indicado por Washington Luís para lhe suceder, com o incômodo gerado de que o estado de São Paulo continuaria no cargo caso Júlio Prestes vencesse, João Pessoa se candidatou a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas e teve o apoio do mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrade formando uma união entre os estados do Rio Grande do Sul, Paraíba e Minas Gerais se tornando a Aliança Liberal. Em clima ardente, nas eleições do dia 1 de março de 1930, com vinte estados elegíveis, Júlio Prestes venceu a eleição acirrada. João Dantas, inimigo político de João Pessoa, se relacionava com uma moça da cidade de Parahyba (atual João Pessoa) e cartas confidenciais deste romance foram publicadas em um jornal de alta veiculação. Dantas acreditou que essas cartas foram ao público devido a João Pessoa, que estava revoltado pela derrota na eleição. No dia 26 de julho de 1930 na Confeitaria Glória em Recife/PE, Dantas o assassinou. Influente que era, o assassinato de João Pessoa desencadeou a revolução de 1930. O povo sulista enfurecido apoiou Getúlio Vargas, que saiu com vitória nesta revolução contra Washington Luís. Júlio Prestes não assumiu o governo. A Parahyba, capital do estado da Paraíba, que foi fundada com o nome de Nossa Senhora das Neves às margens do rio Sanhauá em 05 de agosto de 1585, no dia comemorativo da santa Nossa Senhora das Neves (milagrosa santa que fez cair neve em uma região na Europa em pleno verão ardente) que posteriormente recebeu outros nomes sendo Filipeia de Nossa Senhora das Neves (ou Filipeia), Frederica (ou Frederikstad), recebeu o nome de João Pessoa em homenagem ao político e uma nova bandeira, ainda a atual do Estado, foi criada com simbolismos homenageando-o. A faixa preta simboliza o luto e a grande faixa vermelha representa o sangue de João Pessoa. Essas cores também representam as cores da Aliança Liberal. A frase “Nego” (tempo presente do verbo negar) foi dita por João Pessoa ao negar a continuação da política café com leite e a vitória de Júlio Prestes. Até a reforma ortográfica da língua portuguesa de 1971 havia o acento agudo na palavra “Négo” na bandeira. João Dantas foi preso junto com seu cunhado Augusto Caldas – existem relatos de que este era inocente. Em 06 de outubro de 1930, na Detenção de Recife (Casa da Cultura de Pernambuco), ambos foram chacinados por oito homens que participavam da revolução na atual capital pernambucana. João e o pessoa Suassuna Acusado de cúmplice do assassinato de João Pessoa, João Suassuna que era advogado, deputado federal, governador antecessor no Estado da Paraíba e opositor a João Pessoa, foi morto quando seu filho, o famoso escritor Ariano Suassuna só tinha três anos. Ariano buscou decifrar os motivos do assassinato do pai e costumava dizer que a morte do seu pai foi “de forma traiçoeira numa emboscada”. Em suas obras Ariano Suassuna chegou a escrever alguns relatos buscando manter viva a memória do pai mesmo com dificuldade por ser tomado pela emoção do luto. Ariano Suassuna se negava a dizer o nome da capital Paraibana devido ao luto por seu pai. Na sua obra “Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” , elaborada por mais de duas décadas consta a presença do pai como Dom Sebastião I, rei de Portugal que desapareceu em uma batalha e nunca mais retornou mesmo que se estimasse um retorno. Texto escrito por Fabiana Mercado Pós graduada em Comunicação e Marketing Digital, formada em Publicidade e Propaganda, acumula mais de 9 anos na área, colunista do Zero Águia, curiosa, preza o respeito a todas as pessoas independente de características. Nas horas vagas pratica corridas com o apoio da equipe Superatis. Adora conhecer novas pessoas e lugares, ama viajar e possui um projeto denominado Desbravando Capitais com o marido para morar e vivenciar durante um mês em todas as capitais brasileiras nos próximos anos. Fontes: senado.leg.br cepe.com.br https://www.ebiografia.com/joao_pessoa/ https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Suassuna https://www.parentesco.com.br/index.php?apg=arvore&idp=33278&ori=cidN&ver=por https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Pessoa_(pol%C3%ADtico) Explique a situação econômica e política do Brasil antes da revolução de 1930 - brainly.com.br Revolução de 1930: o que foi, causas e contexto (historiadobrasil.net) Política e Economia no Brasil no Período de 1930 a 1964 | Zé Moleza (zemoleza.com.br) situação política do brasil antes da revolução de 1930 - Pesquisar (bing.com) https://jornaldaparaiba.com.br/politica/conversa-politica/95-anos-ariano-suassuna-joao-pessoa-inspirou-obra-paraibano/

  • Os levantes na África e o anti-colonialismo

    Temos vistos nos últimos dias diversas notícias sobre levantes nos países africanos, em especial no Níger e no Burkina Faso, e essas tomadas de poder terão consequências que vão se desdobrar por um bom tempo, pois envolvem as maiores potências do planeta e um sentimento de anti-colonialismo que tem crescido bastante nos últimos tempos no continente africano. Se você não está acompanhando o que está acontecendo no Níger e nos outros países da região do Sahel, fique tranquilo(a), porque nesse artigo iremos explicar esses eventos, que abalaram todo o sistema internacional, inclusive provocando reações em algumas das nações mais poderosas do mundo. Níger Para quem não conhece o Níger, é um país que fica na África subsaariana, no coração da África. O Níger está situado na região do Sahel, uma faixa de terra semi árida que se estende do Senegal ao Sudão, considerada uma zona de transição entre o deserto do Saara e a savana africana. É uma posição muito estratégica, pois o país faz fronteira com sete países, alguns dos quais enfrentam conflitos armados, como a Líbia, o Mali e a Nigéria. Por isso, o Níger é visto como um país-chave para a estabilidade e a segurança da região. Além disso, o Níger possui grandes reservas de urânio, um mineral usado para produzir energia nuclear e armas nucleares, sendo este país africano o quarto maior produtor de urânio do mundo, e fornecendo cerca de 5% da demanda global. A França é o principal comprador do urânio nigerino, mas outros países, como a China, também têm interesse nesse recurso. No final de julho houve um golpe de estado e uma junta militar tomou o poder do país e depôs Mohamed Bazoum, levante este que teve amplo apoio popular, com manifestações inclusive em frente à embaixada da França, mostrando um claro descontentamento com o país europeu. A democracia do Níger era completamente controlada pela França e por países ocidentais, existem inclusive bases militares estadunidenses dentro do Níger, sendo que a justificativa oficial é ajudar o governo do Níger a combater a Al-Qaeda. Porém se os EUA quisessem realmente só prevenir ataques jihadistas teriam fornecido apoio financeiro ao exército nigerino. Porém, o real objetivo é manter uma força militar num dos países mais estratégicos do centro da África, como já explicado anteriormente. Assim o golpe foi visto por uma boa parte da população como uma libertação da influência ocidental. A instabilidade política nas ex-colônias francesas da África Ocidental tem causado uma onda de golpes militares. Desde 2020, os sentimentos anti franceses parecem ter desencadeado ou pelo menos contribuído para provocar golpes em Burkina Faso, Guiné, Mali e, agora, no Níger. Pacto Colonial Francês A União Francesa (em francês Union Française) foi uma instituição criada no âmbito dos resultados da Conferência de Brazzaville em 1944 e da fundação da Quarta República Francesa em 1946 para substituir o Império colonial francês, instituição que gerou muita revolta e guerras nas colônias francesas, pois não apenas negava a independência dos países, mas também seu auto-governo. A França continuou mantendo seu domínio nos países da África pelo Pacto Colonial (União Francesa). Esse pacto tinha como objetivo inicial reconhecer a soberania dos países africanos mas permitia que a França realizasse uma intervenção militar nesses países caso fossem atacados por estrangeiros. O único país que se opôs ao pacto colonial foi a Guiné, decisão que enfureceu os franceses. Houve uma grande retaliação da França por causa dessa decisão, onde medicamentos e suprimentos foram queimados, porém o presidente na época, Sékou Touré, manteve a posição firme. Por causa dessa atitude, o presidente saiu na revista Time de 1959, com um slogan que ficou muito famoso: “A Guiné prefere pobreza na liberdade, do que riqueza na escravidão.” Sobre os compromissos do pacto, diz que os países francófonos devem ter uma moeda comum (hoje chamada de CFA) e 65% de sua renda nacional todos os anos deve ser depositada no Banco da França. 20% do rendimento nacional, referido como passivo financeiro, também deve ser depositado no Banco da França. Sendo assim, 85% de tudo que os países francófonos produzem de receita é mantido na França. Também estabelece que todos os empréstimos que estes países solicitam devem priorizar o Banco da França. A França também tem a primeira opção de compra de qualquer recurso mineral encontrado nestes países. Também é permitido que empresas francesas iniciem a mineração destes recursos naturais na África Ocidental. Caso não demonstrem interesse, os países podem procurar outros contratantes, porém através de empresas francesas. Essas medidas tem enfurecido a população dos países francófonos, e os recentes levantes do Mali, Burkina Faso e Níger tem preocupado a França, pois podem perder todas estas regalias que foram impostas sobre os países africanos, o que na prática é uma extensão do império colonial francês nos dias atuais. CEDEAO e a tensão na África Ocidental Em 10 de agosto de 2023 a Organização para Cooperação econômica da África Ocidental, ou Comunauté Économique des États de l’Afrique de l’Ouest (CEDEAO), composta por 11 países que hoje são apoiados por governos ocidentais, concordou em lançar uma intervenção militar no Níger com o objetivo de depor à força a junta militar que deu um golpe no governo democraticamente eleito do país. A CEDEAO, com apoio da França e dos EUA, está mobilizando tropas para invadir o Níger, com intuito de restabelecer a “democracia” e na prática a submissão à França e às potências ocidentais. Do outro lado, o levante popular no Níger já comunicou que não irá ceder à pressão e que irá resistir, não aceitando entregar o controle do país, inclusive já fechando o espaço aéreo para aeronaves estrangeiras. Os vizinhos do Níger, Mali e Burkina Faso comunicaram que irão se mobilizar para defender a soberania territorial do Níger, num cenário de possível conflito que poderá envolver não somente estes países do continente africano como também as potências ocidentais e a Rússia. Apoio da Rússia e perdão de dívida O governo russo cancelou mais de US$20 bilhões em dívidas históricas de nações africanas, disse o presidente Vladimir Putin no dia 28 de Julho, falando em uma sessão plenária do fórum Rússia-África em São Petersburgo. “O valor total da dívida dos países africanos anulados pela Rússia chega a US$23 bilhões, com outros US$90 milhões a serem alocados para os mesmos fins” Afirmou Putin, referindo-se aos laços comerciais e financeiros históricos entre Moscou e a África. Avaliando o momento político e econômico da África, de um lado temos os países ocidentais, que usam da “democracia” para ter o domínio sobre os países africanos. Os países ocidentais, que exploraram durante séculos aquele território e que não estão dispostos a fazer nenhum tipo de investimento no país, a menos que aquilo os beneficie diretamente. E do outro lado, temos um país que perdoa dívidas bilionárias, investindo diretamente na economia do país e que é um aliado histórico da África, que é a Rússia. Não há muitas dúvidas de que essas movimentações irão afetar a economia e geopolítica globais. Conclusão É possível entender, com todas estas informações, que os povos africanos só estão buscando sua auto determinação, procurando se libertar das amarras coloniais e imperialistas que há séculos acorrentam o continente. Porém, a grande mídia sempre irá relativizar tudo que se refere à levantes populares, principalmente no continente africano. Por isso, se informe de maneira independente, busque diversas fontes de informação, principalmente do país afetado, e nunca tire conclusões seguindo a narrativa ocidental, quando se fala de um país do sul global. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Fontes Czar Politik : Níger — Um País Estratégico no Coração da África A onda de golpes de Estado nas ex-colônias francesas na África (msn.com) Martina Giovanetti - vídeo MUITO completo pra vocês ficarem por dentro de tudo! #foryoupage... | nigeria situation | TikTok Thiago Ávila - Vai comecar uma nova GUERRA e quase ninguem ta falando disso! | o que esta acontecendo na africa | TikTok África do Jeito que Você Nunca Viu - Você sabia que muitos países africanos continuam pagando impostos colo... | burkina faso pais | TikTok

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