top of page

Mete Marcha Negona! Como a Marcha das mulheres negras ocupa espaços e projeta o Brasil do Bem Viver


Um Encontro com a História e o Propósito


Foto de uma mulher negra participante de marcha. A foto mostra as costas da camiseta com a frase "Quem precisa de justiça climática no Brasil?
Foto por: Thaynara Fernandes

Participar da Marcha das Mulheres Negras em Brasília, em 25 de novembro de 2025, foi um encontro inadiável com a minha própria história, vivido ao lado de companheiras potentes. Como mulher negra e especialista em Gestão da Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), tive a felicidade de, em cumprimento de agenda profissional no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), viver esta experiência que transcendeu a teoria.


Foi a materialização de séculos de resistência e a expressão de um movimento que mobilizou cerca de 300 mil mulheres, vindas de diferentes regiões do Brasil e de mais de 40 países.


A emoção que me atravessou em meio à multidão é a certeza de que este é um movimento sem retorno. Sua potência não nasceu agora: a Marcha foi idealizada e organizada por lideranças como Nilma Bentes, referência política e articuladora histórica, que dedicou sua vida a dar visibilidade à mulher negra, tantas vezes "imprensada" entre o machismo e o racismo.


Naquele espaço, senti-me carregando inúmeros gritos, sobretudo os das mulheres que pavimentaram meu caminho para que eu pudesse estar ali. Nosso trajeto é sempre para frente, na busca incessante de conscientizar nosso povo sobre sua ancestralidade e capacidade. Fomos ensinados a acreditar que éramos pequenos, incapazes; mas somos descendentes de reis e rainhas.


A Marcha reafirma nossa grandeza, lembrando-nos que todas as mulheres ali presentes são grandiosas. Nossa luta, hoje, é clara e urgente: ocupar espaços.


A Interseccionalidade em ação: os clamores dentro do clamor


A Marcha é o maior e mais potente exemplo da interseccionalidade em movimento. O grito central das mulheres negras — situadas no cruzamento entre racismo e sexismo, conforme teorizado por Kimberlé Crenshaw — desdobra-se em múltiplos "clamores internos" por justiça.


Embora o movimento tenha alcançado uma magnitude histórica, é preciso reconhecer que muitos gritos talvez ainda não tenham sido representados. Por isso, o horizonte da próxima Marcha, marcada para daqui a cinco anos, em 2030, reforça a certeza de que novas lideranças surgirão e novos caminhos serão abertos, permitindo que mais vozes sejam ouvidas e garantindo que a Marcha avance em sua proposta de inclusão.


A presença de diversos grupos na Esplanada dos Ministérios evidenciou que a sobreposição de identidades e opressões gera demandas específicas, mas profundamente coesas. As mães que perderam seus filhos para a violência do Estado clamavam pelo fim da Necropolítica; as mulheres idosas traziam a sabedoria da ancestralidade e reivindicavam o direito ao descanso; as mulheres quilombolas exigiam a defesa do território e a justiça ambiental; as jovens da Baixada Carioca lutavam pelo direito à cidade e à segurança; as representantes de religiões de matriz africana manifestavam-se contra a intolerância religiosa; as mães solo demandavam apoio estatal diante da sobrecarga do cuidado; as trancistas reivindicavam autonomia econômica e valorização estética; e a comunidade LGBT negra lutava pelo reconhecimento de suas identidades e contra a violência de gênero, raça e sexualidade.


Além destes, inúmeros outros grupos, igualmente potentes, levaram seus clamores à Brasília, reforçando que a pauta interseccional da Marcha constitui um universo vasto e em contínua expansão, comprometido em não invisibilizar nenhuma luta.


Reparação e Bem Viver: o salto político


O lema da Marcha, "Por Reparação e Bem Viver", sustenta o projeto político que dá corpo ao movimento. Ele amplia o conceito de reparação, transformando-o em uma proposta estrutural capaz de garantir vida plena, dignidade e autonomia à população negra.


O Bem Viver exige o resgate de acessos historicamente negados. Isso significa ir além do básico e afirmar, de forma contundente, que temos direito a ter direitos. Entre esses direitos fundamentais estão a saúde, a moradia digna, o saneamento básico, a segurança, a educação, a cultura, bem como o direito de cultuar a fé, exercer a sexualidade e tantos outros que compõem a experiência de uma vida plena.


Conforme o Manifesto Econômico da Marcha, a reparação é uma urgência que se concretiza em eixos claros: o enfrentamento direto da pilhagem econômica histórica; a transformação radical das relações de trabalho, assegurando a remuneração digna e previdência; e a ruptura com a lógica macroeconômica concentradora de riqueza, por meio da tributação progressiva e do direcionamento de investimento público e crédito justo para os territórios e empreendimentos de mulheres negras.


A Justiça Climática emerge como componente essencial desse Bem Viver, uma vez que as comunidades negras estão entre as mais impactadas pelas crises ambientais.

A urgência e a resiliência deste movimento são impulsionadas pelo grito de ação repetido por todas as participantes: "Mete Marcha Negona".


Essa energia coletiva dialoga com a fala de Conceição Evaristo, que ecoou sua frase na primeira Marcha (2015) e a repetiu em 2025, reiterando o lema de resistência presente em seu livro Olhos D'Água.


"Eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer."

Esse compromisso com a vida se traduz em políticas públicas e conquistas concretas. Entre as ações afirmativas e iniciativas de combate ao racismo que buscam mitigar seus impactos, destacam-se:


  • Avanços Legislativos: O esforço para institucionalizar a reparação é contínuo, destacando-se a PEC-27/2024, que visa criar o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial.


  • Cotas Raciais (Lei nº 12.711/2012): As cotas representam a mais poderosa ferramenta de reparação no acesso. O ingresso no ensino superior federal por meio de ações afirmativas cresceu 167% em dez anos (Fonte: Inep), e a representatividade de pessoas negras no serviço público federal passou de 17% em 2000 para 38% em 2020 (Fonte: IBGE).


A presença de lideranças históricas como Benedita da Silva, a primeira mulher negra a se tornar deputada federal no Brasil, que, aos mais de 80 anos, esteve ativamente na Marcha, reforça a força e a continuidade da luta. Em seu discurso, Benedita reafirmou a importância da presença e da garra das mulheres negras:


"Com a nossa garra, nós fazemos a diferença no nosso país. Vamos continuar fazendo a luta, ainda que eles não queiram. Vamos seguir lutando pelo bem viver. Queremos as mulheres negras vivas, ganhando salários justos."

Sua participação é símbolo de que a luta pela ocupação de espaços políticos, iniciada com sua pioneira eleição em 1982, permanece como um legado em movimento.


A certeza da ocupação e a transversalidade da luta


O aumento da inserção de pessoas negras em todos os âmbitos é a prova viva de que o projeto de nos menorizar falhou. Somos a maioria da população (55,5%, Censo IBGE 2022) e, com a força da nossa coletividade, estamos exigindo e ocupando os espaços de poder e decisão.


Sinto-me honrada ao escrever este artigo sobre a Marcha para o Portal Águia, constatando, mais uma vez, que a luta contra o racismo e pela inclusão é transversal a todos os temas – da economia à justiça climática, passando pela educação e política. Essa transversalidade é a lição central que conecta este texto aos três outros artigos que publiquei neste portal ao longo de 2025.


A emoção que vivi em Brasília se transforma em convicção: este é um projeto político de nação. Estamos retomando o caminho da história que nos foi roubada, reescrevendo-a com a força da nossa luta e com a certeza do nosso Bem Viver.


Texto escrito por Denise Reis

Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil.



Revisão por Eliane Gomes

Edição por João Guilherme V.G

Comentários


bottom of page