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  • FOMO: Por que temos tanto medo de ficar sem saber?

    Nos últimos meses, você provavelmente se deparou com a palavra FOMO  em algum meme ou tuíte nas redes sociais. Mas, afinal, o que significa esse termo que se tornou tão recorrente na web? Foto: Mídia do Wix. FOMO  é uma sigla que vem da expressão em inglês Fear of missing out , uma condição caracterizada pelo medo de ficar de fora de algum assunto, e também a ansiedade de estar perdendo algo. Trata-se de uma discussão pertinente quando se fala no uso excessivo de redes sociais, principalmente em um momento no qual a cultura digital se infiltra nas relações sociais. A origem do FOMO Ao contrário do que muitos pensam, o fenômeno do FOMO  não é tão recente. O termo foi criado no início dos anos 2000, mas se popularizou apenas a partir de 2010, quando as redes sociais passaram a ter uma relevância maior no dia a dia das pessoas. Dessa forma, passou-se a notar uma mudança generalizada de comportamento com o avanço das plataformas digitais. Conhecidos como os usuários que mais engajam nas redes, os brasileiros se destacam por sua presença marcante no meio digital. Segundo dados do relatório Digital 2024: 5 Billion Social Media Users , o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking dos países que mais passam tempo online, com uma média de 9h13min por dia.  Ademais, é necessário considerar os efeitos do fenômeno da midiatização , uma teoria do campo da comunicação que aborda o impacto da mídia na cultura e na sociedade, cada vez mais dependente dos meios de comunicação. A mídia deixa de ser apenas um canal de transmissão de informações, passando a moldar a forma como as pessoas se relacionam e se organizam em sociedade. Foto: IA Assim, a midiatização acaba por promover um ambiente no qual as regras de  visibilidade e conexão, características centrais do FOMO , tornam-se experiências comuns da vida digital contemporânea. As consequências Ansiedade, insatisfação e comparação constante: esses são sintomas  característicos de quem sofre com o FOMO , além da dificuldade de foco e estresse social.  A dependência digital resulta de um excesso de estímulos ocasionados pela dopamina, neurotransmissor responsável por transmitir sensação de prazer. Quando estamos conectados, a dopamina liberada em nosso cérebro pode causar alívio e conforto; mas, a longo prazo, pode afetar nosso comportamento e provocar impulsividade. Essa cultura se infiltra nas relações sociais e pode causar prejuízos. Por isso, é fundamental estar atento a padrões de comportamento que apontam para a dependência digital. Como “fugir” do FOMO? Fugir do FOMO  não significa se isolar ou se desligar do mundo. Pode ser, na verdade, uma oportunidade de escapar das pressões das redes sociais, ou até mesmo um momento de reconexão consigo mesmo. Por isso,  estabelecer limites e valorizar experiências fora das telas pode ser muito enriquecedor. Aqui vão algumas dicas para escapar das armadilhas do mundo digital: Reduzir o tempo de tela Evite passar tanto tempo no celular e, se necessário, use ferramentas que controlam o tempo de uso dos aplicativos. É uma dica simples, mas com efeitos siginificativos a longo prazo. Rever o conteúdo que consome Selecione conteúdos que realmente te representem. Lembre-se: o que é mostrado na internet não reflete 100%  a realidade. Muitas pessoas exibem uma vida perfeita que, na verdade,  não existe. Evitar esse tipo de conteúdo ajuda a manter a saúde mental em dia. Viva o momento Curta uma festa, aprenda um hobby novo ou faça um passeio diferente.  Faça tudo isso não para postar nas redes ou mostrar para os outros, mas por você. No fim das contas, estar vivo é se permitir experimentar os momentos que te aguardam. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Referências https://zenklub.com.br/blog/para-voce/sindrome-de-fomo-o-que-e-fear-of-missing-out https://g1.globo.com/saude/noticia/2023/02/13/fomo-saiba-mais-sobre-a-sindrome-do-medo-de-ficar-de-fora-principalmente-do-mundo-digital.ghtml https://revistas.usp.br/matrizes/article/view/82929/85963

  • “Minta, minta, minta, algo permanecerá”

    A frase que intitula o artigo é de Joseph Goebbels que foi Ministro do Esclarecimento Público e Propaganda durante o Terceiro Reich, Joseph afirmava que: Joseph Goebbels   “Antes, quando algo cair, quanto maior a mentira, mais as pessoas acreditarão”. O tempo passou mas a sentença continua vigente e particularmente em relação ao Presidente da Argentina, Javier Milei que tanto nos debates presidenciais como nos anúncios feitos por seus ministros, fez o que disse que não ia fazer, ou seja, mentiu.  No debate presidencial, Milei incorporou plenamente a visão da vice-presidente, Victoria Villarruel expressando que os crimes contra a humanidade eram “excessos” , tendo o mesmo argumento do genocida Jorge Rafael Videla. Expressar uma opinião sobre o pior sucesso na História Argentina não é brincadeira e tem que ser levada a sério. Além disso, quando se pesquisa sobre as ideias do presidente argentino fica evidente que ele não tem um pensamento crítico; cada uma das ideias dele foram ideais ou opiniões de outras pessoas e coincidir -ou não- com outras está bem, o errado é falar como se as ideias, argumentos ou planos sejam exclusivos dele. Ele não dá o crédito ao outro, como se evidenciou nos plágios que ele fez relacionados ao Fundo Monetário Internacional (FMI) mas o plágio não se limitou a colunas de opinião ou livros, está presente até em sua autobiografia *. A questão das mentiras foi mais além da esfera doméstica e durante a Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial em Davos de 2024, e elas podem ser vistas nas expressões de Mieli. A seguir destaco algumas frases na mesma ordem do discurso: “Estamos aqui para dizer-lhes que as experiências coletivistas nunca são a solução para os problemas que afligem os cidadãos do mundo, mas, pelo contrário, são a sua causa. Acredite em mim, ninguém melhor do que nós argentinos para dar testemunhos destas duas questões." Permitam-me discordar do presidente argentino e concordar com o argumento de Paulo Freire que expressou que “Ninguém se salva sozinho, ninguém salva ninguém, todos nós salvamos em comunidade”. Pensamento que anda de mãos dadas com o Papa Francisco que durante a pandemia disse que “Ninguém se salva sozinho”, refletindo que nenhuma solução próspera pode ocorrer a partir do individualismo. Continuando, Milei afirmou que: “Quando adotamos o modelo da liberdade, no ano de 1860, em 35 anos nos tornamos a primeira potência mundial.” Porém, esqueceu de falar quais eram as condições da população nesse tempo. Os pontos mais importantes foram que a Argentina estava se organizando no nível estatal e o motor do seu crescimento econômico foram as exportações de produtos primários porém as receitas do Estado nunca conseguiram cobrir as suas despesas, pelo que o déficit fiscal era comum. A emissão de dívida pública para cobrir a crescente despesa pública levou a um aumento da taxa de juros do sistema e a uma eventual queda da taxa de investimento do setor privado. Este efeito tornou-se mais pronunciado em tempos difíceis, quando os investidores preferiram a segurança dos títulos do Estado à rentabilidade na esfera privada. ( ROCCHI, 200) Em relação à seguinte frase: “Agora, não só que o capitalismo gerou uma explosão de riqueza desde o momento em que foi adotado como sistema econômico, mas, se você analisar os dados, o que se observa é que o crescimento vem acelerando ao longo de todo o período.” Seria bom para ele ler Noam Chomsky para compreender que o capitalismo produziu “uma escalada aparentemente interminável de guerras, catástrofes ambientais, níveis sem precedentes de desigualdade tanto na riqueza como nos rendimentos globais. E regimes autoritários cada vez mais repressivos." (CHOMSKY & WATERSTONE, 2021) Com respeito ao Produto Interno Bruto (PIB), expressou que: “Agora, quando se estuda o PIB per capita, desde o ano 1800 até hoje, o que se observa é que, após a Revolução Industrial, o PIB per capita mundial se multiplicou por mais de 15 vezes, gerando uma explosão de riqueza que tirou da pobreza 90 por cento da população mundial.” Exatamente como ele fala, “agora, quando se estuda o PIB…” não se considera seus números como indicadores vitais para analisar o crescimento econômico de um país porque não leva em conta o que exatamente está sendo produzido ou qual é a qualidade do que é produzido; fazendo difícil comparar a produção entre diferentes períodos. Por último, segundo Milei diz: “A conclusão é óbvia: longe de ser a causa dos nossos problemas, o capitalismo de livre empresa, como sistema econômico, é a única ferramenta que temos para acabar com a fome, a pobreza e a indigência em todo o planeta. A evidência empírica é inquestionável … Por isso, como não há dúvida de que o capitalismo de livre mercado é superior em termos produtivos… Graças ao capitalismo de livre empresa, hoje, o mundo está no seu melhor. Nunca houve, em toda a história da humanidade, um momento de maior prosperidade do que o que vivemos hoje. O mundo de hoje é mais livre, mais rico, mais pacífico e mais próspero do que qualquer outro momento da nossa história. Isso é verdade para todos, mas em particular para aqueles países que são livres, onde respeitam a liberdade econômica e os direitos de propriedade dos indivíduos”.   Pensando em suas palavras, uma forma de respeitar a liberdade e direitos dos indivíduos é vedar o congresso nacional, pressionar os governadores – anunciando cortes pela Nação – a votarem leis que nada tem a ver com necessidades e emergências, e reprimir cidadãos que manifestam o seu desacordo com os planos econômicos do presidente eleito? Para finalizar, vou lembrar uma frase de Myriam Bregman que foi dita no debate presidencial, ela enfatizou os laços empresariais do economista ultraliberal expressando que: “ Ele não é um leão, é um gatinho fofinho do poder econômico ” (El País, 2023). O que será que Bregman quis dizer? Disso vamos falar no próximo artigo , onde vamos também vamos repensar os conceitos tão falados por Milei: liberdade, poder econômico e direitos. * Se você quiser saber mais sobre plágio, acesse:   https://interferencia.cl/articulos/los-multiples-plagios-de-javier-milei-en-sus-libros-y-columnas-que-sergio-massa-refloto-en Texto escrito pela equipe Zero Águia , portal de notícias e análises sobre Política e Relações Internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Bibliografía: Chomsky, N., & Waterstone, M. (2021). Las consecuencias del capitalismo. La fábrica de descontento y resistencia.   “Davos 2024: Discurso especial de Javier Milei, presidente de Argentina”, World Economic Forum, 19 de enero de 2023.         https://es.weforum.org/agenda/2024/01/davos-2024-discurso-especial-de-javier-milei-presidente-de-argentina/ "Javier Milei sale con vida del primer debate de candidatos presidenciales de Argentina", Diario El País, 2 de octubre de 2023.        https://elpais.com/argentina/2023-10-02/javier-milei-sale-con-vida-del-primer-debate-de-candidatos-presidenciales-de-argentina.html “ Los múltiples plagios de Javier Milei en sus libros y columnas que Sergio Massa reflotó en el debate”, Interferencia, 14 de noviembre de 2023.      https://interferencia.cl/articulos/los-multiples-plagios-de-javier-milei-en-sus-libros-y-columnas-que-sergio-massa-refloto-en Rocchi, F. (2000). El péndulo de la riqueza: la economía argentina en el período 1880-1916. Nueva historia argentina , 5 , 15-69.

  • De Mujica a Orsi: Continuidade e desafios na política uruguaia

    No domingo 24 de novembro aconteceram as eleições presidenciais no país vizinho,  Uruguai. Os principais institutos de pesquisa do país emitiram as suas projeções de contagem de votos às 20:30 da noite com base nos primeiros votos obtidos nos circuitos que foram escolhidos para suas amostras. A fórmula formada por Yamandú Orsi e Carolina Cosse, da Frente Amplo, foi a vencedora após o segundo turno das eleições nacionais, instância conhecida como segundo turno. Fonte: BBC News Orsi, conseguiu vencer o Partido Nacional, formado por Álvaro Delgado e Valéria Ripoll. Durante a campanha, Yamandú prometeu uma política de “ esquerda moderna ” e garantiu que não está planejando uma mudança repentina de política , já que o país tem a característica de ser tradicionalmente moderado. O novo presidente vem de uma das duas grandes coalizões que dominam a política uruguaia, a Frente Amplo. A Frente é integrada há mais de 50 anos por partidos de esquerda e hoje tem o ex-presidente José Pepe Mujica como referente político. Em seu discurso, Orsi afirmou que: “Vai ser o presidente que apela continuamente ao diálogo nacional para encontrar as melhores soluções. Claro, com as nossas ideias, mas também ouvindo bem o que os outros nos dizem”. Ele busca “construir uma sociedade mais integrada…” (...) “ninguém poderá ficar para trás do ponto de vista econômico, social e político”. Fonte: UOL Notícias Suas palavras descrevem perfeitamente o cenário político do país. O cenário político uruguaio, ao contrário de outros países da América Latina, como Brasil ou Argentina, não é marcado por uma notória divisão entre direita e esquerda, ou seja, a polarização que pode-se encontrar nos países mencionados não existe no “paisito” como falam no Uruguai. De forma simples, o ambiente que se respira no Uruguai é caracterizado por uma prevalência de relativa calma e ausência de tensão política e social . Mas essa calma e ausência de tensão não se percebe na economia doméstica, ou seja, nos gastos que cada cidadão tem no dia a dia. No entanto, o que o Uruguai compartilha com outras nações da região é a preocupação com o elevado custo de vida, a desigualdade e a criminalidade , embora a inflação tenha diminuído recentemente. Essa preocupação pode ser vista na forma como o país é chamado, com muitos referindo-se ao Uruguai como a Suécia da América Latina . Mas por que é tão caro viver nesse país? Para responder a essa pergunta, é preciso considerar vários pontos. Fonte: Viagens e caminhos Por um lado, de acordo com dados recolhidos pelo Banco Mundial , os preços de cerca de 600 produtos no Uruguai, em comparação com outros 43 países, eram em média 27% mais caros no país sul-americano . Incrivelmente, países europeus desenvolvidos como França, Alemanha e Reino Unido apresentaram preços inferiores aos pagos em Montevidéu. Comparando exclusivamente com a região latino-americana , os produtos no Uruguai custam mais que o dobro dos da Bolívia, 80% mais que no México e 20% mais que no Brasil e Argentina. O custo elevado tem uma razão clara: o Uruguai padece a falta de concorrência e os setores regulados pelo Estado têm alguns problemas. O efeito país, ou seja, as condições que fazem que o país seja mais caro, é porque praticamente não há produção nacional e os produtos devem ser importados . Além disso,  o mercado em geral é pequeno e fica concentrado em poucas empresas. É importante lembrar que no país vivem 3,5 milhões de pessoas e, devido à falta de uma concorrência maior, o lucro que as empresas colocam nos produtos é bem maior, representando até dez vezes o valor inicial. Por outro lado, ao falar do aspecto econômico não podemos deixar de considerar o sistema tributário e os altos custos da energia . O sistema tributário é baseado em impostos diretos sobre o consumo e não tanto em impostos sobre as pessoas. Um exemplo disso é o combustível . O Uruguai tem o litro de gasolina mais caro da América Latina e quase metade do preço são impostos. Em relação ao diesel, ele também é caro, porque um percentual do preço do litro é destinado ao subsídio ao transporte público, que depois é transferido para os custos de transporte e distribuição de qualquer produto. E não é só isso, acontece também com a eletricidade. As taxas estão entre as mais altas do mundo, devido aos investimentos feitos nos últimos anos para aumentar a produção de energia a partir de fontes renováveis. Fonte: Quero viajar Por último, em relação ao aspecto político e sua estabilidade , o Uruguai foi capaz de manter políticas de longo prazo e certa estabilidade econômica. Mas não podemos  deixar de mencionar alguns dados pontuais. A pobreza está acima dos 8,8% do período anterior à pandemia e a sociedade também é mais desigual do que há cinco anos, segundo o índice de Gini, que cresceu de 0,383 em 2019 para 0,394 em 2023. É importante que a manifestação de vontade política de uma mudança , feita pelas pessoas no último domingo do mês de novembro, seja acompanhada por políticas que permitam reconstruir aspectos vitais de uma sociedade , especialmente nos valores gerais de cada produto que integram a economia de cada lar e na desigualdade social que se evidenciou de forma clara. A ausência de tensão no nível político e falta de polarização na área têm que ir junto com a estabilidade econômica no nível doméstico, ou seja, com preços coerentes com os salários e o nível de vida e qualidade de vida que o Uruguai transmite ao mundo. Editorial Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Fontes: https://elpais.com/america/2024-11-23/uruguay-la-democracia-tranquila.html https://www.france24.com/es/am%C3%A9rica-latina/20241125-la-izquierda-regresa-al-poder-en-uruguay-qu%C3%A9-se-espera-con-yamand%C3%BA-orsi https://elpais.com/america/2024-11-25/la-izquierda-de-jose-mujica-vuelve-al-poder-en-uruguay-segun-los-primeros-sondeos-a-pie-de-urna.html https://www.bbc.com/mundo/articles/c722g284d8do https://www.univision.com/noticias/america-latina/resultados-elecciones-uruguay-balotaje-entre-yamandu-orsi-y-alvaro-delgado https://www.latimes.com/espanol/internacional/articulo/2024-11-25/lideres-de-america-latina-reaccionan-al-triunfo-de-orsi-y-el-regreso-de-la-izquierda-en-uruguayhttps://cnnespanol.cnn.com/2024/11/25/analisis-elecciones-uruguay-orix

  • Quem (ainda) ocupa os espaços de poder?

    A ascensão da população negra brasileira pareceu,  durante muitas décadas, um sonho utópico. A chamada abolição da escravidão no Brasil foi mais uma lei “para inglês ver”  do que um verdadeiro ato reparatório . Naquela época, já não era possível conter as rebeliões  dos movimentos pró-abolição, além da crescente pressão internacional  pelo fim da escravidão. O abolicionista negro André Rebouças. — Reprodução Diferente do que se esperaria de um país cuja economia foi construída sobre a escravidão, a dor, o sofrimento e a morte de pessoas escravizadas, o processo de libertação não veio acompanhado de reparação ,  justiça, divisão de terras ou garantia de direitos. Em vez disso, gerou desigualdade e miséria.  Sem ter para onde ir e sem políticas reparatórias, os ex-escravizados ocuparam morros e periferias, perpetuando desigualdades que persistem até os dias atuais. Como herança da pós-abolição, o Brasil se tornou um dos países mais desiguais do mundo, especialmente no que diz respeito à desigualdade racial e social. Políticas de reparação Ao longo dos anos, o povo negro lutou e continua lutando por políticas públicas de reparação, buscando reduzir as desigualdades raciais e promover uma disputa mais equitativa. Infelizmente, na corrida da vida, a população negra parte em desvantagem , enfrentando barreiras como o racismo estrutural, a ausência de políticas públicas eficazes, a desestruturação familiar e a violência. O movimento negro travou batalhas significativas para que o Estado brasileiro criasse políticas públicas voltadas à equidade racial. Felizmente, houve avanços: políticas afirmativas começaram a ser implementadas, como as cotas raciais para o ingresso no ensino superior  - uma forma de reequilibrar oportunidades -  e as cotas em concursos públicos . Além disso, a criação de ministérios e órgãos dedicados à formulação de políticas para a população negra representou um passo importante. Fundação do Movimento Negro Unificado, 1978. Foto: Jesus Carlos / Divulgação: Folha de São Paulo No entanto, é fundamental destacar que essas iniciativas ainda não são suficientes para eliminar as desigualdades raciais. Apesar disso, elas têm desempenhado um papel significativo na redução dessas disparidades, contribuindo para mudanças estruturais e promovendo um cenário mais justo para as próximas gerações. Negras e negros em espaços de poder Essa é a parte em que eu gostaria de escrever sobre uma ascensão massiva da população negra, mas, infelizmente, as desigualdades ainda são extremamente acentuadas, fruto de uma sociedade profundamente racista e discriminatória. É inaceitável que a população negra, que representa 56,1% da população brasileira ( segundo dados do IBGE), ocupe apenas 24% das 513 cadeiras no Congresso Nacional e que  menos de 3%  dos homens e mulheres negras alcancem cargos de gerência e diretoria no mundo corporativo . Essa discrepância evidencia uma desigualdade estrutural que precisa ser enfrentada. Como homem negro, faço questão de ressaltar que ainda há um longo caminho a percorrer  para alcançar a justiça racial. Para mim, isso significa ver 56,1% de pessoas negras em cargos de liderança, nos serviços públicos e no legislativo. Olhando para trás, reconheço os avanços que conquistamos: em diversas áreas, há pessoas negras como referência - seja nas artes, na educação, na literatura, na ciência, na medicina, no direito ou no mundo corporativo . Houve um tempo em que ver negros nessas posições era algo imaginável apenas para nós, e felizmente, por meio de politicas reparadoras, ações afirmativas e muita luta, conseguimos imprimir mudanças significativas. Hoje, negros na classe média e nas classes mais altas já são uma realidad e, mas ainda vivemos em um mundo onde desigualdades persistem. O ideal seria que essas disparidades não existissem, mas, como elas continuam a marcar nossa sociedade, cabe a nós lutarmos para reduzi-las, garantindo que mais pessoas negras ocupem espaços de poder e tomada de decisão. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 14 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão por: Eliane Gomes Edição por: João Guilherme Veiga Grecco Referências https://offlattes.com/archives/13844 https://www.bbc.com/portuguese/geral-53520782 https://www.ibge.gov.br/

  • Entre Mundos: as dores e delícias de ser imigrante

    Imagem: Mulher no aeroporto - Diário do Nordeste Muitas vezes, quando falamos sobre imigrantes, vemos situações extremas: tragédias como deportações nos Estados Unidos , filhos sendo separados dos pais, pessoas que construíram uma vida em determinado lugar sendo obrigadas a deixar tudo para trás. Por outro lado, também vemos histórias de sucesso:  pessoas se dando bem, trabalhando, estudando, seguindo a vida que escolheram. Mas há um ponto pouco discutido dentro desse tema: a divisão entre mundos e as consequências emocionais  - tanto positivas quanto negativas - de ser um “ser imigrante”. Nesse artigo, vamos refletir sobre as dores e as maravilhas dessa jornada emocional que é imigrar. A decisão de sair de seu ninho Quando uma pessoa decide sair do seu país, seja pelo motivo que for, é preciso muita coragem . Lidar com outro idioma, outros costumes, outras burocracias, outras pessoas…  com outro “tudo”. Por isso, essa decisão não deve ser tomada por raiva, após uma briga ou no impulso do famoso “não aguento mais esse lugar” - esses não são os motivos certos. No país de destino, certamente haverá problemas iguais ou até maiores para enfrentar. Além disso, é fundamental se preparar para partir.  Informar-se sobre a documentação necessária, a validade do visto ao chegar, as possibilidades de emprego (se é permitido trabalhar ou não), estudar, e se o país é receptivo com estrangeiros, entre outros aspectos importantes. A preparação financeira também é indispensável.  Sim, sabemos o quanto é desafiador no cenário atual, mas sair do país exige planejamento econômico sólido. E claro, há a preparação psicológica.  Ficar um tempo indeterminado longe da família e dos amigos nunca é fácil. Rumo ao desconhecido Imagem: Mulher estrangeira na rua - fonte: sonhos.com Temos que ter em mente que, ao sairmos do nosso país, por mais que  pesquisemos e nos sintamos preparados  para enfrentar a nova realidade, inevitavelmente vamos nos deparar com o desconhecido.  Há aprendizados que só vêm com a prática do dia a dia: o preço do café, determinadas palavras no mercado, gírias e maneirismos - tudo é muito novo. É essencial estarmos de coração aberto para acolher essa nova cultura. Quando saí do Brasil, recebi um conselho valioso de um colega de trabalho:   respeite a cultura e os modos locais, evite comparações com o seu país e mantenha o peito aberto ao novo. Foi algo muito importante de ouvir - e levo isso para a vida, aconselhando outras pessoas que estão se tornando imigrantes. Saudade - uma palavra brasileira que conecta A palavra saudade  é amplamente conhecida por não ter uma tradução exata. Na verdade, o único idioma que conheço que possui algo semelhante é o alemão, com a palavra Sehnsucht . Ainda assim, nenhuma expressão consegue traduzir por completo esse sentimento que acompanha o imigrante todos os dias. Mesmo quando a escolha de imigrar é voluntária e consciente, ela carrega consigo um lado mais sensível. Situações simples -  como estar em um lugar que nos lembra alguém querido, provar uma comida que remete a um momento especial, ou ouvir uma música que desperta lembranças - fazem o coração apertar.  E muitas vezes, não conseguimos ligar para a pessoa naquele momento: seja por causa do fuso horário, da rotina atribulada dela, ou de outros impedimentos. Com o tempo, o imigrante aprende a fazer da saudade uma companheira.  Aprende a vê-la não como algo que machuca, mas como um sentimento belo, carregado de memórias afetivas. Hoje em dia, a tecnologia é um grande alívio para quem está longe. Graças a chamadas de vídeo e mensagens instantâneas, conseguimos amenizar a distância. Sinceramente, não consigo imaginar como foi para gerações anteriores imigrar sem esses recursos. Sem dúvida, era muito mais difícil. Ir ou ficar? Imagem: Mulher pensando olhando para o horizonte. - Pixabay Nenhuma escolha é fácil. A própria palavra já diz: ao escolher, algo que gostaríamos de manter fica para trás. Escolher ir é difícil - e, muitas vezes, escolher ficar também. Se vamos, pensamos no que teria acontecido se tivéssemos ficado; se ficamos, imaginamos como seria se tivéssemos ido.  Ou seja, as escolhas não são fáceis, mas precisam ser feitas. A vida de estrangeiro não é simples. Claro, aproveitamos onde estamos, vivemos, postamos fotos dos lugares que visitamos e buscamos ser felizes onde quer que estejamos.  Mas, ao mesmo tempo, enfrentamos batalhas diárias:  a saudade, a burocracia, os desafios da adaptação. Tudo isso é parte do pacote invisível que carregamos no dia a dia. Por isso, nunca pense que o seu país é horrível e que viver fora é uma solução mágica. Nenhum lugar é perfeito  - todos têm seus defeitos e qualidades. Precisamos ter consciência disso para fazer escolhas mais justas com a realidade e com nós mesmos. Eu mesma já ouvi algumas vezes que fui muito corajosa por ter saído do meu país. E sinceramente? Também acho. Mas sei que essa coragem me permite hoje fazer mais por quem ficou - e isso é um grande acalento para o coração. Para quem ficou e tem vontade de partir: reflita com profundidade , se organize com carinho, tenha foco e planeje bem cada passo. Para finalizar Deixo aqui um poema profundo de Flavia Regina de Jesus , imigrante brasileira marcada pela saudade. Suas palavras capturam com leveza e dor os sentimentos do “ser imigrante”: "Solidão estrangeira" Afundo como pedra em um mar de domingos Rasgando minha solidão sob a chuva Como uma imensa folha de papel de seda. O que resta desse caldo É uma misteriosa paz respingada de tristeza Que eu aceito vencida e resignada. Sentada no alto do muro dos quarenta Sem satélites nem estrelas Chupando livros e as folhas do jardim Sustento a realidade da minha vida de estrangeira. Ninguém chegará sem um convite O telefone não tocará Não haverá grandes festas familiares Nem amigos familiares Nem casamentos, nem batizados. Tuas primas não vão passar para te pegar Tuas poucas amigas estarão com as primas delas fazendo coisas de primas. Sais do teu país e logo te enterram com um lençol transparente Ficas dormindo no pensamento de teus irmãos. Aparece tua sombra nas conversas das tuas tias Vives nos olhos da tua mãe, que ora por ti. Teus velhos amigos te esquecem porque já não te veem Às vezes, algum sente saudade do teu riso e te escreve uma mensagem Nesse, ficou o abraço da tua juventude. No Natal, tua família te ressuscita com chamadas Teus seres queridos reaparecem mais velhos em telas Por umas horas já não estás abismada de solidão Deslizas entre as lembranças da tua cidade iluminada. Imagem: Mulher olhando para o horizonte - freepik Texto escrito por  Caroline Prado Brasileira vivendo na Costa Rica, apaixonada por cachorros, plantas e fontes confiáveis. É internacionalista, tradutora e filóloga. Professora de Português como Língua Estrangeira (PLE) e História Contemporânea além de Filóloga especialista em Línguas Latinas. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme

  • Forrest Gump: uma história de muitas interpretações

    O personagem Forrest Gump, interpretado por Tom Hanks , é frequentemente visto como um exemplo de pessoa com deficiência (PCD) que supera suas limitações . Desde a infância, Forrest enfrenta desafios físicos e cognitivos, mas sua resiliência e bondade o levam a conquistas extraordinárias . Ele se destaca em várias áreas, como esportes, negócios e até mesmo na guerra, demonstrando que suas limitações não definem seu potencial. Essa representação positiva de uma pessoa PCD é um dos aspectos mais celebrados do filme. Cartaz do filme Forrest Gump - Fonte: https://www.folhape.com.br/cultura/forrest-gump-globo-mostra-filme-comovente-com-tom-hanks-que-passeia/326377/ Alguns críticos interpretam “Forrest Gump” como uma celebração do americanismo, patriotismo e conformismo. Nessa visão, Forrest é retratado como um herói ingênuo que se adapta às circunstâncias sem questionar ou se rebelar contra as injustiças e os conflitos ao seu redor. Sua trajetória é vista como um reflexo do sonho americano, onde qualquer um pode alcançar o sucesso através de trabalho duro e determinação, independentemente de suas limitações.   Por outro lado, há quem defenda que o filme é uma crítica sutil e irônica aos valores e acontecimentos históricos dos Estados Unidos. Forrest, com sua simplicidade e humor, é o único personagem que mantém sua integridade em meio a um ambiente de guerra e maldade. Nesse contexto, sua ingenuidade é vista como um ato de rebeldia e resistência , uma forma de criticar a complexidade e a corrupção do mundo ao seu redor. Cena do filme Forrest Gump - fonte: https://cinemacao.com/2020/05/01/dica-de-filme-forrest-gump-o-contador-de-historias-1994/ Outra interpretação sugere que “Forrest Gump” celebra a diversidade e a inclusão. Forrest supera suas limitações e se torna um sucesso em tudo que faz, encarando a vida de maneira simples e sem julgamentos. Sua história é um exemplo de resiliência e bondade, mostrando que as pessoas com deficiência podem alcançar grandes feitos e viver vidas plenas e significativas. Essa visão destaca a importância de aceitar e valorizar as diferenças individuais. Independentemente da interpretação, “Forrest Gump” continua a ser um filme que provoca reflexão e debate. A jornada de Forrest como uma pessoa PCD que supera obstáculos e encontra sucesso ressoa com muitos espectadores, inspirando discussões sobre inclusão, resiliência e os valores da sociedade. A complexidade do personagem e as múltiplas camadas de significado do filme garantem que ele permaneça relevante e impactante. FICHA TÉCNICA Filme: Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump) Elenco: Tom Hanks (Forrest Gump), Robin Wright (Jenny Curran), Gary Sinise (Tenente Dan Taylor), Mykelti Williamson (Benjamin Buford "Bubba" Blue) Direção: Robert Zemeckis TRAILER: Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Revisão: Eliane Gomes Edição:  Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS: https://pt.wikipedia.org/wiki/Forrest_Gump https://en.wikipedia.org/wiki/Forrest_Gump https://www.imdb.com/title/tt0109830/ ref_=nv_sr_srsg_1_tt_7_nm_1_q_forest%2520gump https://www.culturagenial.com/forrest-gump/

  • De bebês reborn a jogos de aposta: como as bolhas virtuais moldam a sociedade

    Este artigo integra o Dossiê: Redes Sociais e a Dinâmica das Tendências (Parte I) Hoje em dia, praticamente todo mundo acompanha algum influencer, youtuber ou celebridade nas redes sociais. Normalmente, são pessoas conhecidas por algum motivo: pode ser uma chef de cozinha, um pedreiro que também é artista, um streamer de jogos ou um personal trainer. Em certos casos, o destaque vem do fato de a pessoa ser um político ou um médico. Bolhas das redes sociais, imagem gerada por IA. De qualquer forma, essas pessoas e marcas exercem uma forte influência sobre um público, muitas vezes numeroso. Fãs-clubes surgem, tendências se espalham, e o que esses “ influencers ” publicam, falam e escrevem passa a ser levado a sério. Tudo o que um famoso diz parece  ter algum fundamento. É bonito, é cool , soa inteligente. E assim se formam as bolhas. Com o auxílio dos algoritmos das redes sociais, esses públicos começam a descobrir mais influencers semelhantes aos  que já seguem. Ao invés de somente acompanhar um nutricionista focado em alimentação saudável, uma mulher de meia-idade que está redescobrindo os exercícios na academia passa a consumir conteúdos de bodybuilders e atletas do fisiculturismo. As dietas tornam-se cada vez mais restritivas, os treinos mais intensos e prolongados. O mundo fitness é exigente. Do outro lado, um jovem de 18 anos acompanha apenas gamers e streamers  que passam horas diante do computador ou videogame, sempre buscando formas inusitadas de se destacar no jogo. Inspirado por seu ídolo, ele começa a se vestir, falar e se comportar da mesma maneira, até decidir fazer suas próprias transmissões ao vivo, almejando alcançar a mesma fama. Essas bolhas coexistem dentro das mesmas redes sociais, muitas vezes sem interagir. Completamente paralelas,  seus públicos seguem fielmente seus ídolos e frequentemente ignoram conteúdos externos. Neste texto, explorarei algumas dessas bolhas, seus protagonistas e suas crenças. O delirante mundo dos bebês reborn Bebê Reborn (Foto: Reprodução/Amazon) Em um cenário onde as redes sociais conectam as pessoas e constroem bolhas tão peculiares quanto inesperadas, surge o universo dos bebês reborn  – bonecas hiper-realistas que se transformam em réplicas perfeitas de recém-nascidos.  Assim como os influencers que conquistam legiões de fãs, os bebês reborn cativam uma comunidade apaixonada que os vê não apenas como uma representação da infância, mas também como a personificação do cuidado e da delicadeza em sua forma mais palpável. Vídeos publicados no TikTok e no Instagram mostram adultos tratando essas bonecas como crianças de verdade: agendando consultas médicas, oferecendo mamadeira, trocando roupas, levando para passear e até tentando utilizar assentos e filas preferenciais. Dentro dessa bolha, o fascínio ultrapassa a estética. Esse tipo de boneca pode custar entre R$ 750 e R$ 9,5 mil, dependendo do material e da complexidade da produção. As mais caras são feitas de silicone sólido, um material que se assemelha à textura da pele de um recém-nascido. O surgimento dessa tendência, especialmente entre adultos, é, no mínimo, preocupante. Pode revelar uma dificuldade em lidar com o real e com as relações humanas, levando alguns a se voltarem para o lúdico, para a boneca, para o brinquedo. Por mais realistas que sejam, os bebês reborn continuam sendo apenas representações feitas de material sintético, sem vida. Esse fascínio, porém, pode ser, para muitos, uma forma de suavizar as frustrações e angústias de um mundo cada vez mais complexo e desafiador. Legendários, o movimento cristão voltado para homens Eliezer, Thiago Nigro e Neymar pai já participaram do 'Legendários' — Foto: Reprodução/Instagram Dentro das bolhas, onde cada grupo se envolve em narrativas próprias que parecem verdades universais, surge o movimento Legendários — uma proposta que afirma “transformar a masculinidade do homem moderno”. Fundado com raízes cristãs, o Legendários desafia seus participantes a enfrentarem provas extremas, como a subida de montanhas, em eventos que podem ultrapassar o custo de R$ 81 mil. Nesse contexto, a bolha que congrega os participantes se fortalece por meio de uma crença compartilhada: as vivências intensas não apenas prometem renovar a masculinidade, mas também aprimorar a convivência familiar e fortalecer os laços matrimoniais. Assim como os influencers de outras bolhas, cujos discursos geram ecos de admiração entre seus seguidores sem que o público externo perceba—ou sequer se importe—os Legendários constroem sua própria realidade interna.  Lá, o ato de subir uma montanha deixa de ser apenas um teste físico; torna-se um símbolo de superação pessoal e um momento de forte impacto emocional para as famílias. A imersão nessa experiência, promovida de maneira quase ritualística por meio de pregações e desafios intensos, reforça a sensação de pertencimento àquela bolha exclusiva, onde cada obstáculo vencido é celebrado como um passo para a descoberta do potencial interior.  Essa dinâmica evidencia o poder dos algoritmos das redes sociais, pois, dentro da bolha dos Legendários, as mensagens e os valores promovidos se consolidam como verdades inquestionáveis para um público que, muitas vezes, ignora alternativas como psicoterapia ou outros tipos de tratamento. Em vez disso, os participantes investem grandes quantias em uma promessa de “jornada do autoconhecimento”, que pode também representar uma fuga da realidade. Virginia e a CPI das Bets No dia 13 de maio, a influencer Virginia Fonseca prestou depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, no Senado. A comissão investiga se influencers que divulgaram casas de apostas cometeram atos ilegais. Virginia, como é conhecida nas redes sociais, tem cerca de 52 milhões de seguidores no Instagram. Empresária, é dona de uma marca de cosméticos, uma agência de influencers e uma grife de produtos infantis. Ganhou notoriedade após namorar o youtuber gamer famoso Rezende e consolidou sua fama com danças em redes sociais, campanhas publicitárias de grandes marcas e, posteriormente, seu relacionamento com Zé Felipe, filho do cantor sertanejo Leonardo. Porém, mesmo com 52 milhões de seguidores, Virginia ainda era  desconhecida por muitas pessoas fora de sua bolha. Ao aparecer na CPI das Bets, muitos se perguntaram: Quem é essa mulher? Por que tanto alvoroço em torno dela? Por que havia senadores querendo tirar fotos com ela, como se fosse uma atriz famosa? Esse é o poder das bolhas. Elas alienam e fazem com que os seguidores de um determinado influencer acreditem que todo o mundo conhece seu ídolo. Mas o mundo é vasto, e o  tempo passa. Em uma era tão fluida, nomes de influencers se misturam na mídia, e novos surgem constantemente. E a mídia, sem saber exatamente como lidar com esse fenômeno tão moderno e intrínseco a um mundo globalizado e informatizado, transforma tudo em notícia. Muitas vezes, sequer se preocupa em esclarecer quem é quem ou de onde veio. Assume que, por ser famoso dentro de uma bolha, fulano é automaticamente conhecido por todos. Mas não se engane: além de Jesus Cristo e o Diabo, poucos nomes são realmente universais. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e Editor-chefe do Portal Águia, curioso e questionador por natureza. Fascinado por História e Tecnologia, passa seu tempo livre aprendendo sobre outras culturas, jogando vídeo-game e assistindo episódios perdidos de Star Wars e The Wire. Revisão por Eliane Gomes Referências: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/05/13/entenda-em-5-pontos-por-que-Virginia-foi-a-cpi-das-bets-e-o-que-ela-disse.ghtml https://www.infomoney.com.br/brasil/o-que-e-um-bebe-reborn-entenda-polemica-que-tem-crescido-nas-redes-sociais/ https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2025/04/08/legendarios-por-que-homens-pagam-ate-r-81-mil-para-subir-montanha-e-melhorar-casamento.ghtml

  • Pepe Mujica - O Jardineiro da Esperança

    José Alberto Mujica Cordano, mais conhecido como Pepe Mujica , nasceu em 20 de maio de 1935 na cidade de Montevidéu, Uruguai, na região de Paso de la Arena. Essa região, localizada na parte ocidental da cidade, era um ponto de convergência de imigrantes italianos, portugueses e japoneses, que se dedicavam a diversas atividades ligadas à terra, como o cultivo de flores, o processamento de azeite e o curtimento de couro. Pepe Mujica, em foto do Poder 360. Pepe foi o primeiro filho de Lucila Isabel Cordano Giorello, filha de imigrantes italianos, e de Demétrio Mujica Terra, de origem basca. Seu pai era um pequeno agricultor que acabou indo à falência pouco antes de falecer, em 1943, deixando sua esposa Lucy com dois filhos: Pepe, então com 8 anos, e Maria Eudoxia Mujica Cordano, de apenas 2 anos. Após a falência e o falecimento do marido, Lucy passou a trabalhar com o cultivo de flores para sustentar a família, contando com a ajuda de Pepe, que, após as aulas, vendia flores para as floriculturas e feiras de bairro. Ele chegou a cursar Direito, mas não concluiu a graduação. Mujica e suas flores — Foto: Bia Roscoe Seu envolvimento com a política é algo que vem de família, pois seu tio materno, Angel Cordano, era nacionalista e simpatizante do peronismo, tendo exercido grande influência na formação política de Mujica. Por intermédio de sua mãe, Mujica conheceu o então deputado nacionalista Enrico Erro. A partir de então, passou a militar no Partido Nacional, chegando a ocupar o cargo de secretário-geral da Juventude Nacionalista. Em 1958, Enrico Erro foi nomeado ministro do Trabalho, contando com a companhia de Pepe Mujica. Em 1962, ambos romperam com o Partido Nacionalista e fundaram a Unión Popular , em conjunto com o Partido Socialista do Uruguai  e o Grupo Nuevas Bases . No contexto da Guerra Fria, a América Latina foi palco de intensa disputa e instabilidade política e econômica, e o Uruguai não foi exceção. José Pepe Mujica, guerrilheiro Tupamaro: 15 anos na prisão e futuro presidente do Uruguai (Foto: Memorial da Democracia) Assim, na década de 1960, Pepe Mujica aderiu ao Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) , um grupo de guerrilha urbana que realizava diversas operações, incluindo roubos e sequestros. No entanto, o grupo ficou mais conhecido por assaltar bancos e distribuir alimentos aos mais pobres. Durante sua atuação no MLN-T, Mujica foi baleado e preso. Ele conseguiu fugir da prisão duas vezes, mas, ao ser recapturado em 1972, foi submetido à torturas e ficou preso por 12 anos . Com a redemocratização do país, foi libertado em 1985 , após o decreto de anistia. Pepe Mujica retornou à política ajudando a fundar o Movimento de Participação Popular (MPP) , que se tornou uma das principais forças dentro da Frente Ampla . Em 1994, foi eleito deputado por Montevidéu. Em 1999, assumiu o cargo de senador e, em 2004, foi reeleito, tornando-se o senador mais votado da história do país. Em 29 de novembro de 2009, Mujica venceu as eleições presidenciais do Uruguai com 52,60% dos votos válidos , marcando o início de uma nova era democrática para o país. Como ele próprio dizia, ao ocupar o cargo de presidente, não permitiu que suas lutas e crenças fossem corrompidas pelo poder . Liderou com simplicidade e coerência, mantendo-se fiel ao seu discurso. Seu plano de governo estabeleceu como prioridades estratégicas a educação, a segurança pública e o meio ambiente, com forte ênfase na erradicação da pobreza extrema e na redução da desigualdade social. Os resultados de sua política entre 2004 e 2014 foram significativos: a taxa de pobreza caiu de 40% para 11% , o desemprego reduziu de 13% para 7%  e o salário mínimo acumulou um aumento real de 250% . Mujica também fortaleceu os sindicatos e a negociação coletiva. No setor ambiental, conseguiu transformar o Uruguai em um líder em energia renovável, com 98% da matriz energética proveniente de fontes limpas, distribuídas da seguinte forma: hidrelétrica (45%), eólica (32%), biomassa (17%) e solar (3%). Suas reformas sociais e legislativas mais relevantes foram:  A legalização do aborto até a 12ª semana de gestação, aprovada em outubro de 2012 após intenso debate no Parlamento. O projeto, que havia sido vetado em 2007 pelo então presidente Tabaré Vázquez, foi retomado pela Frente Ampla e sancionado por Mujica.  A aprovação do casamento igualitário em abril de 2013, permitindo o matrimônio civil entre pessoas do mesmo sexo, com direitos plenos, incluindo adoção e a escolha da ordem dos sobrenomes dos filhos. ] A regulamentação da produção, distribuição e venda de maconha recreativa em dezembro de 2013, transformando o Uruguai no primeiro país do mundo a estatizar integralmente o mercado da cannabis para uso recreativo. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente do Uruguai José "Pepe" Mujica (Foto: Ricardo Stuckert) Pepe Mujica ganhou notoriedade internacional por abrir mão do palácio presidencial, optando por continuar vivendo em seu sítio. Além disso, doava 90% de seu salário  para obras de caridade e mantinha seu estilo de vida simples, dirigindo seu Fusca azul de 1978 e utilizando sua bicicleta. Para muitos jovens, o querido agricultor de flores plantou um jardim de esperança, amor, compaixão e empatia , transmitindo a ideia de que o mundo deve ser um lugar melhor para todos. Defendia que todos têm direito à educação, moradia, alimentação e segurança , e que ainda existem pessoas dispostas a lutar por um mundo mais digno para todos. Texto escrito por Camila Bellato ​Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Revisão por João Guilherme Grecco Edição por Eliézer Fernandes Dica: Filme: Uma noite de 12 anos (2018) Referências: https://www.brasildefato.com.br/2025/05/18/de-preso-politico-por-12-anos-a-presidente-do-uruguai-veja-a-trajetoria-excepcional-de-pepe-mujica/ https://ancestors.familysearch.org/en/GWVC-3JN/lucila-isabel-cordano-giorello-1906-1990 https://www.teledoce.com/telemundo/nacionales/el-origen-de-mujica-la-infancia-en-paso-de-la-arena-la-temprana-muerte-de-su-padre-y-su-pasion-poco-conocida/ https://forbes.com.br/forbes-money/2025/05/morre-jose-alberto-mujica-1935-2025-ex-presidente-do-uruguai/ https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/05/13/clandestinidade-simplicidade-e-presidencia-do-uruguai-conheca-a-trajetoria-de-jose-pepe-mujica.ghtml

  • Resiliência democrática à prova de choques

    Segundo o dicionário da língua espanhola, resiliência é a capacidade de adaptação  de um ser vivo diante de um agente perturbador ou uma situação adversa (RAE, 2025). Essa definição posiciona o conceito mais próximo do contexto ambiental, enfatizando a habilidade de resistir antes de uma mudança. No entanto, quando a resiliência é transposta para o campo político e social , surgem tanto diferenças quanto semelhanças . Charge de Pancho Quando aplicada à  democracia, a resiliência refere-se à  capacidade de enfrentar e sobreviver a desafios e crises.  No entanto, isso não é simples, pois a democracia é um sistema complexo . Um exemplo dessa complexidade pode ser observado nas diferenças entre Nicarágua , Cuba  e Venezuela , onde os governantes afirmam que seus regimes são democráticos. Entretanto, a realidade demonstra que as eleições nesses regimes autocráticos são usadas como um instrumento para eliminar qualquer tipo de oposição e justificar a perpetuação do poder , frequentemente por meio da figura de sucessores dentro da própria família. Esse tipo de governo tem como característica a permanência no poder, alcançada por meio da manipulação do processo eleitoral e, consequentemente, do próprio sistema democrático (BERTHIN, 2022). Ao mesmo tempo, a democracia representa um ideal no qual a busca por aprimoramento impulsiona as pessoas a lutar pacificamente por esse objetivo.  No entanto, em alguns contextos, essa busca não se concretiza, como nos exemplos mencionados anteriormente, onde esses regimes não são, por natureza, nem resilientes nem democráticos. Sobre a definição de "democracia" A palavra “democracia” tem origem no grego, derivando de “ demos ” (povo) e “ kratos ” (poder) . Essa etimologia permite definir a democracia como “o poder do povo”, ou seja, um sistema de governo fundamentado na vontade popular. Fonte: tirant.com Ao redor do mundo, existem diversos modelos de governo democrático , e muitas vezes é mais fácil compreender a partir do que ela não é. Democracia não é autocracia ou ditadura , em que o poder se concentra em uma única pessoa, nem oligarquia , onde um pequeno grupo governa. Entendida corretamente, a democracia tampouco deve ser reduzida ao “governo da maioria” , caso isso implique ignorar os interesses das minorias.  Em essência, a democracia é um sistema de governo em nome de todo o povo, guiado por sua vontade coletiva ( CONSEJO, 2002) . Segundo o significado etimológico e a concepção dominante compartilhada de Kelsen, Bobbio, Schumpeter e Dahl, a democracia é um método para a tomada de decisões coletivas . Trata-se de um conjunto de regras que confere ao povo o poder de decidir, direta ou indiretamente, por meio de representantes (FERRAJOLI, 2003) . Se as decisões são coletivas, pode ocorrer que a regra da maioria nem sempre garanta os direitos humanos para todos. Quando não há mecanismos que assegurem esses direitos, a vontade da maioria pode resultar em decisões prejudiciais às minorias. Portanto, em qualquer sistema democrático, é essencial proteger tanto os interesses das minorias quanto os das maiorias.   Os princípios dos direitos humanos devem ser fortalecidos por um aparato legal eficaz, garantindo sua aplicação independentemente da vontade da maioria ( CONSEJO, 2002) . “Uma minoria pode estar certa, mas a maioria está sempre errada” (Henrique Ibsen) Distinção entre estabilidade e resiliência A estabilidade  é um conceito frequentemente associado à democracia, pois refere-se à capacidade de um sistema político de se desenvolver sem crises ou mudanças significativas.  Embora estabilidade e democracia possam parecer conceitos semelhantes, eles representam abordagens distintas. Uma democracia é considerada estável quando suas eleições ocorrem regularmente e suas instituições continuam operando, mesmo diante de problemas internos não resolvidos.  No entanto, essa estabilidade pode ser apenas superficial, já que, apesar da funcionalidade das estruturas formais, o sistema pode não estar preparado para reagir de forma eficaz a choques inesperados , como crises profundas. São nesses momentos de crises que a resiliência democrática se torna visível , demonstrando a capacidade da democracia de enfrentar pressões autoritárias e preservar suas instituições. Um exemplo disso ocorreu tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, quando apoiadores de Donald Trump e Jair Bolsonaro, respectivamente, contestaram a legitimidade das eleições de 2021 (BRAVO, 2023). O teste da resiliência democrática Atualmente, a resiliência das democracias contemporâneas é constantemente desafiada  por uma série de fenômenos interligados que testam sua capacidade de adaptação e preservação institucional. Entre os mais relevantes, destacam-se a polarização política e a radicalização ideológica , que fragilizam e comprometem o diálogo democrático. Além disso, a desinformação , amplificada pelas redes sociais , abala a confiança nas instituições e no processo eleitoral. Observa-se também o avanço de tentativas de ruptura institucional, como ataques ao Judiciário, disseminação de fake news  eleitorais e ameaças à ordem constitucional. As democracias ainda enfrentam os impactos de diversas crises - econômicas, sociais e sanitárias  - como foi evidenciado durante a pandemia de COVID-19, que acentuou desigualdades preexistentes. Por fim, os avanços tecnológicos, especialmente no campo da inteligência artificial, têm ampliado a vigilância digital e a manipulação de dados, introduzindo novos riscos à vida privada e pessoal, afetando a privacidade e a liberdade de expressão. Esses fatores combinados representam choques significativos que exigem mais do que simples estabilidade . Eles demandam uma resposta real, adaptação e capacidade de recuperação por parte dos regimes democráticos. Conclusão Esse cenário se evidencia particularmente em diversos países latino-americanos, onde o fenômeno da captura institucional  se intensifica. Nessas democracias formais, observa-se um processo gradual de afastamento da consolidação democrática e de aproximação com práticas autoritárias . Embora as eleições e outras estruturas formais da democracia ainda persistam, os desafios para sua preservação e fortalecimento tornam-se cada vez mais urgentes (GONZÁLEZ & OLIVA, 2025). Isso demonstra que a resiliência democrática  deve ser compreendida não apenas como resistência, mas como capacidade de regeneração  diante de ameaças difusas e persistentes. A resiliência, portanto, é fundamental para que um sistema democrático não seja derrotado por choques inesperados e multifacetados, nem veja seus pilares enfraquecidos. Editorial do Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme Fontes Diccionario de la lengua española , 23.ª ed., [versión 23.8 en línea]. < https://dle.rae.es > [22/04/2025].   BERTHIN, G. Sobre la resiliencia democrática. Democratic Governance. 2022.   BRAVO, S. El efecto Capitolio llegó a Brasilia. Diagonales.com . 2023   FERRAJOLI, L. (2003). Sobre la definición de" democracia": Una discusión con Michelangelo Bovero. Isonomía , (19), 227-241.   STUMPF GONZÁLEZ, R., & SOUSA OLIVA, D. (2025). La democracia en América Latina hoy: ¿Resistencia, resiliencia o retroceso?. Interconectando Saberes , (Dossier2), iii-x. https://doi.org/10.25009/is.v0iDossier2.2957   CONSEJO de Europa. (2002). Manual para la Educación en los Derechos Humanos con jóvenes. https://www.coe.int/es/web/compass/democracy

  • Cesta básica mais cara pesa na mesa do brasileiro

    Nos últimos meses, um grande vilão tem afetado a vida de milhões de brasileiros. Não se fala em outra coisa nas filas dos supermercados, padarias e açougues, senão sobre  o aumento substancial dos itens da cesta básica . A alta dos preços de itens básicos da cesta básica do brasileiro tem gerado desconforto e reclamações. (Foto: Pxhere) Itens como café, óleo, arroz, carnes e até mesmo os ovos estão entre os produtos que  sofreram aumentos sucessivos. Esses reajustes têm levado muitas pessoas a reduzir a quantidade de alimentos comprados para adequar os gastos ao orçamento, pressionando o poder de compra das famílias brasileiras. Essa situação tem gerado mau humor e sucessivas quedas na avaliação do governo Lula.  Apesar de vivermos em uma sociedade de livre mercado, onde o governo não dita o preço dos alimentos, há possibilidades de redução de impostos e diálogo com o mercado para amenizar os impactos no bolsos dos brasileiros. Patriotismo x Exportação A antiga propaganda de que o agro alimenta o Brasil parece estar começando a cair por terra, sobretudo pela priorização na exportação de alimentos em detrimento ao mercado interno, o que tem afetado o abastecimento nacional. Essas práticas do agronegócio demonstram que o patriotismo só existe até a página do dólar, com os produtores priorizando vendas para outros países e deixando o mercado interno desabastecido, aumentando significativamente os preços dos alimentos, como está ocorrendo em nosso país.  Além disso, circulam nas redes sociais vídeos de produtores descartando alimentos porque os preços estavam muito baixos. Diante dessa situação, um grupo de deputados do PSOL protocolou um projeto de lei que visa à punição  daqueles que descartarem alimentos com intuito de manipular os preços. Projeto protocolado pelo PSOL visa impedir descarte de alimentos (Foto: Agência Senado) Diversos fatores explicam o aumento nos preços dos alimentos, segundo publicação divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), dentre eles estão as mudanças climáticas - provocadas pela ganância do homem - e a mudança nas culturas agrícolas. O  agronegócio tem priorizado a plantação de milho e soja com foco na exportação, em detrimento do abastecimento do mercado interno. Além disso, a alta demanda por alimentos, segundo especialistas, foi intensificada por programas de combate à fome, como o Bolsa Família. A redução da produção agrícola também contribui para a inflação. Ainda de acordo com o estudo, a área de cultivo agrícola aumentou de 65 milhões de hectares em 2010 para 96,3 milhões de hectares em 2023. No entanto, não há motivos para comemorar, uma vez que é devido ao plantio de soja e milho, que beneficia principalmente a exportação e aumenta a monocultura no uso do solo. Redução dos preços Nas últimas semanas, após o clamor popular, o governo federal resolveu agir, mesmo que de maneira tardia, cortando impostos de diversos itens da cesta básica. Espera-se que essas ações impactem e reduzam os preços dos alimentos, favorecendo principalmente as classes C, D e E, visando ao aumento de seu poder de compra, ao menos para os itens essenciais como os da cesta básica. Ao percorrer os  supermercados brasileiros, já é possível observar a diferença do preço de  alguns alimentos como o arroz, o feijão, o óleo, carnes e azeites, que começaram a apresentar uma leve quedas nos preços. Presidente Lula cortou alguns impostos para reduzir preço da cesta básica (Foto: PXhere) A sociedade também espera que os parlamentares trabalhem de fato para o povo brasileiro deixando de lado pautas partidárias e ideológicas, como por exemplo, a anistia para os golpistas que invadiram o Palácio do Planalto em uma tentativa frustrada de Golpe de Estado, no fatídico 8 de janeiro. A população brasileira está exausta diante da impunidade e das discussões que não promovem melhorias para aqueles que sustentam a maior carga tributária do país, mas continuam sendo os menos beneficiados por esses recursos. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 14 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão por: Eliane Gomes Edição por: Katiane Bispo FONTES https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-03/clima-e-foco-em-exportacao-explicam-alta-de-alimentos-no-longo-prazo https://revistaforum.com.br/brasil/2025/2/20/videos-chocantes-de-produtores-destruindo-alimentos-para-manter-preos-altos-causam-revolta-174466.html

  • Papa Francisco: O meu povo é pobre e eu sou um deles

    Papa Francisco deixa legado de fé e humildade (Foto: Franco Origlia) Essas palavras foram ditas pelo Papa Francisco mais de uma vez para explicar a opção de sua escolha de viver uma vida austera.  Ele sempre recomendou aos seus sacerdotes misericórdia, coragem apostólica e portas abertas  a todos e expressou que o pior que pode acontecer na Igreja “é o que De Lubac chama de mundanismo espiritual”, que significa “colocar-se no centro” . Ademais, o papa Francisco enfatizou a necessidade de justiça social . Através dela, convida o povo a retomar o catecismo, a redescobrir os dez mandamentos e as bem-aventuranças. É simples seguir a Cristo porque “se você segue a Cristo, você entende que desprezar a dignidade de uma pessoa é um pecado grave” . O Papa Francisco, de nacionalidade argentina, foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica, tornando-se o primeiro a escolher o nome Francisco . Admirador da literatura de Jorge Luis Borges, Leopoldo Marechal e Fiódor Dostoiévski, era também apaixonado por ópera. Reconhecido por seus dons intelectuais e com prestígio no Episcopado argentino, era considerado um moderado entre os prelados mais conservadores e a minoria “progressista”. Ele demonstrou grande humildade e compaixão ao lavar os pés de pacientes com HIV, compartilhar refeições com os pobres e criticar veementemente o capitalismo, o consumismo e a lógica da economia de mercado.  Sem dúvida, ele foi uma figura proeminente em todo o mundo e muito querido em sua diocese, que visitava frequentemente, utilizando até mesmo transportes públicos. O Papa nasceu na capital argentina, Buenos Aires, em 17 de dezembro de 1936, filho de imigrantes piemonteses. Seu pai, Mario, era contador e trabalhava na ferrovia, enquanto sua mãe, Regina Sivori, cuidava do lar e da educação dos cinco filhos. SUA HISTÓRIA Francisco tem um passado de vida fascinante, que combina formação acadêmica, vocação religiosa e um profundo compromisso com os mais necessitados.  Jorge Mario Bergoglio nasceu em Buenos Aires, e sua trajetória reflete humildade e dedicação - valores que, sem dúvida, marcaram sua figura icônica desde que assumiu o papado em março de 2013. Antes de se dedicar à vida religiosa, Jorge Mario Bergoglio demonstrou interesse pelo conhecimento prático.  Ainda jovem, obteve o diploma de técnico químico e trabalhou em um laboratório de controle de higiene alimentar , etapa pouco conhecida de sua vida, mas que evidencia sua versatilidade. No entanto, seu caminho sofreu uma reviravolta importante em 1953, quando, após rezar e confessar-se na paróquia de San José de Flores, sentiu o chamado à vocação sacerdotal.   Sua vocação religiosa o levou a ingressar na Companhia de Jesus , a ordem dos Jesuítas, em 1958 , aos 21 anos.  Concluiu seus estudos de humanidades no Chile e, em 1963, ao retornar à Argentina, formou-se em Filosofia  pelo Colégio San José, em San Miguel. Entre 1964 e 1965, foi professor de Literatura e Psicologia no Colégio da Imaculada, em Santa Fé, e, em 1966, lecionou as mesmas matérias no Colégio do Salvador, em Buenos Aires. De 1967 a 1970, estudou Teologia  no Colégio San José, onde obteve o bacharelado. Posteriormente, aprofundou sua formação acadêmica estudando Filosofia e Teologia no prestigiado Colégio Máximo de San Miguel,  em Buenos Aires. Essa trajetória evidencia sua sólida formação acadêmica, sua vontade de estudar e de se superar, características que o prepararam para ingressar na Companhia de Jesus, onde foi ordenado sacerdote em 1969. SEU INÍCIO NA ARGENTINA Em 13 de dezembro de 1969, Jorge Mario Bergoglio recebeu a ordenação sacerdotal pelas mãos do Arcebispo Ramón José Castellano. De 1970 a 1971, continuou sua formação na Companhia de Jesus em Alcalá de Henares, na Espanha,  e em 22 de abril de 1973 emitiu sua promessa perpétua, tornando-se um jesuíta de pleno direito. Ao retornar à Argentina, atuou como mestre de noviços  em Villa Barilari, San Miguel, e professor na Faculdade de Teologia, e consultor da província da Companhia de Jesus e reitor do Colégio. Em 31 de julho de 1973, foi eleito provincial dos Jesuítas da Argentina, cargo que ocupou por seis anos. Posteriormente, retomou o trabalho no meio universitário e, entre 1980 e 1986, foi novamente reitor da Escola de São José, além de pároco da igreja de São Miguel. Em março de 1986, mudou-se para a Alemanha para concluir sua tese de doutorado.  Após essa etapa, seus superiores o designaram ao Colégio do Salvador, em Buenos Aires, e posteriormente à igreja da Companhia, na cidade de Córdoba, onde atuou como diretor espiritual e confessor. Além disso, Jorge Mario Bergoglio foi chamado como colaborador próximo em Buenos Aires pelo Cardeal Antonio Quarracino. Em 20 de maio de 1992, João Paulo II nomeou-o bispo titular de Auca e auxiliar de Buenos Aires.  No dia 27 de junho, recebeu a ordenação episcopal do cardeal na catedral. Sua primeira entrevista como bispo foi a um pequeno jornal paroquial, o “Estrellita de Belén”. Logo após, foi nomeado vigário episcopal da área de Flores, além de assumir o cargo de vigário geral da arquidiocese. Assim, não foi surpresa que tenha sido promovido a arcebispo coadjutor de Buenos Aires. Nove meses após a morte do cardeal Quarracino, em 28 de fevereiro de 1998, Bergoglio o sucedeu como arcebispo primaz da Argentina.  Posteriormente, em 6 de novembro do mesmo ano, foi nomeado Ordinário dos fiéis de rito oriental residentes no país e que não possuíam Ordinário do próprio rito. Em outubro de 2001, Jorge Maio Bergoglio foi nomeado vice-relator geral da décima assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos,  dedicada ao ministério episcopal. Essa missão foi recebida de última hora, como substituto do cardeal Edward Michael Egan, arcebispo de Nova Iorque, cuja presença foi necessária em seu país devido aos ataques terroristas de 11 de setembro. Durante o Sínodo, destacou-se ao enfatizar o papel de “ser profeta da justiça” e “expressar um julgamento autêntico em matéria de fé e moral”. Enquanto isso, sua figura tornava-se cada vez mais popular na América Latina. Neste espírito, em 2002, recusou a nomeação para presidente da Conferência Episcopal Argentina. No entanto, três anos depois, foi eleito para o cargo e posteriormente reconfirmado para mais um mandato de três anos, em 2008. Em abril de 2005, participou do conclave que resultou na eleição de Bento XVI. Como arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio idealizou um projeto missionário centrado na comunhão e evangelização, com quatro objetivos principais: promover comunidades abertas e fraternas; incentivar o protagonismo de um laicato consciente; realizar a evangelização direcionada a cada habitante da cidade; e prestar assistência aos pobres e doentes.  O objetivo era claro: reevangelizar Buenos Aires , unindo sacerdotes e leigos para trabalharem juntos. Em 2009, lançou a campanha de solidariedade nacional em celebração ao bicentenário da independência do país: duzentas obras de caridade a serem realizadas  até 2016. Além disso, foi membro de diversas Congregações, como as para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para o Clero, para os Institutos de Vida Consagrada e para as Sociedades de Vida Apostólica. Também integrou o Pontifício Conselho para a Família e da Pontifícia Comissão para a América Latina. COMO CHEGOU AO VATICANO? Jorge Mario Bergoglio, foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica (Foto: Reprodução) Em 13 de março de 2013, após a renúncia do Papa Bento XVI,  Jorge Mario Bergoglio foi eleito o 266º Papa da Igreja Católica, tornando-se o primeiro papa latino-americano e o primeiro a escolher o nome Francisco.  A escolha desse nome não foi uma mera homenagem a São Francisco de Assis, o santo italiano do século XIII conhecido pelo seu amor aos pobres , sua simplicidade e respeito pela natureza. Este gesto simbolizou o tipo de papado que Francisco desejava encarnar : uma Igreja mais humilde e profundamente comprometida com as causas sociais. O PAPADO REVOLUCIONÁRIO DA CASA SANTA MARTA Sua chegada ao Vaticano teve um marco significativo, distinguindo-se por seu estilo simples e por seu foco em questões como a pobreza, o meio ambiente e a inclusão.  Um exemplo claro disso foi a encíclica social Laudato si' , fruto de sua participação em acordos internacionais.  Essa encíclica é um convite à reflexão sobre o cuidado do nosso planeta e de todos os seus habitantes. Além disso, Francisco ajudou a estabelecer um estilo diferente em relação aos seus antecessores, rompendo com diversas tradições papais.  Ele optou por viver na Casa Santa Marta , a residência do clero no Vaticano, em vez do Palácio Apostólico , reforçando seu compromisso com a simplicidade e a humildade. O aspecto revolucionário  do Papa Francisco ficou evidente quatro meses após sua eleição. Durante um voo de retorno de sua primeira viagem papal ao exterior, para o Brasil, ele afirmou: “Se alguém é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-lo?” Embora não tenha se afastado da doutrina da Igreja, que se opõe à homossexualidade, Francisco adotou um tom mais compassivo  em comparação aos seus antecessores, alguns dos quais até evitavam mencionar a palavra “gay”. O Papa Francisco também abordou questões que estavam sendo solicitadas por uma parte da sociedade. Até então, os bispos , considerados “príncipes da Igreja” e soberanos em suas dioceses, só podiam ser sancionados diretamente pelo papa.  No entanto, nenhum pontífice havia confrontado publicamente ou rebaixado bispos.  Apesar da remoção de cerca de 850 padres do sacerdócio por abuso sexual e da punição de mais 2500 padres, não existia um mecanismo semelhante para responsabilizar os bispos. Francisco aprovou a criação de um tribunal para julgar bispos acusados ​​de encobrir ou negligenciar casos de abuso sexual de crianças por parte de padres.  Essa decisão, inquestionavelmente, respondeu às demandas das vítimas e marcou um momento chave desde sua chegada ao Vaticano. Outra das decisões do Papa Francisco que impactaram profundamente a vida espiritual dos fiéis foram suas declarações sobre o matrimônio e o divórcio. No site oficial da Santa Sé, são publicados fragmentos da Sagrada Escritura acompanhados das reflexões do Papa. A esse respeito, Francisco citou passagens do Evangelho, afirmando que “o ensinamento de Jesus é muito claro e defende a dignidade do matrimônio como união de amor que implica fidelidade. O que permite aos cônjuges permanecerem unidos no matrimônio é um amor de doação recíproca , sustentado pela graça de Cristo”. Ele também destacou que “o homem e a mulher, chamados a viver a experiência da relação e do amor, podem fazer gestos dolorosos que a colocam em crise. (...) O modo de agir do próprio Deus com o seu povo infiel – isto é, conosco – ensina-nos que o amor ferido pode ser curado por Deus através da misericórdia e do perdão” . Neste sentido, o Papa recordou que os filhos necessitam dessa unidade familiar de “pai e mãe juntos”, enfatizando que “os filhos sofrem muito quando essa unidade é quebrada. Quanto sofrem os filhos de pais que se separam” . De fato, o Papa Francisco destaca que a unidade no matrimónio não é “fácil de alcançar”, especialmente no mundo de hoje. Contudo, ele enfatiza: “Esta é a verdade das coisas tal como o Criador as concebeu e, portanto, está na sua natureza” QUAL É O SEU LEGADO? O legado de Francisco pode ser observado nas encíclicas  que escreveu, em suas decisões consideradas revolucionárias por alguns e nas duas reformas  que solicitou recentemente. Em relação às encíclicas, a primeira , Lumen Fidei , foi escrita em parte por seu antecessor, o Papa Bento XVI. Em 2015, Francisco publicou Laudato si` , que aborda questões de ecologia, e, em 2020, lançou Fratelli tutti , focada na fraternidade universal. Recentemente, com a saúde cada vez mais comprometida e buscando fortalecer as estruturas que garantiriam a continuidade de suas reformas mesmo após a sua partida, o Papa Francisco deu prioridade à consolidação  dessas mudanças. Um exemplo foi a nomeação de figuras-chave, como a Irmã Raffaella Petrini, que se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de governadora da Cidade do Vaticano,  marcando um passo significativo no processo de modernização da Igreja no século XXI. Outra medida importante foi a prorrogação do mandato do Cardeal Giovanni Battista Re , de 91 anos, como Decano do Colégio Cardinalício, assim como a continuidade de seu vice, o cardeal argentino Leonardo Sandri , de 81 anos, nomeado por Francisco no início de fevereiro. Estas decisões, tomadas pelo Papa sem a intervenção dos cardeais  na escolha de um novo decano, tiveram implicações políticas de grande impacto. CONSIDERAÇÃO FINAL Ao longo de seu papado, Francisco buscou modernizar a Igreja Católica.  Desde sua chegada ao Vaticano promoveu uma abordagem mais inclusiva , abordando questões como a participação das mulheres em cargos de liderança  na Igreja, o reconhecimento da comunidade LGBTQIA+ , e a decisão de viver uma vida mais austera.  Ele também destacou a importância da justiça social, com foco na pobreza, no meio ambiente e na inclusão, além de enfatizar a urgência de cuidar do planeta e de todos os seus habitantes.  Essas ações refletiram sua vontade de promover mudanças através da reflexão. Suas ideias e gestos, como o Culto solo para orar pelas pessoas afetadas pelo coronavírus , conquistaram tanto seguidores quanto detratores ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, enfrentou oposição constante de setores conservadores.  Contudo, como ele mesmo expressou certa vez: “A oração e o serviço silencioso são nossas armas vencedoras”. Editorial Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G Fontes https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2020-03/homilia-urbi-et-orbi-papa-francisco-suplica-dios-coronavirus.html https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2021-03/pandemia-papa-francisco-oracion-por-humanidad-27-marzo-2020.html   https://elpais.com/sociedad/2020-03-27/el-papa-bendice-al-mundo-por-el-coronavirus-en-una-plaza-de-san-pedro-totalmente-vacia.html   https://caras.perfil.com/noticias/celebridades/donde-estudio-el-papa-francisco-y-como-llego-a-obtener-su-lugar-en-el-mundo-eclesiastico.phtml https://www.vatican.va/content/francesco/es/biography/documents/papa-francesco-biografia-bergoglio.html https://www.cronista.com/espana/actualidad-es/cual-es-el-verdadero-nombre-del-papa-francisco-la-vida-desconocida-del-sumo-pontifice-antes-de-ser-elegido-como-el-jefe-de-la-iglesia-catolica/ https://www.nytimes.com/interactive/2015/07/06/universal/es/papa-francisco-iglesia-catolica-vaticano.html https://www.perfil.com/noticias/internacional/preocupado-por-su-salud-el-papa-francisco-tomo-medidas-para-proteger-su-legado.phtml https://www.vatican.va/content/francesco/es/apost_letters.html https://www.centrodelapostoladocatolico.org/portal-del-papa-francisco.html https://www.oas.org/es/sg/casacomun/docs/papa-francesco-enciclica-laudato-si-sp.pdf https://buenosaires.gob.ar/biografiapapafrancisco https://archatl.com/es/vida-catolica/papa-francisco/ https://www.nationalgeographicla.com/historia/2025/02/papa-francisco-un-recorrido-por-la-vida-del-lider-religioso-a-traves-6-datos https://jesuitasaru.org/biografia-papa-francisco/ https://www.cronista.com/espana/actualidad-es/el-papa-francisco-se-pronuncio-sobre-el-matrimonio-y-el-divorcio-y-afirmo-a-los-catolicos-que-la-respuesta-de-dios-es/ https://www.nytimes.com/2015/06/11/universal/es/el-papa-crea-tribunal-para-juzgar-a-obispos-en-casos-de-abuso-sexual.html https://www.nytimes.com/2015/01/25/universal/es/catolicos-divorciados-buscan-aceptacion-mientras-el-vaticano-revisa-postura.html https://www.vatican.va/content/francesco/es/homilies/2020/documents/papa-francesco_20200327_omelia-epidemia.html

  • "Flores para Algernon", de Daniel Keyes.

    Capa do livro Sinopse Publicado originalmente em 1966, Flores para Algernon  foi o grande expoente da carreira do escritor, ganhador do prêmio Nebula  e inspiração para o filme Os Dois Mundos de Charly (1968)  - que garantiu a Cliff Robertson  o Oscar de Melhor Ator. E com mais de 5 milhões de exemplares vendidos e referência dentro das escolas dos Estados Unidos, a obra surgiu sobre as palavras de um homem de 32 anos e 68 de QI: Charlie Gordon. Com excesso de erros no início do romance, os relatos de Charlie revelam sua condição limitada, consequência de uma grave deficiência intelectual, que ao menos o mantém protegido dentro de um ''mundo'' particular - indiferente às gozações dos colegas de trabalho e intocado por tragédias familiares. Porém, ao participar de uma cirurgia revolucionária que aumenta o seu QI , ele não apenas se torna mais inteligente que os próprios médicos que o operaram, como também vira testemunha de uma nova realidade: ácida, crua e problemática.   Se o conhecimento é uma benção, Daniel Keyes constroi um personagem complexo e intrigante, que questiona essa sorte e reflete sobre suas relações sociais e a própria existência . E tudo isso ao lado de Algernon, seu rato de estimação e a primeira cobaia bem-sucedida no processo cirúrgico. Perturbador e profundo, Flores para Algernon é tão contemporâneo quanto na época de sua primeira publicação, debatendo visões de mundo, relações interpessoais  e, claro, a percepção sobre nós mesmos . Assim, se você está preparado para explorar as realidades de Charlie Gordon, também é a chance para perguntar: afinal, o mundo que sempre percebemos a nossa volta realmente existe? Resenha O romance acompanha Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual que participa de um experimento científico para aumentar sua inteligência. O procedimento, que foi anteriormente realizado com sucesso em um rato chamado Algernon, é aplicado em Charlie e ele começa a desenvolver uma inteligência extraordinária. A história é narrada através de relatórios e diários escritos pelo próprio Charlie, permitindo ao leitor acompanhar sua transformação. No início, Charlie tem uma perspectiva inocente e simples da vida.  Conforme sua inteligência cresce, ele começa a compreender o mundo de forma mais complexa, e essa mudança impacta profundamente suas relações pessoais e seu sentido de identidade. Conforme Charlie se torna mais inteligente, ele começa a perceber as complexidades e os desafios da vida que antes não compreendia, especialmente no que diz respeito a como era tratado pelas pessoas ao seu redor.  No entanto, ele também descobre os limites do experimento e enfrenta o medo de perder tudo o que conquistou, à medida que a condição de Algernon começa a se deteriorar. A tragédia da história emerge quando o experimento revela suas limitações, e Charlie percebe que sua inteligência avançada pode ser temporária. Esse enredo provoca reflexões sobre ética científica, o valor das relações humanas e o impacto das mudanças internas e externas no indivíduo. A crueldade é um tema marcante no livro , especialmente na forma como Charlie é tratado antes e depois de sua transformação intelectual. Antes do experimento, muitos personagens zombam de Charlie , aproveitando-se de sua ingenuidade e falta de compreensão. Ele é frequentemente alvo de piadas cruéis no trabalho, onde seus colegas fingem ser seus amigos enquanto o ridicularizam pelas costas. Após o aumento de sua inteligência, a crueldade assume uma forma diferente. Alguns personagens, como o Dr. Nemur, tratam Charlie como um objeto de estudo, desconsiderando sua humanidade e emoções . Essa desumanização é dolorosa para Charlie, que começa a perceber o quanto foi usado e manipulado. O livro destaca como a crueldade pode ser tanto explícita quanto sutil , e como ela reflete preconceitos e falta de empatia . É uma crítica poderosa à forma como a sociedade trata aqueles que são diferentes ou vulneráveis. Relações do personagem principal com outros personagens A relação de Charlie com sua mãe, Rose, é um dos aspectos mais complexos e emocionantes da obra. Rose é retratada como uma mulher com dificuldades em aceitar a condição de Charlie, oscilando entre a superproteção e a rejeição.  Inicialmente, ela tenta fazer com que Charlie seja "normal", buscando incessantemente maneiras de melhorar sua inteligência e tratando-o com severidade sempre que ele não atinge suas expectativas. Essa pressão constante  e a recusa de Rose em aceitar o filho como ele é criam traumas profundos em Charlie. Quando ele não atende às suas expectativas, ela eventualmente desiste dele, deslocando sua atenção para a irmã de Charlie, Norma, acabando por rejeitá-lo completamente. Após a transformação  de Charlie devido ao experimento, ele revisita sua relação com a mãe,  buscando confrontar os sentimentos de abandono  e entender o impacto que essa relação teve em sua vida. Essa busca por reconciliação revela a complexidade emocional de ambos os personagens e expõe temas como rejeição, perdão e as dificuldades de aceitar as diferenças. Já a relação de Charlie com o pai, Matt, contrasta significativamente com a dinâmica que ele tem com sua mãe. Matt é retratado como alguém mais compreensivo e protetor em relação ao filho , embora incapaz de enfrentar as pressões de Rose e os desafios trazidos pela condição de Charlie. Matt, em muitos momentos, atua como uma figura que tenta aliviar o impacto da severidade de Rose, mas sua passividade  o impede de ser uma fonte consistente de apoio. A ligação entre Charlie e sua professora, Alice Kinnian,  é uma peça central de Flores para Algernon, rica em complexidade emocional e crescimento pessoal. Alice, que ensina em uma escola para adultos com dificuldades de aprendizado, inicialmente é a mentora de Charlie e desempenha um papel crucial em sua decisão de participar do experimento.  Ela é uma das poucas pessoas que realmente veem Charlie como indivíduo, valorizando sua bondade e seu entusiasmo genuíno. A conexão de Charlie com a padaria onde trabalha antes do experimento é uma das partes mais emblemáticas de sua história em Flores para Algernon. A padaria, no início, representa um lugar de pertencimento  para Charlie, mesmo que o ambiente esteja permeado por crueldade disfarçada de "brincadeiras". Seus colegas frequentemente zombam de sua ingenuidade e o colocam em situações embaraçosas , que Charlie, na sua inocência, interpreta como sinais de amizade. Após o experimento e o aumento de sua inteligência, Charlie começa a perceber a verdadeira natureza das interações no local de trabalho. Ele se dá conta de que muitas das pessoas que ele considerava amigas na verdade o exploravam e o ridicularizavam . Essa nova consciência provoca uma ruptura emocional e faz com que ele se afaste da padaria e dos colegas. A relação de Charlie com a universidade, especialmente com os pesquisadores e o ambiente acadêmico, é central para sua transformação intelectual em Flores para Algernon. Antes do experimento, a universidade simboliza um espaço inacessível para Charlie —um lugar de pessoas altamente educadas que ele admira mas não consegue compreender completamente. Para Charlie, a universidade e seus profissionais representam esperança e autoridade, já que são os responsáveis por sua oportunidade de se tornar mais inteligente. Após sua transformação, Charlie começa a interagir diretamente com o meio acadêmico, participando de discussões intelectuais e realizando pesquisas por conta própria.  Inicialmente, ele se sente realizado ao se integrar nesse ambiente que antes parecia distante. No entanto, com o tempo, Charlie percebe as limitações éticas   e pessoais  dos que estão à sua volta, incluindo os cientistas que conduziram o experimento. Ele também começa a desafiar as ideias dos pesquisadores, como o Dr. Nemur e o Dr. Strauss, expondo suas falhas e questionando os motivos por trás de suas ações. Apesar de Charlie alcançar uma capacidade intelectual extraordinária, ele enfrenta uma sensação de isolamento,  pois sua inteligência superior o afasta das pessoas comuns e, paradoxalmente, também o desconecta dos próprios pesquisadores. A visão de Charlie em relação à universidade evolui de admiração para um misto de crítica e aceitação da complexidade humana, alinhando-se aos temas maiores do livro, como ética científica, solidão e o impacto da evolução pessoal. Enfim, o livro destaca temas como aceitação, dignidade e o valor de momentos compartilhados, mesmo que transitórios. É um livro triste, mas que vale a pena a leitura, pois nos faz refletir sobre como realmente tratamos as pessoas que são diferentes, mas são seres humanos como nós! Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão: Eliézer Fernandes Edição: João Guilherme V.G.

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