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Alambamento: o casamento tradicional Angolano


O casamento é uma instituição fundamental em todas as sociedades humanas, sendo não apenas um evento que celebra a união de duas pessoas, mas também um momento que solidifica laços familiares e comunitários.


Cerimônia do Alambamento - Foto: apatria.org/turismo

Em Angola, o casamento tradicional, conhecido como alambamento, desempenha um papel significativo na vida das famílias, impactando não apenas os noivos, mas também a todos os envolvidos no processo, como os pais, tios, irmãos e primos. De modos que aqui pretendemos explorar brevemente a natureza do casamento angolano tradicional, analisando suas tradições, rituais e o impacto que tem nas famílias envolvidas. 


O Alambamento ou pedido é um dos rituais de casamento mais tradicionais em Angola, sendo realizado por diversas etnias do país, acabando por ser um acontecimento mais importante do que o casamento civil ou religioso. Nesta ocasião, a família do noivo pede a “mão” da noiva à sua família, que via de regra é representada pelo tio mais velho do pai. Este ritual não se limita apenas à união de duas pessoas (os namorados ou futuros noivos), mas também envolve ambas as famílias. Antes do casamento, é comum que as famílias dos noivos se envolvam em longas negociações para determinar os dotes e presentes a serem trocados, o que pode ser um processo complexo e demorado.


Como acontece?


O processo do alambamento, tecnicamente tem o começo no momento em que o homem e a mulher se apaixonam e decidem se casar.  Em seguida, ambos decidem comunicar aos seus parentes (pais e/ou tios) sobre a pretensão, e é então “negociada” (acordada) a data para a realização da cerimônia. 



Porém, é também nesta ocasião que os familiares da noiva, formalizam em carta o que esperam como apresentação do dote por ocasião da cerimônia, sendo que na carta é descrito o valor do dote (dependendo da família o valor pode variar em média entre USD 400 – USD 800 – cerca de R$ 2000,00 a R$ 4500,00). Outros bens como, fato (terno) completo para o pai da noiva, peças de pano africano (panos do Congo) para a mãe e eventualmente tias da noiva, grades (fardo) de cerveja e refrigerante, garrafas de vinho e de Whisky, par de sapatos e sandálias.


Foto: https://eradoconhecimentoblog.wordpress.com/2015/10/08/o-casamento-e-o-alambatendo/comment-page-1/

Outro aspecto a considerar é que os pais da noiva ou do noivo não têm nenhum poder de decisão sobre o alambamento, sendo que a decisão é de inteira responsabilidade do tio (irmão mais velho do pai) que na tradição africana é o “chefe, responsável ou cabeça da família” e por esta razão, toma todas as decisões importantes que acontece na família, e o alambamento não é exceção.


O dia do alambamento 


O dia agendado para a realização do pedido ou alambamento, é aguardado com grande expectativa por ambas as famílias, pois estão reservados grandes momentos e emocionantes. Normalmente, quando o noivo em companhia dos seus familiares chega ao local combinado para a cerimônia, é recebido com grande alegria e exultação pelos parentes da noiva, como se fosse um verdadeiro Príncipe! São estendidos no chão peças de pano do Congo, funcionando como uma passadeira, onde o noivo deverá passar, seguido dos familiares que o acompanham.


Os familiares encontram também um ambiente completamente decorado com enfeites e flores coloridas. O cenário é de tal forma preparado que mais se parece a um tribunal, pois as famílias são colocadas em lados opostos, e duas cadeiras no centro de um dos extremos onde os noivos deverão sentar.


O chefe da família da noiva, toma a palavra dando início a cerimônia, cumprimentando as famílias do noivo, tece algumas breves palavras e em seguida apresenta os membros da família da noiva. Nesta ocasião, o chefe de família pode indicar um outro membro para servir de interlocutor da cerimônia. No final da apresentação, ele passa a palavra ao chefe da família do noivo que também efetua o mesmo procedimento, começando por agradecer a recepção e logo após apresenta os familiares que o acompanham.


Depois deste procedimento “protocolar” é dado início às conversações, onde são apresentadas as qualidades e perfil do respectivo noivo e vice-versa. É de realçar, que durante as discussões a noiva está sempre ausente e apenas presente o noivo. No decorrer das conversações, a família do noivo informa a outra parte que gostaria de ler a carta de pedido da noiva (a carta é lida pelo chefe da família ou alguém que ele delegar) e no final da leitura apresenta os bens (dote) trazidos em jeito de rogo pela mão da noiva e agradecimento pela recepção.


Apresentação do noivo. Foto: https://www.embassyangolatr.org/cultura-tradicao-angolana/

Após este momento, a noiva é chamada e entregue à sua nova família, no caso a família do noivo sendo que a partir deste momento esta será a sua nova família. Este é certamente o momento alto da ocasião, pois há beijos entre os noivos, breves palavras de amor, troca das alianças de noivado e recepção da “bênção” dos pais, avós, tios e tias.


Agora sim, os noivos podem se expressar, passando a explicação dos planos para o futuro, com destaque para a data provável para o casamento civil. Geralmente, no final da cerimônia e logo depois dos cumprimentos aos noivos dá-se início à festa para comemorar a união não apenas dos noivos mas também das famílias. Na festa, é servido comida típica angolana, bolos, vinho e cerveja.


O impacto do alambamento na comunidade


Durante a cerimônia de alambamento, a comunidade desempenha um papel fundamental, reunindo-se para celebrar a união dos noivos e abençoar a nova família que está sendo formada. É um momento de grande alegria e festividade, marcado por danças tradicionais, cantorias e rituais ancestrais. A presença da comunidade no casamento não apenas fortalece os laços sociais, mas também reforça a importância da família e da tradição angolana.


O impacto do alambamento nas famílias envolvidas vai além da simples celebração do casamento. A entrega de dotes e presentes pode ter repercussões econômicas significativas para as famílias, particularmente do noivo, muitas vezes exigindo um grande investimento financeiro. Além disso, as conversas em torno do casamento, em alguns casos podem criar tensões e desacordos entre as famílias, especialmente se as expectativas de ambas as partes não forem atendidas. 


Outro aspecto importante a considerar é o papel das mulheres no casamento tradicional angolano. Embora o alambamento seja uma celebração da união de duas pessoas, a noiva muitas vezes é vista como um símbolo de status e prestígio para a família do noivo. Isso pode levar a uma valorização excessiva da noiva como um bem a ser adquirido, em detrimento de sua autonomia e liberdade de modo individual.



Além disso, o casamento tradicional angolano também pode impactar a dinâmica familiar, especialmente no que diz respeito às relações de poder e autoridade. A partir do momento em que os noivos se casam, as famílias agora alargadas ganham influência sobre o casal, podendo influenciar suas decisões e seu estilo de vida. Isto pode gerar alguns conflitos e desafios para os recém-casados, que muitas vezes precisam conciliar as expectativas da família com os seus próprios desejos e aspirações. Por outro lado, quando surgirem problemas entre o casal, os pais e tios podem ser chamados para servirem numa espécie de mediadores com objetivo de dirimir o conflito entre ambos e voltar a convivência pacífica e amorosa. 


Finalmente, o casamento tradicional angolano (alambamento) desempenha um papel fundamental na vida das famílias e comunidades do país, sendo mais do que uma simples celebração de união. Suas tradições, rituais e impacto econômico e social podem moldar as relações familiares, a dinâmica de poder e a autonomia do casal. É importante reconhecer as complexidades e desafios que o Alambamento pode trazer, buscando promover um equilíbrio entre a tradição e a evolução da sociedade angolana.


O Alambamento nos Direitos Africanos


Moisés Mbambi, no artigo: O alambamento nos Direitos Africanos, diz que a palavra “alambamento é um neologismo que os angolanos criaram para preencher a lacuna verificada na língua portuguesa para designar ovilombo (pedido de casamento) em umbundu; ovilombo vem do verbo Umbundu Okulomba (pedir).


Há quem refira ainda que alambamento vem da palavra umbundu okulemba (alegrar para consolar), por isso alguns pronunciam alembamento em vez de alambamento: porque a retirada da filha para o seu novo lar pode causar alguma tristeza aos pais, e há que consolá-los (com um presente!) explicam, assim, alguns filólogos a etimologia da palavra alambamento.


Porém, acima de tudo, o alambamento é visto pelos africanos como um prêmio à noiva pelo seu bom comportamento pessoal e para seus pais que a criaram, porque não é muito fácil educar uma filha em virtudes, dadas as muitas tentações na vida que a espreitam. O bom comportamento dela pressupõe o bom comportamento dos seus pais, pelo que todos devem ser premiados: a filha e os seus pais! Este prêmio que é exatamente o alambamento!”



Texto escrito por Isaac Jorge 

É licenciado em Relações Internacionais e possui experiência diplomática na Missão Diplomática de Angola na África do Sul. Nos últimos 18 anos, trabalhou no Banco Sol S.A., assumindo diversas responsabilidades, incluindo Subdiretor de Desenvolvimento de Negócios, Chefe de Departamento de Banca de Investimentos e Chefe de Departamento de Organização e Qualidade. Também é apaixonado por futebol.



Revisão: Eliane Gomes

Edição: Felipe Bonsanto


 

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