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Robocop: O mercado de trabalho e o profissional 4.0

Uma cidade corrompida pela violência e pelo crime, um agente da lei idealista assassinado brutalmente por um poder paralelo, uma grande companhia buscando alavancar seus lucros a todo custo e um xerife fantoche de armadura reluzente formam uma sátira brutal atemporal.


Pôster filme Robocop
Pôster filme Robocop


Muito além de um Blockbuster


Talvez alguns já desconfiem do enredo de Robocop, aquela obra com título bobinho, trama típica de filme B, dos anos 80, e que muitos podem considerar desnecessariamente violento e com efeitos ultrapassados.


Um momento de pausa, não é só isso! Esta é uma obra épica do feroz e inovador diretor holandês Paul Verhoeven.


Buscando um olhar mais crítico no roteiro e na montagem idealizada por Verhoeven, notamos uma obra com várias camadas por baixo do tiroteio: temas de morte e ressureição, decadência de indústrias, cobiça empresarial, uso de publicidade, noticiários e programas de TV nos quais a informação é filtrada e reembalada.




Além disso, há a automação e o uso de inteligência artificial (IA), como a bala de prata para resolver problemas complexos, que podem impactar na sociedade de forma profunda, inclusive nas cadeias produtivas e nos empregos.


Em relação ao elenco, direção e roteiro, o filme foi estrelado pelo elenco feito por Peter Weller como Alex Murphy/Robocop, Nancy Allen como a parceira policial Anne Lewis e Kurtwood Smith como o vilão Clarence Boddicker e a direção de Paul Verhoeven.


O roteiro é assinado por Edward Neumeier, que contextualizou o ambiente num mundo futuro controlado por corporações indiferentes, repetindo Alien, o Oitavo passageiro e Aliens, o Resgate.


Entretanto, a história vai um passo além quando a companhia OCP se torna propriedade do policial Alex Murphy após a sua morte, tomando um corpo despedaçado e sua mente unindo a peças robóticas e uma tecnologia de IA de última geração, resultando, assim, num objeto desumanizado e que atende as diretivas e interesses corporativos.


As máquinas e o mercado de trabalho


Usando esta alegoria como âncora, podemos contextualizar em nossa realidade que o aprendizado de máquina, tecnologias de inteligência artificial, robotização e automação afetam e continuarão afetando todas as modalidades de trabalho num futuro próximo.


Mediante o constante debate da Revolução Industrial 4.0 é costumeiro ressaltar visões antagônicas, de um lado uma visão pessimista a qual garante que milhões de posições de trabalho serão economicamente redundantes e possivelmente eliminadas e, de outro lado, um entendimento de progresso continuado, o qual prega que mesmo a longo prazo a automação e as inteligências sintéticas continuarão a gerar novos empregos e prosperidade para a sociedade como um todo.


Vale ressaltarmos que os humanos possuem dois tipos de habilidades: física e cognitiva. Por meio disso, é notório observarmos nos últimos séculos que as máquinas competem fortemente com suas habilidades físicas.

No entanto, em relação àquilo que envolve esforço cognitivo, os humanos se mantêm a frente.


Sendo assim, a automação de trabalhos manuais, repetitivos e mais brutos foi amplamente disseminada e incentivada pela sociedade. Os esforços humanos direcionaram-se para o setor de serviços que requeriam habilidades cognitivas inerentes aos humanos: aprender, analisar, inferir, correlacionar, comunicar e acima de tudo compreender as emoções humanas e os vieses culturais.

Robocop – o profissional do futuro


É notório ressaltarmos que o aprendizado de máquina e os diferentes tipos de inteligências artificiais estão evoluindo fortemente em superar os humanos em um número cada vez maior de habilidades, inclusive de compreender as próprias emoções humanas.


Um ponto nevrálgico nesta compreensão é que a revolução da IA não reside apenas em expandir as capacidades de processamento, armazenamento e velocidade dos computadores. Esse processo se apoia nos avanços das ciências gerais, inclusive as ciências sociais.


Quanto mais compreendermos os mecanismos bioquímicos que sustentam as emoções, desejos e escolhas humanas, melhores tornamos os computadores na análise dos comportamentos, decisões e potenciais efeitos psicológicos dos humanos.

Outro ingrediente importante para esse caldeirão é refletir sobre até que ponto o aprendizado de máquina bebe de fontes de dados confiáveis, ilibados e sem vieses de interesses de grupos econômicos, políticos ou ideológicos. Ao longo dos séculos os ativos mais importantes passaram por terras, indústrias e hoje são os dados. Quem detém o controle de dados, detém o poder.


Atualmente vemos as famosas big techs (empresas como Google, Facebook, Apple, Amazon e Microsoft) como detentoras de massas de dados, além é claro dos governos dos mais variados matizes ideológicos.




Por isso, a ameaça de perda de emprego não resulta apenas da ascensão da tecnologia da informação, mas de sua confluência com a biotecnologia e aplicação de modelos de dados confiáveis, de modo que torna as inteligências sintéticas adaptáveis e mais amigáveis a humanidade. Afinal, o que deveríamos proteger são os humanos e não os empregos.

Forte no tom e ainda hoje brutal, Robocop de 1987 continua sendo uma das grandes histórias sobre os encaixes irregulares entre humanidade, capitalismo e tecnologia.


Detalhes do filme:


Texto escrito por Gustavo Longo

Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos.

 

Referências:


HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21. 1 ed. [s.l.]: Companhia das Letras, 2018.

LAMBIE, Ryan. O guia geek de cinema. 1 ed. [s.l.]: Seoman, 2020.

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