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  • “E se Doha for o novo Vaticano?”

    Mapa Mundi disponível em: https://viajarfull.com/wp-content/uploads/2018/08/Catar-global.jpg O Catar tem sido palco de diversos eventos de destaque. Entre eles, a realização da Copa do Mundo FIFA de 2022 que consolidou sua posição como destino turístico e cultural , impulsionado por seus museus renomados e eventos internacionais. Foto disponível em: https://media-cdn.tripadvisor.com/media/attractions-splice-spp-720x480/11/ac/d1/f6.jpg Localizada às margens do Golfo Pérsico, Doha - capital do Catar - é uma cidade surpreendente que combina tradição e modernidade. Apesar de seu pequeno território, o país exerce influência significativa. O Catar acumulou um portfólio diplomático que poucos países de sua dimensão sequer ousariam ambicionar.  Em uma década marcada por tensões geopolíticas e rearranjos regionais, esse emirado do Golfo tem se destacado como mediador em crises de alto risco : do Afeganistão à Faixa de Gaza, passando pelas negociações entre Irã e Estados Unidos. Mas não é de hoje que Doha se posiciona como um centro de diálogo. Sua combinação singular de vastos recursos energéticos, neutralidade estratégica e uma diplomacia multicanal  — capaz de dialogar tanto com Washington quanto com o Talibã — molda, de forma silenciosa, decisões que impactam milhões de vidas. Essa atuação discreta e eficaz, ancorada no soft power , levanta uma pergunta instigante: Estaria Doha se consolidando como uma nova potência silenciosa da diplomacia internacional? Foto por Alex Brandon / Associated Press O Catar como mediador internacional Quando a diplomacia tradicional falha ou encontra barreiras políticas, Doha frequentemente surge como uma ponte entre inimigos históricos. Mas antes de avançar, é importante entender o que é diplomacia tradicional. A diplomacia tradicional refere-se à interação entre conflito e construção da paz ( Siracusa, 2013) . Também chamada de diplomacia de Estado , é o modelo historicamente dominante nas relações internacionais, caracterizado pelo m onopólio estatal da negociação , conduzida por governos via embaixadas e baseada em relações formais entre Estados soberanos. Um exemplo seria Estados Unidos e China negociando diretamente por meio de seus ministros das Relações Exteriores. Essa diplomacia opera em espaços oficiais, como a Organização das Nações Unidas ( ONU), Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Foto disponível em: https://koha.mk/wp-content/uploads/2025/05/large-10.webp Por outro lado, a diplomacia moderna, iniciada com a Paz de Vestfália em 1648 , que pôs fim às hostilidades na Guerra dos Trinta Anos, marca o estabelecimento de relações diplomáticas entre Estados, ministérios, embaixadas e tratados como a Convenção de Havana. Ela diferencia diplomacia oficial da pública e aborda o direito internacional , como a Convenção de Viena e a Carta das Nações Unidas. Enquanto a diplomacia tradicional — marcada por protocolos formais e alinhamentos ideológicos entre Estados reconhecidos — enfrenta limites diante de conflitos fragmentados e atores não estatais, o Catar ocupa um espaço pouco convencional. Ao invés de seguir os cânones clássicos da diplomacia estatal, Doha aposta em uma mediação flexível e pragmática . Mas o que significa isso, exatamente? A característica de flexível  —  “adj. Diz-se de algo: Que pode ser adaptado de acordo com as circunstâncias ou necessidades” —, no contexto das relações internacionais, refere-se à disposição de manter canais abertos com atores que não dialogam entre si,  como EUA e Irã, ou Israel e Hamas. Essa neutralidade ativa permite ao Catar posicionar-se conforme o contexto. Ao focar em resultados concretos, como trocas de prisioneiros ou ajuda humanitária, sua abordagem pragmática se destaca. Mesmo com um regime autoritário e conservador, Doha consegue dialogar com todas as partes envolvidas.  Esse desvio da norma não é um improviso, mas uma estratégia deliberada de ganhos simbólicos e diplomáticos, baseada na confiança e na manutenção de canais abertos. Nos últimos anos, o Catar consolidou sua reputação como mediador confiável, com acesso simultâneo a Washington, Gaza e outros polos de tensão. Exemplos de atuação diplomática de Doha Em Gaza , o Catar foi uma das poucas potências a manter diálogo com o Hamas. Desde 2012, destinou bilhões de dólares à reconstrução da Faixa de Gaza , além de atuar diretamente em negociações de cessar-fogo e liberação de reféns durante a guerra entre Israel e o grupo palestino. Foto disponível em: https://static.dw.com/image/73136775_1004.webp No Afeganistão , Doha recebeu, desde 2013, o Escritório Político do Talibã — tornando-se território neutro para negociações  que culminaram no Acordo de Doha , assinado entre os Estados Unidos e o Talibã em 2020. Foto disponível em: https://static.dw.com/image/59002420_1004.webp Em 2023, o Catar teve papel fundamental na troca de prisioneiros entre Irã e Estados Unidos, além de facilitar discussões indiretas sobre o programa nuclear iraniano. Foto disponível em: https://midias.correiobraziliense.com.br/_midias/jpg/2023/09/18/675x450/1_000_33v97rk-29548769.jpg Apesar de suas limitações territoriais e diferenças em relação às democracias ocidentais, o Catar se destaca por sua mediação baseada em pragmatismo , flexibilidade e soft power.  É um ator pequeno em tamanho, mas grande em influência simbólica e diplomática - um verdadeiro centro de diálogo global, tal como o Vaticano. Se o Vaticano exerce influência simbólica por meio da fé, o Catar aposta na confiança construída e na disposição de dialogar com todos. Seu poder reside em manter portas abertas onde outros as fecham. Editorial Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências: Calduch, R.- Dinámica de la Sociedad Internacional.- Edit. CEURA. Madrid, 1993 Marks, S., Freeman, C.W. (2025, July 23). diplomacy. Encyclopedia Britannica. https://www.britannica.com/topic/diplomacy Khomeriki, D. (2022). Benefits and Risks of Digital Diplomacy: Is Traditional Diplomacy in Decline?. In World Politics and the Challenges for International Security  (pp. 261-281). IGI Global Scientific Publishing. Allain, J. C. (1996). Diplomacia tradicional y conferencias cumbre:¿ dos realidades en compentencia?. Historia contemporánea , 15 . Siracusa, Joseph M., 'Evolution of diplomacy', Diplomacy: A Very Short Introduction , 1st edn, Very Short Introductions (Oxford, 2010; online edn, Oxford Academic, 24 Sept. 2013), https://doi.org/10.1093/actrade/9780199588503.003.0001 , accessed 24 July 2025. https://elordenmundial.com/que-es-diplomacia/ https://www.universidadviu.com/es/actualidad/nuestros-expertos/que-es-la-diplomacia https://diplomaciacientifica.org/diplomacia-tradicional-en-la-era-de-la-cuarta-revolucion-industrial-un-enfoque-desde-la-diplomacia-cientifica/ https://www.dw.com/es/qatar-dejar%C3%A1-de-mediar-en-la-guerra-de-gaza/a-70743777 https://www.meer.com/es/92996-qatar-como-mediador-en-gaza https://cadenaser.com/nacional/2025/01/15/el-importante-papel-de-catar-como-mediador-para-el-acuerdo-de-alto-el-fuego-en-gaza-cadena-ser/ https://www.elimparcial.com/mundo/2024/11/10/qatar-suspende-su-papel-de-mediador-entre-israel-y-hamas/#google_vignette https://larepublica.es/2025/04/16/qatar-se-ofrece-como-mediador-en-el-conflicto-entre-rusia-y-ucrania/ https://www.rae.es/diccionario-estudiante/flexible#:~:text=2.-,adj.,Tiene%20un%20horario%20flexible .   https://www.significados.com/pragmatico/ https://www.dw.com/pt-br/hamas-e-israel-retomam-negocia%C3%A7%C3%A3o-por-cessar-fogo-em-gaza/a-73162761 https://www.estadao.com.br/internacional/catar-anuncia-ajuda-de-us-500-milhoes-para-reconstrucao-de-gaza/?srsltid=AfmBOorXg0tJK7R831ygQQtr3bSURBK7pctxz31RgHlE5I5fY-H_Wu7O https://news.un.org/pt/story/2024/04/1830051 https://www.dw.com/pt-br/por-que-o-catar-mant%C3%A9m-la%C3%A7os-t%C3%A3o-estreitos-com-o-talib%C3%A3/a-59031602 https://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/07/escritorio-taliba-em-doha-e-complo-contra-afeganistao.html

  • Rio, o mosaico de contradições: Uma análise enraizada na realidade carioca

    O Rio de Janeiro é, sem dúvida, a "Cidade Maravilhosa"  – cartão-postal do Brasil. Além de belas praias, do samba e da alegria contagiante de seu povo, a cidade abriga uma diversidade impressionante. Seus bairros transitam entre as maravilhas da Zona Sul , como Copacabana e Ipanema, e a Rocinha, uma das maiores favelas da América Latina.  A cidade se estende pelo Centro, onde está o Sambódromo, e segue para o Estácio, Rio Comprido e os bairros do subúrbio carioca, como Madureira. Eu, nascida e criada no Morro de São Carlos, no Estácio, conheço profundamente essas realidades e suas complexas contradições.   Esta análise busca ir além do olhar superficial para desvendar as contradições que definem o Rio. Aprofunda-se em cenários que a mídia e o imaginário popular frequentemente ignoram: a invisibilidade da periferia,  a luta pela cidadania, a precariedade do transporte e a resistência diária de um povo que, apesar das mazelas, constrói sua própria alegria e dignidade. Rio e a Paisagem da Desigualdade: Do Oculto ao Visível A paisagem carioca é um testemunho silencioso da desigualdade . De um lado, favelas se agarram às encostas; de outro, bairros de elite se estendem à beira-mar. A segregação , no entanto, não ocorre apenas entre o "asfalto" e o "morro", mas também entre as próprias comunidades , dependendo de sua localização e visibilidade. A diferença entre a Rocinha e Tomás Coelho é um exemplo clássico dessa divisão. A Rocinha , frequentemente citada como um dos principais focos de tuberculose no Brasil , expõe uma das maiores ironias geográficas da cidade. Situada entre os bairros de luxo de São Conrado e Gávea , sua proximidade com a riqueza não se traduz em qualidade de vida para seus 72.021 moradores (Censo 2022, IBGE) . Em 2013, a incidência de tuberculose era de 372 casos por 100 mil habitantes , enquanto a média nacional era de 35,4 casos por 100 mil habitantes , dados do Ministério da Saúde em seu Boletim Epidemiológico de 2014. A taxa na Rocinha era, portanto, cerca de 10,5 vezes maior que a média nacional daquele ano. Mais recentemente, o Boletim Epidemiológico de Tuberculose no Município do Rio de Janeiro de 2024, produzido pelo EpiRio (Observatório Epidemiológico da Cidade do Rio de Janeiro) , divulgou que em 2023 a favela teve 358 notificações . Essa realidade brutal é fruto direto de problemas urbanísticos crônicos: alta densidade populacional, falta de saneamento básico e moradias precárias sem luz solar ou ventilação . O "valão", um canal a céu aberto que mistura esgoto, lixo e ratos, simboliza a poluição da riqueza pela miséria, e dados recentes e relatos de moradores de 2024 e 2025 mostram que o saneamento básico na favela continua sendo um problema crítico , mesmo com algumas obras e projetos pontuais. Foto: Vista aérea da Rocinha e da orla do Rio de Janeiro por Alicia Nijdam Em contraste, o bairro de Tomás Coelho , onde morei por anos após sair do Morro de São Carlos e onde ainda tenho por lá grandes laços afetivos, amigos e família , vive uma realidade de invisibilidade . Enquanto a Rocinha atrai turistas e projetos — ainda que mal executados —, Tomás Coelho e bairros similares são largamente esquecidos. A escassez de documentação sobre saneamento básico revela o descaso do poder público. Seu Índice de Desenvolvimento Social (IDS) é de 0.572 , bem abaixo de bairros da Zona Sul como Lagoa (0.854), Leblon (0.809) e Ipanema (0.801), segundo dados do Instituto Pereira Passos - IPP, Prefeitura do Rio de Janeiro , referentes ao ano de 2000 . Embora sejam dados mais antigos, eles ainda são citados em alguns estudos para exemplificar as disparidades sociais e de desenvolvimento em diferentes bairros do Rio de Janeiro. De acordo com o Censo 2022 (IBGE) , o bairro tem 27.674 habitantes , uma população considerável que depende do transporte público para se conectar com o resto da cidade e, assim como outras áreas da Zona Norte, enfrenta os desafios da mobilidade urbana. O Samba como Expressão de Resistência Apesar das mazelas e da ineficiência do Estado, a cultura que emerge do morro e do subúrbio é a expressão mais autêntica do Rio de Janeiro , tendo o samba como principal elemento. A história das favelas cariocas está ligada à luta por moradia e existência. O Morro da Providência , no Centro, é considerado a primeira favela brasileira. Em 1897, ex-soldados e ex-escravos se instalaram no local, uma resposta à falta de moradia e à política de remoção de cortiços O Estácio , berço do samba carioca  e lar do Morro de São Carlos, revelou talentos como Luiz Melodia , Dominguinhos do Estácio e Zeca da Cuíca . Mas sua maior contribuição para o gênero vem de Ismael Silva . Embora tenha nascido em Niterói, foi no Estácio que Ismael se tornou uma figura central para o samba. Ele foi um dos grandes responsáveis pela fundação da Deixa Falar em 1928, considerada a primeira escola de samba do Brasil. Ismael e seus companheiros revolucionaram o ritmo, tornando-o mais cadenciado e adequado para os desfiles de rua, moldando o samba como o conhecemos hoje. A fundação da Deixa Falar é um marco histórico e o ponto de partida para a criação de todas as escolas de samba que viriam a seguir. O legado da Deixa Falar é tão forte que hoje ele é representado pela G.R.E.S. Estácio de Sá , que desfila na Sapucaí com as cores e a força do bairro. Integrantes da G.R.E.S Estácio de Sá. Foto: Acervo Cultural e Histórico do G.R.E.S Estácio de Sá. E como falar do meu território sem reverenciar as mulheres que o construíram?  Como Dona Chimbinha, amiga de minha mãe, cuidadora de filhos e de muitos carnavais, que do alto de seus 90 e poucos anos é uma baluarte e guardiã da história do samba no bairro. O bairro do Rio Comprido , vizinho ao Estácio, também carrega histórias relevantes. Parte do circuito da Pequena África , foi um dos eixos de dispersão da cultura e do samba, recebendo muitos negros que chegavam ao Rio e se fixavam em comunidades vizinhas. A escola Jenny Gomes, onde estudei, fica exatamente na região onde ocorreu a tragédia do viaduto Paulo de Frontin. Em 1971, o desabamento de um trecho em construção resultou na morte de 29 pessoas, um evento que marcou a memória do bairro. Madureira , na Zona Norte, é mais que um bairro — é um verdadeiro epicentro cultural . Conhecido como o "berço do samba" por abrigar duas das mais tradicionais escolas, a Portela e o Império Serrano , o bairro tem em Paulo da Portela uma de suas figuras mais importantes. Conhecido como o "príncipe negro do carnaval carioca", ele foi um revolucionário. Paulo lutou incansavelmente para mudar a imagem preconceituosa do sambista, exigindo que os membros da escola se vestissem elegantemente, com trajes de terno e chapéu, dignificando suas raízes. Essa postura, que valorizava a arte e o artista, foi tão marcante que, segundo algumas narrativas, ele serviu de inspiração para Walt Disney criar o personagem Zé Carioca em sua visita ao Brasil. A lendária rivalidade entre Portela e Império Serrano, que se acirrou nos anos 50, contribuiu para a tradição e o brilho dos desfiles de carnaval. O bairro também abrigou o Teatro de Madureira , fundado pela vedete e atriz Zaquia Jorge , uma das estrelas do teatro de revista e figura icônica para o subúrbio carioca, cuja história inspirou o famoso samba-enredo "O Mundo Encantado de Zaquia Jorge", do G.R.E.S. Império Serrano, de 1968, que celebra sua vida e a importância que ela teve para a cultura do bairro (Biografias de Zaquia Jorge e historiografia do samba) . A Força da Resistência e o Perigo da "Glamourização da Miséria" A falta de políticas públicas adequadas se manifesta diretamente no cotidiano do carioca. A mobilidade urbana  é um dos maiores desafios: sistema de transporte ineficiente, caro e superlotado. Pesquisas de órgãos como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostram que o Rio tem um dos piores sistemas de transporte do mundo. Além disso, um estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT) revelou que 11% dos passageiros perdem duas horas ou mais em cada trajeto. Em meio às mazelas, a população carioca demonstra uma capacidade extraordinária de auto-organização e resistência . Essa força se manifesta em formas de ativismo, cultura e empreendedorismo  que desafiam a invisibilidade imposta pelo sistema. A horta comunitária no Complexo de Manguinhos, revitalizada em 2023, e a Biblioteca Parque, que atende mais de 2 mil pessoas por mês, provam que iniciativas de longo prazo podem florescer. A resistência também se materializa em iniciativas de economia solidária , como a COOPAMA , Cooperativa Popular Amigos do Meio Ambiente, no Jacarezinho. A cooperativa, que hoje conta com mais de 100 cooperados, ocupa a ex-fábrica da Hitachi para garantir o sustento de famílias com a reciclagem de toneladas de materiais por mês. A manifestação mais visível da resistência é o ativismo, especialmente os movimentos de mães. As Mães de Acari , surgidas após o desaparecimento de 11 jovens em 1990, são consideradas o marco inicial de uma "metodologia de luta"  que se espalhou pelo país, unindo vozes para denunciar a violência de Estado que "mata preto, pobre e favelado". Esses movimentos denunciam dados alarmantes que muitas vezes são ignorados, como as causas invisíveis. O Rio de Janeiro é o segundo estado com mais mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ . O risco de morte por violência obstétrica para mulheres negras é 2,7 vezes maior que para mulheres brancas; e nove em cada dez pessoas mortas em ações policiais são negras.  A invisibilidade atinge também a questão das pessoas desaparecidas. No início de 2024, o estado registrou mais de 2,5 mil pessoas desaparecidas, em sua maioria jovens e pessoas negras, evidenciando uma vulnerabilidade social e racial que precisa ser vista e combatida. É crucial combater a "glamourização da miséria" , um fenômeno onde a imagem da pobreza e da resiliência é explorada para consumo externo. A pobreza, para os moradores, não é um prêmio, mas uma condição de sofrimento imposta. A verdadeira potência da favela reside na sua capacidade de se auto-organizar e lutar por dignidade, desafiando um Estado que historicamente priorizou o espetáculo em detrimento da vida de seus cidadãos. Conclusão A análise dos contrastes do Rio de Janeiro não é apenas um exercício crítico. É a afirmação de que a verdadeira beleza da cidade não está nos cartões-postais , mas na resiliência e na dignidade do seu povo.  A falta de saneamento, a ineficiência crônica do transporte público e a alta incidência de doenças como a tuberculose são manifestações de um processo histórico de segregação  e ausência estatal. O Rio é um mosaico de contradições , e a perspectiva de quem vive e permeia estes espaços é a síntese dessas realidades. Em meio às mazelas, a história, a identidade e a dignidade não só persistem, mas se reinventam e florescem, construindo um Rio de Janeiro que é, em última instância, muito mais complexo, fascinante e humano do que qualquer cartão-postal poderia sugerir. Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G Referências: Mortes de pessoas LGBTQIA+: Dados do Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil e do Grupo Gay da Bahia (GGB), com relatórios referentes a 2023. Violência obstétrica: Defensoria Pública do Rio de Janeiro de 2018 e Ministério da Saúde de 2023, Mortes em ações policiais: Estudo da Rede de Observatórios da Segurança "Pele Alvo: Mortes Que Revelam Um Padrão", de 2023. Pessoas desaparecidas: Dados da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e relatórios de direitos humanos, com informações atualizadas para o início de 2024.

  • Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – Os desafios do milênio

    Os 193 Estados membros da ONU, incluindo o Brasil, comprometeram-se a adotar a chamada Agenda Pós-2015, considerada uma das mais ambiciosas da história da diplomacia internacional. A partir dela, as nações trabalharão para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Se você é um millenium provavelmente lembra a emoção da virada do ano de 1999 para o ano 2000. A preocupação que o mundo iria acabar, o bug do milênio onde as máquinas não reconheceriam o novo século e com isso teríamos um “apagão digital”. Porém nessa virada de século também ocorreu um evento importantíssimo, a ONU (Organização das Nações Unidas) e seus membros estavam idealizando as metas para o novo milênio, conhecidas como Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs): Acabar com a fome e a miséria; Oferecer educação básica de qualidade para todos; Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; Reduzir a mortalidade infantil; Melhorar a saúde das gestantes; Combater a Aids, a malária e outras doenças; Garantir qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; Estabelecer parcerias para o desenvolvimento. A partir desses objetivos, os Estados estabeleceram como meta alcançá-los entre 2000 a 2015. Com essa meta pontuada podemos verificar a implementação de diferentes políticas públicas no Brasil durante os governos FHC, Lula e Dilma como: Fome Zero, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida entre outros programas. Passados os dois primeiros séculos, verificou-se que esses oito objetivos não estavam cobrindo todos os problemas atuais e que o mundo vem lutando para conseguir garantir dignidade e qualidade de vida para as pessoas e o meio ambiente. Desenvolvimento e novos objetivos Então em 2020 a ONU transforma as ODMs em Objetivos Desenvolvimento Sustentável (ODSs) acrescentando mais nove objetivos. Por exemplo, ao falarmos de fome zero, incluímos nesse objetivo a agricultura sustentável e a segurança alimentar. Não é somente realizar um programa em que o Estado entrega uma cesta básica ou uma quantia para que as famílias possam comprar seus alimentos. Mas, melhorar essa política pública ao identificar essas comunidades, e através de estudos, proporcionar uma alimentação saudável e de qualidade. Além disso desenvolver a região em que essa comunidade se encontra e que ela possa ser autossuficiente e atinja os 17 objetivos. Desse modo melhorando o mundo, tornando-o um lugar no qual todos os serem humanos tenham o direito de viver com respeito e dignidades. Para entendermos os 17 objetivos da ODS o Zero Águia virá com uma série de artigos nos quais, em cada mês, iremos apresentar um objetivo e conhecer quais Estados e Empresas vem trabalhando com a, agora também conhecida como, Agenda 2030 e de que forma estão tentando transformar esses objetivos em realidade. Texto escrito por Camila Bellato ​Formada em Relações Internacionais com Pós Graduação em Gestão Econômica. Especialista em Direitos Humanos e grande entusiasta das politicas públicas baseadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ONU). Fontes: ONU: http://www.odmbrasil.gov.br/os-objetivos-de-desenvolvimento-do-milenio e https://brasil.un.org/pt-br/sdgs UFMG: https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel/#:~:text=Como%20surgiram%20os%20ODS%3F,educa%C3%A7%C3%A3o%20e%20%C3%A0%20%C3%A1gua%20pot%C3%A1vel.

  • O fiasco da COP29 pode se repetir no Brasil

    Não consigo nem dormir com esse calor insuportável. Não me lembro de ter passado tanto calor assim na minha vida! Foi esse o desabafo de uma senhora na fila do supermercado. Naquele instante, lembrei-me que justamente naquele ano, a Conferência do Clima da ONU (COP29) havia se revelado um fracasso monumental , marcada pelo cinismo e pelas incontáveis manobras de bastidores em um dos maiores poluentes do planeta: os países desenvolvidos. A escolha de Baku, capital do Azerbaijão , como sede da COP29 gerou críticas por tratar-se de um dos chamados “petroestados” . A economia azerbaijana depende fortemente do gás e do petróleo, que juntos representam mais de um terço do PIB nacional. Ainda que as polêmicas em torno dessa decisão pudessem ter sido amenizadas pelo corpo diplomático do país anfitrião, a decisão de não confrontá-las pareceu uma mensagem clara aos críticos; a emergência climática não deve ser tratada como responsabilidade exclusiva de um grupo restrito de nações e sim de todos. É isso também que estabelece o Acordo de Paris , ao reforçar o princípio da equidade e das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. Líderes mundiais na COP29 no Azerbaijão. Foto: Alexander Nemenov/AFP O caminho, no entanto, esteve longe de ser linear. Ao longo do evento, os erros se acumularam tanto no campo político quanto na condução das negociações. Em determinado momento o presidente azerbaijano, Ilham Aliyev, chegou a declarar que o petróleo e o gás eram uma “dádiva de Deus” e a declaração acirrou ainda mais as tensões entre os representantes dos diversos países ali presentes, sobretudo diante da expectativa de um novo compromisso global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa - o que acabou não se concretizando. Ativistas protestam na COP29 - Foto: Murad Sezer/ Reuters Não foi apenas o anúncio do novo compromisso global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa que deixou de acontecer: a COP29 se tornou um acúmulo de expectativas frustradas.  A apatia no aprofundamento das discussões foi perceptível, tanto durante quanto após o evento. Alguns representantes de nações em desenvolvimento denunciaram como uma “flagrante violação da justiça climática” a decisão de destinar por ano, até 2035, o valor de US$ 300 bilhões para financiar ações climáticas em países em desenvolvimento , valor muito aquém do solicitado. Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, sintetizou em suas palavras a gravidade do fracasso da Conferência: O acordo de financiamento fechado em Baku distorce e subverte qualquer conceito de justiça. Com a ajuda de uma presidência incompetente, os países desenvolvidos conseguiram mais uma vez abandonar suas obrigações e fazer os países em desenvolvimento literalmente pagarem a conta. Os países desenvolvidos, que lideram o ranking mundial de poluição, pareciam ter comparecido à COP29 apenas para cumprimento protocolar para demonstrar publicamente uma preocupação que, na prática, não se refletiu nos acordos , ou na ausência deles. Essa percepção foi não apenas registrada por especialistas presentes, mas também ecoada pelos milhares de ativistas que protestavam nos arredores do evento. Ainda assim, houve um avanço: após nove anos de impasses, foi finalmente apresentada a proposta de uma estrutura para comércio e crédito de carbono entre os países . O resultado final da COP29 decepcionou, e o Brasil, anfitrião da COP30, recebeu a responsabilidade de assumir parte das pendências não resolvidas pela conferência anterior. Há quem acredite que a diplomacia brasileira será capaz de avançar em discussões delicadas e constantemente postergadas nas edições anteriores. No entanto, um fator importante pesa sobre o futuro das negociações no evento: a presença dos Estados Unidos, que até o fechamento desse artigo segue incerta. Resta a dúvida essencial: é possível debater o futuro do clima sem a presença do segundo maior emissor de CO₂ do mundo à mesa de negociações? Leia mais sobre a COP 30 no Portal Águia Katiane Bispo , é feminista, formada em Relações Internacionais com especialização em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Já atuou em inúmeros projetos de defesa aos Direitos Humanos, Gênero e Educação. Uma curiosa por essência e teimosa por sobrevivência. É podcaster no programa "O Historiante", colunista no Portal Águia. Instagram: @uma_internacionalista Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G. Referências https://www.oc.eco.br/cop29-frustra-e-aprova-frageis-us-300-bi-em-financiamento/ https://www.cfr.org/expert-brief/was-cop29-azerbaijan-failure https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/sirene/publicacoes/acordo-de-paris-e-ndc/arquivos/pdf/acordo_paris.pdf https://cop29.az/en/presidency/cop29-presidency-team https://www.estadao.com.br/sustentabilidade/torres-de-fogo-passado-sovietico-e-luxo-como-petroleo-moldou-sede-da-cop/?srsltid=AfmBOopAVuptBfGgkKb8zivLrIO6eLSyhlGUxYncGHI8kqTLalplBRxL

  • O declínio dos EUA e a ascensão da China

    Nas Relações Internacionais alguns conceitos são bastante difundidos, como o da polaridade e o da balança de poder. Tabuleiro de xadrez - EUA x China Resumidamente, a balança de poder mostra como o mundo se organiza durante as disputas entre países pelo poder. Por vezes, eles podem se alinhar em blocos menores para tentar resistir à influência de potências maiores ou assumir uma posição de aliança e “reboque” com uma das potências maiores. Já o conceito de polaridade serve para explicar de que forma ocorre essa distribuição de poderes e potências. Um exemplo bastante eficaz deste conceito é a análise feita durante a Guerra Fria , com duas potências bem definidas e opostas (Estados Unidos e União Soviética) que exerciam influência e atração nos demais países. Por meio disso, dizia-se que ocorria uma divisão do mundo entre dois polos, uma bipolaridade. Com o final da União Soviética e a diminuição do poder de um desses polos, passou-se a uma situação descrita como unipolaridade , tendo os EUA como superpotência dominante capaz de exercer sua influência em uma nova escala durante os anos 1990. Entretanto, na virada do século XXI outros países ganharam destaque por seus atributos, normalmente ligados ao campo econômico ou populacional. China, Índia e a União Europeia fortalecida passaram também a exercer seu poder de influenciar outros países e trouxeram uma nova configuração para a balança de poder global. Ao invés da unipolaridade, passa-se para uma situação que alguns acadêmicos descreveram como uma uni-multipolaridade . Vale lembrar, nesse sentido, que os EUA ainda continuavam como a principal potência , mas era notório o aparecimento de novas potências com menor poder, ocupando um outro patamar. Clivagens entre potências A discussão de qual seria a próxima potência que disputaria em escala global com os EUA já passou por diversos momentos distintos, como, por exemplo, quando a União Europeia adotou uma moeda única de fato e discutia-se a preponderância do dólar como reserva de valor e meio de troca global. Na virada para o século XXI um outro “desafiante” continuava sua longa caminhada e ascensão no cenário internacional: a China . Esta combinava o peso geográfico de ser a maior população com o constante crescimento, e acima da média global, de sua economia. Sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) e projeções apontavam a possibilidade de o produto interno bruto chinês ultrapassar o estadunidense em algum momento no futuro não tão distante . Dólar X Yuan Parte da estratégia chinesa passava por validar suas posições e ocupar novos espaços como um importante player global. Essa estratégia, em parte, estava ligada à presença chinesa no financiamento de grandes obras e ao fluxo comercial global, de modo que serviram como catalisadores no processo de crescimento do poder chinês. Para tanto, tornou-se comum fazer referência à presença de empresas e até mesmo de mão de obra chinesa em grandes obras no continente africano, oferecendo recursos e aprofundando o nível de relacionamento com esses governos. Um dos projetos mais ambiciosos, nesse sentido, é o Belts and Roads ligando a diversos países no hemisfério oriental e que se expande cada vez mais em seu escopo. Ao mesmo tempo, a China tornou-se o principal parceiro comercial de diversos países nos últimos anos. Parcerias China X EUA: Fonte: The economist Essas novas parcerias fizeram com que muitos países adequassem suas estratégias visando não comprometer o acesso ao gigantesco mercado chinês. Ainda cabe apontar o papel do governo chinês em investir pesadamente em educação , pesquisa e desenvolvimento, passando de um país que fabricava bens de baixo valor agregado em grande escala para um capaz de desenvolver novas tecnologias e participar na parte mais avançada da cadeia global de valor. Joseph Nye Jr, importante acadêmico das Relações Internacionais, apontava que a China buscava um caminho suave de ascensão, sem uma confrontação direta com as potências já estabelecidas, seja por meio de seu soft power ou por ocupar espaços que haviam sido deixados de lado, ainda que momentaneamente, pelas potências ocidentais. Essa estratégia parecia caminhar sem muitas surpresas até a questão do “ Mar do Sul da China ”. Essa importante área, disputada por diversos países da região, acabou tornando-se um importante ponto de clivagem com os EUA. Os chineses reivindicavam o controle da região e passaram a construir ilhas artificiais e estruturas para efetivamente ocupar a região e estender seu território. Pequenos incidentes entre embarcações chinesas e estadunidenses ocorriam com maior frequência e por algum tempo a tensão foi crescente a ponto de despertar o medo de um conflito mais aberto que poderia acontecer. Além dessa disputa mais geográfica, a competição passou a ocorrer em outras áreas, como a tecnológica. O avanço da internet e o novo padrão de navegação conhecido como 5G explicitou a diferença de propostas para a infraestrutura necessária para seu funcionamento. Dada a sua natureza, aqueles que optassem pela abertura ao fornecimento desta por empresas chinesas estariam potencialmente separados de redes construídas pelos EUA ou Europa. Ainda nessa disputa havia a constante preocupação e denuncia que a tecnologia chinesa permitiria a espionagem e a coleta de todo tipo de informação sensível por parte do governo chinês, ou seja, era uma tentativa de dissuadir os países de abrirem suas licitações e mercados para as empresas de alta tecnologia chinesa na instalação da infraestrutura necessária para o 5G. Essa escalada das clivagens entre a China e os Estados Unidos parece ter atingido seu ápice com a chamada “Guerra Comercial” durante o governo de Donald Trump. A balança comercial dos EUA com a China apresentava um déficit na casa dos US$ 400 bilhões, fazendo com que o governo de Trump denunciasse práticas ilegais do governo chines, como subsídios. A resposta da Casa Branca foi a imposição de tarifas alfandegárias em centenas de produtos vindos do país asiático, inclusive do aço. A resposta chinesa foi a adoção de tarifas em produtos variados, de matéria prima a bens de luxo. Os reflexos dessa disputa foram imediatos e espalhados pelo mundo, aumentando tanto o pessimismo quanto a diminuição do comércio global. Com isso, os índices de bolsas espalhados pelo mundo também apresentaram quedas e ainda nem sabíamos o que estaria pela frente em 2020 com a pandemia. Voltando a questões de segurança regional, a China investe cada vez mais no seu orçamento militar e de defesa, desenvolvendo novas tecnologias e aumentando seu arsenal. Nesse sentido, passou a ser uma fiadora importante dos processos de paz na região , pois detém força e capacidade para garantir que os acordos sejam cumpridos. Quando não age dentro desse papel de fiadora, a China tem buscado também mostrar sua capacidade de mediação dos conflitos, oferecendo planos e meios de negociação para o conflito decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia. No oriente médio, espécie de palco de atuação necessário para qualquer grande potência, a China ajudou a costurar a retomada de relações diplomáticas entre Arabia Saudita e Irã, rompidas 7 anos antes com o assassinato de Nimr al Nimr e as depredações da embaixada saudita em Teerã pela enfurecida população iraniana. No plano financeiro , uma iniciativa chinesa que tem atraído mais adesões é a utilização de moedas locais nas trocas comerciais com outros países ao invés do dólar americano. As razões para essa iniciativa são diversas, desde a falta de acesso a reservas cambiais, a imposição de sanções econômicas e até a proteção contra flutuações cambiais decorrentes da política de juros dos EUA. As consequências dessa nova forma de fazer comércio são a efetiva perda de força do dólar ao longo do tempo e o enfraquecimento das sanções unilaterais, uma vez que países alvos das mesmas não dependem de dólares para continuar fazendo comércio. Também ocorre o fortalecimento dos BRICS e a criação de um Novo Banco de Desenvolvimento com uma estrutura de financiamento bastante robusta e alternativa aos bancos já existentes e alinhados com EUA ou países europeus. O número de países que passaram a demonstrar interesse em fazer parte da iniciativa dos BRICS tem crescido nos últimos anos e, em 2023, 19 países demonstraram interesse em participar. Para concluir, cabe salientar que as estratégias adotadas pela China e as correções de curso ao longo dos anos tornaram a análise política internacional sobre a polaridade e a potência um assunto cada vez mais importante e obras, como “ A Ascensão e Queda de Grandes Potências" de Paul Kennedy, voltaram a ser referência para novas análises e ajudam a definir se de fato viveremos mais uma mudança drástica na balança de poder e um redesenho da polaridade. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Zero Águia. Revisão por: Mateus Santana Edição por: Felipe Bonsanto Fontes: Entenda a ‘guerra comercial’ entre EUA e China e como ela pode afetar a economia mundial | Economia | G1 (globo.com) acessado em 22-04-2023. Guerra comercial: 5 gráficos para entender a disputa entre EUA e China - BBC News Brasil acessado em 22-04-2023. Como a China tem expandido seu poderio militar; entenda em 4 gráficos - BBC News Brasil acessado 24-04-2023. Irã e Arábia Saudita retomam relações - 10/03/2023 - UOL Notícias acessado em 27-04-2023. https://www.economist.com/briefing/2021/07/17/joe-biden-is-determined-that-china-should-not-displace-america - Acessado em 11 de maio de 2023

  • Minimalismo: Por que o mundo está ficando menos colorido?

    O minimalismo influencia até mesmo a padronização arquitetônica /  Imagem gerada por IA Já ouviu falar daquela brincadeira antiga do fusca azul? Era um jogo bem simples, geralmente praticado em viagens ou passeios, cujo objetivo  era observar o tráfego e ser o primeiro a identificar o icônico carro, gritando “fusca azul” antes dos outros. Quem o avistava primeiro ganhava o direito de dar um leve soco no braço dos demais participantes, uma brincadeira sem pontuação fixa, mas que servia como uma forma de passar o tempo. Hoje em dia, fuscas já não são tão comuns, muito menos carros azuis.  A verdade é que, ao longo dos anos, não apenas os veículos perderam suas cores. Tons vibrantes foram desaparecendo das ruas, casas e espaços; estilos de vida foram substituídos por padrões básicos, em busca de uma rotina considerada saudável e perfeita. Diante dessas mudanças, fica a pergunta: ainda é possível brincar de “fusca azul” em um mundo cada vez mais acinzentado? Um estilo de vida O minimalismo ganhou destaque nos últimos anos como um estilo de vida centrado na simplicidade e redução do consumo , uma forma de viver que busca propósito consciente, priorizando o essencial e deixando de lado excessos que não agregam valor ao indivíduo. Nesse contexto, a proposta surge como uma alternativa para cultivar consciência sobre o que realmente importa, seja nas escolhas de compra, nos relacionamentos ou na organização do tempo. Entretanto, apesar de seu apelo contrário aos ideais de consumo, o minimalismo na sociedade contemporânea passou a se integrar a uma tendência de valorização individual.  Trata-se de um movimento que, muitas vezes, desvia a atenção de questões estruturais , como desigualdade e exploração econômica. À medida que se espalha por outras esferas, sua proposta original começa a ser diluída e apropriada pelo próprio sistema que buscava criticar. Com isso, a estética minimalista se encaminha para um campo de consumo considerado “limpo”, mas que não é acompanhado por mudanças sistêmicas na industrialização.  Até mesmo a arte perdeu parte de seu valor e significado, tornando-se objeto de reprodução em massa. O minimalismo nas artes O minimalismo surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960, como  resposta ao expressionismo abstrato  que dominava as artes plásticas no pós-guerra, um período marcado por obras carregadas de emoção e subjetividade. em oposição a isso, o movimento buscou eliminar excessos e reduzir as obras a formas simples, cores puras e objetividade, evitando narrativas e simbolismos. A arte  passou, então, a seguir uma linha contínua e padronizada, com foco na ordem e na racionalidade , influenciando aspectos do cotidiano como arquitetura, design e literatura. O mercado transformou o “menos é mais” em uma estética comercial, convertendo a simplicidade em produto de luxo.  Ambientes minimalistas passaram a ser promovidos como sinônimo de sofisticação, enquanto marcas exploram o visual limpo para justificar preços elevados e reforçar distinções sociais. Assim, o minimalismo corre o risco de se tornar apenas mais uma linguagem do consumo , esvaziada de seu potencial transformador. A arte, que antes buscava romper com o excesso emocional e simbólico, passou a ser usada como ferramenta de marketing, reforçando a lógica da exclusividade  e da performance visual. Em vez de provocar reflexão, ela é frequentemente reduzida a um ideal de perfeição estética. O impacto na sociedade contemporânea Um dos efeitos observados nos últimos anos com a padronização mercadológica foi a perda das cores . O fusca azul foi apenas o início de um movimento que se espalhou para outros automóveis e influenciou até mesmo a arquitetura contemporânea, que perdeu parte de sua autenticidade  ao  tentar se encaixar em padrões globais. Essa homogeneização estética não se limita à aparência das cidades ou aos objetos que consumimos, ela também molda como nos expressamos  e nos relacionamos com o mundo. Ao se inserir em ambientes onde tudo é similar, o indivíduo tende a perder referências diversas , sejam culturais ou identitárias. O que antes era sinônimo de originalidade e pertencimento, hoje é frequentemente substituído por escolhas guiadas por tendências globais e algoritmos de consumo. O resultado é uma sociedade cada vez mais desconectada e alheia, onde a diversidade  visual, arquitetônica e comportamental se encaixa em uma paisagem de uniformidade silenciosa.  A padronização, disfarçada de modernidade e praticidade, apaga diferenças e torna o cotidiano menos entusiasmante, mais previsível e, talvez, menos humano. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G. Referências https://www.archdaily.com.br/br/991483/o-mundo-esta-menos-colorido-estudo-mostra-evolucao-das-cores-nos-objetos-e-espacos https://blog.lojasrenner.com.br/2022/11/andre-carvalhal-estudos-mostram-que-mundo-esta-menos-colorido/ https://revistaalceu-acervo.com.puc-rio.br/media/alceu%2031%20pp%20131-140.pdf

  • Reforma do Conselho de Segurança não só é urgente como vital

    Criado no Pós-guerra, Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) vive uma crise de credibilidade no cenário internacional. Foto: Seth Wenig/AP Breve Histórico do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) é um dos principais órgãos dentro do Sistema das Nações Unidas. É composto por Conselhos e Agências temáticos e espalhados pelas diversas sedes. Sua criação após a Segunda Guerra Mundial, seguiu a lógica de dividir poder entre as nações do lado vencedor e a responsabilidade de evitar novos conflitos e agressões entre as nações, sem repetir a experiência fracassada da Liga das Nações após a Primeira Guerra Mundial. Para isso, precisaria da participação efetiva daqueles que pudessem dissuadir novas agressões entre países.  A composição atual do órgão inclui 5 membros permanentes e com poder de veto, e 10 membros não permanentes e eleitos para mandatos de 2 anos. Para uma resolução substancial ser aprovada, é necessária a maioria de votos e a adesão ou abstenção dos membros permanentes. Para votações de procedimentos, basta a maioria simples, pois não há possibilidade do veto. Os 5 membros permanentes são as potências que contribuíram mais para os esforços de guerra e que colheram os benefícios durante as negociações de paz e da criação da Organização das Nações Unidas e demais organizações internacionais do pós-guerra. Cabe notar que estes 5 países são detentores de arsenais nucleares. O processo de negociação não foi fácil já que existia uma disputa entre os Estados Unidos da América (EUA) e seus aliados contra a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O tabuleiro do Conselho de Segurança requereu um grande esforço para equilibrar as vontades e os receios de ambos, incluindo nesse ponto até a possível inclusão do Brasil como membro permanente logo após a criação, assunto apresentado com enorme profundidade e riqueza de detalhes no livro do diplomata Eugênio Vargas Garcia (“O sexto membro permanente – O Brasil e a criação da ONU”) O diplomata Eugênio Vargas Garcia, autor do livro “O sexto membro permanente – O Brasil e a criação da ONU” (Foto: Acervo UH/Folhapress ) Outro papel do Conselho é avaliar a adesão de novos países-membros antes da votação pela Assembleia Geral. O caso mais recente, iniciado em abril de 2024, foi o pedido da Palestina para aderir plenamente à organização pela retomada do processo iniciado ainda em 2011. A resolução foi levada a discussão no CSNU em maio e não foi aprovada, recebendo 12 votos favoráveis, 2 abstenções e um voto contrário e com poder de veto dos EUA. A Guerra Fria e o Poder de Veto Durante a Guerra Fria o conflito entre EUA e URSS foi acirrado, ambos os lados exercendo o poder de veto em iniciativas propostas por seu antagonista. Um fato curioso foi a adoção da resolução sobre a Guerra das Coreias em 1950 autorizando a intervenção liderada pelos EUA. Não houve veto a essa resolução pois a URSS, que possivelmente exerceria este poder, estava boicotando o Conselho de Segurança e não estava presente. O motivo do boicote foi a discussão e pressão para que o assento permanente fosse ocupado pela República Popular da China e não por Taiwan. Estatisticamente o poder de veto foi utilizado por cada membro permanente nestas quantidades: 158 vezes por URSS e Rússia; 92 pelos EUA; 32 pelo Reino Unido; 21 pela China; 18 pela França. Essa constante divisão e a falta de representatividade do CSNU, fossilizado em uma distribuição de poder que já não existia mais, gerou discussões sobre a necessidade de reformá-lo. As reformas trariam maior representatividade e ao incluir novos membros (em novas categorias e com outros poderes) e poderiam destravar o funcionamento do órgão em função dos reiterados vetos. A Guerra Civil de Ruanda e a Comunidade Internacional Foi durante os anos 1990 que a inação do CSNU e da comunidade internacional em proteger populações vulneráveis acabou em um dos mais infames episódios: O genocídio dos tutsis em Ruanda . Em um curto período, aproximadamente 800 mil pessoas desta etnia foram assassinadas pelos Hutus. O massacre foi o resultado de um longo processo de deterioração da segurança, depois de anos de guerra civil e o assassinato de um presidente. Ruanda havia conseguido estabelecer um governo de transição com a participação tanto de tutsis quanto de hutus em 1993, porém este acabou de forma abrupta e traumática com a morte do presidente Habyarimana. O helicóptero em que ele estava foi abatido e as acusações sobre quem seriam os responsáveis pela morte do presidente hutu trouxeram de volta a tensão. Apesar da presença dos “capacetes azuis”, não havia um mandato estabelecido contendo ordens e objetivos, dessa forma, não podiam agir para conter a onda de violência. Tornaram-se um alvo e saíram do país para evitar que mais de suas forças fossem assassinados, bem como soldados de outras nações. Uma boa fonte para entender melhor a tensão e a gravidade do genocídio praticado é o filme “Hotel Ruanda”. O genocídio de Ruanda ou "genocídio tútsi", foi um massacre que ocorreu entre 7 de abril e 15 de julho de 1994 durante a Guerra Civil de Ruanda. (Foto: Jornal El Periódico) Invasão do Afeganistão e a Guerra ao Terror Todos esses fatores gestam momentos de crise da instituição, como no caso da invasão do Iraque pelos EUA após os atentados de “11 de Setembro” e no que veio a ser conhecido como a Guerra Contra o Terror. O ex-Presidente George W. Bush usou o termo "Guerra ao Terror" em 2001 antes da invasão ao Afeganistão e posteriormente ao Iraque. Foto: Kevin Lamarque / REUTERS A situação foi amplamente debatida, tanto no Conselho de Segurança quanto no meio acadêmico. Segundo a Carta das Nações Unidas, a intervenção precisaria de aprovação por um dos órgãos competentes ou que fosse uma situação de autodefesa, como a expressada em seu artigo 51. Novamente surgiu o debate da importância e do funcionamento do Conselho. Um dos membros permanentes dividia os esforços entre ter uma resolução permitindo as ações em território afegão e justificar suas ações na ausência dela. Para alguns, era um sinal da diminuição da relevância da organização pois não havia um mandado autorizando a ação militar. Para outros, a busca contínua e a eventual aprovação de um mandato para a intervenção significam justamente o contrário: o CSNU ainda era importante a ponto de a delegação estadunidense continuar buscando a aprovação mesmo com a operação, de fato, em andamento. Um órgão figurativo Pelo histórico apresentado se percebe que nem sempre o Conselho conseguiu cumprir com a sua vocação. A representação e distribuição de poderes já não condiz com a realidade, alguns países perderam peso relativo enquanto outros ganharam nos últimos 60 anos. Continentes como Ásia e África continuam sub-representados e revezando as vagas não permanentes. O CSNU sofre de uma fossilização do poder, algo apontado pela diplomacia brasileira desde a década de 1970. Para além da questão da representação, o poder de veto e a forma como ele é distribuído acaba por criar situações nas quais medidas necessárias acabam sendo atrasadas. Isto foi bastante perceptível no atual conflito entre Israel e Hamas. A cada proposta vinda dos EUA ou Rússia, já era possível adiantar que haveria veto de um dos lados, mesmo que fosse para um (mais do que necessário) cessar-fogo . Tal qual anteriormente na história, quando ocorre uma disputa mais acirrada entre os membros do P5, o Conselho de Segurança perde eficiência e a continuidade dos conflitos trazem graves custos humanos e materiais. Os casos de agressões entre Estados-membros continuam acontecendo e a cada mês parece que um novo capítulo é escrito sobre a necessidade de reforma. Em abril de 2024, ocorreu o ataque de Israel contra o consulado iraniano em Damasco. A resposta iraniana, no dia 13 de abril, foi um ataque com mais de 300 drones e mísseis. Em ambas as situações o Conselho de Segurança não obteve unanimidade para condenar os agressores, sendo estes protegidos por aliados. Com esse histórico e os mais recentes entraves, fica demonstrada a necessidade de reforma do Conselho de Segurança. O mundo com a atual composição e poderes do CSNU parece não conseguir lidar, com eficácia e rapidamente, os conflitos cada vez mais complexos. Ainda que seja necessária alguma reforma, é melhor existir um espaço com regras e comprometimento das partes para resolver questões de segurança internacional da forma menos danosa possível. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Portal Águia. Revisão por: Eliane Gomes Edição por: Katiane Bispo Fontes O Conselho de Segurança da ONU Peace & Security Data Hub ( un.org )

  • Desafios das Organizações Internacionais: Eficiência, responsabilidade e relevância

    Para começar a desenvolver o assunto , é pertinente ir à origem dele, ou seja, ao conceito sobre as Organizações Internacionais (OI) . O fenômeno das OI inclui um processo evolutivo na configuração dos elementos que as definem tal como as conhecemos hoje. Tanto o aparecimento delas como o reconhecimento formal, geral e expresso da sua subjetividade internacional têm sido sujeitos a uma importante evolução histórica. No início, os Estados não eram apenas os principais intervenientes nas Relações Internacionais (RI), mas também os únicos sujeitos do direito internacional. FONTE: https://internacionaldaamazonia.com/2020/11/18/a-importancia-das-organizacoes-internacionais-no-mundo-contemporaneo/ A sociedade internacional clássica era caracterizada por uma natureza limitada. Contudo, os avanços em numerosos aspectos técnicos e culturais criaram um clima propício à Cooperação Internacional através de estruturas mais ou menos organizadas . Junto com os Estados, surgiram outros atores internacionais que alcançarão importância vital na sociedade internacional e aos quais serão reconhecidos certos direitos e obrigações de vários tipos. Lembrando que, ainda hoje, os Estados continuam a ser os principais e primários sujeitos do direito internacional , mas deixarão de ser os únicos sujeitos e outros atores , como OI e os indivíduos, alcançaram o estatuto de sujeitos de direito internacional. Então, é possível falar de dois tipos de atores internacionais. Por um lado, os sujeitos primários ou originários, entre os quais estão os Estados e, por outro lado, os sujeitos secundários ou derivados, onde se enquadram as OI.   (DÍAZ GALÁN, 2018; ROUSSEAU, 1987). Cada organização internacional possui uma estrutura institucional composta por vários órgãos permanentes. Esta permanência não precisa ocorrer em todos os órgãos, mas basta que ocorra nos administrativos, permitindo o funcionamento contínuo dela. Esta permanência pode aparecer expressa ou tacitamente destacada no tratado constitutivo da referida organização. A permanência da estrutura institucional permite distinguir as OI das conferências internacionais; embora às vezes, devido à forma como as decisões são tomadas, à importância do seu secretariado e à duração, a distinção entre os dois possa ser um pouco confusa (DE VELASCO VALLEJO, 2010). Colocando o foco nas OI, elas nascem com objetivos específicos a resolver. Portanto, pode-se destacar o caráter “funcional” de sua subjetividade . Os direitos e obrigações que serão reconhecidos dependerão das necessidades que deverão ser respondidas através destas entidades internacionais. É como no caso das Nações Unidas , a instituição tem o mandato de cumprir um determinado objetivo internacional. Portanto, é vital estar sempre atento à meta e ao objetivo de cada uma das OI quando nos movemos no âmbito da subjetividade internacional dessas entidades (DÍAZ GALÁN, 2018). FONTE: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/onu.htm Em relação ao objetivo internacional que as OI devem cumprir - ou isso é o que se espera - e aos diferentes sucessos que vem acontecendo na sociedade internacional; João Guilherme Grecco ,   no seu artigo “ Reforma do Conselho de Segurança não só é urgente como vital ” , expressou que: “... fica demonstrada a necessidade de reforma do Conselho de Segurança.  O mundo com a atual composição e poderes do CSNU parece não conseguir lidar, com eficácia e rapidamente, os conflitos cada vez mais complexos. Ainda que seja necessária alguma reforma, é melhor existir um espaço com regras e comprometimento das partes para resolver questões de segurança internacional da forma menos danosa possível.” ( GRECCO, 2024)   Historicamente, as organizações internacionais podem ajudar os países a enfrentar bilateralmente os desafios relacionados ao financiamento, à capacidade técnica, à gestão institucional e a criar bens públicos globais para superar estes obstáculos (World Bank, sn). Funções que têm vinculação com a responsabilidade nesse âmbito. Quando se fala de Responsabilidade Social (RS), refere-se a um conceito muito amplo que pode dizer muito e nada de concreto ao mesmo tempo. Contudo, qualquer que seja a definição adotada, todos concordam com a necessidade de promover boas práticas nas organizações , assumindo a responsabilidade pelos seus impactos (NÚÑEZ REYES, 2003). As mudanças associadas a uma nova concepção do tema da RS , aliadas às inúmeras iniciativas e organizações preocupadas com o assunto, e a sua implementação como novos padrões de comportamento dos diferentes atores globais e locais , fazem com que o conceito de RS seja difícil de aplicar de fato, e ao mesmo tempo, existem diferentes níveis em que essa responsabilidade é aplicada. A respeito disso, as Nações Unidas propõem três níveis de ação: direitos humanos, direitos laborais e ambiente. FONTE: https://foccoerp.com.br/blog/responsabilidade-social/ O nível de direitos humanos e laborais está geralmente sujeito ao cumprimento de normas internacionalmente aceitas (Declaração Internacional dos Direitos Humanos das Nações Unidas, os quatro princípios fundamentais da OIT e o Direito do Trabalho (1998)) . Por outro lado, o nível ambiental, se refere especificamente à responsabilidade que os atores têm pelas externalidades geradas pela sua atividade produtiva. Este nível abrange: a administração dos recursos naturais, o controle da poluição, a gestão de resíduos e a ampliação da abrangência do conceito que vai além da gestão do seu ambiente . Da mesma forma, incentiva-se um papel mais ativo nos problemas ambientais globais (mudanças climáticas e deterioração da biodiversidade) (NÚÑEZ REYES, 2003). Voltando ao assunto do texto, há quem afirme que as organizações internacionais são muito úteis , pois têm contribuído para a consolidação dos cenários de cooperação entre as nações e para o fortalecimento dos sistemas democráticos e para a proteção dos direitos humanos. Ou seja, as OI são entendidas como fóruns democráticos nos quais as nações têm a possibilidade de trocar opiniões e chegar a pontos de acordo, mas na prática pode-se ver que essa visão não é compartilhada por todo o mundo . É claro que existe uma dualidade de visões sobre a eficácia e responsabilidade social das OI. Conclusão Para concluir, é preciso que a Responsabilidade Social (RS) de cada Organização Internacional (OI) reflita amplamente as diferentes dimensões e leve em consideração a preocupação dos diferentes atores, traduzindo-se num incentivo à adoção de melhores práticas. Estas práticas poderão influir em um melhor desempenho, mas vai depender de vários fatores. Em primeiro lugar , a existência de regras claras e estáveis ​​por parte dos governos continua a ser um aspecto importante na adoção de boas práticas e na construção de confiança, o que desencadeia um aumento da credibilidade e imagem pública; Em segundo lugar , o estabelecimento de acordos públicos e voluntários que estimulem uma mudança de atitude e de responsabilidade; Em terceiro lugar, não devemos esquecer que as OI foram criadas para resolver assuntos da sociedade internacional, como o caso da Venezuela, a guerra entre Israel e Palestina, e a da Rússia e Ucrânia. Não se pode continuar com as mesmas regras e ações quando temos atores vitais em papéis minimamente controversos , tanto na tomada de decisões como protagonistas dos acontecimentos atuais. Nesse contexto de instabilidade, conflito, falta de respostas e mudanças, cabe-se perguntar, onde está a RS dos OI?   Se cada uma delas não pode garantir que é capaz de resolver assuntos relevantes, ou seja, se não são capazes de ser eficazes e responsáveis, para que servem? É urgente revalorizar o papel das OI, pois sua inexistência pode desencadear um cenário de caos, complicações e mudanças prejudiciais. A cooperação internacional poderia ver-se obstaculizada, faltariam mecanismos para resolver conflitos e haveria uma menor colaboração e conexão econômica entre os diferentes atores. Editorial do Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto FONTES: WORLD BANK. 2021. La función de las organizaciones internacionales para mejorar los datos con fines públicos.   DE VELASCO VALLEJO, Manuel Díez. 2010 .  Las organizaciones internacionales. Biblioteca Universitária  de Editorial Tecnos. DÍAZ GALÁN, Elena. Las organizaciones internacionales como sujetos del derecho internacional. Algunas reflexiones sobre los orígenes. Revista de estudos políticos e estratégicos , 2018, vol. 6, no 1, p. 94-114.NÚÑEZ REYES, Georgina. La responsabilidad social corporativa en un marco de desarrollo sostenible. Cepal, 2003.   ROUSSEAU CH. (1987). Droit International Public. Paris, Francia: Dalloz.

  • Nepal em fúria: Quando os jovens desafiam a elite

    Era um dia comum de trabalho, daqueles em que tudo parecia seguir o ritmo habitual. Enquanto preparava meu café para iniciar a jornada, abri o Instagram sem grandes expectativas e fui surpreendida.  A primeira postagem que apareceu na tela tratava justamente do tema deste artigo: o Nepal . Um país que, confesso, não figurava no meu radar se tivesse que listar nações em crise ou à beira de rupturas políticas. A notícia era forte: o ministro da Economia lutava pela vida após ter sido jogado em um rio. Essa ausência do Nepal no meu radar não é por acaso. Trata-se de um país que raramente ocupa o foco das notícias  internacionais. No entanto, os protestos e a violência envolvida desencadeada revelaram uma crise política que merece atenção. Para compreender a dimensão e a gravidade da situação, é necessário observar os eventos que se desenrolaram nos últimos dias. Tudo começou em 4 de setembro, quando o governo bloqueou redes sociais populares , como Facebook, YouTube e WhatsApp. “A crise, a mais sangrenta que o Nepal viveu desde a abolição da monarquia em 2008, começou na segunda-feira, quando a polícia abriu fogo contra jovens manifestantes que denunciavam o bloqueio das redes sociais e a corrupção das elites” (RFI, 2025). Fonte: Nepal: Por que a Geração Z se amotinou | Outras Palavras Quatro dias depois, em 8 de setembro, jovens da Geração Z  tomaram as ruas de Kathmandu, protestando contra a corrupção, o nepotismo e a falta de oportunidades.  Enfrentaram a polícia em confrontos que resultaram em dezenas de mortos. A violência escalou rapidamente; em 9 de setembro, prédios governamentais foram incendiados  e o primeiro-ministro entrou em reclusão. Nos dias seguintes (13 a 17 de setembro), um governo interino assumiu , os mortos (72) foram declarados mártires e o país decretou luto nacional. Mas como o Nepal chegou a esse ponto? A crise é resultado de uma sequência de instabilidades políticas  e do crescente descontentamento popular  com a elite governante. As promessas dos partidos comunistas que assumiram o poder após a queda da monarquia foram repetidamente frustradas, enquanto corrupção e autoritarismo  se tornaram práticas comuns. Movimentos sociais na região, como os protestos no Sri Lanka e em Bangladesh, influenciaram a mobilização nepalesa. No entanto, o principal catalisador foi o descontentamento acumulado da população, intensificado pela recente proibição das redes sociais.   Historicamente, o Nepal aboliu a monarquia em 2008 , após décadas de lutas sangrentas e movimentos populares. Antes disso, o massacre da família real em 2001 gerou instabilidade, e o rei Gyanendra assumiu o poder, dissolvendo o Parlamento em 2005 e instaurando um regime autoritário , proibindo partidos e censurando a imprensa. O Movimento Popular de Abril de 2006 (Jana Andolan II) reuniu milhões de nepalenses nas ruas durante 19 dias, pressionando a monarquia. Em 2008, a Assembléia Constituinte aprovou oficialmente a abolição da monarquia , estabelecendo a República Democrática Federal do Nepal. O fim da monarquia gerou grandes expectativas, mas os três principais partidos políticos - Congresso Nepali (centro esquerda), Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado) e Partido Comunista (Centro Maoísta) se envolveram em disputas pelo poder, sem trazer melhorias significativas  à população. Essa disputa, somada à corrupção e ao autoritarismo, alimentou o descontentamento popular, culminando na onda de protestos recentes  com os jovens assumindo a linha de frente das manifestações. A sequência dos acontecimentos revela não apenas o descontentamento juvenil, mas também anos de fragilidade política,  desigualdade e uma geração que exige voz e mudança imediata. A Geração Z , nascida em um contexto de mudanças rápidas e com acesso à informação e às redes sociais, tornou-se o motor da mobilização.  Eles encarnam a urgência de ação, a rejeição às promessas vazias e a busca por oportunidades reais. Essa combinação entre expectativas frustradas e voz ativa explica a intensidade das manifestações. O que acontece no Nepal importa muito além de suas fronteiras. A mobilização de uma  juventude digitalmente conectada  mostra que as novas gerações têm poder real para pressionar instituições  e desafiar governos tradicionais. Além disso, os conflitos atuais refletem questões históricas compartilhadas por outras crises: desigualdade, falta de oportunidades e corrupção. O caso nos lembra da importância de construir sociedades mais justas  e resilientes, fundamentadas em diálogo, transparência e inclusão. Quando vozes e demandas são ignoradas, aumenta o risco de que o descontentamento exploda de forma trágica. O movimento popular não é fruto de conspirações externas , mas da insatisfação acumulada diante de governos que falharam em atender às necessidades básicas e às expectativas democráticas. Esse cenário serve como alerta sobre a urgência de ouvir a população, prevenir práticas autoritárias e fortalecer instituições democráticas sólidas. Editorial Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências   https://links.org.au/nepal-joins-regional-wave-revolt-popular-anger-repression-and-inequality-spreads-across-south-asia https://www.radiomontecarlo.com.uy/2025/09/16/internacionales/nepal-declara-luto-nacional-por-la-muerte-de-manifestantes-durante-las-protestas-contra-el-gobierno/ https://www.elobservador.com.uy/espana/impacto-global/una-generacion-harta-la-revuelta-los-jovenes-nepal-contra-la-elite-politica-n6016798 https://elpais.com/internacional/2025-09-11/la-generacion-z-de-nepal-se-rebela-contra-la-corrupcion-y-el-desempleo.html https://www.rfi.fr/es/asia-pacifico/20250912-nepal-el-pa%C3%ADs-en-la-incertidumbre-tras-las-mort%C3%ADferas-protestas-contra-el-gobierno https://nuso.org/articulo/Nepal-comunismo-maoismo-descontento/ https://fusernews.com/autoridades-de-nepal-buscan-a-10-mil-reclusos-fugados-durante-protestas/ https://rsf-es.org/crisis-politica-en-nepal-mas-de-una-docena-de-medios-atacados-y-periodistas-heridos/ https://www.nytimes.com/es/2025/09/12/espanol/mundo/nepal-protestas-discord.html https://www.dw.com/es/nepal-confirma-30-muertos-tras-la-oleada-de-protestas/a-73955282 https://cenital.com/nepal-la-falla-geopolitica-mas-sensible-del-siglo-xxi/

  • Umbanda: entre a intolerância e o racismo

    Foto: Yeda Souza https://www.instagram.com/tecventania_vobere/ Prazer, eu sou a Umbanda! A Umbanda surgiu no começo do século XX , em um Brasil recém-saído da escravidão (1888) e da proclamação da República (1889), período de grandes mudanças urbanas, sociais e culturais . Esse cenário favoreceu o encontro de matrizes culturais africanas, indígenas e europeias , especialmente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde negros, ex-escravizados, imigrantes pobres e mestiços  dividiam o mesmo espaço urbano. Segundo Luiz Antônio Simas, na obra Umbandas: uma história do Brasil , a religião funcionou como uma importante válvula de resistência cultural e simbólica  para os negros escravizados. As giras (rituais centrais realizados em terreiros) ocorriam, muitas vezes, após momentos de extrema violência, como as punições públicas aplicadas pelos feitores no tronco, onde o sangue ainda respingava das chibatas. Mesmo assim, os escravizados se reuniam para dançar, cantar e cultuar suas divindades, prática não compreendida pelos senhores, que interpretavam aquele festejo como insubordinação e afronta. Como forma de ilustrar esse cenário, convido-os a observar atentamente a cena da novela "Sinha Moça", escrita por Benedito Ruy Barbosa e adaptada por Edmara Barbosa e Edilene Barbosa, exibida originalmente pela TV Globo entre 13 de março e 13 de outubro de 2006. Nela, logo após o açoite de um escravo, os demais se reúnem em uma dança coletiva. O contraste entre dor e celebração  era considerado ilógico para os senhores de engenho, que esperavam que, após as penitências, os negros estivessem recolhidos em sofrimento e não em cerimônias festivas. Cena da Novela Sinhá Moça - Globo Simas explica que a Umbanda nasce como resposta aos processos de criminalização dos cultos africanos  (Lei de Vadiagem, Código Penal de 1890), mas também como fruto da tentativa de criação de uma religião “nacional”, com elementos reconhecíveis por diferentes grupos sociais. A incorporação de caboclos e pretos-velhos (espíritos de indígenas e antigos escravizados) representa uma "valorização do passado brasileiro marginalizado, agora como guias espirituais", o que confere identidade brasileira à nova religião . Apesar de ser fruto direto da miscigenação entre catolicismo, kardecismo, práticas indígenas e matrizes africanas , a Umbanda continua alvo de intensa rejeição e preconceito. Tal contradição se torna ainda mais evidente ao observarmos que suas matrizes-formadoras  (como o próprio catolicismo ou espiritismo kardecista) são amplamente aceitas no imaginário social. O que se rejeita, portanto, não é o tipo de prática religiosa em si, mas o corpo predominantemente negro e estigmatizado que a pratica. É justamente essa tensão que motiva o presente artigo: evidenciar como a Umbanda compartilha, adapta e ressignifica elementos comuns a outras religiões acolhidas no cotidiano social brasileiro, demonstrando que o fenômeno enfrentado pelos umbandistas não se restringe à intolerância religiosa , mas revela, de forma profunda, o racismo estrutural ainda vigente no país . Entre Deus, Jeová, Allah, Yeshua e Oxalá: A desmistificação e o monoteísmo da religião A classificação da Umbanda como religião monoteísta, politeísta ou henoteísta ( culto a várias entidades, mas com reconhecimento de uma força suprema ) ainda é alvo de debate entre pesquisadores. De modo geral, a maioria dos estudiosos entende que a Umbanda é, sim, uma religião monoteísta , pois afirma a existência de um único Deus criador , ainda que cultue diversas divindades e entidades espirituais que atuam como intermediários  de Deus. Assim como em diversas outras religiões, Deus se apresenta com nomes distintos, o que ocorre em razão da cultura presente no recorte histórico em que cada religião se originou. Na cosmologia umbandista, existe uma força suprema chamada Olorum , Oxalá , Zambi Maior  ou simplesmente Deus , responsável pela criação de todos os mundos e seres. Essa ideia está na base teológica de praticamente todas as vertentes da religião (SIMAS, 2018; PRANDI, 2001). É esse Deus que rege o destino do universo e representa o princípio máximo do bem, da justiça e da evolução espiritual, tanto quanto em tantas outras religiões mais bem acolhidas pela sociedade. Isso nos leva às próximas reflexões: quantos elementos são semelhantes entre a Umbanda e outras vertentes religiosas, e porque apenas os presentes na Umbanda são demonizados e repudiados? Umbandismo e Catolicismo: Dos guias aos santos. Das rezas aos pontos A religiosidade brasileira é marcada pelo sincretismo, esse “modo de fazer religião misturando símbolos, práticas e crenças”, como define Reginaldo Prandi (2001, p. 29). Umbanda e Catolicismo, por mais distintas que sejam em origem, compartilham gestos e rituais profundamente semelhantes. No Catolicismo, os santos  funcionam como intercessores entre Deus e os fiéis. São figuras humanas canonizadas pela Igreja, que realizam graças em nome do divino. Na Umbanda, os guias espirituais , como Pretos-Velhos, Caboclos e Crianças — também operam como mediadores entre o plano terreno e o plano superior (SIMAS, 2018, p. 67). Enquanto santos como São Jorge, Nossa Senhora ou São Sebastião são amplamente venerados pela população, guias como Pai Joaquim, Caboclo Tupinambá ou Ogum Sete Ondas ainda são vistos como “entidades menores” ou “espíritos atrasados”, fruto de uma desvalorização histórica do conhecimento africano e indígena (NEGRÃO, 1996). Curiosamente, muitos terreiros de Umbanda têm imagens de santos católicos em seus altares , numa forma de sincretismo cultural que o Catolicismo, ao contrário, raramente pratica com símbolos umbandistas. Em ambas as religiões, a palavra sonora convoca o sagrado . Católicos rezam ladainhas, ave-marias e salmos com ritmo e cadência que produzem estado devocional. Na Umbanda, os pontos cantados  cumprem função semelhante: “firmam” a energia do guia e estabelecem a ligação com o plano espiritual através do canto, do toque e da repetição (ORO, 2005, p. 65). Assim como as orações católicas, os pontos têm poder de consagrar o espaço, afastar negatividades e chamar a proteção divina, mas apenas os pontos são historicamente associados ao “mito da feitiçaria”, reforçando preconceitos raciais contra tradições negras (ALBUQUERQUE & NEGRÃO, 2015). Umbandismo e Evangelismo: Do preceito ao jejum. Do banho de ervas ao óleo de unção Apesar de trajetórias históricas distintas, Umbanda e Evangelismo compartilham símbolos, práticas e finalidades espirituais profundamente semelhantes. Ainda assim, enquanto o Evangelismo é amplamente aceito no cenário religioso nacional, a Umbanda continua sendo alvo de preconceito e marginalização, reflexo de um racismo estrutural que perpassa nossa sociedade (ALBUQUERQUE e NEGRÃO, 2015). Na Umbanda, o preceito consiste em um conjunto de abstinências físicas, alimentares, sexuais ou comportamentais que antecedem o contato com o sagrado, com o objetivo de “preparar o corpo como instrumento da mediunidade” (SIMAS, 2018, p. 114). De forma semelhante, no Evangelismo, o jejum é compreendido como prática espiritual que visa fortalecer o vínculo com Deus , “submetendo a carne ao espírito” (HORTON, 2007, p. 56). Em ambos os casos, a privação voluntária do corpo atua como mecanismo de disciplina espiritual e elevação energética, funcionando como dispositivo de limpeza interior . Outro paralelo interessante é o banho de ervas na Umbanda , recentemente retratado na novela "Garota do Momento", exibida pela TV Globo entre 4 de novembro de 2024 e 27 de junho de 2025. Nesse ritual, utilizam-se plantas classificadas como “quentes” ou “frias” para limpar ou equilibrar campos energéticos  (ORO, 2005, p. 73). Já no Evangelismo neopentecostal, a unção com óleo é usada para consagrar pessoas e livrá-las de males espirituais  (MARIANO, 2004, p. 188). Ambos os rituais funcionam como catalisadores de “descarrego” ou fortalecimento espiritual , embora apoiados em simbologias de matrizes distintas: na Umbanda, o saber ancestral afro-indígena das ervas; no Evangelismo, a leitura bíblica do azeite como elemento de consagração (cf. Tiago 5:14-15 ). Cena da Novela Garota do Momento - Globo Nunca foi sobre Intolerância Religiosa A reflexão que emerge é contundente: por que práticas aparentemente tão próximas são encaradas socialmente de forma tão distante? Porque igrejas e templos são sempre visíveis e acessíveis, enquanto  terreiros precisam ser pequenos, discretos e muitas vezes disfarçados como casas em becos escondidos? Como argumenta Luiz Antônio Simas (2018), a Umbanda nasce no Brasil como religião profundamente mestiça, amalgamando elementos africanos, indígenas, kardecistas e católicos. Mas, por trazer em seu cerne símbolos, entidades e saberes de matriz negra e popular , passou a ocupar o lugar do “demonizado” dentro de um país que insiste em se ver como branco, mesmo sendo majoritariamente negro e pardo (GOMES, 2019). Enquanto o Evangelismo e o Catolicismo ocupam um espaço privilegiado e crescente na esfera pública (inclusive com representatividade política), a Umbanda segue sendo alvo de estigmatização, ataques e violências simbólicas, exatamente por representar e preservar heranças africanas e indígenas constantemente silenciadas (SILVA e OLIVEIRA, 2020). Como aponta Negrão (1996), “o racismo religioso no Brasil se instala quando práticas afro-brasileiras são criminalizadas culturalmente sob o rótulo de feitiçaria, mesmo quando equivalem, em função, a ritos cristãos amplamente aceitos” . A Umbanda nasceu da dor, da exclusão e da genialidade criativa de um povo que, mesmo após a escravidão, continuou sendo marginalizado socialmente. Ao reunir elementos do catolicismo, espiritismo kardecista, religiosidades indígenas e africanas, a religião buscou se “disfarçar” para sobreviver em um país onde ser negro e cultuar o sagrado ancestral era (e muitas vezes ainda é) sinônimo de perseguição. O uso de santos católicos, por exemplo, não foi apenas uma escolha estética ou teológica, mas uma estratégia de camuflagem frente ao preconceito racial e à violência institucionalizada. Hoje, no entanto, o movimento umbandista caminha no sentido oposto: de descolonizar suas práticas, resgatar suas raízes negras e indígenas e se afirmar como expressão religiosa autêntica e legítima. O que antes se ocultava para escapar do racismo, agora se exibe como resistência a ele. A ancestralidade que já foi silenciada se torna bandeira de orgulho e ferramenta de enfrentamento. A luta dos umbandistas, portanto, não é apenas por liberdade de culto, mas por reconhecimento e valorização de uma espiritualidade que é profundamente brasileira. Uma fé que não cabe mais nos becos escondidos, porque pertence às ruas, às praças, às universidades e às consciências críticas que entendem que combater o racismo religioso é também um passo essencial para um país mais justo e verdadeiramente plural. Axé a todos! Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências: ALBUQUERQUE, W.; NEGRÃO, L. Intolerância religiosa no Brasil: um ponto fora da curva?  Revista USP, v. 107, 2015. GOMES, Nilma Lino. O corpo negro e seus símbolos.  Pallas, 2019. HORTON, Stanley. Doutrinas bíblicas: fundamentos da fé pentecostal.  CPAD, 2007. MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Loyola, 2004. NEGRÃO, Lígia. Umbanda: catolicismo, espiritismo e religiosidade popular.  Edusp, 1996. ORO, Ari Pedro. Curas e curandeiros: estudos sobre Xamanismo e Umbanda.  Vozes, 2005. SIMAS, Luiz Antônio. Umbandas: uma história do Brasil.  Civilização Brasileira, 2018. SILVA, Vagner Gonçalves da; OLIVEIRA, Lourenço. Racismo religioso e intolerância no Brasil.  Mauad X, 2020. BRASIL. Relatório Anual de Recebimento de Denúncias do Disque 100 (2023) . Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. ISP/RJ. Dossiê Intolerância Religiosa – 2023 . Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. CENARAB. Relatório Nacional de Violência Religiosa – 2023 . GIUMBELLI, Emerson; SILVA, Vagner Gonçalves (org.). Religiões Afro-brasileiras e violência simbólica . UERJ, 2022. SILVA, Vagner; OLIVEIRA, Lourenço. Racismo religioso e intolerância no Brasil . Mauad X, 2020. FGV. Percepções sobre diversidade religiosa no ambiente de trabalho . Relatório técnico, 2021. SAFERNET BRASIL. Indicadores de discurso de ódio religioso nas redes – 2022 .

  • Burnout: Os sinais pedem atenção (e mudanças)

    No começo, era aquele cansaço que o fim de semana não conseguia aliviar. Depois, a cabeça simplesmente não desligava mais. O café já não ajudava, e as coisas que antes traziam alegria começaram a perder o encanto.  Isso, na verdade, pode ter outro nome: síndrome de burnout . Nos últimos anos, a palavra deixou de ser apenas um termo técnico e virou assunto comum no dia a dia, até mesmo virar meme na internet. E não é à toa: de acordo com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho, cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros convivem com essa síndrome. Esse índice coloca o Brasil entre os países com maior prevalência do problema no mundo. Mas o que é o burnout ? Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico,  resultante de situações de trabalho desgastantes  que exigem alta competitividade ou responsabilidade.  A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho . Esta síndrome é comum em profissionais que atuam sob pressão constante, como médicos, enfermeiros, professores, policiais, jornalistas, entre outros.   Fonte: Ministério da Saúde   Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde , a síndrome se manifesta por três sinais principais: Exaustão emocional Distanciamento mental ou cinismo em relação às atividades Redução da eficácia profissional Na prática, os sintomas vão além: cansaço físico constante, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, desmotivação e até isolamento social.  O agravante é que, muitas vezes, quem está em burnout nem percebe — ou prefere não admitir, por medo de julgamento ou represálias no trabalho. Entre os sinais mais comuns, destacam-se: Agressividade Isolamento Mudanças bruscas de humor Irritabilidade Dificuldade de concentração Lapsos de memória Ansiedade Depressão Pessimismo Baixa autoestima Ausências no trabalho Um estudo da Bee Touch revelou que 78% dos trabalhadores brasileiros  apresentam níveis moderados ou graves de estresse, e 66% sofrem com hiperconectividade , fator que potencializa o risco de burnout . O outro lado da moeda: o mundo do trabalho hoje A força de trabalho no Brasil vive um processo acelerado de precarização . A promessa de estabilidade e direitos – conquistada com décadas de luta – vem sendo substituída por contratos frágeis, vínculos temporários e avanço da informalidade. Essa precarização não é um fenômeno isolado, mas parte de uma engrenagem econômica que transforma o trabalhador em recurso descartável , sempre substituível e constantemente pressionado a produzir mais com menos. Assim o trabalhador, sem perceber, assume jornadas extensas, muitas vezes sem regulamentação ou descanso garantido, correndo atrás de metas invisíveis e números que mal existem na vida real. É uma lógica de drenagem de energia, tempo e saúde — exatamente onde o burnout encontra terreno fértil para crescer. Cuide-se… o quanto antes! O combate ao burnout não pode ser de responsabilidade exclusiva do trabalhador. É preciso um esforço coletivo para minimizar o adoecimento: Reconheça os sinais cedo : fadiga, dificuldade de concentração, distanciamento emocional e irritabilidade são alertas. Estabeleça limites claros : defina horários de trabalho, crie pausas e respeite o descanso. Reduza o tempo de tela fora do expediente , especialmente no celular e e-mails. Cuide do corpo e da mente : sono regular, alimentação equilibrada, atividade física e práticas de relaxamento (meditação, respiração, hobbies). Busque apoio profissional : psicoterapia, grupos de apoio e acompanhamento médico ajudam a evitar consequências mais graves, como depressão e ansiedade crônica. Burnout não é “frescura”, muito menos sinal de fraqueza. É um alerta de que algo está errado no ritmo e nas condições de trabalho —  e a culpa não é do indivíduo . Reconhecer, compreender e enfrentar os sinais (e o sistema que adoece) é preservar a qualidade de vida e o bem-estar. Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências: https://www.hcor.com.br/hcor-explica/outras/sindrome-de-burnout/ https://crmvsp.gov.br/precisamos-falar-sobre-a-sindrome-de-burnout-o-tipo-mais-devastador-de-estresse/ https://www.einstein.br/n/glossario-de-saude/sindrome-de-burnout https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases https://www.poder360.com.br/poder-saude/estresse-afeta-78-dos-trabalhadores-no-brasil-diz-estudo/?utm_source=chatgpt.com https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/esgotamento-mental-nem-sempre-e-burnout/ https://www.rededorsaoluiz.com.br/doencas/sindrome-de-burnout https://www.tjdft.jus.br/informacoes/programas-projetos-e-acoes/pro-vida/dicas-de-saude/pilulas-de-saude/sindrome-de-burnout-quais-as-causas-e-sintomas-mais-comuns https://jc.uol.com.br/gptw-pe/2023/10/15576811-saude-mental-em-primeiro-lugar-como-empresas-responsaveis-podem-evitar-o-burnout-e-o-estresse.html https://www.saudebusiness.com/artigos/como-cuidar-da-sade-mental-e-evitar-sndrome-de-burnout/?gad_source=1&gad_campaignid=22177707484&gbraid=0AAAAA-EKghXZfpXLq9bdMKM9LMbrmllJ0&gclid=CjwKCAjwtfvEBhAmEiwA-DsKjt5GFaNUp632upcgDXvTzDmxZ2xjhkMqJ1Rf_zOGxAkoLmLKHmp_rBoCVqAQAvD_BwE

  • Resenha de "Híbridos" – David Thorpe

    Sinopse: Johnny Online e Kestrella são mutantes atacados por um vírus que faz suas vítimas se fundirem com aparelhos tecnológicos. Enquanto uma histeria toma conta do país eles vivem com o medo de serem apanhados e enviados para o misterioso Centro de Reabilitação Genética de onde ninguém jamais escapou. Uma história surpreendente de ficção científica contada pelo premiado David Thorpe. Li esse livro em 2011, e resolvi trazer a resenha dele agora pois me parece extremamente adequada ao que vivemos hoje com a tecnologia! “Híbridos” é um suspense de ficção científica de tirar o fôlego. David Thorpe constrói um cenário angustiantemente plausível , onde o corpo humano se funde com a tecnologia  de maneira perturbadora. Consegue imaginar alguém com partes do corpo transformadas em dispositivos eletrônicos? Durante a leitura, é impossível não visualizar com nitidez essa realidade: “Ela me deu uma rápida visão de seu braço, arregaçando a manga de seu casaco de alpaca para revelar um telefone celular que emergia de sua mão. Pude ver seu ponto de transição: o modo como a carne mudava de cor, textura e substância, onde a mão parava de ser mão.” Assustador, não? Essa atmosfera me remeteu ao Admirável  Mundo Novo , de Aldous Huxley , não no estilo narrativo, mas na inquietação provocada. Ambos expõem mundos controlados por forças impessoais e hostis , que moldam os corpos e os destinos dos personagens com brutalidade silenciosa. A sensação de vulnerabilidade é constante. O que mais me conquistou foi a maneira como Thorpe narra com tanta agilidade e precisão que é impossível desgrudar os olhos das páginas. A história de Johnny Online e Kestrella, dois adolescentes híbridos, é ao mesmo tempo eletrizante e profundamente humana . Eles enfrentam a rejeição, o medo e a intolerância enquanto tentam sobreviver, confiar e permanecer livres. O desfecho é inesperado e impactante, um daqueles finais que a gente precisa digerir em silêncio. Embora escritos em contextos bem diferentes, os dois livros compartilham uma inquietação comum: o medo de um futuro onde a tecnologia e o controle social moldam profundamente o ser humano.  Mas cada autor aborda essa distopia por caminhos distintos. Em Híbridos, a tecnologia invade o corpo de forma literal. Os adolescentes começam a desenvolver mutações — como celulares que brotam dos braços  — e são perseguidos por isso. A ameaça não vem apenas da transformação física, mas da reação da sociedade: medo, intolerância, exclusão.  Já em Admirável Mundo Novo, a tecnologia é mais silenciosa, mas não menos opressora. Desde o nascimento, os indivíduos são moldados por manipulação genética, condicionamento psicológico e drogas que garantem uma “felicidade” artificial . Não há perseguição, porque não há resistência — todos foram ensinados a amar sua prisão. O ritmo narrativo também difere bastante. Híbridos é ágil, direto, com cenas que lembram um filme de ação, enquanto Admirável Mundo Novo aposta em diálogos densos e reflexões filosóficas sobre liberdade, identidade e o preço da estabilidade. Ambos os livros nos convidam a pensar sobre o que estamos dispostos a abrir mão em nome do progresso.  Em Híbridos, o alerta é sobre a dependência tecnológica e a marginalização dos que não se encaixam. Em Admirável Mundo Novo, a crítica recai sobre uma sociedade que troca autenticidade por conforto — e liberdade por obediência. No fundo, os dois autores nos mostram que o perigo não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como ela é usada para controlar, excluir e silenciar.  Seja pela força ou pela sedução, o resultado é o mesmo: uma sociedade que se afasta da empatia, da diversidade e da consciência. Recomendo vivamente essa leitura. Além da narrativa envolvente, o livro provoca uma reflexão urgente sobre nossa dependência crescente da tecnologia e sobre o que sacrificamos, especialmente nos relacionamentos, por passarmos tanto tempo conectados. Quantas conexões reais estamos deixando para trás enquanto as digitais se multiplicam? Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme V.G.

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