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O Governo Bukele: a política de El Salvador pelos olhos de uma cidadã

Vista aérea da Catedral Metropolitana, no centro histórico de San Salvador. Fonte: Barcelo.com
Vista aérea da Catedral Metropolitana, no centro histórico de San Salvador. Fonte: Barcelo.com

Nayib Bukele, publicitário e presidente de El Salvador desde 2019, iniciou seu mandato com uma postura mais descontraída, chegando a se autointitular nas redes sociais como um “ditador cool”. Com o tempo, porém, o próprio estadista foi abandonando esse rótulo, primeiro em suas mídias e, posteriormente em seu governo.


O atual presidente salvadorenho é acusado por diversas entidades de direitos humanos de cometer excessos e aplicar retaliações desnecessárias em seu governo. Desde o início de sua campanha em 2019, Bukele prometeu acabar com a criminalidade que colocava o país entre os mais perigosos do mundo. Apesar de seu território reduzido, El Salvador é conhecido pelo apelido de “El pulgarcito de América”, que em tradução literal para português significa “O polegarzinho da América”.


Bukele assume segundo mandato em El Salvador. Fonte: DW.com
Bukele assume segundo mandato em El Salvador. Fonte: DW.com

Para cumprir suas promessas de combate à violência, Bukele mobilizou o exército nas ruas, iniciando uma ampla perseguição aos chamados “delinquentes". Em seguida, mandou construir uma das maiores prisões de segurança máxima do mundo: o CECOT (Centro de Confinamento do Terrorismo).


Após a construção do cárcere, o jovem presidente colocou em prática seu plano de “acabar com o terrorismo” no país. No entanto, suas medidas foram além do esperado: desde ex-integrantes de gangues até jornalistas que investigavam a atuação policial dentro do CECOT, milhares de pessoas foram enviadas para essa prisão. 


Essas medidas não se restringem a criminosos ou a indivíduos que buscam verificar informações sobre a prisão. As ações de Bukele já atingem a população em seu cotidiano, que se vê pressionada e cerceada pelo exercício de um poder desmedido e pouco democrático nas ruas desse pequeno país da América Central, hoje amplamente observado pela sociedade internacional.


Detentos na megaprisão Cecot, em Tecoluca, El Salvador, em 24 de fevereiro de 2023. Fonte: CNN en español
Detentos na megaprisão Cecot, em Tecoluca, El Salvador, em 24 de fevereiro de 2023. Fonte: CNN en español

Relatos de uma salvadorenha


Vivendo há 16 anos na Costa Rica, Jessica* deixou El Salvador devido a insegurança, após sua família sofrer pressão constante das gangues locais. Esses grupos tentavam extorqui-los, exigindo uma taxa semanal para “proteger” o negócio familiar. Sua mãe é dona de casa e seu pai, engenheiro agrônomo, e migraram para a Costa Rica na condição de investidores**.


Jessica se define como apolítica, não se posicionando nem a favor nem contra o Bukele. Ainda assim, ressalta que os aspectos negativos de seu governo têm impacto profundo sobre a população. “A César o que é de César: ele fez um trabalho muito bom em relação à segurança e às gangues, que sempre aterrorizaram o país.


Criou um presídio autossustentável, e esse é o lado positivo. Mas a segurança é relativa, pois a cada 100 metros há um agente do governo armado. Em determinadas áreas há mais sensação de proteção do que em outros bairros, mas existem regiões muito pobres onde as gangues predominam. É preciso andar com muito cuidado”, afirma a salvadorenha.


Protestos contra Bukele em El Salvador. Fonte: BBC News Mundo
Protestos contra Bukele em El Salvador. Fonte: BBC News Mundo

Quando se trata do “regime de exceção” instaurado por Bukele, percebe-se que já não se configura como uma exceção, dado o longo período em que vem sendo aplicado. Segundo Jessica, durante a implementação desse regime os policiais tinham uma cota diária de prisões a cumprir.


“Há muitas pessoas que estão na prisão por delitos menores ou, em muitos casos, sem terem cometido qualquer delito.” Embora seja totalmente contrária às “maras”, como são chamadas as gangues em El Salvador, ela ressalta que há inúmeros inocentes encarcerados.

“Não se pode criticar o governo ou o presidente em espaços públicos, pois Bukele é considerado intocável. Há relatos de telefones grampeados para verificar se cidadãos estão falando contra o governo ou conspirando. ‘Ou seja, nenhum cidadão tem mais direitos, é como uma espécie de “santa ordem”: tudo o que Bukele diz torna-se lei, independentemente se é algo absurdo ou não. Os salvadorenhos perderam sua liberdade. O governo pode fazer o que quiser com a população, sem ser questionado’, afirma a mulher, visivelmente preocupada.


Ele governa sob um regime de mãos de ferro. Há claros exemplos de exilados políticos: o jornal chamado “El Faro”, por exemplo, transferiu suas operações para a Costa Rica após ser expulso do país pelo presidente.


A popularidade de Bukele é vista como algo muito perigoso. Jessica afirma que não pretende voltar a viver em El Salvador. No nível econômico, o país enfrenta uma dívida que compromete gerações futuras. Segundo ela, grande parte da população sobrevive com menos do que o mínimo necessário, sem recursos básicos e, muitas vezes, sem dinheiro sequer para a alimentação.


O jovem presidente divulga constantemente investimentos em infraestrutura,  mas tais iniciativas têm gerado dívidas e empréstimos internacionais. ‘Ele é muito corrupto, pois até hoje ninguém sabe o que aconteceu com os bitcoins*** que o país investiu há alguns anos. Ninguém presta contas desse dinheiro. Há gastos excessivos para manter militares e policiais, além de uma segurança ostensiva para o presidente: foram adquiridos 12 caminhões, dois helicópteros, avionetas, e há sempre pessoas armadas ao seu redor. A cada 100 metros, esquinas são “blindadas” por soldados que o protegem. É um gasto terrível’, afirma Jessica.


Imagem: transeuntes na rua com militares. - Fonte: Red PAT
Imagem: transeuntes na rua com militares. - Fonte: Red PAT

O turismo vem crescendo, o que representa um ponto positivo para o país. No entanto, o custo de vida também tem aumentado significativamente: aluguel e aquisição de imóveis tornaram-se praticamente inacessíveis, dificultando a sobrevivência dos salvadorenhos diante da enorme discrepância entre salários e despesas cotidianas.


Um ponto curioso é o chamado investimento estrangeiro, frequentemente destacado pelo presidente como resultado da segurança que afirma ter proporcionado ao país. Na prática, porém, grande parte desse capital não é verdadeiramente externo: trata-se de salvadorenhos que emigraram e agora retornam trazendo recursos obtidos no exterior.


Nayib Bukele concentra poder absoluto, contando com o apoio dos deputados para aprovar leis conforme seus interesses. Recentemente, militarizou a área da educação ao nomear uma oficial das forças armadas para o Ministério da Educação. 


Para Jessica, em comparação com a Venezuela, a situação em El Salvador ainda não chegou ao mesmo nível de gravidade. ‘Bukele está apenas tapando o sol com a peneira, investindo em estádios e recorrendo a empréstimos, práticas que revelam um cenário de corrupção semelhante ao do vizinho sul-americano (que foi sitiado por Donald Trump). Inclusive, houve uma caso em que um integrante do governo foi flagrado transportando drogas, mas nada aconteceu, porque fazia parte da administração e o assunto foi abafado’ relata, inconformada.


A família do presidente também ocupa cargos no governo, evidenciando práticas de nepotismo. Um de seus familiares, por exemplo, está à frente do Ministério do Esporte. ‘Estão construindo um estádio em parceria com a China. A família já era milionária, pois seus avós vieram de Belém e da Palestina e seu pai nasceu em El Salvador, mas não a ponto de possuir a fortuna que ostentam atualmente’, relata Jessica.

 

“Não é permitido realizar sequer uma marcha pacífica contra o governo. Recentemente, circulou a notícia de que um soldado teria disparado contra uma jovem em um local bastante movimentado, resultando em sua morte. Em vez de responsabilizar o autor do disparo, a polícia prendeu duas pessoas aleatórias e as expôs na capa dos jornais, enquanto o governo abafou o caso.”


“No ano passado, estive em El Salvador com minha família e decidimos visitar uma estrada que havia sido recentemente pavimentada. Ao chegarmos, percebemos que apenas um trecho havia recebido obras. No entanto, nas notícias, divulgava-se como se a estrada tivesse sido concluída, apresentada como uma grande obra. Fotos desse pequeno trecho foram veiculadas em rede nacional e internacional, para reforçar a imagem de que o governo estaria investindo fortemente no país.”


O mesmo ocorre com uma praia no oriente do país: notícias e propagandas são veiculadas em rede nacional como se tudo se tratasse de uma grande obra. Ao visitar o local, Jessica e sua família constataram que, mais uma vez, tratava-se de um pequeno trecho de estrada, sem relação com o que havia sido divulgado. A impressão transmitida era a de uma grande via central que conectaria San Salvador ao ocidente do país, mas tudo não passava de exagero. 


Jessica questiona os rumos do país: ‘Há uma enorme perda econômica e, além disso, a prisão de tantas pessoas, muitos delas inocentes, é um excesso. Onde está esse dinheiro?’ indaga, demonstrando indignação.

“Jessica observa que o país apresenta algumas melhorias em infraestrutura, ainda que sem investimento estrangeiro direto. No entanto, a população enfrenta dificuldades para arcar com necessidades básicas, já que o preço da cesta básica aumentou consideravelmente, enquanto o governo continua a endividar o país. Ela ressalta que Bukele detém controle absoluto sobre todas as instâncias de poder. Embora não tenha atacado a população de forma direta, suas ações têm impacto indireto: enviou soldados para dentro da Assembleia Legislativa, alterou a Constituição e abriu caminho para reeleições indefinidas do mesmo presidente.” 


A família de Jessica mudou-se para a zona central, forçada pelas constantes coerções de membros de gangues. Hoje vivem em uma área zona mais tranquila, marcada pela presença de diversas embaixadas. Jessica e seus irmãos estabeleceram-se na Costa Rica, enquanto o restante da família permanece em El Salvador.


Jessica relembra uma história dolorosa de sua infância: em sua casa havia uma parede falsa em um dos quartos, criada como rota de fuga caso precisassem escapar dos membros das gangues. A família mantinha cachorros do lado de fora para proteger o lar e oferecer alguma segurança. 'Os pandilleros (membros das maras ou pandillas) não enfrentavam as pessoas de forma justa; sempre apareciam em grupos de 20 ou 30 homens para ameaçar um único indivíduo', relata. O latido dos cães era sinal de alerta constante, e a família vivia em permanente tensão, sem conseguir dormir tranquilamente, temendo que a casa fosse tomada pelas gangues.


Em setembro de 2025, Bukele celebrou o marco de “1000 dias sem homicídio”. Contudo, Jessica ressalta que esse dado é bastante relativo, pois há homicídios que não são reportados pela imprensa, o que coloca em dúvida a veracidade da estatística oficial.


Um país sem conclusão


Embora a violência das gangues tenha diminuído no país, ainda há muito a ser feito para que a população se sinta verdadeiramente segura. Um ‘regime de exceção’, marcado pela presença de militares truculentos e armados nas ruas, restringindo a liberdade do povo, dificilmente pode gerar efeitos positivos duradouros. É, sem dúvida, necessário afastar os membros das gangues para que as pessoas possam viver em paz. No entanto, substituir a coerção das pandillas pela coerção militar não representa uma solução real para o país.


Apesar de ser um país pequeno na América Central, El Salvador vem atraindo atenção internacional. O atual presidente tem conquistado admiradores de peso, entre eles a presidente da Costa Rica, Laura Fernández, e Donald Trump.

Mesmo em meio ao caos, o povo salvadorenho persiste na luta por sua liberdade de existir e viver dignamente no ‘polegarzinho da América’.


*Jessica é um nome fictício. A entrevistada teve sua identidade alterada por questões de segurança.

**Ao entrar no país como investidores, sua família obteve um visto distinto daquele concedido a refugiados. O visto de investidor garante liberdade de entrada e saída do país a qualquer momento; já o visto de refugiado impõe restrições severas, impedindo a saída do país por até dez anos.
***Desde 2019, El Salvador ganhou notoriedade por seus investimentos em bitcoin. Um exemplo é a Praia de El Zonte, conhecida como Bitcoin Beach, onde foi realizado um experimento de economia circular com a criptomoeda, impulsionando o turismo e consolidando o bitcoin como moeda legal.


Texto escrito por Caroline Prado

Brasileira vivendo na Costa Rica, apaixonada por cachorros, plantas e fontes confiáveis. É internacionalista, tradutora e filóloga. Professora de Português como Língua Estrangeira (PLE) e História Contemporânea além de Filóloga especialista em Línguas Latinas.



Revisão por Eliane Gomes

Edição por Eliézer Fernandes

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