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  • Desafios das Organizações Internacionais: Eficiência, responsabilidade e relevância

    Para começar a desenvolver o assunto , é pertinente ir à origem dele, ou seja, ao conceito sobre as Organizações Internacionais (OI) . O fenômeno das OI inclui um processo evolutivo na configuração dos elementos que as definem tal como as conhecemos hoje. Tanto o aparecimento delas como o reconhecimento formal, geral e expresso da sua subjetividade internacional têm sido sujeitos a uma importante evolução histórica. No início, os Estados não eram apenas os principais intervenientes nas Relações Internacionais (RI), mas também os únicos sujeitos do direito internacional. FONTE: https://internacionaldaamazonia.com/2020/11/18/a-importancia-das-organizacoes-internacionais-no-mundo-contemporaneo/ A sociedade internacional clássica era caracterizada por uma natureza limitada. Contudo, os avanços em numerosos aspectos técnicos e culturais criaram um clima propício à Cooperação Internacional através de estruturas mais ou menos organizadas . Junto com os Estados, surgiram outros atores internacionais que alcançarão importância vital na sociedade internacional e aos quais serão reconhecidos certos direitos e obrigações de vários tipos. Lembrando que, ainda hoje, os Estados continuam a ser os principais e primários sujeitos do direito internacional , mas deixarão de ser os únicos sujeitos e outros atores , como OI e os indivíduos, alcançaram o estatuto de sujeitos de direito internacional. Então, é possível falar de dois tipos de atores internacionais. Por um lado, os sujeitos primários ou originários, entre os quais estão os Estados e, por outro lado, os sujeitos secundários ou derivados, onde se enquadram as OI.   (DÍAZ GALÁN, 2018; ROUSSEAU, 1987). Cada organização internacional possui uma estrutura institucional composta por vários órgãos permanentes. Esta permanência não precisa ocorrer em todos os órgãos, mas basta que ocorra nos administrativos, permitindo o funcionamento contínuo dela. Esta permanência pode aparecer expressa ou tacitamente destacada no tratado constitutivo da referida organização. A permanência da estrutura institucional permite distinguir as OI das conferências internacionais; embora às vezes, devido à forma como as decisões são tomadas, à importância do seu secretariado e à duração, a distinção entre os dois possa ser um pouco confusa (DE VELASCO VALLEJO, 2010). Colocando o foco nas OI, elas nascem com objetivos específicos a resolver. Portanto, pode-se destacar o caráter “funcional” de sua subjetividade . Os direitos e obrigações que serão reconhecidos dependerão das necessidades que deverão ser respondidas através destas entidades internacionais. É como no caso das Nações Unidas , a instituição tem o mandato de cumprir um determinado objetivo internacional. Portanto, é vital estar sempre atento à meta e ao objetivo de cada uma das OI quando nos movemos no âmbito da subjetividade internacional dessas entidades (DÍAZ GALÁN, 2018). FONTE: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/onu.htm Em relação ao objetivo internacional que as OI devem cumprir - ou isso é o que se espera - e aos diferentes sucessos que vem acontecendo na sociedade internacional; João Guilherme Grecco ,   no seu artigo “ Reforma do Conselho de Segurança não só é urgente como vital ” , expressou que: “... fica demonstrada a necessidade de reforma do Conselho de Segurança.  O mundo com a atual composição e poderes do CSNU parece não conseguir lidar, com eficácia e rapidamente, os conflitos cada vez mais complexos. Ainda que seja necessária alguma reforma, é melhor existir um espaço com regras e comprometimento das partes para resolver questões de segurança internacional da forma menos danosa possível.” ( GRECCO, 2024)   Historicamente, as organizações internacionais podem ajudar os países a enfrentar bilateralmente os desafios relacionados ao financiamento, à capacidade técnica, à gestão institucional e a criar bens públicos globais para superar estes obstáculos (World Bank, sn). Funções que têm vinculação com a responsabilidade nesse âmbito. Quando se fala de Responsabilidade Social (RS), refere-se a um conceito muito amplo que pode dizer muito e nada de concreto ao mesmo tempo. Contudo, qualquer que seja a definição adotada, todos concordam com a necessidade de promover boas práticas nas organizações , assumindo a responsabilidade pelos seus impactos (NÚÑEZ REYES, 2003). As mudanças associadas a uma nova concepção do tema da RS , aliadas às inúmeras iniciativas e organizações preocupadas com o assunto, e a sua implementação como novos padrões de comportamento dos diferentes atores globais e locais , fazem com que o conceito de RS seja difícil de aplicar de fato, e ao mesmo tempo, existem diferentes níveis em que essa responsabilidade é aplicada. A respeito disso, as Nações Unidas propõem três níveis de ação: direitos humanos, direitos laborais e ambiente. FONTE: https://foccoerp.com.br/blog/responsabilidade-social/ O nível de direitos humanos e laborais está geralmente sujeito ao cumprimento de normas internacionalmente aceitas (Declaração Internacional dos Direitos Humanos das Nações Unidas, os quatro princípios fundamentais da OIT e o Direito do Trabalho (1998)) . Por outro lado, o nível ambiental, se refere especificamente à responsabilidade que os atores têm pelas externalidades geradas pela sua atividade produtiva. Este nível abrange: a administração dos recursos naturais, o controle da poluição, a gestão de resíduos e a ampliação da abrangência do conceito que vai além da gestão do seu ambiente . Da mesma forma, incentiva-se um papel mais ativo nos problemas ambientais globais (mudanças climáticas e deterioração da biodiversidade) (NÚÑEZ REYES, 2003). Voltando ao assunto do texto, há quem afirme que as organizações internacionais são muito úteis , pois têm contribuído para a consolidação dos cenários de cooperação entre as nações e para o fortalecimento dos sistemas democráticos e para a proteção dos direitos humanos. Ou seja, as OI são entendidas como fóruns democráticos nos quais as nações têm a possibilidade de trocar opiniões e chegar a pontos de acordo, mas na prática pode-se ver que essa visão não é compartilhada por todo o mundo . É claro que existe uma dualidade de visões sobre a eficácia e responsabilidade social das OI. Conclusão Para concluir, é preciso que a Responsabilidade Social (RS) de cada Organização Internacional (OI) reflita amplamente as diferentes dimensões e leve em consideração a preocupação dos diferentes atores, traduzindo-se num incentivo à adoção de melhores práticas. Estas práticas poderão influir em um melhor desempenho, mas vai depender de vários fatores. Em primeiro lugar , a existência de regras claras e estáveis ​​por parte dos governos continua a ser um aspecto importante na adoção de boas práticas e na construção de confiança, o que desencadeia um aumento da credibilidade e imagem pública; Em segundo lugar , o estabelecimento de acordos públicos e voluntários que estimulem uma mudança de atitude e de responsabilidade; Em terceiro lugar, não devemos esquecer que as OI foram criadas para resolver assuntos da sociedade internacional, como o caso da Venezuela, a guerra entre Israel e Palestina, e a da Rússia e Ucrânia. Não se pode continuar com as mesmas regras e ações quando temos atores vitais em papéis minimamente controversos , tanto na tomada de decisões como protagonistas dos acontecimentos atuais. Nesse contexto de instabilidade, conflito, falta de respostas e mudanças, cabe-se perguntar, onde está a RS dos OI?   Se cada uma delas não pode garantir que é capaz de resolver assuntos relevantes, ou seja, se não são capazes de ser eficazes e responsáveis, para que servem? É urgente revalorizar o papel das OI, pois sua inexistência pode desencadear um cenário de caos, complicações e mudanças prejudiciais. A cooperação internacional poderia ver-se obstaculizada, faltariam mecanismos para resolver conflitos e haveria uma menor colaboração e conexão econômica entre os diferentes atores. Editorial do Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto FONTES: WORLD BANK. 2021. La función de las organizaciones internacionales para mejorar los datos con fines públicos.   DE VELASCO VALLEJO, Manuel Díez. 2010 .  Las organizaciones internacionales. Biblioteca Universitária  de Editorial Tecnos. DÍAZ GALÁN, Elena. Las organizaciones internacionales como sujetos del derecho internacional. Algunas reflexiones sobre los orígenes. Revista de estudos políticos e estratégicos , 2018, vol. 6, no 1, p. 94-114.NÚÑEZ REYES, Georgina. La responsabilidad social corporativa en un marco de desarrollo sostenible. Cepal, 2003.   ROUSSEAU CH. (1987). Droit International Public. Paris, Francia: Dalloz.

  • Nepal em fúria: Quando os jovens desafiam a elite

    Era um dia comum de trabalho, daqueles em que tudo parecia seguir o ritmo habitual. Enquanto preparava meu café para iniciar a jornada, abri o Instagram sem grandes expectativas e fui surpreendida.  A primeira postagem que apareceu na tela tratava justamente do tema deste artigo: o Nepal . Um país que, confesso, não figurava no meu radar se tivesse que listar nações em crise ou à beira de rupturas políticas. A notícia era forte: o ministro da Economia lutava pela vida após ter sido jogado em um rio. Essa ausência do Nepal no meu radar não é por acaso. Trata-se de um país que raramente ocupa o foco das notícias  internacionais. No entanto, os protestos e a violência envolvida desencadeada revelaram uma crise política que merece atenção. Para compreender a dimensão e a gravidade da situação, é necessário observar os eventos que se desenrolaram nos últimos dias. Tudo começou em 4 de setembro, quando o governo bloqueou redes sociais populares , como Facebook, YouTube e WhatsApp. “A crise, a mais sangrenta que o Nepal viveu desde a abolição da monarquia em 2008, começou na segunda-feira, quando a polícia abriu fogo contra jovens manifestantes que denunciavam o bloqueio das redes sociais e a corrupção das elites” (RFI, 2025). Fonte: Nepal: Por que a Geração Z se amotinou | Outras Palavras Quatro dias depois, em 8 de setembro, jovens da Geração Z  tomaram as ruas de Kathmandu, protestando contra a corrupção, o nepotismo e a falta de oportunidades.  Enfrentaram a polícia em confrontos que resultaram em dezenas de mortos. A violência escalou rapidamente; em 9 de setembro, prédios governamentais foram incendiados  e o primeiro-ministro entrou em reclusão. Nos dias seguintes (13 a 17 de setembro), um governo interino assumiu , os mortos (72) foram declarados mártires e o país decretou luto nacional. Mas como o Nepal chegou a esse ponto? A crise é resultado de uma sequência de instabilidades políticas  e do crescente descontentamento popular  com a elite governante. As promessas dos partidos comunistas que assumiram o poder após a queda da monarquia foram repetidamente frustradas, enquanto corrupção e autoritarismo  se tornaram práticas comuns. Movimentos sociais na região, como os protestos no Sri Lanka e em Bangladesh, influenciaram a mobilização nepalesa. No entanto, o principal catalisador foi o descontentamento acumulado da população, intensificado pela recente proibição das redes sociais.   Historicamente, o Nepal aboliu a monarquia em 2008 , após décadas de lutas sangrentas e movimentos populares. Antes disso, o massacre da família real em 2001 gerou instabilidade, e o rei Gyanendra assumiu o poder, dissolvendo o Parlamento em 2005 e instaurando um regime autoritário , proibindo partidos e censurando a imprensa. O Movimento Popular de Abril de 2006 (Jana Andolan II) reuniu milhões de nepalenses nas ruas durante 19 dias, pressionando a monarquia. Em 2008, a Assembléia Constituinte aprovou oficialmente a abolição da monarquia , estabelecendo a República Democrática Federal do Nepal. O fim da monarquia gerou grandes expectativas, mas os três principais partidos políticos - Congresso Nepali (centro esquerda), Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado) e Partido Comunista (Centro Maoísta) se envolveram em disputas pelo poder, sem trazer melhorias significativas  à população. Essa disputa, somada à corrupção e ao autoritarismo, alimentou o descontentamento popular, culminando na onda de protestos recentes  com os jovens assumindo a linha de frente das manifestações. A sequência dos acontecimentos revela não apenas o descontentamento juvenil, mas também anos de fragilidade política,  desigualdade e uma geração que exige voz e mudança imediata. A Geração Z , nascida em um contexto de mudanças rápidas e com acesso à informação e às redes sociais, tornou-se o motor da mobilização.  Eles encarnam a urgência de ação, a rejeição às promessas vazias e a busca por oportunidades reais. Essa combinação entre expectativas frustradas e voz ativa explica a intensidade das manifestações. O que acontece no Nepal importa muito além de suas fronteiras. A mobilização de uma  juventude digitalmente conectada  mostra que as novas gerações têm poder real para pressionar instituições  e desafiar governos tradicionais. Além disso, os conflitos atuais refletem questões históricas compartilhadas por outras crises: desigualdade, falta de oportunidades e corrupção. O caso nos lembra da importância de construir sociedades mais justas  e resilientes, fundamentadas em diálogo, transparência e inclusão. Quando vozes e demandas são ignoradas, aumenta o risco de que o descontentamento exploda de forma trágica. O movimento popular não é fruto de conspirações externas , mas da insatisfação acumulada diante de governos que falharam em atender às necessidades básicas e às expectativas democráticas. Esse cenário serve como alerta sobre a urgência de ouvir a população, prevenir práticas autoritárias e fortalecer instituições democráticas sólidas. Editorial Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências   https://links.org.au/nepal-joins-regional-wave-revolt-popular-anger-repression-and-inequality-spreads-across-south-asia https://www.radiomontecarlo.com.uy/2025/09/16/internacionales/nepal-declara-luto-nacional-por-la-muerte-de-manifestantes-durante-las-protestas-contra-el-gobierno/ https://www.elobservador.com.uy/espana/impacto-global/una-generacion-harta-la-revuelta-los-jovenes-nepal-contra-la-elite-politica-n6016798 https://elpais.com/internacional/2025-09-11/la-generacion-z-de-nepal-se-rebela-contra-la-corrupcion-y-el-desempleo.html https://www.rfi.fr/es/asia-pacifico/20250912-nepal-el-pa%C3%ADs-en-la-incertidumbre-tras-las-mort%C3%ADferas-protestas-contra-el-gobierno https://nuso.org/articulo/Nepal-comunismo-maoismo-descontento/ https://fusernews.com/autoridades-de-nepal-buscan-a-10-mil-reclusos-fugados-durante-protestas/ https://rsf-es.org/crisis-politica-en-nepal-mas-de-una-docena-de-medios-atacados-y-periodistas-heridos/ https://www.nytimes.com/es/2025/09/12/espanol/mundo/nepal-protestas-discord.html https://www.dw.com/es/nepal-confirma-30-muertos-tras-la-oleada-de-protestas/a-73955282 https://cenital.com/nepal-la-falla-geopolitica-mas-sensible-del-siglo-xxi/

  • Umbanda: entre a intolerância e o racismo

    Foto: Yeda Souza https://www.instagram.com/tecventania_vobere/ Prazer, eu sou a Umbanda! A Umbanda surgiu no começo do século XX , em um Brasil recém-saído da escravidão (1888) e da proclamação da República (1889), período de grandes mudanças urbanas, sociais e culturais . Esse cenário favoreceu o encontro de matrizes culturais africanas, indígenas e europeias , especialmente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde negros, ex-escravizados, imigrantes pobres e mestiços  dividiam o mesmo espaço urbano. Segundo Luiz Antônio Simas, na obra Umbandas: uma história do Brasil , a religião funcionou como uma importante válvula de resistência cultural e simbólica  para os negros escravizados. As giras (rituais centrais realizados em terreiros) ocorriam, muitas vezes, após momentos de extrema violência, como as punições públicas aplicadas pelos feitores no tronco, onde o sangue ainda respingava das chibatas. Mesmo assim, os escravizados se reuniam para dançar, cantar e cultuar suas divindades, prática não compreendida pelos senhores, que interpretavam aquele festejo como insubordinação e afronta. Como forma de ilustrar esse cenário, convido-os a observar atentamente a cena da novela "Sinha Moça", escrita por Benedito Ruy Barbosa e adaptada por Edmara Barbosa e Edilene Barbosa, exibida originalmente pela TV Globo entre 13 de março e 13 de outubro de 2006. Nela, logo após o açoite de um escravo, os demais se reúnem em uma dança coletiva. O contraste entre dor e celebração  era considerado ilógico para os senhores de engenho, que esperavam que, após as penitências, os negros estivessem recolhidos em sofrimento e não em cerimônias festivas. Cena da Novela Sinhá Moça - Globo Simas explica que a Umbanda nasce como resposta aos processos de criminalização dos cultos africanos  (Lei de Vadiagem, Código Penal de 1890), mas também como fruto da tentativa de criação de uma religião “nacional”, com elementos reconhecíveis por diferentes grupos sociais. A incorporação de caboclos e pretos-velhos (espíritos de indígenas e antigos escravizados) representa uma "valorização do passado brasileiro marginalizado, agora como guias espirituais", o que confere identidade brasileira à nova religião . Apesar de ser fruto direto da miscigenação entre catolicismo, kardecismo, práticas indígenas e matrizes africanas , a Umbanda continua alvo de intensa rejeição e preconceito. Tal contradição se torna ainda mais evidente ao observarmos que suas matrizes-formadoras  (como o próprio catolicismo ou espiritismo kardecista) são amplamente aceitas no imaginário social. O que se rejeita, portanto, não é o tipo de prática religiosa em si, mas o corpo predominantemente negro e estigmatizado que a pratica. É justamente essa tensão que motiva o presente artigo: evidenciar como a Umbanda compartilha, adapta e ressignifica elementos comuns a outras religiões acolhidas no cotidiano social brasileiro, demonstrando que o fenômeno enfrentado pelos umbandistas não se restringe à intolerância religiosa , mas revela, de forma profunda, o racismo estrutural ainda vigente no país . Entre Deus, Jeová, Allah, Yeshua e Oxalá: A desmistificação e o monoteísmo da religião A classificação da Umbanda como religião monoteísta, politeísta ou henoteísta ( culto a várias entidades, mas com reconhecimento de uma força suprema ) ainda é alvo de debate entre pesquisadores. De modo geral, a maioria dos estudiosos entende que a Umbanda é, sim, uma religião monoteísta , pois afirma a existência de um único Deus criador , ainda que cultue diversas divindades e entidades espirituais que atuam como intermediários  de Deus. Assim como em diversas outras religiões, Deus se apresenta com nomes distintos, o que ocorre em razão da cultura presente no recorte histórico em que cada religião se originou. Na cosmologia umbandista, existe uma força suprema chamada Olorum , Oxalá , Zambi Maior  ou simplesmente Deus , responsável pela criação de todos os mundos e seres. Essa ideia está na base teológica de praticamente todas as vertentes da religião (SIMAS, 2018; PRANDI, 2001). É esse Deus que rege o destino do universo e representa o princípio máximo do bem, da justiça e da evolução espiritual, tanto quanto em tantas outras religiões mais bem acolhidas pela sociedade. Isso nos leva às próximas reflexões: quantos elementos são semelhantes entre a Umbanda e outras vertentes religiosas, e porque apenas os presentes na Umbanda são demonizados e repudiados? Umbandismo e Catolicismo: Dos guias aos santos. Das rezas aos pontos A religiosidade brasileira é marcada pelo sincretismo, esse “modo de fazer religião misturando símbolos, práticas e crenças”, como define Reginaldo Prandi (2001, p. 29). Umbanda e Catolicismo, por mais distintas que sejam em origem, compartilham gestos e rituais profundamente semelhantes. No Catolicismo, os santos  funcionam como intercessores entre Deus e os fiéis. São figuras humanas canonizadas pela Igreja, que realizam graças em nome do divino. Na Umbanda, os guias espirituais , como Pretos-Velhos, Caboclos e Crianças — também operam como mediadores entre o plano terreno e o plano superior (SIMAS, 2018, p. 67). Enquanto santos como São Jorge, Nossa Senhora ou São Sebastião são amplamente venerados pela população, guias como Pai Joaquim, Caboclo Tupinambá ou Ogum Sete Ondas ainda são vistos como “entidades menores” ou “espíritos atrasados”, fruto de uma desvalorização histórica do conhecimento africano e indígena (NEGRÃO, 1996). Curiosamente, muitos terreiros de Umbanda têm imagens de santos católicos em seus altares , numa forma de sincretismo cultural que o Catolicismo, ao contrário, raramente pratica com símbolos umbandistas. Em ambas as religiões, a palavra sonora convoca o sagrado . Católicos rezam ladainhas, ave-marias e salmos com ritmo e cadência que produzem estado devocional. Na Umbanda, os pontos cantados  cumprem função semelhante: “firmam” a energia do guia e estabelecem a ligação com o plano espiritual através do canto, do toque e da repetição (ORO, 2005, p. 65). Assim como as orações católicas, os pontos têm poder de consagrar o espaço, afastar negatividades e chamar a proteção divina, mas apenas os pontos são historicamente associados ao “mito da feitiçaria”, reforçando preconceitos raciais contra tradições negras (ALBUQUERQUE & NEGRÃO, 2015). Umbandismo e Evangelismo: Do preceito ao jejum. Do banho de ervas ao óleo de unção Apesar de trajetórias históricas distintas, Umbanda e Evangelismo compartilham símbolos, práticas e finalidades espirituais profundamente semelhantes. Ainda assim, enquanto o Evangelismo é amplamente aceito no cenário religioso nacional, a Umbanda continua sendo alvo de preconceito e marginalização, reflexo de um racismo estrutural que perpassa nossa sociedade (ALBUQUERQUE e NEGRÃO, 2015). Na Umbanda, o preceito consiste em um conjunto de abstinências físicas, alimentares, sexuais ou comportamentais que antecedem o contato com o sagrado, com o objetivo de “preparar o corpo como instrumento da mediunidade” (SIMAS, 2018, p. 114). De forma semelhante, no Evangelismo, o jejum é compreendido como prática espiritual que visa fortalecer o vínculo com Deus , “submetendo a carne ao espírito” (HORTON, 2007, p. 56). Em ambos os casos, a privação voluntária do corpo atua como mecanismo de disciplina espiritual e elevação energética, funcionando como dispositivo de limpeza interior . Outro paralelo interessante é o banho de ervas na Umbanda , recentemente retratado na novela "Garota do Momento", exibida pela TV Globo entre 4 de novembro de 2024 e 27 de junho de 2025. Nesse ritual, utilizam-se plantas classificadas como “quentes” ou “frias” para limpar ou equilibrar campos energéticos  (ORO, 2005, p. 73). Já no Evangelismo neopentecostal, a unção com óleo é usada para consagrar pessoas e livrá-las de males espirituais  (MARIANO, 2004, p. 188). Ambos os rituais funcionam como catalisadores de “descarrego” ou fortalecimento espiritual , embora apoiados em simbologias de matrizes distintas: na Umbanda, o saber ancestral afro-indígena das ervas; no Evangelismo, a leitura bíblica do azeite como elemento de consagração (cf. Tiago 5:14-15 ). Cena da Novela Garota do Momento - Globo Nunca foi sobre Intolerância Religiosa A reflexão que emerge é contundente: por que práticas aparentemente tão próximas são encaradas socialmente de forma tão distante? Porque igrejas e templos são sempre visíveis e acessíveis, enquanto  terreiros precisam ser pequenos, discretos e muitas vezes disfarçados como casas em becos escondidos? Como argumenta Luiz Antônio Simas (2018), a Umbanda nasce no Brasil como religião profundamente mestiça, amalgamando elementos africanos, indígenas, kardecistas e católicos. Mas, por trazer em seu cerne símbolos, entidades e saberes de matriz negra e popular , passou a ocupar o lugar do “demonizado” dentro de um país que insiste em se ver como branco, mesmo sendo majoritariamente negro e pardo (GOMES, 2019). Enquanto o Evangelismo e o Catolicismo ocupam um espaço privilegiado e crescente na esfera pública (inclusive com representatividade política), a Umbanda segue sendo alvo de estigmatização, ataques e violências simbólicas, exatamente por representar e preservar heranças africanas e indígenas constantemente silenciadas (SILVA e OLIVEIRA, 2020). Como aponta Negrão (1996), “o racismo religioso no Brasil se instala quando práticas afro-brasileiras são criminalizadas culturalmente sob o rótulo de feitiçaria, mesmo quando equivalem, em função, a ritos cristãos amplamente aceitos” . A Umbanda nasceu da dor, da exclusão e da genialidade criativa de um povo que, mesmo após a escravidão, continuou sendo marginalizado socialmente. Ao reunir elementos do catolicismo, espiritismo kardecista, religiosidades indígenas e africanas, a religião buscou se “disfarçar” para sobreviver em um país onde ser negro e cultuar o sagrado ancestral era (e muitas vezes ainda é) sinônimo de perseguição. O uso de santos católicos, por exemplo, não foi apenas uma escolha estética ou teológica, mas uma estratégia de camuflagem frente ao preconceito racial e à violência institucionalizada. Hoje, no entanto, o movimento umbandista caminha no sentido oposto: de descolonizar suas práticas, resgatar suas raízes negras e indígenas e se afirmar como expressão religiosa autêntica e legítima. O que antes se ocultava para escapar do racismo, agora se exibe como resistência a ele. A ancestralidade que já foi silenciada se torna bandeira de orgulho e ferramenta de enfrentamento. A luta dos umbandistas, portanto, não é apenas por liberdade de culto, mas por reconhecimento e valorização de uma espiritualidade que é profundamente brasileira. Uma fé que não cabe mais nos becos escondidos, porque pertence às ruas, às praças, às universidades e às consciências críticas que entendem que combater o racismo religioso é também um passo essencial para um país mais justo e verdadeiramente plural. Axé a todos! Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências: ALBUQUERQUE, W.; NEGRÃO, L. Intolerância religiosa no Brasil: um ponto fora da curva?  Revista USP, v. 107, 2015. GOMES, Nilma Lino. O corpo negro e seus símbolos.  Pallas, 2019. HORTON, Stanley. Doutrinas bíblicas: fundamentos da fé pentecostal.  CPAD, 2007. MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Loyola, 2004. NEGRÃO, Lígia. Umbanda: catolicismo, espiritismo e religiosidade popular.  Edusp, 1996. ORO, Ari Pedro. Curas e curandeiros: estudos sobre Xamanismo e Umbanda.  Vozes, 2005. SIMAS, Luiz Antônio. Umbandas: uma história do Brasil.  Civilização Brasileira, 2018. SILVA, Vagner Gonçalves da; OLIVEIRA, Lourenço. Racismo religioso e intolerância no Brasil.  Mauad X, 2020. BRASIL. Relatório Anual de Recebimento de Denúncias do Disque 100 (2023) . Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. ISP/RJ. Dossiê Intolerância Religiosa – 2023 . Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. CENARAB. Relatório Nacional de Violência Religiosa – 2023 . GIUMBELLI, Emerson; SILVA, Vagner Gonçalves (org.). Religiões Afro-brasileiras e violência simbólica . UERJ, 2022. SILVA, Vagner; OLIVEIRA, Lourenço. Racismo religioso e intolerância no Brasil . Mauad X, 2020. FGV. Percepções sobre diversidade religiosa no ambiente de trabalho . Relatório técnico, 2021. SAFERNET BRASIL. Indicadores de discurso de ódio religioso nas redes – 2022 .

  • Burnout: Os sinais pedem atenção (e mudanças)

    No começo, era aquele cansaço que o fim de semana não conseguia aliviar. Depois, a cabeça simplesmente não desligava mais. O café já não ajudava, e as coisas que antes traziam alegria começaram a perder o encanto.  Isso, na verdade, pode ter outro nome: síndrome de burnout . Nos últimos anos, a palavra deixou de ser apenas um termo técnico e virou assunto comum no dia a dia, até mesmo virar meme na internet. E não é à toa: de acordo com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho, cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros convivem com essa síndrome. Esse índice coloca o Brasil entre os países com maior prevalência do problema no mundo. Mas o que é o burnout ? Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico,  resultante de situações de trabalho desgastantes  que exigem alta competitividade ou responsabilidade.  A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho . Esta síndrome é comum em profissionais que atuam sob pressão constante, como médicos, enfermeiros, professores, policiais, jornalistas, entre outros.   Fonte: Ministério da Saúde   Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde , a síndrome se manifesta por três sinais principais: Exaustão emocional Distanciamento mental ou cinismo em relação às atividades Redução da eficácia profissional Na prática, os sintomas vão além: cansaço físico constante, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, desmotivação e até isolamento social.  O agravante é que, muitas vezes, quem está em burnout nem percebe — ou prefere não admitir, por medo de julgamento ou represálias no trabalho. Entre os sinais mais comuns, destacam-se: Agressividade Isolamento Mudanças bruscas de humor Irritabilidade Dificuldade de concentração Lapsos de memória Ansiedade Depressão Pessimismo Baixa autoestima Ausências no trabalho Um estudo da Bee Touch revelou que 78% dos trabalhadores brasileiros  apresentam níveis moderados ou graves de estresse, e 66% sofrem com hiperconectividade , fator que potencializa o risco de burnout . O outro lado da moeda: o mundo do trabalho hoje A força de trabalho no Brasil vive um processo acelerado de precarização . A promessa de estabilidade e direitos – conquistada com décadas de luta – vem sendo substituída por contratos frágeis, vínculos temporários e avanço da informalidade. Essa precarização não é um fenômeno isolado, mas parte de uma engrenagem econômica que transforma o trabalhador em recurso descartável , sempre substituível e constantemente pressionado a produzir mais com menos. Assim o trabalhador, sem perceber, assume jornadas extensas, muitas vezes sem regulamentação ou descanso garantido, correndo atrás de metas invisíveis e números que mal existem na vida real. É uma lógica de drenagem de energia, tempo e saúde — exatamente onde o burnout encontra terreno fértil para crescer. Cuide-se… o quanto antes! O combate ao burnout não pode ser de responsabilidade exclusiva do trabalhador. É preciso um esforço coletivo para minimizar o adoecimento: Reconheça os sinais cedo : fadiga, dificuldade de concentração, distanciamento emocional e irritabilidade são alertas. Estabeleça limites claros : defina horários de trabalho, crie pausas e respeite o descanso. Reduza o tempo de tela fora do expediente , especialmente no celular e e-mails. Cuide do corpo e da mente : sono regular, alimentação equilibrada, atividade física e práticas de relaxamento (meditação, respiração, hobbies). Busque apoio profissional : psicoterapia, grupos de apoio e acompanhamento médico ajudam a evitar consequências mais graves, como depressão e ansiedade crônica. Burnout não é “frescura”, muito menos sinal de fraqueza. É um alerta de que algo está errado no ritmo e nas condições de trabalho —  e a culpa não é do indivíduo . Reconhecer, compreender e enfrentar os sinais (e o sistema que adoece) é preservar a qualidade de vida e o bem-estar. Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências: https://www.hcor.com.br/hcor-explica/outras/sindrome-de-burnout/ https://crmvsp.gov.br/precisamos-falar-sobre-a-sindrome-de-burnout-o-tipo-mais-devastador-de-estresse/ https://www.einstein.br/n/glossario-de-saude/sindrome-de-burnout https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases https://www.poder360.com.br/poder-saude/estresse-afeta-78-dos-trabalhadores-no-brasil-diz-estudo/?utm_source=chatgpt.com https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/esgotamento-mental-nem-sempre-e-burnout/ https://www.rededorsaoluiz.com.br/doencas/sindrome-de-burnout https://www.tjdft.jus.br/informacoes/programas-projetos-e-acoes/pro-vida/dicas-de-saude/pilulas-de-saude/sindrome-de-burnout-quais-as-causas-e-sintomas-mais-comuns https://jc.uol.com.br/gptw-pe/2023/10/15576811-saude-mental-em-primeiro-lugar-como-empresas-responsaveis-podem-evitar-o-burnout-e-o-estresse.html https://www.saudebusiness.com/artigos/como-cuidar-da-sade-mental-e-evitar-sndrome-de-burnout/?gad_source=1&gad_campaignid=22177707484&gbraid=0AAAAA-EKghXZfpXLq9bdMKM9LMbrmllJ0&gclid=CjwKCAjwtfvEBhAmEiwA-DsKjt5GFaNUp632upcgDXvTzDmxZ2xjhkMqJ1Rf_zOGxAkoLmLKHmp_rBoCVqAQAvD_BwE

  • Resenha de "Híbridos" – David Thorpe

    Sinopse: Johnny Online e Kestrella são mutantes atacados por um vírus que faz suas vítimas se fundirem com aparelhos tecnológicos. Enquanto uma histeria toma conta do país eles vivem com o medo de serem apanhados e enviados para o misterioso Centro de Reabilitação Genética de onde ninguém jamais escapou. Uma história surpreendente de ficção científica contada pelo premiado David Thorpe. Li esse livro em 2011, e resolvi trazer a resenha dele agora pois me parece extremamente adequada ao que vivemos hoje com a tecnologia! “Híbridos” é um suspense de ficção científica de tirar o fôlego. David Thorpe constrói um cenário angustiantemente plausível , onde o corpo humano se funde com a tecnologia  de maneira perturbadora. Consegue imaginar alguém com partes do corpo transformadas em dispositivos eletrônicos? Durante a leitura, é impossível não visualizar com nitidez essa realidade: “Ela me deu uma rápida visão de seu braço, arregaçando a manga de seu casaco de alpaca para revelar um telefone celular que emergia de sua mão. Pude ver seu ponto de transição: o modo como a carne mudava de cor, textura e substância, onde a mão parava de ser mão.” Assustador, não? Essa atmosfera me remeteu ao Admirável  Mundo Novo , de Aldous Huxley , não no estilo narrativo, mas na inquietação provocada. Ambos expõem mundos controlados por forças impessoais e hostis , que moldam os corpos e os destinos dos personagens com brutalidade silenciosa. A sensação de vulnerabilidade é constante. O que mais me conquistou foi a maneira como Thorpe narra com tanta agilidade e precisão que é impossível desgrudar os olhos das páginas. A história de Johnny Online e Kestrella, dois adolescentes híbridos, é ao mesmo tempo eletrizante e profundamente humana . Eles enfrentam a rejeição, o medo e a intolerância enquanto tentam sobreviver, confiar e permanecer livres. O desfecho é inesperado e impactante, um daqueles finais que a gente precisa digerir em silêncio. Embora escritos em contextos bem diferentes, os dois livros compartilham uma inquietação comum: o medo de um futuro onde a tecnologia e o controle social moldam profundamente o ser humano.  Mas cada autor aborda essa distopia por caminhos distintos. Em Híbridos, a tecnologia invade o corpo de forma literal. Os adolescentes começam a desenvolver mutações — como celulares que brotam dos braços  — e são perseguidos por isso. A ameaça não vem apenas da transformação física, mas da reação da sociedade: medo, intolerância, exclusão.  Já em Admirável Mundo Novo, a tecnologia é mais silenciosa, mas não menos opressora. Desde o nascimento, os indivíduos são moldados por manipulação genética, condicionamento psicológico e drogas que garantem uma “felicidade” artificial . Não há perseguição, porque não há resistência — todos foram ensinados a amar sua prisão. O ritmo narrativo também difere bastante. Híbridos é ágil, direto, com cenas que lembram um filme de ação, enquanto Admirável Mundo Novo aposta em diálogos densos e reflexões filosóficas sobre liberdade, identidade e o preço da estabilidade. Ambos os livros nos convidam a pensar sobre o que estamos dispostos a abrir mão em nome do progresso.  Em Híbridos, o alerta é sobre a dependência tecnológica e a marginalização dos que não se encaixam. Em Admirável Mundo Novo, a crítica recai sobre uma sociedade que troca autenticidade por conforto — e liberdade por obediência. No fundo, os dois autores nos mostram que o perigo não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como ela é usada para controlar, excluir e silenciar.  Seja pela força ou pela sedução, o resultado é o mesmo: uma sociedade que se afasta da empatia, da diversidade e da consciência. Recomendo vivamente essa leitura. Além da narrativa envolvente, o livro provoca uma reflexão urgente sobre nossa dependência crescente da tecnologia e sobre o que sacrificamos, especialmente nos relacionamentos, por passarmos tanto tempo conectados. Quantas conexões reais estamos deixando para trás enquanto as digitais se multiplicam? Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme V.G.

  • Stonewall: O orgulho de uma revolta

    Até o começo da década de 1960, ser membro da comunidade LGBTQIAP+ em Nova York era proibido. Demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo era considerado ato fora da lei. Para que pudessem se expressar e viver, a população LGBTQIAP+ frequentava bares fechados e era uma comunidade que estava a margem da sociedade, que vivia entre becos e vielas de Nova York na década de 60. Stonewall Inn em 2012. Era esse o público que frequentava o lendário bar de Stonewall Inn. Um dos rostos mais conhecidos era o de Marsha, mulher trans, que era frequentadora assídua do bar. Assídua porque ali era o ponto de encontro de gays, lésbicas, travestis e pessoas trans daquela época. A comunidade que frequentava aquele e outros bares da região não estavam de acordo com o padrão American Way of life, eram considerados transgressores de uma sociedade formatada e rotulada. Por isso, eram alvos de constantes ataques da sociedade tradicional e também batidas policiais, que buscavam levar "a ordem" aos espaços transgressores. Era sob esse cenário de ataques que Marsha seus amigos e outros frequentadores viviam naquela época, e foram esses ataques que culminaram na lendária noite do dia 28 de junho de 1969 . Há muitas lendas e histórias sobre essa noite. Porém é fato e sabido que, após consecutivas noites de violentas batidas policiais, naquele 28 de Junho, Marsha e seus colegas se juntaram e deram início à revolta e aos protestos de Stonewall. As reações do dia 28 se estendeu e deu início à novos protestos que se alongaram durante quase uma semana, a comunidade enfrentando bravamente a violência e agressão policial. É fato que aquela noite foi o marco de libertação da população LGBT. Marco de resistência, luta e de orgulho. Orgulho de ser o que se é! Um ano após o acontecimento foi realizada uma marcha com pessoas LGBTQIAP+ saindo do bar Stonewall Inn em direção ao Central Park em Nova York, sendo considerada a primeira parada LGBTQIAP+ da história . Lutas, organização e busca por direitos Embora seja o marco inicial de resistência, em vários lugares já haviam alguns pequenos grupos dessa população se organizando em movimentos, buscando um lugar ao sol e acesso a direitos. Vale lembrar que na década de 1980 a população LGBTQIAP+ foi brutalmente afetada pelo vírus HIV e uma das mais atacadas como causadora e disseminadora do vírus, porém as pessoas que os atacavam convenientemente esqueciam que homens casados e de família tradicional buscavam no "sigilo" pessoas trans e gays para diversão, e ao se contaminarem, transmitiam o vírus para suas outras parceiras sexuais, no caso suas esposas. No Brasil, na década 1970, o movimento LGBTQIAP+ também começou a se organizar. Em meio aos anos de chumbo, há registros de pequenas movimentações e reuniões, em busca de apoio e organização. Também nessa época, alguns jornalistas gays fizeram circular as primeiras edições do Lampião da esquina, jornal impresso voltado para essa população, que brincava com masculinidade impressa na imagem de Lampião e o local de trabalho de garotas de programa. Porém, a ditadura militar também tentou acabar com essa população que infringia a moral e os bons costumes "garantidos" pelos militares. Departamentos e delegacias foram criados, a fim de impedir que gays, travestis e mulheres trans fossem vistos a luz do dia. De acordo com estudos feitos pelo professor e doutor Renan Quinalha, espaços como a Praça da República em São Paulo e a galeria Alaska, no Rio de Janeiro, eram pontos de encontro, diversão e trabalho dessa comunidade, mas também foco de frequentes batidas e violência policial. Mesmo com o fim da ditadura militar, no Brasil, o país do carnaval e do samba, a homofobia se faz presente. Ainda na década de 80 a população gay sofria com a rejeição e preconceito, vivendo a margem da sociedade e sofrendo ameaças, como a famosa reportagem onde a jornalista questiona transeuntes na Avenida Paulista, se gays e lésbicas deveriam ou não morrer. Foi e tem sido a passos lentos e com muita dificuldade, que os direitos da comunidade LGBTQIAP+ foram conquistados, a seguir listamos alguns deles: 17 de maio de 1990, o termo homossexualismo (sic) foi banido e a homossexualidade deixou de ser considerado doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS); Em 2008, a Secretaria Especial de Direitos Humanos, distribuiu a carta com os Princípios de Yogyakarta, que era considerados direitos e deveres apresentados à ONU sobre direitos LGBTQIAP+, na primeira Conferência Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais no Brasil; Em 2011, a ONU reconheceu através de resolução que violações de direitos a essa comunidade são consideradas violações aos Direitos Humanos, porém, não há lei que assegure isso em todos os países; Em 2013, no Brasil, foi assegurado pelo STF, o direito a casais homossexuais de se casarem, proibindo que cartórios recusassem tal solicitação; Em 2015, nos EUA, foi garantido pela Suprema Corte, o direito a casais homossexuais de se casarem, já que o direito era garantido apenas em alguns estados; Em 2016, no Brasil, foi garantido o direito a pessoas trans a troca de nome em todos os documentos, garantindo a inclusão e respeito ao gênero de identificação; Em 2018 a OMS retirou do catálogo de doenças a transexualidade. Em 2019, no Brasil, foi votado pelo STF e enquadrando em crime de racismo, qualquer ato considerado homofóbico; Em 2020, no Brasil, foi banida a não autorização de doação de sangue por homens gays, antes considerados grupo de riscos em transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Mesmo com esses direitos garantidos, a população LGBTQIAP+ ainda vive de maneira vulnerável. De acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB) o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIAP+ no mundo. Em 2019 era um membro da comunidade morto a cada 27 horas. Em contrapartida o Brasil é considerado o que mais consome pornografia trans no mundo! No mundo, o simples direito a vida não está garantido a essa comunidade. Em pelo menos 70 países é crime ser LGBTQIAP+ e em alguns deles a condenação pode ser a morte. O turismo dessa comunidade não é aceito em todos os lugares. Como fato recente, temos a Copa do Mundo de Futebol, que será realizada no Catar. País onde a população gay é proibida de se expressar e pode ser condenada. Turistas da comunidade LGBTQIAP+ que tem buscado o local para o evento, tem encontrado dificuldades em reservas de hotel e recebido conselho das autoridades locais de não demonstrarem afeto em público. O preconceito e o mercado de trabalho Embora sejam visíveis alguns avanços, há muito o que se fazer. O mercado de trabalho ainda é um grande desafio, se mostrando machista e homofóbico. São poucas as empresas onde são encontradas pessoas LGBTQIAP+ em cargos de lideranças ou desempenhando papéis de confiança. Isso se agrava quando aumentamos a lupa e olhamos para a população trans, devido ao preconceito e a falta de inclusão. Ainda são poucas as empresas nos grandes centros urbanos, sem falar nas empresas do interior, que trazem a pauta de inclusão para mesa, a maioria sem qualquer plano ou projeto visando atingir positivamente a comunidade LGBTQIAP+. Porém, são essas empresas que, em todo mês de junho, se revestem de arco-íris, a fim de celebrar o mês do orgulho, em memória de Stonewall e esquecem que nos outros meses do ano continuam atacando Marsha e toda a sua comunidade. A importância da diversidade na política Aos poucos a comunidade LGBTQIAP+ tem conquistado alguns espaços e um dos principais é o campo político. Da esquerda para direita, a primeira-ministra da Sérvia, Ana Brnabić, o primeiro-ministro de Luxemburgo, Xavier Bettel, o ministro da saúde da Alemanha, Jens Spahn, o Secretário do Transporte americano Pete Buttigieg e o deputado neozelandês, Grant Robertson, fazem parte de uma onda de políticos abertamente gays no governo. Foto: Instagram. Nos últimos anos tem se observado o crescimento de políticos LGBTQIAP+ assumindo postos importantes em câmaras de vereadores, de deputados e no Congresso Nacional. São nomes de grande peso, que tem lutado arduamente para a garantia, cumprimento e reclamação pela conquista de novos direitos. Ao assumir esses espaços, esses políticos tem levado a voz dessa comunidade, que tanto sofre e é descriminada. O protesto que virou orgulho e ganhou a avenida Desde os protestos da semana de 28 de junho de 69 em Stonewall até hoje, a população LGBTQIAP+ tem alcançado direitos e saído da margem da população. Graças a organização de movimentos, protestos e paradas, tem se ganhado voz e espaço. Os protestos realizados por Marsha e seus amigos, garantiram à essa comunidade que ela tenha orgulho de ser quem é, de poder amar e viver a sua maneira. Os protestos de Stonewall se tornaram a Parada do orgulho LGBTQIAP+, convidando todos, todas e todes à celebração e luta. No último dia 19 de junho, mais de 3 milhões de pessoas LGBTQIAP+ ocuparam a principal avenida da cidade de São Paulo, a avenida Paulista, relembrando, reclamando e protestando, assim como Marsha em 69, por mais respeito, inclusão e direitos. Esses gritos e protestos ecoam não só pelo Brasil, mas também por vários outros lugares do mundo, como Tel Viv, Sidney, Los Angeles, entre centenas de outros. Muitos avanços foram alcançados e muitos direitos conquistados, não há dúvidas sobre isso. Porém, esses avanços e direitos não são alcançados por todos LGBTQIAP+. Ainda há uma grande parcela dessa comunidade que sofre o preconceito e o ódio na pele. Em muitos casos, principalmente nas classes menos abastadas, ainda não é seguro se assumir em casa uma pessoa LGBTQIAP+. A marginalização, muitas das vezes, é o caminho encontrado como tentativa de sobrevivência, para essas pessoas que são expulsas de casa por tentarem ser elas mesmas. É dever dos LGBTQIAP+ que possuem mais acessos e informação, lutar e buscar caminhos e trabalhar a conscientização para os mais expostos ao perigo da homofobia. Ainda há muito o que caminhar e conquistar, mas olhando para o passado, relembrando os antecessores volta-se os olhos para o futuro, com orgulho e com a coragem de lutar e poder ser o que se é! Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Fontes: https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/os-direitos-lgbt-no-brasil/ Quinalha, R. Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT. Ed Companhia das Letras, SP, 2021. https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2019/06/revolta-de-stonewall-tudo-sobre-o-levante-que-deu-inicio-ao-movimento-lgbt.html https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2018/junho/organizacao-mundial-da-saude-retira-a-transexualidade-da-lista-de-doencas-e-disturbios-mentais www.gov.br www.grupogaydabahia.com

  • Guerra Cultural e o diferente como inimigo

    Ao longo de toda a história da humanidade é possível identificar momentos de conflitos, ora por questões culturais, ora por valores, ora entre classe dominante e classe dominada. Exemplos disso, temos eventos como a Revolução Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Americana. Esses e diversos outros eventos contribuíram para a evolução da humanidade, trouxeram divergências de interesses e propuseram à sociedade novos modelos, o que causou atritos até que se estabelecesse uma nova realidade e a boa convivência e a normalidade voltasse. Desses conflitos surgiram diversas formas diferentes de organização, por exemplo as organizações sindicais, os movimentos pelos direitos das mulheres, o movimento negro e mais recentemente, o movimento LGBTQIA+. Esses movimentos buscam representar uma população, ou parte dela, que está à margem da sociedade. Ou seja, assume o papel representativo de um determinado segmento, que muitas vezes possui demandas que não estão sendo atendidas pelo Estado e que, de algum forma, precisa se organizar e lutar por representatividade. Esses movimentos sempre existiram, porém, de tempos em tempos, suas pautas são novamente atualizadas, de acordo com as demandas sociais daquele período histórico. Após a segunda guerra Mundial, dois fatores começaram a contribuir para que um novo momento de conflito entre diferentes ideias pudesse acontecer: A sensação de liberdade, provida pelo então chamado modelo American Way of Life , que foi um cartão postal do capitalismo moderno para o mundo, possibilitando diferentes padrões de vida e sociedade; A partir da promoção da liberdade americana, refletida em todo o ocidente, permitiu-se que movimentos sociais pudessem melhor se organizar, fortalecer e lutar por seus direitos. A soma desses dois fatores culminaram em considerável progresso no aumento dos direitos de populações minoritárias e vulneráveis, ascensão cultural, maior acesso à informação, fortalecimento da ciência e, principalmente a possibilidade de questionamento no modelo social imposto até então. Essa evolução social propôs debates entre visões diferentes e a tentativa de alinhamento social. Porém esse movimento também causou efeito reverso, fazendo com que conservadores se sentissem ameaçados e, a partir de então, passassem a se reunir em busca de combater estas novas tendências. É neste cenário posto que se torna propício o conflito entre ideias, interesses e modelo de vida e é o que tem acontecido desde então. Abaixo o debate, avante a batalha! Até então, o termo Guerra cultural ainda não era conhecido e não havia sido usado. Foi no final dos anos de 1980 e início de 1990 que esse termo surgiu. O ano era 1992 e estava ocorrendo a disputas nas primárias do Partido Republicano Americano. Foi durante a convenção do partido, em um discurso, que o termo "Guerra cultural", ganhou notoriedade e escancarou o incômodo dos conservadores sobre os valores, costumes e estilo de vida em ascensão. "Há uma guerra religiosa acontecendo neste país! É uma guerra cultural, tão crítica para nação que seremos como foi na Guerra Fria, pois é uma guerra pela alma da América!" O responsável pelo discurso foi o conservador Patrick Buchanan, então concorrente nas primárias do Partido Republicano, na disputa pela vaga de candidato a Casa Branca. Buchanan perdeu as primárias para George Bush, mas contabilizou cerca de meio milhão de votos, o que sinalizou que a insatisfação de Buchanan com o progressismo não era algo insignificante. Da convenção do Partido Republicano até hoje, já se passaram 30 anos. Desde então, a denominada Guerra cultural tomou todos os EUA, ganhou o mundo e também fez trincheiras no Brasil. O progressismo alcançado e fortalecido ao longo dos anos tem cada vez mais regredido e enfraquecido, devido aos constantes ataques. Nos EUA, desde então, movimentos conservadores têm cada vez mais se fortalecido, aumentando a frequência de ataques e protestos. A insatisfação com o progressismo fez com que fosse trazido ao poder a figura de Donald Trump em 2016, plantando a semente do movimento que viria a ser chamado posteriormente de Trumpista, que, mesmo perdendo as eleições de 2020, é resistente ao governo progressista de Joe Biden e tem se fortalecido e se disseminado através de células por todo o país. Na Europa, o enfraquecimento da União Europeia, o BREXIT, o aumento de células neonazistas na Alemanha e, mais recentemente, a vitória de Giorgia Meloni, candidata da extrema direita italiana, fatos que representam como a Guerra cultural tem se fortalecido no velho continente. No Brasil, após o governo progressista do Partido dos Trabalhadores ter tirado o país do mapa da fome e possibilitado a ascensão social de milhares de famílias, a direita e a extrema direita se apoderaram de discursos conservadores, para que fosse instaurada uma Guerra Cultural no país, a partir de discursos falsos, que muitas vezes tem como objetivo proteger os privilégios das classes mais abastadas. Além disso, em um momento de insatisfação da população com a corrupção, a extrema direita usou este incômodo social como combustível para incitar a população e promover o golpe de 2016, contra a então presidenta Dilma Rousseff. A comunicação e a desinformação como armas Para se ganhar uma guerra é necessário arma, e na instaurada Guerra cultural isso não é diferente. As principais armas utilizadas nestes conflitos têm sido a comunicação e a desinformação. Nos EUA o uso dessas potentes armas têm acontecido desde a eleição de Barack Obama, em 2008. Acusado de não ser americano, o ex-presidente foi apontado como uma fraude durante seus dois mandatos, inclusive, por seu sucessor, Donald Trump. Esse aliás, utilizou a desinformação não somente contra o ex-presidente Obama, como também contra sua rival, Hillary Clinton, na eleição de 2015. Donald Trump utiliza da comunicação e desinformação para invocar os americanos à uma suposta superioridade imperial no mundo. Ele evoca em seus seguidores a luta contra tudo que possa ameaçar a supremacia americana. Além disso, clama por um ideal conservador inexistente, algo que também é evocado pelo "Trump tupiniquim", Jair Bolsonaro. Bolsonaro conclama a seus fiéis seguidores a busca deste ideal conservador através da desinformação, inventando e incitando seu exército na luta contra o comunismo, a ideologia de gênero (sic), o feminismo, promovendo uma religiosidade barata, usando da fé e espiritualidade, algo muito presente na população brasileira. Foi com esse discurso conservador na voz de Jair Bolsonaro, que a extrema direita se viu representada no Brasil e, seguindo rigorosamente a cartilha dada por Donald Trump, a extrema direita ascendeu ao governo brasileiro e tem protagonizado uma escalada de ataques e violência, para permanência no governo. Seja nos EUA, Europa ou Brasil, a comunicação e os meios de comunicação tem sido utilizados incansavelmente como poderosas armas para disseminar a desinformação, agora também chamada de fake news. O seu alcance é avassalador e causa principalmente o ódio, provocando a polarização. Em seu discurso, Buchanan não quis utilizar de maneira figurativa. A sua sinalização foi de que uma guerra estava se iniciando. Em uma guerra há dois lados, o certo e o errado, o bom e o mau. O retrocesso e o ódio Com o conceito de Guerra Cultural introduzido, a luta tem sido desigual. A principal arma tem sido a comunicação e o principal combustível tem sido o ódio. A escalada dessa guerra tem cada vez mais trazido prejuízos e ameaças ao futuro. Enquanto esquerda e direita, adversários políticos, tentam dialogar, deixando de lado suas diferenças ideológicas em busca do fortalecimento da democracia e o bem comum, o fanatismo dos movimentos bolsonarista no Brasil e o trumpismo nos EUA, descola da realidade parte da população que, encantados por seus líderes autoritários, não tem a intenção de usar o diálogo, apenas promover o ódio contra o diferente e a necessidade de eliminar o inimigo, minando cada vez mais a base da democracia. O progresso alcançado nas últimas décadas tem sido cada vez mais ameaçado e, em alguns casos perdido, como o caso do direito ao aborto nos EUA, revogado em Junho de 2022. No Brasil, temos visto a escalada do racismo e o aumento da violência. Movimentos como o feminismo, movimento negro e LGBT, que buscam direito, inclusão e dignidade, tem recebido cada vez mais ataques. Em contrapartida, temos visto o aumento de células fascistas, racistas e homofóbicas, respaldadas pelos discursos dos seus líderes e pouco se vê medidas contra, na maioria das vezes, apenas notas de repúdio. Como em toda guerra, não se tem previsão de término e não é possível mensurar as suas perdas. Embora Donald Trump tenha perdido a eleição americana, o trumpismo ainda vive. No Brasil, Bolsonaro é o representante de cerca de 45% da população. O fanatismo alcançado plantou sementes e tem criado discípulos, ameaçando a todos, progressistas e inclusive conservadores, criando dúvidas se alguém irá sobreviver para ver o fim deste conflito. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia.

  • Rishi Sunak e os desafios de governo no Reino Unido

    Nos últimos meses o Reino Unido teve três ocupantes diferentes do cargo de Primeiro Ministro. O que esteve a frente por mais tempo, comandando inclusive o processo do “Brexit” , foi Boris Johnson . Envolto em diversas polêmicas, entre elas a presença em festas e eventos com aglomeração de pessoas durante a pandemia, acabou renunciando depois que diversos de seus secretários pediram para deixarem seus postos, o que fez com que até mesmo membros do parlamento mudassem de lado, passando à oposição. Para sucedê-lo, houve uma disputa dentro do partido Conservador e duas figuras ganharam destaque, Liz Truss e Rishi Sunak . A primeira conseguiu maior apoio e tornou-se Primeira-Ministra - a última no reinado de Elizabeth II - entretanto não conseguiu contornar a crise econômica e rapidamente perdeu apoio para continuar no cargo. O partido rapidamente se mobilizou para escolher uma nova liderança e evitar a possibilidade de novas eleições legislativas, pois, segundos pesquisas, perderia presença e poder frente aos Trabalhistas. Desta vez o escolhido foi aquele que havia perdido para Truss, Rishi Sunak. Sunak estabeleceu-se como o mais novo a ocupar o cargo na era moderna. Filho de pais com ascendência indiana, que nasceram no Quênia e na Tanzânia. Entretanto, cabe ressaltar que essa não é uma história de ascensão de uma família de imigrantes com poucos recursos já que o agora primeiro-ministro teve acesso à educação superior nas mais prestigiosas universidades. Ele apresenta um perfil capaz de cativar novos eleitores e reforçar a posição dos Conservadores. Ele também é o ocupante a chegar mais rápido ao cargo, tendo sido eleito como parlamentar pela primeira vez há apenas 7 anos. Sua formação academia prestigiosa e carreira no setor financeiro resultaram em uma fortuna estimada em US$ 840 milhões. Além de ter sido eleito parlamentar, também ocupou os cargos de Secretário-chefe do Tesouro e posteriormente de Chanceler do Exchequer, uma espécie de ministro das finanças/economia no Reino Unido. As crises do Reino Unido O país vem passando por crises em diferentes áreas e que servem de catalizadores entre si no durante o processo. São elas: Crise econômica, que vem se desenvolvendo desde as negociações e a formalização do Brexit, seguido pelo impacto da pandemia de Covid-19 e mais recentemente a invasão da Ucrânia pela Rússia. O processo longo de execução do Brexit trouxe muitas incertezas sobre as relações com o resto do continente europeu. Medidas corriqueiras como a entrada e saída de caminhões fazendo o transporte de cargas passaram a enfrentar filas longas para o devido processamento fronteiriço, causando inclusive a perspectiva de desabastecimento de itens em determinadas épocas. Pandemia, Mini Budget e a Monarquia Um acontecimento que teve impacto significativo na economia britânica foi a pandemia. As incertezas e a diminuição do ritmo da economia trouxeram novas dificuldades para todos os países. As incertezas e retomada de ritmo anterior trouxeram processos inflacionários importantes no continente europeu e o Reino Unido também foi afetado, registrando os maiores índices de inflação em décadas. Nesse contexto de inflação recorde, o gabinete de Liz Truss propôs uma isenção fiscal como forma de estimular a economia. Porém tal iniciativa não teve boa aceitação já que privilegiava apenas camadas mais altas da sociedade e de forma bastante específica. O resultado foi uma queda ainda mais acentuada da popularidade do partido perante a opinião pública. Truss rapidamente renunciou ao posto, estabelecendo o recorde de menor tempo a frente do gabinete. O partido, preocupado com esse descontentamento, agilizou para que o sucessor fosse escolhido antes que houvesse movimentação para novas eleições parlamentares. O escolhido foi aquele que havia ficado em segundo lugar anteriormente, Rishi Sunak. Com a morte da longeva Rainha Mãe, o governo britânico também terá que encarar os desafios dessa transição. Temas como a independência da Escócia e a saída de alguns países da Commonwealth voltaram a ganhar força, impulsionado pela menor popularidade do novo rei Charles III. No Canadá, a discussão sobre essa possível separação entre o país e a Coroa foi abordada rapidamente e rejeitada. Uma das interpretações para a decisão foi que o governo canadense enxergava essa separação como um sinal preocupante e poderia servir de estímulo para o movimento separatista do Quebec. Partido Conservador: baixa popularidade Partido Conservador britânico realizando votação de liderança | Foto: Stefan Rousseau/AFP No plano partidário, os Conservadores perderam popularidade nos últimos anos, sobretudo em 2022. Com Boris Johnson, enfrentaram um arrastado Brexit, uma condução por vezes inadequada da pandemia com a participação em festas e reuniões enquanto estas estavam proibidas/desencorajadas e por fim a indicação de Chris Pincher para o cargo de “ Government Chief Whip” (algo como líder da bancada) mesmo após este ter sido acusado de abusos sexuais. Após a renúncia de Johnson, o processo eleitoral para a escolha da nova liderança do partido Conservador (e consequentemente o novo Primeiro-Ministro) apresentou figuras que haviam ocupado diversas secretarias do governo, os que se destacaram mais foram: Liz Truss, antes Secretaria de Estado para Relações Exteriores e que lidava entre outros temas com a invasão da Ucrânia e Rishi Sunak. Futuro do governo O desafio de Sunak será readequar a economia britânica diante dessa tormenta, tentando ao mesmo tempo restaurar a confiança em seu partido. Diferentemente de Truss, com um neoliberalismo centrado na isenção fiscal, o plano de Sunak deve ser mais no modelo de Margareth Tacher, de quem ele é admirador. Ou seja, poderá ter um controle maior sobre o regime fiscal, reduzindo despesas e investimentos estatais. Tal prática já ocorreu quando ele era secretário. Em resposta a pandemia ele propôs a expansão do crédito, mas tão logo houve a desaceleração da pandemia o benefício foi cortado. Agora resta ver se o novo primeiro-ministro será capaz de lidar com estes desafios e estabilizar a política e a economia do Reino Unido. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Fontes https://www.theguardian.com/politics/2022/oct/24/rishi-sunak-key-facts-about-britains-next-prime-minister (acessado em 30-10-2022) https://www.theguardian.com/politics/2022/oct/25/who-is-rishi-sunak-everything-you-need-to-know-about-britains-next-prime-minister (acessado em 29-10-2022) https://www.theguardian.com/politics/2022/oct/23/most-pressing-issues-next-tory-pm-rishi-sunak-penny-mordaunt-boris-johnson-conservative (acessado em 04-11-2022)

  • Catar e a Copa das Polêmicas

    "Vamos a novos territórios!" Foi o que disse Joseph Blatter, presidente da FIFA, ao anunciar em 2010 o Catar como país sede da Copa do Mundo de 2022. Desde então, a Copa do Mundo tem somado escândalos e controvérsias. Nesse sentido, a inusitada e polêmica escolha feita pela FIFA é a coroação de uma estratégia utilizada pelo Catar para se colocar no cenário mundial. Desse modo, para entender as estratégias usadas pelo governo, é necessário viajar um pouco mais no tempo Catari e ir além de sua inesperada preferência. Catar: de país de várzea à primeira divisão do mundo No início dos anos 90, o minúsculo país do Oriente Médio não possuía quase nenhuma infraestrutura e também não era o país rico e de referência local, como é hoje. Essa história começa a mudar em 95 quando o Xeique Hamad Ibn Khalifa Al-Thani toma o poder de seu pai. Hamad tinha um plano para aquele simples país e, desde então, trabalhou arduamente para ser reconhecimento mundialmente. Foi nas mãos desse Xeique que o país deixou de ser majoritariamente voltado à pesca, à exploração de gás e ao petróleo. Foi também em seu governo que o país, que até então possuía um minúsculo aeroporto, passou a ter uma das principais companhias aéreas da Ásia, a Qatar Airways. O investimento em infraestrutura fez com que o país passasse a ser visto como influente na região, porém Hamad queria mais. Ainda na década de 1990, o país passou a ser a base área americana na região e teve a possibilidade de mediar conflitos entre os EUA e o grupo radical Talebã, tornando-se, assim, um importante mediador político. Nessa ascensão, o país desenvolveu acordos com os EUA, além de outros países, e trouxe investimentos na área da Educação e dos Negócios. Além disso, realizou parcerias com diversas universidades ao redor do mundo e atraiu centros universitários e pesquisas, o que o fez ser, portanto, uma referência dentro do Oriente Médio. Ainda dentro da agenda de Hamad, o país p assou a ser sede de eventos internacionais da região e, em 2006, sediou os Jogos Asiáticos, mirando uma possível candidatura a Copa do Mundo que se confirmou em 2010 com o inesperado anúncio feito por Blatter. A Copa dos escândalos Concorrendo com países como EUA, Japão e Austrália, a escolha do Catar como país sede foi rodeada de dúvidas e polêmicas. Vista como uma preferência feita por suborno, uma auditoria interna da FIFA não encontrou qualquer evidência de trapaça. Porém, em investigações paralelas feitas pelo departamento de Justiça dos EUA, foram identificados pelo menos metade dos 24 votantes como tendo recebido suborno para selecionar o Catar como país sede, entre eles, Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol-CBF, que também foi alvo de suspeitas de diversos escândalos. Outras evidências apontam o alto investimento em divulgação de campanha e compra de ajuda, por exemplo, as do ex-primeiro-ministro francês, Nicolas Sarkozy, que foi apoiado pelo ex-jogador Zenedine Zidane como embaixador da campanha. Após a campanha, o país adquiriu o clube de futebol Paris Saint Germain por meio do fundo de investimentos Qatar sports. Depois da escolha polêmica, o país tinha o que queria (a visibilidade internacional e um evento mundial no seu quintal), mas muita coisa ainda deveria ser feita e uma década de muitos outros escândalos estava a sua frente. A Copa das mortes Se a lógica e a razão fossem usadas como critérios na escolha do país sede de um dos mais importantes torneios mundiais, alguns requisitos deveriam ser levados em conta: Garantia dos Direitos Humanos, condições de trabalho, liberdade de expressão, acesso à informação, infraestrutura para abrigar e dar suporte ao evento, transparência no processo de escolha e, no mínimo, proximidade com o esporte a ser celebrado no torneio. No entanto, não é o que aconteceu aparentemente com a escolha do país sede do torneio mais importante e democrático do esporte. A partir de sua escolha, o Catar deveria construir diversos estádios, hotéis e melhorar sua infraestrutura para a Copa do Mundo de 2022. Por ser um país emergente e estar estrategicamente localizado no Oriente Médio, conseguiu atrair imigrantes em busca de trabalho e melhores condições de vida que vieram da Índia, Nepal, Paquistão, entre diversos outros países da região. Nesse sentido, foi desenvolvido o sistema "Kafala" , no qual mediadores ajudavam os imigrantes a entrarem no país para trabalhar nas obras para o mundial. Com a promessa de melhor condição de vida, o programa foi uma fraude e considerado como um dos sistemas de escravidão moderna , pois obrigava os trabalhadores a insanas jornadas de trabalho, em que eram submissos a temperaturas acima de 40ºC com pouca ou nenhuma condição de segurança trabalhista. Após pressão de diversos governos e entidades como a Human Rights Watch, o sistema chegou ao fim e o governo do Catar prometeu maior rigor com atravessadores e segurança aos trabalhadores. No entanto, houve pouco avanço e há uma estimativa de que mais de 6 mil vidas tenham sido perdidas nas obras para o Mundial. Segundo o governo do Catar, as mortes são superestimadas e alegam que elas são consequências de problemas de saúde que antecedem as obras. De acordo com especialistas, a projeção é de que para cada gol no mundial, são contabilizadas 39 mortes de trabalhadores escravizados. A Copa da falta de Direitos Humanos Embora o país seja um dos mais ricos do mundo e referência na região do Oriente Médio, ele ainda é retrógrado em costumes. Hoje o governo do país é absolutista e tradicionalista e é governado por Emir Tamim Bin Hamad al-Thani, filho do Emir Hamad Ibn Khalifa Al-Thani. Além das mais de 6 mil mortes, diversos outros Direitos Humanos são atacados no país. Durante entrevistas sobre a organização do mundial, o líder da comissão organizadora, Nasser Al Khater, deu diversas declarações polêmicas, atacando a comunidade LGBTQIAP+. Em uma delas, o embaixador do mundial, Khalid Salman, declarou que ser homossexual é um "dano mental" e não deve ser aceito no país. No país, ser homossexual é crime, tendo como punição a pena de morte. O país proibiu o uso de bandeiras da comunidade e expressões amorosas em público e em estádios. Além disso, há relatos de pessoas homossexuais apresentando dificuldade de realizar reservas em hotéis para acompanhar o mundial. Foram tantas declarações e ataques à comunidade que o jogador Josh Cavallo da seleção australiana, único homem abertamente gay na liga profissional de futebol no mundo, se recusou a participar do mundial. As mulheres também são alvos de violação dos Direitos Humanos, pois, por viver de acordo com as leis teocráticas, elas devem ser submissa às ordens do marido ou seu mentor mais próximo, independente do seu grau de conhecimento, nível social ou independência. Nesse sentido, vale lembrar o caso da mexicana Paola Schietekat que teve uma grande repercussão na mídia. Paola havia se mudado para o país em 2020, a fim de trabalhar na organização do mundial e foi vítima de agressão física. Ao realizar a denunciar, foi acusada de adultério e condenada a prisão, além de receber 100 chibatadas, conforme as leis islâmicas. O caso repercutiu em todo o mundo e foi oferecido a Paola a opção de ser liberta da condenação. A opção era que ela se casasse com seu agressor. Obviamente, Paola não aceitou e conseguiu deixar o país em 2021, mas a impunidade diante do crime permanece e nada foi feito com o agressor. A copa dos protestos A partir das polêmicas e denúncias, desde a escolha como país sede até a realização do mundial, o Catar e a FIFA têm enfrentado diversos tipos de protestos. A ausência de garantia dos Direitos Humanos faz desse mundial um palco de protestos, em que diversas personalidades se recusaram a estar na abertura do evento, como, por exemplo, a cantora colombiana Shakira e a britânica Dua Lipa. Em declaração ao rumor de que se apresentar na abertura do mundial, Dua Lipa declarou: "Terei o maior prazer em visitar o Catar no dia que ele respeitar os Direitos Humanos!" Em protestos contra a homofobia no país sede do mundial, diversas seleções se organizaram a favor da comunidade LGBTQIAP+. Sete seleções europeias planejavam usar a braçadeira de capitão com a bandeira da comunidade LGBTQIAP+, porém a FIFA ameaçou as seleções com "sanções esportivas", caso entrassem no estádio com a braçadeira. Mesmo com a proibição e ameaça da FIFA, o jogo que aconteceu entre Inglaterra e Irã foi marcado por protestos. Os jogadores da seleção da Inglaterra se ajoelharam em protesto a favor dos Direitos Humanos e igualdade. O capitão inglês, Harry Kane, usou a braçadeira com os dizeres "Sem descriminação". Já o time rival, Irã, promoveu outro protesto. Ao ser executado o hino nacional do país, os jogadores se recusaram a cantar. A recusa é a favor das manifestações que acontecem no país há quase dois meses, devido à morte da jovem Masa Amini de 22 anos, por usar o véu de maneira errada. A copa dos novos territórios Quando Joseph Blatter declarou que o futebol chegaria a novos territórios, provavelmente ele não imaginava que o esporte levaria na mala diversos assuntos que são extremamente urgentes para a sociedade e que seriam escancarados da maneira que temos acompanhado. Mais do que nunca está visível que não existe separação entre sociedade e esporte, uma vez que os jogos vão além das quatro linhas desenhadas no campo e trazem consigo o reflexo da sociedade. Mesmo com as imposições e proibições da FIFA, o esporte e os atletas têm encontrado maneiras de expressarem o desejo de maior igualdade e direitos a todos. Que o mundial mais polêmico dos últimos tempos possa trazer, para as quatro linhas, não apenas belos dribles e jogadas de mestre, mas a promoção da consciência de que somos todos iguais e que os direitos devem alcançar a todos. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Referências https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/8230125/catar-teve-morte-de-65-mil-trabalhadores-imigrantes-desde-que-virou-sede-da-copa-do-mundo-revela-jornal https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60950389 https://g1.globo.com/mundo/copa-do-catar/noticia/2022/11/07/paises-da-europa-pressionam-fifa-por-respostas-concretas-sobre-questoes-relacionadas-a-trabalhadores-no-catar.ghtml https://www.metropoles.com/esportes/futebol/jogador-gay-assumido-diz-que-teria-medo-de-jogar-a-copa-no-catar https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60998506 https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2022/11/18/shows-na-copa-viram-polemica-por-repudio-ao-catar-veja-quem-critica-e-quem-e-criticado.ghtml https://www.cut.org.br/noticias/fifa-proibe-dinamarca-de-defender-direitos-humanos-na-copa-do-mundo-do-qatar-ae10 https://lorena.r7.com/post/Selecoes-planejam-manifestacoes-na-Copa-do-Mundo-No-Catar

  • Democracia Corinthiana - O Futebol contra a ditadura militar no Brasil

    Sócrates - craque da década de 1980 e um dos atletas mais importantes da história do Corinthians. Foto: Irmo Celso/Placar. Em época de Copa do Mundo sempre é interessante relembrar fatos históricos do nosso incrível futebol brasileiro. E quando falamos incrível, pode não ser necessariamente um fato futebolístico, e sim um fato político. Isso é o que vamos entender hoje, que futebol e política andam de mãos dadas. Nesta semana, no dia 04 de dezembro, relembramos o falecimento do ex-jogador Sócrates, grande craque dos anos 1980 do Corinthians, um dos maiores clubes brasileiros. Doutor Sócrates, como era conhecido por ter se formado em Medicina na USP (Universidade de São Paulo), foi e é um grande ídolo do Timão, e faleceu aos 57 anos de idade no ano de 2011. Ele foi um dos idealizadores do movimento Democracia Corinthiana, ao lado de outros ídolos do time, como Casagrande, Wladimir e Zenon. Mas afinal, o que seria esse movimento histórico? O movimento, que durou de 1982 a 1984, foi consagrado em plena ditadura militar brasileira, e foi responsável por grandes mudanças estruturais no clube e fora dele. O primeiro passo Em 1981, depois de uma campanha muito ruim, a solução que alguns jogadores viam para seu time era a autogestão. Isso ajudou o Corinthians a elevar seu nível e a recuperar sua situação dentro de campo. A primeira mudança que a Democracia Corinthiana provocou dentro do clube foi a igualdade em relação aos votos, ou seja, qualquer decisão a ser tomada dentro do clube era democraticamente eleita pelos funcionários, e todos tinham o mesmo poder de voto. Desde as contratações até as regras internas, tudo era decidido através do voto democrático. O Futebol contra a ditadura militar no Brasil A luta não ficou somente dentro de campo. O movimento queria que a democracia fosse para todos, e não somente dentro do Parque São Jorge, famoso estádio e reduto dos corintianos. Os então jogadores participaram dos comícios das Diretas Já e reivindicavam a aprovação da Emenda Constitucional Dante de Oliveira que, dentre outras coisas, propunha que as eleições fossem por voto direto e democrático, algo que não acontecia desde o início dos anos 60. Inclusive Sócrates declarou que se a emenda fosse aprovada, ele continuaria no Corinthians. Porém, como sabemos da história, a emenda não foi aprovada e o jogador foi para um clube italiano. Um grande apoio fora do futebol Além dos jogadores que apoiavam e se uniam ao movimento democrático, a Democracia Corinthiana contava com a voz da cantora Rita Lee e o jornalista Juca Kfouri, entre outros. Uma voz importante, e que não quis receber salário pelo seu empenho, foi do grande publicitário Washington Olivetto, o mesmo que cunhou o termo Democracia Corinthiana. Os jogadores entravam em campo com camisas por baixo da camisa oficial com os dizeres “Eu quero votar para presidente”, “Diretas Já” e outros dizeres democráticos. A campanha foi aderida, além do time completo do Corinthians, por todas as torcidas organizadas do clube. A Democracia Corinthiana nos dias atuais Apesar de ter durado um curto período de tempo (2 anos), a Democracia Corinthiana até hoje é referência entre os torcedores do time, e ganhou muitos simpatizantes de fora do Corinthians. O movimento continua lutando pelo que deu a sua origem. Em um ato contra o racismo e as falas do atual presidente Jair Bolsonaro, uma grande bandeira da Democracia Corinthiana embalou protestos em São Paulo, no Largo do Batata. O clube, em seus dias atuais, sempre relembra esse grande ato heroico de alguns jogadores politizados da época, que “contaminaram” os companheiros com seus pensamentos de democracia e liberdade, pois para eles não bastava que o movimento fosse apenas dentro do Parque São Jorge. Até hoje o Corinthians posta em suas redes sociais grandes lembranças dos tempos de luta dos seus ídolos. A Democracia Corinthiana é inspiração para muitas pessoas, dentro e fora do Corinthians. Sócrates, Casagrande, Biro Biro e seus companheiros queriam mais além do campo e, apesar de não ter sido quando gostariam, eles e o Brasil conseguiram alcançar a tão querida democracia, de volta aos braços do povo. Texto escrito por Caroline Prado Professora de Cultura Brasileira e Português para Estrangeiros, internacionalista, estudante de Filologia e Línguas Latinas, Embaixadora do Projeto Libertas Brasil na Costa Rica, apaixonada por plantas, livros e fontes confiáveis. Fontes https://www.meutimao.com.br/historia-do-corinthians/fatos-marcantes/democracia_corinthiana https://brasilescola.uol.com.br/educacao-fisica/a-democracia-corinthiana.htm https://ge.globo.com/futebol/times/corinthians/noticia/ultimas-noticias-corinthians-democracia-corinthiana-movimento-contra-ditadura.ghtml https://www.corinthians.com.br/noticias/ha-nove-anos-a-fiel-se-despedia-do-doutor-socrates

  • Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 06 – Água Potável e Saneamento

    “País que não investe em saneamento básico é o país que está destinado à pobreza eterna. Pois quando falta saúde e falta saneamento sofre a população toda, mesmo quem tem saneamento básico”. Prof. Dr. Antony Wong, chefe do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX). O marco principal e inicial da construção de uma sociedade está intrinsecamente relacionado à água potável. Ao observarmos a nossa estrutura social e cultural é possível identificar como a vida é regida pela água. A superfície do planeta Terra é composta por 70% de água, o corpo humano é composto por 70% de água, a forma como dividimos as estações dos anos está ligada aos períodos de chuvas e secas. A água potável é a fonte de vida e responsável pela forma como nos organizamos. A importância do saneamento básico encontra-se ligada diretamente ao desenvolvimento econômico. Se observarmos os países mais desenvolvidos e ricos do mundo, perceberemos que são aqueles que investiram fortemente em saneamento básico, como por exemplo a Alemanha, que tem 100% dos municípios com água tratada, 100% de coleta de esgoto e 99% de tratamento do que foi coletado. Um caso de sucesso sobre a importância de investimento no tratamento de esgoto é a cidade de Nova York, nos EUA. Depois de cinco grandes crises hídricas na década de 1980, houve um forte investimento em saneamento básico na cidade e desde sua implantação, Nova York já passou por algumas crises hídricas sem corte de abastecimento. No Brasil, o saneamento básico só começou a ser implantado no final do século XIX, onde alguns anos depois começaram atuar os grandes médicos sanitaristas do país, como Carlos Chagas e Oswaldo Cruz. Desde essa época, os índices de saneamento básico no Brasil não acompanharam o crescimento da população brasileira e todos os dias enfrentamos os reflexos da falta de saneamento no nosso dia a dia. Podemos observar o reflexo da falta de saneamento básico a cada enchente que ocorre em nossos municípios. Vale lembrar a situação mais recente, o desastre do litoral norte de São Paulo, em São Sebastião, onde poderiam ter sido evitadas muitas mortes e perdas materiais se a cidade contasse com os quatro pilares do saneamento: tratamento e distribuição de água potável, coleta e tratamento de esgoto, drenagem urbana das águas pluviais e coleta e destinação correta dos resíduos sólidos . Os desastres que ocorrem na temporada de chuvas no Brasil não são só construções irregulares em encosta, mas a falta de saneamento básico. Após esses desastres a população sofre com doenças que estão diretamente ligadas à falta de saneamento, tais como a cólera, a leptospirose, a diarreia, a dengue, entre outras. Em 2018 foi assinado o novo marco do saneamento básico no Brasil, porém, neste mesmo ano, o projeto foi contestado pelo STF. O motivo da contestação foi de que haviam várias irregularidades que iriam atrasar a universalização do saneamento. A nova redação do marco do saneamento básico foi assinada em 2020. Um dos pontos do marco é atingir 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Porém, no ritmo atual é calculado que esse objetivo seja só alcançado em 2060. A Confederação Nacional da Indústria em um estudo apontou que os três maiores pontos que dificultam a universalização do saneamento básico são: dificuldade de acesso aos recursos já disponíveis, projetos mal elaborados e a discussão sobre a gestão do saneamento básico, sobre ser Gestão Pública ou Gestão Privada. Na minha opinião, tudo que se tratasse de benefício direto em relação à população, deveria ser administrado pelo setor público, pois já observamos várias vezes que quando a empresa de serviços destinados à população não dá lucro, a tendencia é de presentear o ônus do problema para o Estado. O Estado brasileiro já se encontra atrasado de várias maneiras em implementar o objetivo 06 da ONU, quando o seu marco de universalização do saneamento já está previsto com três anos de atraso. Estudos mostram que mais duas gerações de brasileiros podem ficar sem acesso ao saneamento. No entanto, devemos cobrar dos nossos governantes planos e ações sérias de saneamento básico para podermos evitar que desastres, como o triste caso do Litoral Norte de São Paulo, se repitam todos os dias. Saneamento básico, além de melhorar a economia de um país, é responsável por salvar vidas todos os dias. Curiosidade Histórica sobre saneamento básico A primeira Estação de Tratamento de Água (ETA) foi construída em Londres em 1829 e tinha a função de coar a água do rio Tâmisa em filtros de areia. A ideia era de tratar o esgoto antes de lançá-lo ao meio ambiente, porém só foi testada pela primeira vez em 1874, na cidade de Windsor, Inglaterra. Até 1945, a Europa passou várias crises sanitárias devido à falta de saneamento básico: Peste Negra: 1° Epidemia (1346-1352), 2° Epidemia (1665 – 1666) e 3° Epidemia (1855 – 1945). Epidemia de Cólera: 1° Epidemia (1830 – 1832), 2° Epidemia (1839 – 1851) e 3° Epidemia (1853 – 1856). Todas essas epidemias poderiam ter sido contidas por saneamento básico, mas somente em 1829 que tivemos a primeira estação de tratamento nos países considerados modernos. Os países que dominaram e destruíram as civilizações americanas só vieram entender sobre saneamento básico no final do século XVIII. Há registros de que a civilização inca, povo que constitui a região do Peru, tinha suas criações tratadas com água filtrada. Quando você visita Machu Pichu, você consegue observar o sistema de saneamento básico da civilização inca, onde a água da chuva e do degelo dos Andes eram captadas, filtradas e armazenadas para o consumo. Se a Europa ao invés de destruir e colonizar a américa tivesse aprendido com os povos originários americanos, o mundo teria evitado várias epidemias e crises hídricas no mundo. Isso demonstra o quanto a civilização europeia foi um atraso para o desenvolvimento humano. Objetivo 6. Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos 6.1 Até 2030, alcançar o acesso universal e equitativo à água potável e segura para todos 6.2 Até 2030, alcançar o acesso ao saneamento e à higiene adequados e equitativos para todos e acabar com a defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mulheres e meninas e daqueles em situação de vulnerabilidade 6.3 Até 2030, melhorar a qualidade da água, reduzindo a poluição, eliminando despejo e minimizando a liberação de produtos químicos e materiais perigosos, reduzindo à metade a proporção de águas residuais não tratadas e aumentando substancialmente a reciclagem e reutilização segura globalmente 6.4 Até 2030, aumentar substancialmente a eficiência do uso da água em todos os setores e assegurar retiradas sustentáveis e o abastecimento de água doce para enfrentar a escassez de água, e reduzir substancialmente o número de pessoas que sofrem com a escassez de água. 6.5 Até 2030, implementar a gestão integrada dos recursos hídricos em todos os níveis, inclusive via cooperação transfronteiriça, conforme apropriado. 6.6 Até 2020, proteger e restaurar ecossistemas relacionados com a água, incluindo montanhas, florestas, zonas úmidas, rios, aquíferos e lagos. 6.a Até 2030, ampliar a cooperação internacional e o apoio à capacitação para os países em desenvolvimento em atividades e programas relacionados à água e saneamento, incluindo a coleta de água, a dessalinização, a eficiência no uso da água, o tratamento de efluentes, a reciclagem e as tecnologias de reuso. 6.b Apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais para melhorar a gestão da água e do saneamento. Texto escrito por Camila Bellato ​Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Fontes https://youtu.be/qoPNtMObQsY https://youtu.be/YjAd8JYyY1U https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/11/nova-york-investe-em-preservacao-para-garantir-abastecimento-de-agua.html https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/saneamento/snis https://super.abril.com.br/historia/maias-construiram-o-primeiro-sistema-de-filtracao-de-agua-do-ocidente/ https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2015/04/canais-de-civilizacao-anterior-aos-incas-podem-solucionar-crise-hidrica-de-lima.html https://www.gov.br/economia/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/novo-marco-legal-do-saneamento-basico#:~:text=Para%20assegurar%20o%20cumprimento%20dos,tratamento%20de%20esgotos%20at%C3%A9%202033.

  • O mesmo fato: Duas formas de comunicá-lo

    No artigo anterior, “ Migrações: A mídia e a formação da opinião pública” , foi apresentado o quão importante é o estudo do enquadramento (framings) das notícias, tendo em vista de que há influência nas atitudes e nos comportamentos das audiências. Mas será que sempre é assim? Meu leitor/minha leitora, eu quero fazer um convite para você: vamos usar a imaginação e supor uma situação. Jornalista entrevistando Você está na sua sala assistindo a televisão e o programa apresenta uma notícia sobre um evento que aconteceu recentemente titulado: “ muçulmano ataca brasileiro no meio da rua ”. Logo sua cabeça começa a refletir, imaginando o que aconteceu e estabelecendo uma opinião a respeito do assunto. O tempo transcorre, você continua fazendo suas coisas na casa e antes de dormir decide ligar a televisão cinco minutos. Nesse momento, você assiste outro jornal e eles falam sobre uma notícia, em que diz: “ uma pessoa estava a caminho de uma reunião na mesquita e teve uma tentativa de assalto. Como resultado, ele se defendeu e atacou ao ladrão ”. O que você pensaria? Continuaria com o mesmo pensamento que teve algumas horas antes? O que você do seu ponto de vista? Dois lados da mesma informação No primeiro exemplo , o framing tem a característica de ser episódico, pois ele não transmite nenhuma informação sobre o contexto . No entanto, faz com que a compreensão seja limitada e que a responsabilidade esteja focada em indivíduos específicos. Dessa forma, o problema se resolveria em relação ao “ criminoso ”. De maneira oposta, no segundo exemplo , o framing temático leva em consideração o contexto, de modo que a informação é mais completa e isso faz com que as pessoas compreendam o que aconteceu para além dos indivíduos que participaram . Interessando-se, portanto, pelas diferentes circunstâncias que envolvem a situação. Além da influência dos framings, é importante destacar o papel das emoções na compreensão dos efeitos das notícias . Tanto as atitudes quanto os comportamentos são construções sociais e estão sujeitas a mudanças, nas quais são produzidas pelo contexto e apresentam influências externas. Nesse sentido, acontece que, levando em conta os exemplos de framings , cada um/a dos/as leitores/as vão ter uma opinião diferente , simplesmente porque cada um/a ao ler ou ouvir uma notícia faz um recorte particular da realidade e esse recorte está composto por experiências, vivências, costumes, sentimentos e tudo o que compõe essa pessoa. A notícia e seus efeitos Por último, é relevante mencionar que com o passar dos anos, o conceito de framing está tendo dificuldades em relação à identificação dos seus efeitos , porque é utilizado de múltiplas formas, de modo que fica difícil a diferenciação com outros efeitos da mídia. Mesmo assim, as evidências empíricas indicam que os julgamentos preconceituosos de determinados grupos sociais são uma consequência das notícias. Pensando nisso e na importância das migrações internacionais no século XXI, no próximo artigo , vamos refletir sobre as atitudes em relação aos imigrantes. Texto escrito por Soledad Bravo Escritora, editora e coordenadora da equipe "La Nación" no Observatório de Política Exterior Argentina (OPEA) e membro da Rede de Cientistas Políticas. Além disso, tem uma extensa carreira na área acadêmica; tem Licenciatura em Ciência Política, Doutoranda em Ciência Política (UFPE), Magister Internacional em Gestão de ONGs, Gestão de Voluntariado e Cooperação Internacional (Centro UNESCO) e é Bolsista da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ama o Twitter e para encontrá-la pela rede procure por: @sooledadbravo Revisão por Mateus Santana Mestre em Linguística e graduado em Letras com habilitação em português/francês pela UNESP. Especialista em Grafologia e Neuroescrita pela Faculdade Unyleya. Amante das Artes, da Linguagem e do Discurso. Edição por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Bibliografía SALAZAR SÁNCHEZ, K. M. (2019). Notícias sobre crimes e punitivismo: uma abordagem experimental (Master's thesis, Universidade Federal de Pernambuco). BAENINGER, R. (2018). Contribuições da academia para o pacto global da migração: o olhar do sul. Migrações Sul-Sul. Campinas, SP: Núcleo de Estudos de População―Elza Berquo‖–Nepo/Unicamp . BOOMGAARDEN, H. G., & VLIEGENTHART, R. (2009). How news content influences anti‐immigration attitudes: Germany, 1993–2005. European Journal of Political Research , 48 (4), 516-542. BOS, L., LECHELER, S., MEWAFI, M., & VLIEGENTHART, R. (2016). It's the frame that matters: Immigrant integration and media framing effects in the Netherlands. International Journal of Intercultural Relations , 55 , 97-108. BRADER, T., VALENTINO, N. A., & SUHAy, E. (2008). What triggers public opposition to immigration? Anxiety, group cues, and immigration threat. American Journal of Political Science , 52 (4), 959-978. CHONG, D., & DRUCKMAN, J. N. (2007). 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