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  • Violência contra mulher: Qual o papel do homem nessa luta?

    Diariamente acompanhamos notícias tristes e revoltantes através dos meios de comunicação sobre a violência contra a Mulher, principalmente casos de feminicídio. Nos últimos dias o debate sobre a violência contra a Mulher veio à tona novamente, após os ex-jogadores de futebol Daniel Alves condenado por estuprar uma jovem na Espanha, e Robinho que foi condenado por estupro coletivo, após estuprar junto de amigos uma jovem albanesa na Itália e após decisão da justiça brasileira, começou o cumprimento de sua pena no Brasil. Muito se debateu sobre esse tema nas redes, nas rodas de conversas, e dentre esses debates o que chamou mais a atenção foi o silêncio dos homens, e a tentativa de muitos de minimizar um ato tão cruel quanto o estupro. Nem mesmo a CBF, da qual se esperava um posicionamento,  tomou qualquer atitude, somente após pressão de uma parte da sociedade, o presidente fez uma fala branda sobre o caso, isso demonstra que o pacto do patriarcado segue vivo como nunca. Um exemplo claro foi a fala do treinador de futebol Dorival Junior que pareceu mais se solidarizar com o Robinho condenado por estupro, do que com a vítima. Diante de tudo isso, cabe a nós repensar qual é o papel do homem no combate á violência contra a mulher, diante de toda violência vista , ocasionada pelo machismo, pela misoginia, o que os homens têm feito e o que vão fazer daqui pra frente para combater este crime tão covarde que é o trato das mulheres como coisas descartáveis e manipuláveis. Números da violência No ano passado a cada 24 horas pelo menos 8 mulheres foram vítimas de violência doméstica, segundo dados do observatório nacional de segurança, isso apenas em 8 estados dos 9 monitorados, os dados demonstram que há uma enorme subnotificação de casos de violência, onde boa parte dos casos são praticados por pessoas próximas, principalmente companheiros. Os números são extremamente alarmantes, há uma percepção de que a violência contra as mulheres aumentou e precisa ser combatida. Papel do homem Os homens devem ter um papel fundamental no combate a violência contra a mulher. Exemplos claros de se posicionar, é o caso do motoboy de São Paulo que aguardava para fazer uma entrega quando avistou uma mulher sendo agredida por um homem, no intuito de defender a mulher, atravessou a rua de maneira tranquila e passou um rodo (rasteira) no agressor que não revidou, as pessoas que estavam a volta e até então não fizeram nada, aplaudiram a atitude do entregador, mas isso nos faz refletir, que haviam diversos homens e nenhum defendeu aquela mulher. Há um longo caminho a  percorrer, mas primeiro deve-se romper com a cultura da violência e com o sistema patriarcal machista. O domínio dos homens sobre as mulheres é algo que não deve existir, e se posicionar quando há casos de violência contra a mulher é fundamental, apoiar a vítima e condenar o agressor faz parte desse processo, não se pode passar a mão na cabeça de criminosos, mesmo que sejam de suas relações de amizade, e entender que as mulheres dispõem dos mesmos direitos que os nossos também é crucial, a sociedade não pode mais ser cúmplice da violência contra a Mulher. As leis precisam ser mais severas e claras, sem margem para interpretações que beneficiem os agressores, servidores públicos devem ser capacitados e o tema combate a violência, ao machismo deve ser colocado nas escolas desde o início, para formarmos homens com mentalidades diferentes e conscientes de que a violência contra a mulher não deve existir. Evoluímos enquanto sociedade, já que este debate nem ao menos era feito, mas lamentavelmente há muito o que evoluir, deveríamos estar muito à frente neste debate, acredite se quiser, ainda nos tempos atuais era utilizado como excludente de ilicitude o argumento de que o crime de feminicídio havia sido cometido pela legítima defesa da honra do assassino, felizmente uma decisão liminar do STF, não permite mais que esse argumento seja utilizado em nenhuma fase do processo; Esperamos que seja definitivamente banido, mas já é um grande avanço não permitir que um assassino reconhecido use essa justificativa  que nunca deveria ter existido  para justificar um crime tão bárbaro quanto o feminicídio. No congresso deve ter mais mulheres que lutem pelos direitos das mulheres e homens que se somem nessa luta, felizmente aos poucos este caminho está sendo conquistado, com muita luta, mas já há avanços, e tais avanços só foram conquistados graças as Mulheres feministas que nunca deixaram de lutar e denunciar, e seguem lutando contra o machismo e todas as formas de violência contra a Mulher, que toda sociedade se torne feminista. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://www.meunomejohni.com.br/violencia-e-silencio-o-pacto-patriarcal/ https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=503655&ori=1 https://www.nexojornal.com.br/academico/2021/02/11/Qual-o-papel-dos-homens-no-combate-%C3%A0-viol%C3%AAncia-dom%C3%A9stica https://www.brasildefato.com.br/2024/03/07/violencia-contra-a-mulher-cresce-22-em-2023-numeros-podem-ser-subnotificados https://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/violencia-contra-a-mulher/formas-de-violencia-contra-a-mulher/ https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/03/15/projeto-preve-mecanismo-de-alerta-contra-aproximacao-de-agressor-de-mulher https://www.fundobrasil.org.br/blog/o-papel-dos-homens-no-combate-a-violencia-contra-as-mulheres/#:~:text=Os%20homens%20devem%20reconhecer%20as,mas%20n%C3%A3o%20podemos%20ignor%C3%A1%2Dla

  • O Portal - Um suspense no país tropical

    "Os sinais escondem um mistério que poderá mudar o rumo da história." Sinopse: Elizabeth Macwood foi criada em Nova York. Filha de um grande empresário americano, Robert Macwood, Elizabeth decide acompanhá-lo em seu novo compromisso no Brasil. Após uma noite agitada, ela acorda com três sinais desconhecidos rasgados em suas costas e uma súbita amnésia que a faz se esquecer dos acontecimentos que geraram as marcas. Em uma busca incessante para desvendar o motivo dos sinais, Elizabeth se vê envolvida em histórias inacreditáveis, verdades, mentiras, símbolos, viagens no tempo, medos, surpresas e paixões inesperadas. Ambientado nas cidades de Nova York e Rio de Janeiro, O Portal apresenta um enredo de enigmas, no qual a autora Eliane Raye nos conduz em suspense até o último momento, em reviravoltas inusitadas. Um romance com personagens marcantes em que todos apostam a própria vida para descobrir a verdade. Resenha: Bem, vamos falar primeiro da capa. Ela é belíssima, faz lembrar um livro de Dan Brown, não é? Pelo menos foi o que meus filhos acharam. O livro tem 202 páginas muito bem escritas. Vou encaixar o livro no gênero YA book (young adult) embora eu esteja mais para OL (old lady). Mas o que me prende em qualquer gênero de literatura é uma história bem escrita. E foi o que aconteceu com O Portal. A autora mescla suspense, ação e romance com maestria. Vou confessar que fiquei com a atenção presa em muitos capítulos. E como precisava largar o livro para atender minhas obrigações, deixava ele com uma dor no coração! O prólogo já fisga o leitor. A autora deixa uma situação em suspense onde você quer ler o livro para desvendá-la. Amei os personagens: Lizzie, Leonardo, Flávia, seus pais Robert e Rachel (embora eu não tenha ficado muito fã da Rachel), afinal ela foi muito besta em algumas situações. Lizzie, a personagem principal é uma garota de 19 anos muito bem resolvida, sabe o que quer e corre atrás, embora em algumas situações ela não tenha sabido se virar muito bem, mas acontece, né?! Leonardo é um daqueles rapazes maravilhosos. Lindo e estudioso (que combinação!!) Não vou dizer mais porque quero deixar vocês muito curiosos. Enfim, é uma aventura sobre o tempo e quem tem que decifrar o mistério é Lizzie, e ela sofre muito com isso, mas... Se eu escrever mais vou acabar contando a história toda. O que posso dizer: livro recomendadíssimo. Leiam, porque vocês irão gostar. E além disso, estarão prestigiando nossa literatura nacional! Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão por Eliézer Fernandes Edição por Felipe Bonsanto

  • Pelo direito de cultivar a mente e os afetos: A cultura como arroz e feijão

    Atualmente é cada vez mais difícil refletir sobre o funcionamento do mundo e os dilemas da vida. A rotina massacra a capacidade de contemplação, sem contar os diversos problemas sociais diários. Mas tem uma coisa que nos mantém atentos à possibilidade de imaginação e criação de um novo mundo. Após o fim da 2ª Guerra Mundial, a ONU (Organização das Nações Unidas) e seus países-membros decidiram criar princípios para prevenir que novas atrocidades contra a humanidade fossem cometidas. Nasce então, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Foi neste contexto que a Cultura foi considerada um direito universal, sendo indispensável à dignidade e ao livre desenvolvimento da personalidade. No Artigo 27° da DUDH, consta: Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam. Todos têm direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria. A etimologia da palavra “Cultura” traz pluralidade de sentidos. Do latim “culturae”, que significa “ação de tratar”, “cultivar” ou “cultivar a mente e os conhecimentos”. O antropólogo Edward Tylor sugeriu um conceito de cultura como: Complexo que inclui conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade. (LARAIA, apud ZUIM, 1986, p.9) Esta definição, porém, vem sendo aperfeiçoada e enriquecida pelo tempo, sendo que a Cultura é analisada sob áreas diversas da filosofia, da antropologia, das ciências sociais e até mesmo das Relações Internacionais, como o uso da Cultura no soft power. Em 2003, na Assembleia Geral da ONU, o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, protagonizou um fato histórico. Gil cantou a canção “Toda Menina Baiana”, do disco “Realce”, de 1979, com Kofi Annan (Secretário Geral da ONU na época) no atabaque, animando os presentes no que ficou conhecido como “Show da Paz”. Em entrevista para Reuters, em 2003 - em Paraty/RJ, Gil diz: “É preciso acabar com essa história de achar que a cultura é uma coisa extraordinária. Cultura é ordinária!” [...] "Cultura é igual a feijão com arroz, é necessidade básica, tem que estar na mesa, tem que estar na cesta básica de todo mundo.” E continua, “A responsabilidade com a Cultura é a responsabilidade com a sua própria vida, porque tudo é cultura.” Você (talvez) já ouviu esta frase antes, trocando a palavra “cultura” por “política”. A Cultura como direito universal ganha novos contornos nas Relações Internacionais por todo o período subsequente à DUDH (1948), com a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, publicado pela Unesco em 2002. Um dos artigos versa sobre uma importante relação entre Direito Cultural e Direitos Humanos. Artigo 4: “[…] ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo direito internacional, nem para limitar seu alcance.” No Brasil, a cultura foi alçada ao patamar de Direito fundamental com a Constituição Federal de 1988, com o artigo 215: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.” A área da Cultura é transversal, impactando em todas as áreas da vida. A 4ª Conferência Nacional de Cultura definirá as políticas públicas da área para os próximos anos, em temas como: Institucionalização, Marcos Legais e Sistema Nacional de Cultura; Democratização do Acesso à Cultura e Participação Social; Identidade, Patrimônio e Memória; Diversidade Cultural e Transversalidade de Gênero, Raça e Acessibilidade na Política Cultural; Economia Criativa, Trabalho, Renda e Sustentabilidade; Eixo 6: Direito às Artes e Linguagens Digitais. Garantir o direito à Cultura aos povos é fundamental para prover dignidade às pessoas. A união dos esforços de órgãos internacionais (ONU, UNESCO) e os representantes e fazedores de Cultura dos países é condição primordial para a garantia de um Direito básico e universal, que tem poder de transformar mentes ao redor do mundo. Texto escrito por Josué Kenji formado em Relações Internacionais, produtor cultural e pós-graduando em gestão Cultural, desenvolvimento e mercado. É co-organizador do "Festival da Criatividade Cria Bauru 2020" desde 2020, criador da "Comunidade Criativa Cria Bauru", articulador criativo da "Rede Bauru: Cidade Criativa Unesco", está membro do "Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (2022-2024)" na cadeira de Sociedade Civil e atualmente é colunista do Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS: http://institutodea.com/artigo/o-que-sao-direitos-culturais/#:~:text=Os direitos culturais foram previstos,ao livre desenvolvimento da personalidade](http://institutodea.com/artigo/o-que-sao-direitos-culturais/#:~:text=Os%20direitos%20culturais%20foram%20previstos,ao%20livre%20desenvolvimento%20da%20personalidade). https://www.dicionarioetimologico.com.br/cultura/ https://periodicos.fclar.unesp.br/cadernos/article/view/7316 https://diplomatique.org.br/cultura-tambem-e-direito-humano-fundamental/ https://www.youtube.com/watch?v=Qeb2L3oZpzc https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000150224 Zuin, Lidia: Teorias da cultura / Lidia Zuin. – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2018. (Série Universitária) https://www.youtube.com/watch?time_continue=386&v=C5-33YIVYC4&embeds_referring_euri=https%3A%2F%2Fwww.tenhomaisdiscosqueamigos.com%2F&source_ve_path=MTM5MTE3LDIzODUx&feature=emb_title https://observatoriodadiversidade.org.br/leitura/declaracao-universal-sobre-a-diversidade-cultural/ [https://portal.stf.jus.br/constituicao-supremo/artigo.asp?abrirBase=CF&abrirArtigo=215#:~:text=Da Cultura-,Art.,a difusão das manifestações culturais](https://portal.stf.jus.br/constituicao-supremo/artigo.asp?abrirBase=CF&abrirArtigo=215#:~:text=Da%20Cultura-,Art.,a%20difus%C3%A3o%20das%20manifesta%C3%A7%C3%B5es%20culturais).

  • Dos dramas ao k-pop: A Coreia do Sul como você nunca viu (e que nunca vão te mostrar)

    Você sabia que 2024 marca os 116 anos de imigração japonesa no Brasil? Desde os primeiros dias da chegada nipônica ao Brasil, em 1908, os japoneses e seus descendentes têm compartilhado sua herança cultural, além de deixar sua marca em diversos setores da economia no país, como agronegócio, indústria, ciência e arte. Porém, nos últimos anos, principalmente após 2010, a cultura japonesa tem dividido cada vez mais o seu espaço como cultura asiática predominante no coração dos brasileiros. Outros grupos étnicos da Ásia têm também exportado tradições e costumes para o outro lado do mundo e, a depender do Brasil, rapidamente “caiu em seu gosto” a cultura sul-coreana. A chamada "Onda Coreana" (ou Hallyu, em coreano) já transcende fronteiras geográficas e linguísticas, deixando sua marca permanente não somente no Brasil como no mundo. Esse fenômeno cultural, liderado principalmente pela indústria do entretenimento da Coreia do Sul, está redefinindo o cenário global de música, gastronomia, moda, cinema, televisão e bens de consumo. Para quem conhece a Coreia do Sul pelos românticos dramas coreanos, o tão conhecido K-pop e as famosas marcas de carro e suas tecnologias, a cultura sul-coreana tem se mostrado cada vez mais imponente e independente do que se rotula como “padrão asiático”. Mas, em contrapartida, muitos desconhecem a longa e complexa história da Península Coreana, que é marcada por luta, resistência e busca por identidade nacional em períodos de unificação e divisão, conflitos internos e externos, influências culturais e mudanças políticas significativas, que permeiam a região até hoje. Um pouco de história Considerada uma península por ser uma porção de terra quase que completamente cercada por água, geograficamente a Coreia é um território onde seu norte faz fronteira com a China e a Rússia e o sul com o Mar do Japão. Sendo uma das civilizações mais antigas do mundo, a Coreia tem uma história rica em desenvolvimento sociocultural, político e econômico. Tanto que os séculos XIV ao XIX, sob a dinastia Joseon, foram os mais significativos para a construção de um Estado Coreano forte, uma vez que foi esse o período responsável pelos grandes feitos para a sociedade coreana. Desenvolveu-se, portanto, a região em diversos aspectos, desde a adoção de um novo sistema de governo, a criação do hangul (alfabeto coreano), fortalecimento de poderio militar e expansão de território, até o desenvolvimento tecnológico, da ciência e da literatura. No entanto, no final do século XIX, a Coreia se tornou um objeto de interesse imperialista, com China e o Japão buscando influência sobre a península, principalmente por estarem mais próximos da região da Manchúria (atual Nordeste da China). Após a primeira guerra sino-japonesa (1894-1895) e a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), o Japão emergiu como a potência dominante na Coreia, e em 1910, anexou a Coreia ao seu território, o que na opinião de vários historiadores foi uma das piores catástrofes provocadas pelo homem na história, superando até mesmo o nazifascismo alemão. Os coreanos tiveram de mudar a língua oficial e próprios nomes para japonês, mulheres se tornaram escravas sexuais do exército japonês, além de todas as tentativas de revolta contra seu domínio serem reprimidas pelas tropas japonesas. Foi somente em 1945, na Segunda Guerra Mundial, com a derrota do Japão pelos Estados Unidos, que se encerrou o período de domínio brutal japonês, além do fim definitivo da guerra. Quando três anos se passaram, houve algumas tentativas pela reunificação das Coreias, mas uma vez que o território ao sul da península ficou sob domínio dos Estados Unidos, esse queria investir parte de seu mercado no pacífico, injetando assim a ideologia capitalista. Enquanto isso, o lado norte, por fortíssima influência da Revolução Russa em 1917 e a Chinesa que estava em curso, aderiram ao marxismo-leninista para a criação do socialismo coreano (Juche). Sem sucesso na retomada de uma Coreia unificada, em 1948 foi fundada a República da Coreia (Coreia do Sul), sendo sua capital a cidade de Seul; e a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte ou Coreia Popular), com a capital sediada em Pyongyang. No Brasil, a imigração coreana teve início na década de 60 e tem crescido a cada ano. Atualmente há 50 mil pessoas coreanas nativas morando no país, estabelecidas principalmente na cidade de São Paulo, sendo esse grupo étnico um dos mais recentes a aterrisar em solo  brasileiro. E falando na Coreia do Sul, o que ela é hoje em dia? Um dos países do centro do capitalismo, a Coreia do Sul hoje tem uma população de mais de 51 milhões de pessoas (2022) e é uma das 20 maiores economias do mundo, ocupando o 13º lugar (US$1.71 trilhão), de acordo com projeções em 2023 do Fundo Monetário Internacional (FMI), ficando atrás de países como Brasil (US$ 2,13 trilhões) e Canadá (US$ 2,12 trilhões), e a frente da Austrália (US$1.69 trilhão) e Espanha (US$1.58 trilhão), por exemplo. O pequenino país, com cerca de 100.210 km² - que proporcionalmente cabe 5 vezes dentro do estado de Minas Gerais - é impulsionado por indústrias do setor de tecnologia da informação, automobilística, eletrônicos, entre outras, o país é terra natal de grandes conglomerados empresariais globais, como Samsung, LG e Hyundai, que contribuem para elevar a economia e o PIB nacional. Ao combinar tradição, modernidade e a forte influência norte-americana, a Coreia do Sul tem ganhado cada vez mais visibilidade internacional, principalmente através da indústria do entretenimento, que tem servido de inspiração não somente para os países asiáticos vizinhos como tem se popularizado no ocidente. O termo Hallyu inicialmente se referia ao boom da música pop sul-coreana (K-pop), dramas televisivos e filmes sul-coreanos, o que com o passar dos anos de ascensão sul-coreana, denominou-se como a exportação massiva de seus produtos culturais. A começar pelo K-pop (ou pop coreano), o gênero musical originário da Coreia do Sul, que nasceu no final dos anos 90, se tornou extremamente popular tanto dentro quanto fora do país. É caracterizado por uma mistura de diversos estilos musicais, como pop, hip-hop, R&B, música eletrônica e dance, muitas vezes acompanhado por coreografias elaboradas e produção visualmente impressionante. Porém, o K-pop não é apenas sobre música: sua indústria é altamente organizada e estruturada, com uma série de etapas e processos que envolvem o treinamento de artistas, produção musical, promoção e gestão de carreira. Grandes agências de entretenimento como a Big Hit Music, SM Entertainment, JYP Entertainment e YG Entertainment realizam audições regulares em busca de talentos aspirantes a cantores, dançarinos e artistas. Após o longo treinamento, os chamados ‘trainees’ podem ser selecionados para fazer parte de um grupo ou podem estrear como artistas solo. As agências consideram fatores como habilidades individuais, harmonia de grupo e compatibilidade para formar grupos simpáticos e carismáticos com o público. O BTS (Bangtan Boys) é um dos grupos de k-pop destaques da nova década, que além de serem titãs na cena da música pop coreana, alcançaram sucesso nacional e internacional, realizando turnês mundiais, ganhando diversos prêmios importantes - incluindo nomeações ao Grammy, além de posições de destaque nas paradas musicais globais. O grupo, que começou em junho de 2013, segundo os dados levantados pelo site Fortune, dentro de 10 anos de carreira (2014-2023) gerou mais de U$29 bilhões de dólares para a economia sul-coreana, sendo que em 2017, estima-se que a cada 13 turistas, um visitava o país por conta dos sete integrantes. Já em 2023, foi anunciado pela empresa gestora de suas carreiras, a Big Hit Music, que pertence a Hybe Corporation, que o grupo daria uma pausa de dois anos na carreira. O motivo? A obrigatoriedade militar na Coreia do Sul. Não somente os fãs do grupo - não ironicamente chamados de “Armys” - perdem seus ídolos como também o país, uma vez que o serviço militar sul-coreano é obrigatório para todos os homens coreanos saudáveis e aptos entre 18 e 28 anos. Estipulado pela Lei de Serviço Militar, todos os homens devem cumprir por pelo menos 18 meses, embora possa variar dependendo do ramo das Forças Armadas e outros fatores. Após o anúncio da ida dos membros RM, Jin, Suga, J-hope, Jimin, V e Jung Kook para o exército sul-coreano, as ações da Hybe Corporation imediatamente reduziram em 2,5%. O mês previsto para o retorno do BTS completamente está para junho de 2025. Agora focando nos chamados “doramas”, ou também conhecidos como dramas televisivos asiáticos, se refere às séries de televisão produzidas em países da Ásia Oriental, principalmente no Japão, Coreia do Sul, China e Taiwan. Essas séries geralmente consistem em múltiplos episódios e abrangem uma variedade de gêneros, como romance, comédia, drama, ação, fantasia, histórico e suspense. Pode-se dizer que os “doramas” são como as novelas brasileiras, mas com um toque a mais: demonstram uma realidade que muitas pessoas sentem vontade de vivenciar de perto. Não é à toa que sua  produção de alta qualidade criou uma base de fãs leal em toda a Ásia e, ainda, têm ganhado popularidade em todo o mundo, especialmente com a ascensão das plataformas de streaming. Netflix, Viki, HBO Max, Prime Video e outras disponibilizam uma ampla variedade de dramas asiáticos para espectadores internacionais, contribuindo para a globalização desse gênero de entretenimento. Os “doramas” também têm cruzado fronteiras com outros gêneros de entretenimento, como trazer ídolos de K-pop para contracenarem, ou traduzir os Manhwas (mangás coreanos) para personagens reais. Muitos atores e cantores que se destacaram em “doramas” também têm carreiras bem-sucedidas na música e no cinema. Voltando para o Brasil, o gênero tem conquistado cada vez mais os brasileiros. Tanto que, de acordo com a pesquisa do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, realizada em 18 países pela Fundação Coreana para Intercâmbio Cultural Internacional, entre setembro e novembro de 2020, os brasileiros pertencem à 3º nação que mais consome o gênero cinematográfico, principalmente sul-coreano. O termo “dorama”, inclusive, foi incluído na língua portuguesa pela Academia Brasileira de Letras (ABL) como "obra audiovisual de ficção em formato de série, produzida no leste e sudeste da Ásia, de gêneros e temas diversos, em geral com elenco local e no idioma do país de origem". Todavia, já foi apontado como preconceituoso pela Associação Brasileira dos Coreanos, em outubro de 2023, por seu sinônimo generalista e orientalista, que associa uma palavra de origem japonesa a produções coreanas. “A vida imita a arte" - Não seria ao contrário? Já entendemos que o ‘soft power’ coreano tem se mostrado uma poderosa ferramenta para o país, uma vez que, nas últimas décadas, tem proporcionado uma crescente exponencial no turismo e investimentos estrangeiros na Coreia do Sul. No entanto, isso não inviabiliza as inúmeras contradições do país do leste asiático. Seu crescimento devastador em tão pouco tempo nem sempre foi acompanhado por uma distribuição equitativa de riqueza e oportunidades, por exemplo, o que resulta em desigualdades sociais significativas dentro da sociedade sul-coreana. Jornadas exaustivas de trabalho totalmente precarizado, padrões de beleza inalcançáveis, especulação imobiliária, desigualdade social cada vez mais visível, tudo o que também impacta diretamente a saúde física e mental dessas pessoas. O próprio grupo BTS é conhecido por abordar uma variedade de temas em suas composições, como questões sociais, saúde mental, auto aceitação e desigualdade social e de renda, alcançando e influenciando a ampla audiência global que tem. A faixa estreia “No More Dream", por exemplo, aborda a pressão social sobre os jovens coreanos para seguir um caminho convencional de sucesso, em vez de seguir seus próprios sonhos e paixões; “Baepsae", conhecida como "Silver Spoon" em inglês, critica a hierarquia social e as desigualdades de classe na Coreia do Sul, destacando as dificuldades enfrentadas pela juventude que lutam para alcançar sucesso em uma sociedade estratificada; "Spine Breaker", que fala sobre o consumismo exagerado e a pressão para comprar produtos de marca e seguir tendências de moda, mesmo que isso signifique sacrificar sua própria saúde financeira. Outros bons exemplos também surgem na cinematografia: Em 2019, tivemos a estreia de "Parasita", filme sul-coreano dirigido por Bong Joon-ho, que conta a história da família Kim, que vive em condições de pobreza em Seul. Eles elaboram um plano para se infiltrar na vida de uma família rica, conseguindo empregos como tutores e funcionários. Vários segredos são revelados durante a trama e a situação toma um rumo sombrio, explorando questões de desigualdade social e disparidade de classe de maneira provocativa. O filme recebeu aclamação da crítica e ganhou vários prêmios internacionais, incluindo quatro Oscars. Em coreano, a casa onde a família Kim mora se chama "banjiha", que na tradução livre significa "casa-porão”. Apesar da ironia, Parasita é uma excelente releitura da realidade sul-coreana, uma vez que as condições de vida precária representam vividamente a disparidade de classe e desigualdade social explorada ao longo do filme. Até 1980, alugar casas subterrâneas como banjihas eram ilegais, uma vez que esses espaços eram feitos para serem um local de escape para casos emergenciais, como atentados e guerras. Mas, o que poderia parar um país tão pequeno e superlotado? Com a crise e especulação imobiliária cada vez mais alarmante na capital, o governo foi obrigado a legalizar a residência nessas condições. E a Coreia do Sul não somente cresce para baixo, como também para cima. Os minúsculos apartamentos, mais conhecidos como "goshiwon", são uma modelo de acomodação de baixo custo, encontrado, principalmente nas áreas urbanas como Seul, geralmente uma opção para estudantes, trabalhadores temporários e pessoas que buscam moradia acessível. Pequenos quartos individuais ou compartilhados, muitas vezes semelhantes a dormitórios, com comodidades básicas como cama, mesa, cadeira e acesso a um banheiro compartilhado. Outra problemática enfrentada na Coreia do Sul foi a referência vivida nas telas por Gi-hun (Lee Jung-jae) em Round 6 (Squid Game), série sul-coreana de suspense e drama, criada por Hwang Dong-hyuk e lançada em 2021, na Netflix. A série se tornou um fenômeno global, recebendo aclamação da crítica e ganhando uma enorme base de fãs em todo o mundo com uma trama gira em torno de um grupo de pessoas endividadas que são atraídas para participar de uma série de jogos infantis tradicionais, com a promessa de ganhar um prêmio em dinheiro. No entanto, logo os 456 jogadores descobrem que os jogos, na verdade, são extremamente mortais e cada participante tem que lutar pela própria sobrevivência em meio a desafios cada vez mais brutais. Segundo frase citada na série Round 6 “Aqui pelo menos tenho uma chance. Mas e lá fora? Não tenho nada. Prefiro ficar e morrer tentando, a morrer lá fora como um cachorro. A vida lá fora já é um inferno!" Ao decorrer de 10 episódios, temas como desigualdade social, ganância, corrupção e moralidade são abordados, explorando o que as pessoas são capazes de fazer quando confrontadas com circunstâncias extremas. Com várias reviravoltas, personagens complexos e cenas intensas, "Round 6" cativou o público com sua narrativa crítica e que, por sua vez, coloca a prova o que as pessoas podem fazer por dinheiro. E não precisam ir muito longe, uma vez que para 2024, o salário mínimo sul-coreano chegou a ₩ 9.620,00 won sul-coreano por hora (≈R$ 36/h), logo, em uma jornada de trabalho diária de 9 horas por dia, ao fim do mês um trabalhador ganha cerca de ₩2.010.580,00 ao mês (≈R$ 7.520/dia). O limite atual de horas semanais para se trabalhar é de 52 horas, mas o atual governo liberal conservador de Yoon Suk-yeol - atual presidente desde março de 2022, que teve seu histórico político comparado com o de Sérgio Moro - queria aumentar para 69 horas por semana, o que foi amplamente protestado pela juventude e classe trabalhadora sul-coreana. Em suma, tanto o fenômeno do K-pop quanto a popularidade dos dramas coreanos representam a influência e poderio que a cultura sul-coreana vem ganhando a cada ano — não podendo esquecer da ajuda como moeda de troca pelos Estados Unidos, que segue com interesses geopolíticos na região —, algo que transcende fronteiras e cativa audiência em todo o mundo. Mas, apesar de sua tese de inovação, qualidade e autenticidade, a Coreia do Sul não é um espelho de país, afinal às contradições do sistema capitalista, ao longo da história, tem permeado a repressão à classe trabalhadora por lucro. Sem contar que carrega consigo as chagas do imperialismo que impossibilita o olhar humano e a dignidade ao povo coreano. A construção de uma juventude atenta às questões sociais, políticas e econômicas, mesmo que através do k-pop, dramas televisivos e, principalmente, pelo potencial, servem de inspiração para as próximas gerações, que estão compromissadas a construir uma nova identidade para a cultura sul-coreana e, assim, deixar um novo e duradouro legado no cenário internacional. Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-06/hallyu-onda-coreana-que-e-um-fenomeno-de-exportacao-da-cultura-pop#:~:text=E%20a%20isso%20se%20chama,ind%C3%BAstria%20cultural%20de%20cultura%20pop. https://exame.com/marketing/desvendando-os-pilares-do-crescimento-economico-sul-coreano/ https://www.opovo.com.br/vidaearte/2021/08/10/brasil-e-o-3-pais-do-mundo-que-mais-consumiu-doramas-na-pandemia.html https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/03/15/dorama-confira-os-10-dramas-coreanos-mais-famosos-do-mundo.html https://www.otempo.com.br/entretenimento/brasil-ja-e-o-quinto-maior-mercado-no-consumo-mundial-de-doramas-1.2754446 https://revistakoreain.com.br/web-stories/quantos-shows-o-bts-ja-fez-no-brasil/ https://www.youtube.com/watch?v=KMJNB2YNiac https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2023/12/6669092-bts-todos-os-membros-do-grupo-cumprem-servico-militar-obrigatorio.html#:~:text=Conforme%20anunciado%20pela%20imprensa%20da,alistou%2Dse%20no%20ano%20passado. https://oglobo.globo.com/cultura/musica/noticia/2022/10/bts-no-exercito-entenda-como-funciona-o-servico-militar-na-coreia-do-sul.ghtml https://recreio.uol.com.br/noticias/escola/quanto-tempo-dura-o-alistamento-militar-na-coreia-do-sul.phtml https://www.youtube.com/watch?v=0YWRPWDqzVg&t=435s https://www.youtube.com/watch?v=D4c5ZRJII68 https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51377330 https://www.nomadglobal.com/conteudos/salario-minimo-coreia-do-sul#:~:text=Considerando%20uma%20jornada%20de%20trabalho,%E2%82%A92.010.580%2C00. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/coreia-do-sul-repensa-plano-de-semana-de-trabalho-de-69-horas-por-pressao-jovem/ https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62907288 https://www.youtube.com/watch?v=ogqTCJ6Kcgg&t=353s https://www.terra.com.br/diversao/associacao-coreana-protesta-contra-inclusao-de-dorama-nos-dicionarios-brasileiros,de8dd8a75ffabb6d89a5ac069ad3e214nikfwa60.html?utm_source=clipboard https://jornal.usp.br/radio-usp/soft-power-e-estrategia-para-paises-conquistarem-poder-e-prestigio-sem-o-uso-da-forca/ https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw4k3qgedq4o#:~:text=%C3%89%20isso%20que%20os%20membros,entre%2018%20e%2028%20anos. https://exame.com/pop/sem-bts-coreia-do-sul-deve-perder-bilhoes-nos-proximos-dois-anos-veja-os-numeros/ https://veja.abril.com.br/coluna/tela-plana/round-6-o-desafio-novo-reality-da-netflix-evidencia-o-pior-das-pessoas

  • O massacre palestino e a histeria da imprensa brasileira

    Não se falou em outra coisa na imprensa brasileira desde o último dia 18 de fevereiro, data que durante visita á Etiópia o presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, fez criticas contundentes contra as ofensivas genocidas de Israel na Palestina. O presidente discursava e lamentava o corte do envio de recursos de países ricos para ajuda humanitária em Gaza, quando nesse trecho de sua fala ele citou  “O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu: quando Hitler resolveu matar os judeus." A fala causou alvoroço, e a imprensa brasileira não fala em outra coisa. O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, condenou a fala do presidente e convocou o embaixador brasileiro para explicações. O presidente Lula por sua vez não baixou o tom e convocou o embaixador de Israel para dar explicações, além disso chamou o embaixador brasileiro em Israel de volta ao Brasil. Não é a primeira vez que o presidente brasileiro critica a ofensiva genocida israelense, que segundo dados do Ministério da Saúde do Hamas, já matou mais de 30 mil pessoas dentre elas mais de 10 mil crianças. Cidades inteiras foram dizimadas e houve diversas cobranças por parte do Brasil por um cessar fogo. É lamentável ver que a cobrança do presidente brasileiro para um cessar fogo cause mais indignação em alguns setores da imprensa brasileira do que a morte de mais de 30 mil pessoas. A miséria tem assolado aquele território, já que para que o genocídio israelense seja eficaz, as pessoas também são expulsas de seus lares como consequência dos ataques e submetidas a fome e a miséria, haja visto que a ajuda humanitária não consegue chegar e as que chegam não são suficientes. O político Israelense se aproveitou do momento para tentar se passar por mocinho e transformar o líder brasileiro em vilão, já que Israel está cada vez mais isolado no cenário internacional devido a forma como tem atacado cruelmente os moradores da Faixa de Gaza, com a justificativa de eliminar os terroristas do Hamas. Milhares de crianças ficaram órfãs, perderam suas famílias e seus lares e estão morrendo de fome pois a ajuda não chega. Além de jogar baixo com fake news sobre o presidente do Brasil, o primeiro ministro de Israel também conclamou líderes mundiais a condenar as falas do presidente, mas pelo visto não teve êxito, já que não houve nenhum movimento internacional nesse sentido, acenando que o País segue isolado. A África do Sul já havia ingressado com uma denuncia á Corte Internacional de Justiça de Haia acusando Israel de genocídio na Palestina, lembrando que a denúncia conta com apoio do governo brasileiro, que é um país defensor e mediador da paz. O que se enxerga da fala do presidente Lula é que a intenção era abrir caminho para que outras lideranças mundiais também condenem o genocídio causado na Palestina, para que ocorra um cessar fogo e seja criado e reconhecido o Estado da Palestina. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes https://exame.com/mundo/lar-judeu-ocupacoes-e-guerras-entenda-o-historico-do-conflito-entre-israelenses-e-palestinos/ https://www.poder360.com.br/governo/qatar-tem-papel-central-para-fim-da-guerra-diz-lula/ https://revistaforum.com.br/global/2024/2/22/no-so-lula-50-pesquisadores-do-holocausto-criticam-israel-por-incitamento-ao-exterminio-154437.html

  • Seres humanos, prateleiras digitais e a positividade tóxica

    Na complexidade das redes sociais, perfis digitais se tornam vitrines de uma vida idealizada. A cultura da positividade e do sucesso material se entrelaçam, gerando uma pressão constante sobre os usuários. Entre poses ensaiadas e parcerias pagas, surge um panorama inquietante sobre a saúde mental na era digital, onde a busca pela felicidade é muitas vezes ditada por algoritmos e padrões superficiais. Talvez seja uma das atividades mais recorrentes da humanidade nestes anos 20 do século XXI: rolar o feed do Instagram ou TikTok, casualmente, em busca de entretenimento, para matar o tempo ou para bisbilhotar a vida alheia. Acredito que já seja ultrapassado falar sobre a dissociação entre mundo real e mundo digital: os perfis sociais nas mídias digitais são uma parte de nós jogada nas redes ou, ao menos, a parte que queremos que os outros conheçam. Representam, com ressalvas, a parcela do real no digital a ser “vendida” aos usuários. Assim como qualquer domínio físico e de acesso público, o ambiente digital é igualmente concebido, instaurado e perpetuado por agentes humanos. Importa salientar a distinção entre "mundo digital" e "mundo virtual", pois o termo "virtual", conforme definido pelo dicionário Michaelis, significa “sem efeito real”. No entanto, é patente para nós, os usuários, que as interações na rede têm, de fato, repercussões tangíveis. O que é de fato curioso notar é, justamente, o fato de tais redes serem cada vez menos “sociais” e cada vez mais “comerciais”. Entre publis (publicidades pagas), parcerias pagas e influencers, as timelines são inundadas de corpos em poses ou danças em busca de seguidores, likes, mas, principalmente, de consumidores, ávidos em devorar o conteúdo ali exposto. Seres humanos em prateleiras Em seu livro “Vidas para consumo”, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman dissecou as relações humanas estabelecidas na sociedade contemporânea. Num grande mercado de gente, todos nós somos mercadorias a serem analisadas, compradas e consumidas pelos milhares de usuários via conectividade. Bauman fornece diversos exemplos para explicar o cenário, que ainda é o do início do Século XXI. Menciono dois: primeiro, os programas de imigração de países europeus, que ranqueavam os proponentes estrangeiros que queriam entrar no território, tendo como base as habilidades que estes poderiam oferecer; o segundo, um compartilhamento de informações, por meios digitais, de consumidores, com o intuito de organizá-los em 3 níveis de importância, a quem seriam dedicados tratamentos e mercadorias diferentes. Em ambos os casos, seres humanos são tratados como produtos. Mesmo quando são clientes, humanos são ranqueados e, numa hierarquia de consumo, “usados” pelo sistema. E o que determina que uma mercadoria é mais consumível do que outra? O parâmetro é bem subjetivo, mas tornar-se atrativo para alguém (e são vários alguéns) requer alguns atributos vistos como “bons” pela moralidade da sociedade. Um corpo bonito nos parâmetros culturais vigentes; uma vida boa e desejável pelos usuários; felicidade e sucesso material. Arrisco dizer que justamente esses dois últimos itens (felicidade e sucesso material) podem resumir todos os itens anteriores e quaisquer outros que possam ser citados a mais. A tristeza não é vendável, a menos que esta sirva como motivo para a alegria alheia em destilar seu ódio e cancelar alguém; por outro lado, a felicidade e sua derivada positividade são desejadas ansiosamente. Essa positividade, inclusive, tornou-se a base para o sucesso material num contexto em que há quem acredite que o Universo devolve a você aquilo que você manda pra ele. Logo, a positividade seria a mola mestra para o enriquecimento e o sucesso numa sociedade repleta de pessoas tristes e medíocres. Se você já teve contato com livros contemporâneos sobre administração ou desenvolvimento profissional, assistiu a vídeos motivacionais ou recebeu conselhos de um "coach", é provável que tenha notado o quão exaustiva pode ser a cultura da "positividade", da "meritocracia" e do "faça você mesmo". Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano e autor do livro “A sociedade do cansaço”, afirma que uma das principais causas para a piora generalizada na saúde mental das pessoas é o excesso de positividade. Numa ditadura da felicidade, os reclusos e quietos são colocados como preguiçosos, enquanto os inquietos e positivos são produtivos e, por essa lógica, bem sucedidos. As mídias sociais, então, são o palco para essa positividade tóxica: precisamos mostrar como somos produtivos, felizes, bem sucedidos e positivos, viciados em dopamina (tanto quem posta, quanto quem consome). Uma dopamina que se intensifica a cada endosso fornecido em forma de corações. A tecnologia é aquilo que fazemos dela É impossível não conectar isso a um episódio já meio antigo da série Black Mirror, da década passada, que preconizava uma sociedade baseada na quantidade de estrelas que o indivíduo recebe. Em “Nosedive”, acompanhamos a personagem Lacie em sua busca por crescimento social. Para tal, ela precisa receber a maior quantidade de boas avaliações (5 estrelas) numa espécie de rede social que, para além de um espaço de interações sociais, garantia ou impedia o acesso de pessoas em determinados espaços tendo como base seu ranking positivo ou negativo. Os desdobramentos, ao longo do episódio, misturam real e fantástico, trágico e cômico. A cena de encerramento deste episódio (que não detalharei, porque acredito que você deva assistir) explode na cara do espectador toda a verdade que uma pessoa esconde das redes, por não ser vendável. Contudo, é preciso deixar claro que as mídias sociais são aquilo que a humanidade faz delas. Pierre Lévy figura entre os destacados pesquisadores da interconectividade e suas implicações na estrutura sociocultural. Sua obra seminal, "Cibercultura", representa um ponto de partida imprescindível para aqueles que almejam abarcar as complexas dinâmicas sociais no contexto digital. Um dos aspectos mais notáveis deste trabalho reside na análise do impacto das tecnologias sobre a sociedade. Lévy habilmente aborda essa temática sob a forma de uma indagação: de fato, haveria um impacto? Inicialmente, é crucial compreender que nenhuma tecnologia surge de forma isolada; ela é concebida dentro do contexto temporal, histórico, cultural e social. Desta maneira, é resultado de uma demanda intrínseca às vicissitudes do cotidiano humano. À semelhança de um presente providencial, a invenção da roda não foi um legado de seres extraterrestres, solidários aos esforços dos humanos que enfrentavam dificuldades no transporte de objetos. Ao contrário, emergiu da necessidade premente de melhor locomoção, impelindo a humanidade a conceber uma solução, um mecanismo capaz de suprir tal deficiência. Uma vez introduzida, a roda desencadeou uma verdadeira revolução. A combinação de maior velocidade e menor esforço físico conferiu uma nova dinâmica à sociedade, propiciando sua transformação e revolução. Paralelamente a essa revolução, novas demandas emergiram, incitando novamente a humanidade a desenvolver tecnologias que, por sua vez, provocariam transformações sociais de magnitude. Essa narrativa não pressupõe uma visão cíclica da história, mas ilustra a relação dialética entre sociedade e tecnologia: a sociedade engendra tecnologia, esta, por sua vez, transforma a humanidade e suscita novos desafios. A lógica do capital nas redes Na sociedade do cansaço de Han, só os positivos, proativos e produtivos é que são desejados pelo sistema meritocrático do alto desempenho. Mas atinge um novo nível, baseado na exploração que o próprio indivíduo faz de si. Segundo Byung-Chul Han, após atingir um determinado patamar de produção, a autoexploração se torna economicamente mais eficiente do que a exploração externa, uma vez que está intrinsecamente associada a uma ilusória sensação de liberdade. Nos perfis em redes sociais, usuários mimetizam uma persona e um estilo de vida que, definidos os nichos, segmentos e estratos sociais, tornam-se produtos a serem consumidos, baseados em um excesso de positividade que torna-se toxicidade, essencialmente por evidenciar a distância entre o eu-real e o eu-ideal nos usuários. Em meio às prateleiras digitais onde os seres humanos se tornam produtos, é essencial refletir sobre a natureza e os efeitos dessa cultura da positividade tóxica. Como observadores atentos desse panorama digital, somos confrontados com a realidade de que nossa busca incessante pela felicidade muitas vezes é moldada por algoritmos e padrões superficiais. Como transformar essas plataformas digitais de vitrines idealizadas de positividade tóxica em espaços de conexão humana verdadeira? A resposta é vaga, a conclusão é complexa. Sigamos refletindo. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes

  • Apátrida - Uma história da segunda guerra mundial

    Apátrida é um livro forte, comovente e emocionante. Eu já li muitos livros que falam sobre a II Guerra Mundial. E nunca deixo de ficar chocada com o que aconteceu. Entretanto, lendo Apátrida, fiquei emocionada pela história de Irena, essa polonesa tão cheia de vida. É claro que é uma ficção toda a história de Irena e seus parentes, entretanto, é uma história que realmente poderia ter acontecido. Afinal, a autora pesquisou muito bem sobre os fatos da II Guerra e creio que podem ter existido pessoas como Irena, Jacob, Rurik e Jan. Apátrida é um livro denso, onde você, querendo ou não, acaba mergulhando no âmago das personagens e sofrendo com elas. É um livro que faz chorar, não há dúvidas, pois a crueldade humana não teve limites, e pensar que tudo aquilo realmente aconteceu, me faz estremecer. Porém, a mensagem que a autora passa através da sua personagem Irena e de outros, é de nunca desistir. Embora não enxergando um futuro promissor, Irena nunca desanimou. E os valores éticos e morais que carregava consigo são um alento para nós nos dias de hoje. Se formos refletir sobre todos os valores passados pelas personagens do livro e aplicarmos um pouquinho no nosso dia-a-dia, nossa vida será bem diferente. Quem lê Apátrida deve se preparar para ler e refletir. Não é um livro para passatempo. É um livro para ler e pensar. Absorver os fatos históricos e trabalhar para que fatos como aqueles nunca mais aconteçam. E absorver todo o sentimento de amor que o livro passa. Pois o que impulsiona Irena é o amor que ela sente por sua família e a esperança de alcançar dias melhores. Para mim, Apátrida é o melhor livro escrito por uma autora nacional nos últimos tempos. Espero que as editoras se atentem a este fato. Nossos autores nacionais estão aí para serem publicados. E muitos tem qualidades excepcionais, muitas vezes ultrapassando autores internacionais. Apátrida é um exemplo disso. Livro recomendadíssimo!! Autora: Ana Paula Bergamasco Sinopse: "Uma pequena vila na Polônia. Uma menina repleta de vida. Um encontro. Vidas Ceifadas. Sonhos Destruídos. Infâncias Roubadas. As recordações da personagem Irena amarram o leitor na História do Século XX. Baseado no estudo dos fatos que marcaram a época, o palco da narrativa é a conturbada Europa pós Primeira Guerra Mundial, culminando com a eclosão da Segunda Grande Guerra e a destruição que ela provocou na vida de milhões de pessoas. A narradora conduz a exposição em primeira pessoa, e remete o leitor a enxergar, através de seus olhos, o cotidiano a que ficou submetida. É um relato humano, sincero e envolvente que revela a passagem da vida infantil feliz da menina, para o tumulto da existência adulta, cheia de contradições." Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão por Eliézer Fernandes Edição por Felipe Bonsanto

  • Pareceres Técnicos: a tragédia anunciada

    Este artigo integra o Dossiê: Maceió destruída (Parte III) A conclusão do parecer técnico 01, de 29 de novembro de 2019, elaborado pelo Grupo de Trabalho (GT) da Agência Nacional de Mineração para o caso Braskem, ressalta a importância de compreender os cenários associados ao colapso de todas as cavidades. Até maio de 2023, as minas 18, 09, 12, 22, 23 e 33 estavam sem atualização dos exames de monitoramento com sonar desde 2019/2020. Isso inclui considerações técnicas e econômicas para orientar decisões futuras, dada a possibilidade de falha na estabilização das cavidades e a complexidade e tempo necessários para tarefas como o preenchimento de cavidades instáveis. Nesse contexto, o GT recomendou que a Braskem apresente um estudo que modele e simule o cenário de colapso generalizado e progressivo de todas as cavidades instáveis. Este estudo deve considerar a interação dessas cavidades com as demais e seus efeitos em toda a superfície delimitada como zona de risco, conforme definido pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e Defesa Civil. Por meio de busca e apreensão de documentos, a Polícia Federal (PF) investiga diretores, técnicos e gerentes da empresa Braskem para determinar se alguém tinha conhecimento dos riscos existentes, se houve omissão de documentos e/ou contratação de pareceres dirigidos, e quem seria responsável por informações e decisões tomadas internamente. Conforme descrito no site Observatório da Mineração, a PF suspeita de declarações falsas e omissão de informações aos órgãos de fiscalização. Caso isso se confirme, os crimes previstos são: “Poluição qualificada, usurpação de recursos da União, apresentação de estudos ambientais falsos ou enganosos, inclusive por omissão, entre outros delitos”. A ANM emitiu vários outros pareceres, demonstrando o progresso nos estudos e ajustes nas medidas para adotar a melhor solução técnica para cada cavidade. Assim, o assunto do Parecer Técnico Nº 1/2019 foi superado. A retirada de sal-gema em Maceió foi concluída em maio de 2019, e a Braskem está implementando ações para a finalização completa dos poços de sal. O Projeto de Encerramento de Mina indica 70% de avanço, e o término das atividades é previsto para meados de 2025. Os prazos são estabelecidos no contexto do projeto, que é constantemente revisado pela ANM. Impacto além das construções O impacto do afundamento foi além do deslocamento estimado de 200 mil pessoas que viviam nos cinco bairros afetados em Maceió (Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol). Ele também afetou a renda dos profissionais, muitas vezes autônomos como pescadores, que dependem da região para seu sustento. Segundo o site Agência Brasil, um vendedor de Acarajé que trabalha há mais de 30 anos na região relata que o movimento diminuiu significativamente. Antes, ele vendia até 200 unidades por dia, mas atualmente, em um bom dia de venda, consegue vender apenas 50 unidades. Isso ocorreu porque o hospital do bairro vizinho do Pinheiro teve que ser evacuado devido ao risco de colapso de uma das minas da Braskem no bairro Mutange. O vendedor também menciona que a prefeitura já avisou que a área agora pertence à Braskem. Ele expressa sua revolta e medo, comparando a situação a uma cena de guerra. Givanildo Costa, outro morador da região, relatou que seu irmão entrou em depressão porque tinha uma oficina no Bebedouro. Ele tinha uma renda de cerca de seis mil reais por mês, mas depois da mudança, passou a ganhar menos de um salário mínimo por mês, tudo por causa da Braskem. Seu irmão agora sofre de depressão, diabetes, derrame e cegueira, e só consegue ver vultos. Com esses bairros agora isolados e praticamente abandonados, a região pode se tornar vulnerável a atividades ilícitas, como pontos de drogas, impactando na segurança das pessoas que ainda circulam por ali para retirar algum objeto do lugar que um dia foi sua casa. Texto escrito por Fabiana Mercado Pós graduada em Comunicação e Marketing Digital, formada em Publicidade e Propaganda, acumula mais de 9 anos na área, colunista do Zero Águia, curiosa, preza o respeito a todas as pessoas independente de características. Nas horas vagas pratica corridas com o apoio da equipe Superatis. Adora conhecer novas pessoas e lugares, ama viajar e possui um projeto denominado Desbravando Capitais com o marido para morar e vivenciar durante um mês em todas as capitais brasileiras nos próximos anos. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Referências https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/12/01/o-que-e-sal-gema-material-extraido-pela-braskem-em-mina-que-deve-colapsar-em-maceio.ghtml https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/o-que-e-o-sal-gema-e-por-que-sua-extracao-gerou-problemas-em-maceio#:~:text=Diferente%20do%20sal%20que%20geralmente,de%20uma%20variedade%20de%20minerais. https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral “Extração de sal-gema por 40 anos: o que são as minas da Braskem em Maceió?” Portal explica… – Contextualizando (tnh1.com.br) Braskem: o que são as minas de sal-gema e seus impactos para o meio ambiente - TecMundo “Extração de sal-gema por 40 anos: o que são as minas da Braskem em Maceió?” Portal explica… – Contextualizando (tnh1.com.br) Braskem: o que são as minas de sal-gema e seus impactos para o meio ambiente - TecMundo https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/o-que-e-o-sal-gema-e-por-que-sua-extracao-gerou-problemas-em-maceio#:~:text=Diferente%20do%20sal%20que%20geralmente,de%20uma%20variedade%20de%20minerais. https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/maceio/panorama https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral https://geo.anm.gov.br/portal/home/ https://geo.anm.gov.br/portal/apps/webappviewer/index.html?id=6a8f5ccc4b6a4c2bba79759aa952d908 https://geo.anm.gov.br/portal/apps/dashboards/4a9d32d667b14b5ba23f66b3ecc88a65 https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral/titulos-minerarios https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/dramas-humanos-se-acumulam-em-tragedia-da-braskem-em-maceio https://www.intercept.com.br/2023/12/06/braskem-ditadura-ja-sabia-dos-riscos-mas-espionou-criticos-e-imprensa-contrarios-a-exploracao-em-maceio/ O que é sal-gema? Entenda material extraído das minas da Braskem em Maceió - Alagoas - Diário do Nordeste (verdesmares.com.br) O que é sal-gema e por que sua extração em mina de Maceió está afundando o solo - NSC Total https://082noticias.com/2023/12/22/cpi-da-braskem-sera-palco-do-embate-entre-grupos-politicos-de-alagoas/ https://www.portalalagoasnt.com.br/noticia/42029/rodrigo-cunha-diz-que-renan-nao-pode-ser-relator-de-cpi-por-que-tambem-tem-que-ser-investigado.html https://082noticias.com/2023/12/22/cpi-da-braskem-sera-palco-do-embate-entre-grupos-politicos-de-alagoas/ https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/o-que-se-sabe-sobre-o-rompimento-da-mina-18-em-maceio/ https://observatoriodamineracao.com.br/exclusivo-cenario-de-colapso-de-todas-as-cavidades-da-braskem-em-maceio-e-considerado-desde-2019/ https://observatoriodamineracao.com.br/exclusivo-cenario-de-colapso-de-todas-as-cavidades-da-braskem-em-maceio-e-considerado-desde-2019/ https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2023/12/23/com-queda-no-ritmo-de-afundamento-defesa-civil-aponta-para-estabilizacao-de-mina-que-colapsou-em-maceio.ghtml https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2023/12/05/maceio-como-a-braskem-explorou-o-sal-gema-e-afundou-uma-cidade.html https://082noticias.com/2023/12/17/veja-como-braskem-alterou-paisagem-em-bairro-de-maceio-desde-2018/ https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/maceio-mp-e-defensoria-pedem-bloqueio-de-r-1-bilhao-da-braskem https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/maceio-justica-rejeita-pedido-de-bloqueio-de-r-1-bilhao-da-braskem https://www.braskem.com.br/alagoas?utm_source=google&utm_medium=search&utm_content=_comunicacao_maceio_search_institucional_consideracao_google_search_texto_cpc_sociedade_nd_&utm_campaign=pbc__comunicacao_maceio_search_institucional&gclid=Cj0KCQiA1rSsBhDHARIsANB4EJbMhn1sy68v6uXtWVYNhMdDxU4jvea8wWlNlZ4Ha0jBiFk-vZnpLGIaAlhvEALw_wcB https://www.braskem.com/acordo-para-compensacao-dos-moradores https://www.braskem.com/como-funciona https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2023/07/21/braskem-faz-acordo-com-maceio-de-r-17-bilhoes-de-indenizacao-por-afundamento-do-solo.ghtml https://alagoas.al.gov.br/noticia/governo-do-estado-defende-que-maceio-reveja-acordo-bilionario-com-a-braskem https://tribunahoje.com/blogs/2023/12/08/8654-raizes-do-mal-ou-mal-gema-em-maceio

  • Sal-gema: o elemento do crime da Braskem

    Este artigo integra o Dossiê: Maceió destruída (Parte II) O sal-gema (NaCl), apesar de sua semelhança com o sal de cozinha devido à presença de cloreto de sódio, difere pela inclusão de outros elementos químicos em sua composição. Além disso, a localização desses sais na natureza também varia. O sal-gema é encontrado em jazidas subterrâneas com profundidades de até 2 mil metros, formadas há milhares de anos a partir da evaporação de partes do oceano. Este mineral é uma matéria-prima multifuncional amplamente utilizada na indústria e no cotidiano. A partir do sal-gema, é possível produzir diversos produtos, como soda cáustica, sabão, detergente, pasta de dente, ácido clorídrico, PVC e bicarbonato de sódio. Além disso, ele também é empregado nas indústrias farmacêutica, de papel, celulose e vidro. Em Maceió, capital de Alagoas, existem 35 minas de exploração de sal-gema na área urbana. Até 2019, essas minas eram operadas pela Braskem. A exploração do sal-gema nessa região tinha como principal objetivo a produção de dicloroetano, substância utilizada na fabricação de PVC. A exploração começou em 1976 pela empresa Sal-gema Indústrias Químicas. Após várias privatizações, mudanças de nomes e integrações em grupos maiores, a empresa se tornou a Braskem. Segundo o site Agência Brasil, o Grupo Novonor, antigo Grupo Odebrecht que tem a Braskem sendo uma de suas subsidiárias, tem o controle majoritário, mas a Petrobrás também possui participação acionária com 47% das ações. Conforme descrito no site da Agência Nacional de Mineração (ANM), os recursos minerais são, por princípio constitucional, propriedades distintas do solo e pertencem à União, conforme o Artigo 176 da Constituição Federal. A exploração de minérios tem um histórico intrinsecamente ligado à história do Brasil e, até os dias atuais, é uma atividade econômica de extrema importância e indispensável ao desenvolvimento socioeconômico do país. A extração de sal-gema, um desses recursos minerais, é realizada através da escavação de poços e injeção de água até a camada de sal, formando uma salmoura. Esta solução é então retirada e transportada para a superfície. No entanto, essa prática pode causar instabilidade no solo, resultando na formação de buracos e consequente afundamento do terreno. Este fenômeno foi observado em Maceió, onde a extração de sal-gema foi identificada como a principal causa das rachaduras que surgiram no solo e em imóveis de cinco bairros da cidade. Como aconteceu? Os bairros Pinheiro, Bebedouro e Mutange, localizados em Maceió, estão situados sobre uma formação geológica de solo silto-arenoso. Este tipo de solo é mais suscetível a erosões, mas possui baixa tendência de expansão ou colapso. Isso descarta a possibilidade de a geologia local ser responsável pelo afundamento do solo. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), a principal causa é a extração de sal-gema pela Braskem. Maceió está localizada em uma placa tectônica que apresenta falhas e fraturas. Em março de 2018, os moradores sentiram um tremor, que era um ajuste do terreno já instável. Os habitantes dos bairros Mutange, Bebedouro, Pinheiro, Bom Parto e Farol notaram um aumento nas rachaduras das construções, o que iniciou uma investigação nos locais que estavam afundando. Mais de 60 mil famílias se viram obrigadas a deixar os mais de 14 mil imóveis incluindo casas, prédios, igrejas, escolas, e ruas e consequentemente o local que fazia parte de suas vidas, às vezes por mais de uma geração impactando emocionalmente, moralmente e sua condição econômica. Segundo Marisa Beltrão, arqueóloga e ecóloga humana em Gestão Socioambiental e moradora de Maceió, o processo de realocação e indenizações tem sido lento ou insuficiente, e muitas pessoas ainda aguardam uma solução. A arqueóloga diz que: “Caminhar pelas ruas desses bairros é uma experiência desoladora. As casas estão em ruínas, as ruas estão vazias e os muros estão pichados com mensagens de dor e revolta. As famílias tiraram o que puderam de suas casas como janelas e portas buscando alguma economia. Apesar de ter várias placas de rota de fuga por estes bairros, curiosamente ainda é possível acessar suas ruas que permitem o tráfego de veículos. Não só se encontra problemas das famílias afetadas e consideradas pela Braskem mas principalmente as famílias que estão em perímetro da região que foi considerado não afetado, pois além do problema psicológico e moral, sofrem com o fenômeno de uma “cidade fantasma” ficando isolada em meio a comunidade deserta. Tudo isso no coração da cidade, já que se tratam de bairros tradicionais de Maceió.” A Braskem encerrou a extração de sal-gema em Maceió em 2019, mas desde 2018 vem enfrentando processos judiciais e a necessidade de pagar indenizações. Conforme descrito no G1, em julho, a prefeitura de Maceió e a Braskem chegaram a um acordo que determina que a empresa indenize o município em R$1,7 bilhão pelo afundamento do solo causado por décadas de mineração. A Prefeitura informou que os recursos serão destinados a obras estruturantes na cidade e à criação do Fundo de Amparo aos Moradores (FAM). Além deste valor, a Braskem, em nota oficial, disse que cerca de R$700 milhões já haviam sido provisionados pela empresa em exercícios anteriores. Os moradores pedem que façam visitação no local para entenderem a situação e o Desbravando Capitais foi conferir e relata: “A sensação é visitar uma cidade fantasma, onde há muitas construções com tapumes na frente, muitos recados sobre pessoas que moravam ali, até mesmo de pessoas que persistiram no local, faixas sobre a situação e placas de rotas de fuga. É algo surreal que desconhecíamos antes e o que mais nos chamou atenção é estar ali em momento que ainda não estava muito na mídia nacional, até falávamos para outras pessoas de fora que nos ouvia desconfiados da história.” A Braskem anunciou um investimento de R$2 bilhões em ações de reparação e compensação para os moradores de Maceió afetados pelo afundamento de terras. Apesar deste anúncio, persistem muitas incertezas sobre o futuro dos bairros atingidos e sobre a responsabilização da empresa pelos danos causados e será destinado ao FAM. A situação é crítica e exige medidas urgentes para garantir a segurança da população e a preservação do meio ambiente. Terra a vista de Maceió alterada Alexandre Sampaio, presidente da Associação de Empreendedores e Vítimas da Mineração da Braskem em Maceió para o site da região 082 notícias, descreve que: “É um cenário de terra arrasada. Essa devastação sistemática da Braskem, que começa com as minas, depois com o destelhamento das casas e finalmente a destruição delas, é o símbolo vivo de um crime sem precedentes na humanidade e também o símbolo da impunidade.” Por outro lado, a Braskem relata que o espaço passa por atividades de terraplenagem para suavizar as inclinações da encosta, a implantação de um novo sistema de drenagem integrado ao sistema existente e o plantio da cobertura vegetal. Essas ações, além de contribuir para a estabilização do terreno, ampliarão a área verde de Maceió. A empresa assumiu a posse dos espaços públicos e vias através de um acordo firmado em 2020 entre a Braskem, o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual (MPE) e a Defensoria Pública da União (DPU) para Apoio na Desocupação das Áreas de Risco. A partir da desocupação dos imóveis das áreas de desocupação e monitoramento, a empresa adotou medidas para limpeza, conservação, controle de pragas e segurança patrimonial. “”[a Braskem] se compromete a não edificar nas áreas desocupadas para fins comerciais ou habitacionais, discussões futuras sobre a área e sua utilização poderão ser feitas a partir do Plano Diretor do Município”, afirmando que nenhuma decisão sobre o futuro da área caberá exclusivamente à Braskem." Segundo reportagem do segundo 082 notícias. Texto escrito por Fabiana Mercado Pós graduada em Comunicação e Marketing Digital, formada em Publicidade e Propaganda, acumula mais de 9 anos na área, colunista do Zero Águia, curiosa, preza o respeito a todas as pessoas independente de características. Nas horas vagas pratica corridas com o apoio da equipe Superatis. Adora conhecer novas pessoas e lugares, ama viajar e possui um projeto denominado Desbravando Capitais com o marido para morar e vivenciar durante um mês em todas as capitais brasileiras nos próximos anos. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Referências https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/12/01/o-que-e-sal-gema-material-extraido-pela-braskem-em-mina-que-deve-colapsar-em-maceio.ghtml https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/o-que-e-o-sal-gema-e-por-que-sua-extracao-gerou-problemas-em-maceio#:~:text=Diferente%20do%20sal%20que%20geralmente,de%20uma%20variedade%20de%20minerais. https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral “Extração de sal-gema por 40 anos: o que são as minas da Braskem em Maceió?” Portal explica… – Contextualizando (tnh1.com.br) Braskem: o que são as minas de sal-gema e seus impactos para o meio ambiente - TecMundo “Extração de sal-gema por 40 anos: o que são as minas da Braskem em Maceió?” Portal explica… – Contextualizando (tnh1.com.br) Braskem: o que são as minas de sal-gema e seus impactos para o meio ambiente - TecMundo https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/o-que-e-o-sal-gema-e-por-que-sua-extracao-gerou-problemas-em-maceio#:~:text=Diferente%20do%20sal%20que%20geralmente,de%20uma%20variedade%20de%20minerais. https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/maceio/panorama https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral https://geo.anm.gov.br/portal/home/ https://geo.anm.gov.br/portal/apps/webappviewer/index.html?id=6a8f5ccc4b6a4c2bba79759aa952d908 https://geo.anm.gov.br/portal/apps/dashboards/4a9d32d667b14b5ba23f66b3ecc88a65 https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral/titulos-minerarios https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/dramas-humanos-se-acumulam-em-tragedia-da-braskem-em-maceio https://www.intercept.com.br/2023/12/06/braskem-ditadura-ja-sabia-dos-riscos-mas-espionou-criticos-e-imprensa-contrarios-a-exploracao-em-maceio/ O que é sal-gema? Entenda material extraído das minas da Braskem em Maceió - Alagoas - Diário do Nordeste (verdesmares.com.br) O que é sal-gema e por que sua extração em mina de Maceió está afundando o solo - NSC Total https://082noticias.com/2023/12/22/cpi-da-braskem-sera-palco-do-embate-entre-grupos-politicos-de-alagoas/ https://www.portalalagoasnt.com.br/noticia/42029/rodrigo-cunha-diz-que-renan-nao-pode-ser-relator-de-cpi-por-que-tambem-tem-que-ser-investigado.html https://082noticias.com/2023/12/22/cpi-da-braskem-sera-palco-do-embate-entre-grupos-politicos-de-alagoas/ https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/o-que-se-sabe-sobre-o-rompimento-da-mina-18-em-maceio/ https://observatoriodamineracao.com.br/exclusivo-cenario-de-colapso-de-todas-as-cavidades-da-braskem-em-maceio-e-considerado-desde-2019/ https://observatoriodamineracao.com.br/exclusivo-cenario-de-colapso-de-todas-as-cavidades-da-braskem-em-maceio-e-considerado-desde-2019/ https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2023/12/23/com-queda-no-ritmo-de-afundamento-defesa-civil-aponta-para-estabilizacao-de-mina-que-colapsou-em-maceio.ghtml https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2023/12/05/maceio-como-a-braskem-explorou-o-sal-gema-e-afundou-uma-cidade.html https://082noticias.com/2023/12/17/veja-como-braskem-alterou-paisagem-em-bairro-de-maceio-desde-2018/ https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/maceio-mp-e-defensoria-pedem-bloqueio-de-r-1-bilhao-da-braskem https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/maceio-justica-rejeita-pedido-de-bloqueio-de-r-1-bilhao-da-braskem https://www.braskem.com.br/alagoas?utm_source=google&utm_medium=search&utm_content=_comunicacao_maceio_search_institucional_consideracao_google_search_texto_cpc_sociedade_nd_&utm_campaign=pbc__comunicacao_maceio_search_institucional&gclid=Cj0KCQiA1rSsBhDHARIsANB4EJbMhn1sy68v6uXtWVYNhMdDxU4jvea8wWlNlZ4Ha0jBiFk-vZnpLGIaAlhvEALw_wcB https://www.braskem.com/acordo-para-compensacao-dos-moradores https://www.braskem.com/como-funciona https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2023/07/21/braskem-faz-acordo-com-maceio-de-r-17-bilhoes-de-indenizacao-por-afundamento-do-solo.ghtml https://alagoas.al.gov.br/noticia/governo-do-estado-defende-que-maceio-reveja-acordo-bilionario-com-a-braskem https://tribunahoje.com/blogs/2023/12/08/8654-raizes-do-mal-ou-mal-gema-em-maceio

  • Maceió explorada: Luta e história

    Este artigo integra o Dossiê: Maceió destruída (Parte I) No dia dez de dezembro de 2023, por volta das 13 horas, a mina 18, localizada em um trecho da Lagoa Mundaú, na capital do estado do Alagoas, sofreu um rompimento. A Defesa Civil informou à CNN Brasil que, como a área ao redor estava desocupada, não houve registros de feridos. Este evento já estava sendo monitorado pela prefeitura de Maceió, que nos últimos dias de novembro havia decretado situação de emergência devido ao possível risco de colapso da mina na Lagoa Mundaú, no bairro do Mutange. Até então, havia o perigo de surgirem enormes crateras, que poderiam atingir o tamanho do estádio do Maracanã, afetando outras minas que poderiam sofrer colapsos e se unir umas às outras. Dias após o afundamento, Abelardo Nobre, Coordenador da Defesa Civil, relatou que o cenário não é mais preocupante. A observação da movimentação do solo mostrou uma estabilização do declínio, com a taxa de afundamento da mina 18 desacelerando para 2,7 cm em 24 horas. Essa desaceleração já era prevista pelos técnicos. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a exploração inadequada de sal-gema desestabilizou esta e outras cavernas subterrâneas já existentes na região, resultando no afundamento do solo nos bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol. Estima-se que mais de 200 mil pessoas foram afetadas direta ou indiretamente. O impacto não se limitou aos moradores, mas também envolveu profissionais, alunos, religiosos e aqueles que dependem de unidades básicas de saúde, como hospitais. Aproximadamente 14,5 mil imóveis foram afetados, incluindo casas, prédios, igrejas, escolas e ruas dos bairros. Apesar da Braskem estar respondendo a várias ações judiciais devido ao afundamento do solo em Maceió/AL, a empresa ainda não foi condenada. Recentemente, uma liminar (decisão judicial de urgência) obrigou a Braskem a expandir a área do mapa de locais afetados, incluindo partes dos bairros Bom Parto, Farol e Vila Saém, além de uma parte da Rua Marquês de Abrantes. No entanto, a Braskem pretende recorrer da decisão do Ministério Público (MP) e da Defensoria Pública da União (DPU), e por isso não realizou a inclusão imediatamente. Como esses locais ainda não foram incluídos, o MP e a DPU solicitaram à Justiça de Alagoas o bloqueio de 1 bilhão de reais das contas da Braskem, com o objetivo de compensar futuramente, por meio de indenizações, os moradores das novas áreas a serem incluídas devido ao afundamento da região. No entanto, a Justiça de Alagoas recusou o bloqueio, alegando que não há necessidade de garantir uma execução futura de uma decisão ainda não definitiva, como a liminar. A Braskem tem cinco acordos com autoridades, além de uma indenização de 1,7 bilhão de reais à prefeitura de Maceió pelo afundamento do solo, provocado por décadas de mineração na capital alagoana. Deste valor, a prefeitura já recebeu mais de R$600 milhões. Segundo o G1, esses recursos serão destinados à realização de obras estruturantes na cidade e à criação do Fundo de Amparo aos Moradores (FAM). Conforme o site do estado de Alagoas, no dia seguinte ao rompimento da mina 18 [11/12/23], houve uma reunião no Palácio República dos Palmares. O prefeito de Maceió, João Henrique Holanda Caldas (JHC), não estava presente, pois estava em Brasília. Na reunião, Vitor Pereira, secretário de Estado de Governo, relatou que o acordo de JHC não contemplou as perdas avaliadas pela Secretaria da Fazenda em R$30 bilhões. Essas perdas incluiriam as vítimas diretamente e indiretamente afetadas, as cidades vizinhas da região metropolitana e o estado. Na reunião, foi discutida a criação de um Gabinete Permanente de Gestão da Crise Ambiental e a implementação imediata do auxílio aos pescadores e marisqueiras. “Nós vamos continuar insistindo na repactuação deste acordo para incluir o estado de Alagoas, os nove municípios afetados e também as vítimas [diretas e indiretamente afetadas]” Foi relatado na reunião. Ainda conforme descrito no site do estado de Alagoas. “A prefeitura se recusa a repactuar para incluir as vítimas e os outros municípios afetados.” Indenização A Braskem criou o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação para atender moradores, proprietários e comerciantes de mais de 14 mil imóveis. Este programa inclui um Termo de Acordo entre a Braskem e autoridades públicas (Ministério Público Federal, Ministério Público do Estado de Alagoas, Defensoria Pública da União e Defensoria Pública de Alagoas), que acompanham rigorosamente o seu cumprimento. O programa também oferece mudança e aluguel provisório pagos pela Braskem, suporte para obtenção de documentação e ajuda para encontrar um local para morar ou montar um negócio. Além disso, cuida dos animais de estimação e disponibiliza apoio psicológico que pode ser solicitado a qualquer momento, antes ou depois da indenização. Em dezembro de 2020, a Braskem e autoridades públicas (Ministério Público Federal, com a participação do Ministério Público do Estado de Alagoas e a adesão do Município de Maceió) assinaram mais um Termo de Acordo sobre o futuro das áreas desocupadas. Este acordo ressalta os pilares sócio urbanísticos, ambientais e de monitoramento e estabilização, e inclui um termo que envolve a sociedade no planejamento das ações integradas de reparação, mitigação e compensação, por meio de diagnósticos e escutas públicas iniciadas em 2021. Até o dia 30 de novembro de 2023, mais de 14,4 mil imóveis foram desocupados e mais de 19 mil propostas de compensação foram apresentadas a moradores, empresários e comerciantes. Mais de 17,9 mil indenizações foram pagas, totalizando mais de R$3,87 bilhões em indenizações e auxílios financeiros. As propostas têm um índice de aceitação geral de 99,3%. Após a assinatura do Termo de Saída, o morador recebe auxílio-aluguel de R$1 mil reais podendo ser até 24 parcelas deste benefício sendo possível a solicitação de valor adicional de R$6 mil reais para cobrir despesas extras decorrentes do novo aluguel, mas estes valores podem – ou não - ser descontados da compensação financeira paga no final da jornada. Microempreendedores individuais e empresários (Micro, pequeno, médio e grande) têm direito à antecipação financeira de R$10 mil sendo passível ou não do desconto posteriormente. Em ambos os casos, uma das cláusulas presentes no contrato é que o morador não tem o direito de abrir processo contra a Braskem futuramente. Sobre o valor de ajuda de custo de aluguel e de mudança do negócio, fica uma reflexão num cenário onde um morador ou um empresário já estava tranquilo com a quitação do seu imóvel, já destinando o foco da sua renda financeira a outros recursos se vê na obrigação de mudar de lugar e recebe valores que podem ser insuficientes para a sua moradia, pois atualmente em uma capital dificilmente se encontra um imóvel para uma família em um bairro de maior segurança e que custe até R$1mil reais ou o empresário dar continuidade – com possibilidade de perder sua freguesia – ao seu negócio com R$10 mil iniciais. Sobre as indenizações, você pode acompanhar mais aqui: https://www.braskem.com/balancopcf Desmoronamento político 2024 A grande questão dos bairros afundados, sob responsabilidade da Braskem - que agora é dona do território por ter pago indenizações às famílias que aceitaram - terá impacto na eleição de 2024. O deputado federal Arthur Lira (PP-AL) e o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (JHC do PL), estão unidos ao senador Rodrigo Cunha (Podemos/AL). Este último deseja que a Polícia Federal investigue seu principal concorrente, o senador Renan Calheiros (MDB/AL), que já foi diretor da Sal-gema S/A, empresa que originou a Braskem após ser privatizada. Rodrigo Cunha postou em seu Instagram um jornal publicado na época em que Renan Calheiros foi aceito como conselheiro e imediatamente conduzido, por unanimidade dos votos, à presidência do Conselho da Sal-gema. Na legenda, ele pede à Polícia Federal que Renan Calheiros não participe da investigação na CPI da Braskem, mas que seja também investigado. No jornal que está na foto, é relatado e enfatizado em várias partes do texto que a: “Sal-gema é vital para o desenvolvimento de Alagoas” e que: "A falta absoluta de investimentos, o fortalecimento e o saneamento da Sal-gema e empresas coligadas é a condição primordial para a consolidação e expansão do Pólo Cloroquímico de Alagoas.” Em contrapartida e em sua defesa, Renan Calheiros alega: “Como executivo da Petroquisa, eu representei a Petroquisa nas ações em todas as empresas petroquímicas. Eu não fui diretor, eu fui do conselho de administração de todas as empresas de que a Petroquisa participava (entre elas a Sal-gema S/A).” Conforme descrito no site 082 Notícias. Movimentos em vão durante a ditadura militar Na década de 1970, movimentos sociais e a imprensa local em Maceió já se opunham às atividades de exploração mineral. Esses grupos foram reprimidos pelos militares, que os viam como uma ameaça à indústria. Documentos confidenciais da Ditadura Militar revelam que o Serviço Nacional de Informações (SNI) foi usado para monitorar aqueles que se opunham à Sal-gema Indústrias Químicas, empresa que mais tarde se tornaria a Braskem em 2002. O SNI, uma estrutura de espionagem do estado, foi empregado para perseguir adversários políticos e reprimir forças consideradas inimigas dos militares. Relatórios de inteligência indicam que atividades de mobilização contra a expansão da exploração de minério na região, como reuniões, atividades sindicais, passeatas e até um bloco de carnaval, foram cuidadosamente monitoradas. A exploração do sal-gema em Maceió era um projeto importante para a Ditadura Militar. Em 1975, a Petrobras e o BNDES investiram recursos significativos do governo federal no projeto. A exploração de sal-gema começou em 1970, durante o governo de Médici, que permitiu a extração em áreas subterrâneas de Maceió como parte do ‘milagre econômico’ brasileiro. A reserva, estimada em 3 bilhões de toneladas, foi descoberta em 1943 durante a busca por poços de petróleo na região. A empresa Sal-gema foi criada no governo Geisel e iniciou a extração sistemática do sal-gema a partir de 1976. Como resultado, o serviço secreto militar foi ativado para monitorar o assunto. Hoje, o regime ditatorial-militar não existe mais, mas o desejo por novas alternativas econômicas e o preconceito contra os ambientalistas persistem. A eliminação desse preconceito, unindo o ambientalismo a projetos econômicos inovadores, é o caminho para prevenir crimes ambientais, que continuam sendo cometidos em outros setores, além das minas de sal-gema. Texto escrito por Fabiana Mercado Pós graduada em Comunicação e Marketing Digital, formada em Publicidade e Propaganda, acumula mais de 9 anos na área, colunista do Zero Águia, curiosa, preza o respeito a todas as pessoas independente de características. Nas horas vagas pratica corridas com o apoio da equipe Superatis. Adora conhecer novas pessoas e lugares, ama viajar e possui um projeto denominado Desbravando Capitais com o marido para morar e vivenciar durante um mês em todas as capitais brasileiras nos próximos anos. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto REFERÊNCIAS https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/12/01/o-que-e-sal-gema-material-extraido-pela-braskem-em-mina-que-deve-colapsar-em-maceio.ghtml https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/o-que-e-o-sal-gema-e-por-que-sua-extracao-gerou-problemas-em-maceio#:~:text=Diferente%20do%20sal%20que%20geralmente,de%20uma%20variedade%20de%20minerais. https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral “Extração de sal-gema por 40 anos: o que são as minas da Braskem em Maceió?” Portal explica… – Contextualizando (tnh1.com.br) Braskem: o que são as minas de sal-gema e seus impactos para o meio ambiente - TecMundo “Extração de sal-gema por 40 anos: o que são as minas da Braskem em Maceió?” Portal explica… – Contextualizando (tnh1.com.br) Braskem: o que são as minas de sal-gema e seus impactos para o meio ambiente - TecMundo https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/o-que-e-o-sal-gema-e-por-que-sua-extracao-gerou-problemas-em-maceio#:~:text=Diferente%20do%20sal%20que%20geralmente,de%20uma%20variedade%20de%20minerais. https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/maceio/panorama https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral https://geo.anm.gov.br/portal/home/ https://geo.anm.gov.br/portal/apps/webappviewer/index.html?id=6a8f5ccc4b6a4c2bba79759aa952d908 https://geo.anm.gov.br/portal/apps/dashboards/4a9d32d667b14b5ba23f66b3ecc88a65 https://www.gov.br/anm/pt-br/assuntos/exploracao-mineral/titulos-minerarios https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-12/dramas-humanos-se-acumulam-em-tragedia-da-braskem-em-maceio https://www.intercept.com.br/2023/12/06/braskem-ditadura-ja-sabia-dos-riscos-mas-espionou-criticos-e-imprensa-contrarios-a-exploracao-em-maceio/ O que é sal-gema? Entenda material extraído das minas da Braskem em Maceió - Alagoas - Diário do Nordeste (verdesmares.com.br) O que é sal-gema e por que sua extração em mina de Maceió está afundando o solo - NSC Total https://082noticias.com/2023/12/22/cpi-da-braskem-sera-palco-do-embate-entre-grupos-politicos-de-alagoas/ https://www.portalalagoasnt.com.br/noticia/42029/rodrigo-cunha-diz-que-renan-nao-pode-ser-relator-de-cpi-por-que-tambem-tem-que-ser-investigado.html https://082noticias.com/2023/12/22/cpi-da-braskem-sera-palco-do-embate-entre-grupos-politicos-de-alagoas/ https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/o-que-se-sabe-sobre-o-rompimento-da-mina-18-em-maceio/ https://observatoriodamineracao.com.br/exclusivo-cenario-de-colapso-de-todas-as-cavidades-da-braskem-em-maceio-e-considerado-desde-2019/ https://observatoriodamineracao.com.br/exclusivo-cenario-de-colapso-de-todas-as-cavidades-da-braskem-em-maceio-e-considerado-desde-2019/ https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2023/12/23/com-queda-no-ritmo-de-afundamento-defesa-civil-aponta-para-estabilizacao-de-mina-que-colapsou-em-maceio.ghtml https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2023/12/05/maceio-como-a-braskem-explorou-o-sal-gema-e-afundou-uma-cidade.html https://082noticias.com/2023/12/17/veja-como-braskem-alterou-paisagem-em-bairro-de-maceio-desde-2018/ https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/maceio-mp-e-defensoria-pedem-bloqueio-de-r-1-bilhao-da-braskem https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/maceio-justica-rejeita-pedido-de-bloqueio-de-r-1-bilhao-da-braskem https://www.braskem.com.br/alagoas?utm_source=google&utm_medium=search&utm_content=_comunicacao_maceio_search_institucional_consideracao_google_search_texto_cpc_sociedade_nd_&utm_campaign=pbc__comunicacao_maceio_search_institucional&gclid=Cj0KCQiA1rSsBhDHARIsANB4EJbMhn1sy68v6uXtWVYNhMdDxU4jvea8wWlNlZ4Ha0jBiFk-vZnpLGIaAlhvEALw_wcB https://www.braskem.com/acordo-para-compensacao-dos-moradores https://www.braskem.com/como-funciona https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2023/07/21/braskem-faz-acordo-com-maceio-de-r-17-bilhoes-de-indenizacao-por-afundamento-do-solo.ghtml https://alagoas.al.gov.br/noticia/governo-do-estado-defende-que-maceio-reveja-acordo-bilionario-com-a-braskem https://tribunahoje.com/blogs/2023/12/08/8654-raizes-do-mal-ou-mal-gema-em-maceio

  • Para além do transporte: conheça a “Uberização do Trabalho"

    Quem nunca pegou ou até mesmo ofereceu uma carona com um amigo/amiga? Foi com essa premissa, que o famigerado “ir até ali” se tornou tão fácil e simples e assim que o mundo aderiu ao uso de aplicativos de transporte privado. Uber, 99táxi, InDrive, entre outras plataformas que caíram rapidamente no gosto do público quando se tornaram uma alternativa mais viável e barata para os transportes coletivos e/ou comuns. E essas empresas parecem ter seguido a mesma receita: identificaram uma problemática na mobilidade urbana das cidades, investiram no desenvolvimento de um aplicativo para celular e, então, facilitaram a vida de milhares de consumidores, assim como abriu ao mercado de trabalho uma nova demanda – a de motoristas de aplicativo. O que antes funcionava como uma troca entre amigos e parentes, hoje se tornou uma nova forma de convívio social onde todos podem colaborar uns com os outros. A chamada ‘Economia do Compartilhamento', também conhecida como ‘Economia Colaborativa’, surge como um modelo econômico onde bens e serviços são compartilhados, trocados ou alugados por meio dessas plataformas digitais. “A internet está promovendo um mundo mais promissor, não apenas por nos fornecer mais informação e aparelhos cada vez melhores, mas por remodelar a sociedade inteira. Nós agora temos a tecnologia para resolver os problemas que assolaram a humanidade por séculos, tornando obsoletas as velhas instituições e velhas regras, que são cada vez mais suplantadas pela computação.” – Tom Slee, cientista da computação para o livro “Uberização: A nova onda do trabalho precarizado”. Todavia, no cerne da transição do emprego tradicional para uma economia mais flexível, os trabalhadores da era digital agora atuam como freelancers ou autônomos, isto é, cada vez mais recorrendo à informalidade para manter seu sustento. A natureza temporária e fragmentada dos trabalhos na Economia do Compartilhamento resulta na falta de segurança no emprego, devido à ausência de contratos fixos e benefícios, como plano de saúde e aposentadoria, deixando os trabalhadores mais vulneráveis e sem usufruir dos direitos trabalhistas conquistados pela humanidade. Principalmente após a pandemia do Covid-19, em 2020, onde a humanidade vivenciou um mundo repleto de incertezas, o que impactou diretamente na alta de demissões como corte de custos por parte de empresas. Em 2020, o ano registrou a maior taxa média de desemprego do Brasil, com 13,5%, a maior da série histórica da PNAD Contínua, pesquisa iniciada em 2012. Dois anos depois, em 2022, a taxa caiu para 9,3%. Até agosto de 2023, o país já contava com quase 39 milhões de brasileiros trabalhando na informalidade, segundo o IBGE. A então chamada “uberização” – nome que se popularizou no Brasil para “precarização do trabalho” – levou diversos profissionais, dos mais diversos setores da economia, a enfrentarem condições de trabalho instáveis, baixa remuneração, falta de proteção trabalhista, tudo isso graças à crescente  informalidade, isto é, o trabalho sem carteira assinada. Mas afinal, o que é “uberização” do trabalho? A "uberização" refere-se a uma tendência de organização e gestão no mundo do trabalho, que se deu com o avanço das tecnologias, principalmente com o advento da internet. Esse processo também conta com a quebra da relação patrão x empregado, que agora torna o trabalhador um prestador de serviço à demanda do mercado. O nome se popularizou em solo brasileiro por conta da plataforma americana Uber, fundada em 2009, mas que chegou ao Brasil em 2016, e desde então conecta motoristas independentes – ou “parceiros”, como chama a marca – a passageiros por meio de seu aplicativo. Apesar da explicação óbvia para um app tão popular, a Uber não representa somente um modelo de negócio que tem se expandido, mas sim para além do setor de transporte, um verdadeiro movimento que tem impactado vários outros setores da indústria. E como ela e as demais empresas do ramo fazem isso? Não basta criar apenas um aplicativo. Com seu alto valor para o capitalismo atual, empresas-digitais como a Uber tem investido em propagandas nas redes sociais e na grande mídia para cooptar novos usuários, assim como também novos prestadores de serviços. O lema “seja seu próprio chefe” ou o conceito de “liberdade de escolher quando, onde e como trabalhar”, sem qualquer dúvida, é atraente, mas em contrapartida vem acompanhado dos desafios e precarização das condições de trabalho que colocam em risco não somente a vida e saúde do trabalhador ou trabalhadora, mas como inviabiliza seus acessos a benefícios como férias, 13º salário e plano de saúde, assim como gera instabilidade financeira. E isso não é uma mudança que começa no século da era digital. Voltando aos primórdios A compreensão do cenário atual do trabalho requer uma análise fundamentada na evolução e na atual operação do sistema capitalista. O trabalho, desde os primórdios da humanidade, é uma atividade vital, tanto para o indivíduo quanto para o convívio em coletivo, pois não só gera benefícios que se estendem para além do âmbito pessoal, como também faz com que a sociedade se desenvolva. É inegável também que há mudanças no aspecto sócio político, econômico e cultural de uma sociedade quando se está sob a influência das decisões do âmbito mercadológico e ideológico dominante – como é o caso do grande empresariado que detém os meios de produção. À medida que aspirações naturais para garantir a sobrevivência pessoal e coletiva se transformam em resposta a essas mudanças, moldam-se novos paradigmas que respingam diretamente nas dinâmicas do trabalho contemporâneo. Vale lembrar que o trabalho humano se destaca pela capacidade de dominar e transformar a natureza a seu favor, marcando a principal distinção entre o ser humano e os demais seres vivos. Esse aspecto ressalta a complexidade e a singularidade da relação entre trabalho, identidade e coletividade. No entanto, à medida que a classe burguesa intensifica a massificação do trabalho para aumentar a produção e, em paralelo, polarizar as classes em prol do funcionamento do sistema, priorizando seu princípio de lucratividade acima de todo o processo, torna evidente que o trabalho perde sua essência humanizada, de ter um trabalhador que detém o conhecimento do processo, para apenas torná-lo parte do processo de produção. Este se vê agora obrigado a vender sua força de trabalho para, predominantemente, atender as necessidades e especificidades da classe dominante, enquanto restringindo suas opções de ganho pelo que produziu, se prestando à dinâmica que muitas vezes ignora seu bem-estar e dignidade. “Mas quando a vida humana se resume exclusivamente ao trabalho – como muitas vezes ocorre no mundo capitalista e em sua sociedade do trabalho abstrato –, ela se converte em um mundo penoso, alienante, aprisionado e unilateralizado.” - Ricardo Antunes, sociólogo, para o livro ‘Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0’. Já com a crescente exponencial do consumo da internet, que não somente revolucionou a relação entre pessoas, mas também a forma como consumiam. Essa repercussão é, de certa forma, estratégica no atingir de uma economia, visto que as empresas, até então tidas como tradicionais, passam a ter reconhecimento se detém percepção de mercado dentro do espaço virtual. Restaurantes, consultórios médicos, central de serviços doméstico e entre outros tipos de negócio que não adotassem a tecnologia como parte de seu investimento estariam fadados ao fracasso no mundo atual, mesmo que também predados pela lógica de facilitação do processo através dessas plataformas. Isso significa que o capitalismo encontrou, na subjetividade humana, uma forma de cristalizar, ou seja, mascarar a exploração e expropriação do trabalho e, consequentemente, a interpretação de dominação sob o trabalhador. É lapidar o imaginário e forma de agir desses trabalhadores ao modo burguês, preferencialmente de forma não violenta, mas com convencimento de uma idealização que, em suma, não compete ao trabalhador, mas por vislumbre, o faz perpetuar a ideologia da classe dominante. “A terceirização, a informalidade e a flexibilidade se tornaram, então, partes inseparáveis do léxico e da pragmática da empresa corporativa global. E com elas, a intermitência vem se tornando uns dos elementos mais corrosivos da proteção do trabalho, que foi resultado de lutas históricas e seculares da classe trabalhadora em tantas partes do mundo.” - Ricardo Antunes, sociólogo, para o livro ‘Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0’. “Breque dos Apps”: o início de uma resposta Em julho de 2020, no auge da pandemia do Covid-19, o Brasil foi palco de uma das mais importantes manifestações grevistas por trabalhadores autônomos. Ainda que com boa parte da população em casa, devido ao alto contágio do vírus, diversos trabalhadores que se viram na condição de desemprego e/ou trabalho autônomo tiveram de quebrar o lockdown para manter seu sustento. O movimento "Breque dos Apps" ficou marcado como as paralisações realizadas por trabalhadores de aplicativos de entrega e transporte privado para reivindicar melhores condições de trabalho, salários justos, direitos e garantias sociais. Por dois dias seguidos naquele mês, houve manifestações que também uniram entregadores e entregadoras de diversos locais do Brasil em busca de melhores condições de trabalho, principalmente em boicote a empresas-aplicativos de entrega, como Loggi, iFood, Rappi e Uber Eats. A demanda por ajustes nos valores pagos aos entregadores, o término de bloqueios injustificados, a garantia de apoio em casos de acidentes ou roubos e, sobretudo, a provisão de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) durante a crise pandêmica da Covid-19 foram algumas das diversas reivindicações. A proposta central era unir forças, tanto por parte dos consumidores, que poderiam fortalecer a causa dos entregadores optando por não realizar pedidos através dos aplicativos, quanto por parte dos próprios entregadores, que poderiam recusar demandas, visando alcançar mudanças significativas nas condições de trabalho e na segurança durante a execução de suas atividades. O modelo de manifestação inspirou o mundo, de forma que os trabalhadores dessas plataformas em outros pontos do globo também fizeram manifestações locais. Por mais “desenvolvido” que seja o país, mais evidente se tornam as práticas de trabalhadores com as mesmas condições precárias de trabalho, assim como as questionáveis práticas por parte das empresas que empregam. No Brasil, está caminhando para a reta final um Projeto de Lei (PL 1471/22), que determina a regulamentação dos direitos trabalhistas para prestadores de serviços de aplicativo. As diretrizes dadas as empresas-aplicativos são de piso de salário-mínimo por hora de serviço, assim como: contribuições obrigatórias à Previdência para assegurar benefícios como aposentadoria, auxílio-doença e invalidez, férias remuneradas, além da aplicação do Microempreendedor Individual (MEI). O que se pode concluir... até então! Apesar da proposta inovadora para a modernidade, o fenômeno da "Uberização" tem colocado à prova várias problemáticas para o que tange o trabalho na sociedade atual. A autonomia e flexibilidade, muitas vezes enaltecidas no “discurso empreendedor”, transformam-se em soluções instáveis e suscetíveis ao desemprego contínuo. Isso isenta grandes empresários de responsabilidades trabalhistas, ocultando o bem-estar, autonomia, emancipação e desenvolvimento profissional dos trabalhadores que atuam nesse modelo. É crucial considerarmos que os desafios diários enfrentados por esse proletariado digital, sendo a falta de comprometimento com os direitos trabalhistas, é uma questão central para o futuro do trabalho no Brasil e no mundo, podendo o sistema encontrar formas de usurpar outras modalidades de trabalho. O retrato idealizado do empreendedorismo oferecido por essas plataformas é um exemplo disso, principalmente através dos meios de comunicação de massa e da internet, que não refletem a dura realidade em que os trabalhadores, atuando como prestadores de serviço, se encontram. E mesmo que, muitas vezes, essa tenha sido sua única alternativa para a sua sobrevivência. Apesar de vivermos em um mundo literalmente automatizado e repleto de inovações surpreendentes, as condições de trabalho para esses profissionais e os que ainda virão ainda são consideradas insalubres e demandam um esforço excessivo. Isso é, particularmente, evidente para aqueles que se deslocam de bicicleta ou a pé para entregas, enfrentam jornadas exaustivas de trânsito pelas capitais sem receber uma remuneração adequada pelo seu trabalho empenhado. Esses são alguns pontos dentro das infinidades de outras questões que surgem da discrepância entre a retórica do empreendedorismo e a realidade das condições de trabalho, que destaca a necessidade urgente de abordar e remediar as injustiças inerentes à "Uberização". Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Referências SLEE, Tom. Uberização: A nova onda do trabalho precarizado. 1ª Edição. Editora Elefante, 16 de setembro de 2019, pg 33. ANTUNES, Ricardo. Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0. 1ª Edição. Editora Boitempo, setembro de 2020, pgs. 11 e 28. https://www.youtube.com/watch?v=24b6IwzaH_g https://www.youtube.com/watch?v=JbFk2PdlZqQ&t=2038s https://www.youtube.com/watch?v=yQVO3Cdx9X4 https://quatrorodas.abril.com.br/noticias/governo-apresenta-proposta-para-regulamentar-motoristas-de-aplicativos https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/30235-com-pandemia-20-estados-tem-taxa-media-de-desemprego-recorde-em-2020#:~:text=No%20%C3%BAltimo%20trimestre%20de%202020,estados%2C%20ficando%20est%C3%A1vel%20nos%20demais. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/36351-taxa-media-de-desemprego-cai-a-9-3-em-2022-menor-patamar-desde-2015 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/quase-39-milhoes-de-brasileiros-estao-na-informalidade-aponta-ibge/#:~:text=Quase%2039%20milh%C3%B5es%20de%20brasileiros%20est%C3%A3o%20na%20informalidade%2C%20aponta%20IBGE,-Segundo%20IBGE%2C%20pa%C3%ADs https://www.cnnbrasil.com.br/economia/quase-39-milhoes-de-brasileiros-estao-na-informalidade-aponta-ibge/#:~:text=Quase%2039%20milh%C3%B5es%20de%20brasileiros%20est%C3%A3o%20na%20informalidade%2C%20aponta%20IBGE,-Segundo%20IBGE%2C%20pa%C3%ADs https://www.brasildefato.com.br/2023/07/24/como-a-terceirizacao-e-a-uberizacao-precarizam-as-condicoes-de-vida-dos-trabalhadores#:~:text=O%20conceito%20de%20uberiza%C3%A7%C3%A3o%20do,por%20dia%2C%20sem%20nenhuma%20regalia. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/governo-inicia-discussoes-sobre-regulamentacao-do-trabalho-por-aplicativo/

  • O Brasil na presidência do Conselho de Segurança das Nações Unidas

    Em outubro de 2023 a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) foi exercida pelo Brasil. A presidência tem mandato de um mês e segue a ordem alfabética em inglês, portanto, a China é o país seguinte à presidência. As atribuições do presidente são: organizar a agenda com os temas a serem discutidos, convocar reuniões extraordinárias, seguir e aplicar as regras e procedimentos durante as discussões e votações, e representar o Conselho quando necessário. Um dos membros fundadores da Organização das Nações Unidas, o país é um dos membros não permanentes com maior número de participações no Conselho, ficando atrás apenas do Japão. Cada membro não permanente tem o mandato de 2 anos e, ao fim, precisa se ausentar por igual período antes de concorrer novamente para a posição. Desde esse período, importantes figuras da diplomacia brasileira exerceram a posição, como por exemplo Oswaldo Aranha. Este lidou com a intervenção britânica no Egito e Sudão em 1947. Parte significativa do processo de descolonização foi discutido no conselho, embora parte dos membros permanentes fossem exatamente os colonizadores. Para além da presidência, a representação brasileira no CSNU teve uma alternância. Em alguns momentos os votos eram mais próximos aos dos Estados Unidos, em outros ajudou a construir e trilhar o não alinhamento e uma política externa independente. Outubro 2023: da Invasão Russa à Ucrânia para a escalada do conflito entre Israel e Gaza Outubro começou com uma pauta já definida, uma série de debates e revisões sobre as missões de paz em andamento, conflitos como a invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra civil no Iêmen. Entretanto, no dia 7 de outubro a comunidade internacional assistiu as ações do Hamas em território israelense com assassinatos e sequestros. A presidência brasileira precisou lidar com essa escalada e a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, a escalada de um conflito que se desenhava há alguns anos. Como presidente, cabe ao representante brasileiro organizar a nova agenda com reuniões extraordinárias e os procedimentos durante os debates. Embora presidente do Conselho, o diplomata ainda é um representante do Brasil e alterna entre esses papéis. Foi como representante do Brasil que houve a apresentação da proposta de resolução que pedia cessar fogo, ajuda humanitária para a população de Gaza e a libertação imediata dos reféns em poder do Hamas. A proposta foi bastante discutida e por ser apresentada por um país mais neutro na situação teria mais chance de prosperar do que uma apresentada pela Rússia, atualmente adversária dos Estados Unidos. Conseguiu-se a maioria dos votos favoráveis, contando ainda com a abstenção de alguns dos membros permanentes com poder de veto (Reino Unido e Rússia). Porém a representante dos Estados Unidos da América votou contra a proposta e, como o país possui o poder de veto, ela acabou sendo rejeitada. A justificativa estadunidense foi que o texto não incluía de forma satisfatória a possibilidade de autodefesa por parte de Israel. Durante o mês de outubro não houve uma resolução sobre o assunto que conseguisse passar pelo veto dos membros permanentes, fato que trouxe à tona a discussão sobre a reforma do Conselho e da ONU de forma mais ampla para que ela possa de fato ter ações concretas e impedir ou parar conflitos. Uma das alternativas é levar a pauta para a Assembleia Geral, na qual não há o poder de veto. Entretanto, os documentos aprovados têm um poder ainda mais simbólico do que prático já que não existe a obrigatoriedade de executar as recomendações contidas neles. Imagem da política externa Todas essas participações, e a forma como atuou durante a presidência, ajudaram a solidificar a imagem do país frente a comunidade internacional e abrem espaço para a participação diplomática na solução de conflitos, como a atual situação entre Venezuela e Guiana. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto Fontes: https://funag.gov.br/loja/download/1160-ARTICIPACAO_DO_BRASIL_NO_CSNU_final.pdf https://blog.clippingcacd.com.br/cacd/confira-as-acoes-do-brasil-na-presidencia-do-csnu/ https://www.gov.br/mre/pt-br/Brasil-CSNU/o-brasil-no-csnu-1/historico-brasil-csnu

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