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O Inimigo Oculto: A Distinção entre o Racismo Velado no Brasil e a Segregação nos EUA


O Preço da Invisibilidade, a Força da Identidade e o Chamado de Novembro


Ilustração mostra diversos punhos cerrados levantados — Imagem: Dora Lia Gomes/Alma Preta Jornalismo
Ilustração mostra diversos punhos cerrados levantados — Imagem: Dora Lia Gomes/Alma Preta Jornalismo

A questão racial não é apenas um fator social: é a tensão estruturante que molda a vida, as aspirações e a capacidade de organização dos povos negros em todo o mundo. Para o povo negro, a opressão nunca se apresenta de forma isolada, mas como resultado de múltiplas vulnerabilidades que se entrecruzam – a chamada Interseccionalidade.


Minha posição de fala nasce nesta interseção. Sou uma mulher negra, criada no morro, cuja infância foi marcada pela destruição sistêmica da vida de meu pai, que se tornou alcoólatra e faleceu após ter sua carreira e dignidade comprometidas por um flagrante policial forjado. Desde cedo, precisei aprender a navegar pelo complexo labirinto da desigualdade brasileira.


É justamente por ter vivido nessa encruzilhada de raça, classe e gênero - e por ser mãe e tia de meninos negros - que o choque foi ainda maior. Durante uma aula no curso de Pós-Graduação em Diversidade e Inclusão, em uma discussão sobre a desumanização da criança negra, tive a mais dolorosa percepção: o impacto do racismo em nossa própria psique.


Eu, uma mulher negra, percebi que, por anos, aceitei com naturalidade que as mortes brutais dos "meninos de Belford Roxo" não provocassem no Brasil a mesma comoção que o assassinato igualmente brutal de uma criança branca.


Lucas, Alexandre e Fernando, os três "meninos de Belford Roxo" que foram mortos por traficantes em 2021. Imagem: CNN
Lucas, Alexandre e Fernando, os três "meninos de Belford Roxo" que foram mortos por traficantes em 2021. Imagem: CNN

A diferença gritante estava na narrativa pública: a tragédia de Henry Borel Medeiros (Março/2021) mobilizou o país e foi noticiada com a constante menção ao seu nome, à sua história e ao afeto de sua família. Em contraste, os jovens negros desaparecidos em Belford Roxo em 2020 – Lucas Matheus, Alexandre Silva e Fernando Henrique – eram recorrentemente identificados pela mídia apenas como os "meninos de Belford Roxo". Sua individualidade foi minimizada, transformando-os em números anônimos na cobertura inicial, como evidenciado em reportagens sobre o primeiro mês de desaparecimento. 


A triste constatação é que os meninos de Belford Roxo não tiveram a centralidade de seus nomes assegurada na narrativa pública. Eu, como parte do povo negro, havia me acostumado a essa invisibilidade. Essa experiência revelou que o racismo é capaz de nos levar a desumanizar os nossos, internalizando o silêncio e o esquecimento impostos pela própria estrutura.

 

Nosso trágico destino, após a travessia atlântica, foi moldado por diferentes projetos coloniais que, embora igualmente desumanos, desenvolveram estratégias distintas para sustentar a supremacia branca. No Brasil, o racismo se disfarçou sob a máscara do "mito da democracia racial", transformando o opressor em um inimigo oculto. Já nos Estados Unidos, a segregação racial explícita e a rígida definição de raça impuseram uma demarcação nítida.


É essa diferença fundamental – o racismo velado versus o racismo aberto – que buscamos centralizar neste artigo. Examinaremos como essas estruturas divergentes influenciam: a luta pela sobrevivência; a dinâmica do Colorismo e a percepção de identidade; a ação do Feminismo Negro; e o custo do pioneirismo na representação.


Neste Mês da Consciência Negra, o propósito deste texto vai além da mera exposição da resistência: é um convite à reflexão profunda dirigido a todos os leitores.


Para o povo negro, propomos um passo adiante: do "lamento" pela dor imposta ao "projeto" de autoconhecimento, que afirma nossa plenitude e identidade. Para leitores brancos, este é um chamado à compreensão ativa sobre como a estrutura racista brasileira nos obriga a uma luta constante para reconhecer e reivindicar o valor que ela insiste em negar. A pauta da Consciência Negra é, afinal, a pauta da plena humanidade de todos.


O Racismo Estrutural: Brasil vs. Estados Unidos (O Fator Colonização)


O Inimigo Oculto e a Força Roubada

A colonização e o pós-abolição moldaram sociedades de forma distinta: se, nos Estados Unidos cultivou-se - a duras penas - uma consciência de ser, no Brasil, tentou-se instituir uma consciência de não ser.


EUA (Segregação): A rigidez das leis Jim Crow impôs uma evidência binária. O sistema opressor era visível, permitindo ao povo negro americano acumular um capital de resistência e ser treinado a lutar por direitos.


Durante décadas pessoas negras nos Estados Unidos eram obrigadas a frequentar espaços segregados devido às leis Jim Crow. Fonte: El Deber.
Durante décadas pessoas negras nos Estados Unidos eram obrigadas a frequentar espaços segregados devido às leis Jim Crow. Fonte: El Deber.

Brasil (Mito da Democracia Racial): O racismo velado minou a força e a consciência para lutar. Ao negar a discriminação e celebrar a miscigenação, o projeto brasileiro esperava que fôssemos todos "pretos gratos": aqueles que, mesmo diante da exploração e da violência, deveriam demonstrar eterna gratidão pela "oportunidade" de estar incluídos e "tolerados" na sociedade, aceitando a marginalização como destino. As elites transferem a miséria e a falta de acesso para o indivíduo, que passa a acreditar que sua marginalização é falta de mérito, e não de falha estrutural. Esta negação exige que toda a sociedade — incluindo os não-negros — rompa com a cumplicidade do silêncio para enxergar a violência estrutural.


Apesar disso, a resistência brasileira floresceu. Luiz Gama, nascido livre e vendido como escravo pelo próprio pai aos dez anos, personificou a fragilidade da liberdade e a engenhosidade da luta. Autodidata, tornou-se rábula (advogado) e utilizou a lei (a ferramenta do opressor) para libertar mais de 500 pessoas escravizadas. Paralelamente, os Quilombos representaram atos de autonomia e soberania física. O modelo brasileiro nos negou o letramento racial e político, mas não a nossa força. Aqui, a luta é, antes de tudo, pela existência básica e pela validação da nossa humanidade diante de um Estado que mata e finge não ver o crime.


14 de Maio de 1888: A Traição Fundacional

O Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão (em 13 de maio de 1888, sob forte pressão internacional e diante da inevitável falência do sistema), perpetuou, no dia seguinte, sua maior traição social: o 14 de maio de 1888.


Missa campal celebrada em ação de graças pela abolição da escravatura no Brasil no campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 1888 — Foto: Luiz Antonio Ferreira/Acervo Instituto Moreira Salles
Missa campal celebrada em ação de graças pela abolição da escravatura no Brasil no campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 1888 — Foto: Luiz Antonio Ferreira/Acervo Instituto Moreira Salles

O Estado, que explorou o corpo e o trabalho do povo negro por mais de três séculos, recusou-se a criar qualquer política pública de reparação, acolhimento ou integração. Em vez disso, instituiu um projeto de marginalização ativa, por meio de leis como a de Vadiagem (que criminalizava a ausência de emprego formal, impossível de ser obtido) e do controle policial, como a criminalização do "pito de pango" (uso de cannabis), direcionada à população negra e às suas práticas culturais.


A Capoeira, uma manifestação cultural e de resistência africana, também foi explicitamente criminalizada no Código Penal Republicano de 1890, logo após a abolição, reforçando a repressão contra qualquer forma de organização e expressão negra.


Enquanto os recém-libertos eram empurrados para as margens da sociedade (dando origem às favelas e aos cortiços), o governo brasileiro investia em políticas de subsídio e atração de imigrantes europeus, facilitando seu acesso à terra e ao trabalho assalariado. Este abandono não foi fruto de inércia: tratou-se de um projeto deliberado de exclusão racial, voltado ao embranquecimento e à substituição da mão-de-obra, que marginalizou a população negra em sua própria terra.


O Paralelo com a Reconstrução Americana

O abandono brasileiro encontra eco na história americana, ainda que em roupagens distintas. Nos Estados Unidos, o fim formal da escravidão em 1865 foi seguido pela Era da Reconstrução (1865-1877), período em que o governo federal tentou impor direitos civis e políticos (como o direito ao voto) para a população negra do Sul.


No entanto, essa tentativa de integração foi brutalmente combatida pela violência paramilitar (exemplificada pela Ku Klux Klan) e pela instituição das Leis Jim Crow. Se, no Brasil, a exclusão se deu pelo abandono e invisibilidade, nos EUA ela se consolidou pela segregação legal e pela violência explícita.


Em ambos os casos, o resultado foi o mesmo: a garantia de que, mesmo após a abolição, a supremacia branca permaneceria inabalável, seja pela hierarquia velada ou pela separação forçada.


Identidade e Colorismo: O Espectro Racial


A forma como cada país define quem é negro determina a coesão social e a percepção da luta.


EUA (Regra de uma Gota): Qualquer ancestralidade negra define a pessoa como negro/a, criando uma unidade identitária inegável, centrada na descendência. Uma figura como Mariah Carey é, nesse contexto, inequivocamente Black.


Brasil (Escala de Cor e Colorismo): O projeto de branqueamento valorizou a miscigenação para diluir a negritude, resultando em uma categorização social baseada na aparência e no fenótipo. O Colorismo tornou-se uma ferramenta do racismo brasileiro para estabelecer hierarquias e fomentar conflitos internos, negando solidariedade e questionando a validade da luta de quem é considerado "não tão negro assim".


Imagem sobre colorismo. Fonte: Imagem gerada por IA.
Imagem sobre colorismo. Fonte: Imagem gerada por IA.

Enquanto a rigidez americana força a união, a fluidez brasileira insiste em nos dividir, desviando o debate central do racismo estrutural para o tom da pele.


O Feminismo Negro em Perspectiva Comparada


O feminismo negro, em ambos os países, nasceu da dupla exclusão, mas com bases conceituais que refletem suas realidades estruturais.


EUA (Interseccionalidade): Sistematizada por Kimberlé Crenshaw, a teoria da interseccionalidade foca na análise da opressão de raça e gênero que se cruzam, produzindo uma desvantagem única dentro do sistema de direitos.


Brasil (Amefricanidade): Conceituada por Lélia Gonzalez, a amefricanidade enfatiza a Classe Social e a matriz afro-latino-americana. Suas pautas estão ligadas à estrutura da vida material: o enfrentamento do genocídio, a luta pela saúde e a valorização da trabalhadora doméstica.


A objetificação da mulher negra no Brasil se manifesta em duas figuras centrais: a Mulata, representada como corpo disponível para o prazer branco, e a Mãe Preta, reduzida à condição de serviçal, cuidadora e dessexualizada. Ambas funcionam como mecanismos de controle da sexualidade e do trabalho, perpetuando estereótipos que sustentam a exploração e a marginalização.


Narrativas de Resistência e o Preço do Pioneirismo: O Legado de Luta e Esperança


O custo do pioneirismo no Brasil é desigualmente distribuído. O racismo estrutural impõe um fardo duplo, exigindo o sacrifício pessoal como preço pelo sucesso e, muitas vezes, tentando apagar a excelência intelectual e a liderança. Contudo, as batalhas travadas por esses gigantes não foram em vão. Cada ato de resistência, cada obra publicada e cada papel de destaque ergueram uma base sólida para a ascensão das gerações seguintes, demonstrando que a excelência negra é uma força inegável e que a esperança se renova em cada conquista.


A história de João Cândido, líder da Revolta da Chibata (1910), ilustra o preço imediato da

ousadia. Ele orquestrou uma revolta bem-sucedida contra os castigos físicos na Marinha, mas sua liderança audaciosa e a vitória momentânea foram seguidas pela traição e pela perseguição do Estado.


Sua vida foi marcada pela pobreza e pelo esquecimento oficial, simbolizando como o Brasil não apenas nega o gênio, mas também pune a liderança negra. Ainda assim, sua luta ecoou por todo o século. O reconhecimento de sua dignidade e heroísmo, ainda que tardio, inspira a contínua exigência de justiça e reafirma que a dignidade não se curva à opressão. João Cândido pavimentou o caminho para que, hoje, militares e civis negros exijam e ocupem seu lugar de direito sem o fardo da chibata.


Ainda no campo da palavra, a trajetória de Carolina Maria de Jesus é um marco incontornável. Sua obra Quarto de Despejo constitui uma denúncia crua da miséria e uma das vozes mais potentes da literatura brasileira. Embora tenha sido inicialmente tratada pelas elites como um "fenômeno exótico" e tenha morrido no anonimato, seu sucesso efêmero não apagou o impacto duradouro de sua escrita.


Carolina provou que a literatura pode - e deve - nascer da vivência da favela, legitimando narrativas até então silenciadas. A persistência de sua obra na academia e nas escolas garante que a voz da intelectualidade periférica tenha espaço, alimentando a Escrevivência que seria mais tarde consolidada por Conceição Evaristo.


Conceição Evaristo é considerada um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Imagem: Itaú Social
Conceição Evaristo é considerada um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Imagem: Itaú Social

A excelência literária e a profunda contribuição de Conceição Evaristo, que nos presenteou com o conceito de Escrevivência, enfrentaram a longa luta pela validação da excelência negra em um cânone literário historicamente excludente. O reconhecimento consolidado de sua obra na grande mídia e nas academias só foi alcançado após décadas de intensa produção e resistência. No entanto, o seu triunfo é uma vitória coletiva. Conceição não apenas conquistou seu espaço, mas também abriu caminhos para uma nova geração de escritoras e escritores negros que, hoje, desfrutam de maior visibilidade e acolhimento no mercado editorial e nas salas de aula. Sua trajetória demonstra que a persistência transforma-se em excelência e que a palavra negra, quando afirmada, impõe sua legitimidade.


Essa imposição também se manifesta nas artes cênicas, através do pioneirismo de Zezé Motta. Ao protagonizar, em 1984, a primeira mulher negra em posição central na teledramaturgia, ela enfrentou uma reação pública profundamente racista, absorvendo os ataques de uma sociedade que se insurgiu contra sua ascensão social. Zezé carregou o peso de ser a primeira, pagando um preço pessoal pela visibilidade. Seu sacrifício, contudo, foi o catalisador de uma mudança lenta, mas irreversível. Graças à sua coragem e talento, atrizes negras hoje ocupam papéis de destaque com maior frequência e centralidade, inspirando milhões e tornando a representação negra na televisão brasileira uma realidade cada vez mais plural e forte.


O sucesso negro brasileiro insiste em ser considerado ilegítimo pela estrutura racista, exigindo a luta pela sobrevivência digna do próprio sucesso. Ainda assim, ao revisitar as vidas de João Cândido, Carolina Maria de Jesus, Zezé Motta e Conceição Evaristo, percebemos que essas batalhas deixaram um legado de resiliência inquebrantável. Eles não apenas sobreviveram, mas prosperaram, transformando o preço pessoal do pioneirismo em um investimento para o futuro. Suas trajetórias provam que a luta não é em vão: abriram portas para que a atual geração de líderes, intelectuais e artistas negros não precise começar do zero, mas

sim dar continuidade, com maior visibilidade e força, à marcha rumo à plena equidade e ao reconhecimento da excelência negra brasileira.


Desmascarando o Velado e Afirmando a Luta


O racismo brasileiro é uma máquina de confusão e autonegação. Ele impediu que Carolina Maria de Jesus fosse reconhecida como intelectual e obrigou Zezé Motta a pagar o preço pela ousadia. O choque de perceber que até nós, por vezes, aceitamos a invisibilidade e a ausência de nome para as crianças negras assassinadas (como os meninos de Belford Roxo) é a prova definitiva do sucesso desse racismo estrutural.


Esta negação se manifesta até mesmo na memória dos nossos ícones. A narrativa pública sobre Garrincha insiste em destacar o alcoolismo e a tragédia, ofuscando o gênio do drible e o herói absoluto do Bicampeonato Mundial de 1962. O imaginário coletivo que pairava sobre o "Anjo das Pernas Tortas" estava marcado pela hipersexualização do homem negro e pela virilidade. O fato de ter nascido e vivido em Pau Grande reforçava, no subconsciente nacional, a ideia de uma força bruta e descontrolada, minimizando sua inteligência e talento como se fossem meramente instintivos.


Já sobre Elza Soares, a ênfase recai sobre a violência sofrida e as mazelas da vida, enquanto se minimiza a "Melhor Cantora do Universo" (título concedido pela BBC em 2000), aclamada por nomes como Louis Armstrong e BB King.


O Brasil, de forma recorrente, cultiva o hábito de destacar o sofrimento e a decadência de seus ícones negros, em vez de celebrar o sucesso e o brilho que eles representam.


A luta negra no Brasil é, essencialmente, a luta por letramento e consciência contra uma estrutura que se esconde. Ao desmascarar o racismo "velado" e afirmar nossa identidade, nossa produção intelectual e artística, estamos finalmente nos equipando para desmantelar a engenharia social que nos roubou a força.


O projeto não é apenas resistir, mas florescer; não é só confrontar o opressor, mas reconhecer e afirmar o nosso próprio valor. A próxima etapa da nossa jornada é declarar quem somos em nossa plenitude, a partir de nossas vivências e origens, transformando a memória da dor em potência e futuro.


A resistência não é um lamento, mas um projeto. No Brasil, ela é, acima de tudo, um ato de coragem contra o silêncio imposto, um grito de afirmação de que estamos aprendendo a reconhecer nosso valor, de que não aceitamos mais viver no quarto de despejo da nação e de que os nossos têm nome, brilho e dignidade.


Texto escrito por Denise Reis

Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil.



Revisão por Eliane Gomes

Edição por João Guilherme V.G

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