Mísseis no Oriente Médio e ataques à soberania latino-americana: O caminho que nos levou até aqui
- Pablo Michel Magalhães

- há 1 dia
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Janeiro, 2026. Uma operação de extração militar ocorre na Venezuela. Após meses de bloqueio no mar do Caribe, uma ação de inteligência estadunidense, que contou com cooptação de agentes públicos venezuelanos, logrou raptar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa de dentro do Forte Tiuna.
Sem a aprovação do Congresso norte-americano ou da ONU, Donald Trump e sua equipe ordenaram a invasão da Venezuela sob a justificativa de combater o narcotráfico.
Todos sabemos o verdadeiro motivo. O cheiro de petróleo cobre o ambiente e já manchou o papel em que escrevo este texto. A Venezuela possui 303 bilhões de barris em reservas, a segunda maior do mundo. O foco sempre foi a abertura da PDVSA (estatal venezuelana responsável pelo setor petroleiro) às empresas norte-americanas, a fim de controlar a produção, a extração e a lucratividade do combustível fóssil, além de impedir seu comércio com a China.

Fevereiro,2026. Uma série de ataques contra o Irã, em uma manhã de sábado, reduziu a fumaça as praças Jomhouri e Hassan Abad. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram pessoas em pânico, fugindo das explosões. É possível ouvir gritos e choro enquanto o estrondo das bombas ecoa ao fundo. Mais de 200 pessoas morreram, entre elas Ali Khamenei, marja’ (grande aiatolá) do país persa.
Os norte-americanos, em cooperação com as forças israelenses, foram os responsáveis pela ação bélica. Trump manifestou-se em uma mensagem na rede Truth Social, afirmando que Khamenei foi “uma das pessoas mais perversas da história” e que esta seria “a maior oportunidade que o povo iraniano já teve para recuperar seu país”.
Mais uma vez, sob a bandeira da liberdade, os estadunidenses apontam seus canhões em direção ao Oriente Médio, como fizeram inúmeras vezes. Claro que isso não teria nada a ver com o controle sobre o Estreito de Ormuz, nem com as reservas de petróleo locais, muito menos com a manutenção da supremacia de Israel como nação imperialista nos arranjos geopolíticos do Oriente Médio.
Março, 2026. Estou tranquilamente tomando um café na sala dos professores, quando sou interpelado por um colega: “A Terceira Guerra Mundial começou, Pablo!”. Será mesmo? Respondi vagamente. Às sete da manhã, meu cérebro ainda funciona lento.
Com mais vagar agora, proponho ao leitor uma análise um pouco mais densa. O cenário mundial hoje é realmente caótico e problemático, com uma escalada perigosa do conflito — já aberto. Mas o que podemos entender disso tudo, do ponto de vista histórico?
O convite que faço a você é que, por alguns minutos, tomemos alguma distância e observemos o tecido do passado e do presente para entender como os EUA se relacionam com o mundo.
Um quintal para chamar de meu
Os Estados Unidos da América conquistaram sua independência em um contexto histórico particularmente relevante. Antes mesmo da Revolução Francesa, em 1789, os habitantes das treze colônias sob controle britânico na América do Norte empreenderam um processo de libertação singular, guiados por uma inspiração iluminista e por ideais liberais que, à época, já estavam em voga na sociedade ocidental e vinham sendo fomentados na própria Inglaterra desde o século XVII.
A partir daí, a independência conquistada pelos estadunidenses reverberou no mundo, especialmente na França do final do século XVIII. O resultado obtido pelos colonos na América do Norte passou a ecoar nos debates entre os intelectuais liberais parisienses, com desdobramentos evidentes no processo revolucionário francês.
Em solo norte-americano, um processo ideológico se iniciou. Durante o século XIX, cristalizou-se, nos Estados Unidos, uma crença quase religiosa — uma convicção que extrapolava a mera ideia de conquista territorial e apontava para uma escolha divina sobre a própria nação. Os estadunidenses, de acordo com essa ‘profissão de fé’, estariam predestinados a levar a civilização, a democracia e o progresso, ao restante do continente.
Dentro dessa mentalidade, qualquer obstáculo que os demais povos pudessem interpor contra os ‘escolhidos’ poderia ser entendido como um ataque ao seu desenvolvimento, aos ideais democráticos e à liberdade.
A transformação dessa ideologia em política oficial deu-se em 1823, com a Doutrina Monroe. Seu slogan era 'a América para os americanos'. Note-se: americanos não são todos, de cima a baixo; são os estadunidenses, os 'legítimos' americanos. A retórica era de união contra o imperialismo europeu, mas, na prática, marcou o início do imperialismo norte-americano sobre os demais territórios do continente.
Trocando em miúdos, os EUA demarcaram seu quintal e estabeleceram suas regras.
No advento do novo século, Theodore Roosevelt (1901-1909) daria um passo adiante, inaugurando a política do Big Stick. Sua máxima era 'fale macio, mas use um porrete', uma diplomacia que até existia, mas só funcionava porque havia um aparato militar por trás, garantindo acordos pela violência.
A imposição econômica desse período visava a garantir a hegemonia norte-americana, submetendo os demais países a uma cartilha neoliberal de exploração até a exaustão do povo e da produção local. E não somente: essa política impunha o dólar como moeda soberana nas transações comerciais.
Se algum país saísse da linha, o porrete entrava em ação. Sob a batuta da CIA, a orquestra de intervenções norte-americanas varreu governos nacionalistas na América Latina e os substituiu por governos fantoches, submetidos aos interesses imperialistas dos EUA.
Os exemplos são diversos. O Paraguai ‘saiu da linha’ em 1954, assim como o Brasil em 1964, o Uruguai e o Chile em 1973, e a Argentina em 1976 — a lista é extensa e seguiria adiante.

O inimigo mora no Oriente
Imagine o ano de 1977. Estamos em Teerã, em um banquete luxuoso. De um lado da mesa, o presidente norte-americano Jimmy Carter levanta sua taça em um brinde animado com Reza Pahlevi, o xá iraniano. Carter celebra o fato de o país persa ser uma ilha de estabilidade em uma região cheia de conflitos.
Agora imagine-se dando um salto temporal e caindo em Teerã, hoje, 5 de março de 2026, em meio aos escombros da cidade que exala o cheiro pungente de carne humana queimada logo após os bombardeios norte-americanos. Como tudo mudou tanto?
Antes de respondermos, é preciso compreender um conceito fundamental.
O realismo ofensivo, conceito elaborado por John Mearsheimer, parte de uma análise crua da geopolítica internacional e talvez possa ajudar a explicar parte das tensões na região que estamos analisando. O sistema internacional viveria em um estado de ausência de autoridade superior. Nesse cenário, o medo ditaria as regras do jogo, e cada nação precisaria exercer certo nível de terror sobre as demais como estratégia de defesa.
Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA transitaram de uma política isolacionista para uma postura intervencionista, com vistas a conter os avanços da União Soviética. Nessa disputa, que conhecemos como Guerra Fria, o Oriente Médio despontava como zona estratégica, por conta de suas reservas de petróleo, especialmente na região do Golfo Pérsico. O controle desse recurso significava poderio militar.
Entraram em ação duas políticas estadunidenses: a Doutrina Truman, que estabeleceu o compromisso de oferecer ajuda militar e econômica para conter a expansão do comunismo, e a Doutrina Eisenhower, que prometia ajuda militar e econômica a países do Oriente Médio para conter a influência soviética. Uma luta do bem contra o 'mal vermelho'? Não: apenas a águia norte-americana com sede de petróleo.
Israel, Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Irã foram alguns dos países que receberam proteção da águia da liberdade. Como excelentes exemplos do realismo ofensivo, seus governos, apoiados pelos norte-americanos, receberam armamento, tecnologia e investimentos que desequilibraram a balança geopolítica em favor dos estadunidenses.
Irã, 1951. Naquela época, o Irã era uma monarquia constitucional, com um primeiro ministro eleito pelo povo. À época, Mohammed Mossadeq ocupava o cargo. Nacionalista fervoroso, Mossadeq entrava frequentemente em choque com interesses estrangeiros no país, especialmente após nacionalizar a indústria do petróleo iraniano.
Isso soou como um alarme de incêndio em Washington, que, junto com a CIA, orquestrou um golpe de Estado no país persa. A derrubada do primeiro-ministro foi seguida pela consolidação de uma monarquia autocrática concentrada no xá Mohammad Reza Pahlavi. Isso garantia um governo capacho aos interesses estadunidenses.
Uma vitória tática que gerou, a longo prazo, uma crescente aversão da população iraniana aos norte-americanos.
Ironia da história: o programa nuclear iraniano, motivo que os EUA usaram para dizer que o país persa representava uma ameaça à paz na região e no mundo, não foi iniciado pelos soviéticos nem pelos chineses, mas pelos próprios norte-americanos durante o reinado do xá apoiado por eles.
O regime do xá, adotando uma política de ocidentalização econômica e social, promoveu um progresso baseado em uma profunda desigualdade social, corrupção e repressão violenta a opositores.
O antiamericanismo tomou as ruas de Teerã, unindo líderes islâmicos ultraconservadores a comunistas no movimento de derrubada do regime de Pahlavi, que aconteceu enfim com a Revolução Islâmica de 1979, de onde emergiu a figura central do aiatolá Ruhollah Khomeini, que apelidou os EUA de ‘Grande Satã’.

Uma nova (velha) doutrina
O tecido do passado e do presente está aberto diante dos nossos olhos. Vamos mais uma vez observar a América Latina.
A invasão à Venezuela parece ter dado luz a uma nova (velha) doutrina. Saem de cena o golpe contra uma suposta ditadura, a entrega do poder a uma oposição ‘democrática’, a tal desculpa civilizatória para o uso da força. Agora, uma espécie de realismo flexível toma lugar, e a força é justificada pela imposição de uma verdade que, por falta de vozes dissonantes, se torna única e incontestável.
Na Venezuela, a oposição não recebeu o poder dos norte-americanos. María Corina Machado e Edmundo González não foram agraciados com as rédeas do país. Trump preferiu manter a vice de Maduro, Delcy Rodríguez, e garantir que a máquina estatal continuasse funcionando sem mais rupturas, assegurando a abertura da PDVSA e do petróleo às empresas estadunidenses.
Voltemos nosso olhar para o Oriente, mais uma vez.
O assassinato de Ali Khamenei foi um rastilho de pólvora aceso rumo a um barril altamente explosivo: o Oriente Médio. Ao longo de sua história de intervenção na região, os norte-americanos construíram uma rede de países aliados que, diante da incursão bélica da águia da liberdade estadunidense, apoiaram a ação contra o Irã (nominalmente, Bahrein, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Jordânia).
Mas, definitivamente, a nação mais interessada nisso é Israel. O bastião dos interesses imperialistas ocidentais no Oriente, aliado de primeira ordem dos EUA, o país comandado por Benjamin Netanyahu — diretamente envolvido nos ataques — busca estabelecer sua supremacia geopolítica e bélica na região.
A nova (velha) doutrina imperialista sobre o Oriente Médio. A receita que sempre deixa o bolo grande e saboroso (pra você sabe quem).
Por ora, vamos fechar o tecido do passado e do presente. Voltaremos em breve com mais provocações históricas.
Texto escrito por Pablo Michel Magalhães
Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021).
Revisão e Edição por Eliézer Fernandes




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