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  • Metaverso e o futuro da comunicação

    O que é o Metaverso? Porque tantas pessoas estão falando sobre isso hoje em dia? Qual será o impacto do metaverso no cotidiano das pessoas em um futuro próximo? Vamos tentar responder à estas questões neste artigo. O termo metaverso foi cunhado no romance de ficção científica Snow Crash, de Neal Stephenson, escrito em 1992, onde os humanos, retratados como avatares programáveis, interagem uns com os outros em um espaço virtual tridimensional que é uma metáfora do mundo real. Stephenson usou o termo para descrever um sucessor da internet baseado em realidade virtual. Os usuários do metaverso o acessavam por meio de terminais pessoais que projetavam uma tela de realidade virtual de alta qualidade em óculos usados ​​pelo usuário, ou em terminais públicos. Stephenson descreve uma subcultura de pessoas que optam por permanecer continuamente conectadas ao metaverso, recebendo o apelido de "gárgulas" devido à sua aparência grotesca. Dentro do metaverso, os usuários individuais apareciam como avatares com diversas aparências, com a única restrição de altura, para evitar que as pessoas criassem gigantes. Definições No futurismo e na ficção científica, o termo é freqüentemente descrito como uma iteração hipotética da Internet, um mundo virtual único e universal que é facilitado pelo uso de fones de ouvido e óculos de realidade virtual aumentada. Vários metaversos foram desenvolvidos para uso popular, como plataformas de mundo virtual, um exemplo sendo o ambiente simulado chamado Second Life. Algumas iterações do metaverso envolvem a integração entre espaços virtuais e físicos e economias virtuais, muitas vezes incluindo um interesse significativo no avanço da tecnologia de realidade virtual. O termo tem visto uso considerável como uma palavra da moda com fins de relações públicas, exagerando o progresso de várias tecnologias e projetos relacionados. A privacidade da informação e a possibilidade de viciar os usuários são preocupações dentro dos metaversos, desafios já enfrentados pelas indústrias de mídia social e videogame como um todo. Realidade Virtual Em 2019, a empresa de rede social Facebook lançou um mundo de realidade virtual chamado Facebook Horizon. Em 2021, o Facebook foi renomeado para "Meta Platforms" e seu presidente Mark Zuckerberg declarou o compromisso da empresa em desenvolver um metaverso. A Microsoft adquiriu a empresa de VR AltspaceVR em 2017, e desde então implementou recursos do metaverso, como avatares virtuais e reuniões realizadas em realidade virtual no Microsoft Teams. Em 18 de Janeiro deste ano, a Microsoft também adquiriu a gigante dos games Activision Blizzard, criadora de sucessos como World of Warcraft, Overwatch, Diablo, Call of Duty e Candy Crush. Esta compra foi avaliada em 84 bilhões de dólares, sendo a transação mais valiosa de todos os tempos no mundo dos games e tem como objetivo facilitar a aproximação da Microsoft com o metaverso, devido à grande experiência da Blizzard em plataformas de interação social no mundo virtual. O que esperar? Existe uma grande possibilidade do Metaverso se tornar uma realidade nos próximos anos, com uma utilização em massa pela sociedade, inclusive muitos especialistas classificam o metaverso como o "futuro da internet", porém a vinda de uma plataforma social pouco regularizada, com grande liberdade individual pode desencadear problemas tais como a adicção, o crescimento da cultura do ódio e preconceito e a proliferação de golpes financeiros. Não que só hajam consequencias negativas em relação ao metaverso, porque ele apresenta uma grande oportunidade de conexão entre pessoas que mesmo a internet não providencia hoje. Talvez o futuro seja um resultado equilibrado dos prós e contras, como a maioria das inovações tecnológicas se mostrou, nada é garantido quando se trata de uma mudança tão grande na sociedade como esta. Fontes: Artigo em inglês sobre o Metaverso na wikipédia: https://en.wikipedia.org/wiki/Metaverse Vídeo da Jovem Pan News sobre o Metaverso: https://www.youtube.com/watch?v=1nfy3avo9Ag Artigo sobre o Metaverso e a Web 3: https://www.coindesk.com/layer2/2021/12/21/web-3-and-the-metaverse-are-not-the-same/ Podcast do The Daily sobre o metaverso: https://www.nytimes.com/2022/01/20/podcasts/the-daily/metaverse-microsoft-activision-blizzard.html?showTranscript=1

  • Birds Aren't Real: Desinformação contra desinformação

    Birds Aren't Real é uma teoria da conspiração em forma de sátira a qual afirma que os pássaros são na verdade drones operados pelo governo dos Estados Unidos para espionar cidadãos americanos. Em 2018, a jornalista Rachel Roberts descreveu Birds Aren't Real como "uma piada que milhares de pessoas contam ao mesmo tempo". O movimento de conspiração fake é apoiado principalmente por jovens que alegam que os pássaros não são reais, mas na verdade foram substituídos por drones do governo na década de 1970. Na tradição da conspiração, cada pássaro é na verdade uma ferramenta de vigilância do estado. É uma paródia de conspiração. Um movimento social satirizado. As pessoas sabem que isso não é real. Em um mundo dominado por teorias da conspiração online, os jovens se uniram em torno do esforço de lutar contra a desinformação. É a tentativa da Geração Z de derrubar a ignorância usando o bizarro. "É uma maneira de combater problemas no mundo que você realmente não tem outras maneiras de combater", diz Claire Chronis, 22, organizadora do Birds Aren't Real em Pittsburgh. “Minha maneira favorita de descrever a organização é lutar contra a loucura usando a loucura.” Como surgiu? No centro do movimento está Peter McIndoe, 23, um estudante de Memphis que criou Birds Aren't Real por puro tédio em 2017. Por anos, ele permaneceu no personagem como o principal crente da teoria da conspiração. Mas agora McIndoe diz que está pronto para revelar a paródia para que as pessoas não pensem que os pássaros são realmente drones. Durante sua infância e adolescência, Peter cresceu cercado de teorias da conspiração, em uma comunidade profundamente conservadora e religiosa na zona rural do Arkansas. Ele foi educado em casa, ensinado que “a evolução foi um plano maciço de lavagem cerebral dos democratas e Obama era o Anticristo”, disse ele. No ensino médio, as mídias sociais lhe ofereceram uma porta de entrada para a cultura moderna. McIndoe começou a assistir Philip DeFranco e outros YouTubers populares que falavam sobre eventos atuais e cultura pop, e foi ao Reddit para encontrar novos pontos de vista. “Fui criado pela internet, porque foi lá que acabei encontrando muito da minha educação do mundo real, por meio de documentários e YouTube”, disse McIndoe. “Toda a minha compreensão do mundo foi formada pela internet.” Quando McIndoe saiu de casa para a Universidade do Arkansas em 2016, disse ele, percebeu que não era o único jovem forçado a enfrentar várias realidades. Então, em janeiro de 2017, McIndoe viajou para Memphis para visitar amigos. Donald Trump tinha acabado de tomar posse como presidente, e houve uma marcha das mulheres no centro da cidade. Os contramanifestantes pró-Trump também estavam lá. Quando McIndoe os viu, disse ele, arrancou um pôster da parede, virou-o e escreveu três palavras aleatórias: “Pássaros não são reais”. “Foi uma piada espontânea, mas foi um reflexo do absurdo que todos estavam sentindo”, disse ele. McIndoe então improvisou o folclore da conspiração Birds Are Not Real. Ele disse que fazia parte de um movimento maior que acreditava que os pássaros foram substituídos por drones de vigilância e que o acobertamento começou na década de 1970. Sem que ele soubesse, ele foi filmado e o vídeo postado no Facebook. Tornou-se viral, especialmente entre os adolescentes do Sul. Tão bizarro que confunde os conspiracionistas A maioria dos membros do Birds Aren't Real cresceu em um mundo invadido por desinformação. Alguns têm parentes que foram vítimas de teorias da conspiração. Então, para os membros da Geração Z, o movimento se tornou uma maneira de lidar coletivamente com essas experiências. Ao fazer cosplay de teóricos da conspiração, eles encontraram comunidade e acolhimento, disse McIndoe. Cameron Kasky, 21, ativista de Parkland, Flórida, que ajudou a organizar o protesto estudantil March for Our Lives contra a violência armada em 2018 e está envolvida em Birds Aren't Real, disse que a paródia "faz você parar por um segundo e rir . Em um momento excepcionalmente sombrio para a humanidade, não faz mal ter algo para rir juntos.” Os membros do Birds Are Not Real também se tornaram uma força política. Muitos vezes se juntam a contramanifestantes e teóricos da conspiração reais para diminuir as tensões e deslegitimar as pessoas que estão marchando ao lado com gritos de protesto irreverentes. Em setembro, logo após a entrada em vigor de uma nova lei de aborto restritiva no Texas, membros do Birds Aren't Real apareceram em um protesto realizado por ativistas antiaborto na Universidade de Cincinnati. Os defensores da nova lei “tinham cartazes com imagens muito gráficas e eram muito agressivos ao condenar as pessoas”, disse McIndoe. “Isso levou a discussões.” Mas a Brigada dos Pássaros começou a cantar: “Pássaros não são reais”. Seus gritos ensurdecedores logo ultrapassaram os gritos dos ativistas anti-aborto, que foram embora. McIndoe agora tem grandes planos para 2022. Quebrar o personagem é necessário para ajudar Birds Aren't Real a saltar para o próximo nível e renunciar a teóricos da conspiração reais, disse ele. Ele acrescentou que espera colaborar com grandes criadores de conteúdo e mídia independente como o Channel 5 News, que visa ajudar as pessoas a entender o estado atual da América e da Internet. “Estou muito entusiasmado com o que o futuro disso pode ser como uma força real para o bem”, disse ele. “Sim, temos espalhado desinformação intencionalmente nos últimos quatro anos, mas é com um propósito. Trata-se de segurar um espelho para os Estados Unidos na era da internet.” Fontes: Reportagem e podcast do New York Times sobre o movimento: https://www.nytimes.com/2021/12/09/technology/birds-arent-real-gen-z-misinformation.html https://www.nytimes.com/2022/02/09/podcasts/the-daily/why-would-anybody-claim-that-birds-arent-real.html

  • Conflito na Ucrânia: forças russas invadem após declaração de Putin na TV

    Forças russas lançaram um ataque militar à vizinha Ucrânia, cruzando suas fronteiras e bombardeando alvos militares perto de grandes cidades. Em um comunicado feito pela TV antes do amanhecer, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que a Rússia não planeja ocupar a Ucrânia e exigiu que seus militares deponham as armas. Momentos depois, foram relatados ataques a alvos militares ucranianos. A Ucrânia disse que "Putin lançou uma invasão em grande escala no país". Os militares da Rússia romperam a fronteira em vários lugares, no norte, sul e leste, inclusive vindos da Bielorrússia, um aliado russo de longa data. Pelo menos sete pessoas foram mortas, incluindo civis, porém um assessor presidencial ucraniano disse que mais de 40 soldados morreram e dezenas ficaram feridos. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky anunciou que a lei marcial estava sendo imposta em toda a Ucrânia e, em seguida, cortou todas as relações diplomáticas com a Rússia. "Sem pânico. Somos fortes. Estamos prontos para qualquer coisa. Vamos derrotar todos, porque somos a Ucrânia", disse ele em um comunicado em vídeo. Antes do ataque da Rússia, ele fez uma última tentativa de evitar um conflito, alertando que a Rússia poderia iniciar "uma grande guerra na Europa" e instando os cidadãos russos a se oporem a ela. Sirenes de alerta soaram em toda a capital, que tem uma população de quase três milhões. O trânsito fez fila para a cidade durante a noite e deixou o metrô buscaram o abrigo nas estações de Kiev. Vários países vizinhos iniciaram os preparativos para acolher um grande número de refugiados. "Não entendemos o que devemos fazer agora", disse uma mulher chamada Svetlana à BBC. "Agora estamos indo para um lugar onde podemos estar seguros e podemos sair em segurança. Temos familiares em Mariupol e agora eles estão muito nervosos." Um homem foi morto quando as cidades russas bombardearam a Chuhuiv, nos arredores da grande cidade de Kharkiv. Alvos das forças militares russas A Rússia lançou ataques à infra-estrutura militar e às unidades de guarda de fronteira da Ucrânia, de acordo com Zelensky. Em seguida, as forças ucranianas disseram que veículos militares russos cruzaram a fronteira perto de Kharkiv no norte, Luhansk no leste, Criméia anexada à Rússia no sul e também vindos da Bielorrússia. O líder autoritário da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, disse que os militares de seu país não estão envolvidos, mas podem estar, se necessário. Tanques russos foram vistos mais tarde nos arredores de Kharkiv, uma cidade de 1,4 milhão de pessoas. As forças russas também teriam desembarcado por mar nas principais cidades portuárias da Ucrânia, Odessa, no Mar Negro, e Mariupol, no Mar interno de Azov. O Exército ucraniano disse que o aeroporto internacional Boryspil, em Kiev, está entre vários aeródromos que foram bombardeados, juntamente com quartéis-generais e armazéns militares nas cidades de Kiev, Dnipro, Kharkiv e Mariupol. Zelensky disse que a Rússia posicionou quase 200 mil soldados e milhares de veículos de combate nas fronteiras da Ucrânia. O líder russo lançou uma "operação militar especial" repetindo uma série de alegações infundadas que fez esta semana, incluindo alegar que o governo democraticamente eleito da Ucrânia foi responsável por oito anos de genocídio. Ele disse que o objetivo era a desmilitarização e a "desnazificação" da Ucrânia. Horas antes, o presidente da Ucrânia havia perguntado como um povo que perdeu oito milhões de cidadãos lutando contra os nazistas apoia o nazismo. "Como eu poderia ser um nazista?" disse Zelensky, que também é judeu. Houve uma resposta imediata à invasão dos países vizinhos. Na república báltica da Estônia, que faz fronteira com a Rússia, a primeira-ministro Kaja Kallas disse que vários aliados da Otan que compartilhavam fronteiras com a Rússia concordaram em iniciar consultas sob o Artigo 4 da Otan alegando que seu território está sob ameaça. "A agressão generalizada da Rússia é uma ameaça para o mundo inteiro e para todos os países da Otan", disse ela. Enquanto os carros faziam fila na fronteira da Ucrânia com a Moldávia, a presidente pró-UE do país, Maia Sandu, disse que estava declarando estado de emergência e estava preparada para ajudar dezenas de milhares de ucranianos. O presidente lituano Gitanas Nauseda também disse que estava assinando um estado de emergência a ser aprovado pelo parlamento. "Presidente Putin, em nome da humanidade, traga suas tropas de volta à Rússia", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. Os aliados ocidentais da Ucrânia alertaram repetidamente que a Rússia estava prestes a invadir, apesar das repetidas negações de Moscou. Os EUA, a UE, o Reino Unido e o Japão impuseram sanções contra líderes russos, bancos e deputados que apoiaram a medida. O presidente dos EUA, Joe Biden, disse que Washington e seus aliados responderão à invasão de forma unida e decisiva a "um ataque não provocado e injustificado das forças militares russas" à Ucrânia. "O mundo responsabilizará a Rússia", acrescentou. A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a UE está ao lado da Ucrânia, enquanto o chefe de política externa, Josep Borrell, disse que "estes estão entre os momentos mais sombrios para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial". Os 27 líderes da UE devem realizar uma reunião de cúpula de emergência ainda nesta quinta-feira. Fontes: Reportagem da BBC: https://www.bbc.com/news/world-europe-60503037 Reportagem da CNN: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/russia-ataca-a-ucrania-explosoes-sao-ouvidas-em-varias-cidades/

  • A Turquia e o autoritarismo de Erdogan

    Como que um dos poucos países de tradição islâmica que não é considerado um estado religioso é hoje governado de forma autoritária? Em 2014, se inicia o governo de Recep Tayyip Erdogan, o atual presidente, que controla com mão de ferro a Turquia, prendendo não só opositores como praticamente qualquer pessoa que discorde de seu governo. Nesta segunda (25), um tribunal turco condenou o ativista e filantropo Osman Kavala à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional por acusações altamente controversas de tentar derrubar o governo. Os veredictos decorrem de alegações de que Kavala financiou uma onda de protestos contra o governo no parque de Gezi em 2013 e desempenhou um papel na tentativa de golpe militar de 2016 no país. “Estas são teorias da conspiração elaboradas por motivos políticos e ideológicos”, disse Kavala ao tribunal momentos antes da sentença. O caso agora vai para o tribunal de apelações e pode seguir para o Supremo Tribunal Federal. O "golpe de estado" de 2016 O chamado "golpe de 2016" ocorreu na Turquia contra instituições estatais, incluindo o governo do presidente Erdogan. A tentativa foi realizada por uma facção dentro das Forças Armadas turcas que se denominavam como o Conselho de Paz em Casa. Eles tentaram tomar o controle de vários lugares em Ancara, Istambul, Marmaris e em outras regiões, como a entrada asiática da Ponte do Bósforo, mas não conseguiram fazê-lo depois que as forças leais ao estado os derrotaram. O Conselho citou como motivos a erosão do secularismo, a eliminação do regime democrático, o desrespeito pelos direitos humanos e a perda de credibilidade da Turquia na arena internacional como razões para o golpe. O governo disse que os líderes do golpe estavam ligados ao movimento Gülen, que é designado como uma organização terrorista pela República da Turquia e é liderado por Fethullah Gülen , um Empresário turco e estudioso que mora na Pensilvânia (EUA). O governo turco alegou que Gülen estava por trás do golpe (o que Gülen negou) e que os Estados Unidos o estavam abrigando. Os eventos que cercam a tentativa de golpe e os expurgos que se seguiram refletem uma complexa luta pelo poder entre as elites na Turquia. ”Evidentemente, houve uma tentativa de golpe”, analisa o coordenador do NEOM (Núcleo de Estudos do Oriente Médio) da UFF (Universidade Federal Fluminense), Paulo Hilu. No entanto, segundo o especialista, não é possível afirmar categoricamente se o levante foi forjado ou não. — É uma troca de acusações. O Erdogan desde o início acusou o Gülen. A questão é que, obviamente, o fracasso do golpe beneficia o Erdogan, porque dá a oportunidade para ele se livrar de focos de descontentamento com seu governo, tanto dentro do exército quanto do judiciário. Durante a tentativa de golpe, mais de 300 pessoas foram mortas e mais de duas mil ficaram feridas. Muitos edifícios governamentais, incluindo o Parlamento turco e o Palácio Presidencial , foram bombardeados do ar. Seguiram-se prisões em massa , com pelo menos 40.000 detidos, incluindo pelo menos 10.000 soldados e, por razões que permanecem obscuras, 2.745 juízes. 15.000 funcionários da educação também foram suspensos e as licenças de 21.000 professores que trabalhavam em instituições privadas foram revogadas depois que o governo declarou que eles era leais a Gülen. Mais de 77.000 pessoas foram presas e mais de 160.000 demitidas de seus empregos, em relatos de conexões com Gülen. Os números de prisões e a atitude do governo de Erdogan durante essa época e até hoje corroboram a visão de que hoje o governo turco é autoritário, reprimindo qualquer voz que pareça destoante do que as autoridades falam sobre conduzir o país. O governo presidencial centralizado da Turquia recuou décadas em seu histórico de direitos humanos, disse a Human Rights Watch (HRW) em sua revisão anual dos direitos humanos, informou o Stockholm Center for Freedom. De acordo com o relatório o governo de Erdogan continuou a visar os críticos e opositores políticos do governo, minando profundamente a independência do poder judiciário e esvaziando as instituições democráticas. O relatório da HRW criticou a prisão contínua do filantropo e empresário Osman Kavala, apontando que sua detenção por supostamente dirigir e financiar os protestos do Parque Gezi de 2013 e por suposto envolvimento no golpe fracassado em julho de 2016 é na verdade uma justificativa em busca de um “motivo oculto”, o de silenciá-lo como defensor dos direitos humanos. Quem é Osman Kavala? Nascido em 1957 na cidade de Paris, Kavala estudou Economia na Universidade de Manchester, no Reino Unido, antes de tomar as rédeas dos negócios da família na Turquia quando o pai faleceu, em 1982. Célebre por apoiar projetos culturais relacionados aos direitos de minorias, como a questão curda e a reconciliação armeno-turca, ele se dedicou progressivamente à publicação de livros, à arte e à cultura. Em 18 de outubro de 2017, Osman Kavala foi detido no Aeroporto Atatürk de Istambul após sua visita a Gaziantep para um projeto conjunto com o Instituto Goethe. Em 25 de outubro de 2017, o jornal Daily Sabah, próximo ao governo Erdoğan, acusou-o de ser um "magnata dos negócios com antecedentes obscuros" e ter contatos com o "Grupo Terrorista de Gülen". Esta foi a primeira vez que Kavala foi detido pelo governo turco, mas não a última. O empresário foi preso pelo menos 4 vezes nos últimos anos, até sua condenação nesta semana, que foi recebida pela mídia internacional como um ataque aos direitos humanos na Turquia e uma ação autoritária do presidente Erdogan. Os Estados Unidos disseram estar “profundamente preocupados e desapontados” com a condenação e sentença de Kavala e pediram sua libertação. “O povo da Turquia merece exercer seus direitos humanos e liberdades fundamentais sem medo de represálias”, disse Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado, em comunicado. “O direito de exercer a liberdade de expressão, reunião pacífica e associação está consagrado na constituição da Turquia e suas obrigações de direito internacional e compromissos da OSCE (Organização para Segurança e Cooperação na Europa). Instamos o governo a cessar os processos por motivos políticos e a respeitar os direitos e liberdades de todos os cidadãos turcos”. O Tribunal Europeu de Direitos Humanos havia ordenado sua libertação imediata em um veredicto emitido ainda em dezembro de 2019, determinando que seus direitos foram violados pelo Estado turco. Kavala disse que os comícios contra o governo, amplamente chamados de protestos de Gezi, foram protegidos pela liberdade de expressão. Os protestos começaram em 2013 como uma pequena manifestação contra a demolição de um parque de Istambul e se transformaram em distúrbios antigovernamentais em todo o país, nos quais oito manifestantes e dois policiais foram mortos. O tribunal europeu também disse que os promotores não têm provas de que Kavala tenha desempenhado um papel na tentativa de golpe de 2016, que foi realizada por uma facção das forças armadas turcas e levou à morte de 241 pessoas. O órgão de fiscalização dos direitos humanos do Conselho da Europa, o Comitê de Ministros, disse em fevereiro que o caso será remetido ao mais alto tribunal europeu. Tanto o Tribunal Europeu de Direitos Humanos quanto o comitê funcionam sob o Conselho da Europa, uma organização internacional focada em direitos da qual a Turquia é membro fundador. Erdogan diz que Kavala é um agente do esquerdista do bilionário e filantropo americano nascido na Hungria George Soros, que investiu bilhões de seu próprio dinheiro para bancar projetos de defesa dos direitos humanos e iniciativas de promoção de valores democráticos liberais ao redor do mundo. Conclui-se que Erdogan hoje não se importa mais com a forma como o regime é visto pelo resto do mundo, deixando cada vez mais claro que a Turquia se encaminha para virar uma ditadura, no modelo da Rússia e outras nações com governos autoritários, no que talvez seja seja lembrado no futuro como uma das épocas sombrias do país que liga a Europa ao Oriente Médio. Fontes: Matéria da Al-Jazeera sobre a prisão de Osman Kavala: https://www.aljazeera.com/news/2022/4/25/turkish-court-sentences-activist-osman-kavala-to-life-in-prison Artigo sobre Osman Kavala: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2022/04/25/quem-e-osman-kavala-bilionario-turco-e-inimigo-de-erdogan-condenado-a-prisao-perpetua.htm Artigo da Wikipédia sobre o golpe de 2016: https://en.wikipedia.org/wiki/2016_Turkish_coup_d%27%C3%A9tat_attempt Reportagem sobre o golpe de 2016: https://noticias.r7.com/internacional/presidente-da-turquia-pode-ter-forjado-golpe-militar-afirmam-especialistas-19072016 Artigo sobre direitos humanos na Turquia: http://vozdaturquia.com/politica/2022/01/14/governo-de-erdogan-e-retrocesso-de-decadas-para-os-direitos-humanos-na-turquia/

  • Sindicalização das Big Techs: Insatisfação e desejo de mudança

    A indústria em geral sempre foi hostil à sindicalização, beneficiando muitas vezes o patrão e não o funcionário. Um novo grupo de líderes mais jovens está tentando mudar isso. No início de 2021, alguns funcionários do Google disseram que estavam formando um sindicato. Muitas pessoas ficaram intrigadas com a notícia, por que os trabalhadores de uma empresa conhecida por altos salários e almoços grátis deveriam se sindicalizar? Mas a medida é apenas a mais recente de uma batalha crescente por justiça, ética e direitos trabalhistas em grandes empresas de tecnologia que vão muito além de salários e benefícios. Google, Amazon, Apple e Facebook estão entre as maiores e mais poderosas empresas da história, com centenas de milhares de funcionários, muitos terceirizados. Porém um dos problemas nesse modelo de trabalho é a falta de direitos trabalhistas. Os faxineiros que fazem a limpeza dos escritórios usados pelos funcionários do Google não recebem os mesmos benefícios e proteções que o restante dos colaboradores. Muitos trabalhos de colarinho branco, como escrever código, vender software e revisar conteúdo, também são feitos por terceiros. A luta sindical nos armazéns da Amazon no início deste ano se tornou uma das lutas trabalhistas de maior destaque nos últimos anos. A necessidade de políticas mais fortes contra o assédio sexual e mais apoio a mulheres e outras minorias levou a mudanças nas gigantes da tecnologia. A decisão do Google em dezembro de demitir sua pesquisadora-chefe de inteligência artificial – uma das mulheres negras mais proeminentes no campo – provocou protestos generalizados contra a censura de pesquisas críticas ao Google, exigindo uma investigação sobre demissões de funcionários que não tem medo de falar sobre seus empregadores. Há outro elemento-chave em jogo, no entanto. Alguns trabalhadores não gostam do papel que suas empresas têm na sociedade e funcionários do Twitter, Facebook e YouTube do Google tem tentado pressionar seus chefes para reprimir conteúdo abusivo, racista e sexista em suas plataformas. Um bom exemplo aconteceu em janeiro do ano passado, quando o Twitter baniu o presidente Donald Trump de seu site depois que 350 funcionários escreveram uma carta exigindo uma investigação sobre as decisões da empresa de manter Trump em sua plataforma. No final das contas, a crescente tensão entre trabalhadores e gerentes representa uma luta pelo poder à medida que gigantes da tecnologia, alguns dos quais começaram com visões idealistas, emergiram como gigantes corporativos que pouco assumem suas responsabilidades com os funcionários e com a sociedade. O Caso Amazon Em abril deste ano uma equipe de trabalhadores da Amazon forçou a gigante da tecnologia a reconhecer um sindicato pela primeira vez na história. Os trabalhadores de um armazém de Nova York votaram 55% a favor de ingressar no Sindicato dos Trabalhadores da Amazon. O grupo é liderado pelo ex-funcionário da Amazon Chris Smalls, que fez seu nome protestando contra as condições de segurança da gigante do varejo durante a pandemia. A vitória de Smalls marca uma grande derrota para a Amazon, que lutou ferozmente contra a sindicalização. No entanto, no Alabama, onde a Amazon enfrentava uma campanha sindical separada, a empresa parecia ter repelido ativistas em uma disputa acirrada na qual as cédulas contestadas ainda poderiam anular esse resultado. Juntas, as duas eleições marcam um marco para os ativistas, que há muito criticam as práticas trabalhistas na Amazon, a segunda maior empregadora do país. Smalls emergiu da contagem de votos parecendo cansado, mas exultante, e abriu uma garrafa de champanhe que foi entregue por apoiadores. "Fizemos o que foi preciso para nos conectar com esses trabalhadores", disse ele à multidão, relatando uma campanha contra as probabilidades que começou com "duas mesas, duas cadeiras e uma barraca" e contou com uma campanha de arrecadação de fundos online. "Espero que todos estejam prestando atenção agora, porque muitas pessoas duvidaram de nós." Em comunicado, a Amazon disse estar decepcionada com a perda em Nova York e que está avaliando como proceder. Também acusou os organizadores de influenciar indevidamente a votação. "Acreditamos que ter um relacionamento direto com a empresa é o melhor para nossos funcionários", disse a empresa. Por que as Big Techs temem a sindicalização? Nos últimos 40 anos, à medida que o número de trabalhadores sindicalizados vem caindo, o Vale do Silício há muito retrata os sindicatos como uma ameaça à sua reputação de inovação e flexibilidade. "As empresas de tecnologia recrutaram pessoas prometendo-lhes que trabalhariam em um tipo diferente de empresa – uma que seja, acima de tudo, transparente e com a missão de tornar o mundo um lugar melhor”, explica Margaret O'Mara , professora de história da Universidade de Washington. "Esses funcionários estão agora exigindo que seus empregadores cumpram as promessas que fizeram”, diz O'Mara. Quando essas demandas por padrões mais altos não foram atendidas, os trabalhadores de tecnologia começaram a se reunir como um coletivo para se manifestar contra práticas antiéticas ou imorais e responsabilizar as empresas por suas ações Sempre vendendo seus ambientes de trabalho como "legais e descolados", as grandes empresas de tecnologia há muito abusam de jornadas de trabalho extenuantes, numa cultura que normaliza sugar o máximo que podem dos funcionários com uma remuneração muitas vezes inadequada. Somando-se à isso, as crescentes denúncias de assédio moral e outros problemas como a falta de benefícios para terceiros tem feito as gigantes da tecnologia temerem a criação de sindicatos, que trariam uma nova força para dentro de seu meio, capaz de investigar e efetivamente trazer para a grande mídia a desigualdade e as injustiças praticadas num ambiente de trabalho cada vez mais tóxico e estressante. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes: Matéria sobre a sindicalização das big techs do Washington Post: https://www.washingtonpost.com/technology/2021/01/26/tech-unions-explainer/ Reportagem da BBC sobre o primeiro sindicato norte-americano da Amazon: https://www.bbc.com/news/business-60944677 Artigo da Union Track sobre sindicatos e a indústria de tecnologia: https://uniontrack.com/blog/big-tech-unions

  • Austrália: Nem todos são bem-vindos

    Milhares de refugiados buscaram asilo na Austrália na última década, sendo as principais forças motrizes por trás dessa movimentação a guerra, fome e a perseguição. Porém a política de vistos do atual governo é deter as pessoas que entram ou estão na Austrália sem um visto válido até que possam ser devolvidas ao seu país de origem. A geografia da Austrália a torna um destino ideal para os refugiados chegarem de barco do sul da Ásia, Indonésia e Pacífico e até de lugares mais distantes devastados por conflitos. De fato, um bom número dos um milhão de refugiados que deixaram a Síria buscaram segurança no país hostil que é a Austrália. Infelizmente, para esses requerentes a asilo, há um consenso político na Austrália a favor de um abandono dos deveres éticos como nação. Os temores de que a população seja inchada por milhões das pessoas mais desesperadas do mundo provocaram medidas draconianas por parte das autoridades australianas, algumas das quais ultrapassam os limites da legalidade. Muitos observadores suspeitam que isso esteja relacionado a uma cultura nas autoridades de fronteira australianas, na qual eles são instruídos a rebocar barcos cheios de refugiados de volta ao seu país de partida sem sequer avaliar os pedidos de asilo. Uma atmosfera na qual quaisquer refugiados “aceitos” são enviados para “centros de processamento” offshore, onde seus direitos são tão limitados que eles só podem fazer um telefonema de um minuto por semana. Não há nada na atitude da Austrália em relação aos requerentes a asilo que trate os imigrantes, de alguma forma, como seres humanos com direito a pelo menos um vestígio de respeito. Mesmo com o argumento de que: a Austrália simplesmente não pode acomodar o grande número de refugiados que viajam ao país se 'abrandassem' as políticas de imigração, não há justificativa para rebocar mulheres e crianças de volta para regiões onde estariam sob ameaça, ou ignorar um pedido de socorro de um barco cheio de pessoas se afogando. Leis que regem o Asilo na Austrália Historicamente, a Austrália já foi vista como líder mundial no reassentamento de refugiados, com mais de 870 mil refugiados reassentados no país desde a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, o processamento de pessoas em busca de asilo, que chegam à Austrália com intuito de se realocarem, sofreu mudanças significativas na última década. Embora a Lei de Migração de 1958 tenha sido elaborada anteriormente para dar efeito às obrigações da Austrália sob o direito internacional, as recentes emendas legislativas por sucessivos governos desacoplaram a Lei de dar efeito à Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados. Isso resultou em um abrandamento do impacto da Convenção na interpretação da Lei, levando o governo a desistir do protocolo estabelecido no acordo internacional. O programa humanitário da Austrália é complexo, mas a estrutura básica é uma bifurcação entre o processamento onshore e offshore de pedidos de asilo. Embora o programa humanitário onshore seja comum na maioria dos signatários da Convenção de Refugiados de 1951, é a política de detenção offshore da Austrália que é a mais controversa e amplamente criticada pelos membros da sociedade civil. Imigrantes brasileiros O Zero Águia teve a oportunidade de conversar com um imigrante brasileiro que morou na Austrália de 2013 a 2020. Rafael foi para Brisbane com visto de estudante. Lá ele trabalhou como lavador de pratos e posteriormente conseguiu um trabalho como motorista de caminhão. No relato de Rafael, ele deixa bem claro que a Austrália recebe muitos imigrantes, de diversos lugares do mundo. Em sua estadia no país, ele dividiu quarto com asiáticos, europeus e latino-americanos, entre outros. Em diversos pontos durante a conversa, Rafael mencionou que os brasileiros são bem vistos pelos australianos, pelo fato de se integrarem à cultura, e deixarem os australianos participarem dos eventos da comunidade brasileira. Isso tem tornado o povo australiano mais receptivo aos brasileiros. Todavia, mesmo assim, Rafael relata que já ouviu a famosa frase: "O que você veio fazer no meu país?", mostrando que mesmo os imigrantes legais trabalhando, ainda assim, sofrem preconceito e xenofobia. Eleições de 2022 e a possibilidade de mudança O líder da oposição trabalhista australiana, Anthony Albanese, reivindicou sua vitória nas eleições, realizadas no dia 21 de Maio, pondo fim a nove anos de governos conservadores. Além de problemas relacionados ao clima, esta eleição se concentrou no caráter dos líderes. O ex-primeiro-ministro, Scott Morrison, era profundamente impopular entre os eleitores e parecia reconhecer isso quando admitiu durante a última semana da campanha que tinha sido "um pouco de trator" em seu governo, refletindo afirmações sobre seu estilo de liderança como mais autoritário do que colaborativo. Com a mudança de poderes na Austrália, abre-se uma oportunidade para que o país reveja suas políticas e leis em relação à imigrantes e refugiados, corrigindo décadas de maus-tratos a refugiados e infrações de direitos humanos, que são pouco reportados na mídia internacional. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes: Artigo do Shout Out UK sobre o tratamento de refugiados na Austrália: Australia Gets Cruel On Refugees - Shout Out UK Definições sobre o asilo na Austrália, Wikipédia: Asylum in Australia - Wikipedia Conversa on-line via Whatsapp com imigrante brasileiro na Austrália, Rafael. Reportagem sobre o resultado das eleições australianas: Australia election results: Labor leader Anthony Albanese will be the country's next Prime Minister - CNN

  • Policial saca arma para jovem em metrô: a outra face do armamento no Brasil

    Na sexta-feira, dia 11 de fevereiro, um vídeo viralizou nas redes sociais: um homem ameaçando outro com uma arma de fogo na estação Engenheiro Goulart, que atende as linhas 12-Safira e 13-Jade da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). O vídeo mostrando a cena viralizou nas redes sociais: um homem ameaçando outro com uma arma de fogo na estação Engenheiro Goulart, que atende as linhas 12-Safira e 13-Jade da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Tratava-se de um policial, que sacou uma arma dentro do vagão do metrô pois, de acordo com passageiros, após empurrões e uma discussão os ânimos se exaltaram e, quando o homem (que está agachado na foto) foi abrir a mochila, o policial pensou que o mesmo tiraria uma arma da bolsa e foi pra cima se defender, conforme palavras dele. Pessoas gritavam e corriam, causando desespero e medo em quem passava por ali. Essa foto e o vídeo que circula na internet mostram, além da instabilidade mental de alguns membros da polícia paulista, a outra face do armamento no Brasil. Somente no ano de 2021 a PF (Polícia Federal) registrou 188.505 novas armas de fogo entre os meses de janeiro e novembro, representando uma alta de 6,2% em relação a 2020. Essa alta confirma a tendência do governo atual, o qual facilita a posse de armas aos cidadãos brasileiros. No final de 2021, o presidente Jair Bolsonaro fez uma menção a esses números, comemorando e relacionando erroneamente a redução na criminalidade no início da pandemia. “Desde quando assumimos, todos os índices de homicídios, estupros, latrocínios, roubo de veículos e cargas, invasão de fazendas, entre outros, caíram”. Isso não é verdade. De 2019 para 2020, a criminalidade aumentou em 4%. A grande problemática nesse assunto é que o ser humano não tem estabilidade emocional e psicológica para ter uma arma. Sabe-se que, para ter o porte de arma, a pessoa precisa pagar altas taxas, além do valor exorbitante de uma arma, e faz exames psicológicos e avaliações para adquiri-la. Mas a arma, a partir do momento em que é liberada para um cidadão comum, pode ter outros fins. Já vimos casos de pessoas em posse de armas causarem mortes no trânsito, pais que têm armas em casa e os próprios filhos causam acidentes fatais, seja em brincadeira com amigos ou até brigas no lar. É inconsequente e incoerente essa liberação desenfreada de armas porque, ademais das tragédias cotidianas que elas causam, estudos apontam que armas compradas legalmente muitas vezes vão parar nas mãos de criminosos. O Instituto Sou da Paz mostra que entre os anos de 2011 e 2020, analisando quase 24 mil ocorrências policiais, foi descoberta uma relação surpreendente entre os modelos mais roubados, furtados e extraviados e os tipos de armas encontrados com os criminosos. A flexibilização na compra de armas e na compra de munição aumentou o desvio de armas, com a venda ilegal de armas legais, já que podem ser forjados documentos ou cidadãos podem comprar o objeto simplesmente para revender. A frouxidão na lei para aquisição de armamento de fogo, a falta de preparo dos profissionais que vendem as armas na verificação de documentos e licenças, e a barbárie defendida pelo governo, incentiva os cidadãos a resolver tudo na base da violência, em uma sociedade onde a arma é mais valorizada que a vida e o pensamento crítico. Fontes: https://noticiando.net/policial-militar-saca-arma-para-outro-passageiro-em-estacao-da-cptm/ https://veja.abril.com.br/brasil/brasil-triplica-registro-de-armas-novas-durante-o-governo-bolsonaro/ https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/02/13/exclusivo-armas-compradas-legalmente-vao-parar-nas-maos-de-criminosos-aponta-levantamento.ghtml

  • Histórias de Refúgio: Nicarágua

    Hoje iremos contar a história de uma nicaraguense, que chamaremos de Nadia Jorge (nome fictício para preservar sua identidade). Nadia tem 30 anos, e viveu horrores pouco conhecidos no Brasil: fugir de seu próprio país por ameaças de violação de direitos e, do dia para a noite, tornou-se uma refugiada na Costa Rica. “Infelizmente a ignorância e a falta de estudos de um povo pode fazer com que tome decisões errôneas referentes a escolher presidentes ou líderes que governam um país ou uma cidade”, assim começa Nadia em sua fala dolorida, relembrando a fuga de seu país. O depoimento da mulher nascida na Nicarágua fala sobre o governo do presidente Daniel Ortega, que está há mais de 11 anos no poder devido a, segundo ela, subterfúgios para a sua manutenção na presidência do país. De acordo com Nadia, nunca houve eleições transparentes na Nicarágua, já que Ortega sempre manipulou resultados com ajuda de mais de metade das empresas que estão na Nicarágua, que são apoiadoras da família Ortega Murillo. O começo: Terra dos Campesinos No ano de 2018, Nadia e seu esposo Elton estavam trabalhando quando seus colegas os aconselharam a voltar para casa com muito cuidado naquela noite, pois haviam muitos protestos nas ruas. As notícias sobre um possível levante da população começaram a se espalhar. Dias antes, o presidente Ortega havia ordenado o desmatamento da parte sul da reserva biológica Índio Maiz e simulado um incêndio, a fim de tirar todas as árvores do local sem levantar suspeitas. Ao saber dessa manipulação, os ambientalistas protestaram contra esse ato, sendo totalmente ignorados pelo governo. Além desse desmatamento, Daniel Ortega estava mobilizando forças para tirar os campesinos, como são chamadas as pessoas que vivem na zona rural nos países da América Central, de suas terras. Ortega fez um acordo com a China para construir nessa área uma grande ponte que ligasse a Nicarágua ao Panamá e a outra parte do Caribe - projeto esse que não foi concluído. O governo na época se propôs a pagar um valor que era muito inferior ao que valiam as terras dos moradores daquela região, algo que prejudicaria muito a população local. O início de uma luta Sendo assim, os campesinos e os idosos se juntaram pois, além da retirada de suas terras, o governo ia aumentar os impostos, incluindo para pessoas idosas, sendo essa uma boa parte da população campesina. Esse protesto começou em Ciudad León, e a polícia se mostrou extremamente violenta com a população. Quando os estudantes souberam de tamanha repreensão contra os idosos, se uniram à essa luta e foram às ruas tomando as universidades. Esse levante incomodou de tal forma o presidente que o mesmo mobilizou todas as forças do Estado contra a população. “O presidente manda em todas as forças do Estado. Tiraram os estudantes das universidades, os mataram dentro do local. No dia 18 de abril, um menino de 15 anos foi assassinado pela polícia, com um tiro na jugular. Ele tinha em sua mochila umas bolsinhas de água, a polícia pensou que era algum tipo de arma e disparou para matar. Depois disso, toda a população saiu às ruas porque o presidente estava matando estudantes, violando direitos e aumentando os impostos do povo”, declara Nadia. Por todos os acontecimentos, Nadia e Elton não voltaram para casa pelas ruas principais, mas sim por pontos cegos, por dentro da cidade, de moto. Quando estavam quase chegando em casa, passaram por um beco onde havia acontecido um confronto entre a polícia e estudantes, os militares se defendiam com rifles, bombas de gás lacrimogêneo e os estudantes se defendiam com armas não letais, conforme as palavras da nicaraguense. Assim que o casal entrou nesse beco, havia um policial pronto para disparar contra eles, mas “por um milagre, apareceu outro policial e fez o colega abaixar a arma e nos deixar sair dali”, conta Nadia emocionada. “Parecia uma zona de guerra”. Juntando-se aos protestos Depois de todos esses acontecimentos, Nadia e Elton decidiram marchar junto à população, com os estudantes, pois sentiram que seus direitos também foram violados, junto àqueles que estavam lutando e morrendo naquela noite. Nos dias seguintes, em seu trabalho, Nadia começou a recolher doações de água, comida e remédios, para levar escondido aos estudantes que estavam ainda nas universidades. Ela e seu marido usavam pontos cegos para entregar as doações coletadas, já que tinham que burlar o sistema policial montado para acabar com os protestos estudantis. Em um certo ponto, já não podiam mais chegar ao trabalho, já que a polícia fiscalizava todos os ônibus a caminho do trabalho. A empresa em que o casal trabalhava disse que enviaria um grupo de pessoas para a Costa Rica, por causa da situação atual, assim poderiam se manter seguros e trabalhando, garantindo sua própria renda e produção. O casal não hesitou e se candidatou para essa oportunidade. Primeiro, enviaram a Nadia, mas não seu esposo. A empresa disse que dentro de um mês levariam todos que estavam na Costa Rica de volta à Nicarágua e, conforme uma conversa de Nadia com seu esposo, que ainda estava em seu país de origem, o casal resolveu que a moça não deveria voltar para a Nicarágua. Ela então pediu demissão da empresa e arranjou para que seu esposo chegasse são e salvo na Costa Rica. “A empresa se assustou com meu pedido de demissão, pois se perguntaram como eu iria me manter no país. Eu pedi ajuda na Casa Sor Maria Romero (instituição dedicada a obras sociais no centro da capital da Costa Rica, em San José), logo depois veio meu esposo; ficamos lá por 4 meses. Nessa casa, conhecemos uma pessoa que nos ajudou com a permissão de trabalho, algo bem burocrático no país. Pela empresa, vim com uma maleta de roupa para ficar por 7 dias aqui, mas em 15 de junho de 2022 vai fazer 4 anos que estamos na Costa Rica”, diz Nadia, hoje muito orgulhosa de sua decisão e com sua família aqui. O casal passou por várias dificuldades, já que ficaram durante muito tempo aguardando os vistos de refugiados. Ao solicitar esse tipo de visto, a pessoa não pode sair do país de destino, e esse processo pode demorar até 5 anos. Nadia enfrentou uma grande perda nesse período em que esperava pelo visto. Sua irmã, que ainda vivia na Nicarágua, sofreu um acidente fatal de carro, no qual somente o esposo e a filha, ainda bebê, sobreviveram. Nadia foi ao enterro evitando as autoridades, já que era proibida legalmente de sair do país. Mesmo assim se arriscou para ter uma última despedida de sua irmã. Felizmente Nadia e seu esposo têm agora o visto de residente na Costa Rica, já que tiveram sua filha no país, hoje com 1 ano de idade. Quem é considerado refugiado? Segundo a ACNUR, a Agência da ONU para refugiados, são pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados. Estima-se que existam mais de 25 milhões de pessoas nesta situação hoje em todo o mundo. É necessário entender que a vida de um refugiado não é fácil, afinal, ninguém pede refúgio em outro país porque quer, simplesmente pelo fato de sair. Abandonar a sua pátria desse jeito dói, têm consequências, mas na maioria das vezes, é a única maneira que uma pessoa tem de sobreviver e proteger sua família. Fontes: Artigo sobre Ortega e Murillo: https://elpais.com/internacional/2021-10-29/rosario-murillo-copresidenta-ortega-consolida-el-poder-familiar-en-nicaragua.html Reportagem com denúncias de corrupção na Nicarágua: https://www.ciperchile.cl/2022/02/22/la-red-de-negocios-privados-de-la-familia-de-daniel-ortega-y-rosario-murillo-22-empresas-a-costa-del-estado/ ACNUR: Refugiados – UNHCR ACNUR Brasil

  • Histórias de Refúgio: El Salvador

    Em mais um episódio da série Histórias de Refúgio, iremos hoje apresentar o relato de um cidadão salvadorenho que fugiu de seu país após ter o irmão assassinado e correr risco de vida, ameaçado por facções criminosas. “Meu irmão foi assassinado em 24 de dezembro de 2014 . Ele não tinha relação com ninguém da pandilla, era estudante de medicina e judoca. Viajava sempre para Guatemala e Honduras para representar nosso país lutando, e também tocava em uma banda de rock.” Assim Jonas (nome fictício) inicia o relato, falando sobre seu irmão assassinado por integrantes dos 18, a pandilla (nome em espanhol para gangues, como são conhecidas as facções criminosas de El Salvador) predominante no bairro onde ele e sua família viviam. As pandillas de El Salvador As pandillas MS-13 (Mara Salvatrucha 13) e Barrio 18 são as gangues mais perigosas do mundo, que nasceram através de refugiados de El Salvador em Los Angeles, Estados Unidos, com homens que eram dissidentes da guerra civil que acontecia no país. Essas gangues são como uma religião para os seus integrantes, que juram lealdade eterna e fazer tatuagens com seus símbolos em seu corpo, inclusive no rosto. Essas pandillas recrutam homens e mulheres, normalmente menores de idade, em cuja casa não existe uma família protetora: são crianças e adolescentes que os pais usam drogas, são relapsos, violentos, ou já fazem parte da gangue. “É incrível, mas as mulheres lá se atraem por pandilleros (membros das gangues)", diz Jonas impressionado, pois sempre viu as mulheres de seu país muitas vezes se relacionarem com os membros por vontade própria. Outras eram obrigadas. As mulheres têm um papel importante nessas gangues: são elas que muitas vezes atraem novos membros para o bando ou atraem também as vítimas para as ciladas armadas. A MS-13 e os 18 são pandillas rivais, então sempre que há confronto entre eles, há morte. Muitas vezes há morte de civis, que não tinham nada a ver com os membros da gangue ou pessoas que foram obrigadas a fazer algo por eles, pois não tinham escolha. “Pandilla e mara significam basicamente a mesma coisa, mas os 18 não gostam de ser chamados de mara ou mesmo de falar essa palavra, devido ao nome da gangue de seus rivais. Eles substituem a palavra mara por “mierda”, assim por exemplo, não falam “maravilha” e sim “mierdavilla” - mistura da palavra mierda (merda em espanhol) com maravilla (maravilha em espanhol).”, diz Jonas sobre tamanha rivalidade. El Salvador é um país com uma população de menos de 7 milhões de pessoas e um território de 21.000km², o que facilitou ser controlado por gangues. Praticamente todos os dias acontecem conflitos de facções por território. A história de Jonas Jonas nasceu e foi criado em El Salvador, na América Central. Ele vivia na maior área urbana do país, a qual ficará em sigilo por sua segurança e de sua família que ainda está lá. Nessa região, predomina a pandilla Los 18, na qual geralmente menores de idade sentem-se atraídos para entrar. Jonas diz que os jovens veem vantagem de participar de uma gangue pois são muito negligenciados pela família, e veem na gangue uma proteção, abrigo, afeto e outras coisas que lhes faltam; a pandilla assume o papel que seria da família. “Não entendo (a vontade de entrar na gangue) porque na maioria dos casos essa vida leva os jovens ao hospital ou ao cemitério.” diz Jonas, incrédulo. Mas iremos voltar para dezembro de 2014, quando houve assassinato do irmão de Jonas. O rapaz saiu da casa de sua mãe depois da meia noite, para cumprimentar uns amigos, já que era Natal, e em El Salvador há o costume de, depois da meia noite, ir até amigos e outras pessoas no bairro para desejar boas festas. Poucos momentos que saiu da casa, o irmão de Jonas foi assassinado a tiros, a uns 200 metros do local onde estava. O salvadorenho diz que muitas mortes acontecem em dias festivos, já que os fogos de artifício disfarçam o barulho dos tiros. Jonas encontrou seu irmão estirado no chão com 9 tiros. Ele e sua esposa estavam passando pelo local de moto quando encontraram o corpo, tinham saído da casa da mãe e estavam voltando para casa, quando Nila (nome fictício) avistou um homem dormindo no chão. Quando chegaram mais perto para ver se estava tudo bem, se depararam com o jovem. Num momento de desespero, os dois deram meia-volta e foram avisar a mãe que ela tinha perdido seu filho. Jonas acha que esse evento tem algo a ver com um pedido de um pandillero, há anos atrás. “Um membro da pandilla pediu a meu irmão que passasse uma televisão, que estava na casa de um outro pandillero, para a rua. A casa de meu irmão era entre essa casa e a rua. Acredito que esse ato terminou nessa desgraça, mas o que ele poderia fazer? Não se nega um pedido a um pandillero.” Nem a polícia nem ninguém da gangue entrou em contato com eles após a morte de seu irmão. Normalmente a polícia não se mete quando o assunto é morte por gangue, então a população fica à mercê da sorte. No ano de 2017 a família teve outra desagradável surpresa. Jonas vivia com a esposa Nila, seu cunhado e a esposa. Sua sogra, que vive nos Estados Unidos, sempre os ajudava mandando remessas (como eles falam os envios de dinheiro e objetos importantes como roupas, sapatos, etc que chegam do país), então eles estavam bem, apesar da situação de seu país. Um dia, um menino menor de idade chegou em sua casa com um telefone na mão e, como ele não estava, quem o atendeu foi sua esposa. O pandillero, do outro lado da linha, disse que sabia tudo sobre a família, onde viviam, trabalhavam e que, para manter todos vivos, pediu uma determinada quantia em dólares, assim respeitaria a vida daquela família. “Esse dinheiro pode ser pedido uma vez ou quando a pandilla necessitar, nunca sabemos.”, diz o homem lembrando do fatídico dia. Os salvadorenhos já sabem que, quando chega um adolescente com um telefone na mão, é algum pedido das gangues. No dia seguinte a essa ligação, Jonas renunciou ao seu trabalho, buscou passagens de avião e viu que a Costa Rica era um lugar mais seguro para viver. O casal então decidiu fugir, pegaram o que podiam (inclusive o cachorrinho da família) e saíram do país. Hoje, a casa que viviam está abandonada, ninguém mais vive lá, seu cunhado e a esposa foram para outra parte, para a própria segurança. Quando chegaram na Costa Rica, tiveram a ajuda de um casal salvadorenho que tinha passado pela mesma coisa que eles em seu país de origem, e assim buscaram a Hias Costa Rica, uma organização sem fins lucrativos que atua junto a ACNUR (Alto Comisionado de las Naciones Unidas para los Refugiados); é a organização mais antiga do mundo para a proteção e reassentamento de pessoas refugiadas. Jonas e Nila buscaram amparo judicial na Hias Costa Rica, entraram em contato com a Migração do país e solicitaram refúgio. A Hias dá apoio legal mas não dá apoio econômico, então a primeira coisa que fizeram foi buscar trabalho, já que seu visto de refugiado dura somente 3 meses. A amiga do casal trabalhava como doméstica em um casa de pessoas que trabalhavam em call center, então recomendou ao patrão o seu amigo Jonas, que então teve a sorte de conseguir um emprego mesmo sem seu visto de trabalho. “É um círculo, já que para trabalhar preciso do visto de trabalho, mas para solicitar o visto de trabalho, preciso de uma empresa interessada no meu trabalho e assim solicitar o visto junto à Migração, ou seja, é algo difícil.”, alega o refugiado. “Foi um choque cultural quando subi no ônibus e vi as pessoas usando o celular normalmente. Lá no meu país as pessoas não usam o telefone assim no ônibus pois podem ser roubadas.” Jonas e sua esposa ainda tem problemas em relação ao refúgio, já que tentaram por duas vezes entrar com recursos para obter o visto. A Costa Rica alega que dá refúgio às pessoas que têm problemas em relação à religião, sexo, política, mas que problemas com gangues é algo interno e o país não pode ajudar. O casal está com seu visto negado mas, devido a pandemia, o processo tornou-se mais moroso e aparentemente esquecido, ao menos pela empresa na qual trabalha. “Todos os anos o departamento de Recursos Humanos da empresa me contatava para verificar o status do meu visto, e parece que esqueceram. Esperamos que continue assim porque não queremos voltar para El Salvador.” Eu lhe pergunto o que acontece em caso de sua empresa contatá-lo para verificar esse status, ele responde que não quer voltar, não tem saudades, e que tentaria seu visto de refúgio no Panamá. A situação atual de El Salvador O atual presidente, Nayib Bukele, tem travado uma luta contra as gangues, inclusive prendendo ex-membros das gangues, pessoas que têm tatuagens que remetem ao crime, entre outros. “Ninguém antes tinha feito isso, ele desenvolveu uma lei que já prendeu mais de 11 mil membros e ex-membros das gangues.” Também há pessoas que se libertam do mundo das gangues através da igreja, já que esse é o único meio seguro para sair das gangues. Mas mesmo assim, de acordo com Jonas, quem sai da gangue por causa da igreja, corre o risco de ser convocado, em caso da pandilla precisar de seus ex-membros. As gangues sempre dominaram El Salvador pois antigamente tinham apoio dos governantes. Muitos deputados falavam com os líderes das pandillas e, se eles conseguissem votos em suas comunidades, os políticos davam festas luxuosas aos homens, com prostitutas e videogames, independente dos pandilleros estarem na cadeia ou fora dela. “As pandillas tomaram conta do país por causa do seu vínculo com a política,”, diz Jonas. NOTA: O jornalista Christian Poveda, que fez o documentário La Vida Loca (o qual me auxiliou na materialização desse artigo) sobre as pandillas de El Salvador, foi assassinado em setembro de 2009. Acredita-se que ele viu e documentou coisas demais sobre os 18. Texto por Caroline Prado Formada em Relações Internacionais, estudante de Filologia Românica e Línguas Latinas. Vive na Costa Rica e tem um projeto social onde ajuda pessoas em comunidades em situação de risco. Fontes: https://www.youtube.com/watch?v=Q9dCWCvH1Zw https://www.youtube.com/watch?v=ccR7nBO-7w0 https://www.youtube.com/watch?v=nniRPDLfaJ0 https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-61145448 https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/31/internacional/1548900486_977213.html https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39636727 https://www.bbc.com/portuguese/geral-42336906 https://consejoderedaccion.org/noticias/maras-un-ejercito-juvenil- armado#:~:text=La%20investigaci%C3%B3n%20relata%20el%20origen,la%20violencia%20y%20las%20amenazas https://es.statista.com/estadisticas/1299340/el-salvador-asesinatos-por-dia-de-los-grupos-barrio-18-y-ms-13/ https://countrymeters.info/pt/El_Salvador https://help.unhcr.org/costarica/donde-encontrar-ayuda-en-costa-rica/asistencia-legal https://criptotendencia.com/2022/02/24/el-presidente-nayib-bukele-propuso-52-reformas-al-congreso-para-facilitar-el-desenvolvimiento-de-las-inversiones-en-criptomonedas-2/ https://elpais.com/internacional/2009/09/10/actualidad/1252533616_850215.html

  • Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - Erradicação da Pobreza

    O que significa erradicação da pobreza? Não é somente garantir a segurança alimentar de uma pessoa, mesmo este sendo o primeiro passo para desenvolver um indivíduo saudável. Quando falamos de erradicar a pobreza, também falamos de garantir serviços básicos, tais como educação, saneamento, locomoção, habitação, segurança, acesso à cultura e muito mais. Quando um indivíduo começa a ter acesso a esses bens a sociedade se torna cada vez mais próspera. Em pleno 2022 voltamos ao patamar do que era o Brasil há 30 anos atrás. Em vez de evoluirmos como sociedade, com políticas progressistas, fechamos os olhos para os problemas que já haviam sido resolvidos no passado e fingimos que a inflação e a volta da miséria em nosso país é só mais um filme da sessão da tarde. O pior disso tudo é assistirmos a esse filme novamente com projetos esdrúxulos que já comprovaram sua ineficiência, em vez de olharmos para projetos como o Bolsa Família, originado no governo FHC e atualizado de forma promissora no governo Lula. Esse programa poderia ser remodelado e atualizado com os dados que já temos e que demonstram os efeitos no público-alvo e, a partir deste ponto, começar a agregar outros projetos. Outro exemplo de projeto que poderia ser adicionado nas políticas públicas são os do MSTS, que tem como objetivo utilizar prédios públicos alienados ou abandonados para servir como moradias populares nos grandes centros, revitalizando lugares hoje marginalizados e trazendo qualidade de vida para essa população que já carece de tantos direitos sociais primários. Esse tipo de projeto proporciona melhorias nas cidades, na economia e no bem social. Estas iniciativas podem ainda ser idealizadas em um sistema de parceria entre setor público e privado. Essas parcerias devem ouvir os movimentos sociais e políticos experientes, como Eduardo Suplicy e seu projeto da Renda Básica de cidadania, já bastante estruturado e com dados promissores a respeito da melhoria na sociedade. Se investirmos nesses projetos em conjunto teremos mais chances de transformar o mundo em um lugar mais justo e decente para que todos possam viver. Com esse acesso a direitos básicos, a economia será fortificada com o ingresso e a qualificação de mão de obra. A violência, fruto da desigualdade social e falta de oportunidades será menor. Essas condições básicas são condição indispensável para ao menos discutir a questão da meritocracia. Programas sociais não devem ser vistos como gastos, mas, sim, como investimento de longo prazo na sociedade. Programas sociais e políticas públicas não são exclusividade de países em desenvolvimento, como o Brasil, também existem em outros países mais desenvolvidos. E que não estão livres de críticas. Por vezes os investimentos básicos como educação, saúde, saneamento básico e moradia são direcionados para áreas habitadas por pessoas que poderiam pagar por esses serviços, enquanto outros bairros mais necessitados não são atendidos. Então essa meta da ODS serve como um lembrete que os recursos e esforços devem ser mais bem alocados, principalmente em ambientes já carentes desses serviços. Texto escrito por Camila Bellato ​Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU).

  • Black Mirror: Reflexos e Reflexões

    Você já pensou em como serão as democracias no futuro? Como será o ciberterrorismo? Se viveremos em contato com a natureza ou colados às telas? Como será nosso cotidiano, como serão as prisões, o jornalismo, as novas profissões? Todas essas questões são abordadas na série de TV Black Mirror, um sucesso de crítica que tem despertado muitas reflexões nos últimos anos. Por onde posso começar? Já sei. Como meu irmão me dizia: “Cara você gosta de coisas esquisitas”. Agora que já falei isto, vou tratar de explicar como que cheguei a conhecer o seriado que considero um dos melhores que já produzidos. Eu sou um fã muito apaixonado do grupo de rap antissistema chamado “Los chikos del maíz”. Mesmo anunciando que vão se separar em um futuro próximo, gravaram um último disco chamado “trap mirror” onde há uma introdução criticando a sociedade atual. "É assim que nos falamos e nos expressamos: comprando merda. Nosso maior sonho é comprar um belo boné para nosso amado avatar. Um boné que não existe, nem existe, a gente compra uma merda que não existe. Mostre-nos algo que é real e livre, você não poderia, poderia? Isso nos mataria, estamos letárgicos. Nossa mente se afogaria." Depois de escutar esse disco como pela quarta vez, pesquisei na internet informação sobre ele. E foi assim que descobri que havia uma relação entre a letra e o seriado britânico chamado The Black Mirror. Ainda que hoje o seriado seja propriedade da Netflix, ele começou como um projeto britânico, lembro que assisti a primeira temporada há muitos anos atrás, bem antes da Netflix comprar os direitos de exibição. De acordo com o criador Charlie Brooker, na série "cada episódio tem um tom diferente, um cenário diferente, até uma realidade diferente, mas mostrando a maneira como vivemos agora - e a maneira como poderíamos estar vivendo em 10 minutos, caso sejamos desatentos com a tecnologia". Como qualquer série, alguns episódios você adivinha para onde vai o enredo final antes de terminar, ou em outros, a reviravolta que ocorre é simplesmente ótima. O interessante é a forma como a série te mantém alerta, em cada um dos seus episódios. É excelente. O que significa Black Mirror? Nas palavras de Brooker: "Se a tecnologia é uma droga – e parece uma droga – então quais são, precisamente, os efeitos colaterais? Essa área – entre prazer e desconforto – é onde Black Mirror, minha nova série dramática, se passa. O "espelho preto" do título é aquele que você encontrará em cada parede, em cada mesa, na palma de cada mão: a tela fria e brilhante de uma TV, um monitor, um smartphone." Para refletir um pouco sobre isso, pensemos no terror, na angústia, no sentimento de solidão, no impacto da realidade fora do mundo conectado que ocorre quando uma tela está “desligada”, ou seja, sem emitir nenhuma luz. É então, naquele momento, que nós ficamos diante daquele espelho preto. O mesmo espelho preto que nos faz ver o que resta de homo sapiens que está colado na tela do aparelho que você está usando naquele momento. Reflexo que muitas vezes nos faz sentir mal. No final, acontece com todos nós. Você já sentiu desespero quando seu telefone foi desligado em uma conversa "importante" com aquela pessoa que você estima muito? Você já sentiu o desespero para conseguir um carregador, continuando com o que quer que esteja fazendo? Já viu aquela frustração que vem do que parece ser suas entranhas refletida naquele espelho preto cruel. No meio de uma importante maratona de séries, acabou a energia da sua casa e a única coisa projetada na tela da TV é a imagem de um humano, deitado, sozinho. Você já sentiu arrepios ao ver uma mensagem de texto? Você já agiu como desinteressado ao ler uma? Você já passou segundos, até minutos, olhando para aquele espelho preto na palma da sua mão? - O que eu faço? O que eu respondo? Mas nós não vamos responder. Vamos bloquear. Vamos bloquear aquela pessoa, aquele grupo de Whatsapp. Vamos sair da realidade. A série nos introduz o conceito de realidade virtual, aquilo que eu não quero que "exista" na minha realidade tangível. Aqui a filosofia existencialista relaciona-se com a existência cibernética de um outro eu, separado do eu físico. Milhares de casos vêm à mente. Talvez o leitor já esteja dimensionando os casos em que isso lhe acontece. Minha família, meus entes queridos. Meus colegas de trabalho, meus amigos da faculdade. Meus mais de 1000 "amigos" das redes sociais estão a uma tela de distância, a um clique de distância. Eles estão próximos o suficiente para procurar seu número de telefone (procurar, porque não os conhecemos mais de cor) ou uma mensagem por meio de outra rede social. Uma distância que diminui quando a tela está ligada, e que aumenta no tempo e no espaço, quando a porra do "Black Mirror" está na minha frente. A distância se torna eterna, e a solidão bate forte e sólida. Ou talvez, pelo contrário, traz paz. A paz que resta depois de gastar neurônios na frente de telas o dia todo. A paz de estar offline. Porque estar ciente das notificações que esperamos chegar é cansativo. Cansado desses impulsos de pensar em esperar, mesmo que eles cheguem. Maldito espelho preto. Maldito espelho da sociedade atual. São 3 da manhã, possivelmente agora quando eu desligar o laptop, eu vou olhar para minhas olheiras na frente do espelho, que reflete meu rosto naquele momento. Pensarei na contradição de escrever este artigo, criticando a sociedade tecnológica moderna que de alguma forma ajudo a construir com minha profissão de desenvolvedor de software. Contradição com a qual terei que conviver. Vou virar meu celular de cabeça para baixo para não me distrair, vendo assim outro espelho preto. Vou ligar a tela. Vou verificar com alguma esperança que hajam mensagens do Whatsapp para "poder responder" uma a uma, ansiosamente, retirando-as da minha bandeja de notificações. Vou desligar o telefone. Vou ver a tela preta novamente. Depois, vou ligar a TV para encontrar algo chato para me colocar para dormir, quem sabe para acabar essa maldita insônia. Provavelmente não encontrarei nada. Vou desligar a tela da TV. Será a terceira vez que a tela preta passa pelos meus olhos em menos de meia hora. Vou pensar novamente nas contradições. Vou pensar sobre o que fazer depois que eu me levantar para mudar isso. Embora eu saiba, no fundo, a primeira coisa que vou fazer ao acordar é ver a tela preta do meu celular. Texto escrito por Johao Larios Fidalgo Desenvolvedor de software que gosta de pesquisar sobre o impacto da informática no mundo real, escrevendo diretamente de San José, Costa Rica. Fontes: http://www.mondosonoro.com/entrevistas/chikos-del-maiz-trap-mirrror-entrevista/ http://www.publico.es/culturas/chikos-del-maiz-trap-mirror.html https://www.theguardian.com/technology/2011/dec/01/charlie-brooker-dark-side-gadget-addiction-black-mirror

  • Futebol e o seu alcance além das quatro linhas

    Quem disse que política e futebol não se misturam? Em anos de Copa do Mundo, como 2022, quem nunca cantarolou a canção? "Noventa milhões em ação Pra frente Brasil, no meu coração Todos juntos, vamos pra frente Brasil Salve a seleção!!!" Escrita em 1970, por Miguel Gustavo, a canção se tornou o hino que embalou todo o país naquele ano, que ficou marcado pela conquista do tricampeonato mundial da seleção Brasileira e é relembrando a cada Mundial. Até então, sem problema algum, mas enquanto a seleção brasileira conquistava o campeonato no México, o país estava tomado pela Ditadura Militar, passando por um dos períodos mais tenebrosos da sua história. A forte ligação entre o governo Militar e os torneios de futebol pode ser comprovada quando o então general e presidente, Emílio Médici, segura a taça Jules Rimet, onde a conquista do campeonato foi usada como propaganda política a favor da ditadura militar, em busca de fortalecimento do governo em busca de popularidade. É a partir do sucesso da campanha de 70 que surge no ano seguinte o que seria o embrião do Campeonato Brasileiro que conhecemos hoje. O então torneio nacional Roberto Gomes Pedrosa foi gerenciado por João Havelange, então presidente da Confederação nacional, junto às organizações estaduais, presididas por militares. Foi também nesse período que foram construídos estádios, que são verdadeiros elefantes brancos, no interior e em algumas capitais do país. Todo esse chamado ao patriotismo através do esporte e a invocação à "paixão nacional" pelo futebol, não era nada mais nada menos a releitura da política implementada pelos Romanos do pão e circo. Enquanto a maioria da população era entretida e se divertia com espetáculo do futebol, a sociedade era assolada com corrupção, censura, perseguição e mortes, durante a execução do Ato Institucional número 5, um dos mais perversos decretos já aplicados em território brasileiro. Não foi só na ditatura militar brasileira que o futebol foi usado como meio de manobra para entreter a população, enquanto os governantes destruíam o país. Muito se especula sobre a copa de 78, onde Argentina conquistou o seu primeiro campeonato, após uma polêmica semifinal com a seleção do Peru, que foi goleada e é motivo de especulações por supostamente ter recebido propina para perder o jogo para a seleção anfitriã. Assim como no Brasil, a campanha de 78 foi usada na busca de popularidade e apoio da sociedade argentina ao governo ditatorial que assolava o país. São inúmeros os escândalos e polêmicas em que o esporte mais democrático e praticado em todo o mundo é envolvido. É possível fazer uma linha do tempo e enumerar diversas situações que aconteceram ao longo do tempo, sendo uma das mais recentes a escolha do país-sede para o Mundial deste ano, onde a maior instituição do futebol e organizadora do evento, a FIFA, é acusada de receber suborno para escolher o Catar, país que vive uma monarquia absolutista e possui um futebol irrelevante. Porém, não se pode fechar os olhos para a importância nas lutas políticas que o esporte tem. O futebol a favor da democracia e contra-ataques a minorias Foi dentro das quatro linhas, com o movimento "Democracia Corinthiana", que o jogador Sócrates e seus parceiros, durante a ditadura Militar, adentraram o campo para uma partida com uma faixa com os dizeres "ganhar ou perder, mas com democracia", convidando seus torcedores a lutarem fora dos estádios pelo retorno à democracia. Afirmando que a luta pela democracia está no seu DNA e confirmando que a influência do futebol vai além das quatro linhas do estádio, as torcidas organizadas do Corinthians se juntaram às torcidas do Palmeiras e do São Paulo em protestos na avenida Paulista em 2020, contra o avanço da pandemia de COVID - 19 e contra os ataques as instituições democráticas feitos pelo presidente Jair Bolsonaro. Também dentro das quatro linhas, aconteceram protestos contra crimes políticos, como no caso da vereadora carioca Marielle Franco e seu motorista, Anderson, brutalmente assassinados no dia 14 de março de 2018. Em um clássico carioca entre Flamengo e Fluminense, o rubro-negro, time da vereadora, entrou com uma faixa preta na camisa em forma de luto. Já as torcidas de ambos os times se juntaram, demonstrando que a rivalidade acaba quando a luta é contra a violência e içaram juntas bandeiras nas arquibancadas e em corredores do estádio em homenagem à vereadora e em protesto contra a violência com dizeres de "Marielle vive" e "Marielle presente". Futebol como meio de ascensão social Como diria a canção da banda mineira Skank, "Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?". No país do futebol, as crianças improvisam campos de futebol na rua e várzeas para se divertirem e em muitas das vezes é a partir dali que descobrem o talento com a bola e vão em busca de uma vida melhor através do futebol. Grandes clubes como o Flamengo, São Paulo e Cruzeiro, possuem projetos sociais de escolinhas de futebol, onde crianças podem desenvolver seu talento com muito treino e dedicação. Tendo como critérios para permanência no programa a continuidade dos estudos e o afastamento do mundo das drogas. Muitas das vezes essas crianças são originárias de famílias pobres e da periferia e veem no esporte a possibilidade de conquista dos seus sonhos, buscando uma vida melhor. Nomes importantes do futebol nacional são oriundos de projetos nesses moldes, como Pelé, Neymar, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldinho fenômeno, que se tornou não só um jogador que marcou a história do futebol como também empresário do ramo, comprando um dos mais importantes clubes brasileiros, o Cruzeiro. Futebol S/A Seguindo formatos utilizados na Europa e nos EUA, foi autorizado pelo governo federal em 2021, que os times brasileiros deixem de ser associados para se tornarem SAF (Sociedade Anônima do Futebol), o que permite que pessoas ou empresas compre o clube. Antes mantidos por associações que, em muitas das vezes, buscavam influências políticas e benefícios escusos, esse formato permite agora trazer mais transparência, desenvolvendo planejamento estratégico e governança para o clube, proporcionando crescimento sustentável da marca. A medida busca ajudar grandes clubes endividados, podendo assim ser vendidos para sanar suas dívidas e, a partir daí, voltam a crescer. O Cruzeiro foi o primeiro clube a utilizar o novo modelo, sendo vendido para o ex-jogador Ronaldo. Porém, outros clubes como o Vasco, comprado pelo 777 Partners e outros clubes como o Botafogo, vêem na sua venda a possibilidade de sobrevivência e quitação das dívidas milionárias acumuladas. Futebol é coisa de macho(?) A venda de clubes de futebol, a busca por patrocinadores que descarregam milhões de Reais em investimento e em jogadores, geralmente, estão direcionadas a homens. O esporte da paixão nacional foi e, de certa forma, ainda tem sido um esporte que reflete dentro das suas quatro linhas a sociedade machista na qual vivemos. Nas arquibancadas dos estádios, pouco se vê diversidade de gênero devido ao risco de assédio e agressão a mulheres, gays e pessoas transexuais. Dentro das quatro linhas do campo, a situação não é muito diferente. Enquanto clubes e jogadores de futebol arrecadam milhões em patrocínios, jogadoras de futebol encontram barreiras, desde o futebol de base, até a liga profissional, que possuí pouca visibilidade. Exemplo e referência do futebol feminino, Marta, jogadora da seleção brasileira de futebol é modelo de luta contra o machismo dentro e fora do campo. A maior artilheira das copas protesta contra a diferença de investimentos e patrocínios no futebol feminino, o que escancara o machismo dentro do futebol. Desde 2018 a jogadora se recusa a usar chuteiras de patrocinadores e sempre entra em campo com a campanha "Go equal", que remete a luta por igualdade salarial na categoria. A jogadora escondeu o logo de um patrocinador da seleção feminina ao ser fotografada para uma campanha, sinalizando a desigualdade de valores repassados em comparação ao futebol masculino. Marta foi criticada por jogadores masculinos, como o ex-jogador Vampeta, mais uma vez reforçando a estrutura machista dentro e fora dos campos de futebol. Além do machismo, a homofobia ainda não recebeu cartão vermelho nos estádios. No Brasil não há registros de jogadores homens na ativa que se declaram abertamente gays ou bissexuais. Ao invés de analisar e criticar a forma de trabalho, os torcedores e o meio simplesmente jogam para debaixo do tapete o assunto. O ex-jogador da seleção brasileira Richarlyson, durante anos teve como a maior especulação sobre si sua sexualidade. O ex-jogador se assumiu bissexual em uma recente entrevista, sinalizando a homofobia direta e indireta que recebia dos colegas de clubes e das torcidas. Além de Richarlyson, o jogador australiano assumidamente gay, Joshua Cavallo, que está na ativa, em entrevistas alega ter medo de ir ao mundial do Catar em novembro deste ano, devido as leis nacionais que podem levar a prisão e condenação à morte de pessoas que se assumem LGBTQIAP+ naquele país. Viver é um ato político e o esporte reflete a nossa vivência e nossas escolhas, podendo ser elas inclusivas ou exclusivas, dizem que política e futebol não se discutem, mas elas estão misturadas muito mais do que se possa imaginar! Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Fontes: https://revistaesquinas.casperlibero.edu.br/esportes/futebol-e-politica-uma-relacao-historica/#:~:text=Um%20dos%20principais%20exemplos%20de,no%20Brasil%20nos%20anos%2080. https://www.cafehistoria.com.br/futebol-e-politica-na-historia/ https://ludopedio.org.br/arquibancada/futebol-e-politica-no-brasil/ https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-01/futebol-e-politica-uma-mistura-tao-obvia-quanto-a-alienacao-de-quem-a-despreza.html https://medium.com/@dozefutebol/leda-costa-doze-convida-o-futebol-precisa-deixar-de-ser-um-espa%C3%A7o-opressor-68fe49ff5c3f https://gamarevista.uol.com.br/podcast/podcast-da-semana/milly-lacombe-fala-sobre-o-lugar-da-mulher-em-um-esporte-machista-como-o-futebol/ https://medium.com/@dozefutebol/luiz-antonio-simas-doze-convida-o-futebol-%C3%A9-a-met%C3%A1fora-da-vida-e97872390c12

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