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8 de Janeiro e o terrorismo bolsonarista

Neste último domingo (8) ocorreu uma invasão nos prédios que abrigam os três poderes da República brasileira: o Congresso Nacional, o Plenário do Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Essa invasão foi perpetrada por terroristas bolsonaristas que furaram um bloqueio da Polícia Militar do DF e depredaram os três prédios. Essa situação muito se assemelha ao lamentável episódio de 6 de janeiro de 2021, em Washington, nos EUA.


Criminosos invadem Congresso Nacional, em Brasília. Foto: Leticia Casado/UOL
Criminosos invadem Congresso Nacional, em Brasília. Foto: Leticia Casado/UOL

Da mesma forma que, em 2021, apoiadores frustrados de um candidato que perdeu a eleição se revoltaram e entraram dentro de um prédio público com intuito de vandalizar e, mais uma vez, o pânico moral causado por notícias falsas, mentalidade de seita e uma boa dose de mau-caratismo levaram a um triste episódio na história, um atentado à democracia.


O Bolsonarismo e a mentalidade de seita


João Cezar de Castro Rocha, autor do livro 'Guerra cultural e retórica do ódio - Crônicas de um Brasil pós-político', definiu o governo Bolsonaro como uma fábrica que produz inimigos em série, que alimentou uma guerra cultural calcada em fatos alternativos, inteiramente movida no universo digital, com diferentes narrativas, cada uma focada em um medo da população que poderia ser explorado.


No trecho abaixo, escrito ainda no governo Bolsonaro, Castro Rocha chama a atenção para o que está se tornando o movimento bolsonarista:


“Para o bolsonarismo, é impossível a simples noção de um problema concreto, porque qualquer aspecto da realidade é encoberto pela guerra cultural. Isso cria um problema sério, que estamos vivendo agora, que é o colapso completo da gestão pública, é uma crise sanitária e humanitária sem proporções, é a maior tragédia da história brasileira que poderia ter sido evitada se tivéssemos um governo, mas precisamente não temos um governo, porque temos bolsonarismo demais”, avalia Castro Rocha, no livro Guerra cultural e retórica do ódio – Crônicas de um Brasil pós-político” (Editora Caminhos).


Desde 2020, João Cezar de Castro Rocha está monitorando grupos bolsonaristas para tentar entender as teorias de conspiração que explodiram no Brasil e no mundo, e que tomaram conta de uma parcela da população depois do resultado das eleições de 2022.


Em uma nova hipótese de pesquisa, João Cezar Castro Rocha sustenta: “A guerra cultural bolsonarista deu um passo além. Deixou de ser apenas um instrumento para a disputa de narrativas e para vencer campanhas eleitorais. É mais do que isso hoje. Está se transformando em uma seita, numa forma de vida”.

Isso tem se tornado cada vez mais uma realidade, principalmente no comportamento dos apoiadores de Bolsonaro que acampam na frente dos quartéis em todo o Brasil. Em um vídeo publicado recentemente nas redes sociais, o exército desmonta um acampamento de bolsonaristas em Minas Gerais e um homem grita desesperado, como se estivesse imitando um gato:



Porém, na verdade, o bolsonarista estava bradando "YAO", que é como algumas correntes cristãs pronunciam o termo em hebraico "YHWH", que seria o verdadeiro nome de Deus, conforme a tradição do Torá judeu. Essas correntes que pronunciam o nome de Deus dessa forma são consideradas esotéricas, muitas vezes fundamentadas em teorias da conspiração, como a de que o mundo está para acabar em breve, etc.


Em vista disso, a invasão terrorista que aconteceu no dia 8, aos gritos de "Deus acima de tudo" e "O poder emana do povo", não é nada mais, nada menos que uma consequência direta de mais de quatro anos de fortalecimento de uma já dita seita, que tem, em Jair Bolsonaro, o seu messias (literalmente) e, em suas visões distorcidas da bíblia, um chamado à ação contra os "imorais da esquerda e do PT".


Comportamento de Manada


Ano passado escrevi um artigo descrevendo o "comportamento de manada", no qual uma pequena porcentagem de indivíduos, tomando atitudes com confiança, influencia um grande número de pessoas. Esse acontecimento é semelhante ao da invasão do Capitólio em Washington que agora se repete em Brasília, com as invasões dos prédios governamentais.


No artigo, detalho os passos da invasão ocorrida em 6 de janeiro de 2021, onde pode-se notar que as pessoas foram influenciadas por seus semelhantes de modo a adotar certas atitudes de forma completamente emocional, sem considerar a lógica ou a razão.


O mesmo ocorreu agora em 8 de janeiro, em que líderes, muitos de caráter fundamentalista, tomaram as rédeas da multidão e os guiaram para dentro do Congresso. No vídeo abaixo é possível perceber como a multidão se comporta de forma quase animalesca, emocional, gritando e bradando, como se estivesse em uma guerra.




As consequências dos atos terroristas


Nos Estados Unidos, centenas de pessoas foram indiciadas por crimes relacionados à invasão do Capitólio. Além das punições individuais, houve investigações sobre grupos de milícias de extrema direita, como os Vow Keepers e os Proud Boys, e também os grupos baseados em teorias de conspiração no estilo "QAnon".


Um comitê parlamentar bipartidário também foi formado lá para investigar o ataque de 6 de janeiro. O painel ouviu mais de mil testemunhas e apresentou suas conclusões e recomendações ao Departamento de Justiça do país.


O documento final, divulgado em 2022, não se esquivou de culpar altos funcionários do governo, incluindo o ex-presidente Donald Trump. Trump foi acusado de obstrução, conspiração e insurreição, entre outras acusações. Ele é visto como uma figura central no incentivo à violência que testemunhamos naquele dia. O Departamento de Justiça já está investigando o papel de Trump nessas ações e ele pode pegar mais de 10 anos de prisão, além de se tornar ilegível.


Já no Brasil, algumas horas após a invasão da Praça dos Três Poderes, o presidente Lula (PT) decretou a intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal e classificou os atos como fascistas. A avaliação do governo é que tanto o governador, Ibaneis Rocha (MDB), quanto o secretário de Segurança Pública e ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, que neste domingo está com Jair Bolsonaro (PL) na Flórida, sabiam com antecedência o que estava sendo planejado. Com isso, Torres foi exonerado de seu cargo.


Foi aprovado pelo Senado Federal na última terça (10) o decreto de intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal assinado pelo presidente Lula após os atos terroristas de domingo. A intervenção está prevista no artigo 34 da Constituição Federal para “pôr termo a grave comprometimento da ordem pública” e “garantir o livre exercício de qualquer dos Poderes nas unidades da Federação”.


Entre responsabilização de empresários que financiaram os atos terroristas, prisão dos bolsonaristas que invadiram o Palácio do Planalto, afastamento do governador do DF e a abertura de um canal de denúncias para identificar golpistas, estamos vendo medidas firmes e diretas sendo tomadas para investigar e punir, em uma união que há muito tempo não ocorria entre Legislativo, Judiciário e Executivo.



Texto escrito por Eliézer Fernandes

Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais.

 

Fontes


Podcast Rádio Novelo - Episódio 7 - 72 horas - https://www.radionovelo.com.br/originais/apresenta/72-horas/


ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. 1ª Edição. Goiânia: Editora e Livraria Caminhos, 2021.






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