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  • Vozes da Liberdade: Balcãs

    Em tempos de nacionalismos exacerbados em várias partes do mundo, a guerra civil ocorrida nos Balcãs, entre Sérvios e Bósnios, é um acontecimento que jamais pode ser esquecido. E para nunca esquecer é preciso conhecer a história. Para isso, as HQs podem ser uma alternativa de imersão nesse conflito, permitindo que nos conectemos às suas consequências cotidianas sob milhares de vidas humanas. Quando pensamos no continente europeu somos transportados, quase sempre, para a Europa ocidental. Como referências de nossa história: Portugal, Espanha, França e Holanda, que disputaram a terra brasilis, são bastantes conhecidas. Devido à herança cristã católica, e à copa do mundo de 1994, os brasileiros lembram bastante da Itália e do pênalti perdido por Roberto Baggio, nos consagrando tetracampeões. A Alemanha atravessou bastante nosso caminho futebolístico, com isso, para o bem ou para o mal, todos a conhecemos. Agora, a Europa do Leste é bem menos badalada entre nós, a menos que você tenha idade para ter visto as incríveis seleções esportivas da antiga Iugoslávia, com destaque para o basquete. Talvez, se você acompanha a NBA já deva ter ouvido falar de Nikola Jokic (sérvio) e Luka Dončić (esloveno). Bom, esses caras pertencem a uma região da Europa chamada Balcãs. Esse território, próximo à Turquia a Leste e da Itália a oeste, é formado pelas repúblicas da: Croácia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Macedônia e duas províncias autônomas: Kosovo e Voivodina. Todos esses Estados compunham a extinta Iugoslávia, constituída em 1918 a 1943 como um reino e, após 2ª guerra mundial, tornou-se uma união de 6 repúblicas, até 1992. A História Por vários séculos essa região foi dominada pelo império Otomano, praticamente quinhentos anos de presença, de 1402 ao fim da primeira guerra mundial. Todavia, o império Austro-húngaro também teve uma influência significativa, sobretudo na Croácia. Dessa história, os Balcãs se tornaram um lugar bastante fragmentado, tendo uma presença importante de mulçumanos na Bósnia, cristãos ortodoxos na Sérvia e cristãos católicos na Croácia. Essa divisão tornava a coesão dessa região muito complexa. Quem conseguiu manter essas repúblicas unidas, em suas diferenças, foi um líder da resistência comunista durante a segunda guerra mundial, Josip Broz, mais conhecido como Marechal Tito. (imagem ou componente) Ao longo da história, a Sérvia construiu uma identidade nacional bastante ufanista. Para se ter uma ideia, todo dia 28 de junho os sérvios comemoram a batalha do Kosovo, ocorrida em 1389. Os sérvios são derrotados pelos otomanos, mas comemoram sua identidade sérvia, já que ali entendem que perderam a batalha enquanto um povo. Mesmo sob domínio otomano, o nacionalismo sérvio permaneceu vivo, com uma orientação radical: onde há sérvios, ali é a Sérvia. Esta talvez seja a motivação principal da guerra civil que ocorreu de 1992 a 1999. Joe Sacco e a guerra É nesse conflito que mais uma vez o nosso artista-jornalista, Joe Sacco, já mencionado no artigo sobre a Palestina, vai à Bósnia durante a ocupação de grupos nacionalistas sérvios na região de Gorazde, mais especificamente no ano de 1995. A HQ produzida por ele coloca, logo de início, a falta de cobertura da mídia aos massacres corridos nessa região, dando destaque apenas para Sarajevo. Em seu estilo já consagrado, ele percorre as ruas da cidade, conversa com moradores, participa de seu cotidiano. Na abertura, Sacco já participa de um momento festivo na casa do Edin, um personagem importante para a obra. Mesmo na guerra mais atroz, as pessoas não desejam apenas sobreviver à guerra, desejam viver, profundamente. Em conversa com Edin, Sacco representa em sua obra os diferentes grupos que disputavam o poder nos Balcãs: os ustasha, os chetniks e os partisans. Assim, nos conta Edin: “Quando os países do eixo ocuparam e desmembraram o reino da Iugoslávia, em 1941, eles instalaram croatas fascistas, os ustasha, no seu próprio estado, que foi expandido para abrigar a Bósnia. A fúria com que os ustasha promoveram seu programa de genocídio e carnificina, forçou a conversão religiosa e a expulsão da população sérvia restante, deixando até mesmo os nazistas horrorizados. As suas vítimas alimentaram as fileiras de dois grupos da resistência rivais, os chetniks e os partisans. Os chetniks eram um tipo de aliança ampla de grupos de sérvios nacionalistas e monarquistas, que procuravam estabelecer uma sérvia grande, limpa de não-sérvios. Eles agitavam uma guerra cruel contra os croatas da Bósnia e os cidadãos muçulmanos (que eram vistos como colaboradores dos ustasha) e os Partisans, que eles viam como rivais de pós-guerra. Os Partisans, a força de resistência comunista liderada por Tito, também era um grupo predominante sérvio (o próprio Tito era meio croata, meio esloveno), mas recebia muitos recrutas muçulmanos e croatas, que estavam descontentes com o crescimento do regime ustasha e a crueldade dos chetniks. Os partisans lutavam uma guerra contra as forças do eixo, geralmente, de forma defensiva e lideravam uma campanha agressiva contra os chetniks, a quem eles eventualmente atacavam”. (Sacco, 2001, p.21). Esse barril de pólvora foi controlado pelo Marechal Tito por praticamente quatro décadas. Contudo, após sua morte, em 1980, chega ao poder na Sérvia um sujeito pouco carismático, mas exultante do nacionalismo sérvio, Slobbodan Milosevic. Ele inflou os sérvios a construir a “grande sérvia” e impedir a independência das repúblicas da Iugoslávia, que, a essa altura, já não viam razão para permanecer unidas. Primeiramente, reacendeu a rivalidade histórica de sérvios contra croatas ligados à ustasha. Um conflito civil se iniciou na Croácia e, logo depois, a Bósnia precisaria definir seu futuro. Edin relata para Sacco que a convivência entre sérvios, croatas e bosniaks (bósnios muçulmanos) era muito pacífica: “Eu não fazia distinção entre crianças sérvias, croatas e muçulmanas. Nós estávamos sempre juntos... pescando nas florestas, no parque, no estádio...”. (Sacco, 2001, p.18). Após o início de diversas ações do partido sérvio da Bósnia (SDS) para impedir a saída da Bósnia da Iugoslávia, Edin conta que a hostilidade dos sérvios foi aumentando exponencialmente em relação aos bosniaks. “Eu perguntei a muitos sérvios... bons amigos... qual a razão... e a resposta era sempre a mesma: ‘Por que vocês não querem viver conosco num mesmo país, com Montenegro e a Sérvia?’ Meu amigo me disse: ‘Não espere boas relações entre nós no futuro próximo. Você tentara matar todos os sérvios na Bósnia e criar um país muçulmano’. Eu disse a ele que não era verdade e, se fosse, eu não iria querer viver num país muçulmano. Nos últimos dias antes da guerra, não se ouvia mais... ‘Olá, vizinho, como está’”. (Sacco, 2001, p.40). As páginas seguintes da HQ Gorazde de Joe Sacco relatam o cotidiano e as consequências desse conflito que teve seu apogeu de horror no cerco a Saravejo e Srebrenika, quando tropas sérvias sitiaram essas duas cidades e cometeram massacres inimagináveis na Europa após o holocausto nazista, por cerca de três anos – de 1992 a 1995 – deixando milhares de vítimas. Esse episódio ficou registrado em um trabalho ímpar de criação artística e documentação histórica. Fax de Sarajevo é uma HQ criada por Joe Kubert, autor de Thor e Gavião Negro pela DC, a partir de faxes enviados a ele por Ervin Rustemagic, dono de uma editora de quadrinhos chamada Strip Art Features, que tinha sede em Saravejo. Essa obra é preciosa, pois retrata o drama de Rustemagic tentando fugir desesperadamente com sua família da cidade, tendo, a cada passo dado, sua vida posta em risco pelos francoatiradores espalhados por todos os lugares. A edição brasileira conta com fotografias reais durante o cerco, bem como com fac-símiles, traduzidos para o português, dos faxes enviados por Ervin relatando seu cotidiano e pedindo ajuda estrangeira. Além disso, as ilustrações dão conta de nos transportar para o cenário da guerra de forma sensível, e, ao mesmo tempo, profundamente realista. A HQ nos permite ter contato com momentos como este: “Caros Muriel e Joe, Já faz 12 dias que sofremos sob bombardeios e desastres que uma guerra tão suja como esta provoca. Vocês não conseguem imaginar o que significa para nós poder saber de vocês todos os dias. Não tenho palavras para explicar o quanto amamos vocês, Hermann, Martin, Jacques e todos os que se importam conosco e com o que acontece aqui. Quem me dera poder escrever faxes diferentes para cada um todos os dias, mas, dadas as circunstâncias, isso seria muito difícil. Junto incluo o fax que enviei pela manhã ao Martin e ao Jacques, na Holanda. Com amizade, Maia; Ervin; Edina”. O cenário atual na Europa, com destaque para a guerra entre Rússia e Ucrânia, nos interpela a estarmos atentos aos efeitos que o nacionalismo pode provocar. Basta lembrar que o presidente russo Vladimir Putin é aliado do presidente, recém reeleito da Sérvia, Aleksadar Vucic. Em seus discursos, volta a ressoar o desejo de uma “grande sérvia”, de modo que os sérvios assumam um lugar estratégico na geopolítica global. Os Balcãs são um termômetro importante para medir os limites que estão sendo impostos às democracias mundo afora. São em momentos de crise que nossa memória tem de estar mais presente, de forma que o futuro não repita o passado. Texto escrito por Marco Aurélio Cardoso Moura Professor de Língua Portuguesa no Ensino Médio; formado em Letras pela USP e especialista em Juventude no Mundo contemporâneo pela FAJE-BH. Hoje é mestrando em Educação pela FE-USP e colunista do “Zero Águia”. Fontes: Sacco, Joe. Área de segurança Garazde: a guerra na Bósnia oriental 1992-1995. São Paulo: Ed. Conrad, 2001. Kubert, Joe. Faz de Sarajevo. São Paulo: Via Leitura, 2016.

  • Tráfico de Pessoas: a escravidão moderna

    As fronteiras geográficas são limites políticos e demográficos que surgiram ao longo da história da humanidade, oriundas de inúmeras guerras, secas, desastres naturais e processos de dominação entre pequenos e grandes principados, até a constituição do que chamamos atualmente de Estado-nação. O conceito de Estado-nação nasceu na Europa, já no final do século XVIII e início do século XIX, e transformou o curso da história, pois a partir dali houve uma mudança no entendimento do que conhecemos hoje como os Estados soberanos e controle de fronteiras, sejam elas terrestres, marítimas ou aéreas. Também à partir daí surgiram as regras normativas que regem estes Estados e toda sua população dentro do seu território, e as pessoas que nascem dentro deste território são os seus nacionais, e é dever do Estado protegê-las dentro ou fora dele. Isto posto, podemos começar este artigo. O advento da Internet, sistema global de redes de computadores interligados, já na década de 1990 possibilitou a aproximação de pessoas espalhadas em diversas partes do mundo, tornando-o cada vez mais interligado. Se de um lado, isso possibilitou maior interação e democratização da informação e comunicação para os usuários, de outro, surgiram problemas de fiscalização, controle e mapeamento desse sistema, consequentemente a tornando também um palco perfeito para variados fins entre eles facilitar a rede para o tráfico de pessoas em todo o mundo, crime transnacional que não se limita a fronteiras, nem mesmo nacionalidade. A dificuldade no diagnóstico e prevenção ao Tráfico de Pessoas Proponho que você a partir deste momento em que lê este artigo mude ocasionalmente sua percepção, que entenda que uma pessoa, como é vista pelos criminosos, deixa de ser um ser humano pleno dos seus direitos mais elementares e passa a ser vista como um produto que pode ser vastamente explorado e rentabilizado para os fins mais obscuros, diversos e degradantes que a capacidade humana conseguiria chegar ou imaginar. Pensar no tráfico de pessoas sem a interpretação capitalista que advém das suas engrenagens pode dificultar o entendimento sobre seu funcionamento e objetivo, pois existe em todas as suas formas a visão do “ganho” com a exploração da vítima, podendo ser financeira, física e/ou emocional, oriunda da objetificação de outra pessoa, vista sempre como frágil e inferior sob vários aspectos sobretudo pela sua situação de desproteção e dependência, o que lhe garante uma posição de poder perante toda a situação e vítima. Há uma visão amplamente divulgada de que a pessoa traficada está somente em cárcere privado e sem nenhuma forma física de sair daquela situação, o que acontece em alguns casos, mas as engrenagens do tráfico de pessoas são mais complexas. Em alguns casos há "liberdade" de ir e vir da vítima, mas a intimidação é psicológica, por isso, quando a vítima procura o poder público ela não é facilmente identificada pelas autoridades. O Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, conhecido apenas como Protocolo de Palermo, esclarece em seu artigo 3º, o que é caracterizado como tráfico de seres humanos com o chamado A.M.O: Considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a “Escravidão Moderna” o tráfico de pessoas é hoje o terceiro crime mais rentável para o crime organizado, atrás somente do tráfico de drogas e de armas, estima-se que o crime organizado fature cerca de US$ 32 bilhões por ano, cifra que pode ser ainda maior. O crime organizado tem uma extensa rede de atuação transnacional com formas distintas de capturar e monitorar suas possíveis vítimas. Não existe uma única forma de atuação ou modus operandi, pois atuam em diversas áreas e suas engrenagens são facilmente readequadas, por isso a subnotificação é um fator que costuma atrapalhar as investigações do poder público e dos organismos internacionais. Não existe um perfil de vítimas Especialistas afirmam que não existe apenas um perfil de vítima para este crime, o que é sabido é que a maioria das vítimas do tráfico de pessoas têm em comum a situação de vulnerabilidade, ou extrema vulnerabilidade, e que muitas vezes são aliciadas por promessas de uma vida melhor em outros lugares, seja em âmbito nacional ou internacional. O próprio Protocolo de Palermo prevê em seu texto que o consentimento é irrelevante em casos de vítimas de tráfico humano, por isso estabelece que mesmo havendo consentimento da vítima, em um primeiro momento, caso haja algum tipo de exploração no destino final, o consentimento (independente da modalidade) será considerado irrelevante se obtido pelos meios de coação (emocional ou física), ou enquadrando-se em um ou mais dos itens, como: I. engano, II. fraude, III. abuso de autoridade; IV. situação de (extrema) vulnerabilidade. Isso quer dizer que, mesmo havendo prévio conhecimento da vítima sobre a situação que ela estaria sujeita, isso não desconfigura o crime de tráfico, pois a exploração do trabalho/situação delas continua sendo uma violação de direitos humanos, com previsão legal e jurisdição internacional, portanto o consentimento não é motivo que descaracteriza a situação de tráfico de pessoas e nem isenta a ação criminosa. Outro dado relevante é que uma a cada três pessoas traficadas é menor de idade e 70% de todas as vítimas são mulheres e meninas. O Protocolo de Palermo, ao contrário dos instrumentos anteriores, reconhece que todas as pessoas podem ser traficadas, não apenas mulheres e crianças, e destaca também que o tráfico de pessoas pode ocorrer em todos os setores de trabalho sem se limitar ao mercado do sexo, como é comumente difundido. Atuar na área de tráfico de pessoas nos faz encontrar respostas deste crime bárbaro em vários episódios da história, como conta-nos a internacionalista e ativista Camila Bellato do Projeto Líbertas Brasil (que também sou orgulhosamente uma das integrantes): “se considerarmos a Bíblia (cristã), símbolo considerável das religiões monoteístas como uma fonte histórica, veremos que o tráfico humano é uma atividade que faz parte da estrutura social e econômica muito antes de Cristo, como período histórico. Mas quando pensamos em tráfico de pessoas no mundo ocidental é associado aos tráfico de africanos, que tem início ao final do século XV quando é iniciada a expansão das Grandes Navegações, porém os portugueses foram pioneiros a comercializar seres humanos no comércio “internacional” de longas distâncias. Segundo The Trans-Atlantic Slave Trade Database, estima se que entre o século XVI à XIX foram traficado aproximadamente 12,5 milhões de africanos pelo mundo. O Brasil é o país que mais recebeu africanos nesse período, acredita-se que foram aproximadamente 8,5 milhões” O Brasil tem cerca de 241 rotas de tráfico de pessoas mapeadas, a maior parte destas rotas estão no Norte e Nordeste do país, em regiões que apresentam altos índices de vulnerabilidade econômica e social, além das conhecidas rotas de turismo sexual, com destaque para os estados do Nordeste. O aliciamento é a primeira etapa de “ação”, como é conhecida pelos especialistas, pois é a partir deste momento que inicia de fato o processo de tráfico. O aliciador é uma espécie de recrutador do crime organizado que age no recrutamento e convencimento, aproveitando-se da sua proximidade ou até mesmo da identificação com a vítima, tornando o caso muito difícil de ser diagnosticado. A percepção da vítima é distorcida por tratar-se de alguém “conhecido” e que lhe passa a falsa ideia de segurança e confiança. Somando-se a isso a sua esperança de que haverá ganhos na proposta e uma eminente mudança de vida Campanha coração azul e a prevenção como melhor caminho Em 2000, a ONU recebeu 13 mil denúncias, já em 2018 foram cerca de 25 mil denúncias de casos de tráfico de pessoas como reflexo das campanhas de prevenção e informação das pessoas sobre o crime. É importante destacar que o caráter multidisciplinar do tráfico de pessoas é fator que dificulta até mesmo sua compreensão e fácil percepção, por isso as campanhas que visam a alertar precisam caracterizá-lo com mais facilidade. Além dos organismos internacionais, é preciso que o Brasil integre as polícias para que exista uma única base de informações entre elas, eliminando assim entraves burocráticos que dificultam as trocas e integração. Há necessidade de se pensar em ações e executá-las conjuntamente entre diversos setores, abordá-las sob várias perspectivas da política pública macro, desta forma envolvendo todo o poder público para uma única ação de prevenção deste crime que vitimiza milhões de pessoas em todo o mundo. É dever do Estado zelar e proteger seu nacional de todos os riscos que possam colocá-lo em situação de degradação e risco. Aproveito este espaço para reforçar que julho é o mês da campanha Coração Azul, que foi pensada e criada pela Organização das Nações Unidas para falar da dor das milhares de vítimas do tráfico de pessoas e conscientizar dos riscos sobre o crime. No Brasil, o número para denúncia é o Disque 100. Texto escrito por Katiane Bispo Formada em Relações Internacionais e especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no para “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Àguia” e integrante do “Projeto Líbertas”. Instagram: @uma_internacionalista. Fontes: https://nacoesunidas.org/numero-de-casos-de-trafico-de-pessoas-atinge-recorde-em-13-anos-indica-relatorio/amp/ - [Relatório Tráfico de Pessoas - ONU] https://www.justica.gov.br/sua-protecao/trafico-de-pessoas/publicacoes/relatorio-de-dados.pdf - [Relatório de Tráfico de pessoas Polícia Federal] https://www.unodc.org/blueheart/pt/about-us.html - [UNODC] https://www.unodc.org/documents/congress/background-information/Human_Trafficking/TIP_Manual_es_module_01.pdf - [Manual de Combate ao Tráfico de Pessoas]

  • Refugiados: a escolha por continuar a viver

    “Migrantes e refugiados estão enfrentando três crises de uma vez: socioeconômica, de saúde e de proteção”, essa contundente frase foi dita pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em junho de 2020 ao fazer um apelo aos países de todo o mundo para que encarassem a questão migratória como uma crise humanitária e que acolhessem essas pessoas de modo mais fraterno, relatando inúmeras denúncias de xenofobia e violência em todo o mundo. Estamos vivendo a maior crise migratória da história recente desde o fim da fatídica Segunda Guerra Mundial, e isso exigirá dos Estados maior sensibilidade ao tema de modo que possam acolher essas pessoas em seu território e não somente o acolhimento como dar a elas uma possibilidade de construir suas vidas. Ser um imigrante não é algo simples, exige uma adaptação à cultura e costumes daquele novo país, mas pressupõem que inicialmente essa condição não é de modo abrupto como acontece com os refugiados. De modo simplificado, o refúgio pressupõe um deslocamento a outro Estado para manutenção de sua vida (e de sua família). O deslocamento do refugiado é abrupto, e em muitos casos pode ser visto até mesmo como forçado, pois se desloca por temor de perseguição causada motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais. Retornar ao seu país de origem muitas vezes não é recomendável por correr riscos graves a sua integridade física ou a garantia da sua vida. Perfil do refugiado no Brasil O Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), órgão colegiado do Ministério da Justiça e Segurança Pública, é quem trata das questões sobre os refugiados no Brasil. Em dezembro de 2021, divulgou pela primeira vez uma base geral com dados que podem ajudar a identificar o perfil dos refugiados (e requerentes do status de refúgio) no Brasil. Os estados do norte do país têm recebido o maior número de requisição do status de refúgio devido à proximidade da sua fronteira com a Venezuela. Enquanto o estado de Roraima segue na liderança com mais de 40.974 requisições, o Amazonas com 10.317 requisições, e em seguida São Paulo com 8.433, o único estado sudestino do pódio e justificável por ser o estado com maior capital econômico do país. O Brasil deferiu cerca de 54.004 solicitações de refúgio até dezembro do ano passado, totalizando 71,8% das requisições, e indeferiu cerca de 8.990 o que representa 12%, um percentual baixo considerando a quantidade final. Os países que mais têm solicitante de refúgio são Venezuela e Senegal que somam quase 80%. Em seguida vem Haiti, Síria, Angola, Cuba e a República Democrática do Congo. A maior parte dos refugiados possuem entre 18 a 59 anos, onde 38.656 deles possuem de 30 a 59 anos, mas há muitos jovens entre 18 e 30 anos também, cerca de 29.145. O que nos mostra que o perfil dos refugiados é formado em maioria por adultos e jovens, e em sua maioria homens, 46.598 e cerca de 28.615 mulheres. O motivador da condição de refúgio da esmagadora maioria é a chamada grave generalizada, que faz alusão ao inciso III do art. 1º da Lei nº 9.474, de julho de 1997, do Estatuto dos Refugiados onde será reconhecido como refugiado todo indivíduo que: “devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país”. Para ajudar a conduzir melhor sobre o tema deste artigo convidei Rodrigo Borges Delfim, fundador do site MigraMundo, para falar sobre migração, refúgio e o papel do jornalismo independente com um importante ator ao trazer o assunto como pauta. O MigraMundo foi fundado em 2012 como resultado de uma curiosidade que permeou toda a infância de Rodrigo, que cresceu em um bairro com muitos imigrantes. Mas foi só na universidade que “descobriu” que a migração tinha mais recortes e conheceu outras comunidades além das que estava habituado na infância, como os bolivianos, chilenos e lituanos na cidade de São Paulo. Falar sobre refúgio (e migração) exige por si só uma grande empatia da condição da pessoa que se encontra naquela situação e o trabalho de falar sobre o tema para Rodrigo também é muito importante: “(o) jornalista precisa ter consciência dos impactos que o trabalho dele vai ter no seu público e na comunidade” e complementa falando do trabalho que abordar esse tema teve em sua vida, sobretudo no início do MigraMundo quando o site estava apenas começando pois ainda era um projeto pessoal que exigia dele suas horas livres para manter o site no ar e atualizado. O MigraMundo hoje é considerado uma grande fonte de consulta quando o assunto é migração não se limitando apenas a São Paulo, mas em todo o país. Rodrigo reconhece o esforço de manter o site e acredita no trabalho que realiza com o MigraMundo como um jornalismo humanitário de paz. Migrar é um direito humano Os fluxos migratórios fazem parte da história da raça humana. Sem a migração de nossos ancestrais, nossa espécie estaria extinta. O pesquisador Víctor Moreno, pós-doutorado do Centro de Geogenética da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, contou em uma entrevista realizada pela BBC News Mundo que “os humanos anatomicamente modernos deixaram a África há pelo menos 100 mil anos e começaram a se espalhar. E em algum momento depois de 40 mil anos, os humanos desenvolveram a tecnologia necessária para começar a explorar mais ao norte” e que sem essa migração provavelmente nossa vida no planeta em muitas áreas simplesmente não existiria. Não surpreende o fato de que falar de migração com o entendimento de Estados modernos cause tanta estranheza e até mesmo medo, pois vivemos a Era Moderna das delimitações geográficas de linhas que se criaram no decorrer da história, mas que não delimita em si a vida humana no planeta. Os mapas que costumamos desde cedo visualizar nas nossas aulas de Geografia e História representam uma divisão muitas vezes políticas dos territórios, mas que não contam em sua totalidade a raiz daqueles espaços geográficos recortados por linhas imaginárias, no qual destaca Rodrigo: “a migração é um fenômeno social e parte do ser humano, não devemos enxergar a migração de modo nacionalista, securitário e xenofóbico”. Recomeçar a vida longe da sua pátria-mãe não é fácil. Não é raro ouvir histórias de refugiados que saíram de seus países de origem somente com a roupa que estavam usando e deixando toda sua história para trás. Não apenas sua história como, seus documentos, sua profissão, sua rede de apoio e em muitos casos até mesmo sua família. Não bastasse o cenário de readaptação de modo abrupto, outro retrato vivido por alguns refugiados é o racismo vivido, pois “o povo preto e periférico é visto como marginal. Os haitianos, por sua vez, são vistos de forma ainda pior (...) um imigrante, originário de algum país europeu, por exemplo, será muito bem-vindo, porque é branco. O que possui origem negra, não”, conta o professor doutor na Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), José Ailton Rodrigues dos Santos. A morte do refugiado congolês Moïse Kabagambe (24), no Rio de Janeiro, no início deste ano é um retrato de como o comportamento a determinadas raças pode ser motivo relevante para um tratamento pior, e infelizmente no caso de Moïse, até mesmo fatal. O tratamento destinado a povos não-cristãos também costuma ser motivo de muito preconceito a quem escolhe o Brasil para se refugiar, como exemplo os afegãos que chegaram no país no ano passado, fugindo do seu país de origem com a tomada do poder político pelo Talebã. Recorrendo às teorias das Relações Internacionais para entender esse fenômeno que desafia não apenas a área econômica dos Estados, mas também a visão Realista predominante no cenário internacional, onde os países precisam garantir antes de mais nada seu poder e força e menos valores mais Idealistas como a cooperação e acolhimento, talvez faça-se necessário resgatar o apelo de Guterres, com qual iniciei este artigo, e olhar a fraternidade para além de linhas imaginárias e mais como raça humana, que migra seja por necessidade, seja por opção. Como nos lembra Rodrigo “a mobilidade humana é uma janela para o mundo, onde você aprende muito sobre o mundo a partir da circulação das pessoas”. Notas de agradecimento ao Rodrigo Borges Delfim pela disponibilidade em colaborar com este artigo. O MigraMundo trabalha com jornalismo independente e convidamos a todas e todos conhecerem o trabalho realizado por eles. Para mais informações sobre migração. Site: Home | MigraMundo Texto escrito por Katiane Bispo Formada em Relações Internacionais e especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no para “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Aguia” e integrante do “Projeto Líbertas”. Instagram: @uma_internacionalista. Bibliografia ACNUR, Crise Migratória: https://www.acnur.org/portugues/2020/06/03/refugiados-e-migrantes-enfrentam-tres-crises-de-uma-so-vez-alerta-secretario-geral-da-onu/ Crise migratória: https://www.ufrgs.br/ripe/wp-content/uploads/2017/05/migra%C3%A7%C3%B5es.pdf Ministério da Justiça: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/seus-direitos/refugio https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiNTQ4MTU0NGItYzNkMi00M2MwLWFhZWMtMDBiM2I1NWVjMTY5IiwidCI6ImU1YzM3OTgxLTY2NjQtNDEzNC04YTBjLTY1NDNkMmFmODBiZSIsImMiOjh9 Migração humana: https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-3c7cd43a-42e9-4379-a5f1-a02af109fabf

  • A formação da república brasileira e seu território

    ​Este artigo pertence a o "Dossiê: Funcionamento do Estado brasileiro" - Artigo 1 Ganhei uma missão desafiadora e embora me considere uma grande amante do tema preciso reconhecer que destrinchá-lo demandou um empenho extra da minha parte, sobretudo transformá-lo em algo simples e de fácil entendimento. Abro neste artigo um dossiê sobre o funcionamento do Estado brasileiro. Para me ajudar, usarei como base a Constituição Federal de 1988, a nossa Carta Magna, que orienta e rege todo o ordenamento jurídico brasileiro e que guarda em seu texto muitas informações importantes sobre o nosso país. Não poderia iniciar de nenhuma outra forma este dossiê sem passar antes pela organização e a formação do nosso Estado, por isso, prepare seu bloquinho de notas e adentre comigo no fascinante mundo da Administração Pública e da Política nacional. Formação e Organização do Estado: os componentes centrais para separarmos as "caixas" A formação do Estado é fundamental para entendermos a estrutura de um país, ou seja, o seu esqueleto, o que consiste em falar sobre seu território, sua população e seu governo. Eixo 1: Território e os entes federativos O território é toda a extensão de terra do nosso país, e logo no início da nossa Constituição Federal de 1988 recebemos a orientação de que somos uma República Federativa em uma união indissolúvel dos estados, municípios, Distrito Federal, e que vivemos em um Estado Democrático de Direito. Destrincharemos essas informações aos poucos porque neste único trecho temos muitas informações cruciais. Nele, está claro de que o Brasil é uma Federação, ou seja, os estados e municípios são: Indissolúveis, não se admite sob nenhuma forma a dissolução do nosso território; Têm autonomia administrativa para se organizarem e são independentes para tal; Não detém soberania, mas detém autonomia; E que são entes federativos regidos pela Constituição Federal 1988. Isso nos esclarece o porquê dos municípios e estados terem suas próprias leis, as leis estaduais e municipais, mas em ordem de Hierarquia das Normas, caso haja discordância de algum tema a Constituição Federal de 1988 terá sempre um peso maior. Entendemos aqui que nosso território é dividido e formado por entes federativos, e que eles detêm autonomia para sua organização. Vamos transformar isso em algo mais lúdico. Uma determinada empresa tem uma presidenta de um multinacional, e ela decide delegar algumas atribuições entre os departamentos, dando a eles autonomia para se autogerenciar. Mas ela deixa claro que ainda assim as regras da empresa serão mais importantes do que qualquer regra interna nesses departamentos, somente ela teria soberania para tal, ou seja, só ela como presidenta da empresa é inviolável e maior que todos os departamentos para decidir os assuntos da empresa. Eixos 2 e 3 : Brasil, uma República Federativa e Presidencialista A proclamação da república brasileira datada por historiadores, aconteceu no ano de 1889, foi a partir desta data a derrubada da monarquia e na instauração da nossa república do Brasil. O Brasil é uma república jovem e passa por períodos turbulentos desde sua instauração até os dias atuais. Para alguns cientistas políticos isso faz parte do seu amadurecimento, e poderia ser a explicação do porquê ainda não conseguirmos sair do Patrimonialismo que nos atormenta ao longo da nossa história, mas isso é assunto para outro artigo. Voltemos a nossa república, também conhecida como “Nova República”, termo que está em vigor desde o fim da Ditadura Militar. Para Paulo Cardim, Reitor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo: "Ser republicano não basta. Há que ser democrático, no sentido amplo e irrestrito, assegurando, do prefeito ao presidente da República, os direitos fundamentais do ser humano e o reconhecimento dos 'valores sociais do trabalho e da livre iniciativa'. Somente assim caminharemos para uma república democrática plena. Somos ainda uma república adolescente, jovem. Cabe-nos construir a nossa maturidade constitucional e política” No Brasil, dividimos nosso poder entre os entes federativos, o que já foi mencionado no tópico anterior. A União, mais conhecida como governo federal, é administrada pela Presidente da República, o chefe maior do Executivo. Por sermos um país democrático, o chefe de governo é eleito pelo voto direto dos cidadãos brasileiros e com isso a cada 4 anos há eleições para eleger esta figura tão importante para nosso país que é o Presidente. Por isso, o Presidente da República é também para o Brasil, o Chefe de Estado e Chefe de Governo, por sermos uma República Federativa e Presidencialista. O princípio de uma República pressupõe que possamos eleger representantes direta e indiretamente, e que estes representantes se atentem sempre ao interesse do povo, além de perseguir diversas formas em melhorar a vida da população. Portanto, ser republicano em sua síntese é dar voz aos interesses da população e levar adiante estes temas em todos os poderes, seja no Executivo ou Legislativo. Falando sobre os Poderes do Estado, no próximo artigo vou esmiuçar melhor sobre eles e o papel de cada um. Não perca! Texto escrito por Katiane Bispo Formada em Relações Internacionais e especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia”. Instagram: @uma_internacionalista. Bibliografia Constituição Federal do Brasil 1988: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm República Brasileira: https://www.politize.com.br/proclamacao-da-republica/ República Brasileira 122 anos: https://www.belasartes.br/diretodareitoria/artigos/republica-brasileira-uma-jovem-de-122-anos Manual da Presidência da República: https://www.gov.br/secretariadegoverno/pt-br/portalfederativo/guiainicio/prefeito/trilhas-100-dias-de-governo/todos_entes_federados.jpg/view

  • Poderes do Estado: representatividade e equilíbrio de força

    Este artigo pertence ao "Dossiê: Funcionamento do Estado brasileiro" - Artigo 2 No artigo anterior falamos sobre a nossa jovem República e explicamos de modo breve o porquê é importante entendermos nosso país como uma federação, e o que isso impacta no modo como os entes federativos podem se organizar de modo; regional, local e nacional. Hoje, o desafio é falar sobre os três poderes e como eles são responsáveis pelo funcionamento do Estado brasileiro, por isso focaremos em falar deles em nível nacional. Estabelece nossa Constituição Federal de 1988 em seu art. 2º que: “São poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. E estes mesmos poderes que ganharam as manchetes de vários jornais nacionais (e internacionais) nos últimos tempos por constantes "quedas de braço" o que muitos considerou nociva para o país, mas que vai ao encontro do porquê de cada um deles existir. A separação dos 3 poderes A separação dos 3 poderes faz parte da corrente Tripartite de um governo e Aristóteles já citava esta divisão na sua ilustre obra "A Política". Os poderes de um Estado divide-se em: Executivo - função administrativa de gestão do Estado, estados e municípios. Legislativo - elabora as leis de um Estado, estado e municípios. Judiciário - aplica as leis, é o defensor e guardião da Carta Magna e de todo o ordenamento jurídico do Estado. Cada poder deve seguir as diretrizes do que lhe compete, essa "divisão" foi idealizada para garantir que nenhum poder se exceda ao outro, e que haja um equilíbrio entre eles, mas não foi bem o que vimos no Brasil nos últimos tempos e é algo sintomático. O equilíbrio dos poderes para garantir que não haja excesso Nascido na França em 1689, Charles-Louis de Secondat, o barão de La Brède e de Montesquieu, popularmente conhecido somente como Montesquieu, foi um político, filósofo e escritor que ganhou notoriedade justamente pela sua teoria da separação dos poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais, inclusive a nossa, a Constituição Federal de 1988. Importante pensador do modelo tripartite, Montesquieu não apenas defendia que cada um deles tivesse suas delimitações, como justificava que poderiam assim se equilibrar e evitar excessos que é inerente ao poder e que a divisão garantiria a saúde de um Estado. Desde a retomada do modelo democrático no Brasil nenhum Presidente da República, representante maior do Executivo nacional, entrou em inúmeras "queda de braço" com os outros poderes como Jair Messias Bolsonaro, eleito em 2018. Bolsonaro não apenas desafiou os demais poderes inúmeras vezes como em diversas oportunidades questionou a isonomia, integridade e idoneidade deles, sobretudo o Supremo Tribunal Federal, órgão de representação máxima do Judiciário. Os ataques ao STF são constantes por parte de Bolsonaro: “(...) deveria estar respondendo processo lá no inquérito do Alexandre de Moraes (ministro do STF), se fosse um inquérito sério e não essa mentira, essa enganação que são esses inquéritos do Alexandre de Moraes”. “No ano passado o Congresso ia aprovar o voto impresso numa PEC. O que o Barroso fez? Ele era presidente do TSE (...) É uma interferência política, isso é um crime previsto na Constituição. O Barroso (ministro do STF) é um criminoso. Barroso, tu é um mentiroso, um mentiroso” “Fachin (ministro do STF) ajudou a ser elegível um bandido” “Não tenho apoio de alguns ministros do STF, pelo contrário, agem de forma ativa para dar mais moral para os criminosos” O Supremo Tribunal Federal(STF) é composto por 11 magistrados e a indicação é realizada pelo chefe do Executivo, o Presidente da República, onde o indicado (ou indicada) deve passar por uma sabatina das duas casas do Congresso Federal, ou seja, a casa do Legislativo. Isso quer dizer que, o Poder Judiciário passa por uma aprovação de seus representantes pelos outros poderes. Do mesmo modo, o Presidente da República só pode ser impedido do seu mandato (com um processo de impeachment) com a aprovação do Câmara dos Deputados e dos Senadores e com a devida apuração do STF deste processo. Por sua vez, durante cumprimento dos seus mandatos, os representantes do Legislativo e Executivo só poderão ser julgados pelo STF. Isso quer dizer que há entre os poderes uma correlação de dependência. Crise institucional: a descredibilidade mancha imagem dos 3 poderes há anos Um lamentável episódio da nossa história recente e que colocou em xeque a idoneidade dos poderes foi o espetáculo organizado pelos veículos de imprensa com o processo de impedimento da ex-presidenta Dilma Rousseff. O episódio seria apenas o prenúncio dos tristes capítulos que esta República presenciaria dali em diante e com desdobramentos inimagináveis. O processo foi marcado em uma espécie de "caça às bruxas" ao Partido dos Trabalhadores (PT), além de um show de horrores durante a votação nas Câmara dos Deputados, que contou com votos homenageando a família, aos apoiadores e até mesmo o Coronel Brilhante Ustra, reconhecidamente como um cruel torturador durante os anos de chumbo na ditadura militar (1964-1985), trazido a lembrança pelo então, na época, deputado federal Jair Bolsonaro, o que não surpreende a ninguém que Jair Bolsonaro tem certa tara pelo coturno e flerta abertamente com o autoritarismo. Outro fato marcante desse triste episódio foi a enigmática frase de Romero Jucá sobre o famoso "acordão" entre os poderes. Jucá chegou a mencionar um acordo "com Supremo, com tudo", fazendo uma alusão ao envolvimento do então presidente da Câmara Eduardo Cunha, o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros e o STF para "estancar a sangria" e impedir a ex-presidenta Dilma Rousseff. O desconhecimento facilita a falta de fiscalização dos poderes Se por um lado a divisão dos poderes norteia a organização do Estado, um estudo realizado pela QUAEST, neste ano, revelou que mais de 70% da população brasileira não sabe o que significa a sigla STF, e que 22% nunca ouviram falar na Corte. Outro dado preocupante é que mais de 80% das pessoas não escolheram e nem sabem em quem votarão para os cargos do Legislativo (deputados federais e senadores). E ainda há outros 9% que pretendem deixar de votar (soma de nulo, branco e abstenção). O desinteresse do eleitor é justificado pelo índice de reprovação ao trabalho do Congresso Nacional, medido em mais de 60% das duas casas. Para senador, o índice de reprovação chega a alarmantes 63%; o dado é maior para deputado federal, chegando a 66%. No geral os políticos são reprovados por 73%. Essa crise institucional que o Brasil vive é sintomática de algo que vai além de descrença nos poderes e conhecimento do que cada um deles é responsável, falta aos brasileiros algo que há muito tem se falado: a falta de representatividade. A diversidade como base da Democracia A Constituição diz que somos todos iguais em nossos direitos e deveres. Porém, somos um povo diverso e desigual, governados por um determinado padrão que não representa o povo como um todo. Embora a democracia signifique o governo do povo, feito pelo povo e para o povo, segundo análise dos dados do TSE, nas eleições de 2018, a realidade não tem sido bem assim. O padrão político que assumiu uma cadeira no legislativo em 2018 ainda é o mesmo das eleições anteriores sendo de: um homem branco, hétero e com formação superior. O que é bem contrastante do perfil da população brasileira, que é composta na maioria de negros, 56%, e mulheres, em torno de 51% da população, além de diversas populações LGBTQIAP+ e a população indígena, por exemplo, que não são representadas. Esse perfil governante não atende a diversidade necessária para que se governe para todos. Ele busca manter o poder em suas mãos, para que não haja a possibilidade de debate e que as leis e sua execução sejam a seu favor, distanciando os diversos, causando descaso e descrédito na política por sua parte. A ausência de diversidade popular no governo é perigosa e é uma importante ferramenta no fomento a desigualdade e combustível para governos autoritários. O voto consciente em candidatos para as casas legislativas estaduais e federais tem um grande poder na busca da diversidade e representatividade do povo. A ausência de diversidade e a política para poucos Com mais de 50 mil votos nas eleições municipais de 2020, Erika Hilton foi a vereadora mais votada do Brasil. Um contraste no perfil mostrado anteriormente, ela representa outras minorias, sendo uma mulher trans e preta. No pleito ao congresso nacional deste ano, Érika concorre ao cargo de Deputada Federal pela primeira vez. A sua candidatura se soma a outras 213 da população LGBTQIAP+, o que representa aumento de 36% no número de candidaturas desse público em relação ao pleito nacional de 2018. Essas candidaturas falam de uma população marginalizada, que durante muitos anos não teve representantes e, por consequência, foi deixada de lado ao longo das discussões políticas desde antes da redemocratização de 1985. Alguns dos principais direitos adquiridos por essa população foram conquistas via STF, como a criminalização à homofobia apenas em 2019, após pressão de associações e movimentos populares devido o aumento significativo de violência contra essa população após a eleição do representante de extrema direita a Presidência da República. A necessidade da diversidade nas casas legislativas, seja ela municipal, estadual ou nacional, é extremamente necessária. Em um ambiente onde o povo é representado de maneira genuína, a diversidade assegura seus direitos e reafirma a teoria dos freios e contrapesos da democracia. A mulher sai de casa e toma o poder Os primeiros nomes a lutar por direitos iguais nas casas legislativas, foram os de Carlota Pereira de Queiros e Bertha Lutz, na década de 1930. Mesmo em dissonância em alguns pontos, as duas primeiras mulheres a assumirem cadeiras na câmara dos deputados foram responsáveis por conquistas femininas àquela época. Embora a presença feminina na política se registre desde a participação de Carlota e Bertha há 9 décadas, em pleno 2022 essa presença nas casas legislativas ainda é baixa. Das mais de 10 mil inscrições em busca de uma vaga no congresso, em torno de 3500 são mulheres. Crescimento de 28% do total em relação ao pleito de 2018. Negros: maioria na população, minoria das casas Embora seja maioria na população brasileira de acordo com o IBGE, a população negra ainda é minoria das nas casas legislativas. Para o atual período eleitoral, a população negra representa menos de 15% das inscrições registradas no TSE, em comparação com o período de 2018, era menos de 12%. Embora haja crescimento no número de candidatura representando mulheres, negros e LGBTs, houve aumento também no número de milionários concorrendo a cargos legislativos. Maior diversidade, menor desigualdade O Congresso Nacional é a casa do povo, sendo assim, é necessário que seja tomado por figuras que não só representem a diversidade, mas que lutem e dê voz a ela. É a partir disso que são trazidas vivências e realidades que, em muitos casos, são desconhecidos pela população dominante. A partir do momento em que esses debates são trazidos a casa do povo, podem ser propostas políticas públicas de inclusão social, saúde, educação e acesso a serviços, antes não imaginados. O papel desses legisladores é de se posicionar a favor das minorias e apresentar ao executivo e judiciário propostas para atender as necessidades dessas populações, muitas das vezes marginalizadas, dando dignidade e possibilidade de sobrevivência. Outra função deles é criarem projetos que sejam ferramentas de reparação histórica e que dêem condição de ascensão social. Um exemplo disso foram as cotas universitárias implementadas pelo Governo Lula (2002 - 2009), para pessoas negras e pobres, que muitas das vezes não tinham condições de acessarem o Ensino Superior. Em um governo de extrema direita, como o atual, as ferramentas de acesso das minorias são fundamentais para que funcionem os freios e contrapesos da democracia. Foi isso que deu a possibilidade da minoria solicitar a implantação da Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI, da COVID - 19, que investigou a inércia de tomada de decisão do Governo Federal no combate a pandemia. Diversidade não quer dizer representatividade Embora tenha ocorrido o aumento na participação de LGBTs, mulheres e negros na política, isso não quer dizer necessariamente que haja representatividade e preocupação com pautas que atendam aos vulneráveis dessa população. Exemplo disso é o senhor Sérgio Camargo, homem preto, que assumiu a Fundação Palmares, entre 2019 e 2022. Sérgio, que foi chamado pelo Presidente da República de "homem preto de alma branca", fez mais desserviço do que ajudou a população preta. Em uma de suas falas, ousou dizer que "não existe racismo no Brasil", desrespeitando a população e a Fundação que luta contra o racismo estrutural e busca conservar a cultura e povo negro, levando o nome de um dos maiores revolucionários contra a escravidão, Zumbi dos Palmares. A importância do envolvimento político da sociedade Muito se ouve da população que não se deve discutir política, porém isso se faz cada vez mais necessário. Ser governado por um determinado padrão dominante, que discute leis para seu próprio favorecimento, aumenta a desigualdade e desune. Ao olhar para o Congresso Nacional, a casa do povo e ver determinado perfil de governantes não representando minorias oprimidas, observa-se que isso abre oportunidade ao autoritarismo, à misoginia, sexismo e homofobia. A consciência social e a busca por candidatos responsáveis com pautas minoritárias é um importante contrapeso em uma possível reeleição de um governante autoritário e de extrema direita. É através dos então candidatos escolhidos para as casas legislativas estadual e federal, ao se tornarem eleitos, se tornarem responsáveis pela aplicação das propostas feitas em campanha em busca da diminuição da desigualdade e maior representatividade na casa do povo. Texto escrito por Katiane Bispo e Felipe Bonsanto Katiane é formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Aguia” e integrante do “Projeto Líbertas”. Para contato: Instagram: @uma_internacionalista. Felipe é formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Fontes Formação do Supremo Tribunal Federal: https://portal.stf.jus.br/textos/verTexto.aspservico=sobreStfComposicaoComposicaoPlenariaApresentacao Declaração de Jair M. Bolsonaro: https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-desafia-o-stf-convida-empresarios-golpistas-para-o-7-de-setembro-e-ataca-as-urnas/ Bolsonaro x STF: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/08/confronto-com-bolsonaro-colocou-imagem-do-supremo-em-xeque-entenda.shtml População não sabe o que significa STF: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/07/31/pesquisa-quaest-stf.htm Charge: https://blogdoaftm.com.br/charge-depois-da-eleicao/ O papel da câmara: https://www2.camara.leg.br/a-camara/conheca/o-papel-da-camara-dos-deputados O perfil dos deputados federais: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/10/21/perfil-medio-do-deputado-federal-eleito-e-homem-branco-casado-e-com-ensino-superior.ghtml Candidatos que desputam a câmara em 2022: https://www.camara.leg.br/tv/905975-confira-o-perfil-dos-candidatos-que-disputam-uma-vaga-na-camara/

  • A violência política no Brasil

    O cenário está posto. As cortinas se abrem para o “espetáculo da democracia” anunciado e esperado com certa ansiedade por muitos e pelos mais variados motivos. Os expectadores, somados são mais de 217 milhões, nascidos de uma pátria mãe nem sempre tão gentil para muitos: o Brasil. Na bagagem histórica, 21 anos de uma ditadura militar que deixou milhares de mortos (muitos com destino desconhecido sobre seus restos mortais), inúmeras sequelas socioeconômicas, o controle dos meios de comunicação de massa nas mãos de poucos, o patrimonialismo enraizado e a herança de um Brasil agrário e pouco industrializado. Mesmo com uma herança perversa como essa, ao que parece a máxima de que os “brasileiros têm memória curta” pode ser real, para o nosso completo desespero. Ou qual seria a justificativa da atual tara pelo coturno e farda que ainda assombra a nossa juvenil e desgastada República, mesmo após 37 anos deste bárbaro episódio da nossa história recente? Não é uma resposta tão simples de se dar, mas precisamos entender o porquê chegamos até aqui. No palco, os mesmos figurões de outrora, que sabem se beneficiar do poder público e conhecem de perto todas engrenagens do cenário político. Neste jogo de poder, de um lado no tabuleiro, as oligarquias brasileiras lideradas em sua esmagadora maioria por: homens, brancos, de meia idade, heterossexuais e proprietários. De outro, milhões de brasileiros de grupos minoritários, lutando pela sobrevivência e direito a itens elementares para manutenção da sua dignidade, o que parece ser considerado como um artigo de luxo em um país armado, violento e de uma religiosidade cristã conservadora e fundamentalista. O nascimento da extrema-direita no Brasil Em tempos de ânimos acirrados num país dividido como o nosso, não diferente dos demais cursos históricos da humanidade, abriu-se uma brecha para o surgimento de um perfil de "salvador". O Brasil vivia uma crise institucional antes mesmo do processo de impedimento da ex-presidenta Dilma Roussef, com inúmeros escândalos de corrupção e com uma cobertura midiática desabonada e com pouco, ou nenhum, profissionalismo. Uma caça às bruxas realizada contra o o Partido dos Trabalhadores (PT) foi iniciada criando assim o cenário perfeito para a eleição, no ano de 2018, do atual presidente Jair Messias Bolsonaro, que tenta aos trancos, barracos, ofensas e fake news a sua reeleição. As artimanhas usadas por Jair Bolsonaro não são novas no campo da política partidária, em verdade, são mais velhas até do que seus anos de vida pública. O atual presidente faz uso da infame “velha política” do qual é filho. Soube em toda a sua carreira política se beneficiar dos lapsos da democracia, a qual ele mesmo não tem muito apreço. Se usa muito bem do descarado “toma lá dá cá” com a poderosa indústria armamentista e providencia regularmente os “pacotes de bondades” aos militares, sua dívida eleitoral com os grandes apoiadores durante todos os seus mandatos, antes mesmo do pleito de presidente e com promessas polpudas para a classe, diferente dos planos aos civis que compõe a maior parte da população brasileira, a qual mergulha hoje em um cenário de fome, com cerca de 33 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar ou fome. O atual presidente Jair Bolsonaro, e parte da sua base de eleitores mais fanáticos, seguem com devoção a cartilha da violência política sob a justificativa de “defender o Brasil dos comunistas". E para este eleitorado, é classificado comunista todos os discordem dos seus discursos homofóbicos, xenofóbicos, anti-indigenistas, misóginos e racistas. O bolsonarismo usa a receita do personalismo político, que advém da criação de um personagem que cative e arraste multidões, não apenas pelo seu carisma, mas também como uma figura que pode salvar alguma causa ou mesmo a Nação de algum inimigo invisível e externo, além do uso de frases que sejam rasas e clichês e que possam ser amplamente reproduzidas. Foi assim que nasceu o populismo de extrema-direita de Bolsonaro, copiado e colado do Macarthismo nos anos 1950 nos Estados Unidos. A narrativa também se ancora no manto da “santidade” das igrejas (neo)pentecostais com o apelo de que a esquerda é totalitária, contra a família e a religião cristã. Esse chamado gera em alguns dos seus eleitorado a paixão para se juntar ao “exército dos salvadores da pátria e de Deus”. Não é à toa que muitos fazem uso da camisas da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) em manifestações em apoio a Bolsonaro. O sentimento de exacerbado (e falso) nacionalismo, típico de movimentos da extrema-direita em todo o mundo, é aflorado sob o pretexto de que o Brasil sofre uma ameaça comunista e que Jair Bolsonaro é na verdade uma figura mítica que salvará o país “deles”. Aumento da violência política e eleitoral A violência política pode ocorrer de forma aberta ou velada, para atingir finalidades específicas, segundo informa o Relatório de Violência Política e Eleitoral da Rede de Justiça Global. É utilizada para deslegitimar, causar danos, obter e manter benefícios e vantagens ou violar direitos com fins políticos. Desse modo, a violência política afeta a própria democracia. CÉ descrito no relatório: (...) Longe de serem situações episódicas ou isoladas, o contexto de polarização política brasileira e a realidade de conflitos de interesse no âmbito federal, estadual e municipal têm feito da violência uma ocorrência relativamente regular. A violência passa a integrar a moldura de gestão dos conflitos políticos, tornando-se parte da rotina de gestão e administração das cidades brasileiras, o que se verifica no expressivo número de assassinatos e atentados (...) Quando se fala de representação, figuras públicas têm grande responsabilidade em sua apresentação e discurso, são por essência formadores de opinião e portanto suas atitudes impulsionam grande apelo aos seus fãs ou eleitorado, como é o caso de Bolsonaro. Os atores políticos por terem grade visibilidade e influência faz com que seus discursos sejam rápida e massivamente disseminados, como conta-nos Kaetlyn Ferreira, Patrícia Koefender e Elisangela Mortari: “Este cenário exige que os discursos sejam construídos de modo a propagar as mensagens pretendidas pelo ator político, promovendo clareza e entendimento das mesmas por parte dos públicos.” Mas se o amor pelo coturno de Bolsonaro é grande, a sua capacidade de argumentação sem nenhuma ofensa a qualquer pessoa que o contrarie em seus inúmeros preconceitos não é. Algumas das ofensas proferidas por ele ao atacar as repórteres (principalmente mulheres) nas suas raras coletivas de imprensa ou entrevistas que fornece aos veículos de imprensa ganha notoriedade, além da facilidade com que se sente à vontade para fazê-las : “Estou sem máscara em Guaratinguetá, tá feliz agora? Essa Globo é uma merda de imprensa. Vocês são uma porcaria de imprensa. Cala a boca. Vocês são uns canalhas. Vocês fazem um jornalismo canalha, canalha, que não ajuda em nada. Vocês não ajudam em nada, vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira, vocês não prestam. A Rede Globo não presta, é um péssimo órgão de informação” Em outro momento, Bolsonaro atacou a jornalista Amanda Klein citando a vida conjugal da jornalista ao ser questionado: "Amanda, você é casada com uma pessoa que vota em mim. Não sei como é o teu convívio com ele na sua casa" Outra vítima de Bolsonaro foi a jornalista Patrícia Campos Mello, vítima de ataque de cunho sexual em fevereiro de 2020, quando fez uma correlação de duplo sentido na matéria da jornalista: “(...) queria dar o furo a qualquer preço contra mim” No mês de junho, Patrícia Campos Mello venceu o processo contra Bolsonaro na 8ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ/SP) mantendo a condenação do presidente por ofensa e insinuação de cunho sexual contra a jornalista. O “messias” e a guerra contra o “mal comunista” Além dos ataques de Bolsonaro a jornalistas, antes mesmo do início da campanha eleitoral foram registrados ataques realizados por bolsonaristas contra pessoas que se manifestavam abertamente em apoio ao presidenciável Luís Inácio Lula da Silva. Uma das vítimas fatais, em julho desde ano, foi Marcelo Arruda, morto em Foz do Iguaçu (PR) durante a própria festa de aniversário de 50 anos com o tema do Partido dos Trabalhadores (PT) e segundo Polícia Civil, atirador fazia parte da diretoria da associação onde a celebração era realizada. Em outro caso de violência política, desta vez o cenário foi na Congregação Cristã no Brasil de Vila Finsocial, em Goiânia, onde Davi Augusto de Souza, 40, foi atingido na perna por um tiro disparado por Vitor da Silva Lopes, 38, um cabo da PM que estava armado durante o culto. Ambos eram amigos e frequentadores do templo. Davi precisou ser socorrido pelo SAMU e a causa da desavença que quase resultou na morte de Davi foi a discordância da família com o posicionamento da igreja recomendando "não votar em candidatos que não sejam tementes a Deus e se posicionem contra a instituição da Família". Além da violência em vias de fato, o posicionamento da Congregação é exatamente o mesmo da bancada religiosa majoritária e protestante que apoia, em sua esmagadora maioria, a reeleição de Bolsonaro. No estado de Mato Grosso, estado que tem ampla maioria em Bolsonaro, no mês de setembro a violência política ceifou mais uma vida. O assassino é Rafael Silva de Oliveira, 24, que matou com golpes de faca e machado o ex-colega de trabalho Benedito Cardoso dos Santos, 42, segundo laudo da Polícia Científica. A informação foi repassada pelo delegado Victor Oliveira. A motivação do crime foi uma discussão política e Rafael defendia a reeleição de Jair Bolsonaro, enquanto a vítima apoiava o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT). Os dois trabalhavam juntos no corte de lenha em uma propriedade rural de Confresa, a 1.160 km de Cuiabá, capital do estado. Acima da lei e contra o STF Outro episódio protagonizado por um dos apoiadores de Bolsonaro, foi a operação de guerra deste domingo (23) na casa de Roberto Jefferson em cumprimento ao mandato do ministro Alexandre de Moraes. Jefferson atirou em agentes da Polícia Federal e atirou duas granadas contra eles aos gritos de “Gestapo do Xandão”, em referência ao magistrado. No sábado, Jefferson havia ofendido a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), mesmo após sua prisão e crente no poder que exerce e na impunidade como pano de fundo, em depoimento na audiência de custódia, o petebista disse que queria “pedir desculpas às prostitutas" ao compará-las a ministra e reiterou mais uma vez a ofensa a magistrada. Contra a opressão convido a ação e a reflexão A democracia é a representação máxima dos direitos políticos que nos compete e nos são assegurados pela Constituição Federal de 1988, a nossa Carta Magna, uma conquista após os anos de silêncio e violência que vivemos durante a ditadura militar de vivemos. Pessoas que usam de violência para intimidar quem pensa diferente se favorecem de um artificio totalitário e impositivo. Aqueles que pensam diferente, ao entoarem suas vozes contra este cenário não se curvam ao que está posto e imposto, mesmo com os riscos que isso signifique atualmente no Brasil, não apenas a sua integridade física, mas moral também. Se você chegou até aqui na leitura deste artigo, lhe digo, ciente da bolha que me rodeia, mas certa de que falhamos como progressistas e do nosso trabalho de base, convido você a refletir sobre a situação lastimável em que vivemos no Brasil e a não se intimidar. Não se faz um futuro melhor sem arregaçar as mangas e construir pontes através do diálogo, mesmo com os diferentes mas que se mostrem dispostos a ouvir os pontos de divergência. Outro caminho fora disso não é democracia. E já dizia Hannah Arendt: Domingo é dia de exercer nosso direito político e prestigiar a democracia! Texto escrito por Katiane Bispo Katiane Bispo é formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia”. Instagram: @uma_internacionalista. BIBLIOGRAFIA Revista Anagrana_Ano 5- Ed.2 - (USP). A construção do discurso político nas Relações Públicas (USP) - acessado em 18.out.2022 Ofensa a jornalistas por Jair Bolsonaro - https://www.poder360.com.br/governo/irritado-bolsonaro-ofende-reporter-globo-e-cnn-e-fala-de-midia-canalha/ - acessado em 25.out.2022 Violência contra jornalistas: https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/09/06/bolsonaro-ataca-jornalista-amanda-klein-apos-pergunta-sobre-rachadinha-e-compra-de-imoveis-com-dinheiro-vivo-seu-marido-vota-em-mim.ghtml - acessado em 20.out.2022 Violência política: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/09/08/tiro-na-ccb-culto-marcaria-tregua-em-briga-antiga-mas-diabo-atrapalhou.html - acessado em 26.out.2022 O que é violência política: https://www.tre-pr.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Setembro/violencia-politica-saiba-o-que-e-e-como-denunciar - acessado em 18.out.2022 Violência política: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2022/09/26/apoiador-de-lula-foi-morto-com-mais-de-70-golpes-de-faca-e-machado-aponta-policia-civil.ghtml - acessado em 26.out.2022 Processo jornalista Patrícia Campos Mello: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/03/12/patricia-campos-mello-ataques-twitter.htm - acessado em 26.out.2022

  • Afro-oportunismo e corrupção: candidatos mentem na autodeclaração

    "Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer" (Conceição Evaristo) O uso das cotas raciais por candidatos nas eleições de 2022 foi cercado de má-fé e corrupção. Vamos trilhar neste artigo, como um país que tem a maior concentração preta/parda do mundo fora do continente africano foi palco de um afro-oportunismo por candidatos, os quais fizeram uso de uma ação afirmativa que tem como intuito facilitar o acesso aos espaços de poder para pessoas pretas, com objetivo de se eleger. Em 1872, de acordo com o Censo, haviam 10 milhões de habitantes no Brasil. Deste total a população escravizada correspondia a 15,24%. As 10 milhões de pessoas estavam distribuídos em 21 províncias, segundo nos conta a Fundação Palmares. O recenseamento trouxe informações importantes, como a descrição dos povos originários por etnias, ocupação e dos portadores de deficiência física ou/e mental. Conta-nos a Fundação que: "De acordo com o levantamento, 58% dos residentes no país se declaravam pardos ou pretos, contra 38% que se diziam brancos. Os estrangeiros somavam 3,8%, entre portugueses, alemães, africanos livres e franceses. Os indígenas perfaziam 4% do total dos habitantes." O demógrafo Mario Rodart, coordenador do Núcleo de Pesquisa Histórica Econômica e Demográfica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e um dos responsáveis pela digitalização do Censo, relata que naquela época o país já pensava estratégias para acabar com a escravidão, por isso as políticas públicas eram todas no sentido de mapear quem estava vindo da Europa para um processo racista de branqueamento da população, a eugenia. O termo "eugenia" foi criado pelo geógrafo Francis Galton, que era membro da elite britânica e primo de Charles Darwin. Em tradução livre "eugenia" significa "boa linhagem". Galton defendia que para que a sociedade londrina da época pudesse se livrar do alcoolismo, doenças e pessoas pobres, os nobres deveriam ter mais filhos ao passo que a "seleção natural" trataria de eliminar as raças menos perfeitas, ou seja, uma sociedade menos semita, menos cigana, menos negra. O governo do Brasil fez seu esforço necessário para cumprir a cartilha racista e eugenista de Galton mas não o suficiente para apagar a memória e ancestralidade de milhões de brasileiros. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), somávamos 212,7 milhões de brasileiros em 2021. Nesse período, em comparação ao PNAD de 2012, o percentual de pessoas que se autodeclaram: Brancas caiu para 43%; Pretas subiu de para 9,1%; Pardas para 47%. O relatório também mostrou que: O Nordeste tem a maior proporção de pessoas autodeclaradas pretas, com 11,4%. O estados como a Bahia (21,5%) e o Rio de Janeiro (14,2%) são os que mais têm concentração de pessoas pretas desbancando o Pará e Amazonas que apareciam em pesquisas anteriores. Os pardos estão mais presentes no Norte (73,4%), Nordeste (63,1%) e Centro-Oeste (55,8%) A maior concentração de autodeclarados brancos se localizam mais no Sul (75,1%) e Sudeste (50,7%). A análise com o recorte de cor/raça mostra que partiram mais votos para a eleição de Luis Inácio Lula da Silva justamente nas regiões com maior percentual de autodeclaração de pretos e pardos (exceto o Rio de Janeiro, localizado no Sudeste do Brasil) que contabilizou em sua maioria votos nas regiões Nordeste e alguns estados do Norte do país. Isso não significa, entretanto, que negros e pardos dessas regiões votaram em Lula, mas que pode ser um grande indicativo que a escolha por um governo progressista e de um Estado mais garantista tenha sido um elemento decisivo no pleito deste ano na escolha do Presidente eleito. A corrupção começa ainda na candidatura A corrupção é definida como "formas desonestas ou crimes praticados por uma pessoa ou organização em uma posição de autoridade para obter benefícios ilícitos ou abuso de poder para ganho pessoal". É também uma chaga aberta que desestimula a credibilidade nas instituições e torna ainda mais árdua a crença do povo em uma mudança positiva para o nosso país. Se o Brasil do século XIX procurou esconder seu passado escravagista através da tentativa de embranquecimento da população, nesta eleição para se beneficiar do Fundo Eleitoral partidos políticos conseguiram inovar na corrupção antes mesmo de eleger seus candidatos. Um dos casos que mais ganhou destaque da mídia e nas redes sociais foi o então candidato ACM Neto (União Brasil) e sua vice Ana Coelho, que concorriam ao pleito no governo do estado da Bahia, que se autodeclararam negros. As redes sociais e seus concorrentes na disputa não perdoaram a corrupção de ACM e ele foi alvo de inúmeros memes. As pesquisas de voto indicaram que ACM perdeu 5 pontos, e foi derrotado por Jerônimo Rodrigues (PT) com 52% dos votos, contra seus 47%. As críticas à ACM Neto não pararam por aí, sua família os Magalhães são conhecidos em todo o estado, sobretudo por que são originários da aristocracia política baiana, herdeiro do maior legado do coronelismo na região, um dos 50 candidatos a governador mais ricos do Brasil, com patrimônio declarado de R$ 41,7 milhões e defensor de ideais conservadores, era um dos defensores da reeleição de Bolsonaro ao pleito de 2022. Mas não foi apenas ACM Neto que mudou sua autodeclaração, a lista de candidatos candidatos que em eleições anteriores que se declararam brancos e na eleição de 2022 se declararam pardos é extensa e traz vergonha. Dos 517 parlamentares nas eleições deste ano que se declararam negros para o cargo de senador, deputado estadual e federal, apenas 263 deles foram de fato considerados negros pela banca de heteroidentificação racial contratada pela equipe de jornalismo do site UOL, sob a liderança da doutora em sociologia pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) Marcilene Garcia de Souza. Sendo divididos em: Deputados federais: dos 135 autodeclarados, somente 66 foram considerados pela banca; Deputados estaduais: dos 376 autodeclarados, somente 192 foram considerados pela banca; Senadores: dos 6 autodeclarados, somente 5 foram considerados pela banca; A lista dos candidatos eleitos que se autodeclararam negros ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE): O TSE questionado afirmou que caberá à Justiça Eleitoral punir as irregularidades dos candidatos, e que a análise sobre a correta destinação dos recursos para candidaturas de pessoas negras é feita no momento da prestação de contas das campanhas. Em um país em que há uma sub-representação da população preta nos espaços de poder e decisão, alguns já conseguiram identificar uma forma de se beneficiar das oportunidades e brechas legais. É vergonhoso que hajam partidos e candidatos que façam uso de uma ação afirmativa que visa à reparação de séculos de exclusão e violência com a camada preta da população brasileira para se eleger, e muitas vezes votar em pautas que exclui ainda mais esta população. Cabe a nós, sociedade civil, vigiar e cobrar aos órgãos públicos a punição e cancelamento deste afro-oportunismo covarde. Texto escrito por Katiane Bispo Katiane Bispo é formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas a Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista. BIBLIOGRAFIA https://www.poder360.com.br/eleicoes/1-em-cada-3-negros-eleitos-em-2022-ja-se-declarou-branco/ - acessado nov.22 https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2022/eleicao-em-numeros/noticia/2022/09/17/a-tres-semanas-da-eleicao-repasses-do-fundo-eleitoral-para-mulheres-e-negros-estao-abaixo-da-cota-determinada-por-lei.ghtml - acessado nov.22 https://www.palmares.gov.br/?p=25817 https://www.poder360.com.br/brasil/populacao-cresce-com-mais-pessoas-negras-e-pardas/#:~:text=Subiu%20para%20212%2C7%20milh%C3%B5es,%2C6%25%20para%2047%25. - acessado nov.22 http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/11/para-tem-maior-percentual-dos-que-se-declaram-pretos-ou-pardos-diz-estudo.html - acessado nov.22 https://revistaafirmativa.com.br/na-bahia-ninguem-e-branco-acm-neto-afro-oportunismos-e-as-fraudes-raciais-nas-eleicoes-2022/ - acessado nov.22 https://www.camara.leg.br/noticias/911743-numero-de-deputados-pretos-e-pardos-aumenta-894-mas-e-menor-que-o-esperado/ - acessado nov.22 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/11/20/metade-dos-parlamentares-eleitos-que-dizem-ser-negros-sao-brancos.htm - acessado nov.22

  • Editorial: Onde você estava no dia 11 de Setembro de 2001?

    Há exatos 21 anos ocorreu um atentado que marcou profundamente as Relações Internacionais, o ataque terrorista conhecido como "11 de Setembro". Depoimentos dos colunistas do Zero Águia Fabiana: "Eu lembro que eu ouvi a notícia no dia e não consegui compreender o que aconteceu, muito menos a tremenda repercussão e as consequências. Mas eu comentei com a minha irmã no dia e ela falou sobre o ataque as Torres Gêmeas e aquilo ecoou na minha cabeça... um dia eu entenderia". Johao (Costa Rica): "Me lembro que tinha 11 anos e estava começando as aulas nesse dia. Os professores nos levaram para a biblioteca e minha professora falou com convicção "eles têm que assistir o que está acontecendo, é um evento histórico". Depois disso, ela ligou a TV e nós começamos a assistir ao jornal na TV. Nesse momento, o primeiro avião tinha atingido uma das Torres Gêmeas, mas nós não entendemos muito bem o que estava acontecendo, me lembro que depois o segundo avião atingiu a segunda torre. Nesse momento sentimos muito medo. As aulas terminaram e nos enviaram para a casa. Lembro que era um dia muito quente, que quase não haviam carros nas ruas nesse dia e eram quase 12h, quase toda a população tinha ido para casa. Lembro que em meu bairro todas as crianças estavam sentadas conversando e a mãe de um de meus amigos aproximou-se e nos falou que o assunto era bem sério e não tratava-se de um filme, e que era real. Para falar com sinceridade, não sei se senti medo o não, mas lembro que meus amigos e eu ficamos com muitas dúvidas e muito confusos, porque as pessoas mais velhas tinham falado coisas um pouco assustadoras, eles falaram que todos os países poderiam ser atacados também, porque se atacaram o país mais poderoso nada os poderia deter em atacar um pais menor." Gustavo: "Eu estava no colégio técnico e voltei pra casa para almoçar. Enquanto estava preparando o almoço, liguei a TV e olhei de relance um avião batendo no prédio, pensei comigo 'filme a essa hora?', depois percebi que era o jornal mesmo e demorei para compreender que era algo real e a magnitude da situação." Camila: "Lembro que naquele dia saí mais cedo da escola porque algum professor tinha faltado. Cheguei em casa no momento que o segundo avião atingiu a segunda torre. Pensei que estava passando algum filme, tipo Independence Day, mas quando mudei de canal percebi que era real." Carol: "Eu lembro de chegar em casa depois da escola e ver a notícia. Fiquei morrendo de medo porque me disseram que, se o Brasil apoiasse os EUA e entrasse na guerra, todos os reservistas seriam convocados. Temi muito pelos meus amigos. João Guilherme: "Estava em aula e um amigo mais velho, que já tinha celular, recebeu a notícia provavelmente por SMS ou algo do gênero. A aula virou uma bagunça, mesmo com a pouca informação que chegava. "Um avião tinha batido num prédio em Nova Iorque". Voltei para casa no horário normal então não vi ao vivo nenhum dos aviões colidindo, apenas os replays das imagens." Felipe: "Eu estava saindo da escola quando passei em frente a um bar, onde estava sendo transmitido ao vivo o ataque à primeira torre no plantão da Globo. Em alguns minutos aconteceu o atentado a segunda torre. Eu fiquei acompanhando aquilo da rua e achando que era filme no lugar no desenho. Só quando cheguei em casa que entendi o que estava acontecendo." Katiane: "Nessa época estudava de tarde e estava fazendo meu dever de casa quando anunciaram o primeiro atentado na TV. Como eu era pequena na época não entendi nada do que estava acontecendo, mas ouvia os jornalistas repetindo que havia o risco da Casa Branca ser atacada e que havia uma grande tensão no ar. Anos depois descobri a magnitude daquele dia e o quanto ele determinou as peças no tabuleiro internacional." Psicólogos explicam o que é o "estado de choque" causado por contato com situações muito estressantes, tais como um atentado terrorista: A reação aguda ao estresse, também chamada de choque psíquico, estado de crise, fadiga de combate, ou ainda, popularmente conhecido como “estado de choque”, trata-se de uma resposta não adaptativa a um acontecimento particularmente estressante ou uma alteração particularmente marcante. Os sintomas são variados e comportam, a princípio, um estado de aturdimento, caracterizado por um relativo estreitamento de campo da consciência e problemas para manter a atenção ou de integrar estímulos, além de uma desorientação. Por conseguinte, pode haver um distanciamento do ambiente ou uma agitação com hiperatividade (reação de fuga). Muitas pessoas estavam seguindo suas vidas normalmente quando se depararam com a notícia de que um atentado estava em andamento nos Estados Unidos, um país que nunca tinha tido seu território atacado. Essa situação gerou uma "onda de medo" que repercutiu durante muitos anos, gerando consequências que são vistas até hoje nas Relações Internacionais. Texto escrito pela equipe Zero Águia, portal de notícias e análises sobre Política e Relações Internacionais.

  • Crise institucional abala o Peru

    Qual será o destino do país andino ainda é uma incógnita. No entanto, a ação desastrosa de Pedro Castillo poderá resultar numa grande transformação, caso os movimentos sociais consigam, por pressão popular, a Constituinte? O Peru vive momentos de grandes tensões pouco mais de um mês desde que o ex-presidente, Pedro Castillo, foi preso após anunciar um "governo de exceção" e tentar dissolver o Congresso peruano. Tudo poderia ser visto de modo simples, mas como todo recorte da América Latina como território político, é necessário um resgate histórico ou tudo se torna descontextualizado. Se no Brasil nos envergonhamos de um complexo cenário político regado a corrupção (quando pensamos nos militares com gana de poder e empresariado sem amor à Pátria), este posto poderia facilmente ser dividido com nosso vizinho Peru, e ouso afirmar que não apenas com ele. A conjuntura atual — fruto das inúmeras ditaduras vividas pela América Latina, financiada e treinada pelo governo norte-americano — deixou uma herança perversa regada ao neoliberalismo, truculência estatal e mentiras pela manutenção do status quo. Somando tudo isso com uma fachada de institucionalização, legalidade e impunidade. Quem é Pedro Castillo? Pedro Castillo tem 53 anos e nasceu em uma pequena cidade andina de Puña, na província de Chota, onde os moradores costumam usar chapéu de aba larga, algo que se tornou uma das suas marcas registradas quando ainda estava em campanha nas eleições de 2021. Ganhou notoriedade após ser um dos principais líderes de uma greve de professores que durou quase três meses, exigindo aumento de salários e melhores condições de trabalho. Na campanha eleitoral, prometeu um aumento para os professores do sistema público, mas adotou uma postura mais conservadora ao não apoiar alguns temas, como, por exemplo, o reconhecimento de direitos a minorias sexuais, se posicionou contra a legalização do aborto e não demonstrou muito interesse quanto à alta taxa de analfabetismo que atinge majoritariamente as mulheres peruanas. Além disso, apoiou uma segurança pública mais linha dura. Parte dessa postura mais conservadora, em que tinha uma forte pressão de um congresso de idoneidade duvidosa, preconceituoso pelas suas origens rurais (campesina, em espanhol) e com inúmeras denúncias de pessoas que escolheram para integrar seu governo e tomar decisões equivocadas, motivaram a tentar de modo desesperado um “governo de exceção” no fim do governo de Castillo, que hoje está preso. A grande dissidência na sua já pequena base governista foi gradual ao longo do seu mandado. Além da grande pressão do Congresso peruano para aprovação do seu impeachment, que em menos de dois anos de governo já teria o terceiro pedido em votação, Castillo anunciou em junho de 2022 sua saída do partido, pelo qual foi eleito, o Peru Libre (Peru Livre), e agravou ainda mais a sua já instável situação política. Instabilidade política e o fantasma do Fujimorismo no Peru Pedro Castillo venceu a eleição com 50,13% dos votos, uma margem muito apertada contra Keiko Fujimori, a mais nova figurante do Fujimorismo. O Fujimorismo foi uma nefasta corrente política fundada pelo pai de Keiko, o ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o país durante toda a década de 1990. Muitos analistas políticos afirmam que Castillo conseguiu chegar ao pleito graças a forte rejeição a Keiko por parte dos eleitores. Nas eleições, o número de votos chegou a mais de 60% de rejeição durante a corrida presidencial. O Fujimorismo não deixou de herança apenas figuras como Keiko e seus seguidores no Congresso peruano, mas também milhares de vítimas de um governo totalitário que seguiram à risca a cartilha neoliberal para as classes dominantes peruanas, sobretudo aos investimentos estrangeiros em detrimento da camada mais pobre, enquanto usava uma imagem populista de “homem do povo”. O ditador Alberto Fujimori trajava vestes típicas para ganhar a simpatia dos peruanos ao mesmo tempo em que usava políticas como o plano de esterilização forçada de 350 mil mulheres e 25 mil homens camponeses e indígenas, prática prevista pelo Programa Nacional de Planejamento durante seu governo. A queda de braço entre os Poderes e a crise institucional que alimenta a revolta popular No sistema presidencialista, o presidente acumula a função de Chefe de Estado (responsável por representar o país a nível internacional) e Chefe de governo (responsável por governar o país com os ministros e demais elementos do poder Executivo). Já no sistema semipresidencialista, que é o caso do Peru, o presidente tem suas funções, assim como no sistema parlamentarista, compartilhadas com a figura de um Primeiro-Ministro ou “Chefe dos Ministros”. Quem ocupava o posto era Betssy Chávez, que assumiu o cargo poucos dias antes de Castillo ser preso. A Constituição peruana, promulgada em 1993, é uma das heranças do Fujimorismo. Na sua redação há elementos que abrem precedentes para as constantes quedas de braço dos Poderes do país. Apenas três presidentes peruanos conseguiram terminar seu pleito desde a queda de Fujimori. O jogo de poder que existe no Peru envolve, sobretudo o Executivo e o Legislativo, mas as polêmicas também envolvem o Judiciário. No dia 7 de dezembro de 2022, Castillo dissolveu os poderes Legislativo e Judiciário, convocou eleições para uma assembleia constituinte e decretou "estado de exceção", o que incluía toque de recolher. A tentativa de Castillo foi desastrosa e nem as Forças Armadas, tampouco a Polícia, apoiaram o golpe e ele acabou sendo preso no mesmo dia. Uma das promessas de Castillo, quando ainda estava em campanha, era a votação de uma Constituinte para mudança da Constituição peruana, mas ele não conseguiu apoio político tampouco popular para tal. A queda da popularidade Castillo, quando ainda era presidente, não conseguiu blindá-lo e dar o desfecho diferente do que teve. Estima-se que apenas 20% do povo peruano são seus apoiadores, o restante optou contra o Fujimorismo que tinha representação na figura de Keiko. Reação internacional e manifestações pró-Castillo Ao saber que a tentativa de golpe havia tido efeito reverso, Castillo foi detido pela escolta ao se dirigir à Embaixada Mexicana, após a declaração do presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador a seu favor como tentativa de receber asilo. Nos dias seguintes, como retaliação ao apoio dado a Pedro Castillo, o governo do Peru chamou para consulta embaixadores na Argentina, Bolívia, Colômbia e México. O Brasil, na época, manifestou-se dizendo “acompanhar de perto” a situação vivida no Peru. Com o pedido de impeachment aprovado e a prisão de Castillo decretada, a vice-presidente, Dina Boluarte, foi declarada a nova presidente. No sábado, 28 de dezembro de 2022, o Congresso rejeitou o adiantamento das eleições para este ano. Boluarte pediu ao Legislativo que deixasse de lado seus interesses pessoais e partidários para "abrir o caminho para uma saída da crise" e priorizasse o que é melhor para o Peru. A proposta apresentada era de que as eleições fossem antecipadas para dezembro de 2023, mas foi rejeitada pelo Congresso peruano, que parece se importar pouco com o clima de instabilidade em que vive o país. Com a rejeição, as novas eleições permanecerão marcadas apenas para abril de 2024. Movimentos populares convocaram Greve Geral em apoio a Castillo e alguns grupos dizem que se trata de uma “Guerra civil”. Entre marchas e placas que pedem desde a liberdade de Castillo a uma nova Constituinte e antecipação de uma nova eleição, os manifestantes sofrem represálias da polícia peruana e já houve o registro de mais de 46 mortos (até o fechamento desde artigo). O clima de tensão no Peru aumenta a cada dia e o governo já decretou estado de emergência. Em 21 de janeiro foi anunciado que o ingresso a cidadela Inca de Machu Picchu estará fechado por medida de segurança e por tempo indeterminado. O Itamaraty divulgou uma nota recomendando que os brasileiros adiem viagens ao país, exceto por motivos urgentes ou indispensáveis. Ao ler relatos sobre a violência policial e as manifestações que têm matado peruanos em todo país, me recordo do dia em que estava sentada em uma Praça em Miraflores, em meados de 2018, e uma senhora peruana me disse com um tom (do qual aprendi a reconhecer na burguesia brasileira em seus anseios de superioridade) que a violência que estava se vendo no Peru era culpa dos venezuelanos que estavam chegando, porque os peruanos eram, são e sempre foram “doces e mansos”. Não sei o nome daquela senhora, mas preciso dizer à ela que a violência não é culpa de um povo ou nação, é resultado de um sistema de exclusão das camadas mais pobres e que a mansidão na verdade não é uma opção quando o estômago está vazio e as chances de um futuro melhor simplesmente não aparecem no horizonte. Já dizia Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio, “Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que se gasta demais em política social”. Texto escrito por Katiane Bispo É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista. Referências Bibliográficas https://www.brasildefato.com.br/2021/04/01/fujimorismo-corrente-que-nasceu-com-ditador-busca-se-reinventar-nas-eleicoes-do-peru https://paineira.usp.br/memresist/?page_id=291 https://open.spotify.com/episode/20K0OqhsH6dJHdOXWNNy5q https://www.brasildefato.com.br/2021/06/10/artigo-pedro-castillo-a-novidade-das-terras-andinas https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/america-latina/71239/46-mil-por-dia-pandemia-do-neoliberalismo-fome-mata-do-mais-que-covid-91-no-peru https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/01/21/em-meio-a-protestos-contra-o-governo-peru-fecha-entrada-para-machu-picchu.ghtml https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2023/01/13/itamaraty-viagens-brasil-peru.html

  • Os Pilares da Aprendizagem

    Há alguns meses atrás me deparei com um Ted Talk que tinha o título “Pare de estudar. Comece a aprender”, apresentado pelo Dr. Justin Sung, no qual ele conta rapidamente sobre a sua história e explica como ela o levou a estudar sobre um assunto em específico: Como aprender. Dentro dos 15 minutos de palestra, Sung compartilha seu conhecimento a partir de uma lógica que me fez repensar em tudo o que eu acreditava saber a respeito dos estudos e aprendizagem. Junto dele, o neurobiólogo e oftalmologista, Andrew Huberman, me forneceu conhecimentos que me deram a ideia e a motivação de produzir um compilado lógico indo da parte teórica à prática sobre a pergunta postulada no título deste artigo. Comecemos então pela teoria. Os 3 pilares da aprendizagem Durante o TedTalk, o Dr. Justin Sung apresenta uma analogia que ilustra bem o problema que a maioria dos alunos universitários que eu conheço sofrem. Imagine que você está dirigindo um carro e ele começa a pifar, logo você para no acostamento, abre o capô e percebe que não sabe nada sobre mecânica. Agora pense que o carro é o seu cérebro, ou melhor, o seu sistema nervoso e que o caminho que você estava traçando era o seu sistema de estudo em busca do seu destino: o aprendizado. A partir dessa analogia, podemos fazer inúmeras perguntas, tais como: Você estava realmente buscando o aprendizado? O caminho que você estava fazendo era o mais eficiente? Você estava cuidando do seu carro para que ele não quebrasse no caminho? Você sabe como o seu carro funciona para que possa cuidar dele? Todas essas perguntas ilustram o ponto geral que o Dr. Justin Sung queria passar. Você precisa entender como o seu cérebro funciona para que você possa operá-lo de forma otimizada. E quando o assunto é cérebro, ou melhor, sistema nervoso, o Dr. Andrew Huberman é autoridade no assunto. A partir dos conhecimentos que ele apresenta, eu fui capaz de selecionar 3 pilares que se alinham perfeitamente com algumas das técnicas de estudo que o Dr. Justin Sung propõe. Pilar 1 – Neuroplasticidade Quando falamos de aprender, estamos falando de um processo e do ponto de vista biológico e neuronal, o termo que descreve tal fenômeno é chamado de Neuroplasticidade. Neuroplasticidade nada mais é que a capacidade do sistema nervoso central de mudar e de se adaptar conforme o nervo é exposto a experiências, sejam elas voluntárias e positivas ou involuntárias e traumáticas. Visto que o tópico do artigo é estudo, comentarei apenas sobre os mecanismos que afetam e atuam durante a Neuroplasticidade voluntária e positiva, já que a Neuroplasticidade como um todo é um assunto extremamente profundo e abrangente. A capacidade da Neuroplasticidade em indivíduos mais jovens (como, por exemplo, crianças, adolescentes e jovens adultos até os 25 anos de idade) é mais passiva, sendo facilmente acessada e intensa durante o desenvolvimento cognitivo ainda em progresso. No entanto, isso não impede que pessoas adultas e até mesmo as idosas não possam desencadear, manter e consolidar a Neuroplasticidade em seus cérebros. Tudo o que elas precisam é fazer uso do próximo pilar. Pilar 2 – Foco Quando falamos de foco, gosto de pensar na seguinte analogia: seu foco nada mais é que um holofote de percepção, jogado sobre um palco de sensação. Em outras palavras, quero dizer que a posição da sua língua ou a sensação entre os dedos de seus pés sempre esteve lá, apenas o seu holofote que não foi direcionado. Em relação à Neuroplasticidade, o Foco é como se fosse uma chave ou o gatilho que a desencadeia e isso se mostra mais lógico ao entender um pouco dos mecanismos hormonais por trás de ambos os fenômenos. Existem apenas dois hormônios que precisamos ter em mente, literalmente, para entender como a Neuroplasticidade e o Foco se relacionam, a saber: a adrenalina e a acetilcolina. A adrenalina causa uma sensação de alerta, possibilitando maiores níveis de foco. Já a acetilcolina demarca os neurônios mais ativos durante esses maiores níveis de foco para que em um momento posterior eles sejam consolidados no terceiro pilar da aprendizagem, o do sono. De forma análoga, a adrenalina aumenta o brilho e, por vezes, o foco de nosso holofote e a acetilcolina anota quais partes do palco, de sensações, o holofote iluminou para mais tarde torná-lo fixo. Pilar 3 – Sono Quando falamos do sono e como ele se relaciona com a aprendizagem, é importante deixar algo claro: a aprendizagem não ocorre durante os estados de Neuroplasticidade, mas sim em períodos de sono ou descanso profundo. Os motivos pelos quais a aprendizagem ocorre durante o período do sono são vários e fascinantes. Entre eles, podemos dizer, de forma simplificada, que durante o seu sono ou períodos de descanso, a adrenalina, hormônio relacionado ao foco, diminui e isso causa um estado mental de maior aleatoriedade e “liberdade”. Tal estado é necessário para o fortalecimento das conexões que foram demarcadas durante o estado de Neuroplasticidade. Ademais, é importante saber que as memórias são feitas durante o sono e também o esquecimento delas, pois os neurônios marcados pela acetilcolina durante a sessão de estudo e durante funcionamento de nosso cérebro no sono são reativados em velocidades maiores e em sentido oposto, fortalecendo tais conexões e tornando o conhecimento mais acessível para nós. As 3 melhores técnicas de estudos derivadas dos pilares Pomodoro A técnica do Pomodoro é provavelmente uma das técnicas de manejo de tempo mais difundidas e utilizadas no mundo, porém ela é vendida como uma técnica de manejo de tempo apenas. Seu apelo e sua eficiência se baseiam na verdade, em sua capacidade de desencadear estados de foco profundo por períodos de tempo prolongados. A técnica em si ocorre pela separação do tempo em blocos com a forma padrão, sendo um bloco de 25 minutos de estudo ou trabalho seguido por um de 5 minutos de descanso, em que após um blocos de 60 minutos realizados o indivíduo completa um ciclo que o recompensa com 15 minutos de descanso. Apesar da forma padrão ser bem eficiente, por si só ela pode não ser a ideal para você. Após alguns estudos, diferentes valores foram estipulados para a maior produtividade, como, por exemplo, os blocos de foco de 52 e os blocos de descanso de 17. Entretanto, considerando a razão real que se utiliza o Pomodoro (atingir foco profundo), uma boa forma de descobrir qual a melhor configuração para si é através da autoexperimentação e da cronometragem da sua performance. Ou seja, teste diferentes combinações de tempo e descanso ou simplesmente coloque um cronômetro e estude. Os primeiros 10 ou 15 minutos serão desconfortáveis e realmente difíceis de se focar, porém considerando que você eliminou o máximo de distrações possíveis (celulares e fontes de barulho) e se comprometeu com o conteúdo, você acessará um estado de profundo foco, desencadeado à Neuroplasticidade. Após um tempo, sua atenção voltará a sair de seu controle e é aí que você deve olhar o cronômetro para descobrir qual a duração de seus ciclos de atenção. Tire um descanso de 5 a 10 minutos e volte aos estudos renovado e cronometre novamente sua performance. Mapas mentais Agora que acessamos à Neuroplasticidade é interessante utilizá-la da forma mais eficiente possível e, para isso, precisamos de uma técnica que nos garante o que o Dr. Justin Sung ensina, que é chamado de Pensamento de Alta Ordem, para termos um Aprendizado de Alta Ordem. Basicamente ele explica algo talvez tão óbvio que a maioria de nós, em especial estudantes, esquece: “o aprendizado ocorre dentro de nosso cérebro e o papel é apenas uma reflexão disso”. Ou seja, os mapas mentais são apenas uma técnica que nos induz a pensar sobre o conteúdo que estamos estudando e eles permitem utilizar uma forma de anotação não linear e permitem o uso da linguagem não verbal. Assim, a nossa capacidade de organizar o conhecimento que nós estamos lidando cresce exponencialmente. É importante notar que, de forma semelhante ao Pomodoro, existem diferentes formas de se utilizar esta técnica. Algumas pessoas utilizam um modelo com um tema central que se expande em “braços” ou “galhos” de conhecimento ao seu redor, de modo que se fragmenta, ainda mais relacionando uma gama de informações periféricas com uma ideia unificada. Outras são mais livres e utilizam a criatividade e o entendimento do leitor como guia para relacionar os tópicos, temas e ideias que o conteúdo aborda. Ademais, outros detalhes são recomendados como o realce de certas ligações e o colorimento de diferentes braços de conhecimento é um meio de caracterizar e aprofundar ainda mais a forma como sua mente enxerga tais informações tornando, assim, o processo de aprendizagem ainda mais rico. Com isso, recomendo experimentação e pesquisa de metodologias que interessem e funcionem melhor para o leitor. Recall Ativo (ou cartões de estudo) Recall Ativo nada mais é que o exercício da memória. Tudo o que um indivíduo precisa é de uma folha de papel, uma caneta ou lápis e um cérebro. Para executar tal técnica, o leitor deve, após uma sessão de estudo, tomar algo por volta de 10 minutos de descanso. Com as ferramentas necessárias comentadas e sem o auxílio do livro ou material utilizado para estudo, é importante escrever tudo o que se lembrar de sua sessão. Feito isso, descanse por mais 1 ou até 2 horas e refaça o exercício. Gramática, organização e capricho podem ser deixados de lado, bem como a folha após o término do exercício. De forma semelhante ao mapa mental, o processo é mais importante que o resultado. Caso o leitor queira repetir o exercício após um intervalo maior que o anterior, ele pode. A explicação do porquê tal método se efetiva é bem clara: você está ativamente relembrando informações consumidas a pouco. Outra forma talvez menos poderosa deste método, são os famosos cartões de estudo. As diferenças que podem torná-los problemáticos são as seguintes: Ilhas de informação: casos utilizados sozinhos compartimentalizam o conhecimento e depravam o estudante de conexões significativas e profundas que facilitam o entendimento e a fixação do conhecimento; Memória viciada: diferentemente do exercício comentado, cartões de estudos fazem perguntas e dão informações incompletas específicas que induzem o estudante à resposta. Isso em geral torna a prática inferior, pois causa uma memória dependente de dicas e pistas que levam a informação desejada ao invés da capacidade de buscar o conhecimento alvo através de múltiplas relações; Espelho maligno: considerando que o leitor faça uso de aplicativos para praticar seus cartões de estudo, é digno de se dizer que os algoritmos por trás dessas plataformas podem ser bem desmoralizantes ao tentarem ser eficientes. Veja bem, o algoritmo do anki, por exemplo, é configurado para que o estudante revise mais vezes aqueles cartões, de modo que o mesmo sente mais dificuldade para justamente fortalecer tal memória. O problema disso ocorre quando são feitos baralhos extensos onde uma quantidade cada vez maior de cartões difíceis, chatos, monótonos e sem relação ou significado real se tornam o grosso daquilo que o estudante deve revisar no dia. Dessa forma, causa uma sensação de frustração e não de progresso. Conclusão A aprendizagem é um fenômeno complexo, discutido, debatido, teorizado e pesquisado por décadas. Visto sua íntima relação com o sistema nervoso, o cérebro, é claro que ainda existem inúmeros mistérios a serem resolvidos e descobertas a serem feitas referentes ao tal processo inerente à vida e à existência humana. Desse modo, eu espero que o leitor possa ter cruzado com algum conhecimento novo nas linhas passadas e até mais, mudando sua forma de pensar em relação ao modo de como estudar. Tais conhecimentos, apesar de não serem obrigatórios ao cidadão comum, poderiam, e eu argumentaria que deveriam, ser passados para estudantes em todas as fases do sistema de educação. Pense comigo caro leitor, muitos entram no mecanismo educacional antes mesmo de saber ler ou escrever e matéria após matéria, professor após professor, ano após ano, nunca nos é apresentado os fundamentos como a ciência e as práticas que sustentam e orientam o caminho para o aprendizado. Por isso, muitos vivem as primeiras décadas de suas vidas estudando e aprendendo pouco. Revisão por Mateus Santana Edição por Eliézer Fernandes Fontes https://www.youtube.com/watch?v=H-XfCl-HpRM&list=PLPNW_gerXa4Pc8S2qoUQc5e8Ir97RLuVW&index=127&ab_channel=AndrewHuberman https://www.youtube.com/watch?v=nm1TxQj9IsQ&list=PLPNW_gerXa4Pc8S2qoUQc5e8Ir97RLuVW&index=127&ab_channel=AndrewHuberman https://www.youtube.com/watch?v=nwSkFq4tyC0&list=PLPNW_gerXa4Pc8S2qoUQc5e8Ir97RLuVW&index=125&ab_channel=AndrewHuberman https://www.youtube.com/watch?v=FFwA0QFmpQ4&list=PLPNW_gerXa4Pc8S2qoUQc5e8Ir97RLuVW&index=123&ab_channel=AndrewHuberman https://www.youtube.com/watch?v=LG53Vxum0as&list=PLPNW_gerXa4Pc8S2qoUQc5e8Ir97RLuVW&index=122&ab_channel=AndrewHuberman https://www.youtube.com/watch?v=TQXMl4GycD0&ab_channel=TEDxTalks https://www.youtube.com/watch?v=mHAhV8YIlks&ab_channel=JustinSung https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(16)30332-3?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960982216303323%3Fshowall%3Dtrue

  • Estatísticas corretas podem mentir para você

    "O pensamento estatístico um dia será tão necessário para a cidadania eficiente quanto a capacidade de ler e escrever" - H.G. Wells Uma das poucas discordâncias com o escritor britânico Herbert George Wells, conhecido como H.G Wells do início do século 20, é em relação à frase acima que abre essa coluna. O pensamento estatístico já era necessário muito tempo antes mesmo do nascimento do escritor. Narrativas manipuladas, utilizando da "autoridade" dos números para influenciar populações através da mídia com diversos objetivos (tais como comerciais, ataques e projetos de poder) e em grau maior, foram criadas para propagar as atrocidades mais horrorosas da história. Aqui irei mostrar como números, gráficos e tendências podem transformar uma história, mesmo que todos os números que dão base para ela estejam corretos. Assim, chama atenção as palavras de Darrel Ruff que diz que: "sem redatores que usem as palavras com honestidade e conhecimento.... o resultado só pode ser um absurdo". Nesse sentido, usarei alguns exemplos de falácias que considero essenciais para se prestar atenção. A pandemia e as eleições, por exemplo, revelaram uma lacuna enorme em relação ao conhecimento de falácias estatísticas e argumentativas por parte da população enviesada, muitas vezes, por suas paixões ideológicas. Diante disso, farei uma pequena introdução com o intuito de poder preparar o leitor para se defender. Amostra com tendenciosidade embutida Muitas pessoas têm a necessidade de defender e de acreditar em suas velhas convenções, de modo que provoca, assim, uma dissonância cognitiva que é bastante frequente. Relembro que uma das nossas comunistas, Katiane Bispo, disse brilhantemente em um dos artigos do Zero Águia que "temos por essência olhar para o futuro com otimismo, mas todas as ideias novas não são aceitas de imediato". Isso porque nós temos pouca tolerância a mudança mais do que gostaríamos de admitir. Hoje em dia, por parte de alguns grupos mais conservadores, é comum vermos notícias extremamente tendenciosas causadas por uma cega necessidade de crença e na preservação de instituições. Sendo assim, surge pesquisas tendenciosas, como a da arma de poder para sustentar as narrativas de grupo. Essa espécie de falácia é marcada principalmente pelos dados surpreendentemente positivos e precisos. Samuel Johnson dizia que números redondos são sempre falsos. Pesquisas de opinião acabam sendo uma longa batalha contra as fontes de tendenciosidades. Um caso muito utilizado para esse exemplo ocorreu em 1948, quando o jornal The Chicago Tribune previu de forma equivocada, com base em uma pesquisa por telefone que Thomas E. Dewey, que Dewey se tornaria o próximo presidente dos Estados Unidos. No entanto, eles não haviam considerado que apenas um determinado grupo poderia pagar por telefones, excluindo segmentos inteiros da população de sua pesquisa. Falsa correlação de causa e efeito A pandemia foi um prato cheio para aquilo que os estatísticos chamam de efeito "Post Hoc". Esse termo refere-se a uma falácia comum em terra de cegueira ideológica que consiste em pegar elementos correlacionados e criar uma falsa correlação de causa e efeito entre eles. Para tanto, um exemplo em relação aos medicamentos sem comprovação científica para a Covid-19, indicados por alguns médicos negacionistas e grupos de Whatsapp de extrema direita, é: "eu e minha família tomamos ivermectina e fomos curados". Durante a pandemia comentários como esse nas redes sociais eram frequentes. Para essas pessoas, era como se a causa da cura fosse responsabilidade do medicamento, porém o que grande parte delas não se atentaram foi o fato de que elas estavam entre os cerca de 80% de pessoas que, com ou sem ivermectina, teriam as formas mais brandas da Covid-19 ou teriam se curado sozinhas, por meio das defesas do seu próprio organismo. Em seu livro "Como mentir com Estatística", Darrel Ruff apresenta uma situação parecida durante a década de 50 quando apareceram medicamentos com a promessa de curar resfriados em apenas 7 dias, porém, sendo ou não duvidoso o medicamento, um resfriado dura em média uma semana. Um tipo muito comum de falsa correlação é aquela supersticiosa, em que nenhuma das variáveis tem efeito sobre a outra, mas mesmo assim tem uma correlação. Matheus Schmaelter, mestre em Filosofia pela UERJ, apresenta a seguinte situação: "nas últimas copas do mundo de futebol, toda vez que o cantor Mick Jagger vestiu a camisa da seleção brasileira ela foi derrotada. Portanto, para que que seleção brasileira seja campeã da copa do mundo, Mick Jagger deve que parar de usar a camisa da seleção". Nesse exemplo, a suposição parte do fato de que o Brasil perdeu a copa, por causa do cantor Mick Jagger que vestiu a camisa da seleção e assistiu ao jogo com ela. Segundo Schmaelter, a simples sucessão temporal de acontecimentos não é suficiente para determinar que o primeiro seja a causa do segundo. Outros fatores, como o mau preparo físico, pouco desenvolvimento nos treinamentos e má relação entre os membros da equipe, apresentam razões muito mais prováveis para o mau desempenho do time em campo. Gráficos e figuras exageradas Para a manipulação, são comuns e bem útil a utilização de gráficos e símbolo cujo objetivo é apelativo. No entanto, tal recurso pode se tornar sorrateiro, bem sucedido e mentiroso. Gráficos pictóricos, ao comparar duas ou mais quantidades, são capazes de enganar só aumentando a largura ou o comprimento ao demonstrar um único fato. Tais distorções nos últimos tempos foram pesquisas eleitorais e dados distorcidos para atacar as estratégias de combate à pandemia da Covid-19. Por trás de uma representação gráfica mora uma narrativa com uma conotação positiva, negativa ou até mesmo neutra. Em suma, os gráficos tentam contar uma história e desejam mostrar a informação. Uma das maneiras mais simples de distorcer os dados é alterar o eixo Y (vertical). O site Social Exmostra um exemplo muito comum de distorções de gráficos, a saber: É possível observar nos Gráficos acima que, no lado esquerdo, há a restrição do eixo Y na faixa de 3,140% a 3,154%. Dessa forma, parece que as taxas de juros estão subindo rapidamente. O tamanho das barras significa que as taxas, em 2012, são várias vezes superiores às de 2008. Mas ao exibir os dados com o eixo Y começando em zero, conta uma narrativa mais precisa, onde as taxas de juros estão praticamente estáticas. Algumas dicas para evitar ser enganado Darrel Ruff, em seu livro "Como mentir com Estatística", aconselha que para encarar uma estatística falsa e derrubá-la, é necessário algum nível de ceticismo e algumas perguntas, como: Quem está dizendo? Como ele sabe? O que está faltando? "A primeira característica é procurar a imparcialidade". Institutos de pesquisa, laboratórios, representantes comerciais têm um ponto para ser provado, uma narrativa para atingir um objetivo. Buscar tendenciosidade em uma história cujos dados que sustentam ela sejam tão perfeitos que não podem ser contestados – inclusive um dos pré-requisitos para algo ser considerado científico é o princípio da falseabilidade, que é quando o estudo é passível de ser testado – e quando há uma seleção de fatos favoráveis afim de suprimir fatos desfavoráveis. Além de que, em muitos anúncios ou pesquisas apelativas, um nome geralmente acompanhado de uma instituição é apresentado para reforçar a narrativa e trazer alguma credibilidade aos dados apresentados. Certifique-se de que o nome usado como argumento de autoridade esteja por trás da informação e não apenas citado ao longo da narrativa. O que nos leva para uma outra pergunta: Como essa autoridade sabe? Uma questão frequente durante uma dissimulação estatística é o tamanho da amostragem durante as pesquisas. Confira sempre se a amostra é grande o suficiente para permitir uma conclusão aceitável e que faça sentido. A ausência de um dado específico quando a fonte é uma das partes mais interessadas na narrativa é mais do que necessário para se lançar suspeita sobre a pesquisa toda. Darrel Ruff apresenta um caso ocorrido na Universidade de Jonhs Hopkins: "muito tempo atrás, a Universidade de Jonhs Hopkins passou a aceitar mulheres em suas turmas, uma pessoa particularmente simpática a educação mista relatou algo realmente chocante: 33% das mulheres da Hopkins, ou um terço, haviam se casado com membros do corpo docente! Os números brutos mostravam um quadro mais claro: havia três mulheres matriculadas na época, e uma delas se casara com um professor". Ruff com seu exemplo mostra que o número pode surpreender, porém a ausência de um dado remove praticamente todo seu significado. "Veja! Os negros estão livres há gerações e, mesmo assim, não se [vê uma grande quantidade na sociedade de] professores, advogados, médicos ou até mesmo bancários negros. Isso não prova que os negros são simplesmente menos inteligentes e menos trabalhadores?" Esse trecho, retirado do livro Sapiens de Yuval Noah Harari, exemplifica um pensamento oriundo do racismo científico que se fortaleceu durante o século XIX e de pretexto para a segregação racial. No entanto, podemos ver como diversos dados estão escondidos para favorecer e justificar o racismo. Contudo, as estatísticas da época suprimiram violentamente o fato de que a população negra foi excluída e brutalmente perseguida. Os preconceitos raciais fechavam as portas de trabalho na época devido ao mito de que negros não eram cidadãos confiáveis. Sem recursos financeiros as pessoas não tinham acesso pleno à educação. Esses obstáculos marginalizam a população negra e, consequentemente, os preconceitos raciais aumentam e dão base para leis discriminatórias. Nesse sentido, o racismo era constantemente retroalimentado, e apesar de diversas conquistas e avanços sociais, essa estrutura ainda se estende até os dias de hoje. Por falta do conhecimento estatístico ficamos à mercê das mais diversas manipulações e controle social. A libertação nasce no conhecimento. Texto escrito por Matheus Noronha Formado em Mecânica Aeronáutica, estudante de Engenharia de Automação e Controle pela Universidade São Judas. Um amante da ciência e literatura e curioso por essência.

  • A fé de milhões: cristianismo, lobby e política

    Para muitos, a religião é considerada a “salvação”, além de encontrarem nela um alento para enfrentar seus problemas cotidianos, muitas vezes reflexo da desigualdade social em que vivem. No Brasil, segundo dados da pesquisa do Datafolha, realizada em 2022, cerca de 70% da população brasileira se define como cristã, onde 70% se definiram como católicos e outros 30% como evangélicos. Esse cenário vem se transformando ao longo dos últimos anos, já que o número de evangélicos cresce de modo notável no Brasil, diferente do percentual de católicos. Este aumento do número de evangélicos brasileiros é acompanhado pela presença maciça de templos religiosos, dentre os quais são mais conhecidos a Assembleia de Deus, Deus é Amor, Universal do Reino de Deus, Mundial do Poder de Deus, Graça de Deus, Congregação Cristã do Brasil entre outros que formam um universo de mais de 300 mil templos espalhados por todo o Brasil. Fé, Conservadorismo e Política O aumento do conservadorismo no Brasil, principalmente nos últimos anos, ajudou no surgimento de líderes religiosos e a política acompanhou esse movimento, nomeando inclusive uma das bancadas mais polêmicas do Congresso Nacional, a “Bancada da Bíblia”. A bancada evangélica, ou da Bíblia, conquistou terreno em relação a 2018, ano em que elegeram o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, onde somava 91 deputados naquela legislatura. Nas últimas eleições, somou 102 deputados e 13 senadores, isso equivale a 20% das duas casas do Congresso Nacional, o que influenciará bastante as pautas dos próximos 4 anos. Todo esse crescimento está diretamente ligado à atuação mais ofensiva dos líderes religiosos em eleger seus representantes nos espaços de poder para defender pautas tidas como “cristãs e conservadoras” aos interesses dos líderes religiosos. E engana-se quem pensa que as pautas visavam somente a costumes, como por exemplo a proibição do aborto em qualquer caso, muitas delas estão ligadas a temas de ordem econômicas e fiscais como a isenção de impostos para templos religiosos. A arrecadação de impostos para templos religiosos, sendo obrigatória ajudaria para o equilíbrio fiscal e beneficiaria a sociedade. Além disso, considerando que muitos desses líderes religiosos se apoderam dos recursos doados pelos fiéis para ostentarem suas riquezas enquanto parte dos fiéis que contribuem com ofertas mal possuem três refeições diárias. Causa indignação a falta de coerência que líderes religiosos e políticos da “Bancadas da Bíblia” não vivam o que pregam, usam a fé das pessoas para enriquecimento pessoal. Conseguem destilar seu ódio e preconceito, usar armas, cometer crimes e não respeitar outras religiões com um salvo conduto incredível. Sem o manto da virtuosidade e religiosidade, muitos estariam presos ao se aproveitarem de pessoas que buscam na fé (e na religião) um alicerce para enfrentar seus problemas e acabam sendo usadas por mercadores da fé. Os mercadores da fé A maneira como as igrejas agem é muito parecida, o que geralmente muda é o nome e os líderes religiosos a frente delas. A forma que mais se destaca é a arrecadação de grandes quantias através da persuasão, sempre utilizando o nome de Deus e a promessa de retornos pessoais, profissionais e principalmente financeiros. O discurso para arrecadação começa ora vendendo vassouras ungidas para varrer o mal, carros, água, óleos, carnês, e ora vendendo um pedacinho no céu. Tudo isso acaba tocando de maneira muito forte as pessoas que geralmente estão fragilizadas e faz com que realmente doem, inclusive seu único recurso disponível, acreditando que obterão um retorno. Vale lembrar que essa prática é bastante condenada por parte da sociedade, mas faz com que as igrejas arrecadem grandes quantias, enriquecendo os templos e seus líderes que ostentam com suas propriedades, jatinhos, fazendas, canais de televisão, rádios, carros importados, que na verdade deveriam ser revertidos para a “obra de Deus” que eles mesmo pregam. Todo esse poder econômico faz com que se tornem ainda mais poderosos e grandes influenciadores do cenário político nacional impactando em decisões que podem afetar seus interesses pessoais, como a cobrança de impostos, que citei acima. Infelizmente nem os templos religiosos estão livres de crimes, pois nos últimos anos diversas pessoas usaram a religião para esconder seus atos ilegais. Não se espera (no senso comum) que religiosos sejam criminosos que lavem dinheiro, desviem recursos públicos, cometam importunação sexual, sonegue de impostos, entre outros crimes, mas a fé se tornou um negócio altamente lucrativo no sentido econômico e de obter ganhos, tudo isso escondido e aceito socialmente. Revisão textual realizada por: Mateus Santana Edição e arte por: Katiane Bispo Fontes https://jornal.usp.br/cultura/revista-mostra-os-efeitos-da-mistura-entre-politica-e-religiao/ https://noticias.uol.com.br/colunas/abradep/2022/10/25/a-religiao-na-politica-brasileira-um-mal-ou-bem-necessario.htm https://monografias.brasilescola.uol.com.br/religiao/cristianismo-no-brasil--chegada-aos-dias-atuais.htm https://www.flickr.com/photos/fdctsevilla/4132551331 https://latuffcartoons.files.wordpress.com/2013/03/sai-estado-laico.gif

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