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  • Stonewall: O orgulho de uma revolta

    Até o começo da década de 1960, ser membro da comunidade LGBTQIAP+ em Nova York era proibido. Demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo era considerado ato fora da lei. Para que pudessem se expressar e viver, a população LGBTQIAP+ frequentava bares fechados e era uma comunidade que estava a margem da sociedade, que vivia entre becos e vielas de Nova York na década de 60. Stonewall Inn em 2012. Era esse o público que frequentava o lendário bar de Stonewall Inn. Um dos rostos mais conhecidos era o de Marsha, mulher trans, que era frequentadora assídua do bar. Assídua porque ali era o ponto de encontro de gays, lésbicas, travestis e pessoas trans daquela época. A comunidade que frequentava aquele e outros bares da região não estavam de acordo com o padrão American Way of life, eram considerados transgressores de uma sociedade formatada e rotulada. Por isso, eram alvos de constantes ataques da sociedade tradicional e também batidas policiais, que buscavam levar "a ordem" aos espaços transgressores. Era sob esse cenário de ataques que Marsha seus amigos e outros frequentadores viviam naquela época, e foram esses ataques que culminaram na lendária noite do dia 28 de junho de 1969 . Há muitas lendas e histórias sobre essa noite. Porém é fato e sabido que, após consecutivas noites de violentas batidas policiais, naquele 28 de Junho, Marsha e seus colegas se juntaram e deram início à revolta e aos protestos de Stonewall. As reações do dia 28 se estendeu e deu início à novos protestos que se alongaram durante quase uma semana, a comunidade enfrentando bravamente a violência e agressão policial. É fato que aquela noite foi o marco de libertação da população LGBT. Marco de resistência, luta e de orgulho. Orgulho de ser o que se é! Um ano após o acontecimento foi realizada uma marcha com pessoas LGBTQIAP+ saindo do bar Stonewall Inn em direção ao Central Park em Nova York, sendo considerada a primeira parada LGBTQIAP+ da história . Lutas, organização e busca por direitos Embora seja o marco inicial de resistência, em vários lugares já haviam alguns pequenos grupos dessa população se organizando em movimentos, buscando um lugar ao sol e acesso a direitos. Vale lembrar que na década de 1980 a população LGBTQIAP+ foi brutalmente afetada pelo vírus HIV e uma das mais atacadas como causadora e disseminadora do vírus, porém as pessoas que os atacavam convenientemente esqueciam que homens casados e de família tradicional buscavam no "sigilo" pessoas trans e gays para diversão, e ao se contaminarem, transmitiam o vírus para suas outras parceiras sexuais, no caso suas esposas. No Brasil, na década 1970, o movimento LGBTQIAP+ também começou a se organizar. Em meio aos anos de chumbo, há registros de pequenas movimentações e reuniões, em busca de apoio e organização. Também nessa época, alguns jornalistas gays fizeram circular as primeiras edições do Lampião da esquina, jornal impresso voltado para essa população, que brincava com masculinidade impressa na imagem de Lampião e o local de trabalho de garotas de programa. Porém, a ditadura militar também tentou acabar com essa população que infringia a moral e os bons costumes "garantidos" pelos militares. Departamentos e delegacias foram criados, a fim de impedir que gays, travestis e mulheres trans fossem vistos a luz do dia. De acordo com estudos feitos pelo professor e doutor Renan Quinalha, espaços como a Praça da República em São Paulo e a galeria Alaska, no Rio de Janeiro, eram pontos de encontro, diversão e trabalho dessa comunidade, mas também foco de frequentes batidas e violência policial. Mesmo com o fim da ditadura militar, no Brasil, o país do carnaval e do samba, a homofobia se faz presente. Ainda na década de 80 a população gay sofria com a rejeição e preconceito, vivendo a margem da sociedade e sofrendo ameaças, como a famosa reportagem onde a jornalista questiona transeuntes na Avenida Paulista, se gays e lésbicas deveriam ou não morrer. Foi e tem sido a passos lentos e com muita dificuldade, que os direitos da comunidade LGBTQIAP+ foram conquistados, a seguir listamos alguns deles: 17 de maio de 1990, o termo homossexualismo (sic) foi banido e a homossexualidade deixou de ser considerado doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS); Em 2008, a Secretaria Especial de Direitos Humanos, distribuiu a carta com os Princípios de Yogyakarta, que era considerados direitos e deveres apresentados à ONU sobre direitos LGBTQIAP+, na primeira Conferência Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais no Brasil; Em 2011, a ONU reconheceu através de resolução que violações de direitos a essa comunidade são consideradas violações aos Direitos Humanos, porém, não há lei que assegure isso em todos os países; Em 2013, no Brasil, foi assegurado pelo STF, o direito a casais homossexuais de se casarem, proibindo que cartórios recusassem tal solicitação; Em 2015, nos EUA, foi garantido pela Suprema Corte, o direito a casais homossexuais de se casarem, já que o direito era garantido apenas em alguns estados; Em 2016, no Brasil, foi garantido o direito a pessoas trans a troca de nome em todos os documentos, garantindo a inclusão e respeito ao gênero de identificação; Em 2018 a OMS retirou do catálogo de doenças a transexualidade. Em 2019, no Brasil, foi votado pelo STF e enquadrando em crime de racismo, qualquer ato considerado homofóbico; Em 2020, no Brasil, foi banida a não autorização de doação de sangue por homens gays, antes considerados grupo de riscos em transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Mesmo com esses direitos garantidos, a população LGBTQIAP+ ainda vive de maneira vulnerável. De acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB) o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIAP+ no mundo. Em 2019 era um membro da comunidade morto a cada 27 horas. Em contrapartida o Brasil é considerado o que mais consome pornografia trans no mundo! No mundo, o simples direito a vida não está garantido a essa comunidade. Em pelo menos 70 países é crime ser LGBTQIAP+ e em alguns deles a condenação pode ser a morte. O turismo dessa comunidade não é aceito em todos os lugares. Como fato recente, temos a Copa do Mundo de Futebol, que será realizada no Catar. País onde a população gay é proibida de se expressar e pode ser condenada. Turistas da comunidade LGBTQIAP+ que tem buscado o local para o evento, tem encontrado dificuldades em reservas de hotel e recebido conselho das autoridades locais de não demonstrarem afeto em público. O preconceito e o mercado de trabalho Embora sejam visíveis alguns avanços, há muito o que se fazer. O mercado de trabalho ainda é um grande desafio, se mostrando machista e homofóbico. São poucas as empresas onde são encontradas pessoas LGBTQIAP+ em cargos de lideranças ou desempenhando papéis de confiança. Isso se agrava quando aumentamos a lupa e olhamos para a população trans, devido ao preconceito e a falta de inclusão. Ainda são poucas as empresas nos grandes centros urbanos, sem falar nas empresas do interior, que trazem a pauta de inclusão para mesa, a maioria sem qualquer plano ou projeto visando atingir positivamente a comunidade LGBTQIAP+. Porém, são essas empresas que, em todo mês de junho, se revestem de arco-íris, a fim de celebrar o mês do orgulho, em memória de Stonewall e esquecem que nos outros meses do ano continuam atacando Marsha e toda a sua comunidade. A importância da diversidade na política Aos poucos a comunidade LGBTQIAP+ tem conquistado alguns espaços e um dos principais é o campo político. Da esquerda para direita, a primeira-ministra da Sérvia, Ana Brnabić, o primeiro-ministro de Luxemburgo, Xavier Bettel, o ministro da saúde da Alemanha, Jens Spahn, o Secretário do Transporte americano Pete Buttigieg e o deputado neozelandês, Grant Robertson, fazem parte de uma onda de políticos abertamente gays no governo. Foto: Instagram. Nos últimos anos tem se observado o crescimento de políticos LGBTQIAP+ assumindo postos importantes em câmaras de vereadores, de deputados e no Congresso Nacional. São nomes de grande peso, que tem lutado arduamente para a garantia, cumprimento e reclamação pela conquista de novos direitos. Ao assumir esses espaços, esses políticos tem levado a voz dessa comunidade, que tanto sofre e é descriminada. O protesto que virou orgulho e ganhou a avenida Desde os protestos da semana de 28 de junho de 69 em Stonewall até hoje, a população LGBTQIAP+ tem alcançado direitos e saído da margem da população. Graças a organização de movimentos, protestos e paradas, tem se ganhado voz e espaço. Os protestos realizados por Marsha e seus amigos, garantiram à essa comunidade que ela tenha orgulho de ser quem é, de poder amar e viver a sua maneira. Os protestos de Stonewall se tornaram a Parada do orgulho LGBTQIAP+, convidando todos, todas e todes à celebração e luta. No último dia 19 de junho, mais de 3 milhões de pessoas LGBTQIAP+ ocuparam a principal avenida da cidade de São Paulo, a avenida Paulista, relembrando, reclamando e protestando, assim como Marsha em 69, por mais respeito, inclusão e direitos. Esses gritos e protestos ecoam não só pelo Brasil, mas também por vários outros lugares do mundo, como Tel Viv, Sidney, Los Angeles, entre centenas de outros. Muitos avanços foram alcançados e muitos direitos conquistados, não há dúvidas sobre isso. Porém, esses avanços e direitos não são alcançados por todos LGBTQIAP+. Ainda há uma grande parcela dessa comunidade que sofre o preconceito e o ódio na pele. Em muitos casos, principalmente nas classes menos abastadas, ainda não é seguro se assumir em casa uma pessoa LGBTQIAP+. A marginalização, muitas das vezes, é o caminho encontrado como tentativa de sobrevivência, para essas pessoas que são expulsas de casa por tentarem ser elas mesmas. É dever dos LGBTQIAP+ que possuem mais acessos e informação, lutar e buscar caminhos e trabalhar a conscientização para os mais expostos ao perigo da homofobia. Ainda há muito o que caminhar e conquistar, mas olhando para o passado, relembrando os antecessores volta-se os olhos para o futuro, com orgulho e com a coragem de lutar e poder ser o que se é! Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Fontes: https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/os-direitos-lgbt-no-brasil/ Quinalha, R. Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT. Ed Companhia das Letras, SP, 2021. https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2019/06/revolta-de-stonewall-tudo-sobre-o-levante-que-deu-inicio-ao-movimento-lgbt.html https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2018/junho/organizacao-mundial-da-saude-retira-a-transexualidade-da-lista-de-doencas-e-disturbios-mentais www.gov.br www.grupogaydabahia.com

  • Guerra Cultural e o diferente como inimigo

    Ao longo de toda a história da humanidade é possível identificar momentos de conflitos, ora por questões culturais, ora por valores, ora entre classe dominante e classe dominada. Exemplos disso, temos eventos como a Revolução Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Americana. Esses e diversos outros eventos contribuíram para a evolução da humanidade, trouxeram divergências de interesses e propuseram à sociedade novos modelos, o que causou atritos até que se estabelecesse uma nova realidade e a boa convivência e a normalidade voltasse. Desses conflitos surgiram diversas formas diferentes de organização, por exemplo as organizações sindicais, os movimentos pelos direitos das mulheres, o movimento negro e mais recentemente, o movimento LGBTQIA+. Esses movimentos buscam representar uma população, ou parte dela, que está à margem da sociedade. Ou seja, assume o papel representativo de um determinado segmento, que muitas vezes possui demandas que não estão sendo atendidas pelo Estado e que, de algum forma, precisa se organizar e lutar por representatividade. Esses movimentos sempre existiram, porém, de tempos em tempos, suas pautas são novamente atualizadas, de acordo com as demandas sociais daquele período histórico. Após a segunda guerra Mundial, dois fatores começaram a contribuir para que um novo momento de conflito entre diferentes ideias pudesse acontecer: A sensação de liberdade, provida pelo então chamado modelo American Way of Life , que foi um cartão postal do capitalismo moderno para o mundo, possibilitando diferentes padrões de vida e sociedade; A partir da promoção da liberdade americana, refletida em todo o ocidente, permitiu-se que movimentos sociais pudessem melhor se organizar, fortalecer e lutar por seus direitos. A soma desses dois fatores culminaram em considerável progresso no aumento dos direitos de populações minoritárias e vulneráveis, ascensão cultural, maior acesso à informação, fortalecimento da ciência e, principalmente a possibilidade de questionamento no modelo social imposto até então. Essa evolução social propôs debates entre visões diferentes e a tentativa de alinhamento social. Porém esse movimento também causou efeito reverso, fazendo com que conservadores se sentissem ameaçados e, a partir de então, passassem a se reunir em busca de combater estas novas tendências. É neste cenário posto que se torna propício o conflito entre ideias, interesses e modelo de vida e é o que tem acontecido desde então. Abaixo o debate, avante a batalha! Até então, o termo Guerra cultural ainda não era conhecido e não havia sido usado. Foi no final dos anos de 1980 e início de 1990 que esse termo surgiu. O ano era 1992 e estava ocorrendo a disputas nas primárias do Partido Republicano Americano. Foi durante a convenção do partido, em um discurso, que o termo "Guerra cultural", ganhou notoriedade e escancarou o incômodo dos conservadores sobre os valores, costumes e estilo de vida em ascensão. "Há uma guerra religiosa acontecendo neste país! É uma guerra cultural, tão crítica para nação que seremos como foi na Guerra Fria, pois é uma guerra pela alma da América!" O responsável pelo discurso foi o conservador Patrick Buchanan, então concorrente nas primárias do Partido Republicano, na disputa pela vaga de candidato a Casa Branca. Buchanan perdeu as primárias para George Bush, mas contabilizou cerca de meio milhão de votos, o que sinalizou que a insatisfação de Buchanan com o progressismo não era algo insignificante. Da convenção do Partido Republicano até hoje, já se passaram 30 anos. Desde então, a denominada Guerra cultural tomou todos os EUA, ganhou o mundo e também fez trincheiras no Brasil. O progressismo alcançado e fortalecido ao longo dos anos tem cada vez mais regredido e enfraquecido, devido aos constantes ataques. Nos EUA, desde então, movimentos conservadores têm cada vez mais se fortalecido, aumentando a frequência de ataques e protestos. A insatisfação com o progressismo fez com que fosse trazido ao poder a figura de Donald Trump em 2016, plantando a semente do movimento que viria a ser chamado posteriormente de Trumpista, que, mesmo perdendo as eleições de 2020, é resistente ao governo progressista de Joe Biden e tem se fortalecido e se disseminado através de células por todo o país. Na Europa, o enfraquecimento da União Europeia, o BREXIT, o aumento de células neonazistas na Alemanha e, mais recentemente, a vitória de Giorgia Meloni, candidata da extrema direita italiana, fatos que representam como a Guerra cultural tem se fortalecido no velho continente. No Brasil, após o governo progressista do Partido dos Trabalhadores ter tirado o país do mapa da fome e possibilitado a ascensão social de milhares de famílias, a direita e a extrema direita se apoderaram de discursos conservadores, para que fosse instaurada uma Guerra Cultural no país, a partir de discursos falsos, que muitas vezes tem como objetivo proteger os privilégios das classes mais abastadas. Além disso, em um momento de insatisfação da população com a corrupção, a extrema direita usou este incômodo social como combustível para incitar a população e promover o golpe de 2016, contra a então presidenta Dilma Rousseff. A comunicação e a desinformação como armas Para se ganhar uma guerra é necessário arma, e na instaurada Guerra cultural isso não é diferente. As principais armas utilizadas nestes conflitos têm sido a comunicação e a desinformação. Nos EUA o uso dessas potentes armas têm acontecido desde a eleição de Barack Obama, em 2008. Acusado de não ser americano, o ex-presidente foi apontado como uma fraude durante seus dois mandatos, inclusive, por seu sucessor, Donald Trump. Esse aliás, utilizou a desinformação não somente contra o ex-presidente Obama, como também contra sua rival, Hillary Clinton, na eleição de 2015. Donald Trump utiliza da comunicação e desinformação para invocar os americanos à uma suposta superioridade imperial no mundo. Ele evoca em seus seguidores a luta contra tudo que possa ameaçar a supremacia americana. Além disso, clama por um ideal conservador inexistente, algo que também é evocado pelo "Trump tupiniquim", Jair Bolsonaro. Bolsonaro conclama a seus fiéis seguidores a busca deste ideal conservador através da desinformação, inventando e incitando seu exército na luta contra o comunismo, a ideologia de gênero (sic), o feminismo, promovendo uma religiosidade barata, usando da fé e espiritualidade, algo muito presente na população brasileira. Foi com esse discurso conservador na voz de Jair Bolsonaro, que a extrema direita se viu representada no Brasil e, seguindo rigorosamente a cartilha dada por Donald Trump, a extrema direita ascendeu ao governo brasileiro e tem protagonizado uma escalada de ataques e violência, para permanência no governo. Seja nos EUA, Europa ou Brasil, a comunicação e os meios de comunicação tem sido utilizados incansavelmente como poderosas armas para disseminar a desinformação, agora também chamada de fake news. O seu alcance é avassalador e causa principalmente o ódio, provocando a polarização. Em seu discurso, Buchanan não quis utilizar de maneira figurativa. A sua sinalização foi de que uma guerra estava se iniciando. Em uma guerra há dois lados, o certo e o errado, o bom e o mau. O retrocesso e o ódio Com o conceito de Guerra Cultural introduzido, a luta tem sido desigual. A principal arma tem sido a comunicação e o principal combustível tem sido o ódio. A escalada dessa guerra tem cada vez mais trazido prejuízos e ameaças ao futuro. Enquanto esquerda e direita, adversários políticos, tentam dialogar, deixando de lado suas diferenças ideológicas em busca do fortalecimento da democracia e o bem comum, o fanatismo dos movimentos bolsonarista no Brasil e o trumpismo nos EUA, descola da realidade parte da população que, encantados por seus líderes autoritários, não tem a intenção de usar o diálogo, apenas promover o ódio contra o diferente e a necessidade de eliminar o inimigo, minando cada vez mais a base da democracia. O progresso alcançado nas últimas décadas tem sido cada vez mais ameaçado e, em alguns casos perdido, como o caso do direito ao aborto nos EUA, revogado em Junho de 2022. No Brasil, temos visto a escalada do racismo e o aumento da violência. Movimentos como o feminismo, movimento negro e LGBT, que buscam direito, inclusão e dignidade, tem recebido cada vez mais ataques. Em contrapartida, temos visto o aumento de células fascistas, racistas e homofóbicas, respaldadas pelos discursos dos seus líderes e pouco se vê medidas contra, na maioria das vezes, apenas notas de repúdio. Como em toda guerra, não se tem previsão de término e não é possível mensurar as suas perdas. Embora Donald Trump tenha perdido a eleição americana, o trumpismo ainda vive. No Brasil, Bolsonaro é o representante de cerca de 45% da população. O fanatismo alcançado plantou sementes e tem criado discípulos, ameaçando a todos, progressistas e inclusive conservadores, criando dúvidas se alguém irá sobreviver para ver o fim deste conflito. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia.

  • Rishi Sunak e os desafios de governo no Reino Unido

    Nos últimos meses o Reino Unido teve três ocupantes diferentes do cargo de Primeiro Ministro. O que esteve a frente por mais tempo, comandando inclusive o processo do “Brexit” , foi Boris Johnson . Envolto em diversas polêmicas, entre elas a presença em festas e eventos com aglomeração de pessoas durante a pandemia, acabou renunciando depois que diversos de seus secretários pediram para deixarem seus postos, o que fez com que até mesmo membros do parlamento mudassem de lado, passando à oposição. Para sucedê-lo, houve uma disputa dentro do partido Conservador e duas figuras ganharam destaque, Liz Truss e Rishi Sunak . A primeira conseguiu maior apoio e tornou-se Primeira-Ministra - a última no reinado de Elizabeth II - entretanto não conseguiu contornar a crise econômica e rapidamente perdeu apoio para continuar no cargo. O partido rapidamente se mobilizou para escolher uma nova liderança e evitar a possibilidade de novas eleições legislativas, pois, segundos pesquisas, perderia presença e poder frente aos Trabalhistas. Desta vez o escolhido foi aquele que havia perdido para Truss, Rishi Sunak. Sunak estabeleceu-se como o mais novo a ocupar o cargo na era moderna. Filho de pais com ascendência indiana, que nasceram no Quênia e na Tanzânia. Entretanto, cabe ressaltar que essa não é uma história de ascensão de uma família de imigrantes com poucos recursos já que o agora primeiro-ministro teve acesso à educação superior nas mais prestigiosas universidades. Ele apresenta um perfil capaz de cativar novos eleitores e reforçar a posição dos Conservadores. Ele também é o ocupante a chegar mais rápido ao cargo, tendo sido eleito como parlamentar pela primeira vez há apenas 7 anos. Sua formação academia prestigiosa e carreira no setor financeiro resultaram em uma fortuna estimada em US$ 840 milhões. Além de ter sido eleito parlamentar, também ocupou os cargos de Secretário-chefe do Tesouro e posteriormente de Chanceler do Exchequer, uma espécie de ministro das finanças/economia no Reino Unido. As crises do Reino Unido O país vem passando por crises em diferentes áreas e que servem de catalizadores entre si no durante o processo. São elas: Crise econômica, que vem se desenvolvendo desde as negociações e a formalização do Brexit, seguido pelo impacto da pandemia de Covid-19 e mais recentemente a invasão da Ucrânia pela Rússia. O processo longo de execução do Brexit trouxe muitas incertezas sobre as relações com o resto do continente europeu. Medidas corriqueiras como a entrada e saída de caminhões fazendo o transporte de cargas passaram a enfrentar filas longas para o devido processamento fronteiriço, causando inclusive a perspectiva de desabastecimento de itens em determinadas épocas. Pandemia, Mini Budget e a Monarquia Um acontecimento que teve impacto significativo na economia britânica foi a pandemia. As incertezas e a diminuição do ritmo da economia trouxeram novas dificuldades para todos os países. As incertezas e retomada de ritmo anterior trouxeram processos inflacionários importantes no continente europeu e o Reino Unido também foi afetado, registrando os maiores índices de inflação em décadas. Nesse contexto de inflação recorde, o gabinete de Liz Truss propôs uma isenção fiscal como forma de estimular a economia. Porém tal iniciativa não teve boa aceitação já que privilegiava apenas camadas mais altas da sociedade e de forma bastante específica. O resultado foi uma queda ainda mais acentuada da popularidade do partido perante a opinião pública. Truss rapidamente renunciou ao posto, estabelecendo o recorde de menor tempo a frente do gabinete. O partido, preocupado com esse descontentamento, agilizou para que o sucessor fosse escolhido antes que houvesse movimentação para novas eleições parlamentares. O escolhido foi aquele que havia ficado em segundo lugar anteriormente, Rishi Sunak. Com a morte da longeva Rainha Mãe, o governo britânico também terá que encarar os desafios dessa transição. Temas como a independência da Escócia e a saída de alguns países da Commonwealth voltaram a ganhar força, impulsionado pela menor popularidade do novo rei Charles III. No Canadá, a discussão sobre essa possível separação entre o país e a Coroa foi abordada rapidamente e rejeitada. Uma das interpretações para a decisão foi que o governo canadense enxergava essa separação como um sinal preocupante e poderia servir de estímulo para o movimento separatista do Quebec. Partido Conservador: baixa popularidade Partido Conservador britânico realizando votação de liderança | Foto: Stefan Rousseau/AFP No plano partidário, os Conservadores perderam popularidade nos últimos anos, sobretudo em 2022. Com Boris Johnson, enfrentaram um arrastado Brexit, uma condução por vezes inadequada da pandemia com a participação em festas e reuniões enquanto estas estavam proibidas/desencorajadas e por fim a indicação de Chris Pincher para o cargo de “ Government Chief Whip” (algo como líder da bancada) mesmo após este ter sido acusado de abusos sexuais. Após a renúncia de Johnson, o processo eleitoral para a escolha da nova liderança do partido Conservador (e consequentemente o novo Primeiro-Ministro) apresentou figuras que haviam ocupado diversas secretarias do governo, os que se destacaram mais foram: Liz Truss, antes Secretaria de Estado para Relações Exteriores e que lidava entre outros temas com a invasão da Ucrânia e Rishi Sunak. Futuro do governo O desafio de Sunak será readequar a economia britânica diante dessa tormenta, tentando ao mesmo tempo restaurar a confiança em seu partido. Diferentemente de Truss, com um neoliberalismo centrado na isenção fiscal, o plano de Sunak deve ser mais no modelo de Margareth Tacher, de quem ele é admirador. Ou seja, poderá ter um controle maior sobre o regime fiscal, reduzindo despesas e investimentos estatais. Tal prática já ocorreu quando ele era secretário. Em resposta a pandemia ele propôs a expansão do crédito, mas tão logo houve a desaceleração da pandemia o benefício foi cortado. Agora resta ver se o novo primeiro-ministro será capaz de lidar com estes desafios e estabilizar a política e a economia do Reino Unido. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Fontes https://www.theguardian.com/politics/2022/oct/24/rishi-sunak-key-facts-about-britains-next-prime-minister (acessado em 30-10-2022) https://www.theguardian.com/politics/2022/oct/25/who-is-rishi-sunak-everything-you-need-to-know-about-britains-next-prime-minister (acessado em 29-10-2022) https://www.theguardian.com/politics/2022/oct/23/most-pressing-issues-next-tory-pm-rishi-sunak-penny-mordaunt-boris-johnson-conservative (acessado em 04-11-2022)

  • Catar e a Copa das Polêmicas

    "Vamos a novos territórios!" Foi o que disse Joseph Blatter, presidente da FIFA, ao anunciar em 2010 o Catar como país sede da Copa do Mundo de 2022. Desde então, a Copa do Mundo tem somado escândalos e controvérsias. Nesse sentido, a inusitada e polêmica escolha feita pela FIFA é a coroação de uma estratégia utilizada pelo Catar para se colocar no cenário mundial. Desse modo, para entender as estratégias usadas pelo governo, é necessário viajar um pouco mais no tempo Catari e ir além de sua inesperada preferência. Catar: de país de várzea à primeira divisão do mundo No início dos anos 90, o minúsculo país do Oriente Médio não possuía quase nenhuma infraestrutura e também não era o país rico e de referência local, como é hoje. Essa história começa a mudar em 95 quando o Xeique Hamad Ibn Khalifa Al-Thani toma o poder de seu pai. Hamad tinha um plano para aquele simples país e, desde então, trabalhou arduamente para ser reconhecimento mundialmente. Foi nas mãos desse Xeique que o país deixou de ser majoritariamente voltado à pesca, à exploração de gás e ao petróleo. Foi também em seu governo que o país, que até então possuía um minúsculo aeroporto, passou a ter uma das principais companhias aéreas da Ásia, a Qatar Airways. O investimento em infraestrutura fez com que o país passasse a ser visto como influente na região, porém Hamad queria mais. Ainda na década de 1990, o país passou a ser a base área americana na região e teve a possibilidade de mediar conflitos entre os EUA e o grupo radical Talebã, tornando-se, assim, um importante mediador político. Nessa ascensão, o país desenvolveu acordos com os EUA, além de outros países, e trouxe investimentos na área da Educação e dos Negócios. Além disso, realizou parcerias com diversas universidades ao redor do mundo e atraiu centros universitários e pesquisas, o que o fez ser, portanto, uma referência dentro do Oriente Médio. Ainda dentro da agenda de Hamad, o país p assou a ser sede de eventos internacionais da região e, em 2006, sediou os Jogos Asiáticos, mirando uma possível candidatura a Copa do Mundo que se confirmou em 2010 com o inesperado anúncio feito por Blatter. A Copa dos escândalos Concorrendo com países como EUA, Japão e Austrália, a escolha do Catar como país sede foi rodeada de dúvidas e polêmicas. Vista como uma preferência feita por suborno, uma auditoria interna da FIFA não encontrou qualquer evidência de trapaça. Porém, em investigações paralelas feitas pelo departamento de Justiça dos EUA, foram identificados pelo menos metade dos 24 votantes como tendo recebido suborno para selecionar o Catar como país sede, entre eles, Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol-CBF, que também foi alvo de suspeitas de diversos escândalos. Outras evidências apontam o alto investimento em divulgação de campanha e compra de ajuda, por exemplo, as do ex-primeiro-ministro francês, Nicolas Sarkozy, que foi apoiado pelo ex-jogador Zenedine Zidane como embaixador da campanha. Após a campanha, o país adquiriu o clube de futebol Paris Saint Germain por meio do fundo de investimentos Qatar sports. Depois da escolha polêmica, o país tinha o que queria (a visibilidade internacional e um evento mundial no seu quintal), mas muita coisa ainda deveria ser feita e uma década de muitos outros escândalos estava a sua frente. A Copa das mortes Se a lógica e a razão fossem usadas como critérios na escolha do país sede de um dos mais importantes torneios mundiais, alguns requisitos deveriam ser levados em conta: Garantia dos Direitos Humanos, condições de trabalho, liberdade de expressão, acesso à informação, infraestrutura para abrigar e dar suporte ao evento, transparência no processo de escolha e, no mínimo, proximidade com o esporte a ser celebrado no torneio. No entanto, não é o que aconteceu aparentemente com a escolha do país sede do torneio mais importante e democrático do esporte. A partir de sua escolha, o Catar deveria construir diversos estádios, hotéis e melhorar sua infraestrutura para a Copa do Mundo de 2022. Por ser um país emergente e estar estrategicamente localizado no Oriente Médio, conseguiu atrair imigrantes em busca de trabalho e melhores condições de vida que vieram da Índia, Nepal, Paquistão, entre diversos outros países da região. Nesse sentido, foi desenvolvido o sistema "Kafala" , no qual mediadores ajudavam os imigrantes a entrarem no país para trabalhar nas obras para o mundial. Com a promessa de melhor condição de vida, o programa foi uma fraude e considerado como um dos sistemas de escravidão moderna , pois obrigava os trabalhadores a insanas jornadas de trabalho, em que eram submissos a temperaturas acima de 40ºC com pouca ou nenhuma condição de segurança trabalhista. Após pressão de diversos governos e entidades como a Human Rights Watch, o sistema chegou ao fim e o governo do Catar prometeu maior rigor com atravessadores e segurança aos trabalhadores. No entanto, houve pouco avanço e há uma estimativa de que mais de 6 mil vidas tenham sido perdidas nas obras para o Mundial. Segundo o governo do Catar, as mortes são superestimadas e alegam que elas são consequências de problemas de saúde que antecedem as obras. De acordo com especialistas, a projeção é de que para cada gol no mundial, são contabilizadas 39 mortes de trabalhadores escravizados. A Copa da falta de Direitos Humanos Embora o país seja um dos mais ricos do mundo e referência na região do Oriente Médio, ele ainda é retrógrado em costumes. Hoje o governo do país é absolutista e tradicionalista e é governado por Emir Tamim Bin Hamad al-Thani, filho do Emir Hamad Ibn Khalifa Al-Thani. Além das mais de 6 mil mortes, diversos outros Direitos Humanos são atacados no país. Durante entrevistas sobre a organização do mundial, o líder da comissão organizadora, Nasser Al Khater, deu diversas declarações polêmicas, atacando a comunidade LGBTQIAP+. Em uma delas, o embaixador do mundial, Khalid Salman, declarou que ser homossexual é um "dano mental" e não deve ser aceito no país. No país, ser homossexual é crime, tendo como punição a pena de morte. O país proibiu o uso de bandeiras da comunidade e expressões amorosas em público e em estádios. Além disso, há relatos de pessoas homossexuais apresentando dificuldade de realizar reservas em hotéis para acompanhar o mundial. Foram tantas declarações e ataques à comunidade que o jogador Josh Cavallo da seleção australiana, único homem abertamente gay na liga profissional de futebol no mundo, se recusou a participar do mundial. As mulheres também são alvos de violação dos Direitos Humanos, pois, por viver de acordo com as leis teocráticas, elas devem ser submissa às ordens do marido ou seu mentor mais próximo, independente do seu grau de conhecimento, nível social ou independência. Nesse sentido, vale lembrar o caso da mexicana Paola Schietekat que teve uma grande repercussão na mídia. Paola havia se mudado para o país em 2020, a fim de trabalhar na organização do mundial e foi vítima de agressão física. Ao realizar a denunciar, foi acusada de adultério e condenada a prisão, além de receber 100 chibatadas, conforme as leis islâmicas. O caso repercutiu em todo o mundo e foi oferecido a Paola a opção de ser liberta da condenação. A opção era que ela se casasse com seu agressor. Obviamente, Paola não aceitou e conseguiu deixar o país em 2021, mas a impunidade diante do crime permanece e nada foi feito com o agressor. A copa dos protestos A partir das polêmicas e denúncias, desde a escolha como país sede até a realização do mundial, o Catar e a FIFA têm enfrentado diversos tipos de protestos. A ausência de garantia dos Direitos Humanos faz desse mundial um palco de protestos, em que diversas personalidades se recusaram a estar na abertura do evento, como, por exemplo, a cantora colombiana Shakira e a britânica Dua Lipa. Em declaração ao rumor de que se apresentar na abertura do mundial, Dua Lipa declarou: "Terei o maior prazer em visitar o Catar no dia que ele respeitar os Direitos Humanos!" Em protestos contra a homofobia no país sede do mundial, diversas seleções se organizaram a favor da comunidade LGBTQIAP+. Sete seleções europeias planejavam usar a braçadeira de capitão com a bandeira da comunidade LGBTQIAP+, porém a FIFA ameaçou as seleções com "sanções esportivas", caso entrassem no estádio com a braçadeira. Mesmo com a proibição e ameaça da FIFA, o jogo que aconteceu entre Inglaterra e Irã foi marcado por protestos. Os jogadores da seleção da Inglaterra se ajoelharam em protesto a favor dos Direitos Humanos e igualdade. O capitão inglês, Harry Kane, usou a braçadeira com os dizeres "Sem descriminação". Já o time rival, Irã, promoveu outro protesto. Ao ser executado o hino nacional do país, os jogadores se recusaram a cantar. A recusa é a favor das manifestações que acontecem no país há quase dois meses, devido à morte da jovem Masa Amini de 22 anos, por usar o véu de maneira errada. A copa dos novos territórios Quando Joseph Blatter declarou que o futebol chegaria a novos territórios, provavelmente ele não imaginava que o esporte levaria na mala diversos assuntos que são extremamente urgentes para a sociedade e que seriam escancarados da maneira que temos acompanhado. Mais do que nunca está visível que não existe separação entre sociedade e esporte, uma vez que os jogos vão além das quatro linhas desenhadas no campo e trazem consigo o reflexo da sociedade. Mesmo com as imposições e proibições da FIFA, o esporte e os atletas têm encontrado maneiras de expressarem o desejo de maior igualdade e direitos a todos. Que o mundial mais polêmico dos últimos tempos possa trazer, para as quatro linhas, não apenas belos dribles e jogadas de mestre, mas a promoção da consciência de que somos todos iguais e que os direitos devem alcançar a todos. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Referências https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/8230125/catar-teve-morte-de-65-mil-trabalhadores-imigrantes-desde-que-virou-sede-da-copa-do-mundo-revela-jornal https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60950389 https://g1.globo.com/mundo/copa-do-catar/noticia/2022/11/07/paises-da-europa-pressionam-fifa-por-respostas-concretas-sobre-questoes-relacionadas-a-trabalhadores-no-catar.ghtml https://www.metropoles.com/esportes/futebol/jogador-gay-assumido-diz-que-teria-medo-de-jogar-a-copa-no-catar https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60998506 https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2022/11/18/shows-na-copa-viram-polemica-por-repudio-ao-catar-veja-quem-critica-e-quem-e-criticado.ghtml https://www.cut.org.br/noticias/fifa-proibe-dinamarca-de-defender-direitos-humanos-na-copa-do-mundo-do-qatar-ae10 https://lorena.r7.com/post/Selecoes-planejam-manifestacoes-na-Copa-do-Mundo-No-Catar

  • Democracia Corinthiana - O Futebol contra a ditadura militar no Brasil

    Sócrates - craque da década de 1980 e um dos atletas mais importantes da história do Corinthians. Foto: Irmo Celso/Placar. Em época de Copa do Mundo sempre é interessante relembrar fatos históricos do nosso incrível futebol brasileiro. E quando falamos incrível, pode não ser necessariamente um fato futebolístico, e sim um fato político. Isso é o que vamos entender hoje, que futebol e política andam de mãos dadas. Nesta semana, no dia 04 de dezembro, relembramos o falecimento do ex-jogador Sócrates, grande craque dos anos 1980 do Corinthians, um dos maiores clubes brasileiros. Doutor Sócrates, como era conhecido por ter se formado em Medicina na USP (Universidade de São Paulo), foi e é um grande ídolo do Timão, e faleceu aos 57 anos de idade no ano de 2011. Ele foi um dos idealizadores do movimento Democracia Corinthiana, ao lado de outros ídolos do time, como Casagrande, Wladimir e Zenon. Mas afinal, o que seria esse movimento histórico? O movimento, que durou de 1982 a 1984, foi consagrado em plena ditadura militar brasileira, e foi responsável por grandes mudanças estruturais no clube e fora dele. O primeiro passo Em 1981, depois de uma campanha muito ruim, a solução que alguns jogadores viam para seu time era a autogestão. Isso ajudou o Corinthians a elevar seu nível e a recuperar sua situação dentro de campo. A primeira mudança que a Democracia Corinthiana provocou dentro do clube foi a igualdade em relação aos votos, ou seja, qualquer decisão a ser tomada dentro do clube era democraticamente eleita pelos funcionários, e todos tinham o mesmo poder de voto. Desde as contratações até as regras internas, tudo era decidido através do voto democrático. O Futebol contra a ditadura militar no Brasil A luta não ficou somente dentro de campo. O movimento queria que a democracia fosse para todos, e não somente dentro do Parque São Jorge, famoso estádio e reduto dos corintianos. Os então jogadores participaram dos comícios das Diretas Já e reivindicavam a aprovação da Emenda Constitucional Dante de Oliveira que, dentre outras coisas, propunha que as eleições fossem por voto direto e democrático, algo que não acontecia desde o início dos anos 60. Inclusive Sócrates declarou que se a emenda fosse aprovada, ele continuaria no Corinthians. Porém, como sabemos da história, a emenda não foi aprovada e o jogador foi para um clube italiano. Um grande apoio fora do futebol Além dos jogadores que apoiavam e se uniam ao movimento democrático, a Democracia Corinthiana contava com a voz da cantora Rita Lee e o jornalista Juca Kfouri, entre outros. Uma voz importante, e que não quis receber salário pelo seu empenho, foi do grande publicitário Washington Olivetto, o mesmo que cunhou o termo Democracia Corinthiana. Os jogadores entravam em campo com camisas por baixo da camisa oficial com os dizeres “Eu quero votar para presidente”, “Diretas Já” e outros dizeres democráticos. A campanha foi aderida, além do time completo do Corinthians, por todas as torcidas organizadas do clube. A Democracia Corinthiana nos dias atuais Apesar de ter durado um curto período de tempo (2 anos), a Democracia Corinthiana até hoje é referência entre os torcedores do time, e ganhou muitos simpatizantes de fora do Corinthians. O movimento continua lutando pelo que deu a sua origem. Em um ato contra o racismo e as falas do atual presidente Jair Bolsonaro, uma grande bandeira da Democracia Corinthiana embalou protestos em São Paulo, no Largo do Batata. O clube, em seus dias atuais, sempre relembra esse grande ato heroico de alguns jogadores politizados da época, que “contaminaram” os companheiros com seus pensamentos de democracia e liberdade, pois para eles não bastava que o movimento fosse apenas dentro do Parque São Jorge. Até hoje o Corinthians posta em suas redes sociais grandes lembranças dos tempos de luta dos seus ídolos. A Democracia Corinthiana é inspiração para muitas pessoas, dentro e fora do Corinthians. Sócrates, Casagrande, Biro Biro e seus companheiros queriam mais além do campo e, apesar de não ter sido quando gostariam, eles e o Brasil conseguiram alcançar a tão querida democracia, de volta aos braços do povo. Texto escrito por Caroline Prado Professora de Cultura Brasileira e Português para Estrangeiros, internacionalista, estudante de Filologia e Línguas Latinas, Embaixadora do Projeto Libertas Brasil na Costa Rica, apaixonada por plantas, livros e fontes confiáveis. Fontes https://www.meutimao.com.br/historia-do-corinthians/fatos-marcantes/democracia_corinthiana https://brasilescola.uol.com.br/educacao-fisica/a-democracia-corinthiana.htm https://ge.globo.com/futebol/times/corinthians/noticia/ultimas-noticias-corinthians-democracia-corinthiana-movimento-contra-ditadura.ghtml https://www.corinthians.com.br/noticias/ha-nove-anos-a-fiel-se-despedia-do-doutor-socrates

  • Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 06 – Água Potável e Saneamento

    “País que não investe em saneamento básico é o país que está destinado à pobreza eterna. Pois quando falta saúde e falta saneamento sofre a população toda, mesmo quem tem saneamento básico”. Prof. Dr. Antony Wong, chefe do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX). O marco principal e inicial da construção de uma sociedade está intrinsecamente relacionado à água potável. Ao observarmos a nossa estrutura social e cultural é possível identificar como a vida é regida pela água. A superfície do planeta Terra é composta por 70% de água, o corpo humano é composto por 70% de água, a forma como dividimos as estações dos anos está ligada aos períodos de chuvas e secas. A água potável é a fonte de vida e responsável pela forma como nos organizamos. A importância do saneamento básico encontra-se ligada diretamente ao desenvolvimento econômico. Se observarmos os países mais desenvolvidos e ricos do mundo, perceberemos que são aqueles que investiram fortemente em saneamento básico, como por exemplo a Alemanha, que tem 100% dos municípios com água tratada, 100% de coleta de esgoto e 99% de tratamento do que foi coletado. Um caso de sucesso sobre a importância de investimento no tratamento de esgoto é a cidade de Nova York, nos EUA. Depois de cinco grandes crises hídricas na década de 1980, houve um forte investimento em saneamento básico na cidade e desde sua implantação, Nova York já passou por algumas crises hídricas sem corte de abastecimento. No Brasil, o saneamento básico só começou a ser implantado no final do século XIX, onde alguns anos depois começaram atuar os grandes médicos sanitaristas do país, como Carlos Chagas e Oswaldo Cruz. Desde essa época, os índices de saneamento básico no Brasil não acompanharam o crescimento da população brasileira e todos os dias enfrentamos os reflexos da falta de saneamento no nosso dia a dia. Podemos observar o reflexo da falta de saneamento básico a cada enchente que ocorre em nossos municípios. Vale lembrar a situação mais recente, o desastre do litoral norte de São Paulo, em São Sebastião, onde poderiam ter sido evitadas muitas mortes e perdas materiais se a cidade contasse com os quatro pilares do saneamento: tratamento e distribuição de água potável, coleta e tratamento de esgoto, drenagem urbana das águas pluviais e coleta e destinação correta dos resíduos sólidos . Os desastres que ocorrem na temporada de chuvas no Brasil não são só construções irregulares em encosta, mas a falta de saneamento básico. Após esses desastres a população sofre com doenças que estão diretamente ligadas à falta de saneamento, tais como a cólera, a leptospirose, a diarreia, a dengue, entre outras. Em 2018 foi assinado o novo marco do saneamento básico no Brasil, porém, neste mesmo ano, o projeto foi contestado pelo STF. O motivo da contestação foi de que haviam várias irregularidades que iriam atrasar a universalização do saneamento. A nova redação do marco do saneamento básico foi assinada em 2020. Um dos pontos do marco é atingir 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Porém, no ritmo atual é calculado que esse objetivo seja só alcançado em 2060. A Confederação Nacional da Indústria em um estudo apontou que os três maiores pontos que dificultam a universalização do saneamento básico são: dificuldade de acesso aos recursos já disponíveis, projetos mal elaborados e a discussão sobre a gestão do saneamento básico, sobre ser Gestão Pública ou Gestão Privada. Na minha opinião, tudo que se tratasse de benefício direto em relação à população, deveria ser administrado pelo setor público, pois já observamos várias vezes que quando a empresa de serviços destinados à população não dá lucro, a tendencia é de presentear o ônus do problema para o Estado. O Estado brasileiro já se encontra atrasado de várias maneiras em implementar o objetivo 06 da ONU, quando o seu marco de universalização do saneamento já está previsto com três anos de atraso. Estudos mostram que mais duas gerações de brasileiros podem ficar sem acesso ao saneamento. No entanto, devemos cobrar dos nossos governantes planos e ações sérias de saneamento básico para podermos evitar que desastres, como o triste caso do Litoral Norte de São Paulo, se repitam todos os dias. Saneamento básico, além de melhorar a economia de um país, é responsável por salvar vidas todos os dias. Curiosidade Histórica sobre saneamento básico A primeira Estação de Tratamento de Água (ETA) foi construída em Londres em 1829 e tinha a função de coar a água do rio Tâmisa em filtros de areia. A ideia era de tratar o esgoto antes de lançá-lo ao meio ambiente, porém só foi testada pela primeira vez em 1874, na cidade de Windsor, Inglaterra. Até 1945, a Europa passou várias crises sanitárias devido à falta de saneamento básico: Peste Negra: 1° Epidemia (1346-1352), 2° Epidemia (1665 – 1666) e 3° Epidemia (1855 – 1945). Epidemia de Cólera: 1° Epidemia (1830 – 1832), 2° Epidemia (1839 – 1851) e 3° Epidemia (1853 – 1856). Todas essas epidemias poderiam ter sido contidas por saneamento básico, mas somente em 1829 que tivemos a primeira estação de tratamento nos países considerados modernos. Os países que dominaram e destruíram as civilizações americanas só vieram entender sobre saneamento básico no final do século XVIII. Há registros de que a civilização inca, povo que constitui a região do Peru, tinha suas criações tratadas com água filtrada. Quando você visita Machu Pichu, você consegue observar o sistema de saneamento básico da civilização inca, onde a água da chuva e do degelo dos Andes eram captadas, filtradas e armazenadas para o consumo. Se a Europa ao invés de destruir e colonizar a américa tivesse aprendido com os povos originários americanos, o mundo teria evitado várias epidemias e crises hídricas no mundo. Isso demonstra o quanto a civilização europeia foi um atraso para o desenvolvimento humano. Objetivo 6. Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos 6.1 Até 2030, alcançar o acesso universal e equitativo à água potável e segura para todos 6.2 Até 2030, alcançar o acesso ao saneamento e à higiene adequados e equitativos para todos e acabar com a defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mulheres e meninas e daqueles em situação de vulnerabilidade 6.3 Até 2030, melhorar a qualidade da água, reduzindo a poluição, eliminando despejo e minimizando a liberação de produtos químicos e materiais perigosos, reduzindo à metade a proporção de águas residuais não tratadas e aumentando substancialmente a reciclagem e reutilização segura globalmente 6.4 Até 2030, aumentar substancialmente a eficiência do uso da água em todos os setores e assegurar retiradas sustentáveis e o abastecimento de água doce para enfrentar a escassez de água, e reduzir substancialmente o número de pessoas que sofrem com a escassez de água. 6.5 Até 2030, implementar a gestão integrada dos recursos hídricos em todos os níveis, inclusive via cooperação transfronteiriça, conforme apropriado. 6.6 Até 2020, proteger e restaurar ecossistemas relacionados com a água, incluindo montanhas, florestas, zonas úmidas, rios, aquíferos e lagos. 6.a Até 2030, ampliar a cooperação internacional e o apoio à capacitação para os países em desenvolvimento em atividades e programas relacionados à água e saneamento, incluindo a coleta de água, a dessalinização, a eficiência no uso da água, o tratamento de efluentes, a reciclagem e as tecnologias de reuso. 6.b Apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais para melhorar a gestão da água e do saneamento. Texto escrito por Camila Bellato ​Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Fontes https://youtu.be/qoPNtMObQsY https://youtu.be/YjAd8JYyY1U https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/11/nova-york-investe-em-preservacao-para-garantir-abastecimento-de-agua.html https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/saneamento/snis https://super.abril.com.br/historia/maias-construiram-o-primeiro-sistema-de-filtracao-de-agua-do-ocidente/ https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2015/04/canais-de-civilizacao-anterior-aos-incas-podem-solucionar-crise-hidrica-de-lima.html https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/novo-marco-legal-do-saneamento-basico#:~:text=Para%20assegurar%20o%20cumprimento%20dos,tratamento%20de%20esgotos%20at%C3%A9%202033.

  • O mesmo fato: Duas formas de comunicá-lo

    No artigo anterior, “ Migrações: A mídia e a formação da opinião pública” , foi apresentado o quão importante é o estudo do enquadramento (framings) das notícias, tendo em vista de que há influência nas atitudes e nos comportamentos das audiências. Mas será que sempre é assim? Meu leitor/minha leitora, eu quero fazer um convite para você: vamos usar a imaginação e supor uma situação. Jornalista entrevistando Você está na sua sala assistindo a televisão e o programa apresenta uma notícia sobre um evento que aconteceu recentemente titulado: “ muçulmano ataca brasileiro no meio da rua ”. Logo sua cabeça começa a refletir, imaginando o que aconteceu e estabelecendo uma opinião a respeito do assunto. O tempo transcorre, você continua fazendo suas coisas na casa e antes de dormir decide ligar a televisão cinco minutos. Nesse momento, você assiste outro jornal e eles falam sobre uma notícia, em que diz: “ uma pessoa estava a caminho de uma reunião na mesquita e teve uma tentativa de assalto. Como resultado, ele se defendeu e atacou ao ladrão ”. O que você pensaria? Continuaria com o mesmo pensamento que teve algumas horas antes? O que você do seu ponto de vista? Dois lados da mesma informação No primeiro exemplo , o framing tem a característica de ser episódico, pois ele não transmite nenhuma informação sobre o contexto . No entanto, faz com que a compreensão seja limitada e que a responsabilidade esteja focada em indivíduos específicos. Dessa forma, o problema se resolveria em relação ao “ criminoso ”. De maneira oposta, no segundo exemplo , o framing temático leva em consideração o contexto, de modo que a informação é mais completa e isso faz com que as pessoas compreendam o que aconteceu para além dos indivíduos que participaram . Interessando-se, portanto, pelas diferentes circunstâncias que envolvem a situação. Além da influência dos framings, é importante destacar o papel das emoções na compreensão dos efeitos das notícias . Tanto as atitudes quanto os comportamentos são construções sociais e estão sujeitas a mudanças, nas quais são produzidas pelo contexto e apresentam influências externas. Nesse sentido, acontece que, levando em conta os exemplos de framings , cada um/a dos/as leitores/as vão ter uma opinião diferente , simplesmente porque cada um/a ao ler ou ouvir uma notícia faz um recorte particular da realidade e esse recorte está composto por experiências, vivências, costumes, sentimentos e tudo o que compõe essa pessoa. A notícia e seus efeitos Por último, é relevante mencionar que com o passar dos anos, o conceito de framing está tendo dificuldades em relação à identificação dos seus efeitos , porque é utilizado de múltiplas formas, de modo que fica difícil a diferenciação com outros efeitos da mídia. Mesmo assim, as evidências empíricas indicam que os julgamentos preconceituosos de determinados grupos sociais são uma consequência das notícias. Pensando nisso e na importância das migrações internacionais no século XXI, no próximo artigo , vamos refletir sobre as atitudes em relação aos imigrantes. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Revisão por Mateus Santana Mestre em Linguística e graduado em Letras com habilitação em português/francês pela UNESP. Especialista em Grafologia e Neuroescrita pela Faculdade Unyleya. Amante das Artes, da Linguagem e do Discurso. Edição por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Bibliografía SALAZAR SÁNCHEZ, K. M. (2019). Notícias sobre crimes e punitivismo: uma abordagem experimental (Master's thesis, Universidade Federal de Pernambuco). BAENINGER, R. (2018). Contribuições da academia para o pacto global da migração: o olhar do sul. Migrações Sul-Sul. Campinas, SP: Núcleo de Estudos de População―Elza Berquo‖–Nepo/Unicamp . BOOMGAARDEN, H. G., & VLIEGENTHART, R. (2009). How news content influences anti‐immigration attitudes: Germany, 1993–2005. European Journal of Political Research , 48 (4), 516-542. BOS, L., LECHELER, S., MEWAFI, M., & VLIEGENTHART, R. (2016). It's the frame that matters: Immigrant integration and media framing effects in the Netherlands. International Journal of Intercultural Relations , 55 , 97-108. BRADER, T., VALENTINO, N. A., & SUHAy, E. (2008). What triggers public opposition to immigration? Anxiety, group cues, and immigration threat. American Journal of Political Science , 52 (4), 959-978. CHONG, D., & DRUCKMAN, J. N. (2007). A theory of framing and opinion formation in competitive elite environments. Journal of communication , 57 (1), 99-118. CHONG, D., & DRUCKMAN, J. N. (2007). Framing theory. Annu. Rev. Polit. Sci. , 10 , 103-126. HAYNES, C.; MEROLLA, J.; RAMAKRISHNAN, SK. Inmigrantes enmarcados: cobertura de noticias, opinión pública y política. Fundación Russell Sage, 2016. IYENGAR, S. Framing responsibility for Political issues: the case of poverty. Political behavior, v. 12, n. 1, p.p. 19-40, 1990. IYENGAR, S. Speaking of values: the framing of American politics. The Forum, v.3, n. 3, 2005. IYENGAR, S.; SIMON, A. News coverage of the Gulf Crisis and Public Opinion: a study of agenda setting, priming and framing. Communication Research, v. 20, n. 3, p.p. 365-383, 1993. MAURÍCIO A. A percepção de conflitos em relação aos imigrantes e as atitudes face à imigração em Portugal. Dissertação de Mestrado. Universidade de Coimbra. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. UC/FPC 2016 MÜLLER, T. 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  • As Ilhas Malvinas através da arte argentina

    Embora com o passar dos anos a memória do que se viveu na guerra ainda perdure, pensar na causa das Malvinas não é só mergulhar no que aconteceu durante a guerra, mas é analisar o que veio depois, fazendo surgir uma nova luta dentro de cada um dos argentinos. É levar também em consideração o trabalho feito pelos artistas que tentaram contar o que aconteceu e, ao mesmo tempo, contribuir em manter viva na memória dos argentinos a luta pela soberania. Ilustração: Getty Images No que concerne a Malvinas, existem tantos olhares delas como protagonistas dessa guerra. Por meio disso, há diferentes perspectivas que ajudam a reconstruir, a refletir sobre os erros e acertos da história, aquela que reitera a justa reivindicação de soberania que a Argentina vem fazendo desde 1833. Nesse sentido, Malvinas simboliza a defesa da soberania e ao mesmo tempo uma guerra dirigida pela ditadura civil-militar. Portanto, pensar Malvinas supõe que a sociedade argentina debate e reflete sobre os ferimentos que a guerra os deixou. Danos que continuam doendo e que muitos tentaram (e ainda tentam) enterrar no esquecimento. Mas tal esquecimento não foi possível, graças a inúmeras produções dos artigos científicos, artigos de opinião, bem como as obras de arte, fotografia, teatro, cinema, literatura, entre outros. As histórias não contadas: o silêncio que grita em memórias O dia 2 de abril é o Dia do Veterano e dos Caídos (mortos) na Guerra das Malvinas para homenagear os ex-combatentes e reivindicar a soberania do território das Ilhas Malvinas. Imagem: AP Photo – C. Beattie Um exemplo é a novela "Las Islas" de Carlos Gamero, publicada em 1998, que foi um dos escritos mais complexos, devido à profundidade do relato da pós-guerra e do que significou para os ex-combatentes: "Deixamos um espaço preciso quando saímos, mas ali mudamos de forma e quando voltamos não nos encaixávamos mais, por mais que nós déssemos voltas no quebra-cabeça. Voltamos dez mil iluminados, loucos, profetas, malditos, e lá vamos nós, soltos pelos quatro cantos do país, falando uma língua que ninguém entende, fingindo trabalhar, jogar futebol, foder, mas nunca completamente em algum lugar, sempre sabendo disso, algo de nosso valor e indefinível foi enterrado ali. Nos sonhos, pelo menos, todos nós voltamos para procurá-lo. Você entende? Não é o criminoso que volta ao local do crime. Ele é a vítima, baixo a esperança tirânica de mudar aquele resultado injusto que a prejudicou. Vá perguntar aos ingleses. Quantos você acha que querem voltar? Somos nós, os perdedores, os esfarrapados, os que gritam. Voltaremos toda vez que alguém quiser ouvir. O que pode interessar a revanche ao vencedor? O inferno nos marcou de tal forma que acreditamos que ao voltar faremos dele o paraíso e a noite acordamos chamando os demônios de papai que enfiam arpões em nós rindo. Sabe por que dez anos depois continuamos a nos disfarçar dessa forma, nos reunindo para organizar expedições impossíveis, reconstruindo os segundos de cada um daqueles dias que seria melhor esquecer? Estamos infectados, entende? Carregamos no sangue e vamos morrendo aos poucos, como o chagásico (doente da Doença de Chagas). Você não viu que eles são iguais os pólipos? A cada ano que passa eles se espalham um pouco mais, como aquelas manchas na parede. Trauma de guerra não é tão fácil. Estamos apaixonados até o âmago e os odiamos. Fetichistas, adoramos uma foto, uma silhueta e uma bota velha. Não é verdade que houve sobreviventes. No coração de cada um há dois pedaços arrancados e cada mordida tem o formato exato das ilhas" (tradução própria). Por meio da novela, Gamero transmitiu versões da história, imagens e imaginações da guerra, mas também os imaginários a ela ligados. Mais do que um quebra-cabeça, “Las Islas” parece formar um caleidoscópio, no qual a história se mistura, combina e transforma. Alguns anos depois, o cantor "Ciro y los Persas" escreveu "Héroes de Malvinas" . Na canção , Ciro captou muito bem o cenário do momento e conseguiu colocar os combatentes no papel correto e indiscutível: o de heróis. "A indiferença do seu povo pode ser mais que a bala mais voraz do inimigo, haviam menos heróis mortos na frente do que no campo de batalha do esquecimento. E permanecerão eternas sentinelas sem alívio esperando que algum dia Sem sangue fluindo, o azul claro e o branco retornarão para incendiar aquelas terras argentinas. Eles sempre serão Heróis, eles sempre serão Heróis para sempre nossos Heróis das Malvinas" Uma manobra insensata para oxigenar um governo sufocado O que se pode ler nos diferentes artigos, canções, novela, relatos é a disparidade de forças e a afirmação de que a recuperação das Malvinas foi uma operação mal planejada e mal executada, decidida para dar um pouco de oxigênio a um governo agonizante do que para concretizar o desejo de unidade territorial ameaçada por um enclave colonial. Com homens sem preparo adequado, carentes de vestimentas e insumos essenciais para uma disputa em um clima tão hostil e em um território distante do continente, as possibilidades táticas de obter uma vitória eram baixíssimas. Puerto Stanley, capital de las islas Malvinas o Falkland - Imagem: Getty Images – D. Garcia Os militares de carreira careciam do treinamento necessário para uma operação dessa natureza, tendo por décadas sua principal ocupação desempenhada por supostas tarefas de inteligência contra o "inimigo interno", reprimindo os setores populares e participando ativamente da política como a mão dos golpistas. Estado que interrompeu governos democraticamente eleitos, com o consentimento dos setores econômicos e instituições que, como a Igreja, foram favorecidos por esta ação. Concluindo, pode-se dizer que a memória coletiva foi construída em torno da comemoração da guerra, chegando mesmo a colorir a reivindicação da soberania, que se encontra ligada ao reconhecimento dos mortos e sobreviventes do combate. A reivindicação da soberania sobre as ilhas é vista como uma homenagem a esse sacrifício e a sua demissão surge como uma traição à memória e ao empenho daqueles que lutaram pela pátria. Manter viva a memória é vital para entender o porquê as coisas aconteceram do jeito que aconteceram e, para isso, tem-se que transformar a derrota em ocasião de reflexão sincera sobre o passado. Compreender o passado ajuda no entendimento e não repetição dos mesmos fatos no futuro. Uma sociedade nunca será justa se não tiver memória, e essa é uma batalha que exige trabalho diário. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Revisão textual realizada por Mateus Santana Mestre em Linguística e graduado em Letras com habilitação em português/francês pela UNESP. Especialista em Grafologia e Neuroescrita pela Faculdade Unyleya. Amante das Artes, da Linguagem e do Discurso Edição e arte por Katiane Bispo Formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas. Integrante do Projeto Líbertas Brasil e é podcaster no programa "O Historiante". Bibliografia González, A. S., Manduca, R., & Perera, V. (2019). (Re) Pensar Malvinas: visualidades, representaciones y derechos humanos. Nuevo Mundo Mundos Nuevos. Nouveaux mondes mondes nouveaux-Novo Mundo Mundos Novos-New world New worlds. Esteban, E. (2018). Pensar Malvinas. Maíz . Belvedresi, R. E. (2022). Malvinas: el dolor y la memoria. Anales de la Educación Común , 3 (1-2), 123-132. Segade, M. L. (2015). Malvinas: Una representación inconclusa. En torno a La forma exacta de las islas. Corte, M., & Mallades, J. (2015). El Museo Malvinas pensando la voz del Estado a partir del análisis de un lugar de memoria. Revista HACHE , (2), 8-23. Segade, M. L. (2015). Malvinas: Una representación inconclusa. En torno a La forma exacta de las islas. Ciro y Los Persas. (2012). Héroes de Malvinas [canción]. En 27 . 300.

  • Escravidão contemporânea: a coisificação de pessoas ao longo de um dia que não acaba

    "O 14 de maio de 1888 apresenta-se como o dia mais longo da história do Brasil." A frase do professor Hélio Santos é uma crítica ao período seguinte à Lei Áurea, que sancionou formalmente o fim de 354 anos de escravidão no país, para muitos a mais duradoura do mundo . A abolição assinada pela princesa Isabel não foi sucedida por políticas públicas integrativas que visassem à eliminação progressiva de violações dos direitos humanos e de desigualdades socioeconômicas, as quais se consolidaram como aspectos constitutivos da sociedade brasileira e, de maneira estrutural, relegam parte importante da população, ainda hoje, ao estado de coisa. Os casos recentes de escravidão contemporânea, nas vinícolas de Bento Gonçalves/RS e na montagem do festival Lollapalooza em São Paulo/SP, revelam que a ausência de salvaguardas capazes de regular relações de trabalho equânimes e de garantir cidadania efetiva para todas as pessoas faz com que o 14 de maio de 1888 possa ser entendido como " o dia que não acabou ". A constituição da sociedade e da economia ocorreu de maneira bastante heterogênea no Brasil. O modelo colonial, baseado na grande propriedade e no regime escravista, gerou cisões que fragmentaram o país racial e socialmente, bem como geográfica e economicamente. O acesso restrito à cidadania e a instâncias de poder político, condicionado por critérios de renda e de letramento , gerou discrepâncias em meio a uma população composta, primordialmente, por pessoas pobres, analfabetas, pretas e mestiças, distribuídas pelo vasto território. Havia certa esperança de que a extensão da educação, a participação política em massa e a ampliação de oportunidades econômicas fossem prioridades após a Lei Áurea. Não obstante, como constatou o sociólogo Florestan Fernandes, a preocupação com o destino do indivíduo escravizado existiu enquanto se ligou a ele o futuro da economia brasileira. Com a Abolição pura e simples e com a transição em curso para o regime de trabalho livre, a atenção dos senhores se volta para seus próprios interesses diante do desafio de inserção do Brasil em uma nova ordem econômica internacional. Por conseguinte, a posição da pessoa liberta no sistema de trabalho, assim como sua integração à dinâmica social, deixa de ser matéria política, perpetuando, portanto, a reprodução do ciclo de coisificação de seres humanos por meio da escravização. A Escravidão Contemporânea Na legislação nacional, o artigo 149 do Código Penal estabelece que trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes e restrição de locomoção, seja por dívida contraída, por vigilância ostensiva, por apreensão de documentos ou objetos pessoais, bem como por cerceamento do uso de meio de transporte, são elementos que configuram, contemporaneamente, a escravidão. No âmbito internacional, o Estado brasileiro se comprometeu com o combate à prática de coisificar pessoas quando tomou parte em diversos dispositivos, como a Convenção das Nações Unidas sobre Escravatura de 1926, o Pacto de São José da Costa Rica de 1969, as resoluções 29 e 105 da Organização Internacional do Trabalho, entre outros. Além disso, o Brasil é signatário de compromissos, como, por exemplo, a Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano de 1972, que celebram o direito à livre escolha de emprego, a condições justas e a modo de vida satisfatório em ambiente que conceda ao indivíduo dignidade e bem-estar. Apesar de a consolidação do conceito de trabalho escravo contemporâneo no ordenamento jurídico brasileiro representar fundamental avanço na luta contra essa forma de exploração, estatísticas indicam crescimento na ocorrência de casos. Apenas no ano passado, 2.575 pessoas foram resgatadas de relações laborais análogas à escravidão em 23 das 27 unidades federativas pelo país. Um aumento de 31% no número de vítimas em relação a 2021. Conforme os dados do Ministério do Trabalho e Emprego, isso perfaz um total de 60.251 trabalhadores libertados desse contexto desde a criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) em 1995. Esse grupo faz parte da Divisão para Erradicação do Trabalho Escravo (DETRAE) da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) e, em 2016, foi reconhecido pelas Nações Unidas como ferramenta fundamental no esforço atual de suprimir a coisificação de indivíduos. As ações do GEFM são resultado de articulação interinstitucional e têm como objetivo o reconhecimento do resgatado como sujeito detentor de direitos. Para isso, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel viabiliza rescisão de contratos, reparação dos danos trabalhistas por meio do pagamento de verbas rescisórias, seguro-desemprego, retorno ao local de origem, caso alguém tenha sido também vítima de tráfico humano, e encaminhamento para assistência social. Atualmente, de acordo com o estudo feito pelo sociólogo José de Souza Martins, a pessoa escravizada no Brasil é, geralmente, jovem, do sexo masculino, oriunda da região do Nordeste, com baixo grau de escolaridade e autodeclarada preta ou parda . Durante a entressafra da agricultura familiar, em busca de recursos para superação da escassez, esses indivíduos acabam sendo aliciados por empresas terceirizadas, não raramente por meio de ardil e de ocultamento de artifícios de endividamento, para atividades temporárias, como colheita de frutas, reflorestamento e confecção de roupas. O DETRAE divulga, semestralmente, a lista com empregadores flagrados submetendo trabalhadores à situação análoga como a de escravizado. Ainda segundo Martins, em um mundo em que o trabalho tem sido sistematicamente desvalorizado, a terceirização não é somente um catalisador da escravização, mas um meio de institucionalizá-la. De acordo com as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada no último trimestre de 2022 e apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 40 milhões de indivíduos estão na informalidade, em grande medida vulneráveis à exploração e à lógica que transforma pessoas em coisas. Trabalho e Dignidade Além de reflexão mais aprofundada sobre a precarização das relações de trabalho, o enfrentamento da escravidão contemporânea está diretamente associado à implementação de medidas inclusivas que concedam à população afetada pela herança do regime escravista acesso à educação, à habitação, à saúde, à cidadania e, finalmente, à experiência plena de liberdade e de humanidade. A historiadora Carla Menegat, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), afirma que o Brasil não elaborou um pós-emancipação que realmente construísse a percepção (e o fato) de que os libertos em maio de 1888 eram cidadãos brasileiros com plenos direitos. Embora esse desafio seja global, já que a escravidão ocorre em todas as regiões do mundo, é imprescindível que o Brasil busque soluções originais a fim de sanar esse problema que tem complexidades ligadas às idiossincrasias do processo de formação socioeconômica do Estado brasileiro, expressivamente caracterizada pelo déficit de representatividade que a concentração de riqueza e de poder legou. Como inspiração na luta pela erradicação do trabalho escravo em território nacional, existe a figura de Pureza Lopes Loiola. Uma mãe que foi, desde o Maranhão até o Pará, em busca de seu filho aliciado e escravizado. As denúncias e os registros feitos por Dona Pureza, a partir de 1993, concorreram para a criação do GEFM e seus esforços foram reconhecidos internacionalmente, tendo sido homenageada, em 1997, com o Prêmio Anti-escravidão, oferecido pela organização não governamental britânica Anti-Slavery International, a mais antiga organização abolicionista em atividade. A trajetória da maranhense que virou símbolo do empenho contra a escravidão contemporânea foi retratada no filme Pureza, dirigido por Renato Barbieri, lançado em 2022. Nesse sentido, é urgente que as discussões sobre as relações de trabalho ganhem os holofotes e incluam os diversos setores da sociedade brasileira que, historicamente, foram afastados do debate público e dos processos decisórios que há muito têm determinado, à revelia, seu destino como coisas. Assim como canta o rapper Emicida, é tudo pra ontem. Afinal, o dia 14 de maio de 1888 precisa acabar. Texto escrito por Eduardo Augusto Formado em Relações Internacionais, gosta de pensar sobre o lugar do Brasil no mundo, e tem vivo interesse por tudo que possa (re)formar a essência e a estética da identidade nacional. Revisão por Mateus Santana Edição por Eliézer Fernandes Quer saber mais sobre esse tema? Nosso parceiro o podcast Historiante tem um episódio recente sobre Escravidão Contemporânea, escute aqui! Fontes Hélio Santos – Participação no programa Provocações da TV Cultura (2014) https://www.youtube.com/watch?v=qfouVRsqLQ4 Florestan Fernandes – A integração do negro na sociedade de classes (1964) José de Souza Martins – O cativeiro da terra (2010) Dados de pessoas resgatas de situações análogas à escravidão https://sit.trabalho.gov.br/radar/ Dados sobre trabalho informal PNAD Contínua https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/36350-desemprego-cai-em-oito-unidades-da-federacao-no-quarto-trimestre

  • A educação brasileira está ultrapassada?

    Foto: Arquivo/Agência Brasil É de conhecimento de todos que a educação brasileira passou por um desmanche nos últimos anos. O relatório final da transição do Governo de Bolsonaro para o de Lula sinaliza que: "De 2019 a 2022, o Ministério da Educação (MEC) e suas autarquias sofreram retrocessos institucionais, orçamentários e normativos, observando-se falta de planejamento; descontinuidade de políticas relevantes; desarticulação com os sistemas de ensino estaduais e municipais e da rede federal de ensino; incapacidade de execução orçamentária; e omissões perante os desafios educacionais" O presidente Lula, em seu terceiro mandato na presidência do Brasil, herda um dos piores momentos da área Educação desde a redemocratização, uma vez que há grandes sequelas da pandemia da COVID-19, evasão escolar em crescimento, pesquisa científica sucateada, Plano Nacional de Educação (PNE) de 2014-2024 com menos de 40% das metas alcançadas, uma crescente onda de violência nas escolas, entre diversos outros percalços. Entre tantos desafios a serem enfrentados na presidência de Lula, há um sutil desafio a ser enfrentado que pouco se é falado, porém não menos importante: o conflito de gerações entre aluno e professor e o abismo que os separam. Geração Z e as pílulas de aprendizagem Nascidos no final dos anos de 1990 até 2010, essa geração que está entre aqueles que cursam o Ensino Médio e o Ensino Superior é a primeira que cresceu inserida na era das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) e parte dela teve acesso imediato a essas tecnologias. Com o acesso mais facilitado às ferramentas de comunicação e a tecnologia, esse público recebeu desde a infância informações de maneira instantânea. Eles viram ao vivo o atentado terrorista às Torres Gêmeas, no dia 11/09, e puderam acompanhar pela TV a eleição de um Papa, entre outros eventos importantes. Toda a velocidade disponível a informações e conteúdos através de apenas um clique e de maneira facilitada tornou essa geração uma das mais imediatistas já vistas na história. Essa geração tem disponível, ao alcance de um clique, dados, análises, aplicativos para desenvolvimento e diversos tipos diferentes de conteúdo que permitem com que ela acesse qualquer tipo de informação. Essa geração chega ao banco da sala de aula com a informação, aplicação e a opinião já praticamente formada. Formato de educação atual A maneira de educar foi e é o retrato da sociedade. Durante toda a história humana, a forma de educar tem sofrido mudanças. A educação já foi considerada privilégio para poucos, foi vetada e dominada pela igreja durante anos, mas hoje é considerada uma maneira de se obter desenvolvimento pessoal, ascensão social e qualificação profissional. Além disso, é considerada como instrumento para desenvolvimento social e cultural. O aumento do número de recursos tecnológicos, a possibilidade de estudar em diferentes formatos, tornando o modelo de estudo até mais flexível, tem trazido mais comodidade para o aluno da geração Z. No entanto, essa comodidade esbarra em um grande desafio que é o formato da educação atual. O professor e o modelo de educação O modelo de educação atual predominante é o mesmo modelo utilizado por nós, pelos nossos pais e avôs, ou seja, de 50, 60, 70 anos atrás. Nesse formato, todos nós sentamo-nos um dia em uma carteira escolar, recebemos do professor todo o conteúdo e após determinado período éramos avaliados. Até aqui o professor era o detentor do conhecimento. Era ele quem trazia a informação para o aluno. Em uma breve análise sobre as gerações Baby Boomer (1946-1964), geração X (1965-1985) e geração Y (1985-2000), é possível observar que houve uma evolução tecnológica e social, porém foi gradativa e não alterou diretamente o formato social. Já a partir do surgimento da internet e das TICs , a evolução é quase que exponencial, tendo em vista que afeta não apenas a forma de se comunicar, mas o estilo de vida, o mercado de trabalho, o formato de consumo, entre vários outros aspectos sociais. Entretanto, o modelo de educação evoluiu pouco, que ainda é, praticamente, o mesmo utilizado pela geração Baby Boomer. Neste modelo de educação, o conflito com a geração Z é frontal. Embora já seja possível ser inserido em pequenos modelos de mudança na educação, as leis, as normativas e a própria estrutura curricular em si ainda estão presas a um modelo formatado e que pouco abre espaço para grandes mudanças. Preso a este formato, encontramos o professor oriundo e adaptado ao modelo no qual ele se formou e foi inserido no mercado de trabalho e agora se vê em uma sala de aula com jovens que cresceram em meio a tecnologias que muitas das vezes ele mesmo não possui conhecimento e, em diversos casos, nunca teve acesso. Diante desse cenário, o docente recebe o aluno munido de diferentes equipamentos e informações, pronto para questionar e argumentar sobre determinado tema abordado. A partir de então, o docente não é mais o detentor do conhecimento. Ele tem a posição de mentor e orientador do aluno. O papel do professor agora vai além de apresentar e compartilhar o conhecimento, pois tem por objetivo direcionar e orientar o aluno diante do bombardeio de informações ao alcance de um clique. No entanto, como o docente pode conseguir isso, sendo que em muitas das vezes ele não foi preparado e capacitado para enfrentar essa nova realidade? O atual Governo tem em mãos grandes desafios e um dos principais é o formato de educação. O PNE previu algumas mudanças e capacitações na direção apresentada neste artigo, mas pouco se fez. Houve um golpe de Estado, um Governo de extrema-direita e uma pandemia. Sendo assim, a educação mais uma vez ficou para trás e pouco evoluiu. Sabe-se que a educação é o reflexo da sociedade, porém, com a velocidade em que o mundo tem mudado, o atual formato não tem acompanhado tais atualizações. É possível observar movimentos educacionais que apontam para outros modelos, mas ainda há muito a ser considerado sobre os novos modelos. No ano de 2024 haverá uma discussão do novo PNE, em que serão discutidas e direcionadas novas propostas e direcionamentos para os próximos dez anos. Diante do atual cenário é urgente que sejam discutidos o atual modelo de educação, a formação e a capacitação do docente dentro da sala de aula. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Revisão: Mateus Santana Edição: Eliézer Fernandes Referências https://www.cartacapital.com.br/educacao/os-desafios-do-mec-na-gestao-lula-segundo-o-grupo-de-transicao/ https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64105495 https://blog.lyceum.com.br/desafios-do-professor-na-atualidade/ https://www.sponte.com.br/geracao-z-como-lidar-com-eles/ https://www.terra.com.br/noticias/100-dias-de-governo-lula-abertura-de-dialogo-na-educacao-ciencia-e-tecnologia,04bbf26ae3cc40a719b7b41cf5959f31vewixcjx.html

  • Imigrantes LGBTQIAP+, uma dupla discriminação

    O texto forma parte de um artigo apresentado no diplomado digital de Liderança em Inclusão Social e Acesso a Direitos da Organização dos Estados Americanos (OEA) A forma de organização do Estado é a Constituição Política, pois ela garante o direito de viver livre de discriminação e de ter igualdade perante a Lei, por meio de princípios que proíbem condutas e práticas contrárias à dignidade da pessoa humana, sem qualquer distinção. Bandeira do orgulho LGBT. Foto: Getty Na América Latina e no Caribe, os diversos instrumentos de direitos humanos aprovados pelos Estados não são suficientes e a população LGBTQIAP+ enfrenta uma grave discriminação baseada na orientação sexual e na identidade de gênero que é aprofundada por variáveis ​​associadas à questão migratória (Montenegro et al, 2020). O rápido aumento da presença de imigrantes nos diferentes países incrementou o interesse em saber mais sobre o assunto e sobre o aspecto da heterogeneidade. Esse aumento reflete as diferentes modalidades do movimento migratório que podem ser por inúmeros motivos, como familiares, econômicos, políticos, refúgio, ambientais, entre outros. Vale ressaltar, em relação ao conceito de imigrante, que neste texto será tratado como tal qualquer pessoa que chegue a um país diferente do seu país de origem e motivada por motivos voluntários. Por outro lado, quando se faz referência à discriminação, ela deve ser pensada como algo que ocorre com tudo o que é considerado diferente do que é normativo, por isso também podem ser vítimas pessoas relacionadas a raças, estratos, nacionalidades, ações de exclusão, gêneros etc. Identidade, sexualidade e aceitação A sexualidade é a forma como uma pessoa é percebida e identificada, é um aspecto que impacta ao longo da vida e que marca a forma como ela se expressa. Nesse sentido, podem ser apreciados dois conceitos: orientação sexual e identidade de gênero. O primeiro está associado à atração e/ou interesse sexual afetivo e o segundo é uma construção pessoal que se realiza tendo como referência padrões culturais, tradições, expectativas, entre outros. Culturalmente alude à forma binária duas identidades de gênero: feminina ou masculina, sendo a heterossexualidade a orientação sexual que historicamente predominou na sociedade (Acosta et. al, 2017). Embora o exposto acima nos permita compreender o pensamento e as normas culturais, devemos levar em consideração que existem pessoas que não podem seguir esses parâmetros, porque a construção de sua identidade não é baseada no sexo de nascimento e sua orientação sexual não é para o sexo oposto. Tal diversidade sexual implica na fragmentação do que é socialmente esperado, gerando medos e preconceitos que impactam a forma como as pessoas se relacionam com outras pessoas. Desse modo, causa-se, assim, discriminação e uma consequente exclusão de diversas áreas como trabalho, educação, família, entre outras (Acosta et. al, 2017). Portanto, se as duas variáveis ​​estiverem correlacionadas: a questão migratória e o pertencimento à comunidade LGBTQIAP+, o nível de ações discriminatórias pode aumentar e causar violações e comprometer o exercício de direitos . É por isso que, no presente trabalho, tentamos lançar luz sobre a visibilidade dos direitos dos migrantes LGBTQIAP+, propondo ações afirmativas tanto de entidades quanto de cidadãos. O fato de ter uma orientação sexual em desacordo com a heteronormatividade, somado à discriminação por ser imigrante, cria um terreno fértil que favorece a exclusão social. Nesse sentido, chama a atenção a falta de capacitação dos profissionais das diversas áreas quanto à sensibilidade para o tema LGBTQIAP+. Sem ir mais longe, em diferentes campos, muitos profissionais se manifestaram abertamente contra essa comunidade. Que paradoxo, não é? Imigração e a comunidade LGBTQIAP+ Ilustração: Patrícia Ester/ Ascom-Seds, retirado do site seguranca.mg.gov.br Diante disso, cabe perguntar: como podemos ajudar os migrantes LGBTQIAP+ a tornar visível sua existência, cooperar em sua integração na sociedade e garantir o acesso a direitos? Não é fácil reivindicar reconhecimento e respeito por identidades sexuais que transgridem padrões culturais e a consideração bidimensional de gênero e que criem juízos de valor. A causa do coletivo LGBTQIAP+ é justamente por não conseguirem desenvolver suas identidades e direitos de cidadania, sendo considerados muitas vezes cidadãos de segunda classe. No caso do coletivo LGBTQIAP+ imigrante, despoja-o de todos os direitos civis e humanos. Atualmente e no alvorecer do progresso é hora da comunidade imigrante LGBTQIAP+ lutar por reafirmar a sua presença e participação cidadã, exigindo não só o respeito pelas suas identidades como também o seu reconhecimento pelos cidadãos, enquanto comunidade integrada na sociedade e não diferenciada, que a enriquece e diversifica. Este trabalho começa com seus protagonistas, o próprio grupo imigrante é quem deve se conscientizar e se mobilizar em prol de seus direitos, a fim de garantir o efetivo cumprimento de seus direitos e a possibilidade de levar uma vida plena, feliz e satisfatória (Acosta, 2013). Contudo, a luta deve ser contra preconceitos e estereótipos, reconhecendo e respeitando o amor à diversidade. Caso contrário, acontecerá que, enquanto permanecerem assentados no coletivo imaginário, só será possível alcançar uma integração ilusória desse coletivo LGBTQIAP+ por um lado, e o imigrante, por outro. Por isso, esforços devem ser direcionados para minimizar esses aspectos nos quais a sociedade tradicionalmente se valeu para discriminar aqueles que não se conformam com o que está estabelecido. Realização de um conjunto de medidas, entre as quais podemos citar: atividades de cooperação internacional entre diferentes países, uma vez que adquirem relevância fundamental, bem como a mediação social e familiar, por desempenharem um papel importante na intervenção social. Somente sobre esses fundamentos é que caminhos de reivindicação podem ser considerados e políticas verdadeiramente eficazes podem ser erguidas para que, assim, forneçam soluções adequadas às necessidades do coletivo imigrante LGBTQIAP+. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Revisão por: Mateus Santana Edição por: Eliézer Fernandes Fontes Acosta Camacho, O.L., Gonzalez Summer, V.D.P., Prieto Rodriguez, Y.M., & Rodriguez, R.H. (2017). Mulheres trans na velhice; dupla discriminação. Proposta de fortalecimento institucional da gestão social para inclusão social e garantia de seus direitos. (Dissertação de doutorado, Corporação Universitária Minuto de Dios). Acosta, M. M. (2013). EL SEXILIO EN LA ERA DE LA SUPERDIVERSIDAD Visibilizando el colectivo LGBTI inmigrante. SEXUALIDADE(S) E CIDADANIA(S) , 94. Gómez Ronquillo, W. J. (2016). O direito internacional do igualitarismo e as agências internacionais na proteção e inclusão social da população LGBTI (Tese de mestrado, Universidade de Guayaquil. Instituto Superior de Pós-Graduação em Ciências Internacionais "Dr. Antonio Parra Velasco"). Montenegro, M., Montenegro, L.C.H., & Torres-Lista, V. (2020). Os direitos das pessoasLGBTIQ+, agenda de gênero e políticas de igualdade. encontros. Revista de Ciências Humanas, Teoria Social e Pensamento Crítico. , (11), 23/09. Pereira, V. M. (2021). Migrações e refúgio LGBT+: democracia sexual em tempos de crise. Revista Stultifera , 4 (2), 55-79. Valles, J. R. (2016). Normalizar e universalizar: os riscos de exigir direitos humanos para pessoas LGBT. intertextos , (22). Velázquez, E. G. SOBRE A MARGINALIDADE E A VIDA NA DIFERENÇA. PRÁTICAS DE EXCLUSÃO NO ZAPOPAN: INDÍGENAS, MIGRANTES, MULHERES E POPULAÇÃO LGBT. Dr. Salvador Leetoy López/ITESM (Coordenador Geral) Dr. Pablo de la Peña Sánchez/ITESM (Coordenador) Lic. Carlos Alberto Roque Pineda/ITESM (Coordenador) , 461.

  • Apropriação da pauta racial no Brasil

    O Brasil ainda é um país que vive a sombra do racismo. Digo isso primeiramente porque o nosso país foi um dos últimos a abolir a escravidão e, mesmo assim, só aboliu por pressão internacional e interna. Quando aboliu, deixou aqueles que foram retirados de suas terras e tiveram seus direitos anulados por tantos anos, jogados nas ruas, marginalizados e sem ter para onde ir. Foto: MAPP Actions for Anti-Racism. Retirado de https://arch.umd.edu/news-events/mapp-actions-anti-racism Muitos foram para lugares abandonados e morros. Assim, iniciou-se a formação das favelas . Além disso, todos os dias vemos casos de violência racial explodir, mesmo com toda informação à disposição. Quando falamos sobre racismo, somos taxados como chatos, neuróticos, que estamos procurando coisas onde não há, mas quem vive na pele sabe bem do que estou falando. Resolvi escrever este artigo porque cansei de ver a pauta racial ser tomada por empresas e pessoas que não têm compromisso com a luta antirracista, que se utilizam do movimento para ficar bem na foto e para encher seus cofres de dinheiro, já que o movimento negro, e uma parte significativa da sociedade, não tolera mais o crime de racismo, que até outro dia não dava em nada. Caso Carrefour O primeiro grupo é o do Carrefour, que desde 2009 pratica diversos e graves crimes de racismo, inclusive com morte no ano de 2009. Vale lembrar alguns casos, dentre eles, destaco o do Januário que foi espancado por funcionários do Carrefour. Segundo o grupo, ele estava tentando roubar um carro, mas o detalhe que chama atenção é que o carro era do próprio Januário. O vigilante Januário Alves de Santana em sua casa em Osasco, subúrbio da Grande São Paulo. Foto: Página Pensar a História no Facebook. Em 2018, no Carrefour de São Bernardo, João Carlos, deficiente, também foi espancado, só que dentro do banheiro por abrir uma cerveja. Entre os anos de 2017 e 2018, uma mulher dependente química foi espancada e estuprada por furtar alimentos no Carrefour Rio de Janeiro. Um caso resultante de morte foi o espancamento até a morte de João Alberto Silva Freitas por dois seguranças no Carrefour de Porto Alegre. Entre os casos mais recentes, temos o caso da professora Isabel, que ocorreu neste ano de 2023. Ela afirma ter sido perseguida por um segurança durante todo o tempo em que ficou dentro do Atacadão pertencente ao grupo Carrefour. Revoltada, ela ficou apenas de lingerie para provar que não estava roubando nada. Do ano de 2009 até agora, são 14 anos de casos e mais casos de crimes com recortes raciais, envolvendo o mesmo grupo e suas ações têm sido aquém do que precisa ser tomado. Só passaram a se movimentar graças a pressão dos movimentos contra o racismo da sociedade, porém sua estratégia foi investir pesado em marketing para dizer que são contra o racismo. Isso tem um único objetivo que é ficar bem e seguir lucrando muito. Na prática não mudou muita coisa, além do grupo há diversas outras empresas que devemos ficar de olho e cobrar. Artistas e famosos No grupo de pessoas, temos a cantora Luíza Sonza que, em 2018, foi acusada de racismo por Isabel Macedo, uma advogada que passava férias e estava hospedada no mesmo local que a cantora fez um show. Após o caso vir à tona, logo de cara a cantora tentou descredibilizar a vítima, chamando-a de mentirosa e dizendo que queria apenas ganhar notoriedade e pegar carona em sua fama. Luísa Sonza e Isabel Macedo. - Imagem: Reprodução | Redes Sociais. Isso pegou mal, pois os movimentos antirracistas não aceitaram e passaram a cobrar dela, que, com seu privilégio de cantora POP branca ia dividir o palco com um cantor no festival de REP com “E”. Após as cobranças e repercussões negativas, teve seu nome retirado e precisou cancelar sua turnê para se defender e ficar bem na foto. Com isso, a cantora fez um acordo com a vítima e na sequência redigiu uma publicação dizendo que não estava bem e que reconhecia seu erro. Também disse que não contestaria o valor da indenização, culpou o racismo estrutural por sua atitude e nesta semana abriu um restaurante com dona Carmem Virginia, uma renomada chefe de cozinha negra e pernambucana. Acredite quem quiser, porém eu não acredito em coincidências. Fábio Porchat e Léo Lins Fábio Porchat e Léo Lins. Foto: Juliana Coutinho e Reprodução/Instagram. Há também um humorista, Fábio Porchat, que há tempos atrás fez um post bonitinho dizendo ser um racista em desconstrução, mas quando a justiça remove conteúdo de um colega seu por ser racista e ofender as minorias, a primeira coisa que o tal racista em desconstrução faz é defender seu colega humorista racista, ao invés de criticar o ato. Logo mais, veremos um pedido de retratação elaborado pelas relações públicas na tentativa de limpar a imagem do cidadão que infelizmente seguirá lucrando em cima de um movimento tão sério. A luta contra o racismo é tão antiga e injusta, que ainda vivemos num mundo desigual e que quando envolve cor e raça, a desigualdade é maior ainda. Se for mulher preta, nem se fala. É revoltante ver marcas que não se importam com a causa, que apenas se importam em ter lucros, ficarem bem na foto como uma empresa não racista. Isso é lamentável. Por outro lado, tenho visto movimentos bastante significativos na sociedade, como o boicote a marcas racistas e preconceituosas, que cometem o crime de trabalho escravo. Devemos tentar não cair nas armadilhas dessas organizações, que fingem se preocupar com o racismo. Continuar lutando para reforçar a presença da negritude em espaços de poder e de decisão é de suma importância, já que somos grande parte da sociedade. No entanto, quando se chega nas melhores posições, quase não existimos. Desse modo, é importante que o racismo fique apenas nos livros para que a sociedade não se esqueça e não volte a repeti-lo . Até lá, estaremos na luta contra este crime e contra os racistas. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia. Revisão por: Mateus Santana Edição por: Eliézer Fernandes Fontes https://www.brasildefato.com.br/2020/11/21/racismo-e-morte-no-carrefour-sao-a-ponta-de-um-iceberg-envolvendo-multinacionais https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/25/luisa-sonza-e-retirada-de-line-up-de-festival-de-rap-apos-processo-por-racismo.ghtml https://www.geledes.org.br/a-carne-mais-barata-no-carrefour/

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