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  • Alambamento: o casamento tradicional Angolano

    O casamento é uma instituição fundamental em todas as sociedades humanas, sendo não apenas um evento que celebra a união de duas pessoas, mas também um momento que solidifica laços familiares e comunitários. Cerimônia do Alambamento - Foto: apatria.org/turismo Em Angola, o casamento tradicional, conhecido como alambamento, desempenha um papel significativo na vida das famílias, impactando não apenas os noivos, mas também a todos os envolvidos no processo, como os pais, tios, irmãos e primos. De modos que aqui pretendemos explorar brevemente a natureza do casamento angolano tradicional, analisando suas tradições, rituais e o impacto que tem nas famílias envolvidas.   O Alambamento ou pedido é um dos rituais de casamento mais tradicionais em Angola, sendo realizado por diversas etnias do país, acabando por ser um acontecimento mais importante do que o casamento civil ou religioso. Nesta ocasião, a família do noivo pede a “mão” da noiva à sua família, que via de regra   é representada  pelo tio mais velho do pai. Este ritual não se limita apenas à união de duas pessoas (os namorados ou futuros noivos), mas também envolve ambas as famílias. Antes do casamento, é comum que as famílias dos noivos se envolvam em longas negociações para determinar os dotes e presentes a serem trocados, o que pode ser um processo complexo e demorado. Como acontece? O processo do alambamento, tecnicamente tem o começo no momento em que o homem e a mulher se apaixonam e decidem se casar .   Em seguida, ambos decidem comunicar aos seus parentes (pais e/ou tios) sobre a pretensão, e é então “negociada” (acordada) a data para a realização da cerimônia.  Porém, é também nesta ocasião que os familiares da noiva, formalizam em carta o que esperam como apresentação do dote por ocasião da cerimônia , sendo que na carta é descrito o valor do dote (dependendo da família o valor pode  variar em média entre USD 400 – USD 800 – cerca de R$ 2000,00 a R$ 4500,00). Outros bens como, fato (terno) completo para o pai da noiva, peças de pano africano (panos do Congo ) para a mãe e eventualmente tias da noiva, grades (fardo) de cerveja e refrigerante, garrafas de vinho e de Whisky, par de sapatos e sandálias. Foto: https://eradoconhecimentoblog.wordpress.com/2015/10/08/o-casamento-e-o-alambatendo/comment-page-1/ Outro aspecto a considerar é que os pais da noiva ou do noivo não têm nenhum poder de decisão sobre o alambamento , sendo que a decisão é de inteira responsabilidade do tio (irmão mais velho do pai) que na tradição africana é o “chefe, responsável ou cabeça da família” e por esta razão, toma todas as decisões importantes que acontece na família, e o alambamento não é exceção . O dia do alambamento  O dia agendado para a realização do pedido ou alambamento, é aguardado com grande expectativa por ambas as famílias, pois estão reservados gra ndes momentos e emocionantes. Normalmente, quando o noivo em companhia dos seus familiares chega ao local combinado para a cerimônia , é recebido com grande alegria e exultação pelos parentes da noiva, como se fosse um verdadeiro Príncipe! São estendidos no chão peças de pano do Congo, funcionando como uma  passadeira, onde o noivo deverá passar,  seguido dos familiares que o acompanham. Os familiares encontram também um ambiente completamente decorado com enfeites e flores coloridas. O cenário é de tal forma preparado que mais se parece a um tribunal, pois as famílias são colocadas em lados opostos, e duas cadeiras no centro de um dos extremos onde os noivos deverão sentar. O chefe da família da noiva, toma a palavra dando início  a cerimônia, cumprimentando as famílias do noivo, tece algumas breves palavras e em seguida apresenta os membros da família da noiva. Nesta ocasião, o chefe de família pode indicar um outro membro para servir de interlocutor da cerimônia. No final da apresentação, ele passa a palavra ao chefe da família do noivo que também efetua o mesmo procedimento , começando por agradecer a recepção e logo após  apresenta os familiares que o acompanham. Depois deste procedimento “protocolar” é dado início às conversações, onde são apresentadas as qualidades e perfil do respectivo noivo e vice-versa. É de realçar, que durante as discussões a noiva está sempre ausente e apenas presente o noivo. No decorrer das conversações, a família do noivo informa a outra parte que gostaria de ler a carta de pedido da noiva (a carta é lida pelo chefe da família ou alguém que ele delegar) e no final da leitura apresenta os bens (dote) trazidos em jeito de rogo pela mão da noiva e agradecimento pela recepção. Apresentação do noivo. Foto: https://www.embassyangolatr.org/cultura-tradicao-angolana/ Após este momento, a noiva é chamada e entregue à sua nova família, no caso a família do noivo sendo que a partir deste momento esta será a sua nova família. Este é certamente o momento alto da ocasião, pois há beijos entre os noivos, breves palavras de amor, troca das alianças de noivado e recepção da “bênção” dos pais, avós, tios e tias. Agora sim, os noivos podem se expressar, passando a explicação dos planos para o futuro, com destaque para a data provável para o casamento civil. Geralmente, no final da cerimônia e logo depois dos cumprimentos aos noivos dá-se início à festa para comemorar a união não apenas dos noivos mas também das famílias. Na festa, é servido comida típica angolana, bolos, vinho e cerveja. O impacto do alambamento na comunidade Durante a cerimônia de alambamento, a comunidade desempenha um papel fundamental , reunindo-se para celebrar a união dos noivos e abençoar a nova família que está sendo formada. É um momento de grande alegria e festividade, marcado por danças tradicionais, cantorias e rituais ancestrais. A presença da comunidade no casamento não apenas fortalece os laços sociais, mas também reforça a importância da família e da tradição angolana. O impacto do alambamento nas famílias envolvidas vai além da simples celebração do casamento. A entrega de dotes e presentes pode ter repercussões econômicas significativas para as famílias , particularmente do noivo, muitas vezes exigindo um grande investimento financeiro. Além disso, as conversas em torno do casamento, em alguns casos podem criar tensões e desacordos entre as famílias, especialmente se as expectativas de ambas as partes não forem atendidas.   Outro aspecto importante a considerar é o papel das mulheres no casamento tradicional angolano. Embora o alambamento seja uma celebração da união de duas pessoas , a noiva muitas vezes é vista como um símbolo de status e prestígio para a família do noivo.  Isso pode levar a uma valorização excessiva da noiva como um bem a ser adquirido, em detrimento de sua autonomia e liberdade de modo individual. Além disso, o casamento tradicional angolano também pode impactar a dinâmica familiar, especialmente no que diz respeito às relações de poder e autoridade . A partir do momento em que os noivos se casam, as famílias agora alargadas ganham influência sobre o casal, podendo influenciar suas decisões e seu estilo de vida. Isto pode gerar alguns conflitos e desafios para os recém-casados, que muitas vezes precisam conciliar as expectativas da família com os seus próprios desejos e aspirações. Por outro lado, quando surgirem problemas entre o casal, os pais e tios podem ser chamados para servirem numa espécie de mediadores com objetivo de dirimir o conflito entre ambos e voltar a convivência pacífica e amorosa.  Finalmente, o casamento tradicional angolano (alambamento) desempenha um papel fundamental na vida das famílias e comunidades do país, sendo mais do que uma simples celebração de união . Suas tradições, rituais e impacto econômico e social podem moldar as relações familiares, a dinâmica de poder e a autonomia do casal. É importante reconhecer as complexidades e desafios que o Alambamento pode trazer, buscando promover um equilíbrio entre a tradição e a evolução da sociedade angolana. O Alambamento nos Direitos Africanos Moisés Mbambi , no artigo: O alambamento nos Direitos Africanos, diz que a palavra “alambamento é um neologismo que os angolanos criaram para preencher a lacuna verificada na língua portuguesa para designar ovilombo (pedido de casamento) em umbundu ; ovilombo  vem do verbo Umbundu Okulomba  (pedir). Há quem refira ainda que alambamento vem da palavra umbundu okulemba  (alegrar para consolar) , por isso alguns pronunciam alembamento em vez de alambamento: porque a retirada da filha para o seu novo lar pode causar alguma tristeza aos pais, e há que consolá-los (com um presente!) explicam , assim, alguns filólogos a etimologia da palavra alambamento. Porém, acima de tudo, o alambamento é visto pelos africanos como um prêmio à noiva pelo seu bom comportamento pessoal e para seus pais que a criaram , porque não é muito fácil educar uma filha em virtudes, dadas as muitas tentações na vida que a espreitam. O bom comportamento dela pressupõe o bom comportamento dos seus pais, pelo que todos devem ser premiados: a filha e os seus pais! Este  prêmio que é exatamente  o alambamento!” Texto escrito por Isaac Jorge   É licenciado em Relações Internacionais e possui experiência diplomática na Missão Diplomática de Angola na África do Sul. Nos últimos 18 anos, trabalhou no Banco Sol S.A., assumindo diversas responsabilidades, incluindo Subdiretor de Desenvolvimento de Negócios, Chefe de Departamento de Banca de Investimentos e Chefe de Departamento de Organização e Qualidade. Também é apaixonado por futebol . Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto

  • Pepe Mujica - O Jardineiro da Esperança

    José Alberto Mujica Cordano, mais conhecido como Pepe Mujica , nasceu em 20 de maio de 1935 na cidade de Montevidéu, Uruguai, na região de Paso de la Arena. Essa região, localizada na parte ocidental da cidade, era um ponto de convergência de imigrantes italianos, portugueses e japoneses, que se dedicavam a diversas atividades ligadas à terra, como o cultivo de flores, o processamento de azeite e o curtimento de couro. Pepe Mujica, em foto do Poder 360. Pepe foi o primeiro filho de Lucila Isabel Cordano Giorello, filha de imigrantes italianos, e de Demétrio Mujica Terra, de origem basca. Seu pai era um pequeno agricultor que acabou indo à falência pouco antes de falecer, em 1943, deixando sua esposa Lucy com dois filhos: Pepe, então com 8 anos, e Maria Eudoxia Mujica Cordano, de apenas 2 anos. Após a falência e o falecimento do marido, Lucy passou a trabalhar com o cultivo de flores para sustentar a família, contando com a ajuda de Pepe, que, após as aulas, vendia flores para as floriculturas e feiras de bairro. Ele chegou a cursar Direito, mas não concluiu a graduação. Mujica e suas flores — Foto: Bia Roscoe Seu envolvimento com a política é algo que vem de família, pois seu tio materno, Angel Cordano, era nacionalista e simpatizante do peronismo, tendo exercido grande influência na formação política de Mujica. Por intermédio de sua mãe, Mujica conheceu o então deputado nacionalista Enrico Erro. A partir de então, passou a militar no Partido Nacional, chegando a ocupar o cargo de secretário-geral da Juventude Nacionalista. Em 1958, Enrico Erro foi nomeado ministro do Trabalho, contando com a companhia de Pepe Mujica. Em 1962, ambos romperam com o Partido Nacionalista e fundaram a Unión Popular , em conjunto com o Partido Socialista do Uruguai  e o Grupo Nuevas Bases . No contexto da Guerra Fria, a América Latina foi palco de intensa disputa e instabilidade política e econômica, e o Uruguai não foi exceção. José Pepe Mujica, guerrilheiro Tupamaro: 15 anos na prisão e futuro presidente do Uruguai (Foto: Memorial da Democracia) Assim, na década de 1960, Pepe Mujica aderiu ao Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) , um grupo de guerrilha urbana que realizava diversas operações, incluindo roubos e sequestros. No entanto, o grupo ficou mais conhecido por assaltar bancos e distribuir alimentos aos mais pobres. Durante sua atuação no MLN-T, Mujica foi baleado e preso. Ele conseguiu fugir da prisão duas vezes, mas, ao ser recapturado em 1972, foi submetido à torturas e ficou preso por 12 anos . Com a redemocratização do país, foi libertado em 1985 , após o decreto de anistia. Pepe Mujica retornou à política ajudando a fundar o Movimento de Participação Popular (MPP) , que se tornou uma das principais forças dentro da Frente Ampla . Em 1994, foi eleito deputado por Montevidéu. Em 1999, assumiu o cargo de senador e, em 2004, foi reeleito, tornando-se o senador mais votado da história do país. Em 29 de novembro de 2009, Mujica venceu as eleições presidenciais do Uruguai com 52,60% dos votos válidos , marcando o início de uma nova era democrática para o país. Como ele próprio dizia, ao ocupar o cargo de presidente, não permitiu que suas lutas e crenças fossem corrompidas pelo poder . Liderou com simplicidade e coerência, mantendo-se fiel ao seu discurso. Seu plano de governo estabeleceu como prioridades estratégicas a educação, a segurança pública e o meio ambiente, com forte ênfase na erradicação da pobreza extrema e na redução da desigualdade social. Os resultados de sua política entre 2004 e 2014 foram significativos: a taxa de pobreza caiu de 40% para 11% , o desemprego reduziu de 13% para 7%  e o salário mínimo acumulou um aumento real de 250% . Mujica também fortaleceu os sindicatos e a negociação coletiva. No setor ambiental, conseguiu transformar o Uruguai em um líder em energia renovável, com 98% da matriz energética proveniente de fontes limpas, distribuídas da seguinte forma: hidrelétrica (45%), eólica (32%), biomassa (17%) e solar (3%). Suas reformas sociais e legislativas mais relevantes foram:  A legalização do aborto até a 12ª semana de gestação, aprovada em outubro de 2012 após intenso debate no Parlamento. O projeto, que havia sido vetado em 2007 pelo então presidente Tabaré Vázquez, foi retomado pela Frente Ampla e sancionado por Mujica.  A aprovação do casamento igualitário em abril de 2013, permitindo o matrimônio civil entre pessoas do mesmo sexo, com direitos plenos, incluindo adoção e a escolha da ordem dos sobrenomes dos filhos. ] A regulamentação da produção, distribuição e venda de maconha recreativa em dezembro de 2013, transformando o Uruguai no primeiro país do mundo a estatizar integralmente o mercado da cannabis para uso recreativo. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente do Uruguai José "Pepe" Mujica (Foto: Ricardo Stuckert) Pepe Mujica ganhou notoriedade internacional por abrir mão do palácio presidencial, optando por continuar vivendo em seu sítio. Além disso, doava 90% de seu salário  para obras de caridade e mantinha seu estilo de vida simples, dirigindo seu Fusca azul de 1978 e utilizando sua bicicleta. Para muitos jovens, o querido agricultor de flores plantou um jardim de esperança, amor, compaixão e empatia , transmitindo a ideia de que o mundo deve ser um lugar melhor para todos. Defendia que todos têm direito à educação, moradia, alimentação e segurança , e que ainda existem pessoas dispostas a lutar por um mundo mais digno para todos. Texto escrito por Camila Bellato ​Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Revisão por João Guilherme Grecco Edição por Eliézer Fernandes Dica: Filme: Uma noite de 12 anos (2018) Referências: https://www.brasildefato.com.br/2025/05/18/de-preso-politico-por-12-anos-a-presidente-do-uruguai-veja-a-trajetoria-excepcional-de-pepe-mujica/ https://ancestors.familysearch.org/en/GWVC-3JN/lucila-isabel-cordano-giorello-1906-1990 https://www.teledoce.com/telemundo/nacionales/el-origen-de-mujica-la-infancia-en-paso-de-la-arena-la-temprana-muerte-de-su-padre-y-su-pasion-poco-conocida/ https://forbes.com.br/forbes-money/2025/05/morre-jose-alberto-mujica-1935-2025-ex-presidente-do-uruguai/ https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/05/13/clandestinidade-simplicidade-e-presidencia-do-uruguai-conheca-a-trajetoria-de-jose-pepe-mujica.ghtml

  • Resiliência democrática à prova de choques

    Segundo o dicionário da língua espanhola, resiliência é a capacidade de adaptação  de um ser vivo diante de um agente perturbador ou uma situação adversa (RAE, 2025). Essa definição posiciona o conceito mais próximo do contexto ambiental, enfatizando a habilidade de resistir antes de uma mudança. No entanto, quando a resiliência é transposta para o campo político e social , surgem tanto diferenças quanto semelhanças . Charge de Pancho Quando aplicada à  democracia, a resiliência refere-se à  capacidade de enfrentar e sobreviver a desafios e crises.  No entanto, isso não é simples, pois a democracia é um sistema complexo . Um exemplo dessa complexidade pode ser observado nas diferenças entre Nicarágua , Cuba  e Venezuela , onde os governantes afirmam que seus regimes são democráticos. Entretanto, a realidade demonstra que as eleições nesses regimes autocráticos são usadas como um instrumento para eliminar qualquer tipo de oposição e justificar a perpetuação do poder , frequentemente por meio da figura de sucessores dentro da própria família. Esse tipo de governo tem como característica a permanência no poder, alcançada por meio da manipulação do processo eleitoral e, consequentemente, do próprio sistema democrático (BERTHIN, 2022). Ao mesmo tempo, a democracia representa um ideal no qual a busca por aprimoramento impulsiona as pessoas a lutar pacificamente por esse objetivo.  No entanto, em alguns contextos, essa busca não se concretiza, como nos exemplos mencionados anteriormente, onde esses regimes não são, por natureza, nem resilientes nem democráticos. Sobre a definição de "democracia" A palavra “democracia” tem origem no grego, derivando de “ demos ” (povo) e “ kratos ” (poder) . Essa etimologia permite definir a democracia como “o poder do povo”, ou seja, um sistema de governo fundamentado na vontade popular. Fonte: tirant.com Ao redor do mundo, existem diversos modelos de governo democrático , e muitas vezes é mais fácil compreender a partir do que ela não é. Democracia não é autocracia ou ditadura , em que o poder se concentra em uma única pessoa, nem oligarquia , onde um pequeno grupo governa. Entendida corretamente, a democracia tampouco deve ser reduzida ao “governo da maioria” , caso isso implique ignorar os interesses das minorias.  Em essência, a democracia é um sistema de governo em nome de todo o povo, guiado por sua vontade coletiva ( CONSEJO, 2002) . Segundo o significado etimológico e a concepção dominante compartilhada de Kelsen, Bobbio, Schumpeter e Dahl, a democracia é um método para a tomada de decisões coletivas . Trata-se de um conjunto de regras que confere ao povo o poder de decidir, direta ou indiretamente, por meio de representantes (FERRAJOLI, 2003) . Se as decisões são coletivas, pode ocorrer que a regra da maioria nem sempre garanta os direitos humanos para todos. Quando não há mecanismos que assegurem esses direitos, a vontade da maioria pode resultar em decisões prejudiciais às minorias. Portanto, em qualquer sistema democrático, é essencial proteger tanto os interesses das minorias quanto os das maiorias.   Os princípios dos direitos humanos devem ser fortalecidos por um aparato legal eficaz, garantindo sua aplicação independentemente da vontade da maioria ( CONSEJO, 2002) . “Uma minoria pode estar certa, mas a maioria está sempre errada” (Henrique Ibsen) Distinção entre estabilidade e resiliência A estabilidade  é um conceito frequentemente associado à democracia, pois refere-se à capacidade de um sistema político de se desenvolver sem crises ou mudanças significativas.  Embora estabilidade e democracia possam parecer conceitos semelhantes, eles representam abordagens distintas. Uma democracia é considerada estável quando suas eleições ocorrem regularmente e suas instituições continuam operando, mesmo diante de problemas internos não resolvidos.  No entanto, essa estabilidade pode ser apenas superficial, já que, apesar da funcionalidade das estruturas formais, o sistema pode não estar preparado para reagir de forma eficaz a choques inesperados , como crises profundas. São nesses momentos de crises que a resiliência democrática se torna visível , demonstrando a capacidade da democracia de enfrentar pressões autoritárias e preservar suas instituições. Um exemplo disso ocorreu tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, quando apoiadores de Donald Trump e Jair Bolsonaro, respectivamente, contestaram a legitimidade das eleições de 2021 (BRAVO, 2023). O teste da resiliência democrática Atualmente, a resiliência das democracias contemporâneas é constantemente desafiada  por uma série de fenômenos interligados que testam sua capacidade de adaptação e preservação institucional. Entre os mais relevantes, destacam-se a polarização política e a radicalização ideológica , que fragilizam e comprometem o diálogo democrático. Além disso, a desinformação , amplificada pelas redes sociais , abala a confiança nas instituições e no processo eleitoral. Observa-se também o avanço de tentativas de ruptura institucional, como ataques ao Judiciário, disseminação de fake news  eleitorais e ameaças à ordem constitucional. As democracias ainda enfrentam os impactos de diversas crises - econômicas, sociais e sanitárias  - como foi evidenciado durante a pandemia de COVID-19, que acentuou desigualdades preexistentes. Por fim, os avanços tecnológicos, especialmente no campo da inteligência artificial, têm ampliado a vigilância digital e a manipulação de dados, introduzindo novos riscos à vida privada e pessoal, afetando a privacidade e a liberdade de expressão. Esses fatores combinados representam choques significativos que exigem mais do que simples estabilidade . Eles demandam uma resposta real, adaptação e capacidade de recuperação por parte dos regimes democráticos. Conclusão Esse cenário se evidencia particularmente em diversos países latino-americanos, onde o fenômeno da captura institucional  se intensifica. Nessas democracias formais, observa-se um processo gradual de afastamento da consolidação democrática e de aproximação com práticas autoritárias . Embora as eleições e outras estruturas formais da democracia ainda persistam, os desafios para sua preservação e fortalecimento tornam-se cada vez mais urgentes (GONZÁLEZ & OLIVA, 2025). Isso demonstra que a resiliência democrática  deve ser compreendida não apenas como resistência, mas como capacidade de regeneração  diante de ameaças difusas e persistentes. A resiliência, portanto, é fundamental para que um sistema democrático não seja derrotado por choques inesperados e multifacetados, nem veja seus pilares enfraquecidos. Editorial do Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme Fontes Diccionario de la lengua española , 23.ª ed., [versión 23.8 en línea]. < https://dle.rae.es > [22/04/2025].   BERTHIN, G. Sobre la resiliencia democrática. Democratic Governance. 2022.   BRAVO, S. El efecto Capitolio llegó a Brasilia. Diagonales.com . 2023   FERRAJOLI, L. (2003). Sobre la definición de" democracia": Una discusión con Michelangelo Bovero. Isonomía , (19), 227-241.   STUMPF GONZÁLEZ, R., & SOUSA OLIVA, D. (2025). La democracia en América Latina hoy: ¿Resistencia, resiliencia o retroceso?. Interconectando Saberes , (Dossier2), iii-x. https://doi.org/10.25009/is.v0iDossier2.2957   CONSEJO de Europa. (2002). Manual para la Educación en los Derechos Humanos con jóvenes. https://www.coe.int/es/web/compass/democracy

  • Cesta básica mais cara pesa na mesa do brasileiro

    Nos últimos meses, um grande vilão tem afetado a vida de milhões de brasileiros. Não se fala em outra coisa nas filas dos supermercados, padarias e açougues, senão sobre  o aumento substancial dos itens da cesta básica . A alta dos preços de itens básicos da cesta básica do brasileiro tem gerado desconforto e reclamações. (Foto: Pxhere) Itens como café, óleo, arroz, carnes e até mesmo os ovos estão entre os produtos que  sofreram aumentos sucessivos. Esses reajustes têm levado muitas pessoas a reduzir a quantidade de alimentos comprados para adequar os gastos ao orçamento, pressionando o poder de compra das famílias brasileiras. Essa situação tem gerado mau humor e sucessivas quedas na avaliação do governo Lula.  Apesar de vivermos em uma sociedade de livre mercado, onde o governo não dita o preço dos alimentos, há possibilidades de redução de impostos e diálogo com o mercado para amenizar os impactos no bolsos dos brasileiros. Patriotismo x Exportação A antiga propaganda de que o agro alimenta o Brasil parece estar começando a cair por terra, sobretudo pela priorização na exportação de alimentos em detrimento ao mercado interno, o que tem afetado o abastecimento nacional. Essas práticas do agronegócio demonstram que o patriotismo só existe até a página do dólar, com os produtores priorizando vendas para outros países e deixando o mercado interno desabastecido, aumentando significativamente os preços dos alimentos, como está ocorrendo em nosso país.  Além disso, circulam nas redes sociais vídeos de produtores descartando alimentos porque os preços estavam muito baixos. Diante dessa situação, um grupo de deputados do PSOL protocolou um projeto de lei que visa à punição  daqueles que descartarem alimentos com intuito de manipular os preços. Projeto protocolado pelo PSOL visa impedir descarte de alimentos (Foto: Agência Senado) Diversos fatores explicam o aumento nos preços dos alimentos, segundo publicação divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), dentre eles estão as mudanças climáticas - provocadas pela ganância do homem - e a mudança nas culturas agrícolas. O  agronegócio tem priorizado a plantação de milho e soja com foco na exportação, em detrimento do abastecimento do mercado interno. Além disso, a alta demanda por alimentos, segundo especialistas, foi intensificada por programas de combate à fome, como o Bolsa Família. A redução da produção agrícola também contribui para a inflação. Ainda de acordo com o estudo, a área de cultivo agrícola aumentou de 65 milhões de hectares em 2010 para 96,3 milhões de hectares em 2023. No entanto, não há motivos para comemorar, uma vez que é devido ao plantio de soja e milho, que beneficia principalmente a exportação e aumenta a monocultura no uso do solo. Redução dos preços Nas últimas semanas, após o clamor popular, o governo federal resolveu agir, mesmo que de maneira tardia, cortando impostos de diversos itens da cesta básica. Espera-se que essas ações impactem e reduzam os preços dos alimentos, favorecendo principalmente as classes C, D e E, visando ao aumento de seu poder de compra, ao menos para os itens essenciais como os da cesta básica. Ao percorrer os  supermercados brasileiros, já é possível observar a diferença do preço de  alguns alimentos como o arroz, o feijão, o óleo, carnes e azeites, que começaram a apresentar uma leve quedas nos preços. Presidente Lula cortou alguns impostos para reduzir preço da cesta básica (Foto: PXhere) A sociedade também espera que os parlamentares trabalhem de fato para o povo brasileiro deixando de lado pautas partidárias e ideológicas, como por exemplo, a anistia para os golpistas que invadiram o Palácio do Planalto em uma tentativa frustrada de Golpe de Estado, no fatídico 8 de janeiro. A população brasileira está exausta diante da impunidade e das discussões que não promovem melhorias para aqueles que sustentam a maior carga tributária do país, mas continuam sendo os menos beneficiados por esses recursos. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 14 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão por: Eliane Gomes Edição por: Katiane Bispo FONTES https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-03/clima-e-foco-em-exportacao-explicam-alta-de-alimentos-no-longo-prazo https://revistaforum.com.br/brasil/2025/2/20/videos-chocantes-de-produtores-destruindo-alimentos-para-manter-preos-altos-causam-revolta-174466.html

  • Papa Francisco: O meu povo é pobre e eu sou um deles

    Papa Francisco deixa legado de fé e humildade (Foto: Franco Origlia) Essas palavras foram ditas pelo Papa Francisco mais de uma vez para explicar a opção de sua escolha de viver uma vida austera.  Ele sempre recomendou aos seus sacerdotes misericórdia, coragem apostólica e portas abertas  a todos e expressou que o pior que pode acontecer na Igreja “é o que De Lubac chama de mundanismo espiritual”, que significa “colocar-se no centro” . Ademais, o papa Francisco enfatizou a necessidade de justiça social . Através dela, convida o povo a retomar o catecismo, a redescobrir os dez mandamentos e as bem-aventuranças. É simples seguir a Cristo porque “se você segue a Cristo, você entende que desprezar a dignidade de uma pessoa é um pecado grave” . O Papa Francisco, de nacionalidade argentina, foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica, tornando-se o primeiro a escolher o nome Francisco . Admirador da literatura de Jorge Luis Borges, Leopoldo Marechal e Fiódor Dostoiévski, era também apaixonado por ópera. Reconhecido por seus dons intelectuais e com prestígio no Episcopado argentino, era considerado um moderado entre os prelados mais conservadores e a minoria “progressista”. Ele demonstrou grande humildade e compaixão ao lavar os pés de pacientes com HIV, compartilhar refeições com os pobres e criticar veementemente o capitalismo, o consumismo e a lógica da economia de mercado.  Sem dúvida, ele foi uma figura proeminente em todo o mundo e muito querido em sua diocese, que visitava frequentemente, utilizando até mesmo transportes públicos. O Papa nasceu na capital argentina, Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936, filho de imigrantes piemonteses. Seu pai, Mario, era contador e trabalhava na ferrovia, enquanto sua mãe, Regina Sivori, cuidava do lar e da educação dos cinco filhos. SUA HISTÓRIA Francisco tem um passado de vida fascinante, que combina formação acadêmica, vocação religiosa e um profundo compromisso com os mais necessitados.  Jorge Mario Bergoglio nasceu em Buenos Aires, e sua trajetória reflete humildade e dedicação - valores que, sem dúvida, marcaram sua figura icônica desde que assumiu o papado em março de 2013. Antes de se dedicar à vida religiosa, Jorge Mario Bergoglio demonstrou interesse pelo conhecimento prático.  Ainda jovem, obteve o diploma de técnico químico e trabalhou em um laboratório de controle de higiene alimentar , etapa pouco conhecida de sua vida, mas que evidencia sua versatilidade. No entanto, seu caminho sofreu uma reviravolta importante em 1953, quando, após rezar e confessar-se na paróquia de San José de Flores, sentiu o chamado à vocação sacerdotal.   Sua vocação religiosa o levou a ingressar na Companhia de Jesus , a ordem dos Jesuítas, em 1958 , aos 21 anos.  Concluiu seus estudos de humanidades no Chile e, em 1963, ao retornar à Argentina, formou-se em Filosofia  pelo Colégio San José, em San Miguel. Entre 1964 e 1965, foi professor de Literatura e Psicologia no Colégio da Imaculada, em Santa Fé, e, em 1966, lecionou as mesmas matérias no Colégio do Salvador, em Buenos Aires. De 1967 a 1970, estudou Teologia  no Colégio San José, onde obteve o bacharelado. Posteriormente, aprofundou sua formação acadêmica estudando Filosofia e Teologia no prestigiado Colégio Máximo de San Miguel,  em Buenos Aires. Essa trajetória evidencia sua sólida formação acadêmica, sua vontade de estudar e de se superar, características que o prepararam para ingressar na Companhia de Jesus, onde foi ordenado sacerdote em 1969. SEU INÍCIO NA ARGENTINA Em 13 de dezembro de 1969, Jorge Mario Bergoglio recebeu a ordenação sacerdotal pelas mãos do Arcebispo Ramón José Castellano. De 1970 a 1971, continuou sua formação na Companhia de Jesus em Alcalá de Henares, na Espanha,  e em 22 de abril de 1973 emitiu sua promessa perpétua, tornando-se um jesuíta de pleno direito. Ao retornar à Argentina, atuou como mestre de noviços  em Villa Barilari, San Miguel, e professor na Faculdade de Teologia, e consultor da província da Companhia de Jesus e reitor do Colégio. Em 31 de julho de 1973, foi eleito provincial dos Jesuítas da Argentina, cargo que ocupou por seis anos. Posteriormente, retomou o trabalho no meio universitário e, entre 1980 e 1986, foi novamente reitor da Escola de São José, além de pároco da igreja de São Miguel. Em março de 1986, mudou-se para a Alemanha para concluir sua tese de doutorado.  Após essa etapa, seus superiores o designaram ao Colégio do Salvador, em Buenos Aires, e posteriormente à igreja da Companhia, na cidade de Córdoba, onde atuou como diretor espiritual e confessor. Além disso, Jorge Mario Bergoglio foi chamado como colaborador próximo em Buenos Aires pelo Cardeal Antonio Quarracino. Em 20 de maio de 1992, João Paulo II nomeou-o bispo titular de Auca e auxiliar de Buenos Aires.  No dia 27 de junho, recebeu a ordenação episcopal do cardeal na catedral. Sua primeira entrevista como bispo foi a um pequeno jornal paroquial, o “Estrellita de Belén”. Logo após, foi nomeado vigário episcopal da área de Flores, além de assumir o cargo de vigário geral da arquidiocese. Assim, não foi surpresa que tenha sido promovido a arcebispo coadjutor de Buenos Aires. Nove meses após a morte do cardeal Quarracino, em 28 de fevereiro de 1998, Bergoglio o sucedeu como arcebispo primaz da Argentina.  Posteriormente, em 6 de novembro do mesmo ano, foi nomeado Ordinário dos fiéis de rito oriental residentes no país e que não possuíam Ordinário do próprio rito. Em outubro de 2001, Jorge Maio Bergoglio foi nomeado vice-relator geral da décima assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos,  dedicada ao ministério episcopal. Essa missão foi recebida de última hora, como substituto do cardeal Edward Michael Egan, arcebispo de Nova Iorque, cuja presença foi necessária em seu país devido aos ataques terroristas de 11 de setembro. Durante o Sínodo, destacou-se ao enfatizar o papel de “ser profeta da justiça” e “expressar um julgamento autêntico em matéria de fé e moral”. Enquanto isso, sua figura tornava-se cada vez mais popular na América Latina. Neste espírito, em 2002, recusou a nomeação para presidente da Conferência Episcopal Argentina. No entanto, três anos depois, foi eleito para o cargo e posteriormente reconfirmado para mais um mandato de três anos, em 2008. Em abril de 2005, participou do conclave que resultou na eleição de Bento XVI. Como arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio idealizou um projeto missionário centrado na comunhão e evangelização, com quatro objetivos principais: promover comunidades abertas e fraternas; incentivar o protagonismo de um laicato consciente; realizar a evangelização direcionada a cada habitante da cidade; e prestar assistência aos pobres e doentes.  O objetivo era claro: reevangelizar Buenos Aires , unindo sacerdotes e leigos para trabalharem juntos. Em 2009, lançou a campanha de solidariedade nacional em celebração ao bicentenário da independência do país: duzentas obras de caridade a serem realizadas  até 2016. Além disso, foi membro de diversas Congregações, como as para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para o Clero, para os Institutos de Vida Consagrada e para as Sociedades de Vida Apostólica. Também integrou o Pontifício Conselho para a Família e da Pontifícia Comissão para a América Latina. COMO CHEGOU AO VATICANO? Jorge Mario Bergoglio, foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica (Foto: Reprodução) Em 13 de março de 2013, após a renúncia do Papa Bento XVI,  Jorge Mario Bergoglio foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica, tornando-se o primeiro papa latino-americano e o primeiro a escolher o nome Francisco.  A escolha desse nome não foi uma mera homenagem a São Francisco de Assis, o santo italiano do século XIII conhecido pelo seu amor aos pobres , sua simplicidade e respeito pela natureza. Este gesto simbolizou o tipo de papado que Francisco desejava encarnar : uma Igreja mais humilde e profundamente comprometida com as causas sociais. O PAPADO REVOLUCIONÁRIO DA CASA SANTA MARTA Sua chegada ao Vaticano teve um marco significativo, distinguindo-se por seu estilo simples e por seu foco em questões como a pobreza, o meio ambiente e a inclusão.  Um exemplo claro disso foi a encíclica social Laudato si' , fruto de sua participação em acordos internacionais.  Essa encíclica é um convite à reflexão sobre o cuidado do nosso planeta e de todos os seus habitantes. Além disso, Francisco ajudou a estabelecer um estilo diferente em relação aos seus antecessores, rompendo com diversas tradições papais.  Ele optou por viver na Casa Santa Marta , a residência do clero no Vaticano, em vez do Palácio Apostólico , reforçando seu compromisso com a simplicidade e a humildade. O aspecto revolucionário  do Papa Francisco ficou evidente quatro meses após sua eleição. Durante um voo de retorno de sua primeira viagem papal ao exterior, para o Brasil, ele afirmou: “Se alguém é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo?” Embora não tenha se afastado da doutrina da Igreja, que se opõe à homossexualidade, Francisco adotou um tom mais compassivo  em comparação aos seus antecessores, alguns dos quais até evitavam mencionar a palavra “gay”. O Papa Francisco também abordou questões que estavam sendo solicitadas por uma parte da sociedade. Até então, os bispos , considerados “príncipes da Igreja” e soberanos em suas dioceses, só podiam ser sancionados diretamente pelo papa.  No entanto, nenhum pontífice havia confrontado publicamente ou rebaixado bispos.  Apesar da remoção de cerca de 850 padres do sacerdócio por abuso sexual e da punição de mais 2500 padres, não existia um mecanismo semelhante para responsabilizar os bispos. Francisco aprovou a criação de um tribunal para julgar bispos acusados ​​de encobrir ou negligenciar casos de abuso sexual de crianças por parte de padres.  Essa decisão, inquestionavelmente, respondeu às demandas das vítimas e marcou um momento chave desde sua chegada ao Vaticano. Outra das decisões do Papa Francisco que impactaram profundamente a vida espiritual dos fiéis foram suas declarações sobre o matrimônio e o divórcio. No site oficial da Santa Sé, são publicados fragmentos da Sagrada Escritura acompanhados das reflexões do Papa. A esse respeito, Francisco citou passagens do Evangelho, afirmando que “o ensinamento de Jesus é muito claro e defende a dignidade do matrimônio como união de amor que implica fidelidade. O que permite aos cônjuges permanecerem unidos no matrimônio é um amor de doação recíproca , sustentado pela graça de Cristo”. Ele também destacou que “o homem e a mulher, chamados a viver a experiência da relação e do amor, podem fazer gestos dolorosos que a colocam em crise. (...) O modo de agir do próprio Deus com o seu povo infiel – isto é, conosco – ensina-nos que o amor ferido pode ser curado por Deus através da misericórdia e do perdão” . Neste sentido, o Papa recordou que os filhos necessitam dessa unidade familiar de “pai e mãe juntos”, enfatizando que “os filhos sofrem muito quando essa unidade é quebrada. Quanto sofrem os filhos de pais que se separam” . De fato, o Papa Francisco destaca que a unidade no matrimónio não é “fácil de alcançar”, especialmente no mundo de hoje. Contudo, ele enfatiza: “Esta é a verdade das coisas tal como o Criador as concebeu e, portanto, está na sua natureza” QUAL É O SEU LEGADO? O legado de Francisco pode ser observado nas encíclicas  que escreveu, em suas decisões consideradas revolucionárias por alguns e nas duas reformas  que solicitou recentemente. Em relação às encíclicas, a primeira , Lumen Fidei , foi escrita em parte por seu antecessor, o Papa Bento XVI. Em 2015, Francisco publicou Laudato si` , que aborda questões de ecologia, e, em 2020, lançou Fratelli tutti , focada na fraternidade universal. Recentemente, com a saúde cada vez mais comprometida e buscando fortalecer as estruturas que garantiriam a continuidade de suas reformas mesmo após a sua partida, o Papa Francisco deu prioridade à consolidação  dessas mudanças. Um exemplo foi a nomeação de figuras-chave, como a Irmã Raffaella Petrini, que se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de governadora da Cidade do Vaticano,  marcando um passo significativo no processo de modernização da Igreja no século XXI. Outra medida importante foi a prorrogação do mandato do Cardeal Giovanni Battista Re , de 91 anos, como Decano do Colégio Cardinalício, assim como a continuidade de seu vice, o cardeal argentino Leonardo Sandri , de 81 anos, nomeado por Francisco no início de fevereiro. Estas decisões, tomadas pelo Papa sem a intervenção dos cardeais  na escolha de um novo decano, tiveram implicações políticas de grande impacto. CONSIDERAÇÃO FINAL Ao longo de seu papado, Francisco buscou modernizar a Igreja Católica.  Desde sua chegada ao Vaticano promoveu uma abordagem mais inclusiva , abordando questões como a participação das mulheres em cargos de liderança  na Igreja, o reconhecimento da comunidade LGBTQIA+ , e a decisão de viver uma vida mais austera.  Ele também destacou a importância da justiça social, com foco na pobreza, no meio ambiente e na inclusão, além de enfatizar a urgência de cuidar do planeta e de todos os seus habitantes.  Essas ações refletiram sua vontade de promover mudanças através da reflexão. Suas ideias e gestos, como o Culto solo para orar pelas pessoas afetadas pelo coronavírus , conquistaram tanto seguidores quanto detratores ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, enfrentou oposição constante de setores conservadores.  Contudo, como ele mesmo expressou certa vez: “A oração e o serviço silencioso são nossas armas vencedoras”. Editorial Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G Fontes https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2020-03/homilia-urbi-et-orbi-papa-francisco-suplica-dios-coronavirus.html https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2021-03/pandemia-papa-francisco-oracion-por-humanidad-27-marzo-2020.html   https://elpais.com/sociedad/2020-03-27/el-papa-bendice-al-mundo-por-el-coronavirus-en-una-plaza-de-san-pedro-totalmente-vacia.html   https://caras.perfil.com/noticias/celebridades/donde-estudio-el-papa-francisco-y-como-llego-a-obtener-su-lugar-en-el-mundo-eclesiastico.phtml https://www.vatican.va/content/francesco/es/biography/documents/papa-francesco-biografia-bergoglio.html https://www.cronista.com/espana/actualidad-es/cual-es-el-verdadero-nombre-del-papa-francisco-la-vida-desconocida-del-sumo-pontifice-antes-de-ser-elegido-como-el-jefe-de-la-iglesia-catolica/ https://www.nytimes.com/interactive/2015/07/06/universal/es/papa-francisco-iglesia-catolica-vaticano.html https://www.perfil.com/noticias/internacional/preocupado-por-su-salud-el-papa-francisco-tomo-medidas-para-proteger-su-legado.phtml https://www.vatican.va/content/francesco/es/apost_letters.html https://www.centrodelapostoladocatolico.org/portal-del-papa-francisco.html https://www.oas.org/es/sg/casacomun/docs/papa-francesco-enciclica-laudato-si-sp.pdf https://buenosaires.gob.ar/biografiapapafrancisco https://archatl.com/es/vida-catolica/papa-francisco/ https://www.nationalgeographicla.com/historia/2025/02/papa-francisco-un-recorrido-por-la-vida-del-lider-religioso-a-traves-6-datos https://jesuitasaru.org/biografia-papa-francisco/ https://www.cronista.com/espana/actualidad-es/el-papa-francisco-se-pronuncio-sobre-el-matrimonio-y-el-divorcio-y-afirmo-a-los-catolicos-que-la-respuesta-de-dios-es/ https://www.nytimes.com/2015/06/11/universal/es/el-papa-crea-tribunal-para-juzgar-a-obispos-en-casos-de-abuso-sexual.html https://www.nytimes.com/2015/01/25/universal/es/catolicos-divorciados-buscan-aceptacion-mientras-el-vaticano-revisa-postura.html https://www.vatican.va/content/francesco/es/homilies/2020/documents/papa-francesco_20200327_omelia-epidemia.html

  • "Flores para Algernon", de Daniel Keyes.

    Capa do livro Sinopse Publicado originalmente em 1966, Flores para Algernon  foi o grande expoente da carreira do escritor, ganhador do prêmio Nebula  e inspiração para o filme Os Dois Mundos de Charly (1968)  - que garantiu a Cliff Robertson  o Oscar de Melhor Ator. E com mais de 5 milhões de exemplares vendidos e referência dentro das escolas dos Estados Unidos, a obra surgiu sobre as palavras de um homem de 32 anos e 68 de QI: Charlie Gordon. Com excesso de erros no início do romance, os relatos de Charlie revelam sua condição limitada, consequência de uma grave deficiência intelectual, que ao menos o mantém protegido dentro de um ''mundo'' particular - indiferente às gozações dos colegas de trabalho e intocado por tragédias familiares. Porém, ao participar de uma cirurgia revolucionária que aumenta o seu QI , ele não apenas se torna mais inteligente que os próprios médicos que o operaram, como também vira testemunha de uma nova realidade: ácida, crua e problemática.   Se o conhecimento é uma benção, Daniel Keyes constroi um personagem complexo e intrigante, que questiona essa sorte e reflete sobre suas relações sociais e a própria existência . E tudo isso ao lado de Algernon, seu rato de estimação e a primeira cobaia bem-sucedida no processo cirúrgico. Perturbador e profundo, Flores para Algernon é tão contemporâneo quanto na época de sua primeira publicação, debatendo visões de mundo, relações interpessoais  e, claro, a percepção sobre nós mesmos . Assim, se você está preparado para explorar as realidades de Charlie Gordon, também é a chance para perguntar: afinal, o mundo que sempre percebemos a nossa volta realmente existe? Resenha O romance acompanha Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual que participa de um experimento científico para aumentar sua inteligência. O procedimento, que foi anteriormente realizado com sucesso em um rato chamado Algernon, é aplicado em Charlie e ele começa a desenvolver uma inteligência extraordinária. A história é narrada através de relatórios e diários escritos pelo próprio Charlie, permitindo ao leitor acompanhar sua transformação. No início, Charlie tem uma perspectiva inocente e simples da vida.  Conforme sua inteligência cresce, ele começa a compreender o mundo de forma mais complexa, e essa mudança impacta profundamente suas relações pessoais e seu sentido de identidade. Conforme Charlie se torna mais inteligente, ele começa a perceber as complexidades e os desafios da vida que antes não compreendia, especialmente no que diz respeito a como era tratado pelas pessoas ao seu redor.  No entanto, ele também descobre os limites do experimento e enfrenta o medo de perder tudo o que conquistou, à medida que a condição de Algernon começa a se deteriorar. A tragédia da história emerge quando o experimento revela suas limitações, e Charlie percebe que sua inteligência avançada pode ser temporária. Esse enredo provoca reflexões sobre ética científica, o valor das relações humanas e o impacto das mudanças internas e externas no indivíduo. A crueldade é um tema marcante no livro , especialmente na forma como Charlie é tratado antes e depois de sua transformação intelectual. Antes do experimento, muitos personagens zombam de Charlie , aproveitando-se de sua ingenuidade e falta de compreensão. Ele é frequentemente alvo de piadas cruéis no trabalho, onde seus colegas fingem ser seus amigos enquanto o ridicularizam pelas costas. Após o aumento de sua inteligência, a crueldade assume uma forma diferente. Alguns personagens, como o Dr. Nemur, tratam Charlie como um objeto de estudo, desconsiderando sua humanidade e emoções . Essa desumanização é dolorosa para Charlie, que começa a perceber o quanto foi usado e manipulado. O livro destaca como a crueldade pode ser tanto explícita quanto sutil , e como ela reflete preconceitos e falta de empatia . É uma crítica poderosa à forma como a sociedade trata aqueles que são diferentes ou vulneráveis. Relações do personagem principal com outros personagens A relação de Charlie com sua mãe, Rose, é um dos aspectos mais complexos e emocionantes da obra. Rose é retratada como uma mulher com dificuldades em aceitar a condição de Charlie, oscilando entre a superproteção e a rejeição.  Inicialmente, ela tenta fazer com que Charlie seja "normal", buscando incessantemente maneiras de melhorar sua inteligência e tratando-o com severidade sempre que ele não atinge suas expectativas. Essa pressão constante  e a recusa de Rose em aceitar o filho como ele é criam traumas profundos em Charlie. Quando ele não atende às suas expectativas, ela eventualmente desiste dele, deslocando sua atenção para a irmã de Charlie, Norma, acabando por rejeitá-lo completamente. Após a transformação  de Charlie devido ao experimento, ele revisita sua relação com a mãe,  buscando confrontar os sentimentos de abandono  e entender o impacto que essa relação teve em sua vida. Essa busca por reconciliação revela a complexidade emocional de ambos os personagens e expõe temas como rejeição, perdão e as dificuldades de aceitar as diferenças. Já a relação de Charlie com o pai, Matt, contrasta significativamente com a dinâmica que ele tem com sua mãe. Matt é retratado como alguém mais compreensivo e protetor em relação ao filho , embora incapaz de enfrentar as pressões de Rose e os desafios trazidos pela condição de Charlie. Matt, em muitos momentos, atua como uma figura que tenta aliviar o impacto da severidade de Rose, mas sua passividade  o impede de ser uma fonte consistente de apoio. A ligação entre Charlie e sua professora, Alice Kinnian,  é uma peça central de Flores para Algernon, rica em complexidade emocional e crescimento pessoal. Alice, que ensina em uma escola para adultos com dificuldades de aprendizado, inicialmente é a mentora de Charlie e desempenha um papel crucial em sua decisão de participar do experimento.  Ela é uma das poucas pessoas que realmente veem Charlie como indivíduo, valorizando sua bondade e seu entusiasmo genuíno. A conexão de Charlie com a padaria onde trabalha antes do experimento é uma das partes mais emblemáticas de sua história em Flores para Algernon. A padaria, no início, representa um lugar de pertencimento  para Charlie, mesmo que o ambiente esteja permeado por crueldade disfarçada de "brincadeiras". Seus colegas frequentemente zombam de sua ingenuidade e o colocam em situações embaraçosas , que Charlie, na sua inocência, interpreta como sinais de amizade. Após o experimento e o aumento de sua inteligência, Charlie começa a perceber a verdadeira natureza das interações no local de trabalho. Ele se dá conta de que muitas das pessoas que ele considerava amigas na verdade o exploravam e o ridicularizavam . Essa nova consciência provoca uma ruptura emocional e faz com que ele se afaste da padaria e dos colegas. A relação de Charlie com a universidade, especialmente com os pesquisadores e o ambiente acadêmico, é central para sua transformação intelectual em Flores para Algernon. Antes do experimento, a universidade simboliza um espaço inacessível para Charlie —um lugar de pessoas altamente educadas que ele admira mas não consegue compreender completamente. Para Charlie, a universidade e seus profissionais representam esperança e autoridade, já que são os responsáveis por sua oportunidade de se tornar mais inteligente. Após sua transformação, Charlie começa a interagir diretamente com o meio acadêmico, participando de discussões intelectuais e realizando pesquisas por conta própria.  Inicialmente, ele se sente realizado ao se integrar nesse ambiente que antes parecia distante. No entanto, com o tempo, Charlie percebe as limitações éticas   e pessoais  dos que estão à sua volta, incluindo os cientistas que conduziram o experimento. Ele também começa a desafiar as ideias dos pesquisadores, como o Dr. Nemur e o Dr. Strauss, expondo suas falhas e questionando os motivos por trás de suas ações. Apesar de Charlie alcançar uma capacidade intelectual extraordinária, ele enfrenta uma sensação de isolamento,  pois sua inteligência superior o afasta das pessoas comuns e, paradoxalmente, também o desconecta dos próprios pesquisadores. A visão de Charlie em relação à universidade evolui de admiração para um misto de crítica e aceitação da complexidade humana, alinhando-se aos temas maiores do livro, como ética científica, solidão e o impacto da evolução pessoal. Enfim, o livro destaca temas como aceitação, dignidade e o valor de momentos compartilhados, mesmo que transitórios. É um livro triste, mas que vale a pena a leitura, pois nos faz refletir sobre como realmente tratamos as pessoas que são diferentes, mas são seres humanos como nós! Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão: Eliézer Fernandes Edição: João Guilherme V.G.

  • Vai pra Cuba!

    Cuba é um país cercado de mitos e ideias, especialmente para aqueles  que não o conhecem. São inúmeras as informações que chegam até nós: “Eles gostam de ser pobres!”, “Bem feito, querem  o socialismo!”, “Como conseguem viver em um país que não tem nada?” Essas são algumas das perguntas que frequentemente ouvimos sobre a ilha. Vamos conversar um pouco sobre isso. Foto: Capitólio¹ em Havana - arquivo pessoal Cuba, com uma população estimada em 11 milhões de pessoas (Banco Mundial, 2023), tem como principais fontes de renda a produção agrícola, com destaque para a banana, abacaxi e tabaco, além do turismo.  Quando o assunto é turismo em Cuba, trata-se de um tema bastante delicado. Muitos argumentam, de forma veemente, que por ser um país comunista, Cuba não mereceria receber o dinheiro do turismo. Mas será que deveríamos realmente pensar dessa maneira? O povo cubano Foto: músicos cubanos - arquivo pessoal Os cubanos são pessoas extremamente trabalhadoras, politizadas e movidas por uma forte fé em um mundo mais justo. As pessoas que “sobrevivem” no país - já que consideram injusto abandonar o local onde nasceram e não veem razão para se mudarem, pois acreditam no sistema político que escolheram viver -  lutam continuamente por um futuro melhor. Elas mantêm viva a esperança de que o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos contra Cuba  seja enfim dissolvido.  Quando dizemos que elas sobrevivem, estamos sendo bastante literais. Devido ao bloqueio americano, o país enfrenta inúmeras restrições: alimentos, produtos farmacêuticos, materiais de construção, petróleo e muitos outros itens são escassos. Mesmo diante dessas adversidades, os cubanos fazem o máximo possível para manter uma vida minimamente digna.  Ao conversar com as pessoas nas ruas de Havana, é perceptível o alto nível de consciência política da população. Todos sabem da existência do embargo e, em geral, entendem os problemas relacionados tanto ao governo - como ocorre em qualquer país no cenário internacional -   quanto ao embargo, considerado o maior dos obstáculos, segundo os próprios cubanos. Foto: Callejón de Hamel, lugar com grande exposição da cultura afro cubana em Havana - arquivo pessoal Efeitos do embargo  Foto: Avenida em Havana - arquivo pessoal Além de alimentos e outros produtos essenciais que não chegam no país devido ao bloqueio, muitos bancos também não operam em território cubano. Qualquer banco que tenha algum vínculo com os Estados Unidos, mesmo não sendo americano, não está ativo  no país.  Alguns turistas também precisam de uma permissão especial para ingressar em Cuba. Por exemplo, é necessário estar participando de algum congresso, estudo científico ou atividade similar para obter a autorização de entrada. Desde o início da guerra entre a Ucrânia e a Rússia, o país enfrenta dificuldades com a escassez de combustível. A Rússia, que era a principal fornecedora do produto para a ilha,  interrompeu o fornecimento. Por essa razão, o combustível é racionado, e os serviços de táxi operam com algumas restrições, mas ainda continuam funcionando normalmente. Foto: contraste entre carros novos e antigos em Verdado - arquivo pessoal O setor da construção civil também enfrenta desafios delicados. Muitos edifícios foram nacionalizados durante a revolução liderada por Fidel Castro, com o objetivo de garantir moradia para toda a população. No entanto, devido ao bloqueio econômico, os materiais necessários para a manutenção e reforma dos prédios estão praticamente indisponíveis. Por essa razão, é comum vermos imagens de construções extremamente antigas e deterioradas pelo tempo.  No caso dos carros, o bloqueio também exerce um impacto significativo. Cuba tornou-se famosa por seus veículos antigos. A realidade, contudo, é que, devido à relação tensa com os Estados Unidos, carros e suas peças são muito mais caros do que o normal ou, frequentemente, nem chegam ao país.  Apesar de tantas limitações, a ilha continua sendo considerada um verdadeiro paraíso na Terra. O paraíso acessível Foto: praia de Varadero - arquivo pessoal Além de muitos pontos históricos preservados - dentro do possível -, Cuba é lar de praias deslumbrantes. Um destaque especial vai para Varadero. Com cerca de 20 quilômetros de extensão, também conhecida como Playa Azul, Varadero é a praia mais famosa de Cuba e foi nacionalizada durante a revolução liderada por Fidel Castro. Isso garantiu sua acessibilidade para toda a população e também sua proteção contra a privatização por resorts ou hotéis que desejem construir na área. Segundo a legislação cubana, não existem praias privadas no país. Em Varadero, há pequenos estabelecimentos à beira-mar, que oferecem porções e bebidas. Esse cenário é bem diferente de muitas praias do Caribe, onde os governos priorizam a preservação da natureza, proibindo a construção de diversos empreendimentos à beira mar para evitar a poluição ambiental. Além disso, para uma experiência mais imersiva e para contribuir diretamente com a economia local, é altamente recomendado hospedar-se em casa de cubanos, seja em Varadero, Havana ou qualquer outro lugar da ilha. Foto: casa de um cubano, disponível para hospedagem, em Havana - arquivo pessoal Havana: charutos, mojitos e daiquiris Foto: bar La Bodeguita del Medio em Havana - arquivo pessoal Cuba é mundialmente famosa por seus charutos, e isso se deve a uma combinação única de fatores: o clima peculiar da ilha, o solo fértil e as técnicas tradicionais de cultivo. Esses elementos tornam o fumo cubano altamente valorizado e desejado ao redor do mundo.  Os renomados charutos Cohiba , favoritos de Fidel Castro, continuam sendo os mais procurados nas lojas do estado - isso mesmo, lojas que pertencem ao governo cubano. Essas lojas são as mais recomendadas para adquirir charutos e rum, pois garantem a autenticidade dos produtos, evitando as versões falsificadas que podem ser vendidas a preços reduzidos.  Além dos charutos, Cuba também é conhecida por uma bebida típica feita com rum: o mojito . Preparado com rum cubano, hortelã, açúcar e gelo, o mojito mais famoso da ilha pode ser encontrado no bar La Bodeguita del Medio. Já o daiquiri , outra bebida clássica, é sinônimo do bar Floridita, conhecido por atrair turistas de todo o mundo. A fama do local deve-se, em grande parte, ao escritor norte-americano Ernest Hemingway, que inspirou um daiquiri especial da casa. O drink clássico é composto por limão, rum e açúcar. Foto: bar Floridita - arquivo pessoal O próprio Hemingway imortalizou esses dois bares na história de Cuba ao escrever a célebre frase: "Mi Mojito en la Bodeguita y Mi Daiquirí en el Floridita" . Assim, ambos os lugares são visitas imprescindíveis para quem está em território cubano. Foto: estátua do escritor Ernest Hemingway no bar Floridita, em Havana - arquivo pessoal Um povo e sua ilha Ao conhecer Cuba, percebe-se um povo vibrante, que luta diariamente para viver com dignidade em sua ilha, preservando suas tradições, cultura e identidade sob o governo vigente. Mesmo diante de tantos desafios, os cubanos encontram força para manter viva a alegria e o orgulho de sua terra. Cuba é um país lindo, cheio de potencial e, se respeitado, tem muito a oferecer ao mundo. Suas belezas naturais, suas histórias e a riqueza de sua cultura são verdadeiramente fascinantes. Então, da próxima vez que ouvirem “Vai pra Cuba!”, aceite o convite. Você certamente não irá se arrepender. Foto: um dos prédios históricos em Havana - arquivo pessoal Texto escrito por Caroline Prado Brasileira vivendo na Costa Rica, apaixonada por cachorros, plantas e fontes confiáveis. É internacionalista, tradutora e filóloga. Professora de Português como Língua Estrangeira (PLE) e História Contemporânea além de Filóloga especialista em Línguas Latinas. Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Fontes e Notas ¹ O Capitólio de Havana, em Cuba, foi inspirado no Capitólio dos Estados Unidos, sendo mais alto que o seu homônimo. Foi a sede do governo de Cuba até a Revolução Cubana, em 1959. Atualmente é a sede da Academia Cubana de Ciências (fonte: IA). https://www.turismoemcuba.com/varadero#:~:text=A%20praia%20mais%20conhecida%20%C3%A9,com%2020%20quil%C3%B3metros%20de%20extens%C3%A3o . https://brasilescola.uol.com.br/geografia/cuba.htm#:~:text=A%20economia%20cubana%20est%C3%A1%20bastante,banana%2C%20laranja%2C%20e%20abacaxi . https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/pobreza-extrema-dispara-em-cuba-apenas-15-conseguem-fazer-tres-refeicoes-por-dia/

  • Há futuro nas democracias?

    Charge: Miguel Paiva | Memorial da Democracia As democracias são frequentemente associadas a valores como liberdade, igualdade e participação pública,  mas, na prática, enfrentam desafios diante da ascensão da extrema direita. Em diversas partes do mundo, suas estruturas têm sido testadas pelo processo de autocratização, pelo enfraquecimento das instituições democráticas, por políticas antipopulares, ataques à imprensa, pela crescente polarização política e pelo cerceamento de direitos civis , como observado nas recentes tentativas de reversão das leis que ampliaram os direitos de mulheres e pessoas LGBTQIAP+, tanto na Argentina quanto nos Estados Unidos . De acordo com o estudo de 2024 do Instituto Variedades da Democracia (V-Dem) , há um  declínio global na qualidade democrática, especialmente em países onde governos de direita ascenderam com discursos autoritários.  Ao limitar a oposição por meio de estratégias populistas e polarizadoras, que pintam a democracia como “ineficiente ou ameaçada” e se colocam como “salvadores da nação” , é uma tática amplamente ‘manjada’. América do Sul – Brasil O governo de Jair Bolsonaro  (2018-2022) negligenciou a crise sanitária da Covid-19, disseminando informações falsas sobre vacinas e agravando a crise, o que resultou em milhares de mortes evitáveis. Sua gestão também foi marcada por declarações que fomentaram a intolerância, especialmente contra grupos minoritários. Historicamente, movimentos fascistas tendem a ressurgir em períodos de crise econômica e instabilidade política, quando narrativas excludentes são usadas para culpar minorias pelas dificuldades sociais.  No Brasil, a relativização da ditadura, a disseminação de teorias conspiratórias, ataques às instituições democráticas e o enfraquecimento de políticas de direitos humanos, aliados ao uso de lemas historicamente associados ao integralismo, como  "Deus, Pátria e Família" , têm sido usados para promover um discurso ultraconservador e nacionalista, criando um terreno fértil para esses grupos. Fonte: Metrópoles De acordo com as pesquisas da antropóloga Adriana Dias (1970-2023), células de grupos neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021 , se espalhando por todas as regiões.  Pesquisadores do Observatório da Extrema Direita destacam que esse fenômeno não se limita ao Bolsonarismo , mas reflete uma radicalização impulsionada por discursos de ódio, conservadorismo, desinformação e o uso estratégico das redes sociais para recrutar e mobilizar seguidores. Durante o governo de Bolsonaro, uma série de protestos em massa surgiram em resposta às políticas impopulares e movimentos contra a Constituição, que afetaram diretamente a vida de milhões de brasileiros. Um dos principais protestos, além dos referentes a escassez de alimentos com a alta dos combustíveis e o desemprego, foi o corte no orçamento da educação, especialmente os cortes nas universidades e institutos federais , o que gerou uma mobilização significativa entre estudantes, professores e acadêmicos contra os esforços da direita para desmantelar o ensino público no Brasil. Crédito: Paulo Pinto/Fotos Publicas | Fonte: Contee Europa – Grécia Em 28 de fevereiro de 2023, um  trágico acidente ferroviário ceifou a vida de 57 pessoas após um trem intermunicipal com passageiros a bordo colidir com uma locomotiva de carga no vale de Tempe, na região de Tessália . Em 2025, dois anos após o ocorrido, as manifestações na Grécia escancaram a indignação popular diante da negligência do governo em relação às condições de vida da população. O aumento do custo de vida e das condições de trabalho precárias , agravadas por políticas que favorecem interesses privados, gerou revolta e levou milhares de cidadãos às ruas, exigindo transparência e ações concretas para garantir a segurança pública. As manifestações de fevereiro resultaram em repressão policial, com o uso de gás lacrimogêneo e a detenção de cerca de 90 pessoas e dezenas de feridos. Em maio de 2023, o partido de direita Nova Democracia (ND), sob a liderança do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis, venceu as eleições, renovando o mandato por mais quatro anos. Durante sua campanha, Mitsotakis prometeu grandes reformas, incluindo aumentos salariais e enfrentamento das dificuldades econômicas, mas suas promessas continuam sem concretização,  gerando crescentes insatisfações. O governo também foi marcado por acusações de desvirtuamento de investigações, como o escândalo de escutas telefônicas em Atenas.   Na época do acidente, inclusive, poucos meses após assumir o cargo, Mitsotakis afirmou que o acidente foi “um trágico erro humano”, mas até agora, as investigações seguem sem conclusão ou condenação de suspeitos pelas mortes. Crédito: Angelos Tzortzinis/AFP | Fonte: Correio Braziliense Ásia – Coreia do Sul Em 3 de dezembro de 2024, o presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol, membro do partido conservador, anunciou a implementação de uma Lei Marcial em resposta a crescentes tensões sociais e manifestações contra o governo,  incluindo conflitos trabalhistas e exigências por reformas. A medida restringe severamente as liberdades civis e políticas , permitindo aos militares o controle da movimentação das pessoas e a imposição de toques de recolher.  A decisão, comunicada por um discurso sem aviso prévio e transmitida ao vivo no canal de notícias YTN. A última vez que a Lei Marcial foi aplicada na Coreia do Sul foi em 1980, durante a ditadura militar, quando o governo utilizou a força para reprimir protestos pró-democracia , resultando em centenas de mortes –  como foi no levante de Gwangju , que se tornou um símbolo importante na luta pela democracia na Coreia do Sul e que é lembrado como um dos momentos mais trágicos da história do país. Já em 2024, a tentativa de golpe de Estado foi rapidamente rejeitada pelo Parlamento, que iniciou um processo de impeachment  de Yoon Suk Yeol, formalizando sua destituição 11 dias após o ato antidemocrático. A mobilização da população também foi importante frente à Assembleia Nacional, na capital Seul, mesmo com as temperaturas próximas a zero graus. O destaque se deu a juventude fã de k-pop, que frequentemente combina elementos da cultura pop com ativismo político, usando músicas de k-pop e a figura dos lightsticks como forma de resistência política. Crédito: Jung Yeon-je/ AFP/ Getty Images | Fonte CNN Os jovens sul-coreanos, por meio de redes sociais como Twitter, Instagram e TikTok, convocavam outros fãs para protestar e fazer pressão sobre o governo. Enquanto “Whiplash”, música do grupo aespa , teve a letra alterada para dar voz às palavras de ordem “renuncie, renuncie, renuncie, Yoon Suk-yeol”,  os lightsticks , bastões de luz tradicionalmente usados durante os shows de k-pop, eram balançados pelos manifestantes seguindo os gritos de ordem, iluminando as ruas e ganhando um novo simbolismo de resistência política. A resposta: Se olharmos para a história do mundo, a democracia já passou por crises profundas e tentou se reinventar de todas as formas , mas nunca sem o esforço coletivo. Todavia, o crescimento da extrema direita, principalmente com a alavanca da desinformação/fake news e uso de estratégias de disseminação por meio de redes sociais, provoca a capacidade dos regimes democráticos de se manterem estáveis e inclusivos. Lenin, em sua obra O Estado e a Revolução (1917) , argumenta que a democracia no capitalismo não é genuinamente democrática. Ela não é mais que uma forma política que, embora forneça certos direitos e liberdades, serve, na essência, aos interesses da classe dominante. “O Estado é o produto e a manifestação do caráter inconciliável das contradições de classe. O Estado surge precisamente onde, quando e na medida em que as contradições de classe objetivamente não podem ser conciliadas.” A pergunta para o futuro das democracias, portanto, se torna ainda mais relevante. Uma vez que o Estado não é um instrumento neutro, mas sim uma manifestação das contradições de classe, as democracias ao redor do mundo, imersas no auge do capitalismo tardio, perpetuam o mecanismo de manutenção do poder da burguesia para a dominação das massas populares. Seu modelo de sistema de governo não só aparenta está cada vez mais sucumbindo a reprodução de novos formatos de desigualdade escancarada a classe trabalhadora. As democracias liberais não são capazes de se aproximarem da ideia de igualdade, mas se tornaram campos de batalha onde somente as elites ganham.  Isso significa que os interesses poderosos, as corporações e o mercado financeiro prevalecem sobre as necessidades reais do povo. E é somado as ações de governos de direita, sob o disfarce de "restaurar a ordem", crescem. À medida que a extrema direita ganha espaço, torna-se cada vez mais evidente que o modelo democrático atual está longe de ser ideal. É um ataque quase combinado: começa com a polarização, as fakes news  e a criminalização de movimentos populares, até chegar ao convencimento de uma população marginalizada que a democracia existe para todos, quando na verdade serve apenas para consolidar o poder nas mãos de uma minoria. O futuro não só pode como deve ser diferente, pois vimos que a juventude desempenha um papel fundamental nesse processo de agitação política . Sendo o motor de uma revolução que visa romper com a passividade das massas e despertar nelas a necessidade de uma ação coletiva, ao se engajar desde cedo nas lutas sociais e políticas, estes podem mudar profundamente o que se espera para os próximos anos, alimentando um movimento que vai além da resistência, mas que busca a transformação radical das condições materiais de vida. Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Fontes Livros: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/08/estadoerevolucao/cap1.htm#s1 Links: https://revistakoreain.com.br/2024/12/lei-marcial-na-coreia-do-sul-entenda-o-que-ocorreu-no-pais-ate-a-suspensao-da-medida/?utm_source=chatgpt.com https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/coreia-do-sul-yoon-suk-yeol-comparece-ao-julgamento-de-impeachment/ https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/saiba-o-que-e-lei-marcial-medida-decretada-na-coreia-do-sul/ https://fastcompanybrasil.com/news/cultura-k-pop-inspira-manifestantes-pelo-impeachment-do-presidente-da-coreia/ https://pt.wikipedia.org/wiki/Democracia#:~:text=Democracia%20 (do%20em%20grego%20cl%C3%A1ssico,em%20sua%20popula%C3%A7%C3%A3o%20em%20geral. https://www.v-dem.net/documents/48/v-dem_dr_2024_portuguese.pdf https://operamundi.uol.com.br/opiniao/48118/losurdo-revolucao-de-outubro-e-democracia-no-mundo https://www.brasildefato.com.br/2021/10/12/fascismo-esta-na-raiz-do-bolsonarismo-diz-coordenador-do-observatorio-da-extrema-direita/ https://www.brasildefato.com.br/2021/09/09/deus-patria-familia-bolsonaro-usa-lema-da-acao-integralista-brasileira-em-carta-a-nacao/ https://veja.abril.com.br/mundo/protestos-que-reunem-mais-de-300-mil-na-grecia-tem-pedradas-e-confrontos-com-policia https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2025/02/7072959-grecia-manifestantes-entram-em-confronto-com-a-policia.html https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/05/direita-no-poder-vence-eleicoes-na-grecia.ghtml https://www.politico.eu/article/greek-government-spying-regulators-wiretapping-predatorgate-scandal/ https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2023/06/26/mitsotakis-inicia-segundo-mandato-na-grecia-com-promessa-de-reformas.htm https://www.poder360.com.br/poder-internacional/protestos-na-grecia-relembram-desastre-ferroviario-de-2023/ https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/milhares-de-pessoas-protestam-na-grecia-por-acidente-ferroviario/ https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-04/conselho-leva-onu-alerta-sobre-avanco-do-neonazismo-no-brasil https://www.brasildefato.com.br/2022/04/09/cidades-registram-atos-contra-o-governo-bolsonaro-e-o-aumento-dos-precos-acompanhe/

  • CELAC: Um sonho de integração ainda não realizado

    “Sim, participarei da reunião da CELAC” Brasil retornou ao bloco em 2023 (Reprodução) Essa foi a resposta da presidente do México, Claudia Sheinbaum, a um jornalista no mês passado. Coincidentemente, na mesma semana, o Google Trends registrou um pico inédito nas buscas pela palavra, com os maiores interessados provenientes de países da América Central , como Honduras, Nicarágua e Cuba. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC)  é um bloco intergovernamental composto por 33 países da América Latina e do Caribe.  Criada em 2010 e oficializada em 2011, sua principal missão é promover a integração regional e fomentar o diálogo político, econômico e social entre seus países-membros. O Brasil desempenhou um papel fundamental como articulador na criação do bloco,  reforçando sua importância na integração regional. No entanto, o país se afastou por quatro anos devido a uma decisão ideológica do ex-presidente Jair Bolsonaro , que optou pela retirada. Em 2023, o Brasil retomou sua participação, reafirmando seu compromisso com o bloco. Os desafios da integração do bloco A criação da CELAC destacou-se por sua  ambiciosa proposta de unir 33 países com o objetivo de fomentar o diálogo político, a concertação e a cooperação regional. Sua agenda abrangente  inclui temas cruciais, como segurança alimentar e energética, saúde, inclusão social, desenvolvimento sustentável, transformação digital e infraestrutura  voltada para a integração regional. No entanto, as divergências entre os países latino-americanos e caribenhos, especialmente de natureza política, rapidamente se tornaram um desafio  significativo para que o bloco atingisse seu propósito inicial. A reunião extraordinária  mencionada no início deste artigo, havia sido convocada em resposta às deportações em massa pelo endurecimento da política migratória do presidente estadunidense Donald Trump . No entanto, foi cancelada um dia antes,  evidenciando os obstáculos enfrentados pelo bloco em sua busca por unidade e cooperação. A presidente de Honduras, Xiomara Castro, que também é a atual presidente da CELAC , informou em nota que a reunião foi cancelada porque: "(Alguns países-membros) privilegiaram outros princípios e interesses diferentes aos de unidade da região latino-americana e caribenha". A presidente hondurenha, Xiomara Castro, é a atual presidente da CELAC (Reprodução) Os países-membros mencionados por Castro são a Argentina, liderada por Javier Milei, e El Salvador, governado por Nayib Bukele . Ambos os presidentes, conhecidos por sua aliança com Trump , atuaram nos bastidores para desmobilizar a reunião do bloco, que segue sem uma nova data definida para ocorrer. Política migratória do segundo mandato de Donald Trump foi o motivo principal da reunião extraordinária convocada pela CELAC (Reprodução) A CELAC continua sendo um sonho não concretizado para a integração da América Latina e do Caribe , uma promessa que, desde sua criação, parece destinada a não se cumprir. Apesar dos discursos que enfatizam a importância da integração regional, falta vontade política por parte dos países-membros.  Essa ausência de compromisso reflete-se na atuação quase inexpressiva do bloco diante dos desafios regionais enfrentados. A integração regional,  em um mundo global que enfrenta desafios econômicos e ambientais crescentes, é mais do que uma opção: é uma necessidade urgente. Cabe aos países-membros transformar palavras em ações concretas, para que a CELAC possa, finalmente, desempenhar o papel essencial para o qual foi criada: promover a integração da América Latina e do Caribe. Quem sabe um dia… Katiane Bispo , é feminista, formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Já atuou em inúmeros projetos de defesa aos Direitos Humanos, Gênero e Educação. Uma curiosa por essência e teimosa por sobrevivência. É podcaster no programa "O Historiante", colunista no Portal Águia. Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Fontes http://portal.mec.gov.br/encceja-2/480-gabinete-do-ministro-1578890832/assessoria-internacional-1377578466/20742-comunidade-dos-estados-latino-americanos-e-caribenhos-celac https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/mundo/sheinbaum-confirma-presenca-em-reuniao-da-celac-e-ve-acordo-colombia-eua-como-positivo/ https://www.cnnbrasil.com.br/politica/celac-o-que-e-o-grupo-que-reune-paises-da-america-latina-e-caribe/ https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/retorno-do-brasil-a-celac

  • Trump e Zelensky: Conflito na Casa Branca ganha destaque na mídia mundial

    Bate-boca entre Trump e Zelensky na Casa Branca coloca em xeque acordos que seriam assinados na tarde desta sexta-feira (28). Líderes europeus saem em defesa de Zelensky. Confira o vídeo de como a discussão começou. Assine nossa newsletter e fique por dentro de todos nossos artigos em primeira mão!

  • A inclusão da cultura nas políticas do G20

    O Brasil, através do Ministério da Cultura (MinC) , mostra que a cultura é economia e, mais do que isso, é a base para o diálogo e a cooperação entre as nações. Confira neste artigo como foi a inclusão da cultura e seus temas, que resultaram na  “ Declaração de Salvador da Bahia dos Ministros da Cultura do G20 ”. Fonte: https://iree.org.br/g20-no-brasil-contexto-e-principais-debates/ O G20 foi criado em 1999 e é um fórum de cooperação econômica internacional que reúne as principais economias do mundo. O objetivo é fortalecer a economia internacional e debater temas importantes para o desenvolvimento socioeconômico global. Chefes de Estado e representantes de 18 países membros do grupo, além da União Africana e União Europeia, se reuniram nos dias 18 e 19 de novembro, no Rio de Janeiro, na Cúpula dos Líderes do G20, tendo o Brasil como presidente rotativo. Fonte: http://surl.li/jybkyi Fazem parte do G20: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia, Turquia, União Africana e União Europeia. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo 27, a cultura é um direito como todos os outros:   “Toda pessoa tem direito de participar livremente da vida cultural da comunidade.” Entretanto, a cultura não tinha o mesmo espaço na agenda do G20, o que começou a mudar nos últimos encontros. Na Assembleia Geral da ONU, de 19 de dezembro de 2019, foi promulgado a Resolução 74/230, que versa sobre cultura e desenvolvimento sustentável. Na mesma Assembleia, foi declarado o ano de 2021 como Ano Internacional da Economia Criativa para o Desenvolvimento Sustentável. Desde 2020, os países integrantes do G20 passaram a dar mais atenção aos debates sobre a importância da cultura na construção das relações internacionais, a capacidade de promover mais respeito entre os povos, além de maior inclusão e desenvolvimento sustentável. Declaração de Roma Uma prova da importância da cultura no centro de poder global é a Declaração de Roma dos Ministros da Cultura do G20 (2021) , que integra a cultura nas perspectivas de trabalho do grupo, com uma visão multidisciplinar , o que coloca o tema de forma transversal nas discussões sobre economia, trabalho, meio ambiente, tecnologia e educação, etc. Na Declaração de Roma, foram estabelecidos alguns princípios norteadores , onde há entendimento dos setores culturais e criativos como impulsionadores da regeneração e do crescimento sustentável e equilibrado. É importante relembrar que estas decisões foram tomadas no período ainda agudo da COVID-19, sendo o setor cultural um dos mais afetados pelo colapso sanitário global. Fonte: http://surl.li/osmmay Se destacam também na Declaração, temas como a proteção do patrimônio cultural, a abordagem da cultura para lidar com as mudanças climáticas, capacitação por meio de treinamento e educação, e a transição digital e novas tecnologias para a cultura. Declaração de Nova Delhi Em 9 de setembro de 2023, o Grupo dos G20 aprovou a Declaração de Líderes com uma inserção mais forte da cultura nos compromissos de políticas dos países membros. No parágrafo denominado “ Cultura como Condutor de Transformação dos ODS ”, o Grupo de Trabalho de Cultura, que teve a UNESCO como Parceira de Conhecimento , conseguiu um reconhecimento dos países da importância do retorno de bens culturais aos países de origem, reforçando a Convenção da Unesco de 1970 . Na reunião dos Ministros da Cultura daquele ano, foi assinado um documento intitulado “ Kashi Culture Pathway ”, sendo um conjunto de compromissos dos países para possibilitar o retorno e a restituição dos bens culturais como um imperativo ético da justiça social, a valorização da contribuição das comunidades locais e dos patrimônios vivos para o desenvolvimento sustentável, o investimento em indústrias culturais e criativas, e a utilização da transformação digital para proteger e promover a cultura. O Manto Tupinambá é apenas um dos inúmeros exemplos dessa mudança de paradigma na cultura e nas relações internacionais. O artefato indígena é considerado sagrado e foi levado à Europa em 1644, permanecendo exposto no Museu da Dinamarca até julho de 2024, quando foi repatriado. Na cerimônia do retorno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a importância do fato: “O momento de hoje é sumamente extraordinário para que a gente reflita sobre o que acontece no nosso Brasil, desde a descoberta deste país, com os povos indígenas. O retorno do Manto para o Brasil representa a retomada de uma história que foi apagada, uma história que precisa ser contada e preservada, assim como esse manto que muitos indígenas só conhecem pela memória de seus ancestrais." A Declaração de Nova Delhi também reforça a economia criativa como um motor para o crescimento inclusivo, onde os países pediram que a cultura tenha um papel maior na agenda de desenvolvimento global pós-2030 . A cooperação multilateral e o papel da cultura para resolver problemas globais contemporâneos também foram destaque no texto final. Declaração de Salvador da Bahia dos Ministros da Cultura do G20 A 19ª reunião da cúpula do G20 finalizou com uma Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza , com propostas para erradicar a fome até 2030 , e também com a criação do G20 Social, que abriu espaço para a sociedade civil debater com os GTs. Mas não foi só isso. O GT de Cultura, formado pelos ministros da pasta do G20, criou um documento de referência para futuras negociações na área cultural e sua transversalidade na economia, educação e afins. O Grupo de Trabalho de Cultura do G20 se reuniu entre 4 e 8 de novembro, em Salvador, na Bahia. Estavam presentes mais de 120 autoridades , entre eles ministros, secretários e representantes de países-membros, como Alemanha, Índia, Japão e Arábia Saudita. O texto dos debates possui diretrizes para orientar políticas culturais e ambientais globais. Fonte: http://surl.li/mdqcqy A palavra-chave é integração. A Carta da Bahia é um esforço coletivo para fortalecer políticas culturais integradas ao meio ambiente, à inovação tecnológica (Inteligência Artificial e propriedade intelectual) e à preservação de patrimônios culturais nacionais. Margareth Menezes, Ministra da Cultura, afirmou na reunião: “Esse documento consagra valores, princípios e diretrizes construídos de forma colaborativa, reafirmando nosso compromisso com inclusão, participação social e acessibilidade para o pleno exercício dos direitos culturais.” Indicando que o compromisso com a Carta reflete o consenso de diversas nações sobre a importância da cultura na construção de uma sociedade global mais inclusiva. As negociações da Carta tiveram o esforço de muitas equipes negociadoras de todo o país, reforçando a importância da cultura na renovação do sistema multilateral, uma base para o diálogo e a cooperação entre os países. Isso fica notório na Declaração dos Líderes do G20 do Rio de Janeiro, em parágrafo específico: “ Nós reconhecemos o poder e o valor intrínseco da cultura no fomento à solidariedade, ao diálogo, à colaboração e à cooperação, promovendo um mundo mais sustentável, em todas as suas dimensões e de todas as perspectivas. Comprometemo-nos com os princípios de inclusão, participação social e acessibilidade, para o pleno exercício dos direitos culturais, enfrentando o racismo, a discriminação e o preconceito, e fazemos um apelo por um engajamento global fortalecido e eficaz no debate sobre direitos autorais e direitos conexos no ambiente digital e os impactos da inteligência artificial sobre os detentores de direitos autorais. Nós encorajamos os países a aprimorarem a cooperação, a colaboração e o intercâmbio internacionais para o desenvolvimento da economia criativa. Nós reafirmamos nosso compromisso com as convenções relevantes da UNESCO. Nós reafirmamos nosso compromisso de apoiar políticas que promovam a contribuição daqueles que trabalham nos setores de cultura, artes e patrimônio e fazemos um apelo aos países para fortalecerem a cooperação e o diálogo, abordando os direitos sociais e econômicos e a liberdade artística, tanto online quanto offline, em conformidade com os marcos de direitos de propriedade intelectual e as normas internacionais de trabalho, visando à melhoria do pagamento justo e a condições de trabalho dignas. Nós encorajamos o fortalecimento da proteção do patrimônio cultural, incluindo monumentos históricos e locais religiosos. Nós fazemos um apelo pelo apoio a um diálogo aberto e inclusivo sobre o retorno e a restituição de bens culturais, incluindo bens exportados ilegalmente, com base em uma ampla perspectiva histórica que renove as relações entre os países e permita mecanismos alternativos de resolução de disputas, quando apropriado. Nós reconhecemos a crescente apreciação do valor do retorno e da restituição de bens culturais para os países e comunidades de origem, com base no consentimento entre as partes relevantes.”   (Declaração dos Líderes do G20, Rio de Janeiro, 2024) O grupo reconheceu o crescimento do peso econômico da Economia Criativa , com o incentivo de cooperação internacional que amplia os mercados culturais e fortalece a classe artística . Temas como a acessibilidade, combate ao racismo e trabalho digno foram reforçados nessa discussão. A transversalidade da cultura não ficou de fora de um tema delicado: o meio ambiente. No Seminário Internacional Cultura e Mudanças Climáticas, 11 painéis debateram temas como a criação de setores culturais ambientalmente responsáveis , que se preocupam com: emissões de carbono, justiça climática para artes e cultura e o poder das artes e da cultura para a mobilização social pró-clima. O Brasil copreside, ao lado dos Emirados Árabes Unidos, o Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura, e será sede da COP 30, em Belém (2025). O diálogo aberto sobre o retorno de bens culturais e o combate ao tráfico de bens culturais ganhou continuidade, com o reforço do direito à memória e a proteção do patrimônio cultural, material e imaterial. Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia, citou o caso do manto sagrado dos Tupinambás, item ancestral devolvido ao Brasil recentemente (2024). A complexa relação entre tecnologia e os desafios contemporâneos foi tema das reuniões, com os impactos da inteligência artificial na diversidade cultural e nos direitos autorais. O tema precisou da persistência do Brasil nas negociações para que entrasse na agenda de forma definitiva. Mudança importante, com atraso Agora o Brasil passa a presidência do G20 para a África do Sul, com a inserção da cultura no topo da agenda , pela sua característica transversal e capacidade de aproximar os países. Os temas tratados pelo GT de Cultura são importantes e carecem de maior atenção pelas lideranças globais , pois a cultura é um tema fundamental na estratégia de uma solução sustentável e verdadeira. O resultado da Carta da Bahia e a Declaração dos líderes do G20 serão, sem dúvida, bases para o próximo Mondiacult, a Conferência Mundial da Unesco sobre Políticas Culturais e Desenvolvimento Sustentável , a ser realizada em 2025, em Barcelona (Espanha). Apesar da inserção da cultura na política do G20, é notório que o esforço por parte dos países do Sul global sofreu resistência, seja por parte dos países do Norte global, como por parte da própria opinião pública, que não reconhece ainda o Direito à Cultura como um direito universal. Fonte: CNN É necessário ampliar os debates sobre o papel da cultura no desenvolvimento sustentável, bem como na busca pela paz e justiça climática. Isso só se dará com políticas públicas efetivas e a intensa participação social, reforçando a transversalidade e a multidisciplinaridade, características que fazem da cultura uma importante área de potência e não de conflito. Por fim, o Brasil retorna aos palcos das negociações internacionais na área cultural , mostrando habilidade e pioneirismo em temas e abordagens mais criativas sobre os problemas globais. Resta saber os desdobramentos dessas discussões fora do território do Sul global. Texto escrito por Josué Kenji   formado em Relações Internacionais, produtor cultural e pós-graduando em gestão Cultural, desenvolvimento e mercado. É co-organizador do "Festival da Criatividade Cria Bauru 2020" desde 2020, criador da "Comunidade Criativa Cria Bauru", articulador criativo da "Rede Bauru: Cidade Criativa Unesco", está membro do "Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (2022-2024)" na cadeira de Sociedade Civil e atualmente é colunista do Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://www.unesco.org/pt/articles/unesco-enaltece-o-compromisso-do-g20-em-priorizar-cultura-na-formulacao-de-politicas https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/um-g20-de-avancos-para-a-cultura https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/culturag20/cultura-no-g20 https://www.g20.org/pt-br/trilhas/trilha-de-sherpas/cultura https://www.g20.org/pt-br/documentos/declaracao-de-lideres-do-g20-brasil https://jornalgrandebahia.com.br/2024/11/g20-na-bahia-carta-de-salvador-define-diretrizes-para-politicas-culturais-e-sustentaveis-globais/ https://www.g20.org/pt-br/noticias/boletim-g20/boletim-g20-ed-199-economia-criativa-e-diversidade-cultural-guiam-discussoes-do-g20-no-rio https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-03/grupo-de-cultura-do-g20-vai-debater-diversidade-e-ambiente-digital https://jornal.unesp.br/2024/11/17/reuniao-do-g20-comeca-segunda-feira-no-rio-de-janeiro/ https://jornal.usp.br/radio-usp/cupula-do-g20-no-brasil-destaca-avancos-em-temas-economicos-e-climaticos/ https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2024/11/cupula-do-g20-termina-com-criacao-da-alianca-global-contra-a-fome-e-a-pobreza https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/noticias/2024/novembro/cupula-do-g20-chega-ao-final-com-impressoes-digitais-da-sociedade-civil https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/g20-brasil-2024 https://www.itaucultural.org.br/secoes/observatorio-itau-cultural/declaracao-de-roma-propostas-dos-ministros-de-cultura-para-o-mundo https://www.unesco.org/pt/articles/ano-internacional-da-economia-criativa-para-o-desenvolvimento-sustentavel#:~:text=O%20ano%20de%202021%20foi,Assembleia%20Geral%20das%20Na%C3%A7%C3%B5es%20Unidas . https://portal-assets.icnetworks.org/uploads/attachment/file/100843/G20_declarac%CC%A7a%CC%83odeRoma.pdf https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2024/manto-tupinamba-governo-federal-celebra-retorno-do-artefato-sagrado-ao-brasil-e-reafirma-direitos-indigenas-como-uma-prioridade#:~:text=Nesta%20quinta%2Dfeira%20(12),de%20conquistas%20dos%20povos%20ind%C3%ADgenas . https://www.unesco.org/pt/articles/declaracao-de-nova-delhi-dos-lideres-do-g20-reafirma-cultura-como-uma-potencia-transformadora-para-o https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/declaracao-final-do-g20-destaca-cultura-como-uma-das-pautas-prioritarias https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/seminario-internacional-sobre-cultura-e-mudanca-do-clima-saiba-como-se-inscrever

  • A Estratégia por trás de “Ainda Estou Aqui”

    " Ainda Estou Aqui ", dirigido por Walter Salles, é um filme brasileiro que tem conquistado destaque no cenário cinematográfico internacional . Baseado no livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, a obra retrata a luta de Eunice Paiva , interpretada por Fernanda Torres , por respostas sobre o desaparecimento de seu marido (Rubens Paiva) durante a ditadura militar  no Brasil. O filme não é apenas uma homenagem à memória de Eunice Paiva, mas também uma reflexão sobre a resistência e a busca por justiça. Estratégia de Lançamento Fonte: Aventuras na História A estratégia de lançamento de " Ainda Estou Aqui " foi meticulosamente planejada para maximizar o impacto do filme. A estreia mundial ocorreu no prestigiado Festival de Veneza em 1º de setembro de 2024 , o que ajudou a criar um grande buzz  internacional. O lançamento no Brasil foi programado para 7 de novembro de 2024, permitindo que o filme fosse exibido em festivais e cinemas locais antes de sua distribuição internacional. A parceria com distribuidores internacionais, como a Sony Pictures Releasing, foi fundamental para garantir que o filme fosse lançado em diversos países, incluindo os Estados Unidos, França e Portugal. Essa estratégia permitiu que " Ainda Estou Aqui " alcançasse um público global e aumentasse suas chances de reconhecimento em premiações internacionais. Campanha Publicitária e Distribuição A campanha publicitária  de " Ainda Estou Aqui " foi robusta e multifacetada , especialmente nos Estados Unidos.  O marketing digital e o uso das redes sociais  foram cruciais para aumentar a visibilidade do filme. Campanhas nas redes sociais, trailers impactantes e entrevistas com o elenco e a equipe  ajudaram a criar um burburinho significativo ao redor do filme. Além disso, a Sony Pictures Releasing produziu uma campanha publicitária na TV aberta dos EUA, o que aumentou ainda mais a visibilidade do filme. O filme estreou em 17 salas em janeiro de 2025 e, após receber três indicações ao Oscar, saltou para 97 salas e, posteriormente, para 500 salas.  Isso é inédito para uma produção brasileira  e demonstra o sucesso da estratégia de distribuição e promoção. Uma campanha publicitária bem executada e uma distribuição estratégica podem ter um impacto profundo no sucesso de uma produção cinematográfica. No caso de " Ainda Estou Aqui ", a visibilidade aumentada e a exposição em mercados chave ajudaram a atrair uma audiência maior e a aumentar as chances de reconhecimento por críticos e jurados de premiações internacionais. Festivais de cinema e premiações, como o Oscar , muitas vezes consideram a presença e a recepção do filme em diferentes mercados e plataformas, tornando a campanha publicitária e a distribuição elementos cruciais para o reconhecimento e sucesso global do filme. Recepção do Público e Resultados As estratégias de lançamento e distribuição da obra se mostraram eficientes pelos números de exibição e bilheteria. Na 12ª semana de exibição do filme, mais de 4 milhões de pessoas já assistiram a produção, isso apenas no Brasil. Fonte: Imp Awards Nos Estados Unidos, o longa estreou em 17 de janeiro de 2025. Após as indicações ao Oscar de Melhor filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz no dia 23 de janeiro, o número de salas exibindo a obra saltou de 5 (semana de estreia) para 700 salas (dados de 10/02), batendo o recorde de Central do Brasil (144) e Cidade de Deus (108).  Os números foram catapultados pelos mais de 30 prêmios conquistados (nacionais e internacionais) , incluindo o Globo de Ouro  para Melhor Atriz em Filme Dramático (Fernanda Torres) e o Prêmio Goya  de Melhor Filme Ibero-Americano e o Prêmio APCA  (Associação Paulista de Críticos de Arte).  A recepção do público vai além das altíssimas notas no site agregador de críticas de filmes Rotten Tomatoes (96% pela Crítica e 98% pelo público) e 8,8/10 no IMDb ( Internet Movie Database ). O impacto do filme extrapola as telas do cinema e se materializa em discussões sobre o período da ditadura militar , memórias e política atual. José Carlos Moreira da Silva Filho, da Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, citou a vitória de Fernanda pela atuação no filme que, segundo ele, “contribui para dimensionar o período da ditadura no Brasil". Essa potência da obra cinematográfica traz e fortalece a memória de Eunice Paiva , que batalhou em vida e morte pela vida e defesa dos povos indígenas , pela memória das vítimas da ditadura  e pela lembrança do que ocorreu com Rubens Paiva , desaparecido durante o período de violência política  que não se deve esquecer. Mas se engana quem acredita que o filme passaria ileso de polêmicas . Internautas resgataram uma esquete de comédia de 2008, em que Fernanda Torres fazia blackface (prática de pintar o rosto de preto ou marrom para representar pessoas negras de forma estereotipada). A artista veio a público se desculpar e dizer que a prática (blackface ) é inaceitável. Os internautas, porém, resgataram um outro caso parecido de Zoe Saldanha, atriz coadjuvante do filme “Emília Perez”, que, segundo os internautas, teria feito blackface em um filme de 2016. O embate escalou  quando Karla Sofía Gascon (Emília Perez), insinuou que a equipe de Fernanda Torres teria “falado mal dela e de Emília Perez”, em entrevista à Folha de São Paulo: “Para ressaltar o trabalho de uma pessoa não é necessário afundar o trabalho dos demais. Em nenhum momento, [alguém] me verá falando mal de Fernanda Torres ou do filme. Mas, por outro lado, há pessoas que trabalham com Fernanda Torres que falam mal de mim e de Emilia Pérez. Isso fala mais deles e de seu filme [‘ Ainda Estou Aqui ’] do que do meu”, concluiu. No âmbito nacional, perfis mais identificados com a direita política alegaram que o filme teria recebido recursos da Lei Rouanet , o que foi desmentido em nota técnica pelo Ministério da Cultura : “A obra é uma produção brasileira, em regime de coprodução internacional com a França e financiada com recursos próprios”, explicou. Até mesmo por suas características como um longa-metragem, a produção inspirada no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva não poderia se aproveitar da lei de incentivos .” (MinC, 2025). Conclusão Em suma, "Ainda Estou Aqui"  não é apenas um filme, mas um poderoso testemunho da luta por justiça e memória no Brasil.  A obra de Walter Salles, com a brilhante atuação de Fernanda Torres, transcende as telas e provoca reflexões profundas sobre a ditadura militar e suas consequências. A estratégia de lançamento e a campanha publicitária  meticulosamente planejadas garantiram que o filme alcançasse um público global,  conquistando prêmios e reconhecimento internacional . No entanto, a produção também enfrentou polêmicas, mostrando que a arte, muitas vezes, reflete e desafia as complexidades da sociedade. "Ainda Estou Aqui"  é, sem dúvida, um marco no cinema brasileiro , reafirmando a importância de lembrar e discutir nosso passado para construir um futuro mais justo e consciente. Texto escrito por Josué Kenji   formado em Relações Internacionais, produtor cultural e pós-graduando em gestão Cultural, desenvolvimento e mercado. É co-organizador do "Festival da Criatividade Cria Bauru 2020" desde 2020, criador da "Comunidade Criativa Cria Bauru", articulador criativo da "Rede Bauru: Cidade Criativa Unesco", está membro do "Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (2022-2024)" na cadeira de Sociedade Civil e atualmente é colunista do Portal Águia. Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Revisão: Eliane Gomes Edição:  João Guilherme Referencias https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Salles?form=MG0AV3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelo_Rubens_Paiva?form=MG0AV3 https://variety.com/t/venice-film-festival/?form=MG0AV3 https://www.sonypictures.com/?form=MG0AV3 https://revistaquem.globo.com/entretenimento/series-e-filmes/noticia/2025/02/ainda- estou-aqui-e-eleito-o-melhor-filme-em-lingua-nao-inglesa-do-ano-no-dorian-awards.ghtml?form=MG0AV3 https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2025/02/7060440-ainda-estou-aqui-ganha-mais-um-premio-internacional.html?form=MG0AV3 https://d24am.com/plus/ainda-estou-aqui-e-eleito-o-melhor-filme-em-lingua-nao-inglesa-do-ano/?form=MG0AV3 https://gshow.globo.com/globoplay/noticia/ainda-estou-aqui-tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-filme-que-acaba-de-chegar-aos-cinemas.ghtml?form=MG0AV3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Ainda_Estou_Aqui_%28filme_de_2024%29?form=MG0AV3 https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2025/01/31/ainda-estou-aqui-bate-4-milhoes-de-espectadores-no-brasil.ghtml https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/02/ainda-estou-aqui-e-exibido-em-700-salas-dos-eua-e-passa-dos-us-2-milhoes.shtml https://revistaquem.globo.com/entretenimento/series-e-filmes/noticia/2025/02/na-corrida-pelo-oscar-ainda-estou-aqui-ja-conquistou-mais-de-30-premios-veja-lista.ghtml https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/premio-apca-2024-divulga-vencedores-com-ainda-estou-aqui-e-mais-veja/ https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/19/internacional/1568918644_060063.html https://www.poder360.com.br/poder-midia/fernanda-torres-pede-desculpa-por-blackface-de-17-anos-atras/ https://www.terra.com.br/diversao/entre-telas/filmes/americanos-resgatam-blackface-de-fernanda-torres-e-brasileiros-mostram-zoe-saldana,779c87accc5ef184a930f6590bf1674ad7tmb5i4.html https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/karla-sofia-gascon-critica-equipe-de-fernanda-torres-falam-mal-de-mim/ https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/600405-ainda-estou-aqui-usou-recursos-da-lei-rouanet-entenda-falsa-polemica-sobre-o-filme.htm https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2025/01/ainda-estou-aqui-e-importante-para-dimensionar-a-ditadura-no-brasil-diz-vice-presidente-da-comissao-de-anistia-cm5lo5if300da0177oawrgx2r.html#:~:text=%22Ainda%20Estou%20Aqui%22%20%C3%A9%20importante,da%20Comiss%C3%A3o%20de%20Anistia%20%7C%20GZH https://www.jota.info/artigos/ainda-estou-aqui-indicacao-historica-ao-oscar-e-uma-vitoria-para-os-direitos-humanos

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