Longe da Terra Santa: o plano para um estado judeu no Brasil
- Pablo Michel Magalhães

- 4 de dez. de 2025
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Judeus planejavam criar um estado judaico em 1938 no território de Mato Grosso do Sul. Joseph Hefter, líder político antissionista, publicou panfleto em Nova York defendendo a ideia.
No século XIX, uma parcela significativa do povo judeu aderiu ao sionismo como resposta ao chamado “problema judaico”: eram uma nação sem território próprio. A solução proposta pelo movimento foi a criação de um estado judeu na Palestina, considerada a pátria histórica dos judeus. Em 1948, impulsionado pela tentativa mais sinistra dos nazistas de “resolver” essa questão, Israel foi fundado e o sionismo alcançou seu objetivo.
No entanto, esta versão do sionismo focada na Palestina foi apenas um dos muitos projetos territorialistas judaicos. Ao longo do século XIX e início do século XX, surgiram cerca de 30 propostas desse tipo, embora a maioria não tenha passado de slogans utópicos. Um dos projetos territorialistas judaicos mais conhecidos não focados na Palestina foi o Plano Uganda. Apresentado por Theodor Herzl no Sexto Congresso Sionista, em 1903, a proposta chegou a ficar apenas seis votos abaixo da aprovação pela maioria.
O mapa a seguir é uma peça histórica essencial para compreender estes projetos alternativos. Trata-se de uma criação de Joseph Otmar Hefter, uma figura hoje quase esquecida, assim como a política que defendeu na década de 1930: o territorialismo judaico não-sionista.

Restam poucas evidências do sonho de Hefter de uma Nai Juda (“Nova Judéia”), além do panfleto ‘A Land for the Jews!’, publicado em Nova York em 1938. Nesse material, ele apresentava sua resposta à questão judaica: uma pátria soberana com todos os atributos de um Estado – bandeira, leis, uma língua nacional (iídiche) e até mesmo um hino nacional.
Dez desses projetos aparecem no panfleto de Hefter, que reunia um mapa, um manifesto e descrições de possíveis novos países judaicos. Entre eles estavam Madagascar, Uganda e Birobidzhan, na Rússia, além de propostas para a América do Sul, em territórios que abrangiam o sul e o oeste da Guiana e o sudeste da Venezuela, na fronteira com o Brasil. Outro projeto, porém, situava-se dentro do próprio país, em Mato Grosso do Sul.
O texto que acompanha o ponto 6 descreve:
“Uma seção da região de Matto (sic) Grosso, ao norte do Rio Paraná, na fronteira com o Paraguai. Encravada, inexplorada, desconhecida, quase inabitada. Uma terra difícil de florestas, perigosa, mas habitável. Rica em recursos. Borracha, ouro, diamantes. Potencial império industrial. Poderia neutralizar grandes colônias japonesas e alemãs entrincheiradas na costa”.
O sionismo, no entanto, saiu triunfante e concretizou seus objetivos com a criação, em 1948, do Estado de Israel em território palestino, dando início aos conflitos que, até hoje, marcam a região com violência.
Sobre a Palestina e a Terra Santa
A região conhecida como Palestina, nome derivado de Filistina ("Terra dos Filisteus"), localiza-se no Oriente Próximo, entre o mar Mediterrâneo e o vale do Rio Jordão. É a Canaã bíblica, também chamada de Sião pelos judeus tradicionalistas.
O território já era habitado pelos filisteus, povo com uma cultura metalúrgica bastante especializada e uma tradição religiosa baseada no politeísmo. Sua organização política era descentralizada, estruturada em cinco cidades-estados: Asdode, Ascalão, Gat, Gaza e Ecrom.
Os hebreus, posteriormente conhecidos como israelitas ou judeus, conquistaram a região por volta de 1200 a.C., após uma série de guerras contra as forças filisteias, que resultaram em um banho de sangue em toda a Palestina.
A partir de 587 a.C., com a conquista da Babilônia, iniciou-se um longo processo de diáspora. As revoltas judaicas contra Roma (66-70 e 133-135 d.C.) foram desastrosas: o Templo de Jerusalém foi arrasado e, após a segunda revolta, o imperador Adriano proibiu os judeus de residirem em sua capital. Esse decreto acelerou a dispersão pelo Império Romano e por outras regiões.
A Palestina foi, ao longo dos séculos, helenizada, romanizada e, em 395, incorporada ao Império Bizantino. A conquista árabe em 638 a integrou ao mundo islâmico. Mais tarde, entre 1099 e 1187, a região abrigou um Estado Cruzado, antes de ser absorvida pelo Império Otomano em 1517, sob cujo domínio permaneceu por quatro séculos.
Império Otomano em 1517, sob cujo domínio permaneceu por quatro séculos.
O cenário moderno começou a se delinear em 1896, com Theodor Herzl e a fundação do Movimento Sionista, que defendia a criação de um Estado judeu na Palestina. O projeto ganhou força com o apoio britânico, formalizado na Declaração Balfour de 1917. Após a derrota otomana na Primeira Guerra Mundial, a Palestina passou ao controle britânico por mandato da Liga das Nações.
É importante destacar que, durante todo o período que antecedeu o movimento sionista, árabes muçulmanos e judeus conviveram na região de forma pacífica, numa sociedade campesina que compartilhava vilas e cidades sem qualquer traço de ódio.
A crescente imigração judaica, agora guiada pela ideologia sionista, somada à política dos países imperialistas, gerou atritos com a população árabe local e levou à criação da Haganah, uma milícia de defesa judaica.
É preciso ressaltar o papel preponderante da Grã-Bretanha nesse processo. Seu intervencionismo imperialista, desde a promessa de estabelecer um estado judeu na Palestina, passando pela criação de um protetorado na Transjordânia e pelo incentivo à imigração dos judeus europeus para a região, tornou-se um fator decisivo na desestabilização do equilíbrio sociopolítico local.
Após a Segunda Guerra Mundial, o fluxo de sobreviventes do Holocausto tornou a situação na Palestina insustentável. Em 1947, a ONU propôs a partilha do território em dois Estados: um judeu e outro árabe. A recusa árabe à proposta levou à fundação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948, seguida imediatamente pela invasão dos países árabes vizinhos: Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque. O conflito se estendeu por 15 meses, resultando em milhares de mortes. Apesar da ofensiva, o recém-criado Estado judeu resistiu e não foi derrotado.
Com a retirada dos britânicos e a consolidação de Israel como Estado independente, cerca de 750 mil palestinos foram expulsos e jamais puderam retornar às suas casas.
O armistício de 1949 estabeleceu linhas geopolíticas que seriam fragilmente respeitadas: a Cisjordânia, sob tutela da Jordânia, e Gaza, sob administração egípcia, permaneceram como os territórios árabes dentro da nova configuração regional.
Desde então, a política colonialista e imperialista de Israel tem resultado em mortes, expulsões e invasões de terras palestinas.
Atualmente, Israel é uma democracia parlamentar com cerca de 9,7 milhões de habitantes. Sua capital declarada é Jerusalém, embora a sede do governo permaneça em Tel Aviv.
Entre pesquisadores e organizações internacionais, ecoa a acusação de que o Estado israelense adota políticas de caráter fascista em relação aos palestinos, especialmente na Faixa de Gaza.
Texto escrito por Pablo Michel Magalhães
Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021).
Revisão por Eliane Gomes
Edição por João Guilherme V.G






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