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De “irresponsáveis” a “cringe”: o que aconteceu com os Millennials?

Atualizado: 9 de abr.

Este artigo integra o Dossiê: Gerações do Pós-Guerra (Parte II)

Começo o texto pedindo a licença que me cabe! Falar dessa geração é mais do que uma mera revisão histórica geracional, é quase um relato pessoal. Eis aqui uma colunista nascida na década de 1990 e pertencente a injustiçada Geração Y, ou como é conhecida, os “Millennials” (1981 – 1995).


Foto: Pexels
Foto: Pexels

Atualmente somos a maior população economicamente ativa no Brasil e no mundo, por isso, ganhamos mais notoriedade atualmente e podemos ditar algumas “tendências”.


Porém, se por um lado podemos ver como algo positivo, de outro somos uma das gerações mais criticadas. Não somos visados apenas pelas gerações que vieram antes de nós, mas também pelas mais novas. Se para os Baby Boomers e Geração X somos irresponsáveis e desinteressados, para as posteriores Gerações, Z e Alpha, somos cringe, nome usado para descrever alguém como fora de moda, algo como “vergonha alheia” em uma expressão que os Millennials vão reconhecer.


Geração Millennials: Quem são? De onde vem? Para onde vão?


É preciso repensar esses rótulos, pois falar de uma geração sem fazer um recorte histórico é injusto e leviano. Como falei no meu artigo anterior, nada é estático e imutável, pois estamos em constantes mudanças históricas, econômicas e sociais.


Os Millennials foram criados, em sua grande maioria, por pessoas que não imaginavam o quanto a tecnologia poderia transformar e revolucionar a humanidade. A Geração Millennials era adolescente ou criança quando a internet foi aos poucos, ganhando mais espaço nos lares e empresas.


A grande contradição disso é que nós, pertencentes a essa geração, fomos ensinados a buscar estabilidade justamente em um cenário que já dava indícios de muitas instabilidades, não só no Brasil, com o fim da Ditadura Militar e a inflação galopante, mas também no restante do mundo, que vivia os suspiros finais da Guerra Fria e inúmeros conflitos geopolíticos.


Enquanto nossos pais e avós, que são oriundos de outras gerações, nos ensinaram que estabilidade e muito estudo eram ingredientes na receita da “vida perfeita”, fora de casa vimos uma realidade bem diferente em que o mundo não dá mais garantia alguma de estabilidade empregatícia.


Tivemos como cenário algo que destoa completamente: o aumento da precarização e pejotização (Termo usado para trabalhadores no modelo Pessoa Jurídica) da força de trabalho. Assistimos a frequentes demissões em massa, crescentes exigências para nos manter produtivos, competitivos e com salários razoáveis, o que gera um abismo ainda maior entre as classes sociais. Consequentemente, somos a geração que mais acumula empregos para complementar a renda.


Reprodução: Healthline
Reprodução: Healthline

Estudo realizado pelo Serasa neste ano de 2023, mostrou que os Millennials são os mais endividados. Segundo Patrícia Camillo, Gerente do Serasa: “é a faixa etária em que o jovem conquista a independência. Então, há uma necessidade diferente, como a de adquirir moradia e todas as outras contas que vem com isso”. As principais dívidas dos Millennials estão no cartão de crédito (33,17%) e em gastos como gás, água e energia elétrica (15,84%), que somados representam quase 50% da sua renda.


Essa preocupação com custos básicos para sobrevivência reflete em inúmeras inseguranças quanto ao futuro. De acordo com a nova edição da pesquisa global “Gen Z and Millennial Survey”, elaborada pela Deloitte, foram entrevistadas pessoas de 44 países, incluindo 500 da geração Z e 300 Millennials do Brasil, foi encontrado o cenário:

“No topo das cinco principais preocupações para a geração Z brasileira, temos em terceiro lugar a discriminação e falta de equidade (30%) e isso não compõe o ranking global (...) Já no topo do ranking aparecem desemprego e custo de vida, que tanto afetam o Brasil.”

Habla, Millennials!


Nossa geração fala mais abertamente sobre saúde mental e temos menos tabus em falar de temas antes escondidos, tais como ansiedade e depressão. Nossa necessidade de querer estar atualizado o tempo todo e sermos “multitarefas" nos faz ficar horas a fio em redes sociais e sujeitos a constantes notificações. Por isso, a saúde mental costuma ser um assunto recorrente nas rodas de conversas dos Millennials.


Foto: Pxhere
Foto: Pxhere

Contrário ao rótulo de "desinteressados”, temos como característica questionar as coisas e por vezes sermos também imediatistas nestas mudanças. Somos abertos a inovação e a liberdade. Rompemos com alguns comportamentos das gerações anteriores, sobretudo quanto a costumes. Abraçamos pautas ligadas a direitos civis e coletivos, como enfrentamento ao racismo, apoio as causas feministas, sustentabilidade e na defesa da comunidade LGBTQIAPN+.


Somos uma das gerações que mais questiona as hegemonias religiosas, ao contrário do que disse George Barma, coordenador do Centro de Pesquisa Cultural da Arizona Christian University, relata em sua pesquisa: “Novos Insights sobre a Geração de Influência Crescente: Millennials na América”, onde o autor alega que somos uma geração que sofre de analfabetismo espiritual.


E não para por aí! Barma afirma que “o caos moral que caracteriza a geração também pode ser atribuído a uma falta de instrução religiosa coerente e pragmática”. Talvez o autor não saiba, ou não queira saber, que a sociedade que herdamos não é satisfatória para nossa geração. Esse apego desesperado ao status quo, é uma tentativa de manter a desigualdade e violência estruturais, que marginaliza populações minoritárias. É característica da Geração Millennials o desapego a esses ideais e a crescente desconfiança em líderes religiosos.


O que era ‘comum’ já não é mais…


A casa própria virou um “sonho distante", graças aos preços dos imóveis e a inflação, o que agravou ainda mais um cenário já desanimador. A pandemia de COVID-19 também foi um grande marco de ruptura. Além disso, enfrentamos inúmeras crises econômicas e as frequentes demissões em massa, que a nossa geração tem enfrentando.

Diferente dos nossos pais e avós, não priorizamos a estabilidade e sim o reconhecimento, embora a estabilidade não seja algo que não almejamos. Não queremos casar e ter filhos cedo, como fomos ensinados. Muitos de nós queremos explorar novos rumos antes dos “marcos da vida adulta”.


Outra característica é que estamos morando mais tempo com nossos pais, o que é usado como exemplo pelas gerações anteriores como “preguiça e acomodação”. Porém, diferente do que muitos pensam, tem pouco a ver com conforto essa “saída do ninho”. Ela está mais relacionada ao sentimento de inaptidão e frustração. Isso é expressado por uma das entrevistadas da Deloitte:

“O custo de vida está cada vez mais alto. Tenho preocupações de não conseguir pagar minhas contas e não dar aos meus filhos a educação e a vida que eles merecem”.

E agora, Millennials?


Esta colunista, naturalmente Millennials, tentou mostrar neste artigo que estamos cada vez mais exaustos, ansiosos e endividados. Mas também conseguimos romper estruturas rígidas e dar visibilidade a temas antes esquecidos ou escondidos.


Se a Geração X começou a questionar alguns padrões, a Geração Y veio ainda mais disposta a abrir espaços mais inclusivos. As cobranças excessivas das redes sociais, da família e da sociedade, nos fazem reviver as nossas cobranças de que não vivemos a vida que sonhamos e almejamos. Não há nada de errado com os Millennials, as expectativas criadas pelas gerações anteriores eram altas demais e precisamos repensar se realmente devem ser alcançadas. Somos apenas uma geração que quer seguir um caminho diferente e o custo disso não tem sido baixo. Sigamos, Millennials!



Texto escrito por Katiane Bispo

É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista


Revisão por Felipe Bonsanto

Edição por Eliézer Fernandes

 

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