Por que mulheres não podem ter hobbies?
- Editorial Portal Águia

- há 5 horas
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Hobby, substantivo masculino derivado do inglês, é definido como um passatempo, uma atividade realizada para distração ou prazer. Para alguns homens, pode ser o futebol aos fins de semana ou a tradicional partida de sinuca com os amigos na sexta-feira após o expediente. Já para muitas mulheres, o hobby ainda se apresenta como um luxo distante: grande parte de seu tempo é absorvida pelo trabalho remunerado e pelas responsabilidades domésticas, o que limita a possibilidade de dedicar-se a atividades de lazer.
Dados do IBGE revelaram que mulheres dedicam, em média, 9,6 horas a mais por semana aos afazeres domésticos e familiares em comparação aos homens. Essa sobrecarga é resultado de uma construção social que historicamente atribuiu às mulheres a responsabilidade pelo cuidado da casa e dos filhos, mesmo quando elas também estão inseridas no mercado de trabalho.
Além disso, vale ressaltar que a falta de tempo para o lazer pode ter grande impacto sobre a saúde mental da mulher. O hobby, associado ao descanso e à distração, acaba sendo substituído por jornadas longas e contínuas de trabalho, o que contribui para o aumento do estresse, da ansiedade e da sensação de esgotamento.
Dessa forma, enquanto o lazer e o fanatismo masculino são naturalizados em nossa sociedade, do futebol com os amigos aos jogos de videogame, o tempo livre e o direito de ser fã das mulheres são frequentemente questionados ou interrompidos.
O corpo feminino e o controle social
Crescemos ouvindo qual é o papel da mulher e do homem dentro de casa. Por uma suposta “ordem natural”, as funções de cuidadora e de provedor são bem estabelecidas, o que evidencia que essa construção social de longa data se sustenta principalmente pela naturalização dos papéis de gênero.
Nesse sentido, essa ideologia influencia diretamente a forma como as atividades sociais são divididas. Como consequência, praticar hobbies, algo que deveria ser uma livre escolha, transforma-se em uma prática social estruturada para a manutenção da dominação masculina. Assim, quando uma mulher procura romper com esse padrão, acaba tornando-se alvo de hostilização, especialmente em práticas de lazer tradicionalmente associadas ao público masculino.
Outro ponto importante é a constante desvalorização do saber feminino, presente em comentários como: “Você gosta de futebol? Então me diz o que é impedimento” ou “Se você realmente acompanha Fórmula 1, me explica como funciona o DRS”. Além disso, há as frequentes piadas sobre hobbies tipicamente femininos: “Crochê é coisa de velha”, “Você cozinha muito, já dá para casar” ou “Larga de acompanhar grupos coreanos e faz algo de útil”.
Independentemente do que a mulher escolha fazer, sempre haverá questionamentos e críticas. Isso evidencia que o problema não está no hobby em si, mas na busca constante pelo controle dos corpos e interesses femininos. Ao limitar o direito das mulheres a experiências e momentos de lazer, reforça-se uma lógica que as subordina à utilidade e à aprovação social.
Dessa forma, romper com esse ciclo passa pelo entendimento de que hobbies não definem valor ou competência, mas sim representam formas de expressão, autonomia e cuidado.

Quem tem o direito de ser fã?
Nem todo hobby se transforma em fanatismo, mas todo fã nasce de um interesse que começou pequeno. Enquanto o fanatismo masculino, sobretudo no esporte, foi historicamente legitimado como paixão e tradição, no caso das mulheres não bastam os questionamentos: surge também a cobrança pela perfeição, em que até o lazer ou a admiração exigem maestria.
Não basta gostar de fotografia: é preciso ter o melhor equipamento. Não basta pintar: é preciso produzir com afinco. Não basta produzir conteúdo nas redes sociais: é preciso conquistar muitos seguidores e viralizar. A situação se torna ainda pior quando o gosto está ligado à cultura pop, um território que, por muito tempo, foi tratado como “coisa de mulher” e, por isso, automaticamente desvalorizado.
A intensidade e a admiração das mulheres sempre foram reduzidas a exagero, imaturidade ou superficialidade ao longo da história. Como se sua forma de sentir precisasse ser explicada, controlada ou diminuída. No entanto, a ideia do hobby nasce justamente da necessidade de uma pausa na rotina: realizar algo sem pensar em desempenho, reconhecimento ou lucro.
E, na prática, a realidade é completamente diferente. Um exemplo disso é que, historicamente associado ao público masculino, ano após ano as modalidades esportivas ganham cada vez mais mulheres como fãs. De acordo com o estudo da Collective, empresa de consultoria feminina em esportes e entretenimento, 72% das mulheres se declaram fanáticas por uma ou mais modalidades. Elas acompanham de perto campeonatos, consomem conteúdos, participam de torcidas organizadas e constroem novas formas de se relacionar com esportes que antes pareciam distantes, tornando a experiência de torcer mais inclusiva e comunitária.
Esse movimento também redefine a forma como as atletas recebem visibilidade e reconhecimento. O engajamento feminino passa a impulsionar a audiência, os patrocínios e o debate público sobre equidade no esporte, transformando jogadoras em referências culturais e atribuindo real valor às suas trajetórias, identidades e narrativas dentro e fora das competições.
Esse protagonismo também se fortaleceu nos anos 2000, com o surgimento dos fandoms de divas pop, séries de TV e reality shows, das plataformas de fanfics e das torcidas esportivas de jogos online. Segundo pesquisa da Monks, em parceria com a Floatvibes, o perfil do fã brasileiro é majoritariamente composto por mulheres entre 25 e 35 anos, o que comprova que a base dessas comunidades passa, em grande parte, pelas mãos delas.
É justamente nesses espaços que milhões de mulheres constroem identidade, linguagem própria e presença cultural. São elas que movimentam, impulsionam e transformam entretenimento em experiência coletiva. Aquilo que por tanto tempo foi reduzido à “coisa de mulher” é, na prática, um dos motores mais potentes da cultura contemporânea.
Texto escrito por Alice Trindade e Jeane Queiroz
Alice é graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia.
Jeane é jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda.







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