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O preço do acesso: por que o modo premium virou o padrão da desigualdade digital

ilustração: gerada via ChatGPT 
ilustração: gerada via ChatGPT 

Nos últimos cinco anos, parece que tudo ganhou uma versão Pro. O que antes era apenas um simples botão de “entrar” agora se apresenta como a opção de “entrar melhor”. Plataformas, aplicativos e até redes sociais passaram a dividir o mundo entre quem pode pagar pela experiência completa e quem precisa se conformar com uma versão limitada, repleta de anúncios, restrições e lentidão. O “modo premium” tornou-se o novo padrão da desigualdade digital.


Uma prática aparentemente simples, mas profundamente perversa: empresas oferecem versões gratuitas com o objetivo de manter o usuário preso ao ecossistema, mas limitadas o suficiente para gerar frustração. A cada clique, a cada espera, o sistema sussurra: “sua vida poderia ser melhor, se você pagasse por isso.” 


O que antes era gratuito transformou-se em privilégio. O que era básico, converteu-se em luxo.


O modelo de negócios da chamada “economia das assinaturas” vem crescendo a taxas de dois dígitos ao ano, de acordo com o Zuora Subscription Economy Index (SEI). O relatório é elaborado pela empresa norte-americana Zuora, fundada em 2007 no Vale do Silício e, desde 2016, especializada em plataformas de gestão de assinaturas, faturamento recorrente e monetização digital. 


É o sonho de qualquer investidor: receita previsível, uma base de clientes cativa e um consumo contínuo que parece nunca ter fim. Do ponto de vista social, porém, o resultado é inquietante. O acesso ao digital, que deveria funcionar como espaço de democratização, passou a reproduzir a velha lógica das classes sociais, agora transposta para dentro das telas.


Basta observar o impacto dos preços. Nos Estados Unidos, uma assinatura de

US$10 corresponde a cerca de 0,4% da renda média mensal. No Brasil, o mesmo valor ultrapassa 1,5%. Em outras palavras: aqui, ser premium significa pagar caro por um conforto que, lá fora, é considerado básico. Paralelamente, serviços como Netflix, Spotify, Canva e até plataformas mais recentes, como o ChatGPT, vem reajustando seus valores muito acima da inflação, em um país onde a renda média é de R$2.979, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE.


Esse fenômeno vai além da economia, infiltrando-se na cultura e na psique coletiva. Ter o plano Pro tornou-se sinal de status, eficiência e produtividade, uma forma contemporânea de distinção social. Quem paga sente-se mais “profissional”, “eficiente”, “evoluído”. É o que o filósofo Byung-Chul Han denomina “sociedade do desempenho”: um contexto em que todos precisam investir continuamente em si mesmos, até nas ferramentas que utilizam. O consumo passou a definir quem somos, enquanto o não consumo é interpretado como falha, atraso ou exclusão.


O capitalismo digital descobriu como vender escassez. As empresas erguem barreiras artificiais, limitações de exportações, marcas d’água e anúncios invasivos, para reforçar a ideia de que a versão gratuita é insuficiente. Dessa forma, o “upgrade” deixa de ser uma escolha e se transforma em uma coerção disfarçada. 

E, inevitavelmente, quem não pode pagar é empurrado para a periferia da experiência: uma internet mais lenta, mais ruidosa, mais precária.


O “modo premium” é, no fundo, o reflexo de um sistema que transformou o básico em exceção. Se antes a promessa da tecnologia era aproximar, hoje ela distancia: fragmenta a internet em castas e converte o acesso em privilégios. O problema não está em desejar uma experiência melhor, mas no fato de que o simples direito de existir plenamente no ambiente digital passou a depender do saldo da conta bancária.



texto escrito por Filipi Costa

Filipi Costa é jornalista formado pela Universidade Paulista e atua na área da comunicação há cinco anos. Possui formação técnica em Processos Fotográficos e é pós-graduado em Roteiro Audiovisual pelo Senac. Pesquisa temas sociais, culturais e ambientais por meio do jornalismo e da documentação audiovisual.



Revisão por Eliane Gomes

Edição por Eliézer Fernandes

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