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Umbanda: entre a intolerância e o racismo

Atualizado: 12 de set. de 2025

Prazer, eu sou a Umbanda!


A Umbanda surgiu no começo do século XX, em um Brasil recém-saído da escravidão (1888) e da proclamação da República (1889), período de grandes mudanças urbanas, sociais e culturais. Esse cenário favoreceu o encontro de matrizes culturais africanas, indígenas e europeias, especialmente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde negros, ex-escravizados, imigrantes pobres e mestiços dividiam o mesmo espaço urbano.


Segundo Luiz Antônio Simas, na obra Umbandas: uma história do Brasil, a religião funcionou como uma importante válvula de resistência cultural e simbólica para os negros escravizados. As giras (rituais centrais realizados em terreiros) ocorriam, muitas vezes, após momentos de extrema violência, como as punições públicas aplicadas pelos feitores no tronco, onde o sangue ainda respingava das chibatas. Mesmo assim, os escravizados se reuniam para dançar, cantar e cultuar suas divindades, prática não compreendida pelos senhores, que interpretavam aquele festejo como insubordinação e afronta.


Como forma de ilustrar esse cenário, convido-os a observar atentamente a cena da novela "Sinha Moça", escrita por Benedito Ruy Barbosa e adaptada por Edmara Barbosa e Edilene Barbosa, exibida originalmente pela TV Globo entre 13 de março e 13 de outubro de 2006. Nela, logo após o açoite de um escravo, os demais se reúnem em uma dança coletiva. O contraste entre dor e celebração era considerado ilógico para os senhores de engenho, que esperavam que, após as penitências, os negros estivessem recolhidos em sofrimento e não em cerimônias festivas.


Cena da Novela Sinhá Moça - Globo

Simas explica que a Umbanda nasce como resposta aos processos de criminalização dos cultos africanos (Lei de Vadiagem, Código Penal de 1890), mas também como fruto da tentativa de criação de uma religião “nacional”, com elementos reconhecíveis por diferentes grupos sociais. A incorporação de caboclos e pretos-velhos (espíritos de indígenas e antigos escravizados) representa uma "valorização do passado brasileiro marginalizado, agora como guias espirituais", o que confere identidade brasileira à nova religião.


Apesar de ser fruto direto da miscigenação entre catolicismo, kardecismo, práticas indígenas e matrizes africanas, a Umbanda continua alvo de intensa rejeição e preconceito. Tal contradição se torna ainda mais evidente ao observarmos que suas matrizes-formadoras (como o próprio catolicismo ou espiritismo kardecista) são amplamente aceitas no imaginário social. O que se rejeita, portanto, não é o tipo de prática religiosa em si, mas o corpo predominantemente negro e estigmatizado que a pratica.


É justamente essa tensão que motiva o presente artigo: evidenciar como a Umbanda compartilha, adapta e ressignifica elementos comuns a outras religiões acolhidas no cotidiano social brasileiro, demonstrando que o fenômeno enfrentado pelos umbandistas não se restringe à intolerância religiosa, mas revela, de forma profunda, o racismo estrutural ainda vigente no país.


Entre Deus, Jeová, Allah, Yeshua e Oxalá: A desmistificação e o monoteísmo da religião


A classificação da Umbanda como religião monoteísta, politeísta ou henoteísta (culto a várias entidades, mas com reconhecimento de uma força suprema) ainda é alvo de debate entre pesquisadores. De modo geral, a maioria dos estudiosos entende que a Umbanda é, sim, uma religião monoteísta, pois afirma a existência de um único Deus criador, ainda que cultue diversas divindades e entidades espirituais que atuam como intermediários de Deus.


Assim como em diversas outras religiões, Deus se apresenta com nomes distintos, o que ocorre em razão da cultura presente no recorte histórico em que cada religião se originou. Na cosmologia umbandista, existe uma força suprema chamada Olorum, Oxalá, Zambi Maior ou simplesmente Deus, responsável pela criação de todos os mundos e seres. Essa ideia está na base teológica de praticamente todas as vertentes da religião (SIMAS, 2018; PRANDI, 2001).


É esse Deus que rege o destino do universo e representa o princípio máximo do bem, da justiça e da evolução espiritual, tanto quanto em tantas outras religiões mais bem acolhidas pela sociedade. Isso nos leva às próximas reflexões: quantos elementos são semelhantes entre a Umbanda e outras vertentes religiosas, e porque apenas os presentes na Umbanda são demonizados e repudiados?


Umbandismo e Catolicismo: Dos guias aos santos. Das rezas aos pontos


A religiosidade brasileira é marcada pelo sincretismo, esse “modo de fazer religião misturando símbolos, práticas e crenças”, como define Reginaldo Prandi (2001, p. 29). Umbanda e Catolicismo, por mais distintas que sejam em origem, compartilham gestos e rituais profundamente semelhantes.


No Catolicismo, os santos funcionam como intercessores entre Deus e os fiéis. São figuras humanas canonizadas pela Igreja, que realizam graças em nome do divino. Na Umbanda, os guias espirituais, como Pretos-Velhos, Caboclos e Crianças — também operam como mediadores entre o plano terreno e o plano superior (SIMAS, 2018, p. 67).


Enquanto santos como São Jorge, Nossa Senhora ou São Sebastião são amplamente venerados pela população, guias como Pai Joaquim, Caboclo Tupinambá ou Ogum Sete Ondas ainda são vistos como “entidades menores” ou “espíritos atrasados”, fruto de uma desvalorização histórica do conhecimento africano e indígena (NEGRÃO, 1996).


Curiosamente, muitos terreiros de Umbanda têm imagens de santos católicos em seus altares, numa forma de sincretismo cultural que o Catolicismo, ao contrário, raramente pratica com símbolos umbandistas.


Em ambas as religiões, a palavra sonora convoca o sagrado. Católicos rezam ladainhas, ave-marias e salmos com ritmo e cadência que produzem estado devocional. Na Umbanda, os pontos cantados cumprem função semelhante: “firmam” a energia do guia e estabelecem a ligação com o plano espiritual através do canto, do toque e da repetição (ORO, 2005, p. 65). Assim como as orações católicas, os pontos têm poder de consagrar o espaço, afastar negatividades e chamar a proteção divina, mas apenas os pontos são historicamente associados ao “mito da feitiçaria”, reforçando preconceitos raciais contra tradições negras (ALBUQUERQUE & NEGRÃO, 2015).


Umbandismo e Evangelismo: Do preceito ao jejum. Do banho de ervas ao óleo de unção


Apesar de trajetórias históricas distintas, Umbanda e Evangelismo compartilham símbolos, práticas e finalidades espirituais profundamente semelhantes. Ainda assim, enquanto o Evangelismo é amplamente aceito no cenário religioso nacional, a Umbanda continua sendo alvo de preconceito e marginalização, reflexo de um racismo estrutural que perpassa nossa sociedade (ALBUQUERQUE e NEGRÃO, 2015).


Na Umbanda, o preceito consiste em um conjunto de abstinências físicas, alimentares, sexuais ou comportamentais que antecedem o contato com o sagrado, com o objetivo de “preparar o corpo como instrumento da mediunidade” (SIMAS, 2018, p. 114). De forma semelhante, no Evangelismo, o jejum é compreendido como prática espiritual que visa fortalecer o vínculo com Deus, “submetendo a carne ao espírito” (HORTON, 2007, p. 56). Em ambos os casos, a privação voluntária do corpo atua como mecanismo de disciplina espiritual e elevação energética, funcionando como dispositivo de limpeza interior.


Outro paralelo interessante é o banho de ervas na Umbanda, recentemente retratado na novela "Garota do Momento", exibida pela TV Globo entre 4 de novembro de 2024 e 27 de junho de 2025. Nesse ritual, utilizam-se plantas classificadas como “quentes” ou “frias” para limpar ou equilibrar campos energéticos (ORO, 2005, p. 73). Já no Evangelismo neopentecostal, a unção com óleo é usada para consagrar pessoas e livrá-las de males espirituais (MARIANO, 2004, p. 188). Ambos os rituais funcionam como catalisadores de “descarrego” ou fortalecimento espiritual, embora apoiados em simbologias de matrizes distintas: na Umbanda, o saber ancestral afro-indígena das ervas; no Evangelismo, a leitura bíblica do azeite como elemento de consagração (cf. Tiago 5:14-15).


Cena da Novela Garota do Momento - Globo

Nunca foi sobre Intolerância Religiosa


A reflexão que emerge é contundente: por que práticas aparentemente tão próximas são encaradas socialmente de forma tão distante? Porque igrejas e templos são sempre visíveis e acessíveis, enquanto  terreiros precisam ser pequenos, discretos e muitas vezes disfarçados como casas em becos escondidos?


Como argumenta Luiz Antônio Simas (2018), a Umbanda nasce no Brasil como religião profundamente mestiça, amalgamando elementos africanos, indígenas, kardecistas e católicos. Mas, por trazer em seu cerne símbolos, entidades e saberes de matriz negra e popular, passou a ocupar o lugar do “demonizado” dentro de um país que insiste em se ver como branco, mesmo sendo majoritariamente negro e pardo (GOMES, 2019).


Enquanto o Evangelismo e o Catolicismo ocupam um espaço privilegiado e crescente na esfera pública (inclusive com representatividade política), a Umbanda segue sendo alvo de estigmatização, ataques e violências simbólicas, exatamente por representar e preservar heranças africanas e indígenas constantemente silenciadas (SILVA e OLIVEIRA, 2020). Como aponta Negrão (1996), “o racismo religioso no Brasil se instala quando práticas afro-brasileiras são criminalizadas culturalmente sob o rótulo de feitiçaria, mesmo quando equivalem, em função, a ritos cristãos amplamente aceitos”.


A Umbanda nasceu da dor, da exclusão e da genialidade criativa de um povo que, mesmo após a escravidão, continuou sendo marginalizado socialmente. Ao reunir elementos do catolicismo, espiritismo kardecista, religiosidades indígenas e africanas, a religião buscou se “disfarçar” para sobreviver em um país onde ser negro e cultuar o sagrado ancestral era (e muitas vezes ainda é) sinônimo de perseguição. O uso de santos católicos, por exemplo, não foi apenas uma escolha estética ou teológica, mas uma estratégia de camuflagem frente ao preconceito racial e à violência institucionalizada.


Hoje, no entanto, o movimento umbandista caminha no sentido oposto: de descolonizar suas práticas, resgatar suas raízes negras e indígenas e se afirmar como expressão religiosa autêntica e legítima. O que antes se ocultava para escapar do racismo, agora se exibe como resistência a ele. A ancestralidade que já foi silenciada se torna bandeira de orgulho e ferramenta de enfrentamento.


A luta dos umbandistas, portanto, não é apenas por liberdade de culto, mas por reconhecimento e valorização de uma espiritualidade que é profundamente brasileira. Uma fé que não cabe mais nos becos escondidos, porque pertence às ruas, às praças, às universidades e às consciências críticas que entendem que combater o racismo religioso é também um passo essencial para um país mais justo e verdadeiramente plural.


Axé a todos!


Texto escrito por Mayara Ribeiro

Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano.



Revisão por Eliane Gomes

Edição por João Guilherme V.G.



Referências:


ALBUQUERQUE, W.; NEGRÃO, L. Intolerância religiosa no Brasil: um ponto fora da curva? Revista USP, v. 107, 2015.


GOMES, Nilma Lino. O corpo negro e seus símbolos. Pallas, 2019.


HORTON, Stanley. Doutrinas bíblicas: fundamentos da fé pentecostal. CPAD, 2007.


MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Loyola, 2004.


NEGRÃO, Lígia. Umbanda: catolicismo, espiritismo e religiosidade popular. Edusp, 1996.


ORO, Ari Pedro. Curas e curandeiros: estudos sobre Xamanismo e Umbanda. Vozes, 2005.


SIMAS, Luiz Antônio. Umbandas: uma história do Brasil. Civilização Brasileira, 2018.


SILVA, Vagner Gonçalves da; OLIVEIRA, Lourenço. Racismo religioso e intolerância no Brasil. Mauad X, 2020.


BRASIL. Relatório Anual de Recebimento de Denúncias do Disque 100 (2023). Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania.


ISP/RJ. Dossiê Intolerância Religiosa – 2023. Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro.


CENARAB. Relatório Nacional de Violência Religiosa – 2023.


GIUMBELLI, Emerson; SILVA, Vagner Gonçalves (org.). Religiões Afro-brasileiras e violência simbólica. UERJ, 2022.


SILVA, Vagner; OLIVEIRA, Lourenço. Racismo religioso e intolerância no Brasil. Mauad X, 2020.


FGV. Percepções sobre diversidade religiosa no ambiente de trabalho. Relatório técnico, 2021.


SAFERNET BRASIL. Indicadores de discurso de ódio religioso nas redes – 2022.



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