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A menopausa é natural, a desigualdade não

Este artigo tem a intenção de trazer luz a um assunto tão importante, mas que, infelizmente, ainda é acessível para poucas de nós. Nada melhor do que o mês de março para que, por meio da informação e do conhecimento, possamos nos olhar com mais carinho e atenção, refletindo sobre o nosso papel e os nossos direitos na sociedade.


Imagem gerada por IA
Imagem gerada por IA.

Sofri longos anos com sintomas silenciosos e muita culpa. Fui mãe pela primeira vez aos 37 anos e, no pós-parto, os sinais do declínio hormonal misturaram-se com o dia a dia exaustivo da maternidade. O que era uma transição fisiológica foi camuflado pela rotina e, após anos passando por muitos profissionais sem respostas para meus sintomas, conheci a medicina integrativa por meio da Dra. Danyelle Mariaca. Ela me orientou nessa caminhada e pude entender o que estava acontecendo comigo.


Ao pensar no tema deste artigo, ela, generosamente, concordou em guiá-lo sob a luz da medicina, para que outras mulheres também encontrem algumas respostas e possam, inclusive, prevenir efeitos mais danosos em seus corpos.


A menopausa acontece com todas. Mas a forma como cada mulher envelhece não é igual. Enquanto algumas atravessam essa fase com informação, diagnóstico precoce e acompanhamento médico, outras vivem sintomas silenciosos sem saber que o corpo já entrou em transição.” — Dra. Danyelle Mariaca

A perimenopausa invisível e o rótulo do estresse


Muitas mulheres ainda menstruam, mas já sentem o impacto: névoa mental, irritabilidade, insônia, ganho de peso abdominal e um cansaço persistente. Na perimenopausa, a progesterona cai primeiro e o estrogênio oscila, desestabilizando o sono, o humor e o metabolismo.


Não é 'frescura', é fisiologia. No entanto, mulheres com menos acesso à informação e sob o estresse da sobrevivência tendem a normalizar o sofrimento, chamando de 'estresse' aquilo que já é transição hormonal. Enquanto a mulher com recursos busca ajuda para manter sua performance, a que não tem acesso pode ser rotulada como desatenta ou improdutiva. Aqui, a biologia transforma-se em julgamento.


O alerta da menopausa precoce: quando o relógio acelera


Existe um grupo de mulheres que enfrenta esse abismo muito antes do esperado. A menopausa precoce não é apenas uma 'irregularidade no ciclo'; é um choque biológico que, muitas vezes, é ignorado em consultórios sob a justificativa de que a paciente 'ainda é muito jovem'. A ausência de diagnóstico precoce nessas situações rouba da mulher anos de proteção cardiovascular e óssea.


O estrogênio e o coração: o alvo silencioso


Existe um desvio de atenção perigoso: o medo cultural do câncer de mama, muitas vezes, cega-nos para o fato de que, após os 50 anos, a principal causa de morte feminina são as doenças cardiovasculares. O estrogênio funciona como um escudo para os vasos sanguíneos, reduzindo inflamações e melhorando o perfil lipídico. Quando ele cai, o risco de infarto e AVC aumenta devido à rigidez arterial e à hipertensão.


VOCÊ SABIA?


  • O coração é o alvo: no Brasil, as doenças cardiovasculares matam cerca de seis vezes mais mulheres do que o câncer de mama. (Fonte: Sociedade Brasileira de Cardiologia — SBC, 2024/2025).

  • O escudo hormonal: a queda do estrogênio aumenta a rigidez arterial, a hipertensão e o colesterol LDL.*

  • A “virada” pós-50: antes da menopausa, os hormônios protegem os vasos; após, o risco cardíaco feminino iguala-se ao masculino.*

  • Efeito dominó: sem a proteção hormonal, aumentam os riscos de osteoporose, resistência insulínica e declínio cognitivo. (Fonte: Associação Brasileira de Climatério — SOBRAC, 2024).


Saúde sexual e a dignidade do cuidado


A secura vaginal e a queda da libido são resultados da atrofia urogenital causada pela redução hormonal. Isso pode gerar dor nas relações e infecções urinárias recorrentes. Embora existam tratamentos eficazes, como a terapia hormonal adequada, o acesso a eles ainda é um marcador de privilégio. Nenhuma mulher deveria aceitar a dor como destino por falta de insumos no sistema público.


A jornada dupla e o colapso da “máquina”


A mulher é frequentemente a cuidadora de todos — filhos e pais idosos —, esquecendo-se de si mesma justamente quando sua biologia mais exige reparos. O estresse crônico dessa jornada 'atropela' o sistema hormonal e acelera o envelhecimento celular. Para as mulheres com menor poder aquisitivo, a sobrevivência depende de saber o que exigir no SUS, como exames de densitometria óssea e perfil lipídico, que são direitos garantidos. Informação é a primeira forma de justiça em saúde.


Direitos garantidos


Informação é a primeira forma de justiça em saúde. É fundamental que saibamos: o cuidado no climatério não é um favor, é um direito amparado pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher. Exigir exames de densitometria óssea, mamografia e controle metabólico no SUS é exercer a cidadania que nos foi garantida por lei. Esse cuidado deve alcançar todas as pessoas que atravessam o declínio hormonal estrogênico, respeitando suas identidades e garantindo que a biologia não seja um fator de exclusão.


  • PNAISM: diretriz que garante assistência ao climatério e à menopausa em todas as UBS.

  • Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080/1990): assegura assistência terapêutica e acesso a medicamentos da RENAME mediante prescrição médica.

  • Lei nº 11.664/2008: garante a realização de mamografias a partir dos 40 anos na rede pública.


Essa proteção estende-se também às mulheres imigrantes que, pela Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017), têm direito ao acesso integral ao SUS, independentemente de sua situação documental. No entanto, o abismo do diagnóstico torna-se ainda mais profundo quando essas barreiras se cruzam com o racismo institucional. É por isso que o nosso arcabouço também conta com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (Portaria nº 992/2009), que obriga o sistema de saúde a combater as desigualdades étnico-raciais e o racismo no atendimento. Para a mulher imigrante e negra, o acesso à saúde na menopausa não é apenas uma questão clínica, mas um direito humano garantido por lei.


Um marco, não um fim


A menopausa é natural; o adoecimento precoce, contudo, é fruto da desigualdade. Quando há diagnóstico precoce e cuidado, é possível envelhecer com autonomia.

Se o sistema já falha com a mulher de forma generalizada, o abismo torna-se ainda mais profundo quando olhamos para quem carrega a maior carga de estresse estrutural em nossa sociedade. A forma como o corpo feminino envelhece no Brasil tem cor e endereço, onde o racismo estrutural, a situação de pobreza e a privação de acessos atuam como fatores de estresse oxidativo que fazem a menopausa chegar mais cedo e de forma mais violenta.


Sabemos que a saúde na menopausa é um universo vasto e que este artigo não pretende esgotar todos os temas ou substituir o olhar clínico individualizado. Nossa intenção aqui é ajudar na identificação dos sintomas e de caminhos possíveis para a recuperação do protagonismo sobre o nosso próprio corpo.


Cada organismo é único, e a informação é o mapa que nos permite chegar ao consultório médico com mais propriedade e segurança para exigir o cuidado que cada um de nós merece.



Texto escrito por Denise Reis

Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil.


Com colaboração de Danyelle Mariaca

ginecologista, endocrinologista e especialista em medicina integrativa



Revisão por Eliane Gomes

Edição por Eliézer Fernandes

1 comentário


Erika Amaya
Erika Amaya
há 17 horas

Perfeita!

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