Nepal em fúria: Quando os jovens desafiam a elite
- Editorial Portal Águia

- 19 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Era um dia comum de trabalho, daqueles em que tudo parecia seguir o ritmo habitual. Enquanto preparava meu café para iniciar a jornada, abri o Instagram sem grandes expectativas e fui surpreendida. A primeira postagem que apareceu na tela tratava justamente do tema deste artigo: o Nepal. Um país que, confesso, não figurava no meu radar se tivesse que listar nações em crise ou à beira de rupturas políticas. A notícia era forte: o ministro da Economia lutava pela vida após ter sido jogado em um rio.
Essa ausência do Nepal no meu radar não é por acaso. Trata-se de um país que raramente ocupa o foco das notícias internacionais. No entanto, os protestos e a violência envolvida desencadeada revelaram uma crise política que merece atenção.
Para compreender a dimensão e a gravidade da situação, é necessário observar os eventos que se desenrolaram nos últimos dias. Tudo começou em 4 de setembro, quando o governo bloqueou redes sociais populares, como Facebook, YouTube e WhatsApp.
“A crise, a mais sangrenta que o Nepal viveu desde a abolição da monarquia em 2008, começou na segunda-feira, quando a polícia abriu fogo contra jovens manifestantes que denunciavam o bloqueio das redes sociais e a corrupção das elites” (RFI, 2025).
Quatro dias depois, em 8 de setembro, jovens da Geração Z tomaram as ruas de Kathmandu, protestando contra a corrupção, o nepotismo e a falta de oportunidades. Enfrentaram a polícia em confrontos que resultaram em dezenas de mortos. A violência escalou rapidamente; em 9 de setembro, prédios governamentais foram incendiados e o primeiro-ministro entrou em reclusão. Nos dias seguintes (13 a 17 de setembro), um governo interino assumiu, os mortos (72) foram declarados mártires e o país decretou luto nacional.
Mas como o Nepal chegou a esse ponto?
A crise é resultado de uma sequência de instabilidades políticas e do crescente descontentamento popular com a elite governante. As promessas dos partidos comunistas que assumiram o poder após a queda da monarquia foram repetidamente frustradas, enquanto corrupção e autoritarismo se tornaram práticas comuns. Movimentos sociais na região, como os protestos no Sri Lanka e em Bangladesh, influenciaram a mobilização nepalesa. No entanto, o principal catalisador foi o descontentamento acumulado da população, intensificado pela recente proibição das redes sociais.
Historicamente, o Nepal aboliu a monarquia em 2008, após décadas de lutas sangrentas e movimentos populares. Antes disso, o massacre da família real em 2001 gerou instabilidade, e o rei Gyanendra assumiu o poder, dissolvendo o Parlamento em 2005 e instaurando um regime autoritário, proibindo partidos e censurando a imprensa. O Movimento Popular de Abril de 2006 (Jana Andolan II) reuniu milhões de nepalenses nas ruas durante 19 dias, pressionando a monarquia. Em 2008, a Assembléia Constituinte aprovou oficialmente a abolição da monarquia, estabelecendo a República Democrática Federal do Nepal.
O fim da monarquia gerou grandes expectativas, mas os três principais partidos políticos - Congresso Nepali (centro esquerda), Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado) e Partido Comunista (Centro Maoísta) se envolveram em disputas pelo poder, sem trazer melhorias significativas à população. Essa disputa, somada à corrupção e ao autoritarismo, alimentou o descontentamento popular, culminando na onda de protestos recentes com os jovens assumindo a linha de frente das manifestações.
A sequência dos acontecimentos revela não apenas o descontentamento juvenil, mas também anos de fragilidade política, desigualdade e uma geração que exige voz e mudança imediata. A Geração Z, nascida em um contexto de mudanças rápidas e com acesso à informação e às redes sociais, tornou-se o motor da mobilização. Eles encarnam a urgência de ação, a rejeição às promessas vazias e a busca por oportunidades reais. Essa combinação entre expectativas frustradas e voz ativa explica a intensidade das manifestações.
O que acontece no Nepal importa muito além de suas fronteiras. A mobilização de uma juventude digitalmente conectada mostra que as novas gerações têm poder real para pressionar instituições e desafiar governos tradicionais. Além disso, os conflitos atuais refletem questões históricas compartilhadas por outras crises: desigualdade, falta de oportunidades e corrupção.
O caso nos lembra da importância de construir sociedades mais justas e resilientes, fundamentadas em diálogo, transparência e inclusão. Quando vozes e demandas são ignoradas, aumenta o risco de que o descontentamento exploda de forma trágica. O movimento popular não é fruto de conspirações externas, mas da insatisfação acumulada diante de governos que falharam em atender às necessidades básicas e às expectativas democráticas. Esse cenário serve como alerta sobre a urgência de ouvir a população, prevenir práticas autoritárias e fortalecer instituições democráticas sólidas.
Editorial Portal Águia
Revisão por Eliane Gomes
Edição por João Guilherme V.G.
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