Resultados da busca
287 resultados encontrados com uma busca vazia
- Migrações: A mídia e a formação da opinião pública
As sociedades atuais encontram-se em constante desenvolvimento, procurando adaptar-se as novas realidades. Não digo apenas as mudanças políticas, crises econômicas e sociais, mas também ao novo contexto que emerge. O fato de que as nações se tornam cada vez mais interdependentes faz com que a migração seja uma realidade para levar-se em consideração, embora não seja um fenômeno novo, e parecer acelerar progressivamente como resultado do processo de integração global. Nesse processo, os movimentos migratórios produzem o aumento da diversidade de muitas sociedades, configuram um ambiente social caracterizado pela pluralidade cultural, religiosa e étnica. As migrações são vistas como ameaça desde a concretização dos Estados Nacionais, de modo que apresentam um perigo externo devido ao fluxo constante de pessoas, o que gera medo da alteridade, da diferença daquilo que não é entendido como idêntico a si mesmo. É possível ver essas ameaças refletidas em baixos níveis de aceitação e tolerância, como também é possível encontrar no Survey Gallup publicado no portal de migrações. Esses dados indicam que a migração é uma questão política cada vez mais importante. A exposição a informações é importante para explicar as atitudes de aceitação ou rejeição sobre a imigração e o assunto passou a fazer parte da pauta dos meios de comunicação, principalmente da imprensa escrita. Por isso, os frames selecionam alguns aspectos de uma realidade e os tornam mais salientes para promover a definição de um problema particular ou interpretação causal. A mídia na cobertura de migrações As notícias têm um efeito e sugerem uma interpretação específica da questão definida para o indivíduo, processo geralmente chamado efeito do enquadramento. Com ele, podem-se ver as mudanças nas opiniões das pessoas e um dos mais utilizados apresenta aos imigrantes como uma ameaça à sociedade anfitriã ou como vítimas. A cobertura das notícias sobre migração desempenha um papel importante, sendo que, além de moldar a percepção do público, é a principal interface pela qual os nativos de determinada região tenha contato com as narrativas sobre os imigrantes. Em relação a eles, temos dois tipos de enquadramentos. 1º - Os enquadramentos episódicos: levam a uma compreensão limitada do assunto. São aqueles que colocam o foco no indivíduo e não na problemática a ser analisada, produziriam que as pessoas tenham opiniões de rejeição para com os imigrantes e, ao contrario; 2º - Os enquadramentos temáticos: aqueles que têm informação mais contextualizada, fariam com que os locais aceitassem os imigrantes, já que estes compreenderam o fenômeno da migração além das transgressões. A formação da opinião pública É necessário sinalizar que o estudo do enquadramento é importante, porque afeta as atitudes e comportamentos das audiências. Quando a informação é apresentada com mais detalhes, as pessoas recebem uma mensagem mais completa e sua reação é mais racional e, neste caso, de maior aceitação. Em caso contrário, quando o conteúdo é centrado os detalhes, sendo de caráter mais sensacionalista, as pessoas serão induzidas a reação mais emocional e próxima a rejeição dos imigrantes. Pode-se concluir que as perspectivas dos diferentes enquadramentos vão influenciar o processo pelo qual as pessoas vão formar sua opinião em relação às migrações. Mas o que acontece quando as pessoas recebem a mesma notícia com o enquadramento oposto? Será que elas mudam sua opinião em relação à primeira? Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Bibliografía consultada: BAENINGER, R. (2018). Contribuições da academia para o pacto global da migração: o olhar do sul. Migrações Sul-Sul. Campinas, SP: Núcleo de Estudos de População―Elza Berquo‖–Nepo/Unicamp. BOOMGAARDEN, H. G., & VLIEGENTHART, R. (2009). How news content influences anti‐immigration attitudes: Germany, 1993–2005. European Journal of Political Research, 48(4), 516-542. BOS, L., LECHELER, S., MEWAFI, M., & VLIEGENTHART, R. (2016). It's the frame that matters: Immigrant integration and media framing effects in the Netherlands. International Journal of Intercultural Relations, 55, 97-108. BRADER, T., VALENTINO, N. A., & SUHAy, E. (2008). What triggers public opposition to immigration? Anxiety, group cues, and immigration threat. American Journal of Political Science, 52(4), 959-978. CHONG, D., & DRUCKMAN, J. N. (2007). A theory of framing and opinion formation in competitive elite environments. Journal of communication, 57(1), 99-118. CHONG, D., & DRUCKMAN, J. N. (2007). Framing theory. Annu. Rev. Polit. Sci., 10, 103-126. HAYNES, C.; MEROLLA, J.; RAMAKRISHNAN, SK. Inmigrantes enmarcados: cobertura de noticias, opinión pública y política. Fundación Russell Sage, 2016. IYENGAR, S. Framing responsibility for Political issues: the case of poverty. Political behavior, v. 12, n. 1, p.p. 19-40, 1990. IYENGAR, S. Speaking of values: the framing of American politics. The Forum, v.3, n. 3, 2005. IYENGAR, S.; SIMON, A. News coverage of the Gulf Crisis and Public Opinion: a study of agenda setting, priming and framing. Communication Research, v. 20, n. 3, p.p. 365-383, 1993. MAURÍCIO A. A percepção de conflitos em relação aos imigrantes e as atitudes face à imigração em Portugal. Dissertação de Mestrado. Universidade de Coimbra. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. UC/FPC 2016 MÜLLER, T. Migration, unemployment and discrimination. European Economic Review, 47, pp. 409-427. 2003 PROCTOR, J.L.; BADZINSKI, D.M.; JOHNSON, M. The Impact of Media on Kno wledge and Perceptions of Megan’s Law. Criminal Justice Policy Review, v. 13, n. 4, p.p. 356-379, 2002. SALAZAR, K. Notícias sobre crimes e punitivismo: uma abordagem experimental. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Pernambuco. 2019. SOTIROVIC, M. Affective and cognitive processes as mediators of media influences on crime-policy preferences. Mass Communication Society, v. 4, n. 3, p.p. 311-329, 2001.
- Governança Ambiental e as COPs
Quando tratamos de governança global sobre o meio ambiente, algumas datas, nomes e expressões se destacam. Um ponto considerado inicial dessas discussões foi a Conferência de Estocolmo de 1972. Ela reuniu líderes de governos e outras organizações para debater a crescente preocupação com o meio ambiente, o uso de recursos naturais. Foi nela que surgiram debates importantes entre países industrializados e desenvolvidos com os países em desenvolvimento e as bases para conceitos como o desenvolvimento sustentável. Os países desenvolvidos tinham como proposta uma “taxa de crescimento zero” para frear o consumo e os danos ao meio ambiente, enquanto os países em desenvolvimento viam essa proposta como uma tentativa de manter o congelamento das forças e importância econômica. A ideia que ganhou mais tração e passou a fazer parte dos debates futuros foi a do “Desenvolvimento Sustentável”, ou seja, aquele que proporcionaria avanços as gerações atuais sem comprometer de maneira irreversível a possibilidade de exploração dos recursos naturais e desenvolvimento das gerações futuras. Eco 92, um marco Para nós, brasileiros, A Eco 92 cujo nome oficial é Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), marcou uma geração. Foi a primeira vez que o país recebia muitas autoridades internacionais após a redemocratização. Havia um espírito de cooperação e participação nas discussões para que medidas concretas fossem tomadas e o tema do meio ambiente fosse outra vez resgatado na agenda internacional. A ideia de desenvolvimento sustentável e o compromisso com o meio ambiente e as gerações futuras foi consagrado em uma série de declarações e convenções. Entre elas a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima e como uma convenção-quadro, serviu de orientação para as futuras discussões sobre o tema e a futura definição de limites e medidas para controlar a emissão de gases do efeito estufa. Quase a totalidade dos países são signatários, o que demonstra a importância e a amplitude do debate de um problema de escala global. Conferências das Partes Um dos frutos dessa Convenção são as COPs (Conferências das Partes) que ocorrem regularmente e contam com a participação de todos os países membros da Convenção para discutir novas propostas, revisar as bases cientificas e estudos sobre meio ambiente. Nelas são discutidas medidas mais concretas e protocolos para o efetivo combate às mudanças climáticas. Entre os protocolos, o mais conhecido é o de Quioto, assinado em 1997. O protocolo ficou conhecido por trazer obrigações de redução na emissão de gases do efeito estufa de forma diferenciada para países já desenvolvidos e os em desenvolvimento, o que reforçou o entendimento que os países que já emitiram estes gases durante seu processo de industrialização deveriam assumir um compromisso maior do que aqueles que não o fizeram. Essa limitação tinha como objetivo impedir o aumento da temperatura global e o conseqüente aumento dos níveis dos oceanos. Quioto teria vigência até 2012 quando seria necessária uma alternativa, seja a extensão ou um novo protocolo. Por conta do longo tempo que foi necessário para que o protocolo entrasse em vigor, com a ratificação de países que representassem pelo menos 55% das emissões, a alternativa adotada em 2012 foi a extensão do Protocolo até 2020. Uma outra COP que resultou em um acordo bastante referenciado foi a de Paris em 2015. Ainda no espírito de cooperação e metas mais precisas para a efetiva desaceleração das mudanças climáticas, o trabalho do painel científico apresentou como limiar o aumento de 2 graus Celsius e que medidas cada vez mais ambiciosas deveriam ser tomadas para que o ritmo das mudanças climáticas fosse severamente desacelerado até o final do século XXI. Deste acordo cabe destaque a proposição das “Contribuições Determinadas Nacionalmente”, uma mudança da forma que cada país passou a contribuir nessa luta conta as mudanças climáticas. Cada país ficou responsável por apresentar suas próprias metas e os planos de ação para atingi-las. Essa flexibilidade foi bastante criticada já que permitiu aos signatários definirem metas pouco ambiciosas e sem que houvesse mecanismos para pressioná-los no cumprimento delas. Cabe apenas a ressalva que também permite a revisão e adoção de metas futuras mais abrangentes por aqueles que encaram os desafios climáticos com mais preocupação. Nesse combate contra as mudanças e catástrofes climáticas, existe um tripé estratégico operacional: Mitigar, adaptar, financiar. Mitigar é entender que parte dos impactos já são sentidos e há pouco a ser feito para reverter, cabendo então adotar medidas eficazes para diminuir esses efeitos. Adaptar: mudar as formas de produzir e as políticas públicas para as novas realidades decorrentes do conhecimento crescente sobre os efeitos das mudanças climáticas. Financiar: Aqueles que possuem recursos financeiros em maior quantidade podem auxiliar com o financiamento de iniciativas em países que estejam dispostos a novos projetos, mas que não possuem recursos para as implementações. Cop 27: Como foi? No cenário atual, de invasão da Ucrânia pela Rússia e a dependência europeia do gás russo, a agenda de meio ambiente acabou pressionada por questões de segurança e geopolítica. Quando esses fatores se juntam, fica mais difícil para determinados países tratarem de temas ambientais e assumirem compromissos mais ousados e que possam apresentar um custo ou dificuldade de transição para novas formas de energia. Dessa forma, a COP 27 que ocorreu entre 6 e 18 de novembro de 2022 em Sharm El-Sheik no Egito teve um difícil processo de discussão e produção de documentos. Além do cenário atual de instabilidade energética, a presença maciça de lobistas da indústria de combustíveis fosseis dificultaram a adoção de um acordo mais incisivo de controle e redução das emissões, bem como meios de estimular os países a alcançarem ou expandirem as Contribuições Determinadas Nacionalmente. Entretanto cabe destacar que o documento produzido trouxe um ponto bastante importante para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas ao criar um fundo para perdas e danos dos países mais afetados, embora tenha sido bastante leniente com a efetiva prevenção ao propor poucas iniciativas para a diminuição de uso de combustíveis fosseis até 2030 e 2050. Uma das críticas feitas é a falta de ambição dos governos em tomar medidas mais concretas e que agiriam conjuntamente com o que parte do setor privado vem fazendo baseado no conceito da ESG (Governança Social e Ambiental corporativa), mostrando que parece haver um descompasso entre as preocupações do setor privado e público de alguns países. Ao mesmo tempo em que a tecnologia para geração de energia com menor impacto ambiental está barateando e a sociedade está buscando essas alternativas, alguns governos não fazem a devida regulamentação e incentivo a essa transformação. A participação brasileira foi multifacetada, contando com organizações da sociedade civil, o governo da época e o presidente eleito. A sociedade civil tem sido bastante engajada nas discussões climáticas, em parte pela nossa privilegiada condição ambiental e da importância dada ao tema no cotidiano brasileiro. Ao mesmo tempo, o governo de Bolsonaro passou os últimos 4 anos constantemente na defesa da sua visão de preservação e de como, em sua visão, havia sido bem-sucedido em controlar uma das maiores ameaças climáticas: o desmatamento de biomas. Esse constante estado defensivo tentando solidificar uma outra visão da realidade acabaram afastando o protagonismo do país nos debates internacionais, já que pouco se avançou em propostas concretas. A eleição de Luís Inacio Lula da Silva, convidado para participar da COP 27 como parte do Consorcio de Governadores da Amazonia Legal, tem a possibilidade de restaurar esse protagonismo em uma temática que o país sempre demonstrou excelência técnica e política, como ficou demonstrado na fala daqueles que tiveram contato com o novo governo e expressaram o apresso pelo retorno do Brasil as discussões multilaterais. Enquanto o antigo presidente se distanciou das COPs, o novo já marca posição sobre a importância dada ao tema e como uma postura mais ativa trará benefícios ao país, desde o incremento do Fundo Amazônico até cooperação técnica sobre a transformação da matriz energética. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Fontes https://unfccc.int/ (acessado em 20-11-2022) https://unfccc.int/cop27 (acessado em 28-11-2022) https://www.camara.leg.br/tv/920858-brasil-na-cop-27/ (acessado em 24-11-2022) https://apublica.org/2022/11/cop27-entrega-fundo-de-perdas-e-danos-mas-tem-tregua-com-combustiveis-fosseis/ (acessado em 24-11-2022)
- ODS 5 – Igualdade de Gênero
Na numerologia, o número 5 representa mudanças e transformações, e o tema cinco das ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) é o objetivo mais difícil de se realizar. Por que? Hoje, a sociedade que vivemos não aceita e nem ousa pensar sobre o mundo desta forma, onde um indivíduo que não seja homem, branco e cis perca os privilégios que ele luta todos os dias para conservar, da maneira que ele acredita que é dele por direito. E por que digo que é objetivo mais desafiador de se aplicar? Não se trata de algo tangível como tentar acabar com a pobreza através de transferência de renda, nem de construir escolas ou fazer obras de infraestrutura. Todos esses objetivos de alguma forma tem um retorno de capital monetário para quem investe, além do capital humano. Porém quem está no poder tem a possibilidade de melhorar a sociedade e escolhe ao invés disso se manter no poder. Pode dar um pouco mais de trabalho para se manter no poder, mesmo assim aqueles que já estão lá conseguem manter seus privilégios, alegando muitas vezes terem um direito divino ao mesmo. Cito abaixo alguns exemplos histórico, no qual a luta para mulheres ocuparem o mesmo espaço de poder sempre se torna um desafio: Rainha Elizabeth (1558-1603) Seu pai Rei Henrique VIII (1491-1547), se desvincula da igreja católica e cria a igreja anglicana para poder se divorciar, e assim conseguir um herdeiro homem para seu trono. Porém não tem sucesso em tal feito e quem assume o trono da Inglaterra após a sua morte é a filha Elizabeth, que, mesmo o trono sendo seu por direito, toma a decisão de não contrair matrimonio para que não perdesse o trono. Mesmo seu pai criando uma igreja, a Rainha Elizabeth perderia seu trono caso se casasse. Seu governo foi comandado por homens, pois mesmo ela sendo a enviada de Deus para governar, todos os seus conselheiros eram homens. Rainha Elizabeth II (1926-2022) Então avançamos para os tempos um pouco mais atuais. Rainha Elizabeth II (1926-2022), a monarca que esteve mais tempo no poder de umas das maiores potências mundiais, que serviu ao seu país de forma discreta, sem jamais expressar suas opiniões e também escolhendo que seus conselheiros fossem homens. Todas as mulheres que ousavam aparecer e trazer ares de mudança para sociedade, acabam sendo silenciadas ou afastadas da família real. Grandes mulheres da história Se analisar bem a história do mundo, todas as mulheres que hoje conhecemos por serem pioneiras, seus nomes foram apagados e seus trunfos foram usurpados por homens brancos, ou essas mulheres tiveram que se passar por homens para serem respeitadas. É só pensar em Joana d'Arc (que se transformava em homem para lutar), Maria Quitéria (se travestiu de homem para lutar no exército brasileiro), Irmãs Brondë (esconderam seus primeiros nomes para publicarem seus livros, assim as editoras e seus leitores acreditavam que os livros foram escritos por homens), Dilma Rousseff (muitas vezes criticadas por ser enérgica demais em suas reuniões) e se deixar posso passar horas demonstrando o quanto esse objetivo é o mais desafiador, pois sempre irão derrubar qualquer chance de ascensão para que isso ocorra. Pensando e analisando historicamente, toda vez que nós “acreditamos” que estamos progredindo, no sentido de que mulheres estão começando a ocupar cargos de liderança com poder transformador de mudança na sociedade, a mulher acaba se tornando mais uma presença simbólica do que alguém com real poder, pois ao se observar quem são as pessoas que estão assessorando essa figura, acabam sendo mais do mesmo. Homens, brancos, cis, que perpetuam suas ideias conservadoras e dificultam a colocar em pratica as ideias progressistas dessas mulheres. Quando esta mulher tenta romper com as regras estabelecidas e fazer o que ela acredita ser necessário para ocorrer uma metamorfose na sociedade, ela sofre milhões de micro violências no seu dia a dia fora dos holofotes e violência diretas em público. Exemplo claro foi o ano que Dilma Roussef sofreu o impeachment. Haviam adesivos nos tanques dos carros a desrespeitando, milhares de vezes em que o povo a chamava de burra nos seus discursos, quando ela ficava nervosa em algum pronunciamento ou por qualquer motivo que ela gaguejasse ou mesmo tropeçasse nas palavras, sendo que muitas vezes as pessoas não queriam ouvir o que ela tinha a dizer. Porém esse tratamento nunca foi dado ao Michel Temer quando chamou a Rússia de União Soviética ou mesmo quando disse que a moeda corrente do Brasil era o Cruzeiro em vez do Real, ou a Jair Bolsonaro, um homem que lê seus discursos de forma pior que uma criança recém alfabetizada. Economia e Sociedade Após dar uma pincelada em alguns momentos históricos, irei observar o âmbito microscópico dentro da bolha que estou inserida. Analiso que a luta para validar esse objetivo exige grande esforços das mulheres, mas olhando o lado empresarial, não vejo muitas mudanças. Vejo algumas empresas assinando a pauta do impacto global da ONU para aplicar as ODS em suas empresas, com foco principal o objetivo 05. Porém tenho a impressão de que é somente uma campanha de marketing para deixar a empresa com cara de progressista. Na hora de analisar os números, a impressão que tenho é que tudo é pura maquiagem. Um exemplo é o Grupo Natura, uma empresa que é considerada exemplo de responsabilidade ambiental e trabalho com comunidade, uma das primeiras empresas a falar sobre sustentabilidade, seus produtos voltados quase exclusivamente para mulheres, porém quando você olha sua diretoria estatutária temos somente uma mulher na equipe, e isso vai se repetindo na maioria das empresas que assinaram o pacto global. E se falarmos de mulheres negras nesse contexto de grande liderança, a presença é ainda menor ou quase nula. Lembrando que quando o assunto é políticas públicas para mulheres, ou mesmo para que homens tenham a oportunidade de participar de áreas que foram deixadas para serem exercidas muitas vezes por mulheres, temos resistência na aplicação das mesmas. Um exemplo de política pública que traz um benefício para o homem, é a licença paternidade de pelo menos 180 dias, para que ele possa participar mais da criação dos filhos. Esse tipo de política sofre bastante ataque pelos próprios homens, com desculpas de que isso irá dar prejuízo para empresas, ou mesmo porque esses não querem se responsabilizar pelo cuidado do outro de forma efetiva. Os exemplos que informei são somente uma gota no mar de acontecimentos que demonstram que o objetivo 5 é o mais desafiador de aplicar na nossa sociedade, pois temos todo um sistema atacando todas as possibilidades de progresso nessa área. E os ataques vem da cultura, religião, sociedade e principalmente de quem está se beneficiando para que o mundo continue do jeito que está. Porém temos que continuar a incomodar e ocupar os espaços que sempre nos foram negados, pois a sociedade é composta em sua maioria por mulheres, pessoas negras, povos originários, etc. e essa população é a mão de obra que constrói os espaços que são negados a eles. Para que esse objetivo tenha chances de ser realizado, temos que observar a nossa volta, questionar o ambiente e perguntar sempre, por exemplo porque aquele espaço não tem mais mulheres na liderança, porque não tem negros na liderança e qual o motivo de não contratar. E se você tiver na liderança, monte a sua equipe com diversidade não se apegando a padrões. Sinto em informar aos leitores, que quando vocês questionarem os líderes por que na oportunidade de preencher algumas vagas não contrataram mulheres e negros, e ao invés disso continuaram contratando homens, brancos, cis, saibam que na sua avaliação de desempenho tem a chance de haver um adendo informando que um dos seus defeitos é não ter filtro entre o cérebro e a boca. Pois essas pessoas não estão acostumadas a serem questionadas. Objetivo 5. Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas 5.1 Acabar com todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas em toda parte; 5.2 Eliminar todas as formas de violência contra todas as mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas, incluindo o tráfico e exploração sexual e de outros tipos; 5.3 Eliminar todas as práticas nocivas, como os casamentos prematuros, forçados e de crianças e mutilações genitais femininas; 5.4 Reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públicos, infraestrutura e políticas de proteção social, bem como a promoção da responsabilidade compartilhada dentro do lar e da família, conforme os contextos nacionais; 5.5 Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública; 5.6 Assegurar o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos, como acordado em conformidade com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferências de revisão; 5.a Realizar reformas para dar às mulheres direitos iguais aos recursos econômicos, bem como o acesso a propriedade e controle sobre a terra e outras formas de propriedade, serviços financeiros, herança e os recursos naturais, de acordo com as leis nacionais; 5.b Aumentar o uso de tecnologias de base, em particular as tecnologias de informação e comunicação, para promover o empoderamento das mulheres; 5.c Adotar e fortalecer políticas sólidas e legislação aplicável para a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas em todos os níveis. Texto escrito por Camila Bellato Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Fontes https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/5 https://ri.naturaeco.com/a-natura-co/o-grupo/g-governanca-corporativa/conselho-de-administracao-comites-e-diretoria-estatutaria/diretoria-estatutaria/ https://www.historiadomundo.com.br/idade-moderna/igreja-anglicana-e-a-reforma-na-inglaterra.htm
- 8 de Janeiro e o terrorismo bolsonarista
Neste último domingo (8) ocorreu uma invasão nos prédios que abrigam os três poderes da República brasileira: o Congresso Nacional, o Plenário do Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Essa invasão foi perpetrada por terroristas bolsonaristas que furaram um bloqueio da Polícia Militar do DF e depredaram os três prédios. Essa situação muito se assemelha ao lamentável episódio de 6 de janeiro de 2021, em Washington, nos EUA. Da mesma forma que, em 2021, apoiadores frustrados de um candidato que perdeu a eleição se revoltaram e entraram dentro de um prédio público com intuito de vandalizar e, mais uma vez, o pânico moral causado por notícias falsas, mentalidade de seita e uma boa dose de mau-caratismo levaram a um triste episódio na história, um atentado à democracia. O Bolsonarismo e a mentalidade de seita João Cezar de Castro Rocha, autor do livro 'Guerra cultural e retórica do ódio - Crônicas de um Brasil pós-político', definiu o governo Bolsonaro como uma fábrica que produz inimigos em série, que alimentou uma guerra cultural calcada em fatos alternativos, inteiramente movida no universo digital, com diferentes narrativas, cada uma focada em um medo da população que poderia ser explorado. No trecho abaixo, escrito ainda no governo Bolsonaro, Castro Rocha chama a atenção para o que está se tornando o movimento bolsonarista: “Para o bolsonarismo, é impossível a simples noção de um problema concreto, porque qualquer aspecto da realidade é encoberto pela guerra cultural. Isso cria um problema sério, que estamos vivendo agora, que é o colapso completo da gestão pública, é uma crise sanitária e humanitária sem proporções, é a maior tragédia da história brasileira que poderia ter sido evitada se tivéssemos um governo, mas precisamente não temos um governo, porque temos bolsonarismo demais”, avalia Castro Rocha, no livro Guerra cultural e retórica do ódio – Crônicas de um Brasil pós-político” (Editora Caminhos). Desde 2020, João Cezar de Castro Rocha está monitorando grupos bolsonaristas para tentar entender as teorias de conspiração que explodiram no Brasil e no mundo, e que tomaram conta de uma parcela da população depois do resultado das eleições de 2022. Em uma nova hipótese de pesquisa, João Cezar Castro Rocha sustenta: “A guerra cultural bolsonarista deu um passo além. Deixou de ser apenas um instrumento para a disputa de narrativas e para vencer campanhas eleitorais. É mais do que isso hoje. Está se transformando em uma seita, numa forma de vida”. Isso tem se tornado cada vez mais uma realidade, principalmente no comportamento dos apoiadores de Bolsonaro que acampam na frente dos quartéis em todo o Brasil. Em um vídeo publicado recentemente nas redes sociais, o exército desmonta um acampamento de bolsonaristas em Minas Gerais e um homem grita desesperado, como se estivesse imitando um gato: Porém, na verdade, o bolsonarista estava bradando "YAO", que é como algumas correntes cristãs pronunciam o termo em hebraico "YHWH", que seria o verdadeiro nome de Deus, conforme a tradição do Torá judeu. Essas correntes que pronunciam o nome de Deus dessa forma são consideradas esotéricas, muitas vezes fundamentadas em teorias da conspiração, como a de que o mundo está para acabar em breve, etc. Em vista disso, a invasão terrorista que aconteceu no dia 8, aos gritos de "Deus acima de tudo" e "O poder emana do povo", não é nada mais, nada menos que uma consequência direta de mais de quatro anos de fortalecimento de uma já dita seita, que tem, em Jair Bolsonaro, o seu messias (literalmente) e, em suas visões distorcidas da bíblia, um chamado à ação contra os "imorais da esquerda e do PT". Comportamento de Manada Ano passado escrevi um artigo descrevendo o "comportamento de manada", no qual uma pequena porcentagem de indivíduos, tomando atitudes com confiança, influencia um grande número de pessoas. Esse acontecimento é semelhante ao da invasão do Capitólio em Washington que agora se repete em Brasília, com as invasões dos prédios governamentais. No artigo, detalho os passos da invasão ocorrida em 6 de janeiro de 2021, onde pode-se notar que as pessoas foram influenciadas por seus semelhantes de modo a adotar certas atitudes de forma completamente emocional, sem considerar a lógica ou a razão. O mesmo ocorreu agora em 8 de janeiro, em que líderes, muitos de caráter fundamentalista, tomaram as rédeas da multidão e os guiaram para dentro do Congresso. No vídeo abaixo é possível perceber como a multidão se comporta de forma quase animalesca, emocional, gritando e bradando, como se estivesse em uma guerra. As consequências dos atos terroristas Nos Estados Unidos, centenas de pessoas foram indiciadas por crimes relacionados à invasão do Capitólio. Além das punições individuais, houve investigações sobre grupos de milícias de extrema direita, como os Vow Keepers e os Proud Boys, e também os grupos baseados em teorias de conspiração no estilo "QAnon". Um comitê parlamentar bipartidário também foi formado lá para investigar o ataque de 6 de janeiro. O painel ouviu mais de mil testemunhas e apresentou suas conclusões e recomendações ao Departamento de Justiça do país. O documento final, divulgado em 2022, não se esquivou de culpar altos funcionários do governo, incluindo o ex-presidente Donald Trump. Trump foi acusado de obstrução, conspiração e insurreição, entre outras acusações. Ele é visto como uma figura central no incentivo à violência que testemunhamos naquele dia. O Departamento de Justiça já está investigando o papel de Trump nessas ações e ele pode pegar mais de 10 anos de prisão, além de se tornar ilegível. Já no Brasil, algumas horas após a invasão da Praça dos Três Poderes, o presidente Lula (PT) decretou a intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal e classificou os atos como fascistas. A avaliação do governo é que tanto o governador, Ibaneis Rocha (MDB), quanto o secretário de Segurança Pública e ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, que neste domingo está com Jair Bolsonaro (PL) na Flórida, sabiam com antecedência o que estava sendo planejado. Com isso, Torres foi exonerado de seu cargo. Foi aprovado pelo Senado Federal na última terça (10) o decreto de intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal assinado pelo presidente Lula após os atos terroristas de domingo. A intervenção está prevista no artigo 34 da Constituição Federal para “pôr termo a grave comprometimento da ordem pública” e “garantir o livre exercício de qualquer dos Poderes nas unidades da Federação”. Entre responsabilização de empresários que financiaram os atos terroristas, prisão dos bolsonaristas que invadiram o Palácio do Planalto, afastamento do governador do DF e a abertura de um canal de denúncias para identificar golpistas, estamos vendo medidas firmes e diretas sendo tomadas para investigar e punir, em uma união que há muito tempo não ocorria entre Legislativo, Judiciário e Executivo. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes Podcast Rádio Novelo - Episódio 7 - 72 horas - https://www.radionovelo.com.br/originais/apresenta/72-horas/ ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. 1ª Edição. Goiânia: Editora e Livraria Caminhos, 2021. Terrorismo doméstico: lições da invasão ao Capitólio nos EUA para o Brasil... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/fernanda-magnotta/2023/01/09/terrorismo-domestico-licoes-da-invasao-ao-capitolio-nos-eua-para-o-brasil.htm?cmpid=copiaecola Castro Rocha: 'Bolsonarismo está se transformando em seita' - https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2021/04/09/interna_pensar,1255147/castro-rocha-bolsonarismo-esta-se-transformando-em-seita.shtml 6 de Janeiro e o comportamento de manada - https://www.zeroaguia.com/post/6-de-janeiro-e-o-comportamento-de-manada
- A Classe Média e a sociedade brasileira
A classe média sempre teve um papel importante nos processos históricos do país, sejam seus resultados bons ou ruins, e assim foi nos últimos anos. O Brasil passou pelo processo turbulento de pré-eleição até chegar às eleições neste ano de 2022, que foi decidida em dois turnos, e durante esse processo o interesse pela política cresceu significativamente, principalmente pela classe média brasileira. No entanto, antes de nos aprofundarmos, vamos conhecer um pouco mais sobre essa parcela da sociedade que sempre atraiu os olhares dos cientistas políticos e sociólogos. A classe média surgiu com a consolidação do capitalismo, isto é, uma consequência do desenvolvimento econômico, muito ligado à industrialização. No Brasil, embora tendo encolhido de tamanho em relação a 2011 (de 51% da população para 47% em 2020), segundo dados da PNAD, a classe média ainda representa uma grande parte da sociedade com cerca de 100 milhões de brasileiros, graças às gritantes desigualdades que assolam nosso país. Essa classe social é composta por pessoas que não são ricas, mas que conseguem ter um padrão de vida acima dos pertencentes às classes D e E. Tem como característica, por exemplo, adquirir uma casa financiada, ter um carro na garagem, um plano de saúde, pagar mensalidade de uma escola particular, viajar ao menos uma vez ao ano e consumir fast food aos finais de semana ou diariamente. Além disso, essa classe também tem grau de ensino superior. Essa parte da sociedade, que por sinal é bem consumista, também é conhecida por ser bastante conservadora, uma vez que segue padrões e não aceita mudanças por medo de perder seu status, por medo de ser confundida com as classes inferiores. Apesar de ter ganhos e poder de consumo maiores do que o das classes D e E, a remuneração e a consciência financeira estão bem abaixo dos padrões europeus. Infelizmente, a complexidade na cobrança de impostos e as altas taxas tributárias consomem parte dos seus ganhos, fazendo com que a renda seja algo muitas vezes algo bem limitado para a classe média. Empobrecimento Nos últimos anos, a classe média foi bastante prejudicada, principalmente no contexto da pandemia, que fez com que essa parcela da sociedade que representava mais da metade da população brasileira, encolhesse e passasse a ter o tamanho das classes D e E. No entanto, foi somente em 2020 que mais de quatro milhões de pessoas deixaram a classe C e migraram para as classes D e E. Esses números estão diretamente ligados à redução do consumo, causados por demissões, falência de negócios e até mesmo reorganização das finanças, isto é, medo da incerteza do futuro. O reflexo que a pandemia causou foi para além dos problemas de saúde, uma vez que houve prejuízo financeiro para boa parte da sociedade, tornando insustentável manter o mesmo padrão de vida de antes dessa catástrofe, exceto para aqueles que pertencem ao topo da pirâmide, que ficaram muito mais ricos e poderosos. Política e consciência de classe O interesse da classe C por política não é novidade, mas tem se intensificado nos últimos processos eleitorais. O Brasil, por exemplo, passou por um processo eleitoral bastante tenso a partir de 2013 e foi ficando mais complicando com o impeachment da ex-presidente Dilma em 2016 até o processo eleitoral deste ano de 2022. Esse processo foi um dos mais divididos. Aliás, a classe média teve uma atuação fundamental para chancelar o impeachment por meio das grandes manifestações protagonizadas por essa camada da sociedade, pois estava insatisfeita com a crise econômica que afetava o país naquela época e colocava em risco o seu status. Infelizmente, o impeachment foi usado por quem queria assumir o poder, que seguem participando ativamente do processo eleitoral, das discussões em redes sociais, dos grupos de mensagens e dos atos públicos em defesa de suas ideias conservadoras. Neste último processo eleitoral, boa parte da classe média também participou, embora tudo leve a crer que a mentira disseminada pela elite política e financeira serviu para desinformar as pessoas. Podemos lembrar, por exemplo, das pautas em relação ao banheiro unissex, ao kit gay, à Venezuela e à ditadura comunista. Com isso, muito conteúdo de desinformação foi utilizado para disseminar e induzir as pessoas ao erro, de modo que as discussões mais importantes, como o crescimento do país de maneira sustentável, foram deixadas de lado. Contudo, acreditamos que o fato mais curioso a ser destacado é que essa parcela da sociedade — que faz questão de se distinguir das classes inferiores, que age quando vê ou pensa que seu status de elite está sendo ameaçado — demonstra uma ausência de consciência de classe, já que, em quase sua totalidade, não é detentora do capital e, sim, parte da classe trabalhadora. Apesar da classe C ganhar mais, ainda tem direitos concedidos, parecidos com os das classes trabalhadoras D e E. Nesse sentido, por não ter a consciência de classe, acaba apoiando governos que precarizam as relações de trabalho e segregam direitos. Além disso, essa classe C vende a imagem de conservadora, pelo fato de sempre estar no meio da cadeia social e não se identificar com a massa trabalhadora. Esse assunto, portanto, cabe muita discussão. Porém ressaltamos que a classe média é muito grande e que este artigo tenta não generalizar, mas sim contribuir para uma análise mais crítica do processo eleitoral e da ausência de consciência de classe na população, especialmente na classe C. Assim, esperamos ter contribuído para a continuidade das discussões em torno da classe média brasileira. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia. Fontes https://cps.fgv.br/pesquisas/nova-classe-media-lado-brilhante-dos-pobres https://www.todamateria.com.br/classe-social/ https://edisciplinas.usp.br/acessar/
- Emoção, razão e a arte de escrever
Façamos um experimento mental, digamos que você caro leitor, por algum motivo pessoal ou não acabou discutindo com alguém verbalmente. É possível que, na hora da discussão, ou após ela, você formulou argumentos que foi incapaz de proferir de forma articulada como sua imaginação o concebeu e isso talvez lhe cause uma grande frustração, comum em indivíduos bilíngues que apesar de conseguirem pensar claramente em ambas as línguas, nem sempre conseguem se expressar verbalmente na estrangeira. Agora, façamos não um experimento mental, porém uma evocação da memória. É possível que em algum momento de sua vida você teve que transcrever a falar de algum professor em sala de aula para o seu caderno de anotações. Caso sim, se lembrará de colegas de sala gritando “Calma!” não por que o professor estava com raiva, mas sim pelo mesmo estar falando rápido demais. Agora você deve estar se perguntando: “Mas é o que isso tem a ver com emoção, razão e a arte de escrever"? Pois tem a ver com a percepção de que, pensar é menos limitado que falar, e falar é menos limitado que escrever. E não me entenda errado quando digo “limitado”, neste caso estou apenas me referindo a quantidade de esforço envolvido em cada uma dessas ações e não seu potencial e poder. Quando escrevemos em papel temos que nos esforçar mais para expressar o que realmente queremos dizer, por uma pura questão fisiológica e mecânica. Você tem que colocar cada pequena letra no papel para conseguir formar a palavra, frase ou texto que planejava colocar lá. Isso com certeza lhe parece óbvio, mas então fica a pergunta: por que tanta gente usa algo tão “limitado” como ferramenta para higiene mental? Uma breve história da escrita e sua função Considerando que a linguagem escrita existe há aproximadamente 5500 anos e possui importância imensurável no desenvolvimento humano, vamos tentar entender como e por que ela é tão eficiente quando o assunto é transformar sentimentos em pensamentos. Ao observarmos que pela “invenção” (talvez o termo mais correto seja evolução) da linguagem, conseguimos agora codificar uma quantidade imensa de informação através do som, sejam elas informações reais sobre o mundo ou conjecturas da própria mente, ganhamos uma ferramenta incompreensivelmente poderosa para nós humanos, com apenas alguns problemas. Sons se perdem ao vento e se você quer manter uma informação ou ideia por perto, talvez apenas a memória humana e a capacidade de comunicar-se através da fala não sejam o suficiente. Por isso – e por uma série de motivos bem mais complicados, porém relevados para maior entendimento do leitor – decidimos criar a escrita. Começamos utilizando tabulas de argila, óstraco, inventamos o papiro e finalmente chegamos a maquinas de escrever – e hoje em dia nem sequer utilizamos papel para escrever, mas sim bits e fótons – com basicamente o mesmo objetivo: Codificar informação de forma externa a mente humana. A palavra codificar que é a chave nesta história, pois a escrita surge como forma de criptografar a linguagem verbal com a utilização de um conjunto de símbolos finitos, as letras, que podem ser arranjadas de formas praticamente infinitas, formando as palavras que novamente podem ser arranjadas de formas praticamente infinitas também. Dessa forma partindo de um conjunto finito de letras, e seguindo um outro conjunto de regras gramaticais, pode-se dizer que todo e qualquer pensamento e sentimento humano poderia ser codificado – mesmo que de forma não perfeita - pela escrita, ou seja, podemos transformar aquilo que sentimos e pensamos em algo lógico. As vantagens de ser “limitado” Agora que está claro como escrever é provavelmente a segunda mais poderosa ferramenta que inventamos, perdendo apenas para a linguagem em si, vamos entender por que então a escrita em papel seja a melhor nessa conversão de algo emotivo para algo lógico. Relembrando como a escrita encapsula ideias e sentidos em símbolos, pense um pouco no ato em si de escrever. Você vai ter em mãos essencialmente algum tipo de marcador, seja uma caneta, um lápis ou uma pena se você curtir muito Harry Potter. Diante de um pedaço de papel você vai desenhar os símbolos que você precisa para encapsular seja lá o que estiver passando entre seus bilhões de neurônios. Você rapidamente se faz uma série de perguntas, dentre elas: O que eu estou pensando/sentindo? Qual a melhor combinação de palavras e frases para descrever este sentimento/pensamento? E a parte mais fascinante e difícil de acreditar disso tudo é: você acha uma resposta, e antes de você sequer perceber, aquilo que impregnava sua cabeça ou pesava seu coração começa a fazer sentido. Talvez não deixe imediatamente de te incomodar ou doer, porém agora tem um nome, agora você consegue lidar com aquilo de forma mais direta, quem sabe você consiga entender o que causou tal ideia, qual a raiz do sentimento que clamou por ser escrito e até quem sabe define o que fazer em relação a esta resposta. Como começar e continuar escrevendo Agora que compreendemos o poder da escrita na tradução de emoções em palavras, é possível que o leitor tenha o desejo de praticar tal habito, porém, sem saber por onde começar e como ter certeza que continuará fazendo, isso pode se tornar um desafio. Então aqui vão algumas dicas simples para aumentar suas chances de aderir este hábito simples, porém extremamente poderoso. Um caderno e uma caneta são o suficiente, porém, aquele caderno e aquela caneta são atraentes. A ideia aqui é: Não se limite pela qualidade do material que você pretende utilizar, mas tenha noção que ferramentas que você tenha mais facilidade ou preferência de utilizar tornam o hábito mais atrativo. Então se você não faz questão do caderno ideal e da caneta perfeita vá em frente e se você prefere um caderno com a capa do Harry Potter e uma pena para sentir mais conforto ao praticar o hábito sem problemas também. Torne óbvio. Tornar óbvio é fazer questão que você irá lembrar de executar o hábito diariamente, ou seja, deixar o diário e canetas na sua escrivaninha ou mesa que mais utiliza é necessário para facilitar a decisão de escrever. Tornar simples. Como estamos começando, a falta de cobrança ajuda a tornar uma tarefa nova – portanto possivelmente desconfortante – em algo pequeno e rapidamente executável. Duas sentenças por dia é o suficiente, se quiser escrever mais sinta-se livre, porém se quiser parar por aí o habito está cumprido. Torne intuitivo. Quanto menos barreiras você tiver para iniciar a escrita melhor, portanto programe o hábito para que ele ocorra em um momento lógico do seu dia. Pode ser logo antes de ir para cama, depois que você chegou do trabalho ou até enquanto você espera a agua do café esquentar ou a roupa bater na máquina, usando os hábitos que você já possui como gatilhos ou plataformas de execução de um novo habito é uma ótima estratégia para se ganhar consistência. Torne prazeroso. O ser humano, assim como todos os animais vive fugindo da dor e em busca do prazer, e assim como outros animais associamos comportamentos a recompensas. Então faça questão de se recompensar de alguma forma, tanto durante a escrita quanto depois. Se música não atrapalha a sua escrita, ouça-a, se café é sua bebida favorita, beba durante e pós o habito, se você está louco para comer um docinho ou ver o novo episódio da sua série favorita, escreva rapidamente e então vá atrás desse prazer que as chances de aderência deste novo habito irão aumentar consideravelmente. O motivo real de se ter um diário Poder descrever o que você sente em palavras é sem dúvidas motivo suficiente para você caro leitor iniciar o seu diário, porém com os poucos anos que tive escrevendo em um posso dizer que a melhor parte de se ter um desses objetos mágicos é a compreensão que se passa a ter de si mesmo. Dia após dia, escrever algumas linhas em uma folha de papel se torna algo além de um hábito, passando a ser um refúgio, alguns dias sem e é quase que possível sentir o peso de seus próprios pensamentos em sua cabeça e a inquietude das emoções em seu peito. Com isso algo começa a se tornar perceptível, conforme se passa o tempo e a experiência com tal prática é acumulada, que tudo o que você está fazendo é conversando consigo mesmo de uma forma eficiente, prática e direta. Mesmo que você escreva sobre acontecimentos externos você os descreve sobre a sua perspectiva, mesmo que você comente sobre um momento pequeno e diminuto do seu dia, você escolheu falar daquele momento, e então você começa a entender que a caneta e a folha de papel são quase que o espelho e o reflexo da sua imagem. E você entende que o motivo real para se ter um diário é se conhecer. Texto escrito por Heictor Bellato Graduando em Zootecnia, apaixonado por Ciência e Filosofia. Também acredita que são as pessoas que podem trazer as soluções para os problemas do mundo. Fontes https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/historia-escrita/#:~:text=Uma%20escrita%20sistematizada%20aparece%20somente,surgem%20os%20hier%C3%B3glifos%20no%20Egito. https://youtu.be/PZ7lDrwYdZc
- Pelé o Rei, Edson o ser humano
Quem viaja pela rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte, se depara ao chegar no trevo da cidade de Três Corações com uma estátua de cerca de 12 metros de altura. A estátua retrata um homem pulando e dando um "soco" no ar. A alusão que é feita pela imagem é a característica comemoração realizada pelo mais ilustre cidadão da cidade, Pelé, o Rei do futebol, ao realizar um gol. A cidade com pouco mais de 80 mil habitantes homenageia, mesmo que de maneira singela, o atleta gigante que fez história e ficou conhecido mundialmente. Todos sabem que Pelé foi um dos maiores jogadores de futebol do mundo, uma lenda, que ao longo da sua carreira conquistou diversos prêmios, títulos e é considerado o maior atleta do século XX. O Rei e a política Ao olhar os feitos do icônico atleta não há quem não se admire com o que foi realizado por ele dentro do campo, os dribles, as jogadas, que entraram pra história e o consagraram como Rei do futebol. Ele conquistou o mundo e se tornou uma das pessoas mais conhecidas no século XX e até hoje. Quando Pelé visitou a Casa Branca enquanto jogava pelo New York Cosmos, Ronald Reagan, então Presidente Americano, declarou: “Meu nome é Ronald Reagan, sou o Presidente dos Estados Unidos da América. Mas você não precisa se apresentar, porque todo mundo sabe quem é Pelé!” Pelé ficou conhecido pela arte que construiu dentro do futebol. Porém, a imagem do atleta, do personagem criado dentro das quatro linhas, fica desfocado quando se sai delas. Embora tenha visitado diversos Chefes de estados e ter recebido da Rainha Elizabeth II o título de "Sir", Pelé foi apontado e cobrado diversas vezes por não ter se posicionado politicamente de maneira aberta. Pelé saiu do interior de Minas Gerais na década de 50 e foi para o Estado de São Paulo, onde descobriu seu talento com a bola. Foi durante o Regime Militar (1964 - 1985), que o atleta viveu o auge da sua carreira como atleta. Foi nos anos de 1960 que ele conquistou a maior parte dos seus títulos dentro do Santos, seu time de coração e onde viveu a maior parte da sua carreira. Foi na Copa do Mundo no México, em 1970, que Pelé adentrou o vestiário gritando: "Eu não morri!" após a vitória de 4x0 contra a Itália, conquistando o tricampeonato. Vale lembrar, que o tricampeonato no México ficou conhecido como a campanha dedicada ao Emílio Medici, então presidente brasileiro, durante a Ditadura Militar. Porém, não houve na época e nem tempos depois declarações do Rei Pelé sobre seu posicionamento político. Ao ser cobrado mais uma vez sobre seu posicionamento, em entrevista para um documentário disponível em um serviço de Streaming, o Rei declarou "futebol e política não se misturam". Porém, infelizmente é necessário discordar da majestade do futebol nesse ponto. Após o tricampeonato conquistado em 1970, o Rei Pelé deixou os gramados com a seleção brasileira, e há relatos de que ele e sua família foram perseguidos por ele não ter aceito participar da campanha de 1974, que aconteceu na então Alemanha Ocidental, onde o Brasil ficou em 10º lugar. Além disso, vale lembrar que diversos colegas jogadores e técnicos de futebol se posicionaram politicamente dentro das quatro linhas do campo contra a Ditadura Militar e se empenharam a favor das Diretas Já!, trazendo o debate de fora dos estádios para dentro e causando influência fora dele, como já abordado aqui no Zero Águia, no texto Democracia Corinthiana - O Futebol contra a ditadura militar. Fora das quatro linhas, o já consagrado Rei Pelé misturou política e futebol quando foi Ministro dos Esportes, entre 1995 e 1998, no Governo de Fernando Henrique Cardoso e foi um dos responsáveis pela criação da conhecida Lei Pelé, buscando maior transparência nas negociações entre atletas e clubes. O Rei e o racismo Em certa entrevista, Pelé declarou: "É claro que existe racismo no Brasil, mas tive a sorte de ficar famoso e rico quando jovem, e as pessoas tratam você de maneira diferente quando você tem dinheiro e é uma celebridade. É quase como uma raça à parte – nem negra nem branca: famosa" Na fala de Pelé não é levado em conta a questão sobre o racismo estrutural existente no país, sofrido por negros anônimos e mesmo celebridades como ele. Durante a Copa do Mundo de 1974, da qual não participou e já citada anteriormente. Pelé estrelou campanha internacional dos refrigerantes Pepsi. A repercussão no Brasil foi negativa, onde publicitários e críticos alegaram que o lugar do Rei era dentro do campo e não como garoto propaganda. A possibilidade de ver Pelé, o Rei do futebol, estampado em outdoors, comerciais de TV e impresso em revistas era algo inaceitável, já que o espaço publicitário à época era dedicado e estrelado apenas por pessoas brancas. Embora que de maneira orgânica, Pelé se tornou referência para diversos outros jovens negros que, assim como ele, sonhavam em jogar bola. Foi a partir da sua referência que diversos talentos se desenvolveram no futebol. Exemplos de talentos como Neymar e Robinho, também vindos do Santos Futebol Clube, tiveram no Rei Pelé a sua maior inspiração como jogador de futebol. Edson Arantes do Nascimento Filho de dona Maria Celeste Arantes do Nascimento e João Ramos do Nascimento. Edson Arantes do Nascimento foi uma criança pobre, mas não de situação miserável. Edson se tornou Pelé por uma brincadeira. Quando jovem no interior de São Paulo, era chamado de "Bilé" e devido a pronuncia de outras crianças virou Pelé. O que era improvável para um garoto negro, ele conquistou. Conquistou títulos, a admiração e o respeito de todos em torno do mundo. O personagem Pelé, muitas das vezes se sobrepôs ao Edson, mas Edson era refletido nas atitudes Pelé. Edson se envolveu em escândalos. Foi acusado de abandono parental pela ex-vereadora de Santos, Sandra Nascimento. Ela entrou na justiça pelo reconhecimento como filha. Porém, o que mais chamou a atenção foi que Edson nunca visitou a filha, mesmo ela estando no leito de morte, na luta que perdeu para um câncer de mama em 2006. Além disso houveram escândalos sobre o filho Edinho, que foi preso por tráfico de drogas. Edson, pai, chegou a declarar que era uma maldição ter um filho no futebol profissional. Em seus relacionamentos Edson foi acusado de traições, como no namoro com Xuxa, que relata em sua biografia ter sentimentos antagônicos em relação ao ex-namorado, devido às inúmeras traições. Edson, o rei Pelé e a lenda Edson emprestou a Pelé todo seu talento e permitiu que fosse criado um ícone. Edson e Pelé construíram juntos um reinado de títulos, dribles, jogadas irreverentes e recordes. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, o homem e o ser humano, está em cuidados paliativos, em decorrência de um câncer e tem recebido diversas homenagens ao longo da realização da Copa do Mundo no Catar. Edson e Pelé construíram um Rei que serve de inspiração e referência para o mundo e principalmente para jovens negros, muitas das vezes pobres, que veem no Rei e no futebol uma possibilidade de mudança não só de vida, mas de mundo. Veem a possibilidade de lutar por uma sociedade mais justa e igualitária. Mesmo sem querer ou sem saber, Edson e Pelé, influenciaram toda uma sociedade. Porém, o Rei Pelé, a lenda do futebol brasileiro, continuará vivo e inspirando pela eternidade. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Fontes http://espn.com.br/blogs/rodrigobueno/776437_pele-e-mais-nobre-nas-midias-sociais-do-que-em-seu-documentario https://www.lance.com.br/fora-de-campo/ministro-esporte-pele-desabafa-sobre-pressao-por-posicionamento-politico-nao-posso-mudar-lei.html http://diariogaucho.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2020/09/do-abuso-na-infancia-as-traicoes-de-pele-veja-oito-revelacoes-que-xuxa-faz-em-seu-novo-livro-13939339.html https://www.folhape.com.br/esportes/as-varias-facetas-de-pele/159233/ https://www.terra.com.br/nos/pele-vida-polemicas-e-reinado-do-unico-atleta-a-vencer-tres-copas,e5873b1d050c46aae01f07b6a538f1a9jp1ikr5p.html
- Como são feitas as Pesquisas de Opinião?
O objetivo deste artigo é esclarecer alguns conceitos técnicos sobre Pesquisas de Opinião. Continuando com o que foi exposto no artigo Pesquisas de Opinião e a Política, é necessário explicar como é que são feitas as pesquisas de opinião e especificamente as eleitorais. Mas antes de avançar, é vital pensar sobre o conceito “estrela”: a opinião pública. Ela pode ser definida como as atitudes, os desejos e os pensamentos da maioria das pessoas, sendo levada em consideração como a opinião coletiva em relação a um assunto ou problema tem a característica de ser complexa, dinâmica, influenciável e multifacetada. A importância das pesquisas de opinião encaixa com o fato de que elas fazem possível o entendimento do comportamento do público alvo, ou seja, da população de interesse, embora não seja viável entrevistar absolutamente todas as pessoas. Tendo isso em vista, as pessoas pesquisadas, as que respondem perguntas e questionários, compõem a amostra, e os dados coletados produzem a informação que será utilizada para explicar a opinião de toda a população e não somente as pertencentes à amostra. Como mensurar a opinião pública? Em relação ao processo de mensurar a opinião pública, ele pode ser pensado em três seções: planejamento, execução e análise dos dados. Inicialmente e devido a fatores importantes que determinarão a efetividade da pesquisa em mensurar a opinião pública, a pesquisa deve ser planejada. Planejar cada um dos estágios é essencial para realizar uma boa pesquisa, e parte desse planejamento implica ter precaução, evitar erros e o viés que podem-se introduzir nela. De modo geral, os erros são o resultado de observação e de não observação. Os erros de observação, referem-se aos erros relacionados com o questionário, como também do entrevistador ou do próprio respondente. Alguns deles podem ser erros devido a um questionário mal formulado, intenção de voto estimulada, a aplicação incorreta do questionário, e responder equivocadamente (com ou sem intenção). Isso deixa evidente que questões sutis podem alterar bastante o resultado da mensuração da opinião. A respeito dos erros de não observação, eles são três: amostral, de cobertura e de não resposta. Na realidade, praticamente toda pesquisa terá um erro amostral, pois é baseada em uma amostra de população alvo, enquanto os resultados são generalizados. Os erros de cobertura acontecem quando as pessoas são excluídas da população à qual pertencem sem puder ser parte da amostra. Por último, os erros de não resposta, sucedem quando não é possível mensurar as opiniões de interesse. A não resposta surge quando uma pessoa se recusa a responder uma pergunta específica. Os erros descritos tem o fim de informar os tipos de erros existentes numa pesquisa. Mesmo com o questionário bem desenhado, com entrevistadores treinados, com respondentes achados de forma fácil e predispostos a responder e usando listagens abrangentes e novas para minimizar o erro amostral, erros e vieses na pesquisa serão achados. Eles são inevitáveis. Por causa disso, a amostra desenhada no início não é aquela que será observada ao final da coleta de dados pois os erros têm impacto direto, e essa distorção na amostra pode ser corrigida, mas é necessário fazer suposições sobre os vieses causados pelos erros. Existem várias técnicas para ajustar esses erros, mas a técnica mais utilizada é a ponderação, ela tem a característica de ser flexível e de fácil espalhamento, já que o ajuste final é codificado juntamente com o banco de dados. Para isso, se adiciona à base de dados da pesquisa uma variável de peso, que conterá todos os ajustes necessários. Assim, para que os ajustes sejam aplicados, basta calcular os resultados ponderados por essa variável de peso. A efetividade dela depende das variáveis utilizadas e das suposições feitas para corrigir o viés. Tipos de Pesquisas Em relação aos tipos de pesquisas, a maioria são feitas presencialmente ou por telefone. O Datafolha faz as pesquisas de modo presencial e escolhe locais movimentados, o IPec (ex Ibope) vai até a casa do eleitor, e outros como PoderData, fazem por ligação, tendo os números selecionados aleatoriamente, e ao mesmo tempo com a exigência de que a pessoa tenha um telefone ou aparelho. Em menor grau, são feitas pesquisas pela internet. De acordo com o analista de dados Daniel Marcelino, das 209 pesquisas de intenção de voto para presidente (Brasil, 2022), 56% foram feitas de modo presencial, 43% por telefone e apenas 1% pela internet. Mas quem pode fazê-las? Conforme a Lei das Eleições n° 9504/1997, as pesquisas de opinião pública podem ser feitas por qualquer instituição ou empresa que tenha um profissional da área de estatística como responsável. Elas têm que ser registradas (mesmo se os resultados não são divulgados publicamente) num sistema de registro de pesquisas eleitorais chamado PesqEle, cinco dias antes da divulgação dos resultados. Se o registro não for feito, as empresas terão penalidades que vão de pagamento de multa até detenção. Fazer pesquisas num país com dimensão continental não é fácil, adicionando a dificuldade de entrar em contato com as pessoas, de ter a atenção delas, de medir corretamente sua opinião, e de analisar os resultados para representar a população. Esta tarefa exige inúmeros profissionais de diferentes áreas, tempo, experiência e dinheiro mas é possível de ser executada com sucesso. Se você leitor, tem o objetivo de fazer pesquisas de opinião, este artigo breve pode esclarecer suas ideias e auxiliá-lo no assunto. No entanto, se você consome as pesquisas o texto pode ajudá-lo a compreender melhor os aspectos que afetam a qualidade delas. Só lembre que, as pesquisas de opinião são diferentes entre si porque não existe uma metodologia única ou melhor. As pesquisas podem formar nossas próprias opiniões, ajudar a entender como a população pensa e para decidir questões políticas, mas não temos que basear nossa opinião apenas numa pesquisa porque ela é realizada em um único momento do tempo. O espírito crítico deve se manter além de tudo. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Fontes EL-DASH, Neale Ahmed. Avaliação metodológica das pesquisas eleitorais brasileiras. 2010. Tesis Doctoral. Universidade de São Paulo. RIBEIRO, Amanda e MENEZES, Luiz Fernando. Como são feitas as pesquisas eleitorais. 2022. Aos Fatos.
- A Zootecnia e seu impacto na sociedade
Para a discussão a respeito do tema deste artigo: a Zootecnia, observemos algumas passagens do livro de Gênesis 1:27-31, a saber: ”E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre a sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra. E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a arvore, que há fruto ser-vos-á para mantimento. E a todo animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo réptil da terra, e que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi. E viu Deus quanto tinha feito, e eis que era muito bom, e foi a tarde e a manhã, o dia sexto” Essas cinco passagens encerram o primeiro capítulo do antigo testamento da Bíblia e, independente da crença do leitor, servem para demonstrar como nossa relação com animais domésticos é algo que nós, seres humanos, consideramos sagrado o suficiente para termos encapsulado no início de um dos livros mais antigos e importantes da civilização ocidental e considerarmos o domínio, a domesticação e a exploração um direito dado por Deus. Origem do termo e início da ciência O termo Zootecnia foi criado recentemente se formos comparar com a origem das passagens citadas no livro de Gênesis. Nesse sentido, em 1844, no livro Cours d’Agriculture (Curso de Agricultura), o autor Adrien Étienne Pierre propôs a separação da produção animal e vegetal e buscava uma mudança de paradigma em relação à visão que tínhamos sobre a importância dos animais para o mundo. A palavra “Zootecnia” em si tem fundamento no grego “zoo” que vem de “zoon – animal” e “technê – arte” que significa a arte de criar animais. Após alguns anos da publicação do livro, o autor e naturalista alemão Emile Baudement desenvolveu doutrinas e bases científicas para a Zootecnia, fundando assim a ciência como uma área e uma profissão de zootecnista. Mesmo que o conceito e a área científica tenham sido criados recentemente, vale relembrar que o ato de criar e extrair produtos diretos ou indiretos de animais é algo que fazemos há milênios. Os egípcios coletavam mel de abelhas e os primeiros fazendeiros não apenas produziam gado para comerem carne, mas também para usar suas forças nas lavouras. Couro, ovo e leite são produtos utilizados pela humanidade há tanto tempo que a vaca e até a galinha já foram e ainda são adoradas por culturas ao redor do mundo e possuem até representações mitológicas (vide Audumbla, ser primordial na mitologia nórdica, literalmente uma vaca que representa a mãe natureza). A partir disso, torna-se claro como tal área do saber é essencial para o mundo atual, especificamente para o Brasil. Somos um dos maiores produtores de carne mundialmente e, ainda assim, a profissão de Zootecnia não é apenas desconhecida, como também é até atacada por profissões “vizinhas”, devido acreditarem a vários mitos e algumas verdades. História e Disseminação no Brasil Ao falarmos da história da Zootecnia no Brasil, temos que se lembrar do professor Octávio Domingues que foi praticamente o líder do movimento que levou a Zootecnia a ser encarada como uma área de estudo e prática separada da Agricultura e Veterinária. Em 1951, numa reunião realizada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) foi fundada a Sociedade Brasileira de Zootecnia. Nos anos seguintes, duas novas reuniões foram realizadas até que, em 1953, na UFRJ, tendo 16 participantes representantes de 10 instituições de ensino de formações em Agronomia e Veterinária existentes à época e que ministravam as disciplinas voltadas ao campo da Zootecnia, elaborou-se e criou-se o primeiro currículo de formação Zootecnia. Entretanto, apenas em 1966 é que o curso de graduação em Zootecnia se deu como opção de formação em nível superior e, após superar posições contrárias e obstáculos financeiros, o estabelecimento do projeto do curso foi acolhido pela Pontifícia Universidade Católica do Uruguaiana. No dia 13 de março do mesmo ano houve a primeira aula, data da qual hoje é simbolicamente considerada como o Dia do Zootecnista pela comunidade acadêmica e profissional. Conflitos e resoluções Conforme discutimos, a Zootecnia, pelo menos no Brasil, sofre certo atrito com algumas profissões “vizinhas”, como a Veterinária e a Agronomia. A razão para tal atrito é parte legislativa e cultural, pois existe certo preconceito advindo dessas duas áreas, o que obviamente não deve ser usado como arma ou justificativa para o ódio contra nenhuma área. Devemos saber diferenciar entre pessoas mal informadas – e talvez até mal-intencionadas – de um grupo de profissionais capacitados e bem orientados, que são a grande maioria em ambas as áreas citadas. Fazemos isso ao entender que esse preconceito surge de um problema legislativo relativamente simples, o da delimitação da área de trabalho do Zootecnista. Os tramites legislativos são complexos, mas de forma resumida, em 1968, foi criada uma lei para se delimitar os trabalhos exercidos por um zootecnista. Acontece que, visto a interdisciplinaridade de tal profissão, o modo em que se foi descrito os serviços que um zootecnista – e apenas um zootecnista – poderiam e deveriam exercer, acabou por conflitar diretamente com as áreas de atuação “vizinhas”, como Agronomia e Medicina Veterinária, por exemplo. Esse atrito legislativo acabou por gerar um desentendimento social, entre tais profissões. Para tanto, é importante comentarmos também que, em 2021, um projeto de lei (N° 1428, DE 2021) foi proposto para justamente alterar a Lei Nº 5.550 (de 4 de dezembro de 1968), que é a “responsável” por esse conflito, o que mostra que existem pessoas cientes de insuficiência legislativa e que buscam retificá-la. Apesar disso, o projeto foi retirado pelo próprio autor, mas sua mera existência já indica um progresso. Impactos, atualidades e futuro do campo Visto a “juventude” da Zootecnia como área de estudo independente, porém ancestral como prática humana, não é de se surpreender que essa profissão estivesse envolvida em diversas pautas polêmicas e atuais. A indústria pecuarista, em especifico, é alvo de diversos ataques dos movimentos ambientalistas e veganistas, no que diz respeito às possíveis causas e efeitos do aquecimento global, à mudança climática e aos maus tratos causados aos animais em produções de diversos tamanhos. Além disso, há também comentários sobre a culpabilidade da indústria de produção animal em relação à eficiência dos antibióticos, cujas propriedades fora de patamares higiênicos adequados mantêm sua produção através de doses altíssimas de antibióticos nos alimentos dos animais, o que em longo prazo promete invalidar os efeitos de tais medicamentos. Como graduando em Zootecnia, concordo que todos esses ataques têm seus fundamentos e que a indústria pecuarista possui sim seu lado podre. Entretanto, algumas indústrias, apesar de gigantesca, são apenas uma das vertentes da área zootécnica como um todo. Para tanto, as críticas voltadas às indústrias pecuárias são coerentes ao notar-se que as indústrias direcionam práticas que fogem dos ideais zootécnicos fundamentais, como, por exemplo, a Nutrição, o melhoramento genético e o bem-estar animal. Nesse sentido, é claro que existe potencial para melhoria e otimização das produções, considerando que o Brasil é o maior exportador de frango do mundo – o terceiro maior produtor e consumidor –, posso dizer que nós somos os que mais devemos buscar excelência na área. A Zootecnia como ciência apresenta algumas inovações atraentes e outras nem tanto para os nossos costumes culturais. Como dito anteriormente, um ataque comum à produção animal é devido aos maus tratos dos animais ou à suposta imoralidade de matá-los/explorá-los para consumo próprio. Por essa razão, a proposta tecnológica que resolveria esse empecilho é justamente a da carne celular, cultivando células em meios de cultura para evitar sofrimento e morte de qualquer animal no processo. Essa inovação tecnológica será justamente avançada pela Zootecnia e pela Universidade Federal do Paraná, já que está planejada de oferecer uma disciplina nomeada “Zootecnia Celular”, a fim de preparar os alunos com o conhecimento necessário para refinar ainda mais tal revolução. Diante disso, outras opções éticas e sustentáveis são oferecidas pela Zootecnia como a produção de carnes de inseto que é destinada ao consumo animal e humano. Essa produção é uma das mais economicamente eficientes, ecologicamente positivas e, ainda por cima, saudáveis. Assim, todas as características ambientais que normalmente se evitam em uma produção de animais domésticos apresentam espaços apertados, úmidos e escuros, que são justamente as características ideais para a produção de insetos, o que os torna uma ótima opção e solução para os problemas encontrados na indústria pecuarista. Conclusão Nós manejamos, produzimos, exploramos, domesticamos e consumimos animais há muito tempo, mesmo que hoje em dia haja discussões importantes sobre as tecnicidades e a moralidade das consequências e das atividades em si, a realidade é que não existe uma previsão de um mundo onde iremos deixar de realizar esses atos. No entanto, isso não deve ser motivo para desesperança em relação aos problemas e efeitos colaterais de determinas práticas. A Zootecnia é a ciência que alimenta o mundo e, por isso, deve ser conhecida, respeitada, explorada e criticada com coerência, jamais descartada, mesmo que sua existência contribua ou até seja a causa de problemas globais. Por fim, acreditamos que ela também possa ser a solução desses problemas. Texto escrito por Heictor Bellato Graduando em Zootecnia, apaixonado por Ciência e Filosofia. Também acredita que são as pessoas que podem trazer as soluções para os problemas do mundo. Bibliografia https://pt.wikipedia.org/wiki/Zootecnia https://www.ufmt.br/curso/zoocba/pagina/a-zootecnia/2967 https://umsoplaneta.globo.com/sociedade/noticia/2022/06/09/ha-35-mil-anos-galinhas-eram-alvo-de-adoracao-e-nao-comida.ghtm https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2022/02/24/internas_economia,1347560/brasil-e-terceiro-consumidor-de-carne-bovina-no-mundo.shtml https://www.embrapa.br/suinos-e-aves/cias/estatisticas http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/L5550.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%205.550%2C%20DE%204%20DE%20DEZEMBRO%20DE%201968.&text=Disp%C3%B5e%20s%C3%B4bre%20o%20exerc%C3%ADcio%20da,obedecer%C3%A1%20ao%20disposto%20nesta%20Lei. https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=8952378&ts=1618587518761&disposition=inline#:~:text=PROJETO%20DE%20LEI%20N%C2%BA%20%2C%20DE,Art. https://www.bbc.com/portuguese/geral-47125834 http://abz.org.br/historia-da-zootecnia/
- O assassinato de Shinzo Abe
Em 8 de julho de 2022 o ex-primeiro ministro japonês Shinzo Abe foi assassinado na cidade de Nara no Japão. Considerado um politico ultraconservador e nacionalista, foi assassinado por Tetsuya Yagami, um ex-militar de 41 anos a tiros durante um evento eleitoral. Abe tinha 67 anos. Shinzo Abe, nascido na cidade de Tóquio em 21 de Setembro de 1954, era casado com Akie Matsuzaki e ganhou notoriedade como primeiro ministro japonês, exercendo quatro mandatos pelo grupo nacionalista Nippon Kaigi. Foi muito importante na politica econômica do país adotando livre mercado, estimulando a produção própria e a flexibilização fiscal. Formado em ciências politicas, Abe foi um dos mais jovens premiês do Japão, assumindo o cargo com 52 anos, enfrentando grandes desafios como uma reforma constitucional e a missão de estreitar relações com a China e a Coreia do Sul, abaladas pelo ocupante anterior do cargo. O primeiro mandato de Abe, apesar de conquistar avanços diplomáticos históricos principalmente com os EUA e Coreia do Sul, foi marcado por diversas gafes politicas de seus subordinados, no fim contornadas com sucesso pelo premiê japonês, o que o levou ao seu segundo mandato que foi marcado por uma revolução monetária e por uma postura mais rígida com os vizinhos de fronteira do país, além da implementação de politicas liberais nos âmbitos fiscais e comerciais do Japão. O terceiro e quarto mandatos foram uma continuidade das medidas adotadas nos mandatos anteriores, porém novamente houveram problemas com subordinados de Abe, que foram substituídos ou afastados e após antecipação da eleição que o levou ao quarto mandato, surgiram alguns questionamentos sobre o motivo dessa antecipação, dentre os mais notórios a teoria de que tudo teria sido uma manobra para evitar questionamentos sobre supostos escândalos ainda em investigação por parte dos parlamentares, o que afetaria a votação nas câmaras onde Abe foi eleito com maioria em todas as suas campanhas. Abe sofria com colite ulcerosa e devido aos compromissos demandados por seu cargo houve piora no seu quadro, o que o fez renunciar em Agosto de 2020. Ele anunciou a renúncia ressentindo por não ter mais capacidade de cumprir seus compromissos de maneira efetiva. O assassino e o crime Em 8 de Julho de 2022, durante um discurso de campanha em Nara, Abe foi baleado pelas costas. Foram disparados dois tiros oriundos por uma arma artesanal. Acredita-se que tal instrumento foi utilizado pelo assassino Yamagami Tetsuya devido à rígida legislação referente a armas de fogo no Japão, o que resulta em um baixíssimo índice de incidentes com armas de fogo no pais. Abe foi socorrido, porém veio a óbito devido à hemorragia causada pelos disparos e Tetsuya foi preso em flagrante com a arma do crime ainda em mãos. Inicialmente o autor dos disparos alegou que tinha um descontentamento com a posição politica de Abe, alimentado logo após sua renúncia em 2020. Em um momento posterior Yamagami Tetsuya teria afirmado que o real alvo era um líder religioso o qual Abe era estreitamente ligado e até promoveu durante campanha. Esses dados foram noticiados no Japão e suas fontes são de origem anônima. Após divulgação da notícia veio à tona que o grupo religioso se tratava da Igreja da Unificação e que Tetsuya em depoimentos afirmou envolvimento de Abe com a seita e que a mesma pressionava os fiéis a fazerem doações absolutamente abusivas, e uma das fiéis seria sua mãe que segundo ele perdeu todos seus bens realizando donativos ao grupo religioso. Pouco se foi divulgado sobre o passado de Yamagami Tetsuya. O homem de 41 anos é um ex-membro das forças de Autodefesa Marítima do Japão. Ele é natural de Nara, local em que foi cometido o crime. O mesmo deve passar por testes psicológicos para determinar até que ponto estava lúcido e ciente de seus atos. O grupo religioso já havia sido citado em casos como o descrito acima, e com a pressão e importância do caso relatado por Tetsuya, o primeiro-ministro japonês Fumio Kishida ordenou uma investigação governamental sobre as práticas do grupo e o suposto envolvimento de Abe com a Igreja da Unificação. O novo primeiro ministro prometeu cortar ligação com o grupo tendo em vista que metade dos seus deputados tem laços com a igreja. Fake News, ignorância e violência Devido a incidentes relacionados a armas de fogo no Japão serem raríssimos há uma sensação de segurança imensa que pode ter sido abalada com o crime em questão. Em levantamento realizado em 2021 foi registrada apenas uma morte oriunda de disparos de armas de fogo no país e no mesmo período foram registradas mais de 45 mil nos EUA e um pouco mais de 30 mil mortes no Brasil. O fato é diretamente potencializado devido a fatos semelhantes ocorridos no mundo e a notoriedade de Abe, que era uma das figuras politicas mais populares do Japão. Abe foi uma figura muito importante, pois interrompeu um período de instabilidade politica no Japão que teve diversas trocas de premiês. Dividiu opiniões no inicio de sua carreira como premiê adotando medidas ousadas para o padrão do país, potencializando a economia e acabando com dificuldades enfrentadas em um período instável do Japão relacionado a diplomacia e economia. Com a polarização politica acontecendo em todo o mundo e a pauta tomando uma importância jamais vista, outros incidentes como o assassinato de Abe tem acontecido ao redor do mundo. O fenômeno das fake News tem afetado massivamente uma parcela da população, que ainda não busca confirmar as noticias disseminadas nas mídias e aplicativos de comunicação e tem suas opiniões guiadas por inverdades e em alguns casos isso leva a atitudes extremas como a de Yamagami Tetsuya, motivado por rumores não confirmados do envolvimento de Abe com a Igreja da Unificação. Recentemente a vice presidente da Argentina Cristina Kirchner sofreu um atentado parecido, sendo ameaçada à queima roupa com uma arma de fogo que falhou ao ser disparada. De acordo com investigações o suspeito responsabilizava Kirchner por dificuldades enfrentadas na Argentina. Em 2018 Nicolás Maduro sofreu também ataque na Venezuela também de cunho politico organizados por desertores do Exército Venezuelano contrários ao governo. Ainda em 2018 no Brasil, com uma provável motivação politica, Marielle Franco teve seu carro alvejado no Rio de Janeiro em meio a avenida da região central da cidade. Dois suspeitos foram presos e negam o envolvimento no atentado que levou Marielle a óbito. No mesmo ano durante campanha presidencial Jair Bolsonaro foi atingido com por uma facada no estomago durante comício de campanha e Adélio Bispo de Oliveira foi preso em flagrante e após julgamento foi considerado incapaz, transferido posteriormente para um presidio que oferece tratamento para criminosos com distúrbios mentais. Considerando os fatos citados anteriormente vemos um crescimento massivo neste tipo de crime de motivação politica em um espaço pequeno de tempo, sendo é notável a quantidade de incidentes ocorridos. É triste pensar que o momento em que vivemos é tão delicado que uma simples discordância de viés e opinião pode causar a morte de um ser humano. É importante que idéias sejam discutidas de forma saudável pelos líderes passando este exemplo aos seus apoiadores, também conscientizando para que informações e dados sejam verificados pela população antes de julga-las como verdade absoluta, para que tais incidentes sejam evitados. Texto escrito por Henrique Cunha Profissional de TI, formado em Análise e Desenvolvimento de Dados. É um curioso nato, amante de música, filmes e séries do universo geek. Colunista de variedades do Zero Águia. Fontes https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/07/08/shinzo-abe-mortes-por-armas-de-fogo-sao-raras-no-japao-atirador-usou-artefato-de-fabricacao-caseira.ghtml https://www.cnnbrasil.com.br/politica/alem-de-cristina-kirchner-relembre-outros-atentados-contra-politicos/ https://www.cnnbrasil.com.br/tudo-sobre/shinzo-abe/ https://pt.wikipedia.org/wiki/Shinzo_Abe
- Pesquisas de Opinião e a Política
As pesquisas de opinião foram inventadas na década de 1930 – com 30 anos depois, ainda eram uma curiosidade, após 40 anos, começaram a ser uma ferramenta de relativa divulgação e, muito recentemente, com 20 ou 30 anos atrás, passaram a ocupar um papel de liderança nos processos políticos. Desde o início dos anos 80 tem se constituído num evento central ao processo de democratização da América Latina, sendo muito comum que os principais jornais e redes de TV de cada país informassem sobre estudos focados em assuntos de relevância pública ou vinculados a processos políticos. Por meio disso, é necessário ter consciência de que todas as pesquisas são feitas de um jeito particular. Elas têm diferenças relevantes porque as metodologias utilizadas variam, no sentido de que algumas optam por sondagem pelo telefone, outras por entrevistas presenciais e outras entrevistas online. Além da metodologia, há várias questões a serem levadas em conta, por exemplo, a amostragem e a margem de erro adotada. Por isso, desde o nascimento das pesquisas como ferramenta de conhecimento, o papel delas foi tanto elogiado como demonizado, e o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil colocou no debate a credibilidade das pesquisas de opinião, perguntando se dá para confiar nelas ou não. Mas o que é pesquisa de opinião? É a captação do sentimento da população naquele momento, sem garantia nenhuma de que esse comportamento ou resposta vai se manter até o dia das eleições. Os erros nas pesquisas são comuns e é muito difícil conseguir que as pesquisas captem as ondas de última hora. Em vista disso, é usual ler a palavra predição associada à pesquisa porque a atenção do público foca, principalmente, nas pesquisas como instrumentos de predição. Pode prever o ganhador, a margem de proporção entre os principais partidos, ou prever a proporção de votos entre os partidos, porém variações podem ser observadas no sucesso das pesquisas na previsão de resultados eleitorais. Um bom resultado em uma pesquisa promove a candidatura de um indivíduo, mesmo quando ele não está oficialmente na disputa, ou seja, também é útil para demonstrar certa atratividade eleitoral, obter apoio e fundos. Nesse caso, serve para persuadir os contribuintes de que um candidato em ascensão pode ganhar a indicação ou mesmo a eleição. Fica evidente que os resultados das pesquisas influenciam a apresentação de campanhas em diversas esferas, tais como: Apresentação dos programas. Na maioria dos países, as pesquisas são amplamente utilizadas para testar slogans, cartazes e temas de campanha, mas é difícil estabelecer casos reais em que as pesquisas influenciaram a formulação de políticas. O estilo pessoal dos candidatos. Como as eleições são amplamente definidas a partir dos meios de comunicação de massas e, em particular, pela televisão, a personalidade de cada pessoa tornou-se muito relevante. Por isso, as pesquisas de opinião são utilizadas para monitorar o impacto das transmissões televisivas. O uso de uma linguagem mais direta e coloquial nas comunicações. Hoje os políticos estão muito mais preocupados do que nunca em falar a linguagem que usam para seu público e as pesquisas podem mostrar aos políticos se a linguagem que usam, está surtindo o efeito desejado. No que concerne aos partidos e aos candidatos, é um dos seus interesses evitar a impressão de que sofrerá uma derrota esmagadora ou alcançará uma vitória semelhante. Nisso há uma clara tentação de deturpar pesquisas, especialmente as privadas, em que se encontram métodos e resultados que raramente são submetidos ao escrutínio público. Em relação às pesquisas privadas, os partidos costumam realizar pesquisas "flash" durante os processos eleitorais para verificar as reações dos eleitores a determinadas publicações, discursos, transmissões e questões. A rapidez é essencial para que tais consultas tenham algum impacto, pois, no ritmo dos acontecimentos em uma campanha eleitoral, uma pesquisa pode ficar desatualizada em um ou dois dias. A informação pode tranquilizar o partido ou candidato sobre certos novos desenvolvimentos e ajudá-los a decidir se devem ou não reagir. Retomando o início do texto, o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil colocou no centro do debate se dá para confiar em pesquisas de opinião. Para conseguir responder tal questionamento, é necessário levar em consideração uma série de pontos. O primeiro está relacionado às mudanças que acontecem na sociedade em geral, pois os eleitores, os seus gostos e suas preferências eleitorais se movem cada vez mais rápido. Essas mudanças em nossa sociedade junto à perda de identidades partidárias são de fato uma fonte de problemas para as pesquisas. O segundo ponto está relacionado aos cidadãos que respondem cada vez menos as pesquisas. O terceiro está associado ao assunto da comunicação das pessoas e sua variação com o tempo. Hoje as pessoas se comunicam pelo telefone e celular, de modo que essa transformação foi mais rápida do que a capacidade de implementar novas técnicas. Por fim, o último ponto está associado às mudanças na mídia, em que a mídia mudou completamente nas últimas duas décadas. A questão da rapidez da informação, os 280 caracteres para compartilhar informação e a procura de um título original limitam o que a pesquisa pode dizer. Além dos pontos mencionados, fazendo um registro de pesquisas eleitorais no mundo, embora seja claro que se podem ter mais dificuldades que antes, as pesquisas estão muito mais certas do que erradas. Assim, conclui-se que as pesquisas de opinião têm se tornado peça-chave no processo de democratização da América Latina, instrumento que apresenta problemas como qualquer outro, mas ainda assim é a melhor ferramenta, não apenas para entender a realidade, mas para também antecipar o que pode acontecer. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Referências ARAUJO, Mora Y., et al. Un debate alrededor de las fortalezas y las debilidades de las encuestas electorales en América Latina. 2017. ECHEGARAY, Fabián. O papel das pesquisas de opinião pública na consolidação da democracia: a experiência latino-americana. Opinião Pública, 2001, vol. 7, p. 60-74. FONSECA, Roberto. Análise: afinal, dá para confiar em pesquisa eleitoral?. Correio Braziliense. 2022 KAVANAGH, Dennis. Las encuestas de opinión pública. La Sociología en sus Escenarios, 2011, no 24.
- O retrato da fome no Brasil de 2022
Neste exato momento que você lê este artigo, 33 milhões de brasileiros não tem o que comer, estão no nível mais grave de fome. A pandemia fez gritar as desigualdades sociais e potencializou a fome em nosso país, mas não é única vilã. Decisões de governo tomadas a partir de 2017 fizeram com que o país caminhasse para trás nas políticas de combate à insegurança alimentar, fazendo o Brasil retornar ao mapa da fome. Em 2020, o Brasil, que já foi referência para o mundo no combate à fome e a miséria, viu seus números voltarem a patamares de 2004, ano em que a fome atingia 9,5% dos lares brasileiros. De 2004 a 2013, políticas de combate á fome e a miséria foram adotadas pelo poder público, reduzindo o total para menos da metade (4,2% dos lares brasileiros), tendo inclusive reconhecimento da ONU. Já em 2022 a situação nitidamente piorou, 15,5% dos lares brasileiros estão em situação de fome, e em um curto período de tempo, 14 milhões de pessoas foram adicionadas na conta daqueles que convivem diariamente com a fome. O atual momento é resultado da maneira como o governo atual tratou as políticas sociais, os programas de combate á fome e a miséria, a distribuição desigual de renda, o preço absurdo dos alimentos, o aumento desenfreado dos combustíveis, a seca, todos estes fatores contribuem para estarmos nessa situação brutal. Outro contexto triste é que a fome tem lugar, as regiões mais afetadas pela fome são as regiões norte, nordeste e sul, mas a situação é grave em todo o país. A fome também demonstrou que tem cor e sexo, pessoas negras são mais atingidas pela fome e lares chefiados por mulheres também são os mais afetados por este mal. Segundo a rede brasileira de pesquisa em soberania e segurança alimentar e nutricional a insegurança alimentar é dividida em três níveis, Leve, moderada e grave: Leve – Quando há incerteza quanto ao acesso a alimentos em um futuro próximo e/ou quando a qualidade da alimentação já está comprometida Moderada – Quando se tem quantidade insuficiente de alimentos. Grave - Privação no consumo de alimentos e fome. Nos últimos anos, a situação grave que é a privação de alimentos, foi a que mais atingiu pessoas. Negação da fome e retrocessos Se por um lado a fome aumentou a níveis piores que os de 2004, do outro lado, o governo atual nega que há fome no brasil e segue cortando recursos de programas da rede de segurança alimentar, e em alguns casos cortando quase que o orçamento todo de programas, como o Alimenta Brasil, programa que compra alimentos da agricultura familiar, que perdeu 97% dos seus recursos. Todos esses cortes são ora para atingir o teto de gastos, ora para manter orçamento secreto (nome dado a emendas de relator no congresso que não tem transparência) e infelizmente essa conta é paga pelos que estão em situação de fome, causando por exemplo internações diárias de crianças em situação de desnutrição. Somente em 2021, 8 crianças por dia entravam em hospitais desnutridas pela fome, e em 2022, houve um aumento de 7% no número de crianças que entram em hospitais desnutridas porque não tem o que comer. Infelizmente a fome afeta inclusive lares de pessoas que tem trabalho formal, segundo dados do levantamento do inquérito realizado pela rede PENSSAN: em 2020 a fome afetava 3,3% dos lares de pessoas com trabalho formal, já em 2022 esse percentual saltou para 7,3%, mostrando que nem quem está empregado está livre da insegurança alimentar. É inaceitável que um país como o Brasil, um gigantesco produtor de alimentos, que segundo a Embrapa alimenta mais de 800 milhões de pessoas no mundo, tenha tantas pessoas em situação de fome. Políticas públicas precisam ser retomadas urgentemente para a geração de emprego e renda, redução da inflação, deve-se realizar um investimento forte nos programas de combate á fome e a miséria e dar suporte aos produtores de alimentos. Se não fossem as ongs, associações e solidariedade de muitos brasileiros, a situação seria muito pior, mas felizmente há acenos dos governantes que as políticas de combate a fome e a miséria vão voltar ao centro do governo, o que nos deixa bastante otimistas. Texto escrito por Ivo Mendes É ativista e militante há mais de 12 anos em pautas antirracistas e no combate às desigualdades sociais no Brasil. Retirou o medo do seu vocabulário, por isso é um sonhador por essência e entusiasta por sobrevivência. Formado em Gestão da Tecnologia da Informação, passou pela vida política da Baixada Santista e atualmente trabalha na área administrativa e integra a equipe de colunistas do Zero Águia. Fontes https://www.oxfam.org.br/noticias/fome-avanca-no-brasil-em-2022-e-atinge-331-milhoes-de-pessoas/ http://dados.iesp.uerj.br/desigualdade-brasil/ https://olheparaafome.com.br/ https://combateafome.org.br/? utm_source=googlerg&utm_medium=search&utm_campaign=rgfome&gclid=Cj0KCQjw48OaBhDWARIsAMd966CAQEl5eGMDdREfVGiyZ5w-x1yZb6sXs0JBqkYi8vHZgEeMRVwvZMQaAjd_EALw_wcB https://portal.fiocruz.br/ https://olheparaafome.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Relatorio-II-VIGISAN-2022.pdf















