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- A 37ª Hora - Quando o suspense dorme ao lado
Sinopse Depois de 36 horas, os rastros de uma pessoa desaparecida simplesmente somem.. A detetive Sarah Pribek trabalha no limite do desespero. Todos os dias ocupa-se de longos telefonemas de familiares ávidos por qualquer informação sobre os seus entes. Entretanto, a realidade que ela encara agora é totalmente diferente. Seu marido desapareceu, sumiu do mapa. Cabe a ela correr contra o tempo e evitar que chegue a hora. Resenha Este é o primeiro livro da escritora Jodi Compton e ela realmente me surpreendeu. Li o livro rapidamente pois a trama foi muito bem contada e o estilo de escrita afiado. A história gira em torno de Sarah Pribek , detetive com foco em pessoas desaparecidas em Minneapolis. Quando seu marido, também policial, desaparece, Sarah se vê envolvida em uma investigação pessoal. A trama nos leva a explorar o passado do marido, sua família e os casos não resolvidos que os afetaram profundamente. À medida em que Sarah segue um rastro de surpresas chocantes e revelações amargas, ela enfrenta o medo de que seu marido esteja morto. O texto oferece uma narrativa envolvente e uma visão detalhada da vida de seus personagens. O livro foi escrito em primeira pessoa, e é muito descritivo. Eu geralmente não gosto muito de descrições, mas a escritora soube dosar as descrições entre pessoas, situações e locais. E isso me agradou muito , pois eu não queria parar de ler para saber o que ia acontecer. Os personagens também foram muito bem construídos e foi possível sentir a angústia de Sarah na procura por seu marido, como ela precisava entender quem era Michael Shiloh, para poder então saber o que lhe havia acontecido. O tom do livro “ A 37ª Hora ” é sombrio e tenso. A narrativa de suspense e mistério cria uma atmosfera carregada de segredos, revelações e emoções intensas. Os personagens enfrentam dilemas pessoais e desafios profissionais, o que contribui para a sensação de urgência e inquietação ao longo da história. É um livro realista, que mostra um pouco o lado da polícia e da chamada Justiça (leia-se juiz, júri e advogados), onde devido a um pormenor qualquer, um delinquente acaba livre da prisão. O desfecho de “A 37ª Hora” é intenso e surpreendente. Sem dar spoilers, posso dizer que as revelações finais têm um impacto profundo nos personagens e nas suas vidas. A autora Jodi Compton habilmente amarra os fios soltos da trama, deixando os leitores com uma sensação de satisfação e, ao mesmo tempo, com algumas questões para refletir. Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão e edição: Felipe Bonsanto
- O último samba de Elza e Mané
Elza Soares e Garrincha, ícones brasileiros, viveram um amor intenso e controverso nos anos 60. Entre a música e o futebol, enfrentaram perseguições e desafios pessoais. Sua história é um retrato de paixão, luta e resistência em tempos difíceis, capturando o coração do Brasil. Quando ele tinha a bola nos pés , o povo brasileiro vibrava. Quando ela segurava o microfone, suas canções emocionavam a plateia, ora com a suavidade de sua voz, ora com tons arranhados típicos do Jazz. Eles não eram uma dupla musical, nem um par de ataque de um time. Elza e Mané, amantes, namorados, marido e mulher, formaram um casal improvável em uma sociedade que rejeitava sua união. Durante os anos que caminharam juntos, enfrentaram altos e baixos, passando por uma Ditadura que quase os destruiu até momentos de perdas irreparáveis. A história deste par, gigantes da cultura brasileira, é narrada na série " Elza e Mané - Amor em Linhas Tortas ", disponível no Globoplay . Seus episódios revelam a relação entre a cantora e o jogador, entrelaçando temas e momentos cruciais da história do Brasil. Primeiro acorde Elza e Mané se encontraram pela primeira vez durante a preparação para a Copa do Mundo de 1962. Elza, convidada a cantar para a seleção brasileira, foi recebida por Garrincha, que ofereceu seu quarto para que ela se arrumasse. Quem estava presente já sentia uma química entre eles. Nesse encontro icônico, Mané prometeu a Elza a vitória na Copa. A conquista mundial veio , assim como a aproximação entre a cantora e o craque, que brilhou na competição em uma época em que Pelé, lesionado, não pôde jogar, deixando espaço para o destaque do anjo de pernas tortas. No entanto, havia um importante e significativo impeditivo para a aproximação do jogador e da cantora. Garrincha era casado, com seis filhas, e vivia com sua esposa em Pau Grande, Magé, no interior do Rio de Janeiro. Qualquer envolvimento com Elza seria um escândalo aos olhos da sociedade. As ausências de Garrincha nos treinos do Botafogo começaram a levantar suspeitas. Onde estava Mané? A resposta era simples. Após uma breve investigação de jornalistas amigos do jogador, descobriu-se que ele estava na casa de Elza , na Urca. Durante esse período, ele nem sequer voltou para sua própria casa. Os jornalistas documentaram seu retorno a Pau Grande, capturando desde a silhueta de Elza até Garrincha com suas filhas, retornando ao lar. Logo, as manchetes dos principais jornais cariocas estampavam o caso do jogador com a cantora. Sobe o tom no refrão A relação enfrentou muitos desafios, sendo o alcoolismo um dos maiores . Garrincha, apreciador de cachaça com groselha, era frequentemente visto bebendo em diversas bodegas da região, enquanto sua forma física deteriorava , especialmente seu joelho, tratado com injeções para aliviar as dores. Simultaneamente, Elza Soares ganhava reconhecimento musical e sustentava a casa , apesar das acusações de que ela teria destruído a carreira de Garrincha. A ascensão de Elza foi interrompida pelo golpe militar de 1964. Hostilizados, e com a casa metralhada, o casal buscou exílio na Itália em 1970 , onde se aproximaram de Chico Buarque e Marieta Severo , tornando-se grandes amigos. Elza conquistou os palcos europeus, enquanto a carreira de Garrincha afundava cada vez mais. Desde que deixou o Botafogo, Mané nunca mais exibiu o futebol brilhante que encantou os estádios do mundo . Todos os entrevistados no documentário (Juca Kfouri, José Trajano, Zeca Camargo, e ex-companheiros de futebol, como Gérson) concordam que Mané não se ajudava. Os relatos daqueles que conviveram com ele giram em torno de um ponto: Garrincha, bêbado, fingindo jogar enquanto caía pelo gramado. Um fim melancólico para sua carreira. Elza aguentou até onde pôde. Quando ela partiu, Mané rapidamente encontrou outra pessoa, sem talvez jamais preencher o vazio que ela deixou. Estrofe final Passando por derrocadas e redenção, Elza Soares reinventou-se como cantora e produtora cultural. Do samba ao eletrônico das periferias, emergiu nos anos 2000 como a mulher do milênio, eleita pela BBC , integrando um seleto grupo de artistas mulheres ao redor do mundo. Nesse momento, sua carreira tomou novos rumos com trabalhos autorais marcados pelo posicionamento antirracista e pela afirmação como rainha da música popular brasileira. Sua passagem pela Terra terminou em janeiro de 2022, mas sua trajetória de superação inspirou muitas pessoas. As linhas tortas que uniram e separaram Elza e Mané escreveram a história de um encontro entre dois gigantes da cultura popular brasileira . A série da Globoplay capta com sensibilidade essa história de amor. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto
- Grupo envia Carta Aberta a Lula pedindo rompimento de relações com Israel
De acordo com a colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo. No último dia 29 de maio de 2024, foi entregue ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, carta aberta assinada por nomes importantes como artistas, políticos, intelectuais, influenciadores, empresários e judeus. A carta aberta solicita o rompimento da relação entre Brasil e Israel, diante do que chamaram de "carnificina", a atual guerra entre Israel e Palestina. O texto ainda cita o recente ataque realizado por Israel ao acampamento de refugiados em Rafah, sul da Palestina, onde "dezenas de inocentes foram assassinados". Leia a íntegra da carta a seguir: "Estimado presidente Lula, Antes de mais nada, queremos saudá-lo por seu comportamento sempre firme e coerente em solidariedade ao povo palestino, denunciando reiteradamente o genocídio do qual é vítima, especialmente suas mulheres e crianças. O Brasil tem apresentado seguidas propostas para o cessar fogo na Faixa de Gaza e a solução de dois Estados estabelecida por resoluções internacionais. Graças ao seu governo, somos uma das nações que reconhecem, no âmbito das Nações Unidas, a soberania e a independência da Palestina. No entanto, a crescente violência imposta pelo governo Netanyahu, com ataques desumanos e cruéis contra civis, obriga o mundo a ir além de gestos e propostas diplomáticas, como já debatem diversos países da União Europeia e outras regiões. O governo Netanyahu viola abertamente deliberações emanadas da Corte Internacional de Justiça, colocando-se à margem do direito, além de desrespeitar o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral da ONU. Recentes ataques contra um acampamento de deslocados em Rafah, no sul de Gaza, com dezenas de inocentes assassinados, demonstram claramente inaceitável desprezo à ética humanitária. Estamos convencidos, querido presidente, que é hora de nosso país se juntar às demais nações que romperam relações diplomáticas e comerciais com o Estado de Israel, exigindo o cumprimento das decisões que colocam fim ao genocídio e garantem a autodeterminação do povo palestino. Essas medidas, adotadas por nosso país e sob uma liderança de sua envergadura, certamente serviriam de exemplo a outros governos e constituiriam uma imensa contribuição para que se encerre essa carnificina insuportável. Amanda Harumy - Anita Leocadia Prestes - Antônio Carlos de Almeida Castro -Arlene Clemesha- Berenice Bento- Breno Altman- Bruno Huberman -Carol Proner- Cézar Brito- Chico Buarque -Eleonora Menicucci de Oliveira -Emicida -Eugênio AragãoFrancirosy Campos Barbosa- Gilberto Gil- Heloísa VilelaJamal Suleiman- Jessé Souza-João Pedro Stédile- Jones Manoel- José de Abreu- José Dirceu- José Genoíno -Juliana Neuenschwander- Juarez Tavares- Kenarik Boujikian -Larissa Ramina- Luiz Carlos Bresser-Pereira -Luiz Carlos da Rocha -Manoel Caetano Ferreira Filho- Manuella MirellaMargarida Lacombe -Marly Vianna- Milton Hatoum -Nathalia Urban- Ney Strozake -Paulo Borba Casella- Paulo Nogueira Batista Jr.- Paulo Sérgio Pinheiro- Paulo Vannuchi- Pedro Serrano- Reginaldo Nasser -Salem NasserUalid Rabah" Edição: Felipe Bonsanto
- Sistema Nacional de Cultura: O “SUS" da Cultura
Em novembro de 2023, aconteceu o MICBR (Mercado das Indústrias Criativas do Brasil). O evento reuniu pessoas que trabalham com Cultura e Criatividade dos 4 cantos do país, além de representantes do exterior. Estive lá com colegas da área de Economia Criativa para entender os desafios e oportunidades da área cultural. O evento ocorreu em novembro de 2023. Várias articulações na área cultural foram feitas no MICBR e posteriormente adicionadas na agenda de discussões sobre o Sistema Nacional de Cultura. Dentro do evento, havia painéis temáticos com profissionais experientes da área da Cultura. Nosso grupo queria ir ao painel sobre Política Nacional de Cultura. Então começou uma breve jornada “a pé” para achar a sala. Olhando a programação impressa, partimos e encontramos a sala descrita. Quando chegamos no local indicado, ouvimos da recepção: "A atividade que vocês querem vai ser lá na sala Carimbó, do outro lado." Cruzamos o Hangar (Centro de Convenções de Belém/PA) para ouvir da pessoa em frente a porta: “Esse painel não é aqui não, é lá no Banzeiro”. Com cara de perdidos, cruzamos novamente o espaço e chegamos ao Banzeiro, para ouvir, agora pela última vez: “Tivemos que mudar a sala, agora é lá na Pororoca.” Para nossa sorte, a Pororoca ficava no mesmo corredor que estávamos. O tema “Gestão Cultural e Fortalecimento das Políticas Públicas nos Territórios: Cultura como Direito”, teve a participação de: Lia Baron (Gestora Cultural) - RJ, Guilherme Varela (advogado, gestor cultural e músico) - BA, Fabrício Noronha (Secretário da Cultura do Espírito Santo e Presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura) - ES. Durante as falas, entendemos como foi a criação de várias políticas nacionais na área da Cultura, como a Lei Rouanet, além de debater o futuro das políticas públicas na área da Cultura. Foi nessa conversa que ouvimos o termo “SUS da Cultura”. Mas o que o Sistema Único de Saúde tem a ver com Cultura? O SUS é um modelo de saúde pública admirado no mundo todo. Apesar dos problemas enfrentados, é uma das formas mais eficientes de garantir o direito à saúde da população brasileira. Baseados nos princípios da universalidade, integralidade e equidade, leva saúde para o máximo de pessoas possível. Em 6 de março de 2024, o Senado Federal sancionou o marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura, para garantia dos direitos culturais, em um regime de colaboração constante entre os entes federativos. Durante a sanção do Sistema Nacional de Cultura, Margareth Menezes, Ministra da Cultura, disse: "Teremos representação do MinC em todos os estados do Brasil. E teremos os agentes culturais, para chegar naqueles lugares onde nunca chegaram às ações culturais. Será como o agente [de saúde] do SUS." Essa foi a fala de Margareth Menezes, Ministra da Cultura, na sanção do marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura (SNC). (Agência Brasil, 2024). Mas por que este tema é tão importante dentro da nossa sociedade e na relação complexa com as nações? Primeiro, é que a Cultura é um direito universal e consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo 27 (Você pode ler mais sobre a Cultura no Portal Águia clicando aqui. Desta forma, garantir o Direito à Cultura é um desafio que as nações precisam enfrentar. O Brasil possui em seu ordenamento jurídico, o artigo 215: “Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.” Para garantir maior participação popular na construção do Sistema Nacional de Cultura, foi necessário uma mobilização enorme, iniciando nos municípios, com as Conferências Municipais de Cultura, depois as Estaduais, e culminando na Conferência Nacional de Cultura, evento que consolidou as propostas do SNC. A etapa municipal ficou a cargo das Secretarias Municipais de Cultura e os profissionais da Cultura de cada cidade. Através de reuniões públicas, a população teve que contribuir com o debate sobre as propostas da Cultura para o município. Propostas estas que servirão de base para as políticas públicas municipais da cidade para os próximos anos. Após a etapa municipal, foram eleitos delegados para representar cada cidade na Conferência Estadual de Cultura, que definiu propostas para a Cultura no âmbito estadual. Apesar de similares, o escopo da etapa do Estado permite que as políticas públicas da Cultura respeitem as especificidades de cada região, suas vocações e reparar desigualdade na distribuição de recursos, complementando as propostas municipais. A 4ª Conferência Nacional de Cultura aconteceu em Brasília, no mês de março, com a presença de quase 5 mil pessoas, a maioria, fazedores de Cultura do país. A última edição foi realizada há 10 anos, o que justifica o empenho do setor em discutir as políticas públicas da Cultura nacional. O Sistema Nacional de Cultura teve como sua base fundadora: as Emendas Constitucionais (EC) 48, de 2005, com o estabelecimento do Plano Nacional de Cultura (PNC), e a EC 71, de 2012, que criou o Sistema Nacional de Cultura, e a Lei 13.018, de 2014, que gerou a Política Nacional de Cultura Viva. “São medidas que procuraram dar organicidade às políticas culturais, reforçar o enraizamento federativo e promover a participação nas decisões públicas sobre a cultura, assim como democratizar, social e territorialmente, o acesso aos recursos de fomento. Cumpre agora avançar na implementação de um arcabouço operacional coerente.” (ZAMBRIÃO, MORAES, 2023). É um processo de gestão e promoção das políticas públicas da Cultura, democráticas e permanentes, com responsabilidades compartilhadas entre o Governo Federal, Estados e cidades e a sociedade civil. Tem caráter descentralizado e com ampla participação popular, tendo como objetivo, promover o desenvolvimento humano, social e econômico e garantir o direito à Cultura aos cidadãos. (SNC, 2024). Entre os princípios que regem o Sistema Nacional de Cultura, a diversidade das expressões culturais e a universalização do acesso aos bens e serviços culturais, visam democratizar o acesso à Cultura pela população, muitas vezes tolhida desse direito. A integração e interação na execução das políticas culturais entre os entes (federal, estadual e municipal), a transversalidade das políticas culturais e a descentralização da gestão, fazem com que essa política seja uma inovação em termos de política pública, assim como foi com o SUS. Um dos temas de maior debate foi a gestão dos recursos. Por se tratar de um país de proporções continentais, existem vários “Brasis” em um. A distribuição de recursos para fomento à Cultura precisa respeitar as particularidades e lidar com a diversidade cultural de cada região do país. Um dos componentes do SNC que irá tratar disso, é o Sistema de Financiamento à Cultura. Guilherme Varella, traz em sua pesquisa de Mestrado sobre a Política Nacional de Cultura: “As políticas públicas devem ter em conta a realização dos direitos culturais, estabelecendo-se aqui uma conexão entre a tutela objetiva e a proteção subjetiva da cultura, entre as tarefas fundamentais do Estado e os direitos culturais” (V. P. da SILVA, ob. cit., p. 61 apud VARELLA, 2013, p. 95). O funcionamento do Sistema Nacional de Cultura é de caráter estruturante, o que reforça o caráter de política de Estado: “Quando uma política pública é criada de forma estruturada, pensada por diferentes setores da sociedade, com grande apoio social, robustez e orçamento para ser executada a longo prazo e ela se mantém independente das trocas de governo, ela passa a ser considerada uma política de estado.” (Barão, Resegue, Monteiro, 2022). A construção do Sistema Nacional de Cultura não termina com a sanção pelo Senado Federal. Os municípios precisam aderir ao Sistema, acessando o site Portal SNC. É fundamental que a sociedade civil, articulada e munida de informação de qualidade, cobre do poder público municipal a adesão ao Sistema. O Direito à Cultura é um direito universal e importante no desenvolvimento humano, pois é através dela que os símbolos, as manifestações culturais, o combate ao preconceito e demais áreas transversais transforma a visão de mundo das pessoas e ajuda na construção de um país mais equitativo e digno para todas as pessoas. Texto escrito por Josué Kenji formado em Relações Internacionais, produtor cultural e pós-graduando em gestão Cultural, desenvolvimento e mercado. É co-organizador do "Festival da Criatividade Cria Bauru 2020" desde 2020, criador da "Comunidade Criativa Cria Bauru", articulador criativo da "Rede Bauru: Cidade Criativa Unesco", está membro do "Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (2022-2024)" na cadeira de Sociedade Civil e atualmente é colunista do Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://portal.stf.jus.br/constituicao-supremo/artigo.asp?abrirBase=CF&abrirArtigo=215#:~:text=215.,a%20difus%C3%A3o%20das%20manifesta%C3%A7%C3%B5es%20culturais. https://pp.nexojornal.com.br/ponto-de-vista/2023/o-caminho-para-consolidar-o-sistema-nacional-de-cultura https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-04/lula-sanciona-o-sus-da-cultura-que-define-gestao-do-setor-no-pais https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/minc-realiza-a-maior-conferencia-nacional-de-cultura-da-historia-do-pais https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/minc-comemora-a-aprovacao-do-marco-regulatorio-do-sistema-nacional-de-cultura http://portalsnc.cultura.gov.br/sobre/o-que-e-o-snc/ https://www.politize.com.br/politicas-de-estado-o-que-sao-e-por-que-precisamos-delas-no-brasil/ https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2134/tde-17012023-152346/pt-br.php https://oei.int/pt/escritorios/brasil/noticia/comecam-os-debates-na-4a-conferencia-nacional-de-cultura
- Stalking: A obsessão levada ao extremo
Nessa última semana, tive a oportunidade de assistir uma série da Netflix que está sendo bastante comentada, Bebê Rena (Baby Reindeer), escrita pelo comediante Richard Gadd. Na série, Richard interpreta a si mesmo com um nome fictício (Donny) e conta suas desventuras numa época em que foi perseguido e assediado por uma mulher chamada Martha (interpretada por Jessica Gunning). Após assistir a série, pude perceber que este tema é pouco debatido ainda na mídia tradicional, e raramente as investigações da polícia conseguem efetuar a prisão dos perseguidores (chamados em inglês de stalkers). Mas o que causa esse comportamento nas pessoas? Por que é tão difícil comprovar um crime nesses casos? Neste artigo vou detalhar algumas informações sobre esse tema, tentando elucidar as possíveis razões por trás dessas perseguições. Erotomania ou Síndrome de Clérambault A síndrome de Clérambault, ou erotomania, é descrita como uma convicção delirante, apresentada, geralmente, por uma mulher que acredita que um homem, mais velho e de posição social mais elevada, ama-a. O paciente persegue o objeto de amor e, por isso, eventualmente, envolve-se em retaliações e ameaças em resposta às repetidas rejeições. Relatos dos séculos 17 e 18 descreveram as chamadas "variantes" do amor patológico, tais como a ninfomania (furor uterinus), a erotomania (amor insanus) e a melancolia erótica. Durante toda a história, existiram muitas discordâncias entre diversos autores, médicos ou não, a respeito dos comportamentos de alguns apaixonados ou amantes. Frequentemente, os termos paixão e loucura eram usados simultaneamente e com os significados mais diversos. No século 19, Emil Kraepelin, em sua obra "Maniac-Depressive Insanity and Paranoia"("Insanidade Maníaco-Depressiva e Paranóia"), discutiu os limites entre diferentes condições psiquiátricas, incluindo a paranóia, na qual a erotomania foi considerada um subtipo. Gaëtan Gatian de Clérambault, em 1921, descreveu a erotomania como uma condição na qual um indivíduo, geralmente uma mulher, acredita ser amado por alguém de posição social proeminente. O paciente tende a insistir nesse amor, interpretando sinais, gestos e até mesmo negativas como confirmação do sentimento. A incidência da erotomania é pouco definida, mas estima-se que afete cerca de 0,3% da população. Ela ocorre em mulheres e homens, em diversas culturas e contextos socioeconômicos. A influência da hereditariedade não é clara devido à escassez de casos relatados. A erotomania pode ser classificada em primária, sem associação a outros transtornos, e secundária, que geralmente ocorre junto com outras desordens psiquiátricas. Na literatura médica brasileira, a erotomania é pouco discutida e subdiagnosticada, contribuindo para sua cronicidade. Tendo em vistas as descrições acima, é possível identificar a personagem da série Bebê Rena, Martha, como portadora da síndrome de Clérambault, pois seu comportamento corresponde às definições do distúrbio, como acreditar em um amor imaginário e a insistência nesse amor mesmo com as repetidas negativas de Donny sobre a relação. Investigação do crime de stalking Apesar de a prática de perseguição, o chamado stalking, ter sido incluída no Código Penal, a vítima ainda encontra muita dificuldade para que o crime seja investigado quando a autoria não está evidente. Isso acontece porque o stalking é um crime de ação penal pública condicionada, ou seja, o caso só será investigado se a vítima manifestar sua vontade de representar contra o autor. Há também falta de consciência e treinamento. Muitos agentes da lei podem não estar familiarizados com as leis específicas relacionadas ao stalking e podem não receber treinamento adequado para lidar com esses casos. Provar o stalking pode ser difícil, pois muitas vezes ocorre de formas sutis e persistentes, como mensagens constantes, monitoramento online e presença física constante, o que pode ser difícil de documentar e provar. Algumas autoridades e indivíduos podem minimizar o crime, vendo-o como um comportamento inconveniente, mas não necessariamente perigoso. No entanto, o stalking pode ter sérias consequências para a saúde mental e física da vítima. As vítimas às vezes enfrentam estigma social e podem ser culpabilizadas pelo assédio que estão sofrendo, o que pode levar à subnotificação e à falta de apoio adequado. Em muitos países, incluindo o Brasil, os recursos da aplicação da lei podem ser priorizados para crimes considerados mais graves, como violência doméstica, crimes sexuais e homicídios, deixando o stalking em segundo plano. Há também o fato da mídia tradicional muitas vezes não abordar o crime com a seriedade e a frequência necessárias para aumentar a conscientização sobre o problema e destacar sua gravidade. Um exemplo é o caso da stalker Kawara Welch, uma mulher brasileira de 23 anos que é acusada de perseguir um médico e sua família por cinco anos. Nas manchetes e artigos publicados na internet, é possível ver matérias que tiram a seriedade do tema e colocam a criminosa como “celebridade”, influenciando a opinião pública em favor da agressora. Esses fatores combinados contribuem para a subestimação do stalking como um crime sério e para sua falta de visibilidade na mídia tradicional e na aplicação da lei. No entanto, há um crescente reconhecimento da importância de abordar este crime de maneira mais eficaz, tanto por meio da legislação quanto da conscientização pública. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Portal Águia, é desenvolvedor de software, podcaster, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Fontes https://www.scielo.br/j/rprs/a/zVTXMLhnWL7dt7s8bV5t6Jc/ https://akmcomunicacao.com.br/investigar-stalking-ainda-e-desafio-para-punir-criminoso/#:~:text=Apesar%20de%20a%20pr%C3%A1tica%20de,de%20a%C3%A7%C3%A3o%20penal%20p%C3%BAblica%20condicionada.
- Exploração Brutal: A Realidade Espelhada em Duna
Duna, dirigido por Denis Villeneuve, é um filme que se passa em um futuro distante, onde a humanidade colonizou vários planetas e é governada por um imperador e várias casas nobres. Uma dessas casas é a dos Atreides, liderada pelo duque Leto. A trama se desenrola no árido e inóspito planeta Arrakis, também conhecido como Duna. O filme foi adaptado do livro homônimo de Frank Herbert, publicado originalmente em 1965 e que ganhou uma edição especial em 2017. Essa obra-prima da ficção científica deu início a uma das mais épicas sagas do gênero. Desde então, Duna influenciou e inspirou gerações de artistas, escritores, cineastas e leitores ao redor do mundo. Seu universo complexo, cenários envoltos em areia, vermes gigantes, guerras e intrincadas tramas políticas cativaram o público. A influência de Duna pode ser vista em outras histórias, como Star Wars, que bebeu da mesma fonte em termos de universo e política. Em 1984, houve uma primeira tentativa de filmar Duna, dirigida por David Lynch. Embora tenha sido um fracasso de bilheteria e criticamente mal recebida na época, essa adaptação ganhou status cult entre alguns fãs. A complexidade do livro e a riqueza de seu mundo tornaram a adaptação um desafio, mas também uma oportunidade para explorar visualmente o planeta Arrakis e seus personagens. Surpreendentemente, Duna nos apresenta um futuro distópico sem robôs ou máquinas de computador. Essa ausência de tecnologia convencional é central para a trama, pois coloca o foco nas relações humanas, nas alianças e nas traições. Ao contrário das típicas representações de ficção científica, onde a tecnologia é onipresente, aqui somos confrontados com uma sociedade que se baseia em habilidades individuais e estratégias políticas. Essa escolha criativa nos faz lembrar de outras obras cinematográficas que exploram temas semelhantes. "Alien, o 8º Passageiro" nos apresenta uma nave espacial assombrada por uma criatura alienígena, enquanto "Transcendence" questiona os limites entre humanidade e inteligência artificial. "Interestelar" nos leva a um futuro onde a sobrevivência da humanidade depende da exploração intergaláctica, e "Vingador do Futuro" nos faz questionar nossa própria identidade em um mundo dominado pela tecnologia. Por fim, "Tropas Estelares" nos mostra uma guerra interplanetária, onde jovens soldados enfrentam desafios mortais. Arrakis: O Espelho do Oriente Médio O planeta Arrakis, também conhecido como Duna, é o epicentro de toda a trama. Suas vastas extensões de areia e rocha escondem um tesouro precioso: o Spice. Essa substância, cujo verdadeiro nome é melange, é essencial para a viagem interplanetária e a expansão da civilização. O Spice é cobiçado por todas as facções, e sua posse confere poder e influência. Paralelamente, a especiaria pode ser vista como uma metáfora para os recursos naturais do Oriente Médio, como o petróleo. Assim como a melange, o petróleo tem grande valor e influência global. Aqui, o jogo de palavras e seus significados são cruciais. Arrakis, com sua semelhança fonética com o Iraque, evoca as tensões geopolíticas da nossa própria história. O Spice, que permite a dobra espacial e a comunicação interestelar, é análogo à gasolina que move nossos veículos e economias. As roupas e nomes dos personagens, com suas referências sutis ao Oriente Médio, nos lembram dos eventos reais que moldaram nosso mundo. Duna retrata um império intergaláctico e feudos planetários em constante disputa por poder e controle. Essa dinâmica reflete as tensões geopolíticas no Oriente Médio, onde as nações competem por recursos, influência e hegemonia. A Guilda Espacial em Duna é responsável pela navegação interplanetária, sendo que os pilotos usam a melange para prever rotas seguras. Isso pode ser comparado à importância estratégica do Estreito de Ormuz no Oriente Médio, por onde passa grande parte do petróleo mundial. Duna transcende o gênero da ficção científica, mergulhando em questões profundas sobre poder, exploração e influência política. Duna desconstrói estereótipos e oferece uma visão mais complexa e matizada do Oriente Médio, lembrando-nos de que as culturas não são monolíticas. À medida que acompanhamos os passos do jovem herói Paul Atreides, somos lembrados de que, mesmo em um universo distante, as lutas humanas permanecem as mesmas. Detalhes do filme: Filme: Duna (Dune) Elenco: Timothée Chalamet (Paul Atreides), Rebecca Ferguson (Lady Jessica Atreides), Zendaya (Chani), Oscar Isaac (Duke Leto Atreides), Jason Momoa (Duncan Idaho), Stellan Skarsgård (Baron Vladimir Harkonnen), Josh Brolin (Gurney Halleck), Javier Bardem (Stilgar) Diretor: Denis Villeneuve Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=dnBpZuSUISQ Trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=M-bWFbJlwXk&list=OLAK5uy_kq8hi1ZNKLuuOITO4vOj4LVf1c-FWhnP8 Avaliação IMDB: https://www.imdb.com/title/tt1160419/?ref_=nv_sr_srsg_0 (8.1) Avaliação Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/dune_2021 Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Referências: https://pt.wikipedia.org/wiki/Duna_(2021) https://en.wikipedia.org/wiki/Dune_(2021_film) https://www.imdb.com/title/tt1160419/?ref_=nv_sr_srsg_0 https://rabiscodahistoria.com/duna https://hypando.com.br/resumo-de-duna https://cinema10.com.br/filme/duna1 https://www.queriaestarlendo.com.br/2021/10/resenha-duna-frank-herbert.html https://www.youtube.com/watch?v=8Wrz2kxcbiY https://www.youtube.com/watch?v=2VvYlnF9-qk https://www.youtube.com/watch?v=UvIJ65x5mdE https://historiaislamica.com/pt/as-referencias-ao-isl-no-sucesso-de-duna-e-as-dezenas-de-termos-arabes-da-serie https://www.vlibras.com.br/cultura-e-historia-do-oriente-medio-uma-visao-abrangente https://www.doisniveis.com/2n-literario/2n-literario-duna-frank-herbert-povos-amazigh https://www.timeplusnews.com/news/duna-parte-2-criticada-por-nao-incluir-influencias-do-oriente-medio-e-do-norte-da-africa-que-eram-tao-predominantes-no-livro-de-frank-herbert
- Resistência: A história de uma mulher que desafiou Hitler
Sinopse: No verão de 1940, quando a ocupação nazista na França se tornou irremediável, a vida da historiadora de arte Agnes Humbert tomou um rumo surpreendente. Inconformada com a dominação nazista, movida por uma coragem ímpar e com o apoio de seus colegas do Museu do Homem em Paris, Agnès fundou um dos primeiros grupos da Resistência francesa. Durante quase um ano, ela e seus companheiros redigiram, imprimiram e distribuíram o jornal Résistance, além de panfletos e outros textos contra o governo de Vichy. A rede de rebeldes do Museu do Homem, improvável porém eficiente, conquistaria um lugar de trágico destaque na história da Segunda Guerra Mundial. Em 1941, muitos dos seus membros, incluindo o carismático líder Boris Vildé e a própria Agnès, foram traídos por um espião e entregues à Gestapo. Presos, sete dos homens foram condenados à morte e executados por um pelotão de fuzilamento. As mulheres foram deportadas para a Alemanha como trabalhadoras escravas. Em "Resistência", esses eventos são descritos com um imediatismo pulsante, que percorre cada página do diário secreto de Agnès, publicado inicialmente na França em 1946 e depois esquecido. Até a sua captura, nos primeiros meses de 1941, Agnès registrou os fatos dia após dia, e suas anotações nos permitem acompanhar cada passo dos primórdios da Resistência. Feita prisioneira, ela não tinha mais como escrever em seu diário. Contudo, ao ser libertada em 1945, dedicou-se a repassar os fatos em sua memória para registrá-los ainda no calor dos acontecimentos. Com humor, inteligência e ironia, Agnès constrói uma narrativa única, um ponto de vista original sobre esse período obscuro e dramático do século XX. A delicadeza de suas observações cativa o leitor. Apesar de fisicamente debilitada e espiritualmente exausta, ela ainda é capaz de se preocupar com a saúde da mãe e a situação dos filhos. Quando seu filho Pierre a visita na prisão de Fresnes, Agnès se ressente da degradação daquele momento e lamenta consigo mesma por não poder evitar que ele tome parte naquele teatro do absurdo. Recusando-se, inclusive nos dias mais duros, a ceder e a abandonar sua compaixão, Agnès revela aos poucos, com habilidade e um toque de sarcasmo, a profundidade de seu ultraje e de suas convicções. Escrito com o vigor dos eventos recém-vividos, Resistência é o testemunho do espírito indomável de uma mulher, e um tributo eloqüente ao sacrifício e à coragem dos seus camaradas que não sobreviveram. Resenha: A sinopse já diz sobre o que é esse livro. O que posso dizer a respeito? Bem, eu já li muitos livros sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas a maioria deles sempre a respeito do que aconteceu com os judeus. É a primeira vez que leio um livro que fala sobre prisioneiros políticos e como eles foram tratados durante a guerra. Agnès escreveu um diário sobre esse período em que ficou presa na Alemanha. Ela começa seu diário na França relatando os atos do movimento da Resistência Francesa, da qual ela fazia parte. Quando é presa, tiram-lhe tudo, e ela não tem onde escrever sobre seus dias de prisioneira. O que ela faz então: grava os fatos na sua memória como páginas de um livro, onde ela vai discorrendo sobre tudo o que acontece com ela e com suas companheiras. É um relato contundente. Fiquei chocada com o que o ser humano pode fazer ao seu semelhante. Diferente de outros livros que li, apenas ficção, este é uma realidade que aconteceu, narrado por uma mulher que passou por todas as agruras da guerra. Mas o mais importante e que me marcou muito, foi a esperança que Agnès tinha em seu coração de um dia rever sua amada França e uma certeza que os alemães perderiam a guerra. Acredito que foi essa esperança que a manteve viva durante os 4 anos em que passou presa. É um livro impactante e eu recomendo muito para todos que quiserem saber mais sobre a Segunda Guerra sob a ótica de uma mulher francesa, que teve seu país tomado pelos alemães. Quem tiver a oportunidade, leia. É uma leitura para reflexão sobre a nossa vida. Principalmente nos dias de hoje, onde estamos contemplando as guerras entre Rússia e Ucrânia, Israel e Hamas, e as guerras na África. Parece que não aprendemos nada com as guerras passadas, com o massacre de pessoas inocentes, e esse ciclo continua a se repetir!! Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão e Edição: Eliézer Fernandes
- O terror racial, entre a realidade e a ficção
O racismo estrutural, evidenciado por casos como os assassinatos de George Floyd e Frank Tyson, ressoa nas narrativas ficcionais que exploram suas consequências devastadoras, como no episódio “Replay” da série "The Twilight Zone" e na série "Them". Essas obras denunciam o terror racial diário e desafiam a persistência do racismo na sociedade contemporânea. A notícia parece ser uma repetição: um homem negro foi morto em uma abordagem da polícia dos Estados Unidos. Com um joelho sobre o pescoço da vítima, um policial branco realiza um procedimento dito “padrão” de imobilização de um suposto suspeito. Durante esse ato, o homem negro, subjugado, sussura sem ar. Ele não consegue respirar. Não demora muito e ele morre. Em 25 de maio de 2020, George Floyd faleceu em Minneapolis, Minnesota. Isso ocorreu depois que Derek Chauvin, um policial branco, pressionou o joelho no pescoço de Floyd por 8 minutos e 46 segundos, levando à sua morte. Floyd estava algemado de bruços na rua, enquanto outros dois oficiais o contiveram ainda mais e um quarto impediu os espectadores de intervir. Durante os últimos três minutos, Floyd permaneceu imóvel e sem pulso, mas os policiais não fizeram nenhuma tentativa de revivê-lo. Chauvin continuou a manter o joelho sobre o pescoço de Floyd mesmo quando técnicos médicos de emergência tentavam tratá-lo. A autópsia oficial concluiu que a morte foi causada por parada cardíaca. Em 2024, Frank Tyson foi sufocado até a morte, da mesma maneira. O homem, de 53 anos, tentou alertar sobre sua falta de ar. Suas palavras saíam em sussurros enquanto o joelho do policial impedia sua respiração. A gravação feita por câmera no uniforme dos oficiais responsáveis pela abordagem mostra o momento em que, imóvel, Tyson falece. A lista de pessoas negras submetidas a este tratamento, se fizéssemos, não caberia num livro memorial com 2 mil páginas. A permanência do racismo estrutural na sociedade norte-americana ultrapassa as centenas de anos, numa cultura de violência aos corpos negros avassaladora. Essa trágica realidade, evidenciada pela repetição de casos como o assassinato de George Floyd e Frank Tyson, ecoa nas narrativas ficcionais que exploram as consequências devastadoras desse problema, especialmente a gama de produções realizadas por pessoas negras. Estas narrativas evidenciam, sob diversas formas e estilos, o terror racial cotidiano que permeia este conflito. Replay: quando o racismo tenta fechar todos os meios de saída A temporada de 2019 de "The Twilight Zone" foi, realmente, impactante. Produzida pelo aclamado Jordan Peele, diretor de "Corra!" e "Nós", a série é uma continuação da versão clássica dos anos 1950, concebida por Rod Serling, conhecida por sua narrativa que transita entre o real e o fictício, com uma crítica social perspicaz. Todos os episódios são excelentes, mas "Replay", o terceiro, dirigido por Gerard McMurray e escrito por Selwyn Seyfu Hinds, traz uma profunda reflexão sobre o racismo estrutural na sociedade americana. A trama acompanha dois personagens principais: Nina Harrison, uma mulher negra independente que alcançou o sucesso ao deixar sua família por discordâncias, e seu filho Dorian Harrison, um jovem à beira da universidade. Durante uma viagem, Nina descobre que a filmadora em suas mãos pode rebobinar não apenas a fita, mas o tempo. Esse artifício se torna crucial quando eles são implacavelmente perseguidos pelo oficial Christopher Lasky. Independentemente do caminho escolhido ou da atitude tomada, mãe e filho sempre são abordados pelo policial branco, e algo ruim acontece com um deles. Mesmo ao usar a capacidade de voltar no tempo e tomar decisões diferentes, Lasky continua a aparecer, e os desdobramentos continuam adversos. A narrativa, aliada a elementos visuais como a frase "black lives matter" em pôsteres e paredes, segue uma linha semelhante ao curta-metragem vencedor do Oscar "Dois Estranhos" (dirigido por Travon Free e Martin Desmond Roe). Neste filme, um jovem negro preso num looping temporal é perseguido por um policial branco. Como em "Replay", não importa a atitude adotada, o desfecho é sempre o mesmo: o jovem é preso ou morto pelo policial. A mensagem é clara: a população negra muitas vezes se sente sem saída diante do racismo estrutural, resultando em consequências devastadoras para o futuro e as vidas de jovens negros. Entre as obras mencionadas, "Replay" se destaca ao levantar a bandeira da resistência. Nas mãos de Nina, a filmadora torna-se não apenas uma máquina do tempo, mas uma ferramenta para desafiar o ciclo quase interminável do racismo. Os fantasmas do racismo em Them, de Little Marvin As consequências materiais que o racismo pode trazer para a sociedade são numerosas. Porém, e talvez este seja um aspecto negligenciado (ou mesmo ignorado por grande parte das pessoas), a consequência emocional e mental, individualmente falando, pode ser ainda mais destrutiva. É sobre isso que a série Them, da Amazon Prime Video, trata. A narrativa da primeira temporada, lançada em 2021, acompanha a saga da família negra Emory em busca de um novo lar, saindo da Carolina do Norte, em 1953, onde as leis segregacionistas ainda estavam em vigência. Seu destino é Compton, na Califórnia. As leis a que nos referimos eram apelidadas à época de “Jim Crow” ou “leis de Jim Crow”, uma referência a um personagem da comédia norte-americana do século XIX, criado pelo artista Thomas D. Rice, que ridicularizava a população afro-americana por meio de estereótipos. Inclusive este mesmo Rice (conhecido em sua época como Daddy Rice) foi pioneiro no chamado “blackface”, humor racista que explorava a população negra como matéria de piada. Estas leis davam conta da separação de negros e brancos em espaços públicos e privados, reservando de modo desigual serviços como educação, saúde, transporte, lazer, etc. Sempre, sem exceção, os afro-americanos ficavam com a pior parte. Retornando à série: uma vez em Compton, a família Emory vai descobrir que o sonho de um novo lar vai se tornar um pesadelo. O condomínio em que adquiriram a casa é predominantemente ocupado por famílias brancas hostis à presença de negros, com um histórico terrível de violência a famílias negras anteriores. A partir daí, a realidade se mistura com a ilusão: a hostilidade, a violência e o medo alimentam os fantasmas particulares dos membros da família Emory, que os atormentam em diversos aspectos, como religiosidade, aceitação social e opressão estrutural. A segunda temporada (Them: the scare), disponível desde 25 de abril deste ano, no Prime, dá sequência à história, dando um salto até o início dos anos 1990. Acompanhamos a investigação realizada pela detetive Dawn Reeve sobre o estranho assassinato de uma mãe adotiva, ocorrido em Los Angeles. Aos poucos, Dawn descobre que o caso possui explicações que fogem da normalidade, enquanto outros assassinatos continuam ocorrendo, com a mesma brutalidade do primeiro. O terror racial é entretenimento? De jeito nenhum! As narrativas de série apresentadas neste texto não são simples ficção para passar o tempo. Elas provocam discussões, destacam problemas e revelam as contradições do racismo estrutural, demonstrando que a luta antirracista está longe de acabar. Ao assisti-las, eu, homem branco, sinto arrepios. Nunca poderei realmente entender o que as pessoas negras enfrentam sob uma estrutura opressora e excludente. O que me cabe é o papel de professor de História antirracista, com a obrigação e o dever de praticar uma educação libertadora. Little Marvin, Gerard McMurray e Selwyn Seyfu Hinds utilizam suas habilidades narrativas para ilustrar os impactos que anos de história de escravidão e violência racial tiveram sobre os afrodescendentes. Neste terror real, o verdadeiro demônio aterrorizante e que precisa ser combatido é o racismo estrutural. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto
- Regulamentação do uso da IA pela União Europeia
A Inteligência Artificial, mais conhecida como IA, já é uma realidade na vida de todos nós. Em algum momento do nosso dia e em diversos serviços que consumimos, ela está lá, nos servindo e facilitando algum processo rotineiro. Com a introdução, quase que natural, do uso da tecnologia, a acessibilidade alcançando praticamente toda a sociedade, o uso da IA tem se tornado imprescindível e consequentemente, levando o debate sobre o seu uso em nossa rotina. Sendo assim, o uso das ferramentas disponibilizadas pela tecnologia e, consequentemente, pela IA, de maneira exponencial, tem-se debatido a importância, os benefícios e recursos e também, os riscos e perigos, que podem ser alcançados com o seu uso. A partir desse universo de possibilidades e novos recursos antes inimagináveis, a regulamentação do seu uso se torna algo urgente para a sociedade e os rumos do seu uso no futuro. Vários países já deram o pontapé inicial para esse debate. O país pioneiro a implementar leis a respeito do uso da IA foi a China, país altamente tecnológico e atrativo para empresas "unicórnio". O regulamento no país está baseado em transparência, moralidade e responsabilidade do uso de ferramentas de IA. Outros países também já realizam o debate há algum tempo, mas sem avanços significativos, como Chile, Filipinas, Colômbia, Panamá e Brasil. Nos EUA, o Presidente Joe Biden reuniu em 2023 uma comissão para debates sobre a regulamentação, mas também houve pouca evolução para prosseguir com o tema. Por aqui no Brasil, o debate começou em 2020, com o PL 2630/2020, que ficou conhecido como o "PL das Fake News", que tem como objetivo a regulamentação do uso das mídias sociais no país, buscando diminuir a disseminação de Fake News. A União Europeia (UE), promoveu uma guinada no assunto já algum tempo. Desde 2022 o parlamento da UE colocou em pauta a regulação do uso de mídias sociais e uso de IA. Neste ano de 2024, colocou o projeto em votação, sendo a pioneira a aprovar a regulamentação da IA no ocidente. No dia 14 de março de 2024, após longo período de estudos e discussão, os eurodeputados aprovaram a regulamentação do uso da IA para o bloco. A estruturação do regulamento: A regulamentação aprovada foi fundamentada em dois pilares: 1º - Os riscos iminentes do uso indiscriminado da IA relacionados à guarda da democracia e cuidados com populações minoritárias. A base deste pilar foi estruturado a partir de diversas tentativas de ataques à democracia, violação de direitos e tentativas de interferências em processos eleitorais, algo que tem sido tomado por ondas da extrema direita e autoritarismo pelo mundo, o que tem colocado em risco a liberdade de expressão, o direito de ir e vir e a vida de milhares de pessoas. Não é novidade para ninguém o crescente uso de desinformação para campanhas eleitorais da extrema direita pelo mundo. Alguns marcos importantes que deram vislumbre do uso da IA e seu potencial alcance foi a campanha para saída do Reino Unido do bloco econômico, que ficou conhecida como BREXIT, liderada por Boris Johnson. Johnson e sua equipe, lançaram mão do uso de dados de usuários de redes sociais como Facebook para arquitetar a campanha, utilizando temas que eram sensíveis aos eleitores e manipulando essas informações. Do outro lado do Atlântico a IA foi usada de maneira maciça nas campanhas eleitorais de Trump, (2016 e 2020), que usou as redes sociais para o compartilhamento de desinformação contra os adversários do candidato republicano. As campanhas usaram aplicativos de mensagens para disseminar Fake News, alterando e criando imagens e editando áudios, através de IA, para propagar desinformação e incriminar adversários. Algo bem semelhante aconteceu no Brasil nas eleições de 2018 e 2022, quando o candidato da extrema direita, fez uso indiscriminado de aplicativos de mensagens para compartilhamento de notícias falsas e ataques aos três poderes, tentando destruir o tripé fundamental que assegura o Estado Democrático de Direito. O uso da IA foi ferramenta para ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal, de maneira pessoal e também atacando direta e de maneira indiscriminada a veracidade das urnas eletrônicas. Houveram vários episódios em que o uso de fake e cheap News foram utilizadas e que serviram de ferramenta para incentivar protestos e manifestações, como por exemplo, a convocação aos atos de 08 de janeiro de 2023. A segunda parte deste primeiro tópico, preocupa-se quanto a seguridade e discriminação de populações minoritárias. É verídica essa preocupação a partir de situações já vividas. De acordo com artigo de Garcia (2020), não são poucas as vezes em que a autora se deparou com situações discriminatórias com o uso da IA. Um deles foi a seleção de currículos realizados pela Amazon em 2018, onde a seleção de currículos indicou maioria de candidatos homens e não mulheres. Além disso, a autora cita a falácia da tentativa da Microsoft, que em 2016 disponibilizou um chatbot nomeado por Tay. A intenção era que a IA fosse desenvolvida e adquirisse conhecimento através da interação com usuários, porém, a IA se tornou misógina e racista em pouco mais de 15 horas de uso. A Microsoft foi obrigada a descontinuar a IA. Sendo assim, é previsto no regulamento que grupos minoritários como alguns grupos religiosos, negros, mulheres, entre outros, estejam de alguma forma protegidos e amparados quanto a ataques digitais. Outro ponto sensível alcançado pelo regulamento prevê necessidade de transparência das empresas no uso de imagens de vídeo como dados. Isso é preocupante no uso dos dados de pessoas para reconhecimento facial. Geralmente, bancos de dados utilizados para isso vem a partir de circuitos de segurança, presentes em ambientes privados e também em monitoramento em grandes cidades do mundo. Todo esse zelo serve de construção para o segundo pilar do regulamento aprovado pela UE, a preocupação com os dados. 2º - O regulamento propõe maior transparência sobre os dados utilizados para treinamento das IA's. Para ser gerada alguma informação na IA é necessário que se tenha dados. São a partir desses dados que a IA gera a informação quando solicitada. Porém, pouco se sabe sobre como as empresas de tecnologia obtêm dados e qual a sua qualidade para alimentação da IA e o seu devido fim. Qualquer ação pode se tornar um dado. Uma curtida no instagram, o compartilhamento de uma informação no Facebook, o CPF informado na farmácia, uma matéria lida em um jornal on-line, tudo é dado. Porém, surge a pergunta: Quando realizada a ação e gerado o dado, para onde ele vai? É neste momento que o regulamento aprovado pela UE entra, é para que fique mais claro de onde vem o dado utilizado pela empresa, como é usado e para o que é usado, impondo às empresas maior transparência no processo de desenvolvimento e treinamento da IA. Investidores europeus temem que a regulamentação do uso dos dados afaste empresas de IA. O bloco, que é pequeno no desenvolvimento de IA em comparação com EUA e China, após a regulamentação, pode se tornar menos atrativo. Até então as empresas não possuem políticas claras e informações concretas sobre o uso dos dados e treinamento das IA's no seu desenvolvimento, o que será obrigatório após a implantação do regulamento. Essa reação de investidores expressa claramente a necessidade do desenvolvimento de leis e regulamentos que deixem mais transparente o processo de criação, desenvolvimento e uso dessas tecnologias diante dos avanços. Segundo Garcia (2020), o cuidado com os dados é fundamental para o uso da IA com qualidade e responsabilidade. Para a autora, os dados possuem três características básicas: 1º: Os dados não são neutros; 2º: Dados tem validade; e 3º: Dados podem carregar viesses escondidos. O conhecimento desses três pontos e o desinteresse na regulamentação por parte dos investidores, demonstra a necessidade e urgência da regulamentação do uso dos dados e da IA. Com a regulamentação da IA na UE, para onde vamos? A regulamentação é um pontapé inicial. É um movimento que há muito é ensaiado no mundo, mas havia mínimos avanços. Este regulamento se torna um instrumento norteador para o ocidente, mas é necessário mais. Em meio ao mundo capitalista e a diversas crises políticas e sociais, o movimento para a regulamentação deve ser mundial. A conclusão da necessidade desse movimento mundial vem a partir do tamanho das big techs. Embora seja necessário a criação de leis norteando comunidades locais, o movimento de normatização deve ser do tamanho ou, se possível, maior que as big techs, detentoras de tecnologias e projetos megalomaníacos para o uso das IA’s. A evolução da tecnologia é exponencial e, na grande maioria dos casos, a criação das leis não. Por isso é urgente o debate sobre regulamentação do seu uso. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes https://exame.com/inteligencia-artificial/lei-europeia-que-regula-a-inteligencia-artificial-pode-acelerar-discussao-no-brasil/ https://pt.scribd.com/document/659653184/1791-Texto-do-artigo-5268-1-10-20210213 https://www.tecmundo.com.br/mercado/280906-uniao-europeia-aprova-conjunto-leis-regulacao-ia-veja-detalhes.htm https://www.poder360.com.br/futuro-indicativo/uniao-europeia-regulamenta-ia-e-corre-o-risco-de-afastar-investimentos/ https://mailchi.mp/apublica/newsletter-xeque-na-democracia-079?e=5ba5cebf70 https://www.metropoles.com/ponto-de-vista/a-inteligencia-artificial-como-forma-de-ampliar-o-acesso-a-saude-publica
- O cuidado que aprisiona
“Não se nasce mulher, torna-se” Essa célebre frase de Simone de Beauvoir tem tantos significados que caberia em si mesma inúmeras reflexões, mas hoje tenho apenas uma para trazer; a cultura patriarcal que ensina mulheres a se portarem a partir das ações e sentimentos masculinos. E esse molde social começa cedo, antes mesmo que possamos ter a consciência do que é pertencer ao gênero feminino e o que isso significa. A sociedade ainda tem uma visão política formada e constituída por homens, como explica Maria Luiza Álvares (1999): "O mundo da casa como um espaço da mulher tornou-se um dos fundamentos centrais da formação de estereótipos ligados à definição dos papéis sexuais dos modelos tradicionais de comportamento" Quando criança, as meninas aprendem a estarem limpas, bonitas e com vestes que remetam ao autocuidado. Logo cedo, a família compra para elas bonecas, e miniaturas de utensílios domésticos. A contemporaneidade cumpriu bem o seu papel ao modernizar bonecas que chorem e tem até mesmo aquelas que simulam a fezes onde as meninas podem praticar a troca de fraldas e exercitar seu lado “maternal”. As brincadeiras que moldamos as meninas são as da vida doméstica, as que possam ensiná-las a serem boas mães, a que cuida, a que cozinha, a que limpa, a que se sinta confortável protegida no seu lar, o título dona de casa é o reflexo desta determinação de onde muitas mulheres possam se sentir pertencentes. Não bastasse essa precoce recreação arraigada de machismo e sexismo, as meninas ouvem desde cedo que é bonito que se comportem como “mocinhas”, termo usado para que elas acreditem que essa validação é positiva, mas que esconde uma tentativa de adultização. E isso pode refletir no seu desenvolvimento, como conta a educadora e assistente social Veroni Medeiros: “(...) o fato de querer ser adulto antes da hora, compromete a identidade de ser criança e, consequentemente, pode levar a uma vida adulta mais tímida. Nesta relação precoce com o adulto, o ser criança se “adultiza”, confundindo os limites que diferenciam uma fase da outra.” Lembrei-me do relato do médico e escritor Dráuzio Villela relatando com indignação o dia que sua neta de 6 anos foi repreendida por uma mulher em um parque aquático por estar de biquíni, ao qual ela classificou “indecente”, e justificou sua repreensão ao fato dela, uma criança com seu corpo infantil poder mexer com a libido dos homens ao redor. A indumentária feminina é uma forma de controle, seja para esconder, seja para descobrir, o limite disso fica a critério de cada uma, desde que seja uma escolha, mas quando meninas, compram-nos saias para usarmos, mas em seguida são proferidas ordens do tipo “fecha as pernas”. Nos obrigam a estarmos penteadas e com cabelos específicos, o cabelo armado por exemplo é sinônimo de desleixo, o corpo precisa se enquadrar em padrões estéticos que pouco ou nada respeitam o seu biótipo. A menina que ousa romper esse estereótipo é chamada de “machona” ou mesmo “maria-moleque”. A figura da “maria-moleque” é a da menina que não quis se encaixar nos moldes, e a ela cabe penalidades como ser vista com maus-olhos pela família das outras crianças, quando não a sua própria família, como conta-nos o saber popular “leva mais pedrada o prego que aparece mais” ainda mais quando esse prego deveria nem mesmo ser visto. De outro lado, os meninos são educados para expandir, dominar e explorar. Enquanto a menina já é socialmente logo cedo moldada ao cuidado, a eles pouco ou nada lhe é cobrado neste sentido. Ao descobrir que seu pênis lhe dá automaticamente uma ‘vantagem social’ ele usa de um modo que isso o favoreça. Logo cedo são incentivados a olharem as meninas de modo intimidador e descuidado, mesmo que isso cause a elas desconfortos ou mesmo medo. Em parte, somos ensinados a ser quem somos e paga um preço alto quem decide ser diferente do que é esperado. Os meninos homossexuais são hostilizados e muitas vezes agredidos pelos outros meninos. O modo como se comportam muitas vezes é reforçado por um adulto e visto com chacota, quem mesmo sendo do mesmo gênero, não pertence ao seu “clã dominador”, situação que piora ainda mais quando àqueles preferem brincar com as meninas, que os acolhe melhor. Não ensinamos os meninos a cuidarem, vemos o reflexo disso nos homens que temos hoje. Moldes sociais e Costumes Se por um lado a sociedade molda, antes dela temos os Costumes, que entende-se como as regras sociais, uma espécie de código de conduta comum em que todos respeitam. A sociedade brasileira foi moldada pela vertente religiosa cristã, herdada dos colonizadores em boa parte do mundo. Embora sejamos um dos países mais sincretistas do mundo, lideramos o ranking como país que mais acredita em Deus, 9 em cada 10 brasileiros dizem acreditar em Deus, segundo a pesquisa Global Religion 2023, produzida pelo instituto Ipsos. Isso é um reflexo importante do porquê a religião está muito longe de ser inofensiva quando falamos de opressão feminina. Não à toa que até meados da década de 1950 eram os pais quem decidiam com quem as filhas casariam, e até hoje há dentro das igrejas, protestantes ou católicas, a necessidade do celibato feminino como demonstração de pureza da mulher. O homem pode antes do casamente ter relações, é perdoável, mas elas deixam de ser elegíveis ao não serem mais virgens, o erro feminino é sempre duramente penalizado, podendo em alguns casos significar até mesmo a expulsão de um grupo ou templo. Falei sobre a dominação e os moldes sociais, eles dizem muito sobre como nos comportamos. A narrativa cristã traz Eva como a culpada de termos sido expulsos do paraíso, os símbolos da maçã e da cobra remetem a essa penalidade, a maçã como algo proibido e a cobra a sensualidade e sexualidade, não por acaso o que é visto como algo negativo a qualquer mulher que seja virtuosa aos olhos dos cristãos. Gerou consternação pública o caso da jovem mineira que foi deixada na rua por um motorista de aplicativo após o irmão estar dormindo e não ter aberto a porta para que ela entrasse em casa. Posteriormente outro homem que passava na rua a arrastou e estuprou a jovem que estava desacordada. O caso ganhou notoriedade porque a jovem foi negligenciada e posteriormente violentada porque nenhum homem se sentiu no dever de cuidar dela, muito pelo contrário, a reprimenda maior foi o fato dela estar na rua e alcoolizada. A culpabilização da vítima é frequente quando vemos casos de violência contra a mulher, muitas ao continuarem na relação são julgadas e até mesmo culpadas por permanecerem na situação. Se ignora que aquelas mulheres estão fragilizadas e muitas vezes com pouca ou nenhuma rede de apoio. Além da violência que cabe ao gênero feminino, o pacto silencioso dos homens é algo facilmente percebido. Ao ver qualquer sinal de comportamento dominador, violento ou castrador de outro homem a frase seguinte é sempre na linha “o que ela fez”. Essa resposta é de clã, falei disso mais acima. Mas esconde também ao fato de precisarmos ser punidas se sairmos da “linha”. Já dizia Simone Beauvoir (1967): “a feminilidade é uma espécie de infância contínua que afasta a mulher do tipo ideal da raça. (…)". Normas sociais que reforçam o cuidado O casamento ainda é visto como símbolo de status para muitas mulheres, uma mulher solteira após uma determinada idade é mal vista por muitos, a imposição do meio é tão brutal que o casamento para as mulheres é algo muito mais desvantajoso, porque elas passam a herdar duas rotinas quando trabalham fora: a produtiva e a não-remunerada. Pesquisa do IBGE mostra que em média as mulheres dedicam mais de 21,4 horas por semana nos cuidados domésticos, 10 horas a mais do que dedicam os homens. A socióloga Helena Hirata diz: “o trabalho doméstico não remunerado é aquele trabalho feito gratuitamente e considerado por muitos uma forma das mulheres expressarem amor aos filhos e aos companheiros, uma maneira de exprimir o amor que elas sentem pelos familiares” É comum ver a imagem de mulheres que se casam e mais tarde os companheiros a transformam na figura da mulher cuidadora anterior, sendo a mãe, tia ou mesmo a avó. É como se cobrasse delas a dedicação e obrigatoriedade do cuidado do papel da mulher anterior que ocupou na sua vida. E essa carga laboral não é apenas a do cuidado doméstico, a elas recai também a carga afetiva que é compartilhada com uma filha, quando essa figura existe no lar. Estamos formando uma sociedade de homens que se portam como meninos e que se recusam a amadurecer. Talvez Freud tenha uma resposta para isso, mas prefiro a explicação de que enquanto não mudarmos a forma como as mulheres encaram esse zelo exacerbado com homens tratando-os como “inofensivos” que precisam de cuidados constantes, estaremos nós mesmas sendo nossas algozes. Ignora-se que mais de 11 milhões de mulheres são mães solo no país, onde a sociedade menciona os homens que não cuidam dos seus filhos? Onde existem grupos que se unem e pensam na falta da figura paterna na criação destas crianças? O “pacto de silêncio” dos homens deveria por si só ser um prenúncio para as mulheres de que precisamos nos unir e pensar como um grupo que tem voz e expressividade, não apenas para conquistar direitos, mas para que possamos nos manter vivas. Nos venderam que somos o ‘segundo sexo’, o gênero apoiador, manso e cuidador. Não podemos delegar uma luta coletiva apenas para as outras mulheres quando podemos fazer nossa parte dessa mudança que precisamos e queremos. Façamos cotidianamente um pouco cada vez mais, seja tratando homens adultos como homens adultos, não permitindo que ganhemos salários menores realizando as mesmas tarefas, seja não temendo ou se diminuindo para caber nos planos masculinos para nossa vida, seja não menosprezando outras mulheres quando ousarem trilhar caminhos diferentes dos que nos delegaram, seja não permitindo que nos digam como viver, seja não permitindo nosso apagamento ou ser ofuscada atrás de um homem por medo de viver sua vida da sua maneira. Se os homens não são ensinados a cuidar, cuidemos nós umas das outras nesse processo de mudança. Que esse seja nosso trato! Se a leitura deste artigo for feita por um homem, passe para uma mulher e ajude que essa mensagem se espalhe. Texto escrito por Katiane Bispo É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto BIBLIOGRAFIA ÁLVARES, Maria Luiza Miranda (1999). Mulher e Participação Política. In: FERREIRA, Mary (Org). Mulher, Gênero e Políticas Públicas. São Luís: Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Mulher e Relações de Gênero da UFMA / Grupo de Mulheres da Ilha, v.1, p. 47-52, 1999. HIRATA, Helena (2010). Cuidado, trabalho e autonomia das Mulheres. v.1, p. 47 https://www.pastoraldacrianca.org.br/images/temas/adultizacaodascriancas/1263_entrevista_com_ir_veroni_medeiros_adultizacao_das_criancas.pdf https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/181861/000439757.pdf?sequence=1&isAllowed=y#:~:text=Comecemos%20pela%20defini%C3%A7%C3%A3o%20de%20costumes,necessidade%20jur%C3%ADdica%22%20(%C2%B9). https://www.bbc.com/portuguese/articles/c29r21r69j8o
- Combinamos de não morrer e não esmorecer
O estudo sobre “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que as populações preta e parda representam 9,1% e 47% da população brasileira, respectivamente, somando 56,1% da população brasileira. Como justificar a naturalização da violência que é o racismo em um país que fecha os olhos para mais da metade da sua população? As piadas de Léo Lins sobre a degradação a qual nossos antepassados sofreram não causa dor apenas, causa revolta também. Não por ele considerar aquela fala como piada, mas por ver várias pessoas rirem dela em uma plateia lotada e saber que nem ao menos uma delas se levantou em sinal de protesto. Em uma analogia, faz recordar que os pelourinhos eram motivos de “descontração” onde os escravizados eram açoitados e causava diversão aos espectadores que se aglomeravam para assistir sua humilhação, degradação e tortura ao ar livre perante todos, assim como acontece hoje, mudam as roupagens mas o modus operandis permanece o mesmo. Tantos anos de militância ensinam que entre os hostis estarão também alguns pretos, a sociedade racista não se faz apenas de brancos racistas, quando o racismo é estrutural não poderia ser diferente. Nem todo branco é inimigo e nem todo preto estará na luta conosco, é preciso que a sociedade além de não ser racista, seja antirracista, que não tolere, não defenda e denuncie todos aqueles que praticarem casos de racismo. O racismo é um véu que faz do preto uma pessoa hipervigilante com comportamentos e falas, não apenas dos outros mas as suas também. É algo que faz com que você questione o tempo inteiro sobre as ações aceitas como “normais” como rir do próprio cabelo ou mesmo do formato do seu nariz. Quando um novo caso de racismo ganha notoriedade muitos negros choram - consciente da crueldade que é o racismo - porque o racismo não perdoa nem aqueles que chegaram a elite financeira, como o caso do jorgador Vini Jr, quiçá os que moram longe dos centros urbanos. O choro vem quando recordações da infância de pessoas pretas vêm à tona, de cuidados que as crianças precisam ter, como por exemplo manter o cabelo de meninos pretos sempre careca ou preso para não serem motivo de chacota na escola, como não andar com um casaco de capuz no frio pois certamente será abordado de maneira truculenta pela polícia ou mesmo confundido com algum foragido do sistema prisional. O racismo faz com que um homem negro pense em modos de preservar sua vida. “Já pedi para que minha esposa fosse até a casa da minha mãe comigo de moto por temer ser abordado e ser desrespeitado em abordagens policiais, ou até mesmo agredido e baleado. Pensar nisso me deixava temeroso, pois o racismo nos traz muitas dores e infelizmente continuará trazendo enquanto a sociedade continuar a acompanhar de maneira passiva como faz hoje em dia.” A reprise eterna da violência O caso do jogador Vini Jr. doeu em muitos negros, não apenas no jogador que foi revitimizado inúmeras vezes em campo durante todo o torneio. O caso só tomou repercussão quando além de sofrer o ato racista, Vini foi agredido com um mata-leão e expulso de campo. Não o bastante, ao se revoltar com a expulsão e toda a violência que sofreu, houve uma tentativa da La Liga de descredibilizá-lo, ao dizer que a culpa era dele, e que ele havia entendido errado. Felizmente o jogador não se curvou e manteve um discurso firme pedindo punição aos racistas. O caso de racismo vivido por Vini Jr. foi um pano de fundo para desnudar inúmeras camadas do que é o racismo estrutural. As imprensas espanhola e brasileira entraram em pé de guerra, algo muito incomum quando se fala da classe que costumam se unir e proteger, mas não foram poucas as chamadas de inúmeros veículos de imprensa veiculando a forma desdenhosa com que os espanhóis trataram Vini Jr. Seria mera coincidência que essa “hostilidade” fosse mirada a um jogador preto e brasileiro? A violência sofrida pelo jogador também demonstra o quanto ter instituições que combatem e fomentem políticas e ações afirmativas e antirracistas é fundamental para travar essa luta. O envolvimento do Ministério da Igualdade Racial e do Governo Brasileiro junto ao Governo da Espanha ajudou para que inclusive a ONU se pronunciasse sobre o caso e cobrasse medidas. A repulsa de parte da sociedade surtiu efeito, alguns torcedores foram presos e o Presidente da La Liga, o mesmo que no primeiro momento acusou Vini Jr., se desculpou de modo cínico. Esse desfecho, nós pretos conhecemos bem, centenas de racistas quando pegos ora costumam alegar problemas mentais, ora se desculpam em seus roteiros infames que geralmente começam apelando a laços com pessoas pretas. Não raro em meio a esses discursos constam trechos como “meu amigo é preto”, “minha empregada é preta” ou o famigerado “quem me conhece sabe”. O caso de Vini Jr. nos faz imaginar os inúmeros pretos que assim como o jogador, são desacreditados, agredidos e ainda precisam provar que sofreram um crime. É triste, indigesto, chocante e demonstra o quanto muitos racistas conservam seus privilégios. Afinal a sua palavra vale mais do que a do negro que sofreu com preconceito. A dor que Vini Jr. vem sentindo não é só dele, dói em muitos negros. Sofremos com ele e sabemos o que é sentir diariamente que você não é bem aceito em alguns espaços e visto como estranho ou intruso. Faz lembrar o verso escrito pelo genial Emicida na sua canção Ismália: “quis chegar ao céu e terminou no chão” em alusão a ascensão da camada pobre e preta em outras classes." A “demonização”da fé afrodiaspórica O pensamento de extermínio de tudo que não se adeque a herança europeia não é apenas uma coincidência no Brasil. De tempos em tempos há representantes eugenistas para nos relembrar de que tudo que não seja o tripé do branco-cristão-heteronormativo representa uma tentativa de “sujar” nosso país. É uma tentativa (por vezes maquiada) de padronizar o que é aceito ou não é para nossa sociedade. O que é aceitável dentro da ótica colonial e moralizadora cristã do que os portugueses deixaram para nós, um projeto de país em que milhares de nativos foram exterminados pelo colonizador, a liderança no ranking do país que mais mata gays no mundo, no país em que mais de 30 lideranças quilombolas foram mortas na última década, no mesmo país em que casas de cultos de matriz africana são incendiadas. Tem um porquê, tem um motivo: é um projeto. A morte de mãe Bernardete não é um fato isolado, seu filho Binho do Quilombo foi assassinado em 2017 pelo mesmo motivo. Os quilombos, espaço de resistência negra e de manifestação das suas tradições culturais. Os quilombos não incomodam apenas os grandes latifundiários, mais conhecidos como “coronéis” dos mais distintos rincões do Brasil, eles são a representação contrária a todo pensamento enviesado pela lógica mercantilista de uso da terra e do lucro do agronegócio. O ex-presidente Jair Bolsonaro, reconhecidamente uma figura da nova extrema-direita brasileira que conseguiu alcançar quase 58 milhões de votos brasileiros no segundo turno das eleições de 2022, nunca fez questão de esconder suas falas racistas e preconceituosas contra os quilombos e sua população “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem pra procriador ele serve mais”. Bolsonaro, o projeto fascistóide mais bem-sucedido do Brasil após o fim da Ditadura Militar (1964-1985), não é o único que vê na tradição, vestes e cultura negra motivo para piada, lembra do Léo Lins citado no começo deste artigo? Pois bem, nada está “solto” quando falamos de racismo estrutural. Nada. A carne mais barata do mercado é a carne negra O Mapa da Violência de Waiselfisz (2012), reportado pelo Portal Geledés, nos reforça a epidemia de mortes de jovens, pretos e periféricos. O estudo demonstra que: “A proporção de homicídios de jovens, desde 2002, sempre teve o conjunto de negros como o grupo mais vitimado” e não só isso “o que chama a atenção contudo, é que a discrepância entre brancos e negros tem crescido. Apesar de negros/as comporem pouco mais da metade da população brasileira, eles estão super-representados naquele quesito, sendo aproximadamente 75% dos casos de homicídio. Isso se deu por dois processos concomitantes: de 2002 para cá, caiu em 33% o número de homicídios de jovens brancos, ao passo que cresceu em 23,4% o número de homicídio de jovens negros” O estudo também traz outro fator que merece destaque e traz ainda mais urgência para ação do poder público que é a idade da vítima dos homicídios: “Tanto entre brancos quanto entre negros, a violência homicida se avoluma na faixa etária dos 20/21 anos de idade. Enquanto a taxa de homicídio de brancos cresce, no intervalo dos 12 aos 21 anos de idade, 29 vezes, com a população negra o crescimento é de 46 vezes: para cada 100 mil habitantes, morrem 2,0 negros de 12 anos de idade, contra 89,6 negros de 21 anos” Isso nos mostra que a morte de Douglas Martins, Ágatha Félix, Thiago Flausino, João Pedro Mattos, Kauã, Alice, Emilly e Rebecca e tantos outros jovens negros moradores de comunidades no Rio de Janeiro não são fatos isolados. Ações afirmativas, reparação e letramento racial Há uma dívida histórica com a população negra, que teve seus direitos excluídos, foram explorados, humilhados, torturados, estuprados, subjugados por mais 300 anos e quando enfim teve sua liberdade precisou começar sem nada. Entrou em uma “corrida”, com a largada já queimada, onde ser negro e ex-excravizado era motivo suficiente para receber um tratamento inferior, como foi por séculos. O problema nunca foi a divisão da terra, pois os brancos da comunidade europeia que chegaram ao Brasil para substituir a mão de obra dos africanos receberam um punhado dela como forma de incentivar a sua chegada e “clarear” o Brasil. Afinal, o que fazer com tantos negros se eles não serviam para mais nada? Esse pensamento permeia ainda hoje no inconsciente coletivo. Não é incomum os descendentes de italianos, portugueses e alemães afirmarem com orgulho da história dos seus avós e bisavós até mesmo com o racismo (nem sempre oculto) na sua ascendência europeia. Quanto a nós que descendemos de escravizados, não mora apenas a revolta em saber das atrocidades em que eles viveram, do abandono cristão em afirmar que eles “não tinham alma” e que eram animais (e que continuam ainda hoje a animalizar as religiões que de lá eles trouxeram) mas também pelo apagamento da nossa história. Quem eram eles? De que região vieram? Quais as histórias não-contadas que estamos perdendo? Já dizia Conceição Evaristo: “Combinaram de nos matar. Mas nós combinamos de não morrer” E isso não é apenas sobre o fim da vida, é sobre morrer com a nossa história, nossa cultura e nossa população preta. O letramento racial não deveria ser apenas uma opção para os “descontruídos”, conhecer a história da escravidão nos conta como ela e o pensamento de superioridade do homem branco e dos traços europeus estão tão entranhados na nossa história. Esse assunto não deveria ser para depois. É um assunto para agora, e envolve vários atores nessa discussão pois o racismo é um problema do branco, que marginaliza, violenta e humilha as pessoas pela cor da sua pele e por apresentarem traços diferentes dos seus. Texto escrito por: Katiane Bispo É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Bibliografia https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html#:~:text=De%20acordo%20com%20dados%20da,9%2C1%25%20como%20pretos. https://www.brasildefato.com.br/2023/05/23/guerra-ao-racismo-o-caso-vini-jr-na-imprensa-europeia https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2023/05/22/parte-da-imprensa-espanhola-e-cumplice-do-racismo-contra-vini-jr.htm https://g1.globo.com/politica/noticia/2023/05/21/lula-se-solidariza-com-vini-jr-e-critica-ataques-racistas-contra-jogador-brasileiro-na-espanha.ghtml https://super.abril.com.br/especiais/racismo-disfarcado-de-ciencia-como-foi-a-eugenia-no-brasil?utm_source=google&utm_medium=cpc&utm_campaign=eda_super_audiencia_institucional&gclid=Cj0KCQjwgNanBhDUARIsAAeIcAsrZssXfFhvGggitmjT0D8pEjO5d6emVxBEwC3nPivHQFZvVQF2ujYaAv2ZEALw_wcB https://www.geledes.org.br/epidemia-de-mortes-de-jovens-negros-e-pobres-no-brasil/?gclid=Cj0KCQjwgNanBhDUARIsAAeIcAtqRKbumBGi4xkDD2JJCf04J6gomJiRLPvdiiJqKNHP4n9Z2Z0IpR4aAvqeEALw_wcB
- O silêncio que protege e consente
As manchetes de jornais do mundo inteiro noticiam a condenação de Daniel Alves a quatro anos e seis meses de prisão na Espanha por violência sexual a uma jovem de 23 anos, ocorrida em 2022 em Barcelona. O pedido inicial da acusação foi de 12 anos, o Ministério Público espanhol apostava em nove, mas a condenação abrandou pela metade, seria sorte? Nem tanto! A fórmula do sucesso de Daniel: dinheiro, fama e uns ‘bons parceiros’ que limparam um pouco sua imagem, mesmo com as provas apresentadas em Tribunal. Não apenas os ‘parças’ não decepcionaram na proteção do agressor, a mãe de Daniel, Lúcia Alves, fez sua parte em defesa do seu filho ao expor vídeos e fotos da vítima se divertindo, o que para ela é inadmissível porque além da prisão a jovem também pede indenização de 150 mil euros, pago em caução antes mesmo de iniciar o julgamento. Esses muitos anos sendo feminista (antes mesmo de saber o que era feminismo) me ensinou que o machismo não existe apenas nos homens, o patriarcado deixou seu legado também entre nós. Já falei sobre o comportamento esperado das mulheres no meu artigo “O cuidado que aprisiona”, mas vale repetir sempre que possível que somos moldadas desde cedo a padrões de comportamento, vestimenta e estéticos. Enquanto aos meninos espera-se ousadia e coragem, as meninas por sua vez devem ser exemplos de recato e obediência. Não à toa Lilith foi a mulher renegada do cristianismo por querer o mesmo poder que Adão, maldita seja toda e qualquer mulher que ouse tamanha audácia! E o inferno a recebeu, por isso, a conta foi paga. Já Eva, retirada da costela de Adão, foi a modelo exemplar de mulher até que ela ‘desobedeceu a Deus’ e comeu o fruto proibido e por sua inteira culpa fomos expulsos do paraíso. Falo do cristianismo, mas em tantas outras religiões monoteístas a história se repete, a narrativa é a mesma: a mulher é o símbolo do pecado, e pobres dos homens que caem em seus feitiços. Não me espantaria se Lúcia Alves, mãe de Daniel, caso tivesse a oportunidade fizesse com a vítima de seu filho o mesmo que fizeram com a Geni, personagem da música “Geni e o Zepelim”, que por ser uma mulher que foge da imagem moralista religiosa e pudica está autorizado seu escrutínio. Sendo assim, pode jogar a pedra na Geni, porque ela é boa de cuspir já que ela ‘dá’ para qualquer um e ela merece apanhar, ou neste caso, ser exposta e revitimizada nas redes sociais, o novo tribunal da era moderna. Se não existe sororidade de Lúcia Alves ao caso de uma jovem violentada por seu filho, a “broderagem” dos “parças” de Daniel está mais forte do que nunca, vide o silêncio de grandes nomes do futebol depois da condenação. O recado mais uma vez foi dado; o futebol masculino ensina que nada abala a união masculina, seja dentro ou fora dos gramados. Texto escrito por Katiane Bispo É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Bibliografia https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/06/08/pesquisa-mostra-autoestima-elevada-entre-homens-mas-nao-entre-mulheres.htm?cmpid=copiaecola https://www.letras.mus.br/blog/significado-geni-e-o-zepelim/ https://www.terra.com.br/nos/mae-de-daniel-alves-expoe-nas-redes-sociais-mulher-que-acusou-o-jogador-de-estupro,10f4969ff65feda6932068274da7dcc74ra72c4n.html https://www.terra.com.br/nos/mae-de-daniel-alves-expoe-mulher-que-acusa-o-filho-de-estupro,ef2c3beb2f73cadb00f496c1158c742025lu40bp.html# https://www.terra.com.br/esportes/colunistas/breiller-pires/condenacao-de-daniel-alves-por-estupro-deixa-licoes-para-os-homens-do-futebol,65438eeda6e0521fc08afceceaff70e7ie0oak6s.html?utm_source=clipboard















