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  • As Ilhas Malvinas através da arte argentina

    Embora com o passar dos anos a memória do que se viveu na guerra ainda perdure, pensar na causa das Malvinas não é só mergulhar no que aconteceu durante a guerra, mas é analisar o que veio depois, fazendo surgir uma nova luta dentro de cada um dos argentinos. É levar também em consideração o trabalho feito pelos artistas que tentaram contar o que aconteceu e, ao mesmo tempo, contribuir em manter viva na memória dos argentinos a luta pela soberania. Ilustração: Getty Images No que concerne a Malvinas, existem tantos olhares delas como protagonistas dessa guerra. Por meio disso, há diferentes perspectivas que ajudam a reconstruir, a refletir sobre os erros e acertos da história, aquela que reitera a justa reivindicação de soberania que a Argentina vem fazendo desde 1833. Nesse sentido, Malvinas simboliza a defesa da soberania e ao mesmo tempo uma guerra dirigida pela ditadura civil-militar. Portanto, pensar Malvinas supõe que a sociedade argentina debate e reflete sobre os ferimentos que a guerra os deixou. Danos que continuam doendo e que muitos tentaram (e ainda tentam) enterrar no esquecimento. Mas tal esquecimento não foi possível, graças a inúmeras produções dos artigos científicos, artigos de opinião, bem como as obras de arte, fotografia, teatro, cinema, literatura, entre outros. As histórias não contadas: o silêncio que grita em memórias O dia 2 de abril é o Dia do Veterano e dos Caídos (mortos) na Guerra das Malvinas para homenagear os ex-combatentes e reivindicar a soberania do território das Ilhas Malvinas. Imagem: AP Photo – C. Beattie Um exemplo é a novela "Las Islas" de Carlos Gamero, publicada em 1998, que foi um dos escritos mais complexos, devido à profundidade do relato da pós-guerra e do que significou para os ex-combatentes: "Deixamos um espaço preciso quando saímos, mas ali mudamos de forma e quando voltamos não nos encaixávamos mais, por mais que nós déssemos voltas no quebra-cabeça. Voltamos dez mil iluminados, loucos, profetas, malditos, e lá vamos nós, soltos pelos quatro cantos do país, falando uma língua que ninguém entende, fingindo trabalhar, jogar futebol, foder, mas nunca completamente em algum lugar, sempre sabendo disso, algo de nosso valor e indefinível foi enterrado ali. Nos sonhos, pelo menos, todos nós voltamos para procurá-lo. Você entende? Não é o criminoso que volta ao local do crime. Ele é a vítima, baixo a esperança tirânica de mudar aquele resultado injusto que a prejudicou. Vá perguntar aos ingleses. Quantos você acha que querem voltar? Somos nós, os perdedores, os esfarrapados, os que gritam. Voltaremos toda vez que alguém quiser ouvir. O que pode interessar a revanche ao vencedor? O inferno nos marcou de tal forma que acreditamos que ao voltar faremos dele o paraíso e a noite acordamos chamando os demônios de papai que enfiam arpões em nós rindo. Sabe por que dez anos depois continuamos a nos disfarçar dessa forma, nos reunindo para organizar expedições impossíveis, reconstruindo os segundos de cada um daqueles dias que seria melhor esquecer? Estamos infectados, entende? Carregamos no sangue e vamos morrendo aos poucos, como o chagásico (doente da Doença de Chagas). Você não viu que eles são iguais os pólipos? A cada ano que passa eles se espalham um pouco mais, como aquelas manchas na parede. Trauma de guerra não é tão fácil. Estamos apaixonados até o âmago e os odiamos. Fetichistas, adoramos uma foto, uma silhueta e uma bota velha. Não é verdade que houve sobreviventes. No coração de cada um há dois pedaços arrancados e cada mordida tem o formato exato das ilhas" (tradução própria). Por meio da novela, Gamero transmitiu versões da história, imagens e imaginações da guerra, mas também os imaginários a ela ligados. Mais do que um quebra-cabeça, “Las Islas” parece formar um caleidoscópio, no qual a história se mistura, combina e transforma. Alguns anos depois, o cantor "Ciro y los Persas" escreveu "Héroes de Malvinas" . Na canção , Ciro captou muito bem o cenário do momento e conseguiu colocar os combatentes no papel correto e indiscutível: o de heróis. "A indiferença do seu povo pode ser mais que a bala mais voraz do inimigo, haviam menos heróis mortos na frente do que no campo de batalha do esquecimento. E permanecerão eternas sentinelas sem alívio esperando que algum dia Sem sangue fluindo, o azul claro e o branco retornarão para incendiar aquelas terras argentinas. Eles sempre serão Heróis, eles sempre serão Heróis para sempre nossos Heróis das Malvinas" Uma manobra insensata para oxigenar um governo sufocado O que se pode ler nos diferentes artigos, canções, novela, relatos é a disparidade de forças e a afirmação de que a recuperação das Malvinas foi uma operação mal planejada e mal executada, decidida para dar um pouco de oxigênio a um governo agonizante do que para concretizar o desejo de unidade territorial ameaçada por um enclave colonial. Com homens sem preparo adequado, carentes de vestimentas e insumos essenciais para uma disputa em um clima tão hostil e em um território distante do continente, as possibilidades táticas de obter uma vitória eram baixíssimas. Puerto Stanley, capital de las islas Malvinas o Falkland - Imagem: Getty Images – D. Garcia Os militares de carreira careciam do treinamento necessário para uma operação dessa natureza, tendo por décadas sua principal ocupação desempenhada por supostas tarefas de inteligência contra o "inimigo interno", reprimindo os setores populares e participando ativamente da política como a mão dos golpistas. Estado que interrompeu governos democraticamente eleitos, com o consentimento dos setores econômicos e instituições que, como a Igreja, foram favorecidos por esta ação. Concluindo, pode-se dizer que a memória coletiva foi construída em torno da comemoração da guerra, chegando mesmo a colorir a reivindicação da soberania, que se encontra ligada ao reconhecimento dos mortos e sobreviventes do combate. A reivindicação da soberania sobre as ilhas é vista como uma homenagem a esse sacrifício e a sua demissão surge como uma traição à memória e ao empenho daqueles que lutaram pela pátria. Manter viva a memória é vital para entender o porquê as coisas aconteceram do jeito que aconteceram e, para isso, tem-se que transformar a derrota em ocasião de reflexão sincera sobre o passado. Compreender o passado ajuda no entendimento e não repetição dos mesmos fatos no futuro. Uma sociedade nunca será justa se não tiver memória, e essa é uma batalha que exige trabalho diário. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Revisão textual realizada por Mateus Santana Mestre em Linguística e graduado em Letras com habilitação em português/francês pela UNESP. Especialista em Grafologia e Neuroescrita pela Faculdade Unyleya. Amante das Artes, da Linguagem e do Discurso Edição e arte por Katiane Bispo Formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas. Integrante do Projeto Líbertas Brasil e é podcaster no programa "O Historiante". Bibliografia González, A. S., Manduca, R., & Perera, V. (2019). (Re) Pensar Malvinas: visualidades, representaciones y derechos humanos. Nuevo Mundo Mundos Nuevos. Nouveaux mondes mondes nouveaux-Novo Mundo Mundos Novos-New world New worlds. Esteban, E. (2018). Pensar Malvinas. Maíz . Belvedresi, R. E. (2022). Malvinas: el dolor y la memoria. Anales de la Educación Común , 3 (1-2), 123-132. Segade, M. L. (2015). Malvinas: Una representación inconclusa. En torno a La forma exacta de las islas. Corte, M., & Mallades, J. (2015). El Museo Malvinas pensando la voz del Estado a partir del análisis de un lugar de memoria. Revista HACHE , (2), 8-23. Segade, M. L. (2015). Malvinas: Una representación inconclusa. En torno a La forma exacta de las islas. Ciro y Los Persas. (2012). Héroes de Malvinas [canción]. En 27 . 300.

  • Escravidão contemporânea: a coisificação de pessoas ao longo de um dia que não acaba

    "O 14 de maio de 1888 apresenta-se como o dia mais longo da história do Brasil." A frase do professor Hélio Santos é uma crítica ao período seguinte à Lei Áurea, que sancionou formalmente o fim de 354 anos de escravidão no país, para muitos a mais duradoura do mundo . A abolição assinada pela princesa Isabel não foi sucedida por políticas públicas integrativas que visassem à eliminação progressiva de violações dos direitos humanos e de desigualdades socioeconômicas, as quais se consolidaram como aspectos constitutivos da sociedade brasileira e, de maneira estrutural, relegam parte importante da população, ainda hoje, ao estado de coisa. Os casos recentes de escravidão contemporânea, nas vinícolas de Bento Gonçalves/RS e na montagem do festival Lollapalooza em São Paulo/SP, revelam que a ausência de salvaguardas capazes de regular relações de trabalho equânimes e de garantir cidadania efetiva para todas as pessoas faz com que o 14 de maio de 1888 possa ser entendido como " o dia que não acabou ". A constituição da sociedade e da economia ocorreu de maneira bastante heterogênea no Brasil. O modelo colonial, baseado na grande propriedade e no regime escravista, gerou cisões que fragmentaram o país racial e socialmente, bem como geográfica e economicamente. O acesso restrito à cidadania e a instâncias de poder político, condicionado por critérios de renda e de letramento , gerou discrepâncias em meio a uma população composta, primordialmente, por pessoas pobres, analfabetas, pretas e mestiças, distribuídas pelo vasto território. Havia certa esperança de que a extensão da educação, a participação política em massa e a ampliação de oportunidades econômicas fossem prioridades após a Lei Áurea. Não obstante, como constatou o sociólogo Florestan Fernandes, a preocupação com o destino do indivíduo escravizado existiu enquanto se ligou a ele o futuro da economia brasileira. Com a Abolição pura e simples e com a transição em curso para o regime de trabalho livre, a atenção dos senhores se volta para seus próprios interesses diante do desafio de inserção do Brasil em uma nova ordem econômica internacional. Por conseguinte, a posição da pessoa liberta no sistema de trabalho, assim como sua integração à dinâmica social, deixa de ser matéria política, perpetuando, portanto, a reprodução do ciclo de coisificação de seres humanos por meio da escravização. A Escravidão Contemporânea Na legislação nacional, o artigo 149 do Código Penal estabelece que trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes e restrição de locomoção, seja por dívida contraída, por vigilância ostensiva, por apreensão de documentos ou objetos pessoais, bem como por cerceamento do uso de meio de transporte, são elementos que configuram, contemporaneamente, a escravidão. No âmbito internacional, o Estado brasileiro se comprometeu com o combate à prática de coisificar pessoas quando tomou parte em diversos dispositivos, como a Convenção das Nações Unidas sobre Escravatura de 1926, o Pacto de São José da Costa Rica de 1969, as resoluções 29 e 105 da Organização Internacional do Trabalho, entre outros. Além disso, o Brasil é signatário de compromissos, como, por exemplo, a Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano de 1972, que celebram o direito à livre escolha de emprego, a condições justas e a modo de vida satisfatório em ambiente que conceda ao indivíduo dignidade e bem-estar. Apesar de a consolidação do conceito de trabalho escravo contemporâneo no ordenamento jurídico brasileiro representar fundamental avanço na luta contra essa forma de exploração, estatísticas indicam crescimento na ocorrência de casos. Apenas no ano passado, 2.575 pessoas foram resgatadas de relações laborais análogas à escravidão em 23 das 27 unidades federativas pelo país. Um aumento de 31% no número de vítimas em relação a 2021. Conforme os dados do Ministério do Trabalho e Emprego, isso perfaz um total de 60.251 trabalhadores libertados desse contexto desde a criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) em 1995. Esse grupo faz parte da Divisão para Erradicação do Trabalho Escravo (DETRAE) da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) e, em 2016, foi reconhecido pelas Nações Unidas como ferramenta fundamental no esforço atual de suprimir a coisificação de indivíduos. As ações do GEFM são resultado de articulação interinstitucional e têm como objetivo o reconhecimento do resgatado como sujeito detentor de direitos. Para isso, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel viabiliza rescisão de contratos, reparação dos danos trabalhistas por meio do pagamento de verbas rescisórias, seguro-desemprego, retorno ao local de origem, caso alguém tenha sido também vítima de tráfico humano, e encaminhamento para assistência social. Atualmente, de acordo com o estudo feito pelo sociólogo José de Souza Martins, a pessoa escravizada no Brasil é, geralmente, jovem, do sexo masculino, oriunda da região do Nordeste, com baixo grau de escolaridade e autodeclarada preta ou parda . Durante a entressafra da agricultura familiar, em busca de recursos para superação da escassez, esses indivíduos acabam sendo aliciados por empresas terceirizadas, não raramente por meio de ardil e de ocultamento de artifícios de endividamento, para atividades temporárias, como colheita de frutas, reflorestamento e confecção de roupas. O DETRAE divulga, semestralmente, a lista com empregadores flagrados submetendo trabalhadores à situação análoga como a de escravizado. Ainda segundo Martins, em um mundo em que o trabalho tem sido sistematicamente desvalorizado, a terceirização não é somente um catalisador da escravização, mas um meio de institucionalizá-la. De acordo com as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada no último trimestre de 2022 e apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 40 milhões de indivíduos estão na informalidade, em grande medida vulneráveis à exploração e à lógica que transforma pessoas em coisas. Trabalho e Dignidade Além de reflexão mais aprofundada sobre a precarização das relações de trabalho, o enfrentamento da escravidão contemporânea está diretamente associado à implementação de medidas inclusivas que concedam à população afetada pela herança do regime escravista acesso à educação, à habitação, à saúde, à cidadania e, finalmente, à experiência plena de liberdade e de humanidade. A historiadora Carla Menegat, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), afirma que o Brasil não elaborou um pós-emancipação que realmente construísse a percepção (e o fato) de que os libertos em maio de 1888 eram cidadãos brasileiros com plenos direitos. Embora esse desafio seja global, já que a escravidão ocorre em todas as regiões do mundo, é imprescindível que o Brasil busque soluções originais a fim de sanar esse problema que tem complexidades ligadas às idiossincrasias do processo de formação socioeconômica do Estado brasileiro, expressivamente caracterizada pelo déficit de representatividade que a concentração de riqueza e de poder legou. Como inspiração na luta pela erradicação do trabalho escravo em território nacional, existe a figura de Pureza Lopes Loiola. Uma mãe que foi, desde o Maranhão até o Pará, em busca de seu filho aliciado e escravizado. As denúncias e os registros feitos por Dona Pureza, a partir de 1993, concorreram para a criação do GEFM e seus esforços foram reconhecidos internacionalmente, tendo sido homenageada, em 1997, com o Prêmio Anti-escravidão, oferecido pela organização não governamental britânica Anti-Slavery International, a mais antiga organização abolicionista em atividade. A trajetória da maranhense que virou símbolo do empenho contra a escravidão contemporânea foi retratada no filme Pureza, dirigido por Renato Barbieri, lançado em 2022. Nesse sentido, é urgente que as discussões sobre as relações de trabalho ganhem os holofotes e incluam os diversos setores da sociedade brasileira que, historicamente, foram afastados do debate público e dos processos decisórios que há muito têm determinado, à revelia, seu destino como coisas. Assim como canta o rapper Emicida, é tudo pra ontem. Afinal, o dia 14 de maio de 1888 precisa acabar. Texto escrito por Eduardo Augusto Formado em Relações Internacionais, gosta de pensar sobre o lugar do Brasil no mundo, e tem vivo interesse por tudo que possa (re)formar a essência e a estética da identidade nacional. Revisão por Mateus Santana Edição por Eliézer Fernandes Quer saber mais sobre esse tema? Nosso parceiro o podcast Historiante tem um episódio recente sobre Escravidão Contemporânea, escute aqui! Fontes Hélio Santos – Participação no programa Provocações da TV Cultura (2014) https://www.youtube.com/watch?v=qfouVRsqLQ4 Florestan Fernandes – A integração do negro na sociedade de classes (1964) José de Souza Martins – O cativeiro da terra (2010) Dados de pessoas resgatas de situações análogas à escravidão https://sit.trabalho.gov.br/radar/ Dados sobre trabalho informal PNAD Contínua https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/36350-desemprego-cai-em-oito-unidades-da-federacao-no-quarto-trimestre

  • A educação brasileira está ultrapassada?

    Foto: Arquivo/Agência Brasil É de conhecimento de todos que a educação brasileira passou por um desmanche nos últimos anos. O relatório final da transição do Governo de Bolsonaro para o de Lula sinaliza que: "De 2019 a 2022, o Ministério da Educação (MEC) e suas autarquias sofreram retrocessos institucionais, orçamentários e normativos, observando-se falta de planejamento; descontinuidade de políticas relevantes; desarticulação com os sistemas de ensino estaduais e municipais e da rede federal de ensino; incapacidade de execução orçamentária; e omissões perante os desafios educacionais" O presidente Lula, em seu terceiro mandato na presidência do Brasil, herda um dos piores momentos da área Educação desde a redemocratização, uma vez que há grandes sequelas da pandemia da COVID-19, evasão escolar em crescimento, pesquisa científica sucateada, Plano Nacional de Educação (PNE) de 2014-2024 com menos de 40% das metas alcançadas, uma crescente onda de violência nas escolas, entre diversos outros percalços. Entre tantos desafios a serem enfrentados na presidência de Lula, há um sutil desafio a ser enfrentado que pouco se é falado, porém não menos importante: o conflito de gerações entre aluno e professor e o abismo que os separam. Geração Z e as pílulas de aprendizagem Nascidos no final dos anos de 1990 até 2010, essa geração que está entre aqueles que cursam o Ensino Médio e o Ensino Superior é a primeira que cresceu inserida na era das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) e parte dela teve acesso imediato a essas tecnologias. Com o acesso mais facilitado às ferramentas de comunicação e a tecnologia, esse público recebeu desde a infância informações de maneira instantânea. Eles viram ao vivo o atentado terrorista às Torres Gêmeas, no dia 11/09, e puderam acompanhar pela TV a eleição de um Papa, entre outros eventos importantes. Toda a velocidade disponível a informações e conteúdos através de apenas um clique e de maneira facilitada tornou essa geração uma das mais imediatistas já vistas na história. Essa geração tem disponível, ao alcance de um clique, dados, análises, aplicativos para desenvolvimento e diversos tipos diferentes de conteúdo que permitem com que ela acesse qualquer tipo de informação. Essa geração chega ao banco da sala de aula com a informação, aplicação e a opinião já praticamente formada. Formato de educação atual A maneira de educar foi e é o retrato da sociedade. Durante toda a história humana, a forma de educar tem sofrido mudanças. A educação já foi considerada privilégio para poucos, foi vetada e dominada pela igreja durante anos, mas hoje é considerada uma maneira de se obter desenvolvimento pessoal, ascensão social e qualificação profissional. Além disso, é considerada como instrumento para desenvolvimento social e cultural. O aumento do número de recursos tecnológicos, a possibilidade de estudar em diferentes formatos, tornando o modelo de estudo até mais flexível, tem trazido mais comodidade para o aluno da geração Z. No entanto, essa comodidade esbarra em um grande desafio que é o formato da educação atual. O professor e o modelo de educação O modelo de educação atual predominante é o mesmo modelo utilizado por nós, pelos nossos pais e avôs, ou seja, de 50, 60, 70 anos atrás. Nesse formato, todos nós sentamo-nos um dia em uma carteira escolar, recebemos do professor todo o conteúdo e após determinado período éramos avaliados. Até aqui o professor era o detentor do conhecimento. Era ele quem trazia a informação para o aluno. Em uma breve análise sobre as gerações Baby Boomer (1946-1964), geração X (1965-1985) e geração Y (1985-2000), é possível observar que houve uma evolução tecnológica e social, porém foi gradativa e não alterou diretamente o formato social. Já a partir do surgimento da internet e das TICs , a evolução é quase que exponencial, tendo em vista que afeta não apenas a forma de se comunicar, mas o estilo de vida, o mercado de trabalho, o formato de consumo, entre vários outros aspectos sociais. Entretanto, o modelo de educação evoluiu pouco, que ainda é, praticamente, o mesmo utilizado pela geração Baby Boomer. Neste modelo de educação, o conflito com a geração Z é frontal. Embora já seja possível ser inserido em pequenos modelos de mudança na educação, as leis, as normativas e a própria estrutura curricular em si ainda estão presas a um modelo formatado e que pouco abre espaço para grandes mudanças. Preso a este formato, encontramos o professor oriundo e adaptado ao modelo no qual ele se formou e foi inserido no mercado de trabalho e agora se vê em uma sala de aula com jovens que cresceram em meio a tecnologias que muitas das vezes ele mesmo não possui conhecimento e, em diversos casos, nunca teve acesso. Diante desse cenário, o docente recebe o aluno munido de diferentes equipamentos e informações, pronto para questionar e argumentar sobre determinado tema abordado. A partir de então, o docente não é mais o detentor do conhecimento. Ele tem a posição de mentor e orientador do aluno. O papel do professor agora vai além de apresentar e compartilhar o conhecimento, pois tem por objetivo direcionar e orientar o aluno diante do bombardeio de informações ao alcance de um clique. No entanto, como o docente pode conseguir isso, sendo que em muitas das vezes ele não foi preparado e capacitado para enfrentar essa nova realidade? O atual Governo tem em mãos grandes desafios e um dos principais é o formato de educação. O PNE previu algumas mudanças e capacitações na direção apresentada neste artigo, mas pouco se fez. Houve um golpe de Estado, um Governo de extrema-direita e uma pandemia. Sendo assim, a educação mais uma vez ficou para trás e pouco evoluiu. Sabe-se que a educação é o reflexo da sociedade, porém, com a velocidade em que o mundo tem mudado, o atual formato não tem acompanhado tais atualizações. É possível observar movimentos educacionais que apontam para outros modelos, mas ainda há muito a ser considerado sobre os novos modelos. No ano de 2024 haverá uma discussão do novo PNE, em que serão discutidas e direcionadas novas propostas e direcionamentos para os próximos dez anos. Diante do atual cenário é urgente que sejam discutidos o atual modelo de educação, a formação e a capacitação do docente dentro da sala de aula. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Revisão: Mateus Santana Edição: Eliézer Fernandes Referências https://www.cartacapital.com.br/educacao/os-desafios-do-mec-na-gestao-lula-segundo-o-grupo-de-transicao/ https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64105495 https://blog.lyceum.com.br/desafios-do-professor-na-atualidade/ https://www.sponte.com.br/geracao-z-como-lidar-com-eles/ https://www.terra.com.br/noticias/100-dias-de-governo-lula-abertura-de-dialogo-na-educacao-ciencia-e-tecnologia,04bbf26ae3cc40a719b7b41cf5959f31vewixcjx.html

  • Imigrantes LGBTQIAP+, uma dupla discriminação

    O texto forma parte de um artigo apresentado no diplomado digital de Liderança em Inclusão Social e Acesso a Direitos da Organização dos Estados Americanos (OEA) A forma de organização do Estado é a Constituição Política, pois ela garante o direito de viver livre de discriminação e de ter igualdade perante a Lei, por meio de princípios que proíbem condutas e práticas contrárias à dignidade da pessoa humana, sem qualquer distinção. Bandeira do orgulho LGBT. Foto: Getty Na América Latina e no Caribe, os diversos instrumentos de direitos humanos aprovados pelos Estados não são suficientes e a população LGBTQIAP+ enfrenta uma grave discriminação baseada na orientação sexual e na identidade de gênero que é aprofundada por variáveis ​​associadas à questão migratória (Montenegro et al, 2020). O rápido aumento da presença de imigrantes nos diferentes países incrementou o interesse em saber mais sobre o assunto e sobre o aspecto da heterogeneidade. Esse aumento reflete as diferentes modalidades do movimento migratório que podem ser por inúmeros motivos, como familiares, econômicos, políticos, refúgio, ambientais, entre outros. Vale ressaltar, em relação ao conceito de imigrante, que neste texto será tratado como tal qualquer pessoa que chegue a um país diferente do seu país de origem e motivada por motivos voluntários. Por outro lado, quando se faz referência à discriminação, ela deve ser pensada como algo que ocorre com tudo o que é considerado diferente do que é normativo, por isso também podem ser vítimas pessoas relacionadas a raças, estratos, nacionalidades, ações de exclusão, gêneros etc. Identidade, sexualidade e aceitação A sexualidade é a forma como uma pessoa é percebida e identificada, é um aspecto que impacta ao longo da vida e que marca a forma como ela se expressa. Nesse sentido, podem ser apreciados dois conceitos: orientação sexual e identidade de gênero. O primeiro está associado à atração e/ou interesse sexual afetivo e o segundo é uma construção pessoal que se realiza tendo como referência padrões culturais, tradições, expectativas, entre outros. Culturalmente alude à forma binária duas identidades de gênero: feminina ou masculina, sendo a heterossexualidade a orientação sexual que historicamente predominou na sociedade (Acosta et. al, 2017). Embora o exposto acima nos permita compreender o pensamento e as normas culturais, devemos levar em consideração que existem pessoas que não podem seguir esses parâmetros, porque a construção de sua identidade não é baseada no sexo de nascimento e sua orientação sexual não é para o sexo oposto. Tal diversidade sexual implica na fragmentação do que é socialmente esperado, gerando medos e preconceitos que impactam a forma como as pessoas se relacionam com outras pessoas. Desse modo, causa-se, assim, discriminação e uma consequente exclusão de diversas áreas como trabalho, educação, família, entre outras (Acosta et. al, 2017). Portanto, se as duas variáveis ​​estiverem correlacionadas: a questão migratória e o pertencimento à comunidade LGBTQIAP+, o nível de ações discriminatórias pode aumentar e causar violações e comprometer o exercício de direitos . É por isso que, no presente trabalho, tentamos lançar luz sobre a visibilidade dos direitos dos migrantes LGBTQIAP+, propondo ações afirmativas tanto de entidades quanto de cidadãos. O fato de ter uma orientação sexual em desacordo com a heteronormatividade, somado à discriminação por ser imigrante, cria um terreno fértil que favorece a exclusão social. Nesse sentido, chama a atenção a falta de capacitação dos profissionais das diversas áreas quanto à sensibilidade para o tema LGBTQIAP+. Sem ir mais longe, em diferentes campos, muitos profissionais se manifestaram abertamente contra essa comunidade. Que paradoxo, não é? Imigração e a comunidade LGBTQIAP+ Ilustração: Patrícia Ester/ Ascom-Seds, retirado do site seguranca.mg.gov.br Diante disso, cabe perguntar: como podemos ajudar os migrantes LGBTQIAP+ a tornar visível sua existência, cooperar em sua integração na sociedade e garantir o acesso a direitos? Não é fácil reivindicar reconhecimento e respeito por identidades sexuais que transgridem padrões culturais e a consideração bidimensional de gênero e que criem juízos de valor. A causa do coletivo LGBTQIAP+ é justamente por não conseguirem desenvolver suas identidades e direitos de cidadania, sendo considerados muitas vezes cidadãos de segunda classe. No caso do coletivo LGBTQIAP+ imigrante, despoja-o de todos os direitos civis e humanos. Atualmente e no alvorecer do progresso é hora da comunidade imigrante LGBTQIAP+ lutar por reafirmar a sua presença e participação cidadã, exigindo não só o respeito pelas suas identidades como também o seu reconhecimento pelos cidadãos, enquanto comunidade integrada na sociedade e não diferenciada, que a enriquece e diversifica. Este trabalho começa com seus protagonistas, o próprio grupo imigrante é quem deve se conscientizar e se mobilizar em prol de seus direitos, a fim de garantir o efetivo cumprimento de seus direitos e a possibilidade de levar uma vida plena, feliz e satisfatória (Acosta, 2013). Contudo, a luta deve ser contra preconceitos e estereótipos, reconhecendo e respeitando o amor à diversidade. Caso contrário, acontecerá que, enquanto permanecerem assentados no coletivo imaginário, só será possível alcançar uma integração ilusória desse coletivo LGBTQIAP+ por um lado, e o imigrante, por outro. Por isso, esforços devem ser direcionados para minimizar esses aspectos nos quais a sociedade tradicionalmente se valeu para discriminar aqueles que não se conformam com o que está estabelecido. Realização de um conjunto de medidas, entre as quais podemos citar: atividades de cooperação internacional entre diferentes países, uma vez que adquirem relevância fundamental, bem como a mediação social e familiar, por desempenharem um papel importante na intervenção social. Somente sobre esses fundamentos é que caminhos de reivindicação podem ser considerados e políticas verdadeiramente eficazes podem ser erguidas para que, assim, forneçam soluções adequadas às necessidades do coletivo imigrante LGBTQIAP+. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Revisão por: Mateus Santana Edição por: Eliézer Fernandes Fontes Acosta Camacho, O.L., Gonzalez Summer, V.D.P., Prieto Rodriguez, Y.M., & Rodriguez, R.H. (2017). Mulheres trans na velhice; dupla discriminação. Proposta de fortalecimento institucional da gestão social para inclusão social e garantia de seus direitos. (Dissertação de doutorado, Corporação Universitária Minuto de Dios). Acosta, M. M. (2013). EL SEXILIO EN LA ERA DE LA SUPERDIVERSIDAD Visibilizando el colectivo LGBTI inmigrante. SEXUALIDADE(S) E CIDADANIA(S) , 94. Gómez Ronquillo, W. J. (2016). O direito internacional do igualitarismo e as agências internacionais na proteção e inclusão social da população LGBTI (Tese de mestrado, Universidade de Guayaquil. Instituto Superior de Pós-Graduação em Ciências Internacionais "Dr. Antonio Parra Velasco"). Montenegro, M., Montenegro, L.C.H., & Torres-Lista, V. (2020). Os direitos das pessoasLGBTIQ+, agenda de gênero e políticas de igualdade. encontros. Revista de Ciências Humanas, Teoria Social e Pensamento Crítico. , (11), 23/09. Pereira, V. M. (2021). Migrações e refúgio LGBT+: democracia sexual em tempos de crise. Revista Stultifera , 4 (2), 55-79. Valles, J. R. (2016). Normalizar e universalizar: os riscos de exigir direitos humanos para pessoas LGBT. intertextos , (22). Velázquez, E. G. SOBRE A MARGINALIDADE E A VIDA NA DIFERENÇA. PRÁTICAS DE EXCLUSÃO NO ZAPOPAN: INDÍGENAS, MIGRANTES, MULHERES E POPULAÇÃO LGBT. Dr. Salvador Leetoy López/ITESM (Coordenador Geral) Dr. Pablo de la Peña Sánchez/ITESM (Coordenador) Lic. Carlos Alberto Roque Pineda/ITESM (Coordenador) , 461.

  • Apropriação da pauta racial no Brasil

    O Brasil ainda é um país que vive a sombra do racismo. Digo isso primeiramente porque o nosso país foi um dos últimos a abolir a escravidão e, mesmo assim, só aboliu por pressão internacional e interna. Quando aboliu, deixou aqueles que foram retirados de suas terras e tiveram seus direitos anulados por tantos anos, jogados nas ruas, marginalizados e sem ter para onde ir. Foto: MAPP Actions for Anti-Racism. Retirado de https://arch.umd.edu/news-events/mapp-actions-anti-racism Muitos foram para lugares abandonados e morros. Assim, iniciou-se a formação das favelas . Além disso, todos os dias vemos casos de violência racial explodir, mesmo com toda informação à disposição. Quando falamos sobre racismo, somos taxados como chatos, neuróticos, que estamos procurando coisas onde não há, mas quem vive na pele sabe bem do que estou falando. Resolvi escrever este artigo porque cansei de ver a pauta racial ser tomada por empresas e pessoas que não têm compromisso com a luta antirracista, que se utilizam do movimento para ficar bem na foto e para encher seus cofres de dinheiro, já que o movimento negro, e uma parte significativa da sociedade, não tolera mais o crime de racismo, que até outro dia não dava em nada. Caso Carrefour O primeiro grupo é o do Carrefour, que desde 2009 pratica diversos e graves crimes de racismo, inclusive com morte no ano de 2009. Vale lembrar alguns casos, dentre eles, destaco o do Januário que foi espancado por funcionários do Carrefour. Segundo o grupo, ele estava tentando roubar um carro, mas o detalhe que chama atenção é que o carro era do próprio Januário. O vigilante Januário Alves de Santana em sua casa em Osasco, subúrbio da Grande São Paulo. Foto: Página Pensar a História no Facebook. Em 2018, no Carrefour de São Bernardo, João Carlos, deficiente, também foi espancado, só que dentro do banheiro por abrir uma cerveja. Entre os anos de 2017 e 2018, uma mulher dependente química foi espancada e estuprada por furtar alimentos no Carrefour Rio de Janeiro. Um caso resultante de morte foi o espancamento até a morte de João Alberto Silva Freitas por dois seguranças no Carrefour de Porto Alegre. Entre os casos mais recentes, temos o caso da professora Isabel, que ocorreu neste ano de 2023. Ela afirma ter sido perseguida por um segurança durante todo o tempo em que ficou dentro do Atacadão pertencente ao grupo Carrefour. Revoltada, ela ficou apenas de lingerie para provar que não estava roubando nada. Do ano de 2009 até agora, são 14 anos de casos e mais casos de crimes com recortes raciais, envolvendo o mesmo grupo e suas ações têm sido aquém do que precisa ser tomado. Só passaram a se movimentar graças a pressão dos movimentos contra o racismo da sociedade, porém sua estratégia foi investir pesado em marketing para dizer que são contra o racismo. Isso tem um único objetivo que é ficar bem e seguir lucrando muito. Na prática não mudou muita coisa, além do grupo há diversas outras empresas que devemos ficar de olho e cobrar. Artistas e famosos No grupo de pessoas, temos a cantora Luíza Sonza que, em 2018, foi acusada de racismo por Isabel Macedo, uma advogada que passava férias e estava hospedada no mesmo local que a cantora fez um show. Após o caso vir à tona, logo de cara a cantora tentou descredibilizar a vítima, chamando-a de mentirosa e dizendo que queria apenas ganhar notoriedade e pegar carona em sua fama. Luísa Sonza e Isabel Macedo. - Imagem: Reprodução | Redes Sociais. Isso pegou mal, pois os movimentos antirracistas não aceitaram e passaram a cobrar dela, que, com seu privilégio de cantora POP branca ia dividir o palco com um cantor no festival de REP com “E”. Após as cobranças e repercussões negativas, teve seu nome retirado e precisou cancelar sua turnê para se defender e ficar bem na foto. Com isso, a cantora fez um acordo com a vítima e na sequência redigiu uma publicação dizendo que não estava bem e que reconhecia seu erro. Também disse que não contestaria o valor da indenização, culpou o racismo estrutural por sua atitude e nesta semana abriu um restaurante com dona Carmem Virginia, uma renomada chefe de cozinha negra e pernambucana. Acredite quem quiser, porém eu não acredito em coincidências. Fábio Porchat e Léo Lins Fábio Porchat e Léo Lins. Foto: Juliana Coutinho e Reprodução/Instagram. Há também um humorista, Fábio Porchat, que há tempos atrás fez um post bonitinho dizendo ser um racista em desconstrução, mas quando a justiça remove conteúdo de um colega seu por ser racista e ofender as minorias, a primeira coisa que o tal racista em desconstrução faz é defender seu colega humorista racista, ao invés de criticar o ato. Logo mais, veremos um pedido de retratação elaborado pelas relações públicas na tentativa de limpar a imagem do cidadão que infelizmente seguirá lucrando em cima de um movimento tão sério. A luta contra o racismo é tão antiga e injusta, que ainda vivemos num mundo desigual e que quando envolve cor e raça, a desigualdade é maior ainda. Se for mulher preta, nem se fala. É revoltante ver marcas que não se importam com a causa, que apenas se importam em ter lucros, ficarem bem na foto como uma empresa não racista. Isso é lamentável. Por outro lado, tenho visto movimentos bastante significativos na sociedade, como o boicote a marcas racistas e preconceituosas, que cometem o crime de trabalho escravo. Devemos tentar não cair nas armadilhas dessas organizações, que fingem se preocupar com o racismo. Continuar lutando para reforçar a presença da negritude em espaços de poder e de decisão é de suma importância, já que somos grande parte da sociedade. No entanto, quando se chega nas melhores posições, quase não existimos. Desse modo, é importante que o racismo fique apenas nos livros para que a sociedade não se esqueça e não volte a repeti-lo . Até lá, estaremos na luta contra este crime e contra os racistas. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia. Revisão por: Mateus Santana Edição por: Eliézer Fernandes Fontes https://www.brasildefato.com.br/2020/11/21/racismo-e-morte-no-carrefour-sao-a-ponta-de-um-iceberg-envolvendo-multinacionais https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/25/luisa-sonza-e-retirada-de-line-up-de-festival-de-rap-apos-processo-por-racismo.ghtml https://www.geledes.org.br/a-carne-mais-barata-no-carrefour/

  • Revisionismo histórico nas artes: reparação histórica ou apagamento?

    Podemos dizer que, de maneira lenta, a sociedade tem vivido um movimento progressista. Esse movimento evolutivo tem ocorrido graças a diversos fatores, como os movimentos sociais, que vem reivindicando e lutando por seus direitos, o acesso à informação e, entre eles, a arte . Sabemos que ela tem um papel fundamental de nos questionar e nos incomodar, provocando debates sobre o normal e o ordinário. Mas o que acontece quando a arte vem carregada de preconceitos e julgamento? Apesar do sucesso da animação "Pocahontas", o clássico da Disney pouco tem a ver com a história real da indígena nativo-americana, e realça vários preconceitos sobre os povos originários da América do Norte. A expressão artística traz consigo um recorte da sociedade em que ela está inserida. Não é possível que em uma obra de arte a carga histórica, social e cultural seja desvinculada de seu artista. O que é produzido pelo artista, quer ele queira ou não, trará na obra reflexos daquele momento social. Nossos pais e avós pularam vários carnavais e nós também ainda pulamos cantando "o teu cabelo não nega mulata" , de Lamertine Barros e os irmãos Valença, e brincamos entre amigos cantando "olha a cabeleira do Zezé, será que ele é?" . Diversas vezes, durante a década de 1990, demos risadas assistindo à Escolinha do professor Raimundo com o personagem Costinha, vivido por Lírio Mario da Costa, fazendo piadas machistas e homofóbicas. E como não se lembrar também com saudades do monstro da comunicação, Jô Soares, fazendo suas piadas gordofóbicas no extinto Viva o gordo, na TV Globo, no final da década de 80. Além disso, também apreciamos em diversas outras formas, obras carregadas de preconceito e ofensas em livros, músicas, peças de teatro e exposições de artes. O nosso amor é a base de açúcar, afeto e machismo Aos trancos e barrancos, o progressismo tem alcançado cada vez mais espaços. Graças aos movimentos sociais e acesso à informação, preconceitos tem sido questionados, expressões tem sido revistas, vozes antes não ouvidas e validadas tem recebido o devido reconhecimento, dando espaço ao diálogo, aos questionamentos a comportamentos antes considerados normais, mas que agora não são mais aceitos. Chico Buarque anunciou em 2022, que não cantaria mais a canção "Com açúcar e com afeto" , escrita por ele em 1967 e eternizada na voz da falecida cantora Nara Leão. Segundo o compositor e cantor, a música, carregada com conteúdo machista, coloca a mulher como submissa e dependente do marido. De acordo com o pronunciamento, a canção não deve ser mais cantada, uma vez que esse comportamento e postura não deve ser mais aceito na sociedade. Em movimento parecido, a Disney tem editado e colocado na abertura de alguns dos seus desenhos mensagens alertando sobre o contexto da época e que não são mais aceitos. No texto acima é declarada a seguinte mensagem: "O programa a seguir inclui representações negativas de pessoas ou culturas. Esses estereótipos eram errados na época e são errados hoje. Ao invés de remover este conteúdo, nós admitimos o impacto negativo do mesmo, aprendemos e gostaríamos de provocar um debate para criar um futuro mais inclusivo juntos. A Disney está comprometida em criar histórias com temas inspiradores que refletem a rica diversidade da experiência humana ao redor do globo. Para aprender mais sobre como as as histórias impactaram a sociedade, visite: www.Disney.com/StoriesMatter Além dos exemplos acima, temos diversos outros que tem sido trazidos para o debate. Ao escrever "Sítio do pica-pau amarelo" , Monteiro Lobato expõe em seus textos o racismo presente naquela época, destacado em falas da Emília sobre Tia Nastácia, em um país praticamente recém saído da escravidão. Atualmente há um movimento onde Tia Nastácia assumiria papel de amiga de infância de Dona Benta e não mais a empregada, tirando de contexto a obra do autor. Se reunidas, as obras da autora inglesa Agatha Christie, importante escritora policial do século XX, fica atrás apenas que a Bíblia em quantidade de vendas. Porém, mesmo assim, seus livros não estão isentos do preconceito. Em seus romances, a autora usa estereótipos para se referir ao povo egípcio, em A morte no Nilo, de 1937. O comportamento da escritora reflete a sociedade inglesa da época, com seu comportamento imperialista e colonizador. Há algum tempo, editoras tem realizado o movimento de retirar expressões e citações preconceituosas dos textos da famosa autora. Revisionismo ou apagamento? Diversas outras obras tem passado por um movimento parecido. Ao se debruçar sobre elas, conseguimos visualizar através do seu conteúdo a sociedade àquela época. Seus autores estavam inseridos em um determinado contexto e carregados de uma estrutura social, o que era possível perceber em suas obras. Esse movimento gera alguns questionamentos: Essas obras devem ser revistas, revisadas e atualizadas? Os preconceitos estruturais contidos nelas devem ser excluídos? O revisionismo literário nas obras de Monteiro Lobato, Agatha Christie e diversos outros artistas é um tanto quanto problemático. Esse movimento faz com que suas obras não reflitam a sociedade em que viveram, seus comportamentos e descolam o artista da sua época, endeusando o artista e descontextualizando suas obras . Há um grande perigo nesse movimento. O movimento revisionista faz com que a ligação histórica e suas obras fiquem desconexas. É varrer para debaixo do tapete a realidade daquele momento. É apagar e desqualificar lutas e movimentos sociais, temporais as épocas, que permitiram que a sociedade chegasse aos dias atuais e tivesse a oportunidade de realizar questionamentos sobre essas obras. A saída então seria o movimento de esquecimento desses artistas e suas obras? O caminho seria deixar que fossem produzidas novas edições dos livros, que as músicas fossem retiradas dos streamings e as obras de artes esquecidas em depósitos? Acredito que também não é o caminho. Apagar e esquecer obras de autores, artistas e compositores que refletiram a sua sociedade. Esquecer o que já foi produzido nos coloca em um caminho perigoso, onde o comportamento social vivido por esses artistas, de alguma forma, tenha a possibilidade de voltar e direitos e espaços conquistados ao longo de duras lutas sejam colocados em risco. A arte cumprindo seu papel Chico Buarque, ao decidir não cantar mais "Com açúcar e com afeto", e a Disney ao colocar mensagens alertando sobre expressões que não são mais aceitas, trazem a tona o papel da arte. O de questionar. Duvido que nunca mais ouviremos nos streamings de música, Nara Leão cantando: Com açúcar, com afeto Fiz seu doce predileto Pra você parar em casa Qual o quê Com seu terno mais bonito Você sai, não acredito Quando diz que não se atrasa Afinal, o machismo ainda é algo impregnado nas nossas canções em pleno século XXI. O que dizer de canções de vários estilos musicais que promovem o machismo e a submissão feminina como em versos produzidos em meados dos anos de 2010: Tá doido que eu vou Fazer propaganda de você Isso não é medo de te perder, amor É pavor! Por isso, é extremamente importante que, ao invés de apagar ou deletar qualquer tipo de obra, devamos nos debruçar e analisar esses comportamentos, refletindo sobre as estruturas preconceituosas da sociedade, trazendo debates a partir delas, com a devida crítica e respeito a importância de cada uma delas. Nós ainda vamos assistir Peter Pan e sentir a nostalgia de nossas infâncias, porém, porquê não usar essas e outras obras como ferramentas de discussão? Porque professores não poderiam usar textos de Agatha Christie para contextualizar o imperialismo inglês nas salas de aula? Utilizar textos de Monteiro Lobato e apresentar como o racismo estrutural está enraizado em nossa sociedade? A opinião desse colunista é que essas e outras obras devem ser usadas como referências de um tempo onde esses comportamentos foram aceitos, porém não cabem mais para a sociedade atual e para o futuro. A arte tem cumprido seu papel, o de nós questionar e nos incomodar. É necessário, a partir da nossa sociedade atual, que sejam produzidas novas obras, com novos conceitos, reflexo do progresso que tanto é pregado. É importante que daqui há 50, 70 anos, se verifique a evolução que tanto é sinalizada. Devemos sim, nos debruçar sobre essas obras, nos questionar como sociedade e realizar à luz do que foi construído e fazer as devidas críticas sobre elas é o que ela espera de nós. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Revisão: Mateus Santana Edição: Eliézer Fernandes Fontes https://opopular.com.br/magazine/obras-de-autores-do-passado-passam-por-revis-es-e-alterac-es-1.3021238 https://veja.abril.com.br/cultura/obras-classicas-e-artistas-celebrados-caem-na-mira-de-onda-revisionista/ https://istoe.com.br/agatha-christie-reescrita/ https://revistaforum.com.br/blogs/socialista-morena/2022/2/9/chico-entendeu-as-feministas-os-antifeministas-que-no-entenderam-chico-109878.html https://cnnportugal.iol.pt/james-bond/ian-fleming/depois-de-roald-doahl-e-a-vez-dos-livros-de-james-bond-serem-revistos-para-serem-menos-racistas-e-ofensivos/20230301/63ff22280cf2c84d7fca4d99 https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/marchinhas-de-carnaval-especialista-discute-versos-preconceituosos.phtml

  • De “irresponsáveis” a “cringe”: o que aconteceu com os Millennials?

    Este artigo integra o Dossiê: Gerações do Pós-Guerra (Parte II) Começo o texto pedindo a licença que me cabe! Falar dessa geração é mais do que uma mera revisão histórica geracional, é quase um relato pessoal. Eis aqui uma colunista nascida na década de 1990 e pertencente a injustiçada Geração Y , ou como é conhecida, os “Millennials” (1981 – 1995). Foto: Pexels Atualmente somos a maior população economicamente ativa no Brasil e no mundo, por isso, ganhamos mais notoriedade atualmente e podemos ditar algumas “tendências”. Porém, se por um lado podemos ver como algo positivo, de outro somos uma das gerações mais criticadas. Não somos visados apenas pelas gerações que vieram antes de nós, mas também pelas mais novas. Se para os Baby Boomers e Geração X somos irresponsáveis e desinteressados, para as posteriores Gerações, Z e Alpha, somos cringe, nome usado para descrever alguém como fora de moda, algo como “vergonha alheia” em uma expressão que os Millennials vão reconhecer. Geração Millennials: Quem são? De onde vem? Para onde vão? É preciso repensar esses rótulos, pois falar de uma geração sem fazer um recorte histórico é injusto e leviano. Como falei no meu artigo anterior, nada é estático e imutável, pois estamos em constantes mudanças históricas, econômicas e sociais. Os Millennials foram criados, em sua grande maioria, por pessoas que não imaginavam o quanto a tecnologia poderia transformar e revolucionar a humanidade. A Geração Millennials era adolescente ou criança quando a internet foi aos poucos, ganhando mais espaço nos lares e empresas. A grande contradição disso é que nós, pertencentes a essa geração, fomos ensinados a buscar estabilidade justamente em um cenário que já dava indícios de muitas instabilidades, não só no Brasil, com o fim da Ditadura Militar e a inflação galopante, mas também no restante do mundo, que vivia os suspiros finais da Guerra Fria e inúmeros conflitos geopolíticos. Enquanto nossos pais e avós, que são oriundos de outras gerações, nos ensinaram que estabilidade e muito estudo eram ingredientes na receita da “vida perfeita”, fora de casa vimos uma realidade bem diferente em que o mundo não dá mais garantia alguma de estabilidade empregatícia. Tivemos como cenário algo que destoa completamente: o aumento da precarização e pejotização (Termo usado para trabalhadores no modelo Pessoa Jurídica) da força de trabalho. Assistimos a frequentes demissões em massa, crescentes exigências para nos manter produtivos, competitivos e com salários razoáveis, o que gera um abismo ainda maior entre as classes sociais. Consequentemente, somos a geração que mais acumula empregos para complementar a renda. Reprodução: Healthline Estudo realizado pelo Serasa neste ano de 2023, mostrou que os Millennials são os mais endividados. Segundo Patrícia Camillo, Gerente do Serasa: “é a faixa etária em que o jovem conquista a independência. Então, há uma necessidade diferente, como a de adquirir moradia e todas as outras contas que vem com isso”. As principais dívidas dos Millennials estão no cartão de crédito (33,17%) e em gastos como gás, água e energia elétrica (15,84%), que somados representam quase 50% da sua renda. Essa preocupação com custos básicos para sobrevivência reflete em inúmeras inseguranças quanto ao futuro. De acordo com a nova edição da pesquisa global “Gen Z and Millennial Survey”, elaborada pela Deloitte, foram entrevistadas pessoas de 44 países, incluindo 500 da geração Z e 300 Millennials do Brasil, foi encontrado o cenário: “No topo das cinco principais preocupações para a geração Z brasileira, temos em terceiro lugar a discriminação e falta de equidade (30%) e isso não compõe o ranking global (...) Já no topo do ranking aparecem desemprego e custo de vida, que tanto afetam o Brasil.” Habla, Millennials! Nossa geração fala mais abertamente sobre saúde mental e temos menos tabus em falar de temas antes escondidos, tais como ansiedade e depressão. Nossa necessidade de querer estar atualizado o tempo todo e sermos “multitarefas" nos faz ficar horas a fio em redes sociais e sujeitos a constantes notificações. Por isso, a saúde mental costuma ser um assunto recorrente nas rodas de conversas dos Millennials. Foto: Pxhere Contrário ao rótulo de "desinteressados”, temos como característica questionar as coisas e por vezes sermos também imediatistas nestas mudanças. Somos abertos a inovação e a liberdade. Rompemos com alguns comportamentos das gerações anteriores, sobretudo quanto a costumes. Abraçamos pautas ligadas a direitos civis e coletivos, como enfrentamento ao racismo, apoio as causas feministas, sustentabilidade e na defesa da comunidade LGBTQIAPN+. Somos uma das gerações que mais questiona as hegemonias religiosas, ao contrário do que disse George Barma, coordenador do Centro de Pesquisa Cultural da Arizona Christian University, relata em sua pesquisa: “Novos Insights sobre a Geração de Influência Crescente: Millennials na América”, onde o autor alega que somos uma geração que sofre de analfabetismo espiritual. E não para por aí! Barma afirma que “o caos moral que caracteriza a geração também pode ser atribuído a uma falta de instrução religiosa coerente e pragmática” . Talvez o autor não saiba, ou não queira saber, que a sociedade que herdamos não é satisfatória para nossa geração. Esse apego desesperado ao status quo , é uma tentativa de manter a desigualdade e violência estruturais , que marginaliza populações minoritárias. É característica da Geração Millennials o desapego a esses ideais e a crescente desconfiança em líderes religiosos. O que era ‘comum’ já não é mais… A casa própria virou um “sonho distante", graças aos preços dos imóveis e a inflação, o que agravou ainda mais um cenário já desanimador. A pandemia de COVID-19 também foi um grande marco de ruptura. Além disso, enfrentamos inúmeras crises econômicas e as frequentes demissões em massa, que a nossa geração tem enfrentando. Diferente dos nossos pais e avós, não priorizamos a estabilidade e sim o reconhecimento, embora a estabilidade não seja algo que não almejamos. Não queremos casar e ter filhos cedo, como fomos ensinados. Muitos de nós queremos explorar novos rumos antes dos “marcos da vida adulta”. Outra característica é que estamos morando mais tempo com nossos pais, o que é usado como exemplo pelas gerações anteriores como “preguiça e acomodação”. Porém, diferente do que muitos pensam, tem pouco a ver com conforto essa “saída do ninho”. Ela está mais relacionada ao sentimento de inaptidão e frustração. Isso é expressado por uma das entrevistadas da Deloitte: “O custo de vida está cada vez mais alto. Tenho preocupações de não conseguir pagar minhas contas e não dar aos meus filhos a educação e a vida que eles merecem”. E agora, Millennials? Esta colunista, naturalmente Millennials, tentou mostrar neste artigo que estamos cada vez mais exaustos, ansiosos e endividados. Mas também conseguimos romper estruturas rígidas e dar visibilidade a temas antes esquecidos ou escondidos. Se a Geração X começou a questionar alguns padrões, a Geração Y veio ainda mais disposta a abrir espaços mais inclusivos. As cobranças excessivas das redes sociais, da família e da sociedade, nos fazem reviver as nossas cobranças de que não vivemos a vida que sonhamos e almejamos. Não há nada de errado com os Millennials, as expectativas criadas pelas gerações anteriores eram altas demais e precisamos repensar se realmente devem ser alcançadas. Somos apenas uma geração que quer seguir um caminho diferente e o custo disso não tem sido baixo. Sigamos, Millennials! Texto escrito por Katiane Bispo É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Felipe Bonsanto Edição por Eliézer Fernandes Fontes https://en.wikipedia.org/wiki/Gabriela_%281975_TV_series%29 http://www.cyta.com.ar/ta0203/v2n3a2/v2n3a2.htm https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-do-caos/ https://rockcontent.com/br/blog/dossie-das-geracoes/ https://vimeo.com/16641689 https://einvestidor.estadao.com.br/comportamento/inadimplencia-endividamento-por-geracao/ https://fastcompanybrasil.com/news/Millennials-e-genzs-buscam-segundo-emprego-para-pagar-as-contas-do-mes/ https://www.ihu.unisinos.br/categorias/614723-geracao-Millennials-desconfia-de-lideres-religiosos-mostra-pesquisa

  • Elis Regina e a breve finitude da existência

    Cristalizar a imagem, por meio de foto ou vídeo, de alguém que partiu foi uma forma de manter viva a memória de uma pessoa querida. Mas, e se pudéssemos trazê-la à vida para uma última aparição? Vídeo que mostra Elis Regina, recriada com uso de IA e Maria Rita, conduzindo um veículo da Volkswagen. Foto: Reprodução/Volkswagen Elis Regina reaparece, décadas após sua morte, num dueto emocionante com sua filha, Maria Rita, ao volante de um modelo de carro extremamente emblemático , conectando passado e presente. O simpático personagem Chaves reaparece em uma peça publicitária, ressuscitando o falecido comediante Roberto Bolaños. Ele, o personagem, contracena com o ator Eugenio Derbez, fazendo uma homenagem à cultura mexicana e latina. Os dois casos que menciono aqui são apenas alguns dos mais emblemáticos envolvendo o retorno de artistas falecidos para o público, por meio da inteligência artificial. A ressurreição de pessoas através da Inteligência Artificial (IA), sem o seu consentimento, é um tema complexo e ético, que levanta várias questões importantes. Sobre conforto e alento A ideia de usar a IA, para trazer de volta pessoas queridas que já partiram, pode oferecer conforto e alento para aqueles que estão de luto. Imaginar que poderíamos interagir novamente com entes queridos que faleceram, mesmo que em uma forma digital, pode ser uma fonte de consolo para muitas pessoas que enfrentam a dor da perda. Além disso, a possibilidade de ressurreição virtual pode ser vista como uma forma de preservar a memória e o legado de pessoas notáveis ​​ou influentes da história, permitindo que suas ideias e conhecimentos continuem a ser compartilhados e aprendidos por gerações futuras. No entanto, por mais tentador que possa parecer, isso levanta questões éticas e filosóficas profundas. Uma das preocupações mais óbvias é o respeito à privacidade e à autonomia dos indivíduos falecidos. Se essas pessoas não deixaram registros explícitos de que desejavam ser revividas digitalmente, a ação de fazê-lo pode ser interpretada como uma violação de sua identidade e vontade. Recentemente, Madonna, uma das mais influentes e importantes cantoras da música pop mundial, manifestou sua opção de não ter sua imagem revivida em qualquer formato . Após passar por um processo infeccioso, que a levou para a UTI, a intérprete de sucessos como “Like a prayer”, “Material girls” e “La isla bonita” , resolveu mudar seu testamento e proibiu quaisquer tentativas de que sua imagem fosse ressuscitada digitalmente. Madonna em uma apresentação na Alemanha. Foto: Getty Images, Cassy Athena Além disso, a própria noção de reviver alguém através da IA pode ser percebida como uma forma de negar a mortalidade e a importância do ciclo natural da vida. A mortalidade é um aspecto intrínseco da condição humana. Nascemos, vivemos e inevitavelmente morremos. Essa impermanência da vida é o que confere significado, urgência e beleza à nossa existência. No entanto, com o avanço da tecnologia, a inteligência artificial tem apresentado a perspectiva de contornar os limites da mortalidade humana, e é fundamental refletirmos sobre a necessidade de respeitar esse aspecto natural da vida. Uma história da mortalidade A compreensão da mortalidade tem sido um elemento central em diversas culturas e filosofias ao longo da história da humanidade. No Egito Antigo, a partir do Livro dos Mortos, havia a compreensão de que o ser humano era composto por diversos elementos, materiais e imateriais, mortais e imortais. Dentre eles, o ka (força vital que acompanha a pessoa por toda a vida) e o ba (um princípio de movimento, que faz o indivíduo se manifestar) acompanhavam o defunto para o Duat (o além), momento em que o Tribunal de Osíris faria seu julgamento: o coração do morto era pesado tendo do outro lado uma pena da deusa da justiça, Maat. Livro dos Mortos (cujo nome original, em egípcio antigo, era Livro de Sair Para a Luz) é a designação dada a uma coletânea de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias do Antigo Egito, escritos em rolos de papiro e colocados nos túmulos junto das múmias. Foto: Arcanoteca Blog Se o coração pesasse menos do que a pena, o defunto teria acesso ao Duat no Reino de Osíris, a vida após a morte. Nas tradições orientais, que recorrentemente chamamos de Hinduísmo, a essência vital do ser humano tem um caráter imortal, retornando de tempos em tempos ao mundo físico, mediante uma série de reencarnações, condicionadas a conduta do indivíduo na vida anterior. Saindo da matriz religiosa e indo para a filosófica, Platão legou ao pensamento ocidental a perspectiva do Mundo das Ideias: a princípio, todas as coisas existem, de maneira perfeita, num local imaterial e puro. Ali estaria nossa alma ( psiche ), que não morreria, por ser a existência humana cíclica, composta por várias mortes e renascimentos. Em “A República” , no livro X, Platão conta o “Mito de Er” , a história de um camponês que vai ao Hades após sua morte e contempla as almas em seu estado puro. Aquelas que se destinavam a retornar à vida eram forçadas a beber das águas do Rio Lethe (esquecimento). A finitude como orientação A consciência de que nossa existência é finita impulsiona-nos a atribuir valor ao tempo que temos e a buscar significado em nossas ações. A apreensão da morte também estimula a criatividade, a inovação e o desejo de deixar um legado positivo no mundo enquanto estamos aqui. Criar uma cópia digital de alguém pode levar a dilemas sobre o que realmente define uma pessoa: sua consciência, suas experiências vividas ou apenas uma coleção de dados e informações? Essas questões têm implicações profundas em relação à nossa compreensão de nós mesmos como seres humanos. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão por Felipe Bonsanto Edição por Eliézer Fernandes

  • Resgatando a História: Inflação nos anos 80 e o Plano Cruzado

    O segundo Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND II), encabeçado pelo governo militar nos anos 1970, vislumbrava, sobretudo, prosseguir com os altos índices de crescimento que marcaram o período do “milagre econômico” , embasando-se no aprofundamento da política de substituição de importações e no desenvolvimento do setor de bens de capitais, que para o plano garantiria de modo permanente a realização da tão perseguida substituição de importações. Índice de crescimento Porém, se no período do milagre o crescimento era puxado sobretudo pelo crédito externo , havendo, portanto, um cenário favorável a esse tipo de operação, seja pelos juros baixos, seja pela boa recepção que a economia brasileira gozava nos mercados creditícios; a realidade se altera significativamente na década de 1970 em razão dos choques do petróleo e da abrupta elevação do juro internacional, colocando ao II PND um ambiente externo mais desfavorável daquele gozado no “milagre”. Os choques e a consequente elevação dos juros contribuíram para desacelerar a economia mundial, restringindo o crédito e agravando a dívida externa brasileira . Assim, se o plano de desenvolvimento dos militares vislumbrava alterar as estruturas internas do país para que este ficasse menos vulnerável às oscilações externas, sua execução prévia deveria se basear no que sustentara o “milagre”, isto é, a dívida externa, o que definitivamente não era mais possível. Frente a este cenário bastante adverso, o II PND contou mais com a participação estatal do que com o entusiasmo dos investimentos privados para dar sequência ao projeto. Com um crescimento ancorado na dívida externa desde o “milagre” (e passando pelo II PND), a crise que se acentua a partir dos anos 1980 obriga uma mudança de rumo na economia para cumprir com os compromissos da dívida, levando o governo a estimular as exportações e restringir as importações. Logo, medidas recessivas visando conter consumo e os investimentos passaram a ser adotados , apesar da contrariedade do empresariado e da sociedade civil. As consequências dessas ações foram corrosivas para o país , que experiencia queda de receitas do governo, recessão da indústria (seu principal setor), além do cenário externo altamente desfavorável. A situação se deteriora ainda mais em razão da moratória da dívida mexicana em setembro de 1982, o que praticamente inviabiliza o crédito externo aos países em desenvolvimento. Assim, o Brasil recorre ao FMI, que impõe condições de forte reajusta sobre as “ absorções internas ” para conceder um crédito aquém do necessário para amortização. Essas medidas, que visavam, sobretudo, obter os superávits na balança comercial para atenuar a situação externa, fazem com que os anos 1980 quebre a média de crescimento das décadas anteriores, se observando forte retração nos investimentos (públicos e privados), queda na renda e retração da indústria. O fracasso do plano econômico dos militares , porém, não pode obscurecer seus méritos. É preciso salientar que o projeto deu sequência ao plano desenvolvimentista iniciado no varguismo e prosseguido no governo JK. O fracasso demonstra mais a fragilidade dos capitalistas brasileiros em aplicar inversões na economia , uma vez que o “milagre” militar dependeu mais do investimento público e do crédito externo, sendo que a restrição deste último demonstrou as limitações da burguesia nacional em financiar o crescimento econômico nos patamares do “milagre” e dos anos 1960 e 1950. Assim, fica evidente que o PND do governo militar não logrou o sucesso que pretendia mais em razão de fatores externos (a conjuntura dos anos 1970, com forte elevação dos juros e crise da dívida externa), do que propriamente das imperfeições de sua política. A especificidade da inflação do Brasil ao longo dos anos 1980 A indexação da economia brasileira iniciada ainda no período militar foi a causa da manutenção da inflação em patamar elevado na década de 1980 , é o que defende o economista e ex-ministro Luiz Bresser-Pereira. A inflação do Brasil, para além de alta, se mantinha em patamares elevados e não dava indício de queda. Dada essa atipicidade da inflação, economistas como Bresser-Pereira, Francisco Lopes, Persio Arida e André Lara Resende desenvolvem novos estudos, que fugiam da interpretação tradicional da ortodoxia sobre a inflação. Estes estudiosos perceberam que o que explicava a manutenção da inflação em patamares elevados na economia brasileira seria propriamente o que denominaram por inflação inercial , que escaparia, por sua vez, da tradição ortodoxa que entendia o fenômeno da inflação apenas como um componente das pressões da demanda sobre a oferta. A inflação inercial, portanto, seria independente da demanda e estaria relacionada, por sua vez, à indexação , isto é, ao reajuste de preços vinculados. Na prática, esse tipo de inflação transfere para o presente a inflação passada, seja mediante indexação formal ou informal, gerando um ciclo vicioso e desarticulado no tempo . A indexação, portanto, produzia uma “ memória inflacionária ” , ou seja, o reajuste das empresas em resposta à inflação repassava os custos para outras empresas, que por inércia se viam obrigadas a reajustar (por isso não se tratava de uma inflação por demanda). Na interpretação ortodoxa , a inflação decorre sobretudo pela expansão monetária, o que pressionaria a demanda e, portanto, elevaria a inflação. Bresser-Pereira, por sua vez, demonstra que a expansão da moeda ocorre em razão da elevação dos preços (puxados pela inércia inflacionária) e não o contrário. Neste caso, a elevação dos preços não era acompanhada pelo crescimento em igual proporção da oferta monetária, mas também pela velocidade da moeda, que ganhava uma rapidez ainda maior na medida que a inflação se agravava. Portanto, a tese ortodoxa de que a causa inflacionária estava na forte expansão da moeda não se sustentava , uma vez que não observou a inércia inflacionária na economia, mas apenas as forças da pressão da demanda, que na prática inexistiam. Assim, as medidas para combater esse tipo de inflação tiveram que fugir do tradicionalismo ortodoxo e se orientar em novos paradigmas que visassem atacar a indexação e reorientar a economia para um certo nível de preços médios reais reajustados. Plano Cruzado Desta maneira, o Plano Cruzado buscou congelar preços e controlar os reajustes dos salários e dos títulos de maneira mais centralizada, tentando com essas medidas mediar a disputa pela distribuição da renda, um dos principais fatores das indexações. O sucesso do Plano, porém, foi curto. Dentre os motivos de seu colapso, um deles foi a expansão da liquidez, que reduz os juros e amplia os investimentos (alimentados por um ambiente favorável de inflação controlada). Prateleiras vazias em supermercado na década de 1980 Esses fatores destravam a demanda, e num contexto de congelamento de preços, gera-se um irreversível desabastecimento , colocando em xeque qualquer credibilidade do plano que se sustentava, justamente, sob o congelamento de preços. Assim como o fracasso do plano de desenvolvimento dos militares, há também de se reconhecer as boas intenções do Plano Cruzado (embora tenha falhado em seu intento). O reconhecimento de um tipo específico de inflação foi crucial para que na década seguintes encontrássemos o meio correto de acabar com a inflação alta e constante (tipificada pelos pensadores do plano real como uma inflação do tipo inercial). O Plano Cruzado ao menos representou um primeiro movimento político no sentido de atacar as verdadeiras razões da inflação. A volta à ortodoxia como método de controle da inflação, isto é, recorrendo à asfixia da demanda demonstrou-se infrutífera e agravante, como ficou demonstrado no Plano Collor. Ambos os fracassos devem ser abordados não sob a luz dos “ derrotados e vencedores” , mas principalmente sob a perspectiva de seus legados. Do mesmo modo que o Plano Cruzado reconhece a verdadeira “anatomia” da inflação, deixando ao menos um ferramental importante para seu controle na década seguinte (da qual jamais poderia vir da ortodoxia), o PND militar, embora bastante limitado pelo ambiente externo extremamente desfavorável, pôde atrair investimento importantes para o Brasil, como na parte energética no que confere às construções das usinas de Itaipu e Angra, fundamentais para o país e para sua etapa moderna. Texto escrito por João Vitor Bortoleto Professor de História e Sociologia; formado em História pela USP e especialista em Humanidades pelo IF-SP. Atualmente é graduando em Ciências Econômicas pela UNIFESP e colunista do “Zero Águia”. Revisão por Eliézer Fernandes Edição por Felipe Bonsanto

  • Terror Espacial e Reflexões Sociais: Alien, o Oitavo Passageiro (1979)

    No vasto cenário do cinema, poucas obras conseguem ecoar nas mentes dos espectadores décadas após o seu lançamento. "Alien, o Oitavo Passageiro" é um exemplo notável desse poder, trazendo um misto de horror, suspense e reflexões sociais que ressoam até os dias de hoje. O filme, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1979, não se limita a ser apenas uma experiência cinematográfica, mas sim uma jornada que evoca medos humanos profundos e levanta questionamentos sobre a exploração espacial e as complexas relações de trabalho. No núcleo do filme está uma criatura que personifica os medos mais profundos da humanidade. A ameaça desconhecida, sem origem clara, é ocultada habilmente e revelada aos poucos, mergulhando a audiência em um estado de suspense contínuo. O elemento surpresa é habilmente utilizado para instigar nossos instintos mais primários de medo. História do filme A narrativa se desenrola em um cenário peculiar: um cargueiro estelar que reboca uma refinaria interplanetária. Esse contexto serve como alegoria para as complexas dinâmicas do capitalismo e da exploração espacial, além de pano de fundo para uma análise mais profunda das relações de trabalho. A década turbulenta em que o filme foi lançado, marcada pela escassez de combustíveis, os efeitos do escândalo Watergate e greves operárias, proporcionou o terreno perfeito para as inquietações expostas no roteiro. Funcionários descontentes lutam contra uma empresa cruel que os vê como peças descartáveis em sua busca pelo lucro. Yuval Noah Harari , autor de "21 Lições para o Século 21" , explora o impacto das inovações tecnológicas e a transformação das relações de trabalho. Aqui, a exploração espacial é apresentada como uma extensão desse cenário, onde os tripulantes arriscam suas vidas motivados pela busca de salários vinculados à conclusão da missão. No cenário contemporâneo, as inovações tecnológicas têm sido protagonistas de mudanças significativas nas dinâmicas das relações de trabalho. Harari oferece uma lente analítica valiosa para entendermos como esses dois elementos se entrelaçam e desafiam a nossa compreensão sobre o futuro do trabalho. A acelerada evolução das tecnologias, como a inteligência artificial, automação e aprendizado de máquina, são forças que estão redefinindo a natureza do trabalho humano. A automação, por exemplo, tem o potencial de substituir uma ampla gama de tarefas repetitivas e padronizadas, levando a um questionamento sobre o valor que o ser humano agrega em um cenário onde máquinas podem ser mais eficientes. As relações de trabalho, por sua vez, têm sido profundamente afetadas por essa revolução tecnológica. A fragmentação do trabalho, impulsionada por plataformas digitais, traz consigo desafios como a falta de segurança social e a desvalorização de benefícios tradicionais. A interseção entre inovações tecnológicas e relações de trabalho também coloca em pauta questões éticas. A inteligência artificial, por exemplo, pode trazer melhorias substanciais para diversos setores, mas também levanta questionamentos sobre privacidade, discriminação algorítmica e a concentração de poder nas mãos de poucas empresas. Por fim, "Alien, o Oitavo Passageiro" transcende o status de mero entretenimento. Sua narrativa obscura lança luz sobre as complexidades da natureza humana, as engrenagens do capitalismo e as implicações da exploração espacial. Enquanto os personagens lutam para sobreviver, nós, espectadores, somos convidados a questionar nossas próprias jornadas e as fronteiras entre o conhecido e o desconhecido em nossa própria existência. Aliando a discussão proposta por Harari, temos um convite à reflexão sobre como as inovações tecnológicas estão reconfigurando as relações de trabalho e, consequentemente, nosso modo de vida. À medida que avançamos nesse novo contexto, é necessário considerar não apenas o potencial das tecnologias, mas também as implicações éticas, sociais e econômicas que elas carregam. Detalhes do filme Filme: Alien: O 8º Passageiro (Alien) Elenco: Sigourney Weaver (Ripley), Tom Skerritt (Dallas), John Hurt (Kane), Veronica Cartwright (Lambert), Harry Dean Stanton (Brett), Ian Holm (Ash), Yaphet Kotto (Parker) Direção: Ridley Scott Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=LjLamj-b0I8 Trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=yc94TrMnwaw&list=OLAK5uy_nJvXT8-seY9obznMSHM_2-C0NemdkIR98 Avaliação IMDB: https://www.imdb.com/title/tt0078748/?ref_=nv_sr_srsg_0 (8.5) Avaliação Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/alien Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Referências Livros Título: 21 lições para o século 21 Autor: Yuval Noah Harari Editora: Companhia das Letras ISBN: 978-85-359-3091-7 Título: O guia geek de cinema Autor: Ryan Lambie Editora: Seoman ISBN: 978-85-5503-097-0 Outras fontes https://pt.wikipedia.org/wiki/Alien,_o_Oitavo_Passageiro https://en.wikipedia.org/wiki/Alien_(film)

  • O peso do preconceito - Proibição do casamento LGBTQIA+

    Quem viveu os anos 2000, com certeza se lembra da figura icônica de Clodovil Hernandes. Estilista paulista, que transitou por diversas áreas da televisão, participando de programas de auditório e fofoca. Porém, para quem não se lembra, ou não sabe, Clodovil também atuou na política, entre os anos de 2007 e 2009, sendo Deputado Federal pelo antigo PTC/SP. Em 27 de Março de 2007, o ex-deputado, apresentou o Projeto de Lei (PL) 508. Foi baseado nesse PL que todo um movimento foi trazido de volta à tona à Câmara dos Deputados em setembro de 2023, pelo Deputado Federal Pastor Eurico (PL-PE). O PL 508 apresentado por Clodovil Hernandes, acrescentaria à Lei nº10.406, de 2002, o direito e a garantia no Código Civil em que, casais homoafetivos pudessem se casar. Como é sabido, o projeto não vingou. Porém, foi resgatado e repaginado pelo Deputado Federal Pastor Eurico (PL-PE), onde o político apresenta a proibição do casamento de casais homoafetivos. Para se entender o resgate do PL apresentado por Clodovil Hernandes, 16 anos depois, é necessário um mergulho nesse intervalo de tempo. Um direito garantido, porém, nem tanto Embora todos sejam considerados iguais perante a Constituição Federal, alguns direitos garantidos nela não são estendidos a todos. Um desses exemplos é o casamento homoafetivo. Foi pensando na necessidade dessa garantia, que Clodovil apresentou a proposta em 2007. Embora o país estivesse em meio a um governo progressista, o movimento feito por ele não surtiu efeito. O PL não seguiu e o direito não foi garantido em lei à essa parcela da população. O tema voltou a ser debatido em 2011, quando a Senadora Marta Suplicy (PMDB-SP), apresentou o PL nº612, na tentativa de garantia ao direito básico do matrimônio civil a pessoas do mesmo sexo. O PL não seguiu e o tema, mais uma vez, foi abandonado pelos congressistas. Em Maio do mesmo ano, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovou de maneira unânime, equiparando as relações de casamento entre pessoas do mesmo sexo com o mesmo valor de pessoas de sexo diferente. A garantia pelo STF da união estável foi o pontapé para outras garantias, como a adoção de crianças (2015), a criminalização da homofobia (2019) e também a possibilidade de doação de sangue (2021). Foto do Supremo Tribunal Federal. É possível entender que, nenhuma das garantias adquiridas à população LGBT foi através de leis, mas sim, de maneira jurídica. Isso pode ser preocupante para essa parcela da população. Uma vez interpretada pelos Ministros a legalidade e garantia de qualquer uma das conquistas sinalizadas anteriormente, uma possível futura formação com tendências conservadoras, pode desengavetar novamente os textos e tornar todas essas conquistas ilegítimas, anulando e retirando os direitos ora vistos como legais. Algo bem semelhante aconteceu recentemente nos EUA, onde a Corte, o órgão americano equivalente ao STF, revogou o direito ao aborto em 2022 . Um Congresso conservador em um Governo progressista Embora tenha sido um alívio ao Estado Democrático de Direito, as eleições de 2022 mandaram um recado bastante contundente: O conservadorismo e a oposição ao movimento progressista estariam fortalecidos dentro do Congresso Nacional. A formação para o Senado foi uma das mais conservadoras de todos os tempos. Esse recado tem sido lembrado constantemente. Pode-se lembrar ao longo do ano de 2023 inúmeras declarações racistas, transfóbicas, homofóbicas e misóginas proclamadas no plenário da Câmara e em formatos de Projetos de Lei ou Emendas Constitucionais. A deturpação do PL criado por Clodovil, feita pelo Deputado Federal Pastor Eurico, é mais um recado da onda conservadora. No texto, o Deputado apresenta o casamento como algo direcionado apenas para procriação, algo de cunho extremamente conservador e tendencioso ao conservadorismo religioso e não como um direito civil, que deveria ser garantido pelo Estado Laico. Além disso, trazer a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, fortalece os discursos sobre cura gay . O que tem sido considerado por movimentos progressistas como tortura psicológica, provocando até suicídio em pessoas que procuram essa prática, como exemplo a influenciadora bolsonarista, Karol Eller, que tirou a própria vida um mês após anunciar que havia passado por procedimentos de “cura gay” . Embora o Projeto de Lei tenha sido aprovado de maneira baixa na Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família da Câmara de Deputados, ela é considerada pela OAB e juristas algo inconstitucional . A ala conservadora do Congresso Nacional reconhece que é muito difícil que o PL sobreviva e siga tendo continuidade, porém, há algum sucesso no movimento realizado. A ala conservadora tem conseguido transmitir o seu recado. O levante de pautas como o casamento homoafetivo e a legalização do aborto, por exemplo, é uma forma de agitar as suas bases eleitorais e mostrar que estão lutando. Outro recado enviado por essa ala é a tentativa de mensurar forças com o Supremo, alegando que, as leis devem ser criadas e votadas por aqueles que foram eleitos de maneira direta pela população, ou seja, deputados e senadores, respeitando o desejo das maiorias, ali representadas por eles. Porém, na democracia, os direitos das minorias também precisam ser respeitados e garantidos. Sendo assim, quando os direitos das minorias, seja ela qual for, não é respeitado, são necessárias ações para garantia. No Brasil, o órgão responsável e com direito a essa intervenção é o STF. A atuação do STF com votações favoráveis a população LGBT tem por intenção não só a garantia de direitos básicos, mas também de pressionar aos congressistas que desenvolvam, votem e apliquem leis e políticas públicas direcionadas a essas minorias. Mas infelizmente o Estado tem sido omisso a isso. Desde bem antes ao icônico Clodovil, a população tem sido ignorada pelos governantes e é lembrada e pautada apenas em período eleitoral. O barulho criado pelo desserviço do Deputado Pastor Eurico, coloca em risco não só o casamento, mas a garantia do cotidiano das famílias LGBT. Como desde o simples direito de compartilhamento de plano de saúde, se estendendo a possibilidade de pensão em caso de morte. Milhares de famílias correm o risco de serem desfeitas por simples preconceito. Há um arco-íris no fim do túnel Embora conservador, o Congresso Nacional conta com nomes progressistas de peso. Érika Hilton (PSOL) e Duda Salabert (PDT), são nomes LGBTs de peso no congresso, que tem como aliado o Pastor Henrique Vieira (PSOL), que tem lutado fortemente contra o conservadorismo. Durante a votação contra o casamento homoafetivo, eles e diversos outros nomes políticos criaram a Frente Parlamentar em Defesa da Cidadania e dos Direitos da Comunidade LGBTI+, que tem por objetivo bloquear ondas conservadoras, garantir direitos básicos e lutar por políticas públicas dessa comunidade. É entendido que, o direito garantido a essa população não se limita a ela, mas se estende também a diversas outras minorias, que também estão na mira da atual onda conservadora no congresso. Ainda há muita luta, mas não estamos sós! Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Referências https://www.otempo.com.br/politica/congresso/deputados-lancam-frente-lgbt-em-resposta-a-projeto-que-proibe-uniao-homoafetiva-1.3237226 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pl-que-proibe-casamento-homoafetivo-gera-debate-mas-pode-ser-declarado-inconstitucional/ https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pl-que-proibe-casamentos-homoafetivos-no-brasil-e-inconstitucional-diz-advogada/ https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/10/11/Qual-o-c%C3%A1lculo-pol%C3%ADtico-do-discurso-contra-a-popula%C3%A7%C3%A3o-LGBTI https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/06/17/A-trajet%C3%B3ria-e-as-conquistas-do-movimento-LGBTI-brasileiro

  • A Colonização Sionista e a Resistência Palestina

    Desde o ataque realizado pelo Hamas em 7 de Outubro deste ano, a atenção internacional tem se voltado novamente para o conflito palestino-israelense. A região e a guerra que se seguiu tem sido tema de notícias e análises em diversos jornais, com professores e pesquisadores tentando explicar as origens do conflito e como essa situação tem escalado para se tornar o que é atualmente um genocídio em execução, com a invasão de Gaza por parte do exército israelense. Porém neste artigo, irei abordar as origens do conflito de uma forma diferente. Irei explicar como o movimento sionista tem um teor colonialista e desde a criação do estado de Israel, tem se esforçado de forma ativa e coordenada em realizar uma limpeza étnica na região, expulsando o povo árabe para criar assentamentos, da mesma forma que os europeus fizeram na América Latina, África, Ásia e Oceania , o que tem gerado revolta e indignação no povo palestino, que teve seu território tomado à força pelo estado israelense. Inclusive, esse processo continua em andamento, com a invasão de Gaza, porém irei me aprofundar nessa parte depois. O Movimento Sionista e Eretz Israel O sionismo é um movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel (Eretz Israel). Esse movimento surgiu no fim do século XIX na Europa , entre judeus que viviam sob a pressão das perseguições e massacres provocados pelo antissemitismo. Um de seus principais fundadores é Theodor Herzl, um jornalista judeu austro-húngaro que viveu em Paris na época do famoso caso Dreyfus , um claro episódio de antissemitismo em que um oficial judeu do exército francês foi acusado injustamente de espionar em favor dos alemães. Ao testemunhar a série de fraudes engendradas por elementos da oficialidade francesa para culpar Dreyfus com alegações antissemitas, Theodor Herzl começou a imaginar um estado judeu, onde o povo judeu não sofreria esse tipo de preconceito. Herlz inclusive escreve um um livro - Der Judenstaat – Versuch Einer Modernen Lösung der Judenfrage - O Estado Judeu - Uma Solução Moderna para a Questão Judaica, onde descreve suas visões de como tornar possível a construção de uma futura nação judaica. É importante observar que Herzl é considerado um herói para o atual estado de Israel, e muitas de suas ideias serviram de inspiração para os primeiros legisladores do dito estado. Porém, Herzl tinha uma visão bem específica de como a criação desse estado seria realizada. Ele propôs a colonização de um território , seguindo o modelo europeu, onde o povo que vivia naquele local seria deslocado e os judeus iriam criar assentamentos. Durante o primeiro congresso sionista , reunião presidida por Herzl, discutiu-se onde deveria ser instalado o Estado Judeu , dividindo-se os congressistas entre a Palestina otomana ou algum território teoricamente desabitado, como a ilha de Chipre, a Patagônia e até em alguma das colônias europeias na África, como o Congo ou Uganda . Venceram os partidários da Palestina, com o argumento de que aquela era a região de origem de toda identidade judaica na Antiguidade. "Os grandes políticos do vosso país foram os primeiros a reconhecer a necessidade da expansão colonial. Por isso tremula em todos os mares a bandeira de uma Grã-Bretanha ainda maior. (...) Em benefício da Europa, edificaremos lá uma trincheira contra a Ásia, representaremos o posto avançado da civilização contra a barbárie." T. Herzl, em carta endereçada ao governo britânico . O sionismo como colonialismo é o paradigma que vê o sionismo e o conflito israelense-palestiniano como uma forma de colonização , sendo a sua expressão máxima a construção massiva de colonatos. Em contraste com o colonialismo clássico, no caso sionista, o foco está na eliminação, em vez de exploração , dos habitantes originais de um território, ou seja, dos palestinos. Nakba e a Resistência Palestina Em 1947, a Assembleia Geral das Nações Unidas propôs a partição do Mandato Britânico da Palestina em dois estados - um judeu e outro árabe. A comunidade judaica aceitou o Plano de Partição da Palestina, enquanto a comunidade árabe palestina, apoiada pela Liga Árabe, rejeitou o plano , declarando que oporia resistência armada à sua implementação. Nakba é uma palavra árabe (النكبة) que significa "catástrofe" ou "desastre" e designa o êxodo palestino de 1948 quando pelo menos 711.000 árabes palestinos, segundo dados da Organização das Nações Unidas, fugiram ou foram expulsos de seus lares, em razão da Guerra Civil de 1947-1948 e da Guerra Árabe-Israelense de 1948 . O êxodo palestino marca o início do problema dos refugiados palestinos, um dos principais elementos do conflito árabe-israelense. Esse é o primeiro passo no projeto de colonização israelense, que visava povoar inteiramente o que era o território palestino com judeus, forçando assim a criação de uma identidade nacional . Segundo o acadêmico palestino Nur-eldeen Masalha mais de 80% dos habitantes árabes da região que viria a ser o Estado de Israel abandonaram suas cidades e aldeias. O avanço dos judeus, como o ocorrido em Haifa, somado ao medo de um massacre, após o ocorrido em Deir Yaassin, e o colapso da liderança palestina fizeram com que muitos dos habitantes árabes fugissem devido ao pânico . Uma série de leis israelenses sobre a propriedade da terra, aprovadas pelo primeiro governo israelense, impediu que os árabes palestinos retornassem posteriormente aos seus lares ou fizessem valer seus direitos de propriedade. Essas pessoas e muitos dos seus descendentes continuam a ser considerados refugiados. Esse movimento de colonização gerou muita indignação e revolta nos palestinos, culminando na criação de movimentos populares para libertação do povo palestino, tal como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), o Fatah , o Hamas e a Frente Popular para a Libertação da Palestina . Todos esses movimentos tem como objetivo a libertação do povo palestino através da luta armada, e há muito utilizam de técnicas de guerrilha e combate urbano para lutar contra o estado israelense. Conclusão Tendo em vista o projeto de colonização sionista, que tem como objetivo a assimilação total do território que era o antigo reino de Israel, eliminando de forma sistemática qualquer outra população que se encontre na região, podemos dizer que a invasão que ocorre hoje em 2023 na faixa de Gaza é nada menos que a continuação desse projeto. O ataque realizado pelo Hamas foi violentíssimo e sim, provocou o estado de Israel, porém é resultado de mais de 75 anos de opressão perpetrados por um estado colonialista e racista, que vê os povos árabes como inferiores e indignos. Liberdade ao Povo Palestino! Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Portal Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Fontes: Sionismo – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org) Hamas: o que é, origem, atuação, questão palestina (uol.com.br) A criação de Israel e a origem do conflito na Palestina - YouTube

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