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  • Duas Faces do cinema: O Plot Twist Hollywoodiano na Segunda Guerra Mundial

    Quem não gosta de um filme, não é mesmo? Seja nas cada vez mais inacessíveis salas de cinema ou no conforto de casa, a sétima arte é entretenimento, proporciona debates políticos e tem influência na construção de visão de mundo . E ntretanto, existe um período em que as películas cinematográficas começaram a ter uma função de “ arma de guerra ”. O historiador Eric Hobsbawm considerava a Segunda Guerra Mundial uma guerra total, onde todos os setores da sociedade empregavam esforços no conflito , seja na produção de armas, seja na manutenção do ânimo da tropa. A luta contra os países do Eixo exigiu mobilização ideológica e econômica, o que incluiu o c inema. Nas décadas de 1930 e 1940, o cinema era  amplamente difundido como forma de entretenimento, e os Estados Unidos dominavam as produções após o enfraquecimento do cinema francês, que sofreu com as consequências da Primeira Guerra Mundial. Com a chegada da Segunda  Guerra M undial ,   o c inema estadunidense mud ou  o teor de suas histórias para fortalecer o ideário de resistência ao totalitarismo , representado pelos nazista s . Segundo Wagner Pinheiro Pereira, o c inema estadunidense passou a priorizar histórias que fortalec iam  o sentimento de solidariedade aos aliados e ódio aos inimigos. Isso envolveu  alteraç ões  na linha criativa, como nos roteiros, na escolha de atores e atrizes, nos cenários e na ambientação. Do lado dos alemães, encontrar uma linha narrativa que fortalecesse o sentimento de coesão também era prioridade das produções. Após o fim da Primeira Guerra Mundial, o governo criticava a forma como os filmes retratavam os germânicos , apresentados  como vilões caricatos, com sotaque carregado, desvalorizando  o exército alemão. Durante a Segunda Guerra Mundial,   os alemães buscavam reverter a imagem negativa deixada pela P rimeira Guerra , enquanto os Estados Unidos produziam filmes para fortalecer a coesão contra os nazistas. No entanto, engana-se quem acredita que o período entre guerras foi marcado por um c inema estadunidense de “resistência” aos avanços dos nazistas. Ben Urwand, em seu livro “ O pacto entre Hollywood e o nazismo: como o cinema americano colaborou com a Alemanha de Hitler ”, busca desmistificar a memória da chamada “resistência” dos filmes estadunidense contra o nazismo, que ficou conhecid a  como “Era de Ouro” do cinema. A ideia surgiu quando Budd Schulberg , roteirista e romancista, afirmou que Louis B. Mayer, chefe da MGM na década de 1930, projetava filmes para que o cônsul da Alemanha indicasse o que deveria ser cortado das obras cinematográficas. Os alemães possuíam contato direto e constante com produtores e diretores estadunidenses, monitora ndo  os filmes de perto. Na década de 1930, o s nazistas examinaram  mais de 400 filmes, categorizando-os como “bo ns ”, “rui ns ” e “ desligados ” . Os bons, obviamente, eram aqueles positivos aos ideais do nazismo, como o “O D espertar de uma N ação”, elogiado pelo próprio Ministro da Propaganda nazista Joseph Goebbels . Ao longo dos anos, os estúdios de Hollywood venderam muitos filmes desse tipo à Alemanha, pois encontraram um mercado lucrativo. Os filmes “ruins” eram os que abordavam quest ões  mora is  e racia is . O filme “Tarzan, o F ilho das S elvas”   foi proibido um ano após seu lançamento por retratar uma mulher “civilizada” se afeiçoando a  um homem da selva. As produtoras de Hollywood enfrentaram  uma barreira comercial em 1933 . Com a ampliação do poder de Hitler, os alemães passaram a exigir um afastamento dos judeus que revendiam os filmes na Alemanha. As empresas aceitaram as exigências para manter os negócios no território. O que chama a atenção de Ben   Urwand é  que as empresas cinematográficas que participaram deste processo foram criadas justamente por imigrantes judeus: William Fox, fundador da Fox; Louis B. Mayer, da MGM, Adolph Zukor, diretor da Paramount, etc. Essa “vista grossa” por parte do c inema de Hollywood começou a se abalar em 1938 , com o acirramento da perseguição aos judeus, que teve seu ápice na chamada “Noite dos Cristais”, quando  lojas e casas de judeus foram destruídas. Na época, Goebbels e o Ministério da P ropaganda N azista liberaram uma lista com mais de 60 personalidades do cinema americano , afirmando que produções com e ss es artistas seriam proibidos em solo germânico. Com o início da Segunda  Guerra Mundial em setembro de 1939, o mercado cinematográfico estadunidense sofreu um baque na Alemanha , com apenas 20 filmes sendo exibidos em solo alemão. Essa crise financeira e a iminente guerra (até 1941, os Estados Unidos não participavam diretamente do conflito armado) afetaram significativamente a indústria cinematográfica. Des s a forma, os filmes de Hollywood passaram a ter uma outra abordagem. Se antes existia muita censura e alterações para preservar a imagem germânica, a partir do início da guerra, os filmes passaram a ter uma abordagem antinazista, incentivados pelos governo, que viam no c inema uma forma de mobilizar a opinião pública e conferir sentido ao conflito. Um exemplo do uso do c inema de Hollywood como “arma de guerra”    foi a criação da agência Office of War Information (OWI), órgão criado pelo governo Roosevelt para orientar os produtores de Hollywood sobre as informações da guerra, uma espécie de manual para a indústria cinematográfica. Este documento ditava o que deveria constar nas produções, como: o motivo dos Estados Unidos estarem na guerra, quem eram os inimigos, motivar esforços no trabalho de produção de artigos para manutenção da guerra e a dramatização dos que foram enviados à frente de batalha, mostrados como heróis  nacionais. Em 1939, o lançamento do filme “ Confissões de um E spião N azista ”, pela Warner Bros, e o filme “ O G rande D itador ”, de Charles Chaplin, marcaram essa cisão entre as produções de Hollywood e os nazistas. Não só o mercado mudou, mas também a direção do conflito, pois agora os produtores de filmes perceberam que o governo estadunidense tinha os nazistas como inimigos a serem combatidos. A mudança de linha criativa da indústria cinematográfica estadunidense, portanto, foi rápida e atendia uma demanda ideológica e mercadológica. A reação a o lançamento dos dois filmes claramente não agradou os alemães , que censuraram os dois títulos,  intitulando- o s como uma “ conspiração judaica ”. O filme sobre um espião foi bem aceito pela crítica estadunidense, sendo eleito o melhor do ano (1939) pela National Board of Review (NBR) . Na obra, um agente do FBI (Edward G. Robinson) investiga uma rede de espionagem nazista que se infiltrou nos Estados Unidos para descobrir segredos de segur ança  nacional. O fato provoca a insegurança e o medo no povo americano. Em outubro de 1940, foi lançado “ O Grande Ditador ”, uma sátira bem escancarada de Hitler, protagonizada no filme por Charles Chaplin. A produção do filme foi ameaçada pelos nazistas, mesmo assim, foi um sucesso de bilheteria , sendo a maior do artista mais conhecido do c inema mudo . Ironicamente, uma das cenas mais famosas do filme é o grande discurso final, onde Chaplin, conhecido por não emitir fala alguma em seus filmes, protagoniza uma das falas mais emblemáticas da história do c inema. Em um trecho, ele diz: “Me desculpem, mas eu não quero ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não quero governar ou conquistar ninguém. Gostaria de ajudar a todos—se possível—judeus, não-judeus, negros e brancos. Todos nós queremos ajudar uns aos outros. O ser humano é assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo—não para seu sofrimento. Não queremos odiar e desprezar uns aos outros. Neste mundo há lugar para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades. [...] Pensamos demais e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de gentileza e bondade. Sem essas virtudes, a vida será violenta e tudo será perdido.”  No período de 1942 e 1945 , onde os Estados Unidos participaram efetivamente da guerra, foram produzidos mais de 800 filmes que remet iam  ao conflito , muitos deles contrários aos nazistas. Entretanto, segundo a pesquisa de Urwand, mencionada anteriormente, esses filmes não expuseram o sofrimento dos judeus nos campos de concentração, algo que só foi expl icitamente mostrado  nas telas do c inema em 1959, com “O Diário de Anne Frank”. A percepção de que o c inema foi usado como “arma de guerra” chegou aos periódicos e aos críticos. Em maio de 1973, o periódico “ O Cinema e a Guerra Total ” afirmou que Hollywood deixou de ser a terra da fantasia, da mentira dourada, do sonho, para se tornar uma poderosa arma, cumprindo sua função de atacar um inimigo comum. Toda essa jornada cinematográfica trouxe muito dinheiro aos produtores estadunidenses, além de mexer com o imaginário da população. Ao retratar nas películas  o esforço da nação em “combater o mal”, a bravura dos soldados e a imagem de um país (Alemanha) que era a encarnação do mal na Terra, fez com que o Cinema de Hollywood se consolidasse como uma forte fonte de Soft P ower . Texto escrito por Josué Kenji   formado em Relações Internacionais, produtor cultural e pós-graduando em gestão Cultural, desenvolvimento e mercado. É co-organizador do "Festival da Criatividade Cria Bauru 2020" desde 2020, criador da "Comunidade Criativa Cria Bauru", articulador criativo da "Rede Bauru: Cidade Criativa Unesco", está membro do "Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (2022-2024)" na cadeira de Sociedade Civil e atualmente é colunista do Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://www.alphavillejournal.com/Issue17/ReviewEtem.pdf   https://arteref.com/historia/o-plano-marshall-e-seu-impacto-nas-artes/   http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300678298_ARQUIVO_Artigo(PedroGa   ma).pdf   https://www.the-american-interest.com/2019/04/12/the-washington-hollywood-pact/ https://repositorio.uniceub.br/jspui/bitstream/123456789/1386/2/20316899.pdf https://getempo.org/2022/04/18/confissoes-de-um-espiao-nazista/   https://www.seer.ufal.br/index.php/criticahistorica/article/download/11157/8824/48832 https://www.the-american-interest.com/2019/04/12/the-washington-hollywood-pact/ https://e-revista.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/17297 https://cinema10.com.br/filme/confissoes-de-um-espiao-nazista   https://agenciasn.com.br/arquivos/15384

  • Jogos de Azar Online: o que um tigre, um avião e o futebol tem em comum?

    Uma febre entre os jovens que já está chegando até os mais velhos , os famosos ‘jogo do tigrinho’, ‘aviãozinho’ e BETs rapidamente adentraram nos celulares brasileiros. Milhares de pessoas já foram impactadas por propagandas em redes sociais , até mesmo considerando essas atividades como uma segunda fonte de renda sem precisar sair de casa. As casas de apostas online oferecem uma variedade de jogos e lances para - aparentemente - arrematar o dobro de dinheiro com apenas alguns cliques. Elas permitem que os usuários façam apostas em eventos esportivos , como futebol, basquete, corridas de cavalos e e-Sports, assim como em eventos não esportivos , como eleições políticas e shows de talentos. Já os cassinos online oferecem uma ampla gama de jogos , como caça-níqueis (slots), roleta, blackjack e poker, tendo até opções onde dealers reais operam o jogo em tempo real via streaming. Para se ter uma ideia, apenas em 2023, cerca de 22 milhões de pessoas fizeram pelo menos uma aposta esportiva, de acordo com a 7ª edição da pesquisa Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima .   Motivados pela chance de ganhar dinheiro rápido em momentos de necessidade (40%) e pela possibilidade de ter um retorno alto (39%) , a pesquisa também aponta que as apostas em cassinos e BETs foram sete vezes maiores no Brasil do que os investimentos na Bolsa de Valores. “Welcome to the Jungle”   O "Jogo do Tigrinho" , também conhecido como Fortune Tiger , é um jogo de azar online que funciona de maneira similar a uma máquina caça-níqueis. Desenvolvido pela empresa PG Soft, o jogo apresenta uma interface vibrante e colorida, com um tema centrado em um tigre da sorte - ou outros animais, como búfalo, coelho, dragão, elefante, porco, entre outros. Os gráficos são atraentes e projetados para manter os jogadores engajados no formato slot , onde, com 3 rolos e 3 linhas, os jogadores apostam dinheiro real na esperança de ganhar prêmios em dobro ao combinar os símbolos em uma linha ou em padrões específicos. Esses jogos exigem dinheiro real para participar, prometendo ganhos substanciais em um curto período de tempo. O estilo do ‘Fortune Tiger’ se tornou extremamente popular no Brasil a partir de 2023 e, apesar de cassinos serem ilegais no país , ​diversos donos de cassinos online têm investido cada vez mais em divulgar suas plataformas por meio de publicidade com influenciadores digitais renomados , que, nos últimos anos tiveram um papel fundamental na transformação do comportamento de consumo de produtos e serviços online. Os influenciadores são remunerados por seu engajamento e alcance ao gravarem conteúdos que gerem confiança e credibilidade aos seus seguidores, assim como pelos cliques de cada usuário nos links de sites de jogos de azar online divulgados por eles. Dessa forma, eles conseguem atrair novos usuários ao promoverem a jogabilidade fácil, tutoriais sobre como apostar, além de demonstrações de grandes vitórias e ganhos com as plataformas. Estes frequentemente fazem postagens patrocinadas que destacam os supostos benefícios e ganhos com o jogo, onde suas próprias experiências e aparentes sucessos lhes renderam prêmios em dinheiro ou bens materiais, como carros e jóias de luxo, tudo em curto espaço de tempo. As autoridades brasileiras já iniciaram diversas investigações contra vários influenciadores que promoviam o "Jogo do Tigrinho", revelando esquemas fraudulentos e acusações de pirâmide financeira . As autoridades também investigam alegações de lavagem de dinheiro associadas ao jogo , onde as prisões de influenciadores trouxeram à tona a magnitude do problema e os riscos associados a esses jogos de azar online. O programa " Fantástico " já exibiu uma reportagem detalhada sobre o envolvimento de influenciadores em esquemas de apostas online , destacando o caso e as suas consequências legais​ sob a justiça brasileira. Voar, voar, subir, su… ‘Crash’ No caso do Aviator, ou ‘jogo do aviãozinho’, o jogo começa com os apostadores dando lances antes do avião decolar. Assim que a nova rodada é  iniciada, à medida que o avião sobe, o multiplicador aumenta e os jogadores precisam decidir antecipadamente o momento ideal para retirar a aposta, clicando no botão de ‘cash out’ (sacar), antes que o avião desapareça. Uma vez que o jogo é controlado por um gerador de números aleatórios, a principal estratégia se centra em retirar a aposta para maximizar os ganhos , evitando a perda total caso o avião voe para longe, o chamado ‘ crash ’ (ou colapso, em português). A imprevisibilidade adiciona uma camada de emoção e risco ao jogo, tornando cada decisão crítica para o resultado final. Além disso, a simplicidade das regras e a rapidez das rodadas tornam o Aviator acessível a todos os tipos de jogadores, desde os novatos até os mais experientes. Diferentemente do ‘Jogo do Tigrinho’, os gráficos minimalistas e a interface simplória do Aviator contribuem para uma experiência de jogo direta. A possibilidade de assistir a outras apostas em tempo real também adiciona um aspecto social , permitindo aos jogadores aprenderem com as estratégias uns dos outros e discutirem suas próprias táticas. Quanto vale a ‘jogadinha do Paquetá’? É como o clássico chá da tarde inglês: domingo à tarde, logo após o almoço, boa parte das famílias brasileiras costuma ter a famigerada programação de assistir a uma partida de futebol na TV aberta . Paixão nacional, nada representa mais o Brasil do que o futebol; é cultura, tradição e uma fonte de alegria e comoção para milhares de torcedores. Com isso, as famosas "Bets", chamadas de apostas esportivas, são a modalidade de jogo em que os participantes podem apostar dinheiro na previsão de resultados de eventos esportivos, como o próprio futebol. Para quem conhecia o ‘bolão’ da firma para um determinado campeonato, hoje, pela internet é possível realizar apostas em qualquer tipo de esporte em plataformas de apostas online , tudo de maneira “fácil e acessível”. Sim, apostas esportivas são legalizadas no Brasil desde dezembro de 2018. A legalização veio por meio da Lei 13.756/2018, sancionada pelo então presidente Michel Temer, que regulamenta as apostas esportivas de quota fixa, permitindo que empresas operem legalmente no mercado brasileiro – desde que obtenham licença e cumpram diversas exigências, incluindo medidas de prevenção contra lavagem de dinheiro e jogo responsável. No entanto, a implementação completa e a regulamentação específica das apostas esportivas ainda está em processo, com o Ministério da Fazenda responsável pela criação de um arcabouço regulatório detalhado para assegurar que as operações sejam conduzidas de maneira justa, transparente e segura. Um caso recente que ilustra os riscos e as complicações das apostas esportivas é o do jogador de futebol brasileiro, Lucas Paquetá . Em agosto de 2023, o meia atacante, que atualmente joga pelo West Ham United na Premier League e pela seleção brasileira, começou a ser investigado por suposto envolvimento em um esquema de apostas, com possíveis irregularidades cometidas propositalmente pelo jogador em jogos específicos, como faltas para cartões amarelos/vermelhos e escanteios, influenciando direta ou indiretamente os resultados. Ainda, há informações de que um grupo de pessoas na Ilha de Paquetá , situada na baía de Guanabara no Rio de Janeiro (RJ), estava diretamente envolvido em atividades de apostas ilegais associadas ao nome do jogador - que leva o apelido ‘Paquetá’ por ser nascido e criado na ilha. A suspeita ainda era de que apostadores na Ilha tinham acesso a informações privilegiadas sobre o desempenho e as condições de Paquetá. A investigação da Polícia Federal e do Ministério Público analisou transações financeiras, comunicações entre os envolvidos e possíveis conexões com redes ilegais. Paquetá e seus representantes negaram qualquer envolvimento , alegando que o jogador não tinha controle sobre as apostas feitas por terceiros e cooperou plenamente com as autoridades para esclarecer sua posição. Agora, a decisão está sob avaliação da Federação Inglesa, que pode culminar até mesmo na expulsão do jogador do futebol inglês e da FIFA. E o que diz a lei brasileira? Historicamente, a exploração de jogos de azar era proibida pela  Lei de Contravenções Penais (nº 3.688/1941) , que permanece como a principal legislação sobre o tema. No entanto, essa lei não sofreu grandes atualizações para acompanhar as mudanças no mercado e nas tecnologias atuais. Em 2024, o Congresso Brasileiro avançou com a aprovação de um PL que visa a legalização e regulamentação dos jogos de azar, incluindo cassinos, bingos, jogo do bicho e jogos online.  A nova regulamentação inclui diretrizes para operações legais, proteção ao apostador e medidas preventivas contra problemas associados aos jogos de azar, como o vício. A lei também estipula regras para as loterias estaduais, restringindo a operação a dentro das suas respectivas jurisdições, e as empresas que desejam operar nesse mercado deverão se preparar para um aumento nos custos devido às novas exigências regulatórias e tributárias​. O vício... Como tudo na vida tem suas consequências, com os jogos de azar não seria diferente. Dentre os principais vícios entre a população brasileira, o de jogos de azar é um dos mais perigosos e agravantes. Agora, em suas versões online, a facilidade de acesso,  a disponibilidade 24 horas e a variedade de jogos podem levar os jogadores a desenvolverem um comportamento compulsivo, com efeitos devastadores, como problemas financeiros graves, deterioração das relações pessoais, perda de emprego e até mesmo problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. É fácil perder o controle ao fazer apostas repetidas, especialmente quando se está tentando recuperar perdas anteriores . Enquanto isso, o investimento exacerbado em marketing e publicidade para atrair jogadores a plataformas que destacam ganhos potenciais e a emoção do jogo, minimiza ou omite os verdadeiros riscos, como fraude e até roubo de identidade. E o capitalismo se inova... outra vez! Além disso, esses jogos também abrem a reflexão para a nova era predatória do acúmulo de riqueza e da potencialização da desigualdade social por meio da internet. Esses jogos são um espelho das falhas do capitalismo contemporâneo, que destaca como as regras do jogo econômico mundial foram criadas e ajustadas para beneficiar uma minoria, ao mesmo tempo em que perpetuam a exploração e marginalização da maioria. Na economia digital atual, a tendência é que a concentração de riqueza crie novas modalidades de se perpetuar, criando um cenário ilusório para a grande massa, que segue limitada em avanços por ter de se enquadrar no jogo. Vivemos em uma era marcada pelo bombardeio incessante de informações online, onde a proliferação das redes sociais, milhares de notícias em tempo real e a onipresença de dispositivos conectados,  em paralelo à crescente dependência das tecnologias digitais, está criando uma nova classe trabalhadora com sobrecarga informacional, ou "infodemia", que tem demonstrado consequências profundas para nossa capacidade de processar e entender o mundo ao nosso redor. Para se aprofundar na discussão, ouça o episódio do podcast ‘Historiante’, com participação da autora deste artigo. Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por  Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS: https://noticiasdocentro.com.br/realidade/brasil/aposta-no-jogo-do-tigrinho-e-7-vezes-maior-que-investimento-na-bolsa/ https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce7g64gx1r9o#:~:text=O%20artigo%2050%20da%20Lei,direito%20de%20jogos%20e%20banc%C3%A1rio . https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2023/09/29/jogo-do-tigrinho-fez-usuarios-perderem-grandes-quantias-de-dinheiro-e-levou-pessoas-ao-suicidio.ghtml https://www.lance.com.br/resenha-de-apostas/noticias/tigrinho-saiba-como-funciona-o-famoso-jogo-do-tigre-da-fortuna.html https://www.tecmundo.com.br/internet/286939-governo-considera-liberar-fortune-tiger-o-jogo-tigrinho-casasapostas.htm#:~:text=O%20governo%20federal%20considera%20liberar,sancionada%20em%20dezembro%20de%202023 . https://www.portalinsights.com.br/perguntas-frequentes/porque-o-jogo-do-tigre-e-ilegal-no-brasil#google_vignette https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2023/12/19/entenda-o-que-e-o-jogo-do-aviaozinho-e-por-que-tantos-influencers-estao-sendo-investigados-por-divulga-lo.ghtml https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2024/04/12/o-que-e-jogo-do-aviaozinho.htm https://www.espn.com.br/futebol/premier-league/artigo/_/id/13802433/caso-paqueta-cartoes-acusacoes-perguntas-respostas-investigacao-inglaterra https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2024/06/08/cozinheira-perde-r-80-mil-em-dois-meses-relatos-de-quem-perdeu-tudo-com-cassinos-online.ghtml https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/04/12/morto-jogo-aviaozinho.htm https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2024-07/governo-publica-regras-para-jogos-de-aposta-online-veja-quais-sao https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/07/23/cpi-das-apostas-esportivas-deve-ouvir-jogador-lucas-paqueta-no-2o-semestre https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/07/23/cpi-das-apostas-esportivas-deve-ouvir-jogador-lucas-paqueta-no-2o-semestre https://moshebergel.com.br/os-7-principais-vicios-da-populacao/ https://www.terra.com.br/economia/videos/jovem-revela-que-perdeu-r-160-mil-no-jogo-do-tigrinho-destruiu-a-minha-vida,b54024ecbed67d4a9e983713736304d6j4elswsj.html https://istoe.com.br/mt-homem-que-perdeu-r-200-mil-no-jogo-do-tigrinho-e-encontrado-morto/ https://www.conjur.com.br/2024-jan-10/a-nova-era-das-apostas-esportivas-no-brasil/

  • Canadá: Processo de independência e sistema político

    A independência canadense Quando estudamos um pouco sobre como funciona o sistema eleitoral canadense, temos que entender como ocorreu o seu processo de “independência” da Coroa Britânica , lembrando que desde 1931 o Canadá faz parte dos Estados Membros da Commonwealth das Nações e que a Monarquia Inglesa representa o chefe de Estado. Para entender como foi instituído o atual sistema eleitoral do Canadá , temos que voltar um pouco no tempo . Com o fim da guerra civil dos Estados Unidos os políticos das províncias Ontário, Quebec, New Brunswick e Nova Scotia defendiam que uma união política era fundamental para evitar que os Estados Unidos tentassem a anexação de seus territórios. Então, em 1 de julho de 1867, uniram-se por meio de um documento chamado Ato da América do Norte Britânica. E assim definiram com o Ato Constitucional uma federação denominada Canadá. Seu sistema de governança com base no precedente parlamentarista , semelhante em princípio ao do Reino Unido, deveria ser composto pela Câmara dos Comuns e do Senado,  que seria responsável por assuntos nacionais. Cada província teria autonomia para discutir e elaborar leis que restringem a contextos locais, tornando-as em parte politicamente independentes do Reino Unido, porém a coroa inglesa continuaria tendo controle sobre o Ministério das Relações Exteriores até 1931.   Entre os anos de 1869 e 1873 , foram incorporadas as províncias de Manitoba, Colúmbia Britânica e a Ilha de Príncipe Edward ao território canadense, e somente em 1949 a província de Terra Nova foi incorporada. Devido o Reino Unido manter controle sobre o Ministério das Relações Exteriores, o Canadá foi envolvido automaticamente na Primeira Grande Guerra. Em 1919, o Canadá entrou na Liga das Nações, independente do Reino Unido, e somente em 1931, com o Estatuto de Westminster deu aos países, ex-colônias inglesas total independência política. Após várias reformas sociais e políticas somente em 1982 com a chamada “ Patriation ” e a Carta Canadense dos Direitos e das Liberdades que o Canadá realmente conseguiu uma constituição totalmente independente do Reino Unido. Como funciona o parlamento Canadense O Canadá é uma monarquia constitucional, ou seja, o monarca é o chefe de Estado (no caso do Canadá no momento o chefe de Estado é o Rei Charles III – o mesmo monarca do Reino Unido), este é representado pela Governadora Geral (Mary Simon), o Primeiro-Ministro é o Chefe de Governo (atualmente Justin Trudeau). Governador Geral Até 1931, o Governador Geral do Canadá era escolhido pelo soberano, no caso o Rei ou a Rainha da Inglaterra. Isso mudou quando o governo canadense começou a fazer recomendações para o cargo. Em 1952, o primeiro-ministro do Canadá recomendou, pela primeira vez, um cidadão nascido no Canadá para governador geral.  Desde então, todos os governadores gerais do Canadá são cidadãos canadenses. Primeiro-Ministro Ele é eleito de forma indireta , no caso, os partidos indicam quem será seu representante no parlamento. E nas eleições, o partido que conquistar mais cadeiras na câmara do comum elege seu primeiro-ministro. Senadores São nomeados pelo Governador Geral , sob o conselho do primeiro-ministro, para representar as regiões e os grupos minoritários do Canadá. Os assentos são distribuídos por regiões para garantir representação igualitária em todo o país . O Senador , diferente do Brasil, após indicado, tem mandato permanente até completar os 75 anos. Membros do Parlamento  Seriam o equivalente aos Deputados Federais no Brasil . É através das eleições que você consegue eleger o Primeiro Ministro. Como informamos anteriormente, a eleição do primeiro-ministro é feita de forma indireta. Não tem como um eleitor votar em um membro do Parlamento de um determinado partido e querer eleger o Primeiro-Ministro de outro partido.  O membro do parlamento representa uma área geográfica específica do Canadá, conhecida como um distrito eleitoral. O líder do partido com maior número de assentos se torna Primeiro-Ministro e forma o governo. O segundo maior partido se torna oposição oficial. Lembrando que o voto no Canadá não é obrigatório e suas eleições ocorrem sempre em uma segunda-feira. Então, no dia das eleições, o cidadão que queira votar tem que conversar com o seu empregador e solicitar um horário para poder ir votar. Caso o dia das eleições seja um feriado federal ou provincial, a eleição é transferida automaticamente para terça-feira.   Como são criadas as Leis no Canadá Composição dos Membros do Parlamento (Câmara dos Comuns) - 2024 Em 2025, temos previsão de eleições no Canadá e o atual governo está no poder desde 2015. Como esse ano teremos eleições nos Estados Unidos da América e um certo descontentamento da população canadense devido à inflação, taxa de juros e atualmente uma crise imobiliária no Canadá, temos grandes chances de ver um avanço na direita no país. Agora que você entendeu como funcionam as eleições no Canadá. Iremos trazer no próximo artigo quem são os candidatos a Primeiro-Ministro no Canadá e quais são as suas propostas de governo para o próximo mandato. Curiosidades: % da participação dos eleitores nas eleições canadenses (lembrando que o voto não é obrigatório) Texto escrito por Camila Bellato ​Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto FONTES: https://brasilescola.uol.com.br/historia-da-america/historia-canada.htm https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2021/Outubro/eleicoes-pelo-mundo-saiba-como-funcionam-as-eleicoes-no-canada   https://www.ourcommons.ca/en   https://lop.parl.ca/staticfiles/Learn/assets/PDF/ParliamentaryPrimer/Multi-language_visitor_brochure-Portuguese.pdf              https://gg.ca/en/governor-general https://www.dadosmundiais.com/aliancas/commonwealth-das-nacoes.php             https://thecommonwealth.org/        http://www.historicalatlas.ca/website/HACOLP/national_perspectives/boundaries/UNIT_17/U17_Timeline/U17_timeline_1920_1949.htm                 https://www.pm.gc.ca/en    https://sencanada.ca/en/senators/ https://www.elections.ca/content.aspxsection=ele&dir=turn&document=index&lang=e#ftn2

  • A relação bilateral entre Argentina e Brasil tornou-se uma amizade

    A relação entre os países é parte do fundamento das relações internacionais e em particular da Cooperação Internacional que: É a relação estabelecida entre dois ou mais países, organizações ou organizações da sociedade civil, com o objetivo de alcançar objetivos de desenvolvimento acordados.¹ Desde a assinatura da Carta de São Francisco e a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), o sistema de Cooperação Internacional foi concebido para funcionar de Estado para Estado, adaptando-se ao surgimento de novos atores no cenário das relações internacionais e para assumir uma série de compromissos, tais como: apropriação, alinhamento, harmonização, gestão orientada para resultados e responsabilização mútua. Para alcançar isso, eles devem atingir esses compromissos , que podem ser observados nas políticas e estratégias de desenvolvimento, na promoção da utilidade das próprias instituições e sistemas nacionais, entre outros. Argentina e Brasil: Mais que amigos, parceiros! Na região temos um vínculo que transcendeu a formalidade e virou uma amizade, é o caso da Argentina e do Brasil . O vínculo entre eles tem sido caracterizado por uma certa rivalidade e competição tanto na geopolítica como no aspecto econômico , acrescentada pela interdependência existente de exportações e importações. Além disso, a rivalidade estratégica foi superada afirmando que as mesmas situações que tornam possível a cooperação são aquelas que também geram conflito (Corvalán; Martínez, 2016; Pereyra Doval, 2014). A relação entre os países está focada principalmente em questões comerciais , produto do importante trabalho realizado por diplomatas e assessores dos dois países. Essa relação bilateral tem data de comemoração, ou seja, o Dia da Amizade entre Brasil e Argentina é comemorado em 30 de novembro. Neste sentido, é relevante destacar a importância de continuar fortalecendo o vínculo bilateral apesar das divergências ou inconvenientes que possam existir entre ambos os países (OPEA, Relatório nº 590), destacando a validade dos compromissos estabelecidos há muitos anos, o seu alcance interessante e o valor a considerar estratégias que permitam estabelecer o bem comum entre os dois países. O vínculo entre os países é intenso, resistente às vicissitudes que nos afetam simultaneamente e permite-nos caminhar juntos , com discrepâncias localizadas quando necessárias ou circunstanciais, mas sempre apontando para aquilo que temos vindo a construir: uma longa história comum, uma aliança sólida que une não só os Estados, mas os povos, e uma amizade mutuamente valiosa que devemos sempre zelar e promover cada dia e em cada momento. Como nas próximas eleições que vão ocorrer na Argentina, o país não vai ter só uma escolha política no nível presidencial mas também vai influenciar na política exterior e suas relações com outros países, especialmente com o maior sócio econômico: Brasil. Neste 2023, temos a celebração dos 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países, uma ocasião favorável para renovar os laços de amizade e colaboração e para explorar novas oportunidades de cooperação em benefício de ambos povos. ¹ Informação extraída do site Salud Capital, “Manual de Cooperação Internacional-2014”, online em http://www.saludcapital.gov.co/, consultado em 17/10/2023. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Fontes: CORVALÁN, F.; MARTÍNEZ V. (2016). Las Relaciones Bilaterales entre Argentina y Brasil(1983-2014): estrategias en el nuevo esquema global. En XIII Seminario Argentino Chileno,VI Seminario Cono Sur De Ciencias Sociales. La amistad argentino brasileña. Diario Clarín. Disponible en: https://www.clarin.com/opinion/amistad-brasileno-argentina_0_xIXwEgIvU.html OPEA (2020). Informe de Política Exterior Argentina -N° 581. Disponible en: https://www.opeargentina.org/post/opea-581 OPEA (2020). Informe de Política Exterior Argentina -N° 582. Disponible en: https://www.opeargentina.org/post/opea-582 OPEA (2020). Informe de Política Exterior Argentina -N° 583. Disponible en: https://www.opeargentina.org/post/opea-583 OPEA (2020). Informe de Política Exterior Argentina -N° 590. Disponible en: https://www.opeargentina.org/post/opea-590 PEREYRA DOVAL, G. (2014). Relaciones Argentina-Brasil: cooperación con algunas discordias. En: Conjuntura Global, Vol. 3. Pp. 80-88. Tiempo Argentino (30 de noviembre de 2020). Alberto y Bolsonaro tuvieron su primera reunión virtual y compartieron un acto. Recuperado de: https://www.tiempoar.com.ar/nota/alberto-y-bolsonaro-tuvieron-su-primera-reunion-virtual-y-compartieron-un-acto

  • Vira vira, Argentina?

    "Vira, vira” é uma das frases mais compartilhadas nas redes sociais , a propósito das eleições presidenciais acontecidas no Brasil no ano passado (BRAVO, 2022) e que pode ser utilizada para as últimas eleições na Argentina. Virar, manifesta mudança, a qual implica trocar de rumo e escolher qual modelo de país se pretende implementar durante o próximo mandato presidencial. No caso da Argentina, mais de 50% dos cidadãos escolheram a opção da direita . Mas o que é direita? Direita e esquerda são rótulos usados ​​na areia política para diferenciar a ideologia que os sustenta, e que os cidadãos utilizam como categorias que lhes permitem situar-se no período eleitoral, além de serem referências que servem para se orientarem em torno das opções que os políticos estão adotando na sua ação governamental (GARCÍA, 2014). Nas últimas eleições na Argentina que foram as PASO , ou seja, as eleições Primárias, Simultâneas e Obrigatórias , essa orientação para a direita pode-se ver refletida em vários candidatos como por exemplo nos dois partidos que tiveram mais votos. Javier Milei , candidato do partido Liberdade Avança teve 29,86 por cento (7.352.244 votos) , Juntos para a Mudança em cuja interna Patricia Bullrich prevaleceu sobre Horácio Larreta , atual chefe de governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires, ela somou entre seus dois candidatos 28 por cento (6.895.941 votos) . E a Unión por la Patria, a coligação pró-governo que tem Sergio Massa (o atual Ministro de Economia) como candidato, somou 27,28 por cento (6.719.042 votos) (INFOBAE, 2023). Em outras palavras, quase 58% dos cidadãos escolheram uma mudança , uma forma de viver diferente da que vem se vivendo atualmente no país. Os números falam e é necessário refletir sobre eles. Não é casualidade que Milei sem aparato político , sem ter candidatos ou referentes em cada província (na divisão política, província é como os estados para o Brasil) da Argentina, tenha o impacto que tem. Ele analisou e escutou o que uma fração da sociedade pensava . Uma parte da sociedade que não tem afinidade pelo governo atual nem pelo anterior, uma sociedade que sente desconfiança pelos políticos e que acha que do jeito que foi, não conseguiram nada bom para o país. Então, uma pessoa diferente do que vinham vendo, uma pessoa sem plano político claro, falando que “ não é da casta política ”, uma pessoa que soube se encaixar nessa demanda , era o que essa parte da sociedade estava esperando. Você leitor, me desculpe, mas preciso falar dos perigos que se encontram no discurso e nos planos que Milei tem. Pode-se dizer que suas duas principais diretrizes são dolarizar a economia e “ incendiar o Banco Central ”. Além disso, promete levar o gabinete a oito ministérios: Economia, Justiça, Interior, Segurança, Defesa, Relações Exteriores, Infraestrutura e Capital Humano. Além disso, antecipou que iria: “eliminar todos os Gabinetes Sedes de todos os Ministérios, Secretários e Direcções que foram criados simplesmente para colocar amigos” e também “colocar em funcionamento eficaz a área de controle de despesas”. Além disso, manifestou que irá realizar “ uma reforma do sistema judicial ”, considerando que “a Justiça tem sido cooptada pela política nas últimas décadas e, em vez de funcionar como defensora dos direitos dos indivíduos, tem sido usada para perseguir adversários ou favorecer amigos”. Milei Presidente! Eventualmente, se for eleito presidente, Milei levará uma gestão dividida em três grandes passos: 1º - “A primeira fase envolve um corte acentuado na despesa pública por parte do Estado e uma reforma fiscal que impulsione a redução dos impostos, a flexibilidade laboral para a criação de empregos no setor privado e uma abertura unilateral ao comércio internacional. Isto, acompanhado por uma reforma financeira, promove um sistema bancário livre e desregulamentado, juntamente com a livre concorrência monetária”. 2º - “Em relação à segunda geração, propõe-se uma reforma previdenciária para cortar gastos do Estado com aposentadorias e pensões dos itens que mais pressionam o déficit fiscal, incentivando um sistema de capitalização privada , juntamente com um programa de aposentadoria voluntária para funcionários públicos e encolhimento do Estado . Por outro lado, propõe-se reduzir o número de ministérios para 8. Nesta fase, os planos sociais começarão a ser progressivamente eliminados à medida que outras receitas forem geradas como resultado da criação de empregos no setor privado, da liquidação do Banco Central da República Argentina, estabelecendo um sistema bancário Simons, com 100% de reservas obrigatórias para depósitos à vista”. 3 - “Por último, a terceira geração de mudanças inclui a reforma profunda do sistema de saúde com o impulso do sistema privado , a livre concorrência entre empresas do setor, uma reforma do sistema educativo e a expansão de um sistema de segurança não invasivo para a população e a eliminação da coparticipação”. Milei não detalha como vai dolarizar a economia argentina , não explica o assunto de dinamitar o Banco Central, nem o impacto que pode ter no país ao privatizar as empresas públicas, entre outras, como a rejeição aos estrangeiros que chegam ao país com o sonho de estudar e mudar suas vidas. Pensando na importância da Lei e da característica mais importante que eu encontro na Argentina, é sobre a recepção dos estrangeiros. Essa recepção e aceitação encontra se no Artigo 20 da Constituição Nacional Argentina : “Os estrangeiros gozam no território da nação de todos os direitos civis do cidadão; podem exercer a sua indústria, comércio e profissão; possuir imóveis, comprá-los e aliená-los; navegar pelos rios e costas; exercer livremente o seu culto; testar e casar de acordo com as leis”. Para concluir e como pessoa que acredita na Lei, creio na divisão de poderes e que no caso que Milei seja o próximo presidente da Argentina, vai ter que se ajustar aos “pesos e contrapesos” próprios do poder. Cada plano que ele tenha vai ter que passar pelo devido tratamento e boa parte do aparato político vai ter que se manifestar aceitando ou não cada um dos projetos dele. Texto escrito pela equipe Zero Águia , portal de notícias e análises sobre Política e Relações Internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Fontes: BRAVO, Soledad. “Vira, vira”... ¿Vira o Brasil?. Diagonales , 2022. GARCÍA, Alejandro Navas. Izquierda y Derecha: ¿una tipología válida para un mundo globalizado?. Revista de comunicación , 2014, no 13, p. 163-176. INFOBAE. Resultados del escrutinio definitivo: se achicó la diferencia entre los tres candidatos, 2023. https://www.infobae.com/politica/2023/08/31/resultados-en-el-escrutinio-definitivo-se-achico-la-diferencia-entre-los-tres-candidatos/

  • Lendas Amazônicas: Mitos e Mistérios da Floresta

    A Amazônia, com sua vasta e misteriosa floresta, é um celeiro de lendas e mitos que refletem a rica cultura e a imaginação dos povos que habitam essa região. Entre as histórias mais fascinantes estão as lendas do Boto Cor-de-Rosa, do Mapinguari, do Curupira e da Cobra Grande. Essas narrativas não apenas entretêm, mas também carregam significados profundos e explicações para fenômenos naturais e sociais. Vamos explorar cada uma dessas lendas. Boto Cor-de-Rosa A lenda do boto-cor-de-rosa é uma das mais conhecidas na região amazônica. Segundo a tradição, o boto , um golfinho de água doce, transforma-se em um homem belo e sedutor durante as festas ribeirinhas. Vestido de branco e usando um chapéu para esconder suas narinas, o boto seduz mulheres jovens e bonitas, engravidando-as antes de retornar ao rio. Algumas narrativas afirmam que o boto se transforma durante qualquer festa nas comunidades ribeirinhas, enquanto outras sustentam que a metamorfose ocorre apenas na lua cheia do mês de junho, durante as festividades de Santo Antônio, São João e São Pedro. O filho cresce sem pai, e essa lenda foi frequentemente usada para explicar casos de gravidez fora do casamento, filhos que nascem sem pais e, talvez, casos de incesto.   Mapinguari O Mapinguari, uma entidade da floresta amazônica, é descrito como uma criatura semelhante a um grande macaco, com o corpo coberto de pelos, um olho só e uma boca que se estende do peito até a barriga, o que lhe dá uma aparência assustadora. O Mapinguari exala um cheiro forte que atordoa suas vítimas, tornando-as presas fáceis. Quando devora suas vítimas, ele começa pela cabeça. A lenda diz que o Mapinguari é imune a balas, exceto em seu umbigo, e que teme apenas a preguiça. Curupira O Curupira é o guardião da floresta, conhecido por seus cabelos vermelhos e pés virados para trás. Cada versão da lenda pode mudar sua aparência, mas independentemente de sua forma, a crença em sua força sobrenatural é unânime. Ele protege a floresta punindo aqueles que a destroem por prazer . Os indígenas costumam oferecer presentes como flechas e cachaça para apaziguar o Curupira. Cobra Grande A lenda da Cobra Grande, também conhecida como Boiúna ou Boiaçu, que significa cobra negra ou grande, é muito influente entre as populações dos estados com floresta Amazônica, especialmente as ribeirinhas, que vivem nas margens do Rio Amazonas e seus afluentes. Há relatos de que a origem dessa lenda é indígena e provavelmente surgiu na própria região amazônica. Reza a lenda que a Boiúna, uma cobra escura e furiosa que pode chegar até 45 metros, vive nas profundezas do rio e, para se alimentar, pode virar embarcações e devorar as pessoas que caem na água. A Cobra Grande também pode ser responsável por criar parte dos rios, pois ao se rastejar , deixava sulcos gigantescos na terra que, com o tempo, se transformaram em rios caudalosos, como o Amazonas. Outra versão da lenda, ouvida por moradores de vários estados da região Amazônica, é que existe uma cobra morando embaixo de um determinado local, normalmente uma igreja, e que pode acordar a qualquer momento. Vale lembrar que a região da floresta amazônica é habitat de muitas cobras grandes, como as sucuris, também chamadas de anacondas. Músicas do folclore "Boto Tucuxi" do grupo de Rondônia Minhas Raízes Mapinguari da toada do boi-bumbá Garantido de 1997 Curupira do grupo rondoniense Minhas Raízes "Cobra Grande" também do grupo Minhas Raízes "O Grupo Minhas Raízes, formado em 2005, surgiu como um coral de crianças da comunidade rural de Nazaré – ilha que só se chega via fluvial ou aérea, distrito que fica às margens do Rio Madeira e faz parte do município de Porto Velho." Fonte: Rádio Senado Texto escrito por Fabiana Mercado Pós graduada em Comunicação e Marketing Digital, formada em Publicidade e Propaganda, acumula mais de 9 anos na área, colunista do Zero Águia, curiosa, preza o respeito a todas as pessoas independente de características. Nas horas vagas pratica corridas com o apoio da equipe Superatis. Adora conhecer novas pessoas e lugares, ama viajar e possui um projeto denominado Desbravando Capitais com o marido para morar e vivenciar durante um mês em todas as capitais brasileiras nos próximos anos. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto FONTES: https://brasilescola.uol.com.br/folclore/boto-cor-de-rosa.htm#:~:text=O%20boto%2Dcor%2Dde%2Drosa%20%C3%A9%20uma%20lenda%20do,rio%20em%20sua%20forma%20animal . https://mundoeducacao.uol.com.br/folclore/curupira.htm#:~:text=A%20lenda%20do%20curupira%20aterrorizava,matar%20aqueles%20que%20a%20prejudicavam . https://dapibge.org.br/wp-content/uploads/2021/08/mapinguari.pdf https://www12.senado.leg.br/radio/1/som-brasilis-1/2023/03/03/grupo-minhas-raizes-rondonia https://www.youtube.com/watch?v=jzR0wXeEX7o https://www.todamateria.com.br/lenda-da-cobra-grande/#:~:text=Origem%20da%20Lenda&text=Acredita%2Dse%20que%20a%20cobra,rios%20caudalosos%2C%20como%20o%20Amazonas . https://dapibge.org.br/wp-content/uploads/2021/08/cobra-grande-boiuna.pdf

  • Da Revolução Francesa ao Heavy Metal: As olímpiadas de fatos históricos

    Com muito metal, misturado a ópera, coral e Marias Antonietas sem cabeça , a banda de metal francesa Gojira - formada em 1996 pelo vocalista e guitarrista Joe Duplantier, seu irmão mais novo e baterista, Mario Duplantier, Christian Andreu, como segundo guitarrista e Jean-Michel Labadie como baixista- chocou o público que assistia às Olimpíadas. Entre acusações de satanismo e admiração, o vocalista da banda ria em entrevista após a apresentação, dizendo que não havia nada de satanismo em seu show. “É a história da França!” disse ele. “É o charme da França, sabe? Pessoas decapitadas, vinho tinto e sangue por todo lugar - é romântico, é normal.” Mas, qual é a história por trás dessa incrível apresentação? Maria Antonieta e sua vida “louca” na corte francesa Maria Antonieta (1755 - 1793) , nascida Maria Antônia Josefa Joana de Habsburgo-Lorena,  foi rainha da França entre 1774 e 1792 , ano em que a monarquia foi abolida do país através da revolução. Nascida em Viena, na Áustria, mudou-se para a França quando casou com o rei Luís XVI. A rainha foi muito impopular durante o reinado de seu marido, devido a sua vida de luxos e excessos. Filha de Maria Teresa e Fernando I, imperatriz e imperador do Sacro Império Romano-Germânico, a jovem de 18 anos na época teve seu casamento real arranjado, já que tratava-se de um casamento político, além de tudo. Nessa época, a Áustria e a França eram inimigas , mas com a ascensão da Prússia, a mãe de Maria Antonieta resolveu que seria uma boa ideia unir os dois países através desse tipo de ‘acordo’. A partir do momento em que se tornou rainha da França, a austríaca entrou para a vida da corte mais “louca” da Europa , como diziam naquela época. Gastos com corridas de cavalo, festas, jóias, roupas e tudo o mais, fez com que a rainha fosse chamada de Madame Déficit ,  e ela passou a ser odiada pela população francesa. Outro fator que fez com que a popularidade da rainha caísse ladeira abaixo para o povo francês foi ela não conseguir ter filhos com Luís XVI. Ao final de sete anos de casamento, eles tiveram quatro filhos. A trágica morte de Maria Antonieta nas mãos da Revolução Francesa   Durante o reinado de Luís XVI, a burguesia francesa estava insatisfeita com a nobreza e o clero, já que eram os burgueses e outros trabalhadores que pagavam os impostos e mantinham a condição de vida luxuosa do primeiro e segundo estado (clero e nobreza). A revolta dentro dessa relação desonesta entre nobres, clero e burgueses foi o estopim para a Revolução Francesa.   A Revolução Francesa, iniciada em 14 de julho de 1789, mudou radicalmente a vida do rei e da rainha da França: além de Luís XVI ser obrigado a aceitar a promulgação de uma Constituição que eliminava o absolutismo¹ na França, ambos foram transferidos para o palácio de Paris. Quando tentaram fugir para a Bélgica , foram capturados. No início de 1793, Luís XVI foi guilhotinado e, em outubro do mesmo ano, foi a vez de Maria Antonieta. A rainha morreu com 37 anos de idade. Ça Ira! A partir de todo o contexto histórico explicado anteriormente (e que, diga-se de passagem, nos faz pensar que muitos estavam dormindo na aula de história), Gojira entrou com tudo na apresentação , acompanhado pela cantora de ópera Marina Viotti e uma grande orquestra com quase 300 músicos, interpretando a música rebelde da revolução ‘Ah! Ça Ira’. A música interpretada nas Olimpíadas é uma canção simbólica da Revolução Francesa, cujo título significa algo como “vai indo”, “assim será”. Essa canção era algo ameaçadora para os nobres e para o clero, pois sabiam que quando os rebeldes entoavam esse lindo cântico, era porque algo ia acontecer. A potência dessa música, aliada a potência dos músicos que a interpretaram incrivelmente, com todo seu coração e a rebeldia que a letra merece, faz ressuscitar algo que nunca deve morrer em nós: a boa e irônica crítica, baseada em conhecimento, luta, empatia pelos oprimidos, tudo regado a uma boa taça de vinho.   Ça ira! Texto escrito por Caroline Prado Brasileira vivendo na Costa Rica, apaixonada por cachorros, plantas e fontes confiáveis. É internacionalista, tradutora e filóloga. Professora de Português como Língua Estrangeira (PLE) e História Contemporânea além de Filóloga especialista em Línguas Latinas . Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto 1  - " Na monarquia absoluta ou absolutista, o monarca possui poderes amplos sobre o país. Assim, além de ser chefe de Estado, o monarca também é chefe de governo. Dentro da monarquia absoluta os poderes do monarca estão acima de qualquer instituição, já que o seu poder é absoluto. Usando os termos políticos atuais, o monarca dentro dessa estrutura concentra as funções dos três poderes e pode atuar como poder executivo, legislativo e judiciário. Essa forma de governo foi muito comum na Europa Ocidental e países como França e Reino Unido foram grandes símbolos do poder dos reis absolutistas. Posteriormente, com as revoluções liberais realizadas pela burguesia, essas monarquias absolutistas foram perdendo espaço para as monarquias constitucionais e para a república. Atualmente, ainda existem algumas monarquias absolutistas no mundo: Bahrein, Omã, Arábia Saudita, Eswatini (antiga Suazilândia) e Brunei"   Texto adaptado do site Brasil Escola. “O que é Monarquia?” FONTES: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20650/maria-antonieta/   https://www.estadao.com.br/cultura/musica/gojira-ri-das-acusacoes-de-satanismo-na-abertura-das-olimpiadas-e-a-historia-da-franca-nprec/#:~:text=Al%C3%A9m%20disso%2C%20a%20inten%C3%A7%C3%A3o%20do,%5Bol%C3%ADmpico%5D%20aceitou%20tudo%E2%80%9D .   https://pt.wikipedia.org/wiki/Gojira_(banda)   https://blogdaboitempo.com.br/2013/02/26/ca-ira-ca-ira/   https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/maria-antonieta.htm#:~:text=Maria%20Antonieta%20foi%20rainha%20francesa,se%20casou%20com%20Lu%C3%ADs%20XVI .   https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-monarquia.htm

  • PL1904: Punição às mulheres e privilégio dos estupradores

    Nos últimos dias ganharam as manchetes dos jornais, notícias de que a câmara aprovou a tramitação em regime de urgência de um projeto de lei que equipara o aborto ao crime de homicídio. Trata-se do Projeto de Lei 1904, apresentado pela bancada conservadora. O projeto representa um retrocesso, transformando uma mulher vítima do crime de estupro, em uma criminosa ao abortar e a pune com uma pena de 6 a 20 anos , pena maior que a de um estuprador que hoje chega no máximo a 10 anos de reclusão . Esse projeto demonstra que os conservadores não têm apreço pelo direito das mulheres, e isso não é novidade, mas o projeto de lei deixa mais do que claro, é um carimbo. Projeto de lei 2.848/1940 Segundo a lei 2.848 de 07 de dezembro de 1940, o aborto é considerado legal quando a gravidez for resultado de abuso sexual ou coloca em risco a saúde da mulher . O STF também estabeleceu em 2012 que é permitido interromper a gestação quando é detectado que o feto é anencéfalo , que é quando o bebê não possui cérebro, nestes casos o aborto é realizado pelo SUS (Sistema único de Saúde) . Machismo e pacto do patriarcado Uma coisa é certa , se homens engravidassem, o aborto seria completamente acessível no Brasil. Mas não engravidamos e o pacto do patriarcado segue tratando as mulheres como seres inferiores, seres que não podem decidir sobre seus corpos, suas vidas. De tempos em tempos homens tentam cercear direitos conquistados por mulheres com muita luta, inclusive falas do ex-presidente da república, Jair Bolsonaro, que deixou bem claro que mulher deve ganhar salário menor porque engravida. Aborto liberado Israel, que é defendido ferozmente por conservadores brasileiros por ser um País mencionado na Bíblia, vai na contramão dos que defendem o conservadorismo. O aborto no País é bastante acessível , uma lei de 2022 ampliou os casos em que o aborto é liberado, nos seguintes casos: Quando a gestante é menor de 18 anos; Quando a pessoa gestante não é casada; Quando a gravidez não é do casamento; Quando a gestante tem 40 anos ou mais; Quando a gravidez provém de relação incestuosa ou de estupro; Quando o feto apresenta probabilidade de doenças; Quando a gravidez coloca a vida da gestante em perigo ou causa danos físicos ou emocionais. Isso demonstra que o poder público não pode colocar religião à frente de políticas de estado. Saúde pública Para além de convicções teológicas e religiosas, aborto legal é uma questão de saúde pública , mas infelizmente no Brasil a mulher é tratada como mero ser biológico reprodutivo. No Brasil uma a cada 7 mulheres internadas por complicações no aborto tem menos de 19 anos . Segundo dados do ministério da saúde, 675 internações resultaram em óbito entre 2012 e 2023, mas acredita-se que estes números sejam muito maiores, considerando que muitas mulheres nem chegam aos hospitais e quando chegam dizem que foi um aborto espontâneo devido a criminalização no nosso País. Resistência Assim que a tramitação em regime de urgência do projeto do retrocesso foi aprovada, a resistência começou . Deputados federais contrários a este projeto e ministros como o dos Direitos Humanos fizeram discursos, movimentos de mulheres condenaram e passaram a se mobilizar para resistir. Não se falava em outro assunto em rodas de conversas, debates no cenário político, e as mulheres se organizaram e se mobilizaram realizando atos em diversos estados do País a fim de barrar esse projeto de lei. Tiro pela culatra O presidente da câmara , que está em campanha para eleger seu sucessor, aprovou em 23 segundos a tramitação de um projeto tão importante para as mulheres e para a sociedade, mas não imaginava que a maioria da sociedade seria contra e que as mulheres resistiriam bravamente. A resistência veio de maneira firme , a OAB classificou o projeto como inconstitucional, não convencional e ilegal, pesquisas recém divulgadas como a da IPEC, apontam que a maioria dos brasileiros é favorável ao aborto nos casos previstos em lei , não restou outra maneira senão engavetar este projeto grosseiro, absurdo. O presidente acuado convocou os líderes da câmara e em uma entrevista coletiva anunciando o arquivamento deste projeto . Infelizmente não se pode baixar a guarda, os conservadores vão esperar a poeira baixar para tentar novamente empurrar goela abaixo da sociedade e sem devida discussão esse projeto retrógrado. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://www.brasildefato.com.br/2020/08/17/saiba-em-quais-casos-o-aborto-e-um-direito-garantido-no-brasil#:~:text=No%20artigo%20128%20do%20Decreto,risco%20a%20sa%C3%BAde%20da%20mulher . https://www.terra.com.br/nos/aborto-e-casamento-gay-sao-legalizados-em-israel-entenda,fb834a0e8adf70dbf304d16203e1e492o0refw6m.html#google_vignette https://www.scielo.br/j/sdeb/a/yTbJpmr9CbpSvzVKggKsJdt/?format=pdf&lang=pt https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sus#:~:text=O%20Sistema%20%C3%9Anico%20de%20Sa%C3%BAde,toda%20a%20popula%C3%A7%C3%A3o%20do%20pa%C3%ADs

  • O Olimpo da Era Moderna

    Que me perdoem os amantes do futebol, mas nenhum evento esportivo internacional é tão emocionante e contagiante como as Olimpíadas. Essa visão, confesso, é parcial de uma ex-atleta que , por um curto espaço de tempo, sonhou em um dia representar o Brasil na seleção feminina de handebol , na minha absoluta ingenuidade juvenil, em uma época onde a palavra “patrocínio” era algo distante demais para a minha realidade e de tantas outras meninas. Preciso reconhecer que muitas delas eram muito mais habilidosas do que eu naquele esporte. Por isso, o choro da jogadora Mariane Fernandes (28) é também a representação do sonho de tantas que almejaram um dia competir e subir ao pódio nas Olimpíadas, mas ficaram pelo caminho. Essa é a magia das Olimpíadas: elas conseguem emocionar não apenas pelos corpos treinados, repletos de técnica e músculos, mas também pelas histórias de superação dos atletas. A caminhada de cada um deles consegue mexer conosco, e é quase impossível não criar uma identificação pessoal quando sabemos os desafios ultrapassados nos bastidores das competições. Quando um atleta se machuca no meio de uma competição, há na plateia um silêncio sepulcral, como se aquela frustração atingisse também a todos nós . O choro em uma derrota significa uma vida dedicada a algumas horas de competição, que por qualquer deslize (humanamente possível) pode significar um sonho arruinado ou, nos melhores cenários, adiado. Foi exatamente isso que ocasionou o choro desesperado da judoca japonesa Uta Abe, medalhista de ouro nas Olimpíadas de Tóquio 2020 , quando perdeu a invencibilidade em suas lutas, que sustentava há 5 anos. Mas não foi o dia de glória para Abe, que perdeu para a uzbequistanesa Diyora Keldiyorova. O pódio é viciante, mas nem todos podem ocupá-lo sempre. Foi assim que Abe, eliminada nas oitavas de final em Paris, aprendeu essa dura lição. Se por um lado a frustração da derrota é desoladora, os recordes olímpicos são o gás motivador para todas as modalidades.   Eles não são apenas um retrato estático de um momento de superação do corpo humano, mas também a amostra de como a inteligência emocional do atleta em momentos de exaustão e fadiga pode ser decisiva. O gigante velocista olímpico jamaicano Usain Bolt disse certa vez: “Sempre há limites. Eu não conheço os meus.” E nós sabemos que limites não são o forte do Bolt , pois quando é ele o adversário, a pista fica apequenada pelo seu brilhantismo e carisma. Até começamos a acreditar que correr 100m em menos de 9,6 segundos é algo corriqueiro. Se por um lado, os recordes olímpicos e a fama do atleta trazem credibilidade e favoritismo, não devemos nos esquecer dela, a mais temida de todas: a zebra!  Para quem não sabe, a zebra, não o animal, mas a gíria esportiva, é usada para nomear uma realidade inesperada em uma competição. Mas nem sempre a zebra é negativa ; pelo menos não foi o que aconteceu com o atleta de salto com vara Thiago Braz, que levou o Brasil literalmente às alturas nas Olimpíadas do Rio em 2016 e ficou com a medalha de ouro, desbancando o arrogante francês Renaud Lavillenie, que era não apenas o recordista olímpico como o favorito na modalidade. Thiago perdia para o francês quando olhou para o lado e viu o adversário comemorar com a equipe a vitória. Ele acabara de saltar 5,98m e acreditava que o brasileiro não conseguiria ultrapassar a marca. Mas não foi o que aconteceu. O brasileiro inverteu o jogo, apostou tudo e subiu o sarrafo para 6,03m, altura nunca ultrapassada por ele. Lavillenie ainda tentou ultrapassar a marca do brasileiro e jogou a altura para 6,08 m, mas falhou nas duas tentativas. O resto ficou para a história, com Thiago conquistando o ouro inédito para o Brasil no salto com vara. Tenho inúmeras críticas e pontos importantes a fazer sobre o evento, mas desta vez quero apenas celebrar a magia das Olímpiadas, em um momento onde temporariamente as diferenças entre as nações são disputadas em competições e que acabam com apertos de mão e abraços respeitosos entre eles. Muitos vibram com a festa que só o esporte é capaz de proporcionar, mesmo que seja por alguns dias e a cada quatro anos. CURIOSIDADE OLÍMPICA Os Jogos Olímpicos de Verão (Olimpíadas)  são um dos maiores eventos esportivos do mundo, realizados a cada quatro anos em diferentes países.  A primeira edição moderna ocorreu em 1896, em Atenas, inspirada nos antigos Jogos Olímpicos da Grécia Antiga. É por isso que, em todas as edições, a delegação grega entra primeiro na cerimônia de abertura. O polêmico Pierre de Coubertin, um aristocrata francês com visão cosmopolita era um ex-atleta, foi o principal responsável pela retomada dos Jogos na era moderna. Desde então, os Jogos cresceram significativamente, incluindo centenas de eventos e milhares de atletas de mais de 200 países. A inclusão de mulheres começou somente em 1900 , e hoje quase metade dos competidores são mulheres. Texto escrito por Katiane Bispo Formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no O Historiante, colunista no jornal Portal Águia e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos, Gênero e Raça. Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Bibliografia https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/pierre-de-coubertin-o-fundador-dos-jogos-olimpicos-da-era-moderna.phtml  - Acessado 30.07.2024

  • Cabeças e Coroas Cortadas: Quando o passado bate à porta

    As Olimpíadas de Paris começaram,  e sua abertura é motivo de muita polêmica, mas  também de muitas apresentações surpreendentes. Entre elas  destaca-se  a banda  de death metal Gojira , que se tornou a primeira banda de metal a tocar numa cerimônia de abertura olímpica. Foi uma das maiores atrações da abertura das Olimpíadas e despertou a admiração do mundo todo com uma versão pesada da canção popular da Revolução Francesa “Ça Ira” , cujo tema  lírico trata da condenação dos aristocratas e do fim da opressão. No início da  performance, Maria Antonieta foi decapitada, interpretada pela cantora de  ópera suíça Marina Viotti, que recitou a canção  às margens do Rio Sena. Dentro desse  cenário, a internet apontou um meme da suposta reação do rei Felipe VI da Espanha ao assistir à cena de Maria Antonieta segurando a  própria cabeça. De forma cômica, isso nos faz pensar na relação entre a  monarquia e a história no contexto contemporâneo. A rainha decapitada Maria Antonieta (1755-1793), austríaca filha de Francisco I e Maria Teresa. Em  1770, ela se casou com Luís-Augusto, futuro rei da França Luís XVI, para  selar  aliança entre as nações. Maria Antonieta subiu ao trono como rainha em 1774  e teve muita dificuldade em se adaptar à vida da corte francesa. Buscando consolo em um estilo de vida extravagante, arruinou sua reputação e, entre muitas circunstâncias,  tornou-se odiada pelo povo , o que a levou à queda  durante a Revolução Francesa . Maria Antonieta foi presa, julgada e morreu na guilhotina em 16 de outubro de 1793 . Stefan Zweig retrata em seu livro “Maria Antonieta – Retrato de uma mulher comum”, uma figura trágica, símbolo da queda da monarquia francesa e do fim de uma era. Tudo em família É curioso pensar que a relação de Maria Antonieta com a família real espanhola é mais do que meramente simbólica; é genealógica . A rainha  decapitada, esposa de Luís XVI, descende de Luís XIV, trisavô de Filipe V, o qual  foi o primeiro Bourbon a reinar na Espanha. Felipe VI, atual  rei , é  descendente direto da linhagem dos Bourbon por parte de seu pai, Juan Carlos I. Portanto, Maria Antonieta tem relações familiares com a família francesa por diversos ramos bem descritos no “ Almanaque de Gotha ” , guia  de referência da alta nobreza e das famílias reais. É quase  cômico imaginar que o parentesco pode acrescentar reações emocionais ao rei que estava diante de um show que exalta e satiriza a morte de sua tia-avó de oitavo grau. No final das contas, a dramatização   histórica é  uma reencenação de um momento trágico na história na família de Felipe VI .  Esse evento representou não só o fim da vida da rainha dos franceses, mas também a queda de um ramo da monarquia durante a Revolução Francesa.  Poderia essa representação ser um lembrete doloroso das vulnerabilidades e crises que a monarquia enfrentou ao longo dos séculos? Como manter a  legitimidade, apoio popular ou a ilusão de utilidade da monarquia e seu papel  de relevância no mundo moderno?  “Segura a cabeça se não a coroa cai” A popularidade da família real espanhola varia , e existem várias razões para  isso. Alguns membros da família se envolveram em escândalos , o que  enfraqueceu sua popularidade, que, comparada com outras famílias reais, nunca  foi alta. O escândalo mais significativo envolveu o pai de Felipe VI, o rei  emérito Juan Carlos I, que foi acusado de corrupção e desvio de dinheiro e, finalmente, teve que abdicar em 2014. A relevância histórica da monarquia na sociedade contemporânea da Espanha  é frequentemente contestada, especialmente em um contexto político e social  que exige maior transparência das instituições. Muitos percebem a monarquia como uma relíquia de um passado autoritário , argumentando que sua  existência é incompatível com os princípios democráticos, principalmente em  um cenário de crescente desigualdade econômica e a desilusão com a classe política. Por meio da arte, as figuras históricas podem ser ressignificadas. Segundo  Friedrich Hegel em Lições de Estética: “A arte é o pensamento refletido, é  através dela que o espírito se manifesta.” Dessa forma, Gojira não é apenas uma banda de música, mas uma voz que fala com as ansiedades e demandas  da sociedade hoje. Texto escrito por Matheus Noronha Formado em Mecânica Aeronáutica, estudante de Engenharia de Automação e Controle pela Universidade São Judas. Um amante da ciência e literatura e curioso por essência. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Bibliografia https://www.rockbizz.com.br/gojira-cidadaos-de-bem-chamam performance-na-abertura-das-olimpiadas-de-satanica/ https://pt.wikipedia.org/wiki/%22%C3%87a_Ira%22   https://www.diariocarioca.com/cultura/musica/gojira-e-marina-viotti-fazem apresentacao-epica-na-abertura-das-olimpiadas/   https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2022/09/rei-emerito-juan-carlos-que renunciou-em-meio-a-escandalo-aparece-com-filho-no-funeral-de-elizabeth ii.ghtml   Livro: Maria Antonieta, retrato de uma mulher comum Stefan Zweig https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2022/09/rei-emerito-juan-carlos-que renunciou-em-meio-a-escandalo-aparece-com-filho-no-funeral-de-elizabeth ii.ghtml https://monarquia.elconfidencialdigital.com/

  • Brasil e Angola: Relações políticas, econômicas e culturais

    As relações entre Angola e Brasil são marcadas por uma longa história de interação e cooperação, que se destaca há séculos. Ambos os países compartilham laços históricos nos âmbitos político , cultural e econômico, que influenciam significativamente a dinâmica das relações bilaterais. Neste contexto, a reflexão e análise  das relações entre Angola e Brasil são   fundamentais , tendo em conta que as relações entre os diferentes Estados não são estáticas, mas dinâmicas . As relações políticas entre Angola e Brasil são históricas , pois os países mantêm suas relações diplomáticas desde a independência de Angola . Salienta-se que o Brasil foi o primeiro país do mundo a reconhecer a independência de Angola , proclamada em 11 de novembro de 1975, pelo então Presidente Dr. António Agostinho Neto. Entretanto, apenas cinco anos mais tarde, após  o reconhecimento da independência de Angola, a cooperação entre ambos os países atingiu o seu  ponto mais alto com a assinatura do primeiro Acordo de Cooperação Econômica, Científica  e Técnica , no dia 11 de junho de 1980. Ao longo dos anos, várias entidades políticas, incluindo presiden tes , ministros e comissões mistas dos dois países, têm se desdobrado em visitas oficiais, resultando na assinatura de outros acordos de cooperação em diversas áreas , com destaque na vertente económica. Consta que as relações bilaterais foram elevadas a outro patamar com o lançamento, em 2010, de uma  parceria estratégica e de múltiplas dimensões, política, econômica, cultural, comercial, de cooperação técnica, de cooperação educacional e de integração cidadã ou consular. Releva-se  que , no continente africano, o Brasil possui apenas este tipo de parceria apenas com Angola e África do Sul. Durante o período do governo do Partido dos Trabalhadores, liderado pelo Presidente Lula da Silva, houve uma maior aproximação com o governo de Angola , resultando em apoio financeiro, construção e reconstrução de vários projetos estruturantes para o desenvolvimento do país africano. Nesse período, algumas empresas brasileiras significativas, como as construtoras Odebrecht, participaram diretamente na construção da principal hidrelétrica, denominada como Central Hidroelétrica de Capanda . As empresas  Camargo Corrêa ,  Andrade Gutierrez  e  Queiroz Galvão  assinaram vários outros grandes contratos para a execução de obras públicas, incluindo a construção de estradas, edifícios habitacionais e escritórios. A relação entre os dois países abrandou durante a vigência do governo do Presidente Jair Bolsonaro, devido  à fraca agenda de sua política externa com os países africanos e, particularmente com Angola . No entanto, com a reeleição de Lula da Silva para a presidência do Brasil no final de 2022, cujas funções se iniciaram em 1º de janeiro de 2023, houve o retorno e o redimensionamento das relações , capazes de impulsionar os diferentes setores estruturantes para o desenvolvimento de Angola. Relações Comerciais No campo comercial, Angola e Brasil mantêm  uma relação comercial significativa, com o Brasil sendo  um importante parceiro. Os principais produtos exportados de Angola para o Brasil incluem minérios, petróleo e produtos agrícolas , enquanto o Brasil exporta  para Angola produtos transformados, máquinas e equipamentos . Sendo o Brasil o terceiro maior produtor mundial de alimentos e um dos primeiros em produção de proteína animal, Angola pode retirar vantagens em  vários níveis. Angola ainda enfrenta  desafios em relação à auto ssuficiência alimentar , de modo que as parcerias comerciais , que não devem se limitar ao nível governamental, mas também se estender  aos privados (empresários), poder ão  reduzir a dependência alimentar externa que o país vive . Essas   parcerias   devem focar  não apenas na aquisição de experiência, particularmente no setor agrícola e  na  produção de alimentos para pessoas e ração animal , mas também em obter conhecimento sobre sistemas de irrigação, logística e distribuição de produtos para as diferentes áreas do extenso território de Angola .   N uma primeira fase,  isso  ajudaria a alcançar a autossuficiência interna e,  posteriormente, com maior produção, a alcançar outros mercados internacionais. Há, entretanto, na relação comercial entre os dois países, algumas barreiras que devem ser consideradas para o normal incremento do fluxo comercial entre Angola e Brasil, tais como os altos custos dos voos de passageiros (empresários), a burocracia na aquisição de vistos de entrada para Angola e Brasil (vice e versa), excessiva burocracia no processo de investimento, a criação de ind ústrias  e a segurança jurídica , particularmente no caso de Angola. Nesse sentido, é essencial que os dois países trabalhem em conjunto para superar esses obstáculos e promov er um comércio mais dinâmico e diversificado. Cultura Na vertente cultural e acadêmica , destacamos a boa e crescente cooperação entre instituições de ensino superior de Angola e Brasil .   T em havido intercâmbios de documentos, estudantes, projetos de pesquisa conjunta e a realização de eventos acadêmicos bilaterais. Essa cooperação tem contribuído para o enriquecimento do ambiente acadêmico, promovendo a troca de conhecimentos e experiências entre as instituições de ensino superior. Angola e Brasil possuem culturas abundantes e enraizadas , ligadas por fatores  históricos. A influência  da cultura angolana na brasileira é manifestada na música, dança e culinária. Ao longo dos anos, também temos visto uma forte cooperação cultural entre Angola e Brasil, com intercâmbios, eventos culturais conjuntos e programas de extensão universitária. Essas iniciativas contribuem para a promoção d a   diversidade   cultural  e para fortalecer  a amizade  entre os povos angolano e brasileiro. Em suma, é importante que Angola e Brasil continuem investindo na promoção da cooperação em vários domínios, o que terá impacto no fortalecimento das relações políticas, comerciais e culturais . Somente assim será possível avançar para um ambiente mais rico e diversificado , beneficiando os cidadãos destes dois países maravilhosos. Texto escrito por  Isaac Jorge   É licenciado em Relações Internacionais e possui experiência diplomática na Missão Diplomática de Angola na África do Sul. Nos últimos 18 anos, trabalhou no Banco Sol S.A., assumindo diversas responsabilidades, incluindo Subdiretor de Desenvolvimento de Negócios, Chefe de Departamento de Banca de Investimentos e Chefe de Departamento de Organização e Qualidade. Também é apaixonado por futebol . Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS: https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/relacoes-bilaterais/todos-os-paises/republica-deangola#:~:text=1983%20%E2%80%93%20II%20Sess%C3%A3o%20da%20Comiss%C3%A3o,reconhecer%20a%20independ%C3%AAncia%20de%20Angola. https://www.gov.br/mre/pt-br/embaixada-luanda/a-embaixada https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/angola-e-brasil-uma-relacao-para-alem-dos-interesses-economicos/

  • “Indesejáveis”: passado e presente da população em situação de rua no Brasil

    A marginalização e exclusão da população de rua no país refletem uma sociedade que perpetua a violência estrutural herdada do racismo pós-abolição. O final do século XIX no Brasil foi palco de relevantes e importantes processos de transição histórica, especialmente o marco legal do fim da escravatura, sistema de domínio, controle e exploração dos corpos da população negra no país que durou cerca de 388 anos . A conhecida Lei Áurea foi aprovada no senado imperial e outorgada por Isabel , regente do trono brasileiro, em 13 de maio. Claro que precisamos esclarecer: a abolição não se deu por bondade da princesa e de seu pai, Pedro II, nem simbolizava a boa vontade da classe aristocrática com o povo preto brasileiro. Antes, foi fruto de décadas de resistência negra , quilombismo urbano e rural e luta abolicionista por todo o país. E o curioso disso é que a lei assinada provou ser o oposto daquilo que a monarquia acreditava que ela seria. A abolição legal viria a encarcerar as populações negras num outro sistema de controle e opressão travestido de liberdade. Sem políticas de integração dos ex-escravos, sem acesso à terra, trabalho ou direitos básicos, resultando em uma herança de pobreza e exclusão social que persiste até hoje , a lei levou à migração em massa para cidades. Sem poder pagar por moradias legais, muitos se estabeleceram em cortiços, quilombos ou áreas ilegais. Entre 1902 e 1906, a demolição de cortiços forçou-os a ocupar morros próximos, num processo que conhecemos como favelização . O episódio conhecido como “bota-abaixo” , empreendido na gestão Pereira Passos no Rio de Janeiro, é um exemplo desse processo. Sob a orientação de higienizar a cidade, o então prefeito e engenheiro Pereira Passos, que havia acompanhado de perto as reformas urbanas de Paris, promoveu políticas de reordenamento urbano com vistas a “ civilizar ” o centro do Rio, modernizá-lo e “ limpá-lo ”. Nesse discurso racista, as populações negras que viviam nos cortiços deveriam ser expulsas por não representarem o ideal estético e sanitário que buscavam. A operação “bota-abaixo” ficou marcada pela maneira autoritária com que lidou com as milhares de pessoas prejudicadas pela perda de suas moradias e negócios. No século XX, o rápido crescimento urbano superou a capacidade do Estado de construir habitações populares. Com salários insuficientes para moradias formais, muitos se mudaram para terrenos ilegais, próximos ao trabalho. As favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, cresceram mais rápido que o resto da cidade, mesmo com remoções nas décadas de 20 e 60. Os indesejáveis A prática denunciada em cidades de Santa Catarina e São Paulo , onde moradores de rua são expulsos e forçados a embarcar para outros municípios , expõe a face mais cruel de uma política de limpeza social. Municípios como Balneário Camboriú , conhecido pelo turismo de luxo, não hesitam em utilizar a força policial para remover aqueles que perturbam a " ordem " e a " estética " urbana, tratando seres humanos como lixo descartável. Essas ações são uma continuação das políticas excludentes que marcaram o Brasil após a abolição da escravatura, como já explicamos. A vulnerabilidade dos moradores de rua, muitos dos quais são negros, é exacerbada por políticas públicas que falham em oferecer suporte digno e inclusivo. O relato de Higor de Souza, expulso de um abrigo em Sorocaba, evidencia a brutalidade dessa exclusão, onde a presença de cães e guardas municipais é uma metáfora trágica da desumanização sistemática. Em contraste, iniciativas como a abertura de abrigos temporários no Distrito Federal durante o inverno , embora bem-intencionadas, são paliativas e insuficientes. A falta de medidas integradas e contínuas, como o acesso a cuidados de saúde e proteção contra epidemias como a dengue , demonstra a negligência estatal. A ausência de dados específicos sobre a saúde da população de rua reforça sua invisibilidade e a carência de políticas públicas efetivas. Uma pesquisa da Fiocruz Minas , publicada este ano, analisou o acesso da População em Situação de Rua (PSR) aos serviços de saúde e assistência social em Belo Horizonte durante a pandemia de Covid-19. Este estudo inédito traçou um panorama abrangente, mostrando que, apesar de existirem barreiras significativas, como a suspensão inicial de serviços e a desorganização dos fluxos de trabalho, houve também inovações importantes. Entre os obstáculos enfrentados, destacam-se a suspensão temporária de programas como o Bolsa Família e a alteração no funcionamento dos CREAS , além de dificuldades na comunicação entre gestores e trabalhadores. Os dados quantitativos mostraram que a população em situação de rua de Belo Horizonte é majoritariamente adulta, masculina e negra , com ensino fundamental incompleto. No entanto, a pandemia trouxe mudanças , como o aumento de mulheres e pessoas com maior escolaridade nas ruas. A análise qualitativa apontou que esse aumento foi atribuído à perda de empregos, incapacidade de pagar aluguel e conflitos familiares. Durante a pandemia , medidas emergenciais, como o Acolhimento Emergencial, e ações da sociedade civil, como a Pastoral da Rua, mostraram-se cruciais. Essas iniciativas proporcionaram apoio vital, como triagem e encaminhamento de casos suspeitos de Covid-19 e apoio psicossocial. A pesquisa ressaltou a importância de um sistema de saúde e assistência social robusto e a necessidade de desenvolver políticas públicas que melhorem o acesso da PSR aos serviços e, idealmente, tirem essas pessoas das ruas e os protejam da violência aos seus corpos. A alta nas denúncias de violência contra pessoas em situação de rua,  impulsionada pela criação de canais específicos de denúncia, revela a gravidade da situação e a necessidade urgente de ações concretas. Os casos aumentaram em 24% entre janeiro e abril deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo um levantamento do ministério. Por meio de denúncias no “Disque 100”, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 6.177 violações contra essa parcela da população. No mesmo período do ano passado, foram registradas 4.962 denúncias. A narrativa midiática Nesse cenário, a mídia online não apenas perpetua preconceitos como também reforça uma visão desumanizante desses indivíduos, como evidenciado em estudos recentes. O uso de linguagem que os associa a "corpos torturáveis" revela a herança de uma subalternidade imposta, onde a sociedade civil aceita passivamente o " holocausto diário" das grandes cidades. A análise de 450 textos da Folha de São Paulo , feita pelas pesquisadoras Viviane de Melo Resende e Daniele Gruppi de Mendonça, entre 2011 e 2013 revela o viés dominante: as vozes das pessoas em situação de rua são minimizadas. De acordo com Resende e Mendonça, a representação é frequentemente negativa, com termos como "perigosas" e "indesejáveis" referindo-se às pessoas em situação de rua. As pessoas em situação de rua foram majoritariamente referidas de forma coletiva, com 297 referências, enquanto as individuais somaram apenas 54. Isso revela que as referências de forma genérica, sem identificar as pessoas, reforçam a perspectiva desumanizante das matérias. Termos pejorativos como " bando " e " mendigo " foram comuns ao longo das reportagens analisadas, reforçando a visão negativa das pessoas. A representação da população em situação de rua como um problema de segurança, e não como uma questão social, também foi frequente. O estudo conclui que a cobertura da FSP sobre a PSR é majoritariamente negativa e reforça estereótipos, contribuindo para a marginalização desse grupo. As avaliações depreciativas justificam ações higienistas e políticas de remoção, em vez de promover o acesso a direitos sociais Assim, a mídia não apenas falha em dar voz aos marginalizados, mas também contribui ativamente para a perpetuação de estereótipos que justificam políticas securitárias, em detrimento de políticas sociais mais humanitárias e inclusivas. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão por  Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/05/13/ha-131-anos-senadores-aprovavam-o-fim-da-escravidao-no-brasil#:~:text=Por%20388%20anos%20o%20Brasil,for%C3%A7a%20motriz%20dessas%20atividades%20econ%C3%B4micas . https://atlas.fgv.br/verbetes/o-bota-abaixo https://www.brasil247.com/brasil/prefeituras-de-sc-e-sp-sao-investigadas-por-expulsar-moradores-de-rua-para-outras-cidades https://www.metropoles.com/colunas/grande-angular/sob-frio-intenso-df-inaugura-abrigo-provisorio-para-moradores-de-rua https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2024/02/6809997-dengue-populacao-em-situacao-de-rua-esta-vulneravel-ao-aedes-aegypti.html https://portal.fiocruz.br/noticia/2024/03/estudo-analisa-acesso-de-populacao-em-situacao-de-rua-de-bh-assistencia-na-pandemia https://www.cnnbrasil.com.br/politica/alta-na-violencia-contra-pessoas-em-situacao-de-rua-e-reflexo-de-violacoes-serem-mais-vistas-agora-diz-ministerio/ https://www.scielo.br/j/delta/a/YJvBX8ShDWhBgh76qpf8Psr/

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