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Reforma Administrativa: o que está em jogo

A reforma administrativa voltou a ocupar o centro do debate público em Brasília. Em 2025, novas propostas e discussões sobre mudanças nas regras de ingresso, estabilidade e gestão do serviço público reacenderam questionamentos: a modernização trará maior eficiência e qualidade no atendimento ou implicará perda de direitos e precarização das condições de trabalho?


Este artigo apresenta os principais pontos em discussão, o estágio atual de tramitação e os impactos práticos para cidadãos quanto para servidores.

Imagem de um inflável em uma manifestação. Representação de um "Cavalo de Troia" escrito: Reforma Administrativa do Hugo Mota: Enganação contra o povo. Três esferas do serviço público
Foto: imprensa ANDES_SN 

A origem do debate


A ideia de “reforma administrativa” não é nova no Brasil. A versão mais recente, a PEC 32/2020, já havia gerado intensos debates, mobilizações de servidores públicos e ampla repercussão social. Contudo, após a troca de governo em 2023, o texto perdeu força e acabou arquivado.


Com a nova conjuntura política e econômica, o tema voltou à pauta. Em 24 de outubro de 2025, foi protocolada a PEC 38/2025, acompanhada de um projeto de lei complementar (PLP) e de um projeto de lei ordinária (PL), ambos com 171 assinaturas, abrindo oficialmente a tramitação da proposta.


A justificativa apresentada pelos proponentes é direta: modernizar a administração pública, introduzir mecanismos de eficiência, reduzir “privilégios históricos” e adaptar a estrutura do Estado às demandas contemporâneas, incluindo digitalização e metas de desempenho. Para o governo, representado pela ministra Esther Dweck, responsável pela gestão do Estado, a reforma não se trata de “desmonte”, mas de “transformação”: tornar o Estado mais ágil, eficaz e capaz de entregar políticas públicas com qualidade. Segundo a ministra, o debate supera a lógica da PEC 32, ao priorizar governança, carreira e inovação.


Mas afinal, qual é o conteúdo da proposta e o que pode mudar concretamente para servidores e cidadãos?


PEC 38/2025: os quatro eixos estruturantes


A PEC 38/2025 organiza suas propostas em quatro eixos principais, voltados à reformulação da lógica de gestão pública no Brasil.


1. Estratégia, Governança e Gestão

  • Implementação de planejamento estratégico no setor público, com metas e objetivos definidos para órgãos e entidades.

  • Estabelecimento de acordos de resultados e metas de desempenho vinculados à execução orçamentária e à avaliação gerencial.

  • Criação de mecanismos de controle e responsabilização, reforçando a proposta de “gastar melhor” os recursos públicos.


2. Transformação Digital

  • Digitalização integral dos serviços públicos, com interoperabilidade entre sistemas, governo eletrônico, atendimento remoto e simplificação de processos burocráticos.

  • Expansão do uso de tecnologia para tornar o Estado mais acessível e eficiente no atendimento à população.


3. Profissionalização do Serviço Público

  • Reformulação das carreiras públicas: progressão por mérito e desempenho, com múltiplos níveis salariais e fim da progressão automática apenas por tempo de serviço.

  • Estágio probatório mais rigoroso: avaliações detalhadas, com possibilidade de exoneração caso o servidor seja considerado inapto.

  • Uniformização das tabelas remuneratórias: incorporação de gratificações e adicionais à remuneração básica, eliminando benefícios automáticos vinculados ao tempo de serviço.


4. Extinção de “Privilégios” e Regras de Remuneração

  • Revisão de regimes e benefícios: mudanças em aposentadorias, adicionais, férias e folgas consideradas “excessivas” ou “privilégios históricos”.

  • Principais propostas: redução do período de férias, limitação de adicionais de insalubridade e periculosidade, fim da conversão de férias em pecúnia e estabelecimento de teto remuneratório para empresas estatais.

  • Abrangência nacional: aplicação das medidas à União, estados e municípios, com impacto direto   em toda a estrutura do serviço público.

 

Em síntese: a PEC 38/2025 busca redesenhar de forma profunda o modelo de serviço público brasileiro. A proposta substitui pilares históricos - como estabilidade, incentivos vinculados ao tempo de serviço e vínculos garantidos - por um sistema orientado à meritocracia, ao alcance de resultados e à adoção de contratos mais flexíveis.


O olhar dos defensores


Os defensores da PEC 38/2025, entre eles membros do governo, parte da bancada parlamentar e analistas da área de administração pública, argumentam que o Brasil precisa modernizar o Estado por diversas razões:


  • Eficiência e boa gestão: um Estado moderno deve contar com estruturas flexíveis, foco em resultados e capacidade de adaptação às demandas contemporâneas.


  • Superação da rigidez: o modelo tradicional, considerado excessivamente burocrático, dificultaria respostas ágeis, inovação e o uso inteligente dos recursos públicos.


  • Combate a privilégios e supersalários:  há críticas de que cargos públicos, adicionais e regras de aposentadoria tradicionalmente favorecem segmentos específicos, gerando distorções e desigualdades. A reforma propõe corrigir isso.


  • Atualização das carreiras e meritocracia: a lógica de evolução baseada em mérito, e não apenas por tempo de serviço, poderia estimular maior produtividade, incentivar a qualificação contínua e gerar resultados concretos para a população.


  • Estado adaptado aos desafios modernos: com digitalização, planejamento estratégico e práticas de governança, o serviço público estaria mais preparado para enfrentar demandas contemporâneas, responder a crises e garantir maior eficiência administrativa.


Declaração do governo

Segundo a ministra responsável pela gestão do Estado, o objetivo da reforma é “não desmontar o Estado, mas transformá-lo”, de modo a tornar cada real gasto mais eficaz e assegurar a entrega de políticas públicas com qualidade.


O olhar dos opositores


Por outro lado, diversas entidades sindicais, especialistas em administração pública, representantes de servidores e parte da sociedade civil levantam preocupações sérias e críticas à PEC 38/2025. Entre os principais argumentos contrários:


1. Precarização do serviço público e dos vínculos

  • Insegurança para servidores: a substituição de vínculos permanentes por contratos temporários ou sujeitos a avaliação contínua pode gerar instabilidade, demissões arbitrárias e pressão excessiva por metas.

  • Risco à autonomia e imparcialidade: a estabilidade, historicamente garantida, seria enfraquecida, comprometendo a independência do servidor frente a pressões externas.

  • Limitações da meritocracia por metas: esse modelo tende a desconsiderar contextos estruturais e desigualdades regionais, favorecendo áreas menos vulneráveis e penalizando setores mais críticos.

  • Avaliação de desempenho questionada: especialistas alertam que os critérios podem se tornar subjetivos e suscetíveis a influências políticas, comprometendo a justiça e transparência do processo.


2. Riscos à continuidade e qualidade dos serviços públicos

  • Deterioração de serviços essenciais: a redução de quadros, a limitação de gastos e a possível substituição de servidores por contratados podem comprometer áreas fundamentais como educação, saúde, segurança e assistência social, especialmente em regiões periféricas ou menos atrativas.

  • Impacto nas políticas de longo prazo: a ênfase em metas de curto prazo pode fragilizar iniciativas estruturais, limitar a inovação institucional e prejudicar a formação de capacidade técnica do Estado.

  • Perda de memória institucional: a rotatividade e a flexibilização dos vínculos podem enfraquecer a continuidade administrativa, afetando a excelência e a qualidade dos serviços públicos.


3. Erosão da independência técnica e risco de politização

  • Estabilidade como pilar institucional: a estabilidade dos servidores é considerada essencial para garantir impessoalidade, autonomia técnica e proteção contra interferências políticas.

  • Risco de politização: ao revisar esse modelo, a reforma pode abrir espaço para pressões externas e comprometer a neutralidade das instituições públicas.

  • Desvalorização de funções especializadas: a uniformização das tabelas salariais e a eliminação de adicionais podem reduzir o reconhecimento de atividades que exigem alta especialização ou envolvem risco, tornando o serviço público menos atrativo e qualificado.


Para muitas entidades, a PEC 38/2025 representa não representa apenas uma reforma administrativa, mas sim um desmonte do modelo republicano de serviço público. esse modelo, historicamente sustentado pela estabilidade, pela impessoalidade e pela universalidade, seria colocado em risco diante das mudanças propostas.


Membros de uma comissão e da sociedade civil discutindo a reforma administrativa
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados. Fonte: Agência Câmara de Notícias

Onde estamos agora: tramitação, mobilização e incertezas


  • A PEC 38/2025 foi protocolada em 24 de outubro de 2025, com o apoio inicial de 171 parlamentares.


  • A proposta seguirá para análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), depois para uma comissão especial e, caso aprovada em primeira instância, será encaminhada ao plenário da Câmara. Para avançar, são necessários ao menos 308 votos favoráveis. 


  • Em paralelo, cresce a mobilização de entidades representativas de servidores, sindicatos e movimentos sociais, que organizam protestos, audiências públicas e manifestações contrárias. Recentemente, houve ato massivo em Brasília contra a reforma.


  • Entre parlamentares, crescem os sinais de recuo ou insegurança: já há retiradas de apoio à proposta por parte de alguns signatários. Alguns setores da própria base governista demonstram reservas quanto ao avanço da reforma.



O debate em torno da PEC 38/2025 está longe de se encerrar. O processo pode envolver recuos, emendas e negociações intensas, ou até mesmo resultar em uma nova versão do texto. A mobilização social e o escrutínio público terão papel decisivo na definição dos próximos passos, influenciando diretamente o rumo da reforma administrativa.


O que muda e o que permanece em aberto


Para o cidadão comum, para quem planeja concursos e para servidores atuais ou futuros, os impactos da PEC 38/2025 podem ser significativos. Caso a reforma seja aprovada, alguns pontos concretos se destacam:


  • Carreira mais volátil: menor rigidez e previsibilidade, com contratos vinculados a metas e avaliações de desempenho. O não cumprimento dos requisitos pode resultar em desligamento, tornando o emprego público menos estável.


  • Redução de benefícios: eliminação ou limitação de adicionais automáticos, o que pode reduzir a remuneração efetiva, sobretudo para servidores com longo tempo de serviço ou em funções de risco.


  • Risco de precarização do atendimento: serviços essenciais — como saúde, educação, segurança e assistência social - podem sofre com redução de quadros, terceirização ou restrições orçamentárias para expansão de pessoal.


  • Desigualdade regional: funções essenciais em áreas remotas ou menos "visíveis", podem ser negligenciadas, resultando em menor qualidade de contratação e agravando disparidades entre regiões.


O dilema da modernização vs. a proteção do Estado


A reforma administrativa proposta pela PEC 38/2025 surge em um momento de tensão entre duas missões fundamentais: modernizar o Estado brasileiro e preservar a função pública como pilar da democracia, do atendimento igualitário e da justiça social. É legítimo, e talvez urgente, repensar estruturas, ajustar rigidezes, buscar eficiência e eliminar distorções.


No entanto, a experiência internacional e os alertas de especialistas indicam que tais reformas devem avançar com cautela. A austeridade ou o corte de gastos, por si só, nem sempre resultam em maior qualidade. Para que a mudança cumpra seu propósito sem causar danos irreversíveis, são indispensáveis: objetividade nas avaliações, salvaguardas contra a politização, garantias de direitos e um forte compromisso com a universalidade dos serviços públicos.


O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio: modernização com responsabilidade; eficiência com compromisso social; meritocracia com justiça e, sobretudo, transparência e participação da sociedade.


Enquanto a tramitação avança e o debate se intensifica, cabe aos cidadãos, servidores e à sociedade civil acompanhar de perto, informar-se e participar ativamente. Afinal, a forma como o Estado se organiza, e quem são os servidores que o compõem, impacta diretamente o cotidiano de todos nós.


Texto escrito por Mayara Ribeiro

Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano.



Revisão por Eliane Gomes

Edição por João Guilherme V.G.


Referências


PEC 38/2025 — texto de 24 de outubro de 2025, protocolo na Câmara dos Deputados. Disponível em: https://noticias.r7.com/brasilia/pec-da-reforma-administrativa-e-oficialmente-protocolada-na-camara-25102025/


Relato oficial da apresentação da proposta e síntese dos quatro eixos da reforma. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1209763-pec-da-reforma-administrativa-promove-resultados-governo-digital-e-combate-a-privilegios/



Posicionamento do governo — visão de modernização e reconstrução do Estado — declarado pela ministra responsável. Disponível em: https://www.gov.br/gestao/pt-br/assuntos/noticias/2025/agosto/trabalho-de-transformacao-do-estado-feito-pelo-governo-federal-mudou-o-debate-sobre-a-reforma-administrativa-diz-esther-dweck?


Críticas, mobilização de entidades, riscos de precarização e impactos sobre serviços públicos. Disponível em: https://unacon.org.br/2025/11/24/reforma-administrativa-em-marcha-a-re-2-a-pec-38-2025/


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