As inseguranças de viver em um mundo que odeia mulheres
- Alice Trindade

- há 11 horas
- 4 min de leitura

“A misoginia é histórica.” Ouvi esse comentário durante uma entrevista na TV, na qual uma especialista dissertava sobre a crescente onda de violência contra a mulher no Brasil. Naquele momento, circulavam na mídia notícias de atrocidades ocorridas de norte a sul do país nas últimas semanas: uma estudante morta e abusada sexualmente após sair do trabalho; uma jovem de 20 anos que levou mais de 15 facadas ao recusar um namoro; e o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana.
A autoria dos crimes? Todos foram cometidos por homens.
Dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que, no ano passado, 1.518 mulheres foram vítimas de feminicídio no país — o equivalente a quatro mortes por dia. A pesquisa também revelou um aumento em relação ao ano anterior: em 2024, foram registradas 1.458 ocorrências.
Diante da divulgação desses dados e da crescente onda de violência contra a mulher que vem assolando os noticiários neste primeiro trimestre, intensificaram-se os questionamentos sobre os papéis de gênero e sobre o ódio estrutural que continua a perseguir o sujeito feminino.
Em uma era em que a mulher ocupa papel ativo e cada vez mais representativo em espaços antes restritos aos homens, permanece a dúvida: existe, de fato, liberdade e o direito de viver plenamente?
Misoginia e sociedade
No dicionário Michaelis, o termo misoginia significa “antipatia ou aversão mórbida às mulheres”. Esse comportamento é fruto de uma sociedade em que os papéis de gênero masculinos são valorizados, enquanto os femininos são desvalorizados. O resultado é uma realidade marcada por casos recorrentes de feminicídio, humilhação e objetificação da mulher.
A sociedade patriarcal se mostra predominante há séculos. Até o século XIX e início do século XX, o acesso das mulheres à educação formal era amplamente restrito em diversas partes do mundo. Em muitos casos, apenas uma figura masculina de autoridade tinha o poder de decidir sobre essa tutela.
Apesar de termos evoluído significativamente desde nossas ancestrais, ampliando a presença feminina nos espaços de poder e no mercado de trabalho, a equidade de gênero não acompanhou, na mesma proporção, o grande salto da era moderna.
Um exemplo disso é a tese da “legítima defesa da honra”, utilizada durante décadas para justificar crimes de feminicídio e violência contra a mulher, e que só foi definitivamente derrubada pelo Supremo Tribunal Federal em 2023. O argumento sustentava que o assassinato ou a agressão seriam aceitáveis diante da suposta comprovação de que a conduta da vítima teria ferido a honra do agressor. Com base nessa lógica, muitos réus eram absolvidos de qualquer acusação.
Entretanto, mesmo diante de avanços legais, a lógica que sustenta a violência contra a mulher ainda encontra espaço em construções sociais profundamente enraizadas. Assim, a misoginia não é apenas um resquício do passado, mas uma realidade constantemente atualizada e legitimada sob diferentes formas.
Ódio as mulheres e comunidades digitais

A internet, refletindo os padrões sociais, tornou-se também um espaço onde ódio e liberdade coexistem. Há anos, homens ocupam ambientes virtuais para propagar ideias machistas sobre hierarquia de gênero e disseminar discursos de ódio contra as mulheres.
Dentro desses espaços surgiram comunidades como Incel e Redpill, grupos online que cultivam ódio às mulheres e as enxergam apenas como submissas. Segundo suas narrativas, vivemos em uma suposta realidade na qual mulheres manipulam e exploram homens, sendo responsabilizadas pelos males que acometem o sujeito masculino.
Ademais, vale destacar a constante sexualização dos corpos femininos na internet, muitas vezes impulsionada pelo alto consumo de pornografia. Esse fenômeno, além de contribuir para a objetificação da mulher, reduz sua existência a padrões estéticos e funções voltadas à satisfação masculina — configurando mais uma forma de controle social.
Nesse contexto, os meios digitais potencializam discursos de ódio ao oferecer anonimato, alcance e sensação de pertencimento a indivíduos que compartilham esse tipo de ideologia. O que antes poderia se manifestar de forma isolada, hoje encontra validação coletiva e se fortalece em comunidades organizadas.
Sem a devida regulamentação, o ambiente digital transforma-se em uma verdadeira “colônia” para a disseminação de discursos violentos.
O que esperar do futuro?
Diante dos acontecimentos dos últimos meses, a luta pela vida e pela liberdade feminina tomou os grandes centros urbanos neste último 8 de março.
As crescentes mobilizações, que também se espalharam pelas redes sociais, foram fundamentais para a condução de diversos casos e processos relacionados à violência contra a mulher. Mais do que um ato simbólico, essas manifestações reforçam a urgência de políticas públicas eficazes, de educação voltada para a igualdade de gênero e da responsabilização diante de discursos e práticas misóginas — tanto no ambiente físico quanto no digital.
Ainda há uma longa caminhada pela frente, mas seguimos firmes rumo a um futuro melhor para as mulheres que virão.
Texto escrito por Alice Trindade
É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia.
Revisão: Eliane Gomes
Edição: João Guilherme V. G.
Referências


Comentários