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O Segredo dos seus olhos

Atualizado: 22 de nov. de 2023

Um oficial de justiça recém aposentado, busca ocupar sua vida na preparação de um romance investigativo. O romance remete a uma história sombria de sua própria vida:




um crime sexual ocorrido há trinta anos.


Esta jornada visceral se transforma num turbilhão de emoções ao reviver memórias e anseios que afetam a vida de todos os envolvidos.



Este é o fio condutor da obra hispano-argentina O Segredo dos Seus Olhos (El secreto de sus ojos, em espanhol), de 2009.


Dirigida pelo prestigiado diretor Juan José Campanella e estrelado por Ricardo Darín, Soledad Villamil e Pablo Rago, conta com importantes participações de Guillermo Francella e Javier Godino. A direção magistral aliada ao roteiro instigante escrito por Campanella e Eduardo Sacheri, é baseado no romance La Pregunta de sus Ojos, de autoria do próprio Sacheri, que faz o expectador transitar por diferentes cenários, mesclando romance, suspense policial e comédia na dose certa.


A imagem diz: O segredo dos olhos e a essência da humanidade
O segredo dos olhos e a essência da humanidade

A qualidade da produção cinematográfica, foi reconhecida com premiações no ano de 2010. O filme foi ganhou como melhor filme estrangeiro no Oscar e melhor filme do ano no Prêmio Goya, o mais importante do ramo na Espanha. Além do reconhecimento de público e crítica especializada.

"Ler qualquer obra de ficção é um ato simbólico. Nós, leitores, contribuímos com nossa imaginação para a imaginação do escritor ao entrarmos voluntariamente no seu mundo, participando da vida das pessoas que ali habitam e formando, a partir das palavras e imagens do autor, nosso próprio quadro mental de pessoas e lugares. O cenário em qualquer romance é, portanto, um elemento importante de todo o livro. O lugar, afinal de contas, é onde os personagens representam suas tragicomédias, e só se a ação estiver firmemente enraizada na realidade física é que podemos entrar plenamente no mundo deles." (JAMES, P.D., 2012, p.117).

Estendendo o conceito apresentado por James, P.D. ao mundo do cinema, devemos usar nossa imaginação para preencher as lacunas dos cenários apresentados. Nesta obra, em especial, se faz necessário ressaltar o contexto político e social de um país latino, neste caso a Argentina, em dois períodos históricos:

O primeiro prestes a iniciar uma ditadura militar (1975) e o segundo em meados da revogação de leis de anistia (1999).

Ditadura argentina


Os principais eventos da narrativa como, o estupro e assassinato da jovem moça, o desenrolar da investigação, a saga para encontrar o assassino, as desventuras jurídicas e políticas, que atrapalharam a devida investigação da justiça, são todos ambientados em 1975. Ano que antecedeu a última ditadura Civil-Militar na Argentina (1976-1983).

A terminologia "Ditadura argentina" pode ser referenciada nos seguintes períodos:

  • 1930 - 1932: ditadura de José Félix Uriburu

  • 1943 - 1946: Revolución del 43

  • 1955 - 1958: Revolución Libertadora

  • 1962 - 1963: único caso de um período encabeçado por um civil: José María Guido

  • 1966 - 1973: Revolución Argentina (Juan Carlos Onganía e seus sucessores)

  • 1976 - 1983: Proceso de Reorganización Nacional

O Processo de Reorganização Nacional (PRN - Proceso de Reorganización Nacional, em Espanhol), também conhecido como Processo, foi uma ditadura Civil-Militar, que governou a República da Argentina entre o Golpe de Estado (1976) e a rendição incondicional do poder a uma Ordem Constitucional do Governo (1983).

O PRN assumiu a forma de um Estado Burocrático-Autoritário (EBA), conceito formulado pelo cientista político argentino Guillermo O'Donnell, a partir da análise das ditaduras militares instaladas no Brasil (1964), Argentina (1966 e 1976), Chile (1973) e Uruguai (1973).

EBA é um tipo de Estado que se caracteriza por anular todos os mecanismos políticos e democráticos, para restauração da ordem social e econômica anterior, que havia sido alterada como resultado de uma considerável organização autônoma da população e especialmente os trabalhadores. O regime foi implementado pelas Forças Armadas e setores civis, principalmente o empresariado e a Igreja Católica.


O Golpe Militar derrubou todas as autoridades constitucionais, nacionais e provinciais, incluindo a presidente María Estela Martínez de Perón, impondo em seu lugar a Junta Militar composta pelos três comandantes das Forças Armadas. Essa Junta, ditou várias normas de hierarquia supraconstitucional e nomeou um militar, que acumulou os poderes Executivo e Legislativo da Nação e das províncias, que recebeu o título de "Presidente" e cinco funcionários civis, que ocuparam o Supremo Tribunal.

Os objetivos declarados do Processo de Reorganização Nacional - PRN - eram de combater a "corrupção", a "demagogia" e a "subversão" e situar a Argentina no "mundo ocidental e cristão".


Foi estabelecido um novo modelo socioeconômico, seguindo as diretrizes ideológicas do neoliberalismo, imposto por meio de uma política de violação sistemática dos Direitos Humanos. O modelo estava em consonância com a doutrina de segurança nacional desenvolvida pelos Estados Unidos, articulada por meio do Plano Condor.

Dentro do Regime foi adotada a "Guerra Suja" (Guerra Sucia em espanhol), caracterizada por violência indiscriminada, perseguições, tortura, terrorismo de Estado, desaparecimentos forçados, etc. A denominação refere-se ao caráter informal de confronto entre os militares - desligados da autoridade civil - contra os civis e muitas organizações guerrilheiras, que em qualquer momento foi considerado uma explícita Guerra Civil.


O uso sistemático da violência e sua extensão contra alvos civis, no âmbito da tomada de poder político e burocrático por parte das forças armadas, determinou a imediata suspensão dos direitos constitucionais e conduziu a aplicação de táticas de guerra irregular e procedimentos a toda população.

No entanto, a designação como uma "guerra" é contestada por algumas organizações políticas e pelos Direitos Humanos, alegando tratar-se de um argumento dado pelo Regime Militar, para justificar a repressão indiscriminada. Uma das considerações tidas em conta é a disparidade de vítimas de ambos os lados, o que torna inadequada a definição de "guerra", ao invés disso, a jurisprudência moderna da Argentina, definiu-a como "genocídio".

O terrorismo patrocinado pelo Estado da Junta Militar criou um clima de violência, cujas vítimas estavam na casa dos milhares e incluía ativistas de esquerda, militantes, intelectuais, artistas, sindicalistas, estudantes e jornalistas, além de marxistas e guerrilheiros peronistas. Os ataques tiveram o apoio ou a tolerância dos principais meios de comunicação privados e grupos econômicos, a Igreja Católica e a maioria dos países democráticos do mundo.



a imagem diz: Fotos do “desaparecido”
Fotos do “desaparecido”

No filme, este período e as relações de poder são representadas no personagem de Isidoro Gomez e sua proteção pelo Governo, devido ao seu trabalho de ajudar a administração e seu sistema judicial ao encontrar, e depois matar, ativistas de esquerda, militantes e guerrilheiros. Desta forma Isidoro Gomez tinha uma condição especial perante o Regime e a justiça, sendo um cidadão "intocável" em relação aos crimes cometidos ou que viera a cometer.

Fim da anistia


O segundo período retratado no longa é situado em 1999. As leis nacionais conhecidas como "Lei do Ponto Final" e "Lei de Obediência Devida" ainda estavam valendo. De maneira geral, estes mecanismos legais eram popularmente conhecidos como "as leis de anistia", ou seja, impediam a investigação de milhares de casos de abusos aos Direitos Humanos cometidos durante o período da ditadura no país.

A Lei nº 23.492, chamada Lei de Ponto Final foi promulgada na Argentina a vinte e quatro de Dezembro de 1986, durante a presidência de Raúl Alfonsín, estabelecendo a paralisação dos processos judiciários contra os autores das detenções ilegais, torturas e assassinatos que ocorreram na etapa de ditadura militar.


A Lei que sancionava a impunidade dos militares pelo desaparecimento de trinta mil pessoas, foi objeto de uma grande polêmica. em um dos seus parágrafos indicava literalmente:


"Extinguir-se-á a ação penal contra toda pessoa que cometesse delitos ligados com a instauração de formas violentas de ação política até a 10 de Dezembro de 1983."

A Lei nº 23.521, conhecida como Lei de Obediência Devida foi uma disposição legal ditada na Argentina em 4 de Junho de 1987, durante o governo de Raúl Alfonsín, que estabeleceu presunção de Iuri, i.e., que não admite prova em contrário, que os feitos cometidos pelos membros das forças armadas, durante a Guerra Suja e o Processo de Reorganização Nacional, não eram puníveis por haver agido em virtude de obediência devida.

Esse período da história argentina é apresentado para enfatizar a situação que o personagem de Ricardo Morales enfrentou, focado na impunidade que criminosos e violadores dos Direitos Humanos, como o personagem Isidoro Gómez, desfrutavam na época. Ao mesmo tempo, muitos ex-torturadores e assassinos da ditadura - que poderiam ter sido amigos ou parceiros de Gomez - estavam livres e poderiam se vingar de Morales.

Desde 1983, a Argentina mantem a democracia como sistema de governo. Com a eleição de Raúl Alfonsín para Presidente, inicia-se um período conhecido como O retorno da democracia.


Em 2003 o clima político mudou e durante a administração do então Presidente Nestor Kirchner, a Lei do Ponto Final e a Lei de Obediência Devida, juntamente com os perdões executivos foram declarados nulos e sem efeito, primeiramente pelo Congresso e depois pela Suprema Corte.

Apresentado este contexto, tenho certeza que você terá uma experiência ainda mais rica ao assistir esta produção. Aliás, como todo bom romance policial, o final do filme é surpreendente e nos levar a refletir como as deficiências das instituições, situações extremas de violência e o sentimento de injustiça podem levar os cidadãos comuns a tomarem medidas extraordinárias para aplacar suas angústias e ter paz de espírito.

Apesar de quase passados quatorze anos desde sua estreia, a obra cinematográfica se apresenta atemporal e engajada com o compromisso e luta para manter a democracia vigente, no resgate da memória, verdade e justiça.

Detalhes do filme:



Texto escrito por Gustavo Longo


Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos.

 

Referências:






OS ESPAÇOS REPRESENTADOS E SEUS SIGNIFICADOS EM LA PREGUNTA DE SUS OJOS, DE EDUARDO SACHERI: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/wp-content/uploads/2014/04/silel2013_1902.pdf

JAMES, P.D. Segredos do romance policial. São Paulo: Três Estrelas, 2012.

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