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  • O clima não espera: A COP30 chega a Belém, mas e as nossas vozes?

    Em português, COP significa Conferência das Partes. A COP 30, conferência do clima da ONU , chega a Belém para discutir o futuro do nosso planeta. O tema central é aprofundar o debate sobre a crise climática, buscando acordos para cortar emissões de gases poluentes, ajudar o mundo a se adaptar às mudanças já em curso, garantir mais recursos para os países mais afetados e proteger nossas florestas  e toda a vida que nelas existe. Bonito, né? Foto: Jorge Leão / Brasil de Fato Mesmo sem ser acadêmica ou estudiosa do tema, sabemos que, para que essa conversa faça sentido de verdade, a voz de quem mais sente as enchentes, as secas e o calor insuportável precisa estar presente.  Será que as pessoas que vivem na ponta foram ou serão ouvidas? Ou será mais uma daquelas reuniões de cúpula que prometem muito e entregam pouco? O Brasil, com sua beleza e diversidade, também carrega marcas profundas de desigualdade. O clima pesa mais do nosso lado. Nossas marcas, nossas cores, nossas histórias A Amazônia e Belém são um caldeirão de culturas: povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e uma grande população urbana . Por muito tempo, a "morenidade" tentou apagar a nossa identidade negra, nossa história e a força que carregamos. Mas a verdade é que o povo negro tem raízes profundas na Amazônia , com sua cultura vibrante e sua luta diária. E não somos os únicos que resistem: indígenas, ribeirinhos e outras comunidades também enfrentam seus desafios com força. Falar de justiça climática exige entender e refletir que as mudanças do clima não afetam todo mundo da mesma forma . Pessoas em situação de maior vulnerabilidade são as mais castigadas. Áreas sem saneamento básico sofrem mais com enchentes e poluição, além da dificuldade de acesso a serviços essenciais. E são justamente nessas áreas que vivem a maioria da população negra, indígena e das comunidades tradicionais. Isso tem nome: racismo ambiental  e injustiça climática . Essa realidade não é exclusiva de Belém. É a mesma nas comunidades do Rio de Janeiro, de onde falo, nas favelas de São Paulo, no semiárido do Nordeste e por aí afora. As vozes que vêm das Ilhas, dos Quilombos e das periferias chegam à COP 30? A invisibilidade nos afasta de decisões importantes que impactam nossas vidas. Em Belém, segundo o Censo 2022 do IBGE, quase 75% da população se autodeclara parda ou preta . É uma cidade majoritariamente negra. As manifestações culturais, como o carimbó e as festas de matriz africana, são prova viva da riqueza e resistência do povo negro. Pensemos na Ilha de Cotijuba, pertinho de Belém. Lá não há carros, apenas motorretes (carroças puxadas por motocicletas). Segundo o Sr. Ítalo, morador da ilha e condutor de motorrete, a ideia veio da Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. A internet, que parece básica para muitos, só chegou de verdade por lá em 2023.   Vídeo demonstrando como é uma viagem de motorrete. Fonte: Arquivo Tudo se resolve em Belém, a 45 minutos de barco (especificamente do terminal de Icoaraci, que é um distrito de Belém de onde partem os barcos). Como uma pessoa de lá, ou de uma comunidade ribeirinha ainda mais isolada, pode se informar sobre a COP 30 e, prin cipalmente, participar? Foto: Mauro Ângelo / Diário do Pará Invisibilidade e sub-registro civil Entre tantos fatores que tornam pessoas invisíveis, está a triste realidade do sub-registro civil  (nome dado pelo IBGE aos nascimentos não registrados em cartório dentro do prazo legal, que geralmente é o ano do nascimento ou o primeiro trimestre do ano seguinte). Para ter acesso a qualquer direito  - saúde, escola, programas sociais e até um sepultamento digno - o primeiro passo é existir para o governo, ter certidão de nascimento. Sem ela, a pessoa é praticamente invisível. No Brasil, 99,3% das crianças de até 5 anos tinham registro civil em 2022. É um avanço, mas ainda desigual. Na Amazônia Legal, a situação é mais grave: em Roraima, 89,3% das crianças indígenas com até cinco anos não têm registro; no Amapá, esse número é de 6,6%. São crianças que mal existem no papel. Como podem ter voz num evento global? A falta de registro de nascimento pode ser causada por diversos fatores, incluindo a falta de informação sobre a gratuidade e importância do documento, dificuldade de acesso aos cartórios   (especialmente em áreas rurais e remotas) e a um grande número de pais que também não foram registrados e desta forma não podem registrar seus filhos. A pobreza tem cor e gênero Os dados gritam a realidade da desigualdade: 37,7% dos brasileiros abaixo da linha da pobreza são negros, contra 18,6% de brancos (IBGE 2021). 68% das pessoas em situação de rua são negras (51% pardas e 17% pretas), e 87% são homens segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) / Cadastro Único (CadÚnico), dados de dezembro de 2022. Mulheres negras são as mais afetadas pela violência doméstica (cerca de 66%) e pela extrema pobreza. Famílias chefiadas por elas são quase cinco vezes mais pobres que as chefiadas por homens brancos. Barreiras para participar da COP 30 Participar da COP 30 é um desafio gigante : credenciamento, transporte caro, hospedagem, alimentação. Para quem vive em Cotijuba ou em comunidades com pouca estrutura, esses obstáculos se multiplicam. O racismo estrutural e as desigualdades sociais dificultam o acesso e a visibilidade. Será que quem precisa, consegue chegar lá e incidir nas decisões? Muitas pessoas vivem outras urgências: como comprar o gás?  A linguagem e os próprios temas reforçam o abismo entre quem está lá dentro discutindo e quem está aqui fora sentindo na pele. Desde o Acordo de Paris (COP 21, 2015), que sonhava em limitar o aumento da temperatura a 1,5°C , passando pela COP 26 (Glasgow, 2021), com muitos países prometendo reduzir emissões e o desmatamento  e a COP 27 (Egito, 2022) que criou um fundo para "perdas e danos" para países pobres,  uma luta antiga do Sul Global, o mundo se reúne para falar de clima. Mas muitas metas não foram cumpridas.  O planeta continua esquentando, o desmatamento não para e o dinheiro prometido raramente chega. Os países ricos, que mais poluem, continuam se esquivando da responsabilidade. Muitas COPs terminam com mais palavras bonitas no papel do que ações concretas  que mudam a vida das comunidades. É hora de transformar o papo em ação: nosso legado na COP 30 Nós, sociedade civil organizada (entidades, grupos e coletivos que atuam de forma autônoma) temos um papel fundamental como pontes. Traduzir o que é a COP, levar informação acessível às comunidades e construir demandas reais. Queremos que as vozes da Amazônia e das periferias do Brasil sejam ouvidas para que a COP 30 não seja mais uma promessa não cumprida. Que esse evento seja um espelho das injustiças climáticas, do racismo ambiental e da invisibilidade que tantas pessoas vivem.  Que traga melhorias reais para a vida de todas as pessoas em Belém, no Brasil e para todos que sofrem com as mudanças do clima. O mais importante é que a COP 30 fortaleça nossa consciência sobre quem somos (mulheres negras, homens negros, ribeirinhos, indígenas, amazônidas, cariocas, nordestinos e seres humanos) e nosso poder de lutar por mudanças. Que as decisões tomadas em Belém reflitam nossas realidades e ajudem a construir um futuro mais justo e com menos sofrimento para o nosso povo. Nossa voz, nossa força! Foto: Juliana Duarte. Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G

  • “O Agente Secreto”: Arte, Memória e Ditadura na América Latina

    “O Agente Secreto”, filme brasileiro de Kleber Mendonça Filho lançado em 2025, é um thriller político ambientado em Recife, no ano de 1977 , durante a ditadura militar. Estrelado por Wagner Moura, cuja atuação intensa lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator em Cannes, e dirigido por Mendonça Filho, vencedor de Melhor Diretor, o longa constrói uma narrativa envolvente que examina a opressão política, a vigilância estatal e a resistência  diante do autoritarismo. Com estética refinada e performances poderosas, o filme oferece um retrato sensível da sociedade brasileira em uma de suas épocas mais sombrias, explorando temas como memória, trauma e coragem. Divulgação/Vitrine Filmes Temática e Contexto Histórico Ambientado durante o governo de Ernesto Geisel, o filme retrata um Brasil em processo de “abertura lenta e gradual” , ainda marcado por censura, vigilância e perseguições políticas. Essa atmosfera de repressão ecoava por toda a América Latina : na Argentina, a Junta Militar liderada por Jorge Rafael Videla promovia a chamada “Guerra Suja” , caracterizada por desaparecimentos em massa e terrorismo de Estado; no Chile, Augusto Pinochet consolidava um regime personalista  após o golpe contra Salvador Allende, marcado por prisões arbitrárias e torturas sistemáticas. Em comum, esses governos justificavam sua violência como uma defesa contra o avanço do comunismo , criando um cenário regional de autoritarismo sincronizado. Por trás dessas ditaduras pairava a sombra da Guerra Fria e a influência direta dos Estados Unidos. Washington apoiou golpes e regimes militares como parte da Doutrina de Segurança Nacional , fornecendo treinamento, suporte logístico e, em muitos casos, tolerando - ou mesmo incentivando - práticas repressivas. A Operação Condor , rede secreta que articulou Brasil, Argentina, Chile e outros países, exemplifica essa cooperação transnacional voltada à eliminação de opositores. No filme, essa dimensão global aparece como pano de fundo: a paranoia do protagonista não é apenas local, mas resultado de um sistema continental de vigilância e violência . A narrativa lembra ao espectador que decisões tomadas em gabinetes distantes moldaram vidas comuns em Recife, Buenos Aires e Santiago. Paralelos com o Presente Décadas depois, Brasil, Argentina e Chile são democracias, mas ainda carregam as marcas dos anos de chumbo.   No Brasil , a transição sem punição aos militares deixou espaço para discursos autoritários , que ressurgiram em crises recentes, como durante o governo Bolsonaro. Na Argentina , apesar dos julgamentos históricos e da cultura do “Nunca Más”, o negacionismo voltou ao debate  com declarações do presidente Javier Milei, que relativiza os crimes da ditadura. No Chile , a tentativa de substituir a Constituição herdada de Pinochet representa avanços , mas também revela divisões profundas sobre memória e justiça. A força de “O Agente Secreto” está em transformar fatos históricos em experiência sensorial.  A direção de Kleber Mendonça Filho, com sua estética precisa e crítica social, aliada à atuação visceral de Wagner Moura , dá vida a um Brasil sufocado pelo medo. Ao mesmo tempo, o filme dialoga com questões universais : até que ponto estamos dispostos a sacrificar liberdade em nome de segurança? Como lidar com memórias dolorosas sem permitir que elas se repitam ? Em tempos de polarização e revisionismo , essa obra reafirma o papel do cinema como instrumento de memória e resistência. Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G. Referências “The Secret Agent” Review – Wagner Moura em Thriller Brasileiro no Festival de Cannes (Deadline) https://deadline.com/2025/05/the-secret-agent-review-wagner-moura-brazilian-thriller-cannes-film-festival-1236402956/ “The Secret Agent” Review: Wagner Moura em Intensíssimo Thriller Político (The Hollywood Reporter) https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-reviews/the-secret-agent-review-wagner-moura-kleber-mendonca-filho-1236220752/ “The Secret Agent” – Imersão Visual e Memória Histórica (Variety)   https://variety.com/2025/film/reviews/the-secret-agent-review-o-agente-secreto-1236402205/ “The Secret Agent” Review – Análise por Cineuropa   https://cineuropa.org/en/newsdetail/477650 Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade – Volume III (Mortos e Desaparecidos Políticos)   https://www.gov.br/memoriasreveladas/pt-br/assuntos/comissoes-da-verdade/volume_3_digital.pdf Operação Condor – página da Wikipédia (inglês)   https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Condor Operação Condor: o que foi, objetivos, fim, resumo – Brasil Escola   https://brasilescola.uol.com.br/historia-da-america/operacao-condor.htm Operação Condor: análise de documentos desclassificados (Comissão Nacional da Verdade)   https://cnv.memoriasreveladas.gov.br/index.php/2-uncategorised/417-operacao-condor-e-a-ditadura-no-brasil-analise-de-documentos-desclassificados

  • Brasil: País do Futebol e do apagamento trans nos esportes

    Conhecido como País do Futebol , o Brasil é marcado pela pred ominância desse esporte. No entanto, apenas uma categoria recebe maior atenção: o futebol masculino. Entretanto, aos poucos, outros esportes vêm conquistando visibilidade, como o   vôlei, o basquete e o s kate.   Assim como o futebol, todos os esportes apresentam duas categorias  -  masculina e feminin a. E m alguns casos, a moda lidade feminin a chega a ser mais popular que a masculin a , como acontece no   vôlei.   Entretanto, m uitos esquecem que além de homens e mulheres existem outras pessoas que também podem praticar esportes.  A população transexual, em geral, é uma parcela frequentemente invisibilizada quando o assunto é esporte .  Segundo diversas pesquisas, pessoas trans representam cerca de  2% da população brasileira , o que equivale a aproximadamente 1 a 3 milhões de ad ultos . O brasileiro, em geral, não é um grande   praticante de esportes: apenas 42% da população   segue o nível de atividade física recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) . Segundo a Nix Diversidade , no e studo Diversidade & Inclusão no Esporte,   40,8%  dos entrevistados transexuais af irmaram praticar esportes de forma amadora , enquanto  4,4%  di sseram  atuar profissionalmente.  Esses números mostram que uma parcela significativa dessa comunidade é adepta da prática esportiva. Mas onde essas pessoas encontram espaço e visibilidade? Para responder a essa questão, buscamos conhecer um time de vôlei formado p or atletas transexuais  na capital paulista: o Angels Volley . Um coletivo que tornou-se referência internacional Criado em 2008 , o Coletivo Esportivo Angels Volley  surgiu como um espaço seguro para que pessoas LGBTQIA+  pudessem praticar vôlei sem medo de preconceito ou violência. O que começou como uma atividade de lazer entre amigos cresceu rapidamente, ganhou visibilidade e passou a atrair ex-atletas federados, transformando o grupo em uma referência internacional no esporte inclusivo . Há mais de cinco anos, o Angels ampliou sua atuação ao formar um time feminino diverso , composto por mulheres trans, lésbicas, bissexuais e mulheres cis aliadas. Hoje, o coletivo se define como um movimento socioeducativo  que utiliza o esporte como ferramenta de transformação de vidas. Além de treinamentos e competições, a iniciativa oferece suporte integral às  suas atletas: auxílio educacional, bolsas de estudo, cursos, oportunidades de emprego, apoio médico  e  jurídico , além de cestas básicas em situações   emergenciais. Reconhecido como um dos maiores projetos esportivos LGBTQIA+ do mundo , o Angels também exerce um papel político ao defender a existência e a resistência da diversidade no esporte. Enquanto o time masculino participa de torneios de diversidade e campeonatos amadores, o  feminino avança, ainda que de forma gradual, em ligas oficiais ,  enfrentando o desafio persistente da inclusão de mulheres trans . O coletivo aposta no diálogo, na convivência e na performance em quadra  como ferramentas para quebrar preconceitos e reafirmar que  todas as atletas são mulheres . Para seus membros, o esporte é visto como um direito básico  e uma verd adeira ferramenta de sobrevivência . Em um ambiente historicamente marcado p elo   machismo  e  pelo bullying , especialmente contra jovens LGBTQIA+, a manutenção do Angels Volley  ao longo de 17 anos  simboliza resistência, inspiração e a abertura de caminhos para novas gerações. A importância do esporte como ferramenta de sobrevivência Willy Montmann , 40  anos,  ex-gestor da Secretaria de Esportes de São Paulo, é o fundador do Angels Volley , considerado o maior projeto esportivo LGBTQIA+ do Brasil. Criado em 2008 , o coletivo reúne atualmente 353 atletas distribuídos em nove equipes  e tornou -se referência por incluir mulheres trans, travestis, homens gays e pessoas iniciantes em um ambiente seguro e acolhedor. Além do esporte, Montmann atua como produtor, roteirista e diretor de projetos culturais ligados à diversidade , assinando eventos como a Live da Parada LGBT+  e ações de visibilidade trans. À frente da N i x Diversidade , participou do primeiro  mapeamento nacional do esporte LGBTQIA+,  em parceria com a Nike . Com oficinas, campeonatos e palestras em empresas e instituições, consolido u-se como uma das principais vozes do esporte inclusivo no país . Entrevistas: Entrevista com o presidente do Angels Volley Segundo Montmann: "O esporte é um direito básico constitucional. Deveria ser para todas as pessoas. Está na Constituição: Esporte e lazer devem ser acessíveis a todos(...) Se já é complicado em um ambiente cisgênero e heteronormativo, imagine para pessoas trans." Willy destaca ainda a importância do projeto como espaço de acolhimento em uma área já bastante sucateada "Se o poder público não garante esse direito, são necessárias iniciativas como o Angels para atingir essa população e oferecer dignidade, esporte, lazer e saúde mental. Foi muito difícil no início, mas hoje, com apoio, conseguimos nos tornar o maior projeto esportivo inclusivo do mundo. Atualmente, temos 70 mulheres trans e travestis praticando esporte conosco." Sobre o cenário brasileiro, o fundador faz a seguinte análise: "O Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. A cada 24 horas, uma pessoa trans é assassinada. A expectativa de vida é de apenas 35 anos — números dignos de uma guerra civil. Existem países em conflito que não têm estatísticas tão graves.Então, o Brasil não é acolhedor para pessoas trans. Porém, ao mesmo tempo, é o país com mais pessoas trans no mundo. Existe uma resistência enorme dessas pessoas em sobreviver, viver com dignidade, ter visibilidade e voz. É graças a essa força que conseguimos construir um projeto como o nosso, o maior do mundo." Segundo Willy, o processo de acolhimento de uma nova atleta é feito de forma coletiva e afetuosa. "Existe uma irmandade muito forte dentro da sigla T, já que é a mais vulnerável da sigla LGBTQIAP+, então existe uma irmandade entre elas. Quando uma meninas chega aqui temos várias categorias: escolinha, avançado e máster. A atleta é encaixada conforme seu nível. Se ela não sabe jogar, vai para a escolinha; se já joga, vai para o nível adequado. É tudo bem organizado." O projeto se mantém com emendas parlamentares (como as de Erica Hilton e da Bancada Feminista) e com patrocínios de marcas como Nike, Barilla, Vênus, Vichy, Itaú e IBM. "Elas(as marcas) olham para a comunidade trans, mas principalmente para o Angels. Construímos uma história de 17 anos, sendo 6 anos atuando com pessoas trans. É um projeto sério, que transforma vidas, muda narrativas e oferece novas perspectivas além do cárcere, da prostituição, da fome e da vulnerabilidade." O impacto do projeto é concreto: No início, cerca de 90% das atletas trans viviam da prostitução, não como escolha mas como condição de sobrevivência. O projeto estimula a volta aos estudos, acesso à saúde, rede de empregabilidade e auxílio jurídico para retificação de nome e genêro. Segundo Willy: Nosso maior troféu não são apenas os campeonatos, mas as vidas transformadas. O resultado é impressionante. Mais de 90% das atletas trabalham em empresas com carteira assinada, têm uma profissão, estão se formando na universidade. E o projeto não para por ai, o próximo passo segundo Willy é ter uma sede própria ao invés de usar espaços públicos ou alugadas. As Vozes das Atletas Angels Volley. Foto por: Gabriela Monteiro A reportagem conversou com quatro atletas do projeto. A seguir, os trechos editados das entrevistas, organizados para leitura jornalística. Amanda — Ponteira/Oposta: “O Angels mudou tudo na minha vida.” Amanda em ação. Foto por: Gabriela Monteiro A atleta sonha em disputar campeonatos profissionais: “O que me motiva é correr atrás do objetivo. Já participei de torneios profissionais, e foi através do Angels que tudo isso aconteceu.” Sobre representar a comunidade trans: “É muito difícil. A gente enfrenta muito preconceito. Mas é gratificante representar as mulheres trans.” Erika — Ponteira/Oposta:  “Esporte é acolhimento. Não queremos tirar vaga de ninguém.” Erika já disputou a Copa da Diversidade, LMN, Copa Fênix e Copa Angels. Ela acredita que o cenário melhorou pouco para pessoas trans: “A comunidade trans não tem tanto acesso ao esporte. Algumas entidades estão abrindo espaço, mas ainda é pouco.” Para ela, o Angels é essencial: “É um time que acolhe, que dá segurança dentro e fora da quadra. Aqui a gente pode ser quem é.” Sobre preconceito: “Hoje é mais indireto. Não falam diretamente porque sabem que é crime. Mas existe.” E deixa um recado ao leitor: “Esporte é rendimento. Ser trans não dá vantagem. Todas seguimos as regras do COI. O desempenho é individual.” Cid — Levantadora:  “Encontrar pessoas que falam a mesma língua é maravilhoso.” Com 50 anos e desde os 13 no vôlei, Cid nunca desistiu do esporte. Foto por: Gabriela Monteiro Ela afirma sentir o efeito da visibilidade trazida por Tiffany Abreu, primeira mulher trans na Superliga: “Depois que a Tiffany apareceu, tudo ficou melhor.” Sobre acolhimento: “Aqui ninguém te trata diferente. Todas se acolhem, se ensinam, se levantam.” Embora tenha sofrido veto em um campeonato no passado, ela segue otimista: “Mostramos que não somos problema. Somos pessoas que pensam, sentem, trabalham e treinam como qualquer atleta.” Milena — Líbero: “O Angels me ensinou a evoluir mentalmente.” Milena chegou ao Angels com 11 anos; hoje, aos 18, vive seu primeiro ciclo como atleta adulta. “Meu maior desafio era o psicológico. Eu me cobrava demais.” Para ela, o ambiente de convivência foi essencial: “As meninas sempre me respeitaram. Aqui todo mundo acolhe.” A presença da tia, também atleta trans do coletivo, reforça seu vínculo com o time: “Ela era uma pessoa explosiva, e melhorou muito depois que entrou no Angels.” Texto escrito por Kauan Oscar Estudante de Jornalismo, apaixonado por esportes e literatura, encontrou na profissão uma oportunidade perfeita para contar sobre suas paixões por meio de histórias que inspirem outras pessoas. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • Longe da Terra Santa: o plano para um estado judeu no Brasil

    Judeus planejavam criar um estado judaico em 1938 no território de Mato Grosso do Sul. Joseph Hefter, líder político antissionista, publicou panfleto em Nova York defendendo a ideia. No século XIX, uma parcela significativa do povo judeu aderiu ao sionismo como resposta ao chamado “problema judaico” : eram uma nação sem território próprio. A solução proposta pelo movimento foi a criação de um estado judeu na Palestina, considerada a pátria histórica dos judeus. Em 1948, impulsionado pela tentativa mais sinistra dos nazistas de “resolver” essa questão, Israel foi fundado e o sionismo alcançou seu objetivo. No entanto, esta versão do sionismo  focada na Palestina foi apenas um dos muitos projetos territorialistas judaicos . Ao longo do século XIX e início do século XX, surgiram cerca de 30 propostas desse tipo , embora a maioria não tenha passado de slogans utópicos. Um dos projetos territorialistas judaicos mais conhecidos não focados na Palestina foi o Plano Uganda . Apresentado por Theodor Herzl no Sexto Congresso Sionista, em 1903 , a proposta chegou a ficar apenas seis votos abaixo da aprovação pela maioria. O mapa a seguir é uma peça histórica essencial para compreender estes projetos alternativos. Trata-se de uma criação de Joseph Otmar Hefter, uma figura hoje quase esquecida, assim como a política que defendeu na década de 1930: o territorialismo judaico não-sionista. Reprodução do panfleto. Restam poucas evidências do sonho de Hefter de uma Nai Juda (“Nova Judéia”), além do panfleto ‘A Land for the Jews!’, publicado em Nova York em 1938 . Nesse material, ele apresentava sua resposta à questão judaica: uma pátria soberana com todos os atributos de um Estado – bandeira, leis, uma língua nacional (iídiche) e até mesmo um hino nacional. Dez desses projetos aparecem no panfleto de Hefter, que reunia um mapa, um manifesto e descrições de possíveis novos países judaicos. Entre eles estavam Madagascar, Uganda e Birobidzhan, na Rússia, além de propostas para a América do Sul, em territórios que abrangiam o sul e o oeste da Guiana e o sudeste da Venezuela, na fronteira com o Brasil. Outro projeto, porém, situava-se dentro do próprio país, em Mato Grosso do Sul. O texto que acompanha o ponto 6 descreve: “Uma seção da região de Matto (sic) Grosso, ao norte do Rio Paraná, na fronteira com o Paraguai. Encravada, inexplorada, desconhecida, quase inabitada. Uma terra difícil de florestas, perigosa, mas habitável. Rica em recursos. Borracha, ouro, diamantes. Potencial império industrial. Poderia neutralizar grandes colônias japonesas e alemãs entrincheiradas na costa”. O sionismo, no entanto, saiu triunfante e concretizou seus objetivos com a criação, em 1948, do Estado de Israel em território palestino, dando início aos conflitos que, até hoje, marcam a região com violência. Sobre a Palestina e a Terra Santa A região conhecida como Palestina, nome derivado de Filistina ("Terra dos Filisteus"), localiza-se no Oriente Próximo, entre o mar Mediterrâneo e o vale do Rio Jordão. É a Canaã bíblica, também chamada de Sião pelos judeus tradicionalistas. O território já era habitado pelos filisteus , povo com uma cultura metalúrgica bastante especializada e uma tradição religiosa baseada no politeísmo. Sua organização política era descentralizada, estruturada em cinco cidades-estados: Asdode, Ascalão, Gat, Gaza e Ecrom.  Os hebreus , posteriormente conhecidos como israelitas ou judeus, conquistaram a região por volta de 1200 a.C ., após uma série de guerras contra as forças filisteias, que resultaram em um banho de sangue em toda a Palestina. A partir de 587 a.C., com a conquista da Babilônia, iniciou-se um longo processo de diáspora. As revoltas judaicas contra Roma (66-70 e 133-135 d.C.) foram desastrosas: o Templo de Jerusalém foi arrasado e, após a segunda revolta, o imperador Adriano proibiu os judeus de residirem em sua capital. Esse decreto acelerou a dispersão pelo Império Romano e por outras regiões. A Palestina foi, ao longo dos séculos, helenizada, romanizada e, em 395, incorporada ao Império Bizantino. A conquista árabe em 638 a integrou ao mundo islâmico. Mais tarde, entre 1099 e 1187, a região abrigou um Estado Cruzado, antes de ser absorvida pelo Império Otomano em 1517, sob cujo domínio permaneceu por quatro séculos. Império Otomano em 1517, sob cujo domínio permaneceu por quatro séculos. O cenário moderno começou a se delinear em 1896, com Theodor Herzl e a fundação do Movimento Sionista, que defendia a criação de um Estado judeu na Palestina. O projeto ganhou força com o apoio britânico, formalizado na Declaração Balfour de 1917 . Após a derrota otomana na Primeira Guerra Mundial, a Palestina passou ao controle britânico por mandato da Liga das Nações. É importante destacar que, durante todo o período que antecedeu o movimento sionista, árabes muçulmanos e judeus conviveram na região de forma pacífica, numa sociedade campesina que compartilhava vilas e cidades sem qualquer traço de ódio. A crescente imigração judaica, agora guiada pela ideologia sionista, somada à política dos países imperialistas, gerou atritos com a população árabe local e levou à criação da Haganah , uma milícia de defesa judaica. É preciso ressaltar o papel preponderante da Grã-Bretanha nesse processo. Seu intervencionismo imperialista, desde a promessa de estabelecer um estado judeu na Palestina, passando pela criação de um protetorado na Transjordânia  e pelo incentivo à imigração dos judeus europeus para a região , tornou-se um fator decisivo na desestabilização do equilíbrio sociopolítico local. Após a Segunda Guerra Mundial, o fluxo de sobreviventes do Holocausto tornou a situação na Palestina insustentável. Em 1947, a ONU propôs a partilha do território em dois Estados:  um judeu e outro árabe. A recusa árabe à proposta levou à fundação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948 , seguida imediatamente pela invasão dos países árabes vizinhos: Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque. O conflito se estendeu por 15 meses, resultando em milhares de mortes. Apesar da ofensiva, o recém-criado Estado judeu resistiu e não foi derrotado. Com a retirada dos britânicos e a consolidação de Israel como Estado independente, cerca de 750 mil palestinos foram expulsos  e jamais puderam retornar às suas casas. O armistício de 1949 estabeleceu linhas geopolíticas que seriam fragilmente respeitadas: a Cisjordânia, sob tutela da Jordânia, e Gaza, sob administração egípcia, permaneceram como os territórios árabes dentro da nova configuração regional. Desde então, a política colonialista e imperialista de Israel tem resultado em mortes, expulsões e invasões de terras palestinas. Atualmente, Israel é uma democracia parlamentar com cerca de 9,7 milhões de habitantes. Sua capital declarada é Jerusalém, embora a sede do governo permaneça em Tel Aviv. Entre pesquisadores e organizações internacionais, ecoa a acusação de que o Estado israelense adota políticas de caráter fascista em relação aos palestinos, especialmente na Faixa de Gaza. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • O Inimigo Oculto: A Distinção entre o Racismo Velado no Brasil e a Segregação nos EUA

    O Preço da Invisibilidade, a Força da Identidade e o Chamado de Novembro Ilustração mostra diversos punhos cerrados levantados — Imagem: Dora Lia Gomes/Alma Preta Jornalismo A questão racial não é apenas um fator social: é a tensão estruturante que molda a vida, as aspirações e a capacidade de organização dos povos negros em todo o mundo. Para o povo negro, a opressão nunca se apresenta de forma isolada, mas como resultado de múltiplas vulnerabilidades que se entrecruzam – a chamada Interseccionalidade . Minha posição de fala nasce nesta interseção. Sou uma mulher negra, criada no morro, cuja infância foi marcada pela destruição sistêmica da vida de meu pai , que se tornou alcoólatra e faleceu após ter sua carreira e dignidade comprometidas por um flagrante policial forjado. Desde cedo, precisei aprender a navegar pelo complexo labirinto da desigualdade brasileira. É justamente por ter vivido nessa encruzilhada de raça, classe e gênero - e por ser mãe e tia de meninos negros - que o choque foi ainda maior. Durante uma aula no curso de Pós-Graduação em Diversidade e Inclusão , em uma discussão sobre a desumanização da criança negra, tive a mais dolorosa percepção: o impacto do racismo em nossa própria psique. Eu, uma mulher negra, percebi que, por anos, aceitei com naturalidade que as mortes brutais dos "meninos de Belford Roxo" não provocassem no Brasil a mesma comoção que o assassinato igualmente brutal de uma criança branca. Lucas, Alexandre e Fernando, os três "meninos de Belford Roxo" que foram mortos por traficantes em 2021. Imagem: CNN A diferença gritante estava na narrativa pública: a tragédia de Henry Borel Medeiros   (Março/2021) mobilizou o país e foi noticiada com a constante menção ao seu nome, à sua história e ao afeto de sua família. Em contraste, os jovens negros desaparecidos em Belford Roxo em 2020 – Lucas Matheus, Alexandre Silva e Fernando Henrique – eram recorrentemente identificados pela mídia apenas como os "meninos de Belford Roxo" . Sua individualidade foi minimizada, transformando-os em números anônimos na cobertura inicial, como evidenciado em reportagens sobre o primeiro mês de   desaparecimento .   A triste constatação é que os meninos de Belford Roxo não tiveram a centralidade de seus nomes assegurada na narrativa pública. Eu, como parte do povo negro, havia me acostumado a essa invisibilidade. Essa experiência revelou que o racismo é capaz de nos levar a desumanizar os nossos, internalizando o silêncio e o esquecimento impostos pela própria estrutura.   Nosso trágico destino, após a travessia atlântica, foi moldado por diferentes projetos coloniais que, embora igualmente desumanos, desenvolveram estratégias distintas para sustentar a supremacia branca. No Brasil , o racismo se disfarçou sob a máscara do "mito da democracia racial", transformando o opressor em um inimigo oculto . Já nos Estados Unidos , a segregação racial explícita e a rígida definição de raça impuseram uma demarcação nítida . É essa diferença fundamental – o racismo velado versus o racismo aberto – que buscamos centralizar neste artigo. Examinaremos como essas estruturas divergentes influenciam: a luta pela sobrevivência; a dinâmica do Colorismo e a percepção de identidade; a ação do Feminismo Negro; e o custo do pioneirismo na representação. Neste Mês da Consciência Negra, o propósito deste texto vai além da mera exposição da resistência: é um convite à reflexão profunda dirigido a todos os leitores. Para o povo negro, propomos um passo adiante: do "lamento" pela dor imposta ao "projeto" de autoconhecimento , que afirma nossa plenitude e identidade. Para leitores brancos, este é um chamado à compreensão ativa sobre como a estrutura racista brasileira nos obriga a uma luta constante para reconhecer e reivindicar o valor que ela insiste em negar. A pauta da Consciência Negra é, afinal, a pauta da plena humanidade de todos. O Racismo Estrutural: Brasil vs. Estados Unidos (O Fator Colonização) O Inimigo Oculto e a Força Roubada A colonização e o pós-abolição moldaram sociedades de forma distinta: se, nos Estados Unidos cultivou-se - a duras penas - uma consciência de ser , no Brasil, tentou-se instituir uma consciência de não ser . ● EUA (Segregação): A rigidez das leis Jim Crow impôs uma evidência binária. O sistema opressor era visível , permitindo ao povo negro americano acumular um capital de resistência e ser treinado a lutar por direitos. Durante décadas pessoas negras nos Estados Unidos eram obrigadas a frequentar espaços segregados devido às leis Jim Crow. Fonte: El Deber. ● Brasil (Mito da Democracia Racial): O racismo velado minou a força e a consciência para lutar . Ao negar a discriminação e celebrar a miscigenação, o projeto brasileiro esperava que fôssemos todos "pretos gratos" : aqueles que, mesmo diante da exploração e da violência, deveriam demonstrar eterna gratidão pela "oportunidade" de estar incluídos e "tolerados" na sociedade, aceitando a marginalização como destino. As elites transferem a miséria e a falta de acesso para o indivíduo, que passa a acreditar que sua marginalização é falta de mérito, e não de falha estrutural. Esta negação exige que toda a sociedade — incluindo os não-negros — rompa com a cumplicidade do silêncio para enxergar a violência estrutural. Apesar disso, a resistência brasileira floresceu. Luiz Gama , nascido livre e vendido como escravo pelo próprio pai aos dez anos, personificou a fragilidade da liberdade e a engenhosidade da luta. Autodidata, tornou-se rábula  (advogado) e utilizou a lei (a ferramenta do opressor) para libertar mais de 500 pessoas escravizadas. Paralelamente, os Quilombos representaram atos de autonomia e soberania física. O modelo brasileiro nos negou o letramento racial e político , mas não a nossa força. Aqui, a luta é, antes de tudo, pela existência básica e pela validação da nossa humanidade diante de um Estado que mata e finge não ver o crime. 14 de Maio de 1888: A Traição Fundacional O Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão (em 13 de maio de 1888, sob forte pressão internacional e diante da inevitável falência do sistema), perpetuou, no dia seguinte, sua maior traição social: o 14 de maio de 1888 . Missa campal celebrada em ação de graças pela abolição da escravatura no Brasil no campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 1888 — Foto: Luiz Antonio Ferreira/Acervo Instituto Moreira Salles O Estado, que explorou o corpo e o trabalho do povo negro por mais de três séculos, recusou-se a criar qualquer política pública de reparação, acolhimento ou integração. Em vez disso, instituiu um projeto de marginalização ativa, por meio de leis como a de Vadiagem (que criminalizava a ausência de emprego formal, impossível de ser obtido) e do controle policial, como a criminalização do "pito de pango" (uso de cannabis), direcionada à população negra e às suas práticas culturais. A Capoeira , uma manifestação cultural e de resistência africana, também foi explicitamente criminalizada no Código Penal Republicano de 1890, logo após a abolição, reforçando a repressão contra qualquer forma de organização e expressão negra. Enquanto os recém-libertos eram empurrados para as margens da sociedade (dando origem às favelas e aos cortiços), o governo brasileiro investia em políticas de subsídio e atração de imigrantes europeus , facilitando seu acesso à terra e ao trabalho assalariado. Este abandono não foi fruto de inércia: tratou-se de um projeto deliberado de exclusão racial, voltado ao embranquecimento e à substituição da mão-de-obra, que marginalizou a população negra em sua própria terra. O Paralelo com a Reconstrução Americana O abandono brasileiro encontra eco na história americana, ainda que em roupagens distintas. Nos Estados Unidos, o fim formal da escravidão em 1865 foi seguido pela Era da Reconstrução (1865-1877), período em que o governo federal tentou impor direitos civis e políticos (como o direito ao voto) para a população negra do Sul. No entanto, essa tentativa de integração foi brutalmente combatida pela violência paramilitar (exemplificada pela Ku Klux Klan) e pela instituição das Leis Jim Crow . Se, no Brasil, a exclusão se deu pelo abandono e invisibilidade , nos EUA ela se consolidou pela segregação legal e pela violência explícita. Em ambos os casos, o resultado foi o mesmo: a garantia de que, mesmo após a abolição, a supremacia branca permaneceria inabalável, seja pela hierarquia velada ou pela separação forçada. Identidade e Colorismo: O Espectro Racial A forma como cada país define quem é negro determina a coesão social e a percepção da luta. EUA (Regra de uma Gota): Qualquer ancestralidade negra define a pessoa como negro/a, criando uma unidade identitária inegável, centrada na descendência . Uma figura como Mariah Carey é, nesse contexto, inequivocamente Black . ● Brasil (Escala de Cor e Colorismo): O projeto de branqueamento valorizou a miscigenação para diluir a negritude, resultando em uma categorização social baseada na aparência e no fenótipo . O Colorismo tornou-se uma ferramenta do racismo brasileiro para estabelecer hierarquias e fomentar conflitos internos, negando solidariedade e questionando a validade da luta de quem é considerado "não tão negro assim". Imagem sobre colorismo. Fonte: Imagem gerada por IA. Enquanto a rigidez americana força a união, a fluidez brasileira insiste em nos dividir, desviando o debate central do racismo estrutural para o tom da pele. O Feminismo Negro em Perspectiva Comparada O feminismo negro, em ambos os países, nasceu da dupla exclusão, mas com bases conceituais que refletem suas realidades estruturais. ● EUA (Interseccionalidade): Sistematizada por Kimberlé Crenshaw , a teoria da interseccionalidade foca na análise da opressão de raça e gênero que se cruzam, produzindo uma desvantagem única dentro do sistema de direitos. ● Brasil (Amefricanidade): Conceituada por Lélia Gonzalez , a amefricanidade enfatiza a Classe Social e a matriz afro-latino-americana. Suas pautas estão ligadas à estrutura da vida material : o enfrentamento do genocídio, a luta pela saúde e a valorização da trabalhadora doméstica. A objetificação da mulher negra no Brasil se manifesta em duas figuras centrais: a Mulata, representada como corpo disponível para o prazer branco, e a Mãe Preta, reduzida à condição de serviçal, cuidadora e dessexualizada. Ambas funcionam como mecanismos de controle da sexualidade e do trabalho, perpetuando estereótipos que sustentam a exploração e a marginalização. Narrativas de Resistência e o Preço do Pioneirismo: O Legado de Luta e Esperança O custo do pioneirismo no Brasil é desigualmente distribuído. O racismo estrutural impõe um fardo duplo, exigindo o sacrifício pessoal como preço pelo sucesso e, muitas vezes, tentando apagar a excelência intelectual e a liderança. Contudo, as batalhas travadas por esses gigantes não foram em vão. Cada ato de resistência, cada obra publicada e cada papel de destaque ergueram uma base sólida para a ascensão das gerações seguintes, demonstrando que a excelência negra é uma força inegável e que a esperança se renova em cada conquista. A história de João Cândido , líder da Revolta da Chibata (1910), ilustra o preço imediato da ousadia. Ele orquestrou uma revolta bem-sucedida contra os castigos físicos na Marinha, mas sua liderança audaciosa e a vitória momentânea foram seguidas pela traição e pela perseguição do Estado. Sua vida foi marcada pela pobreza e pelo esquecimento oficial, simbolizando como o Brasil não apenas nega o gênio, mas também pune a liderança negra. Ainda assim, sua luta ecoou por todo o século. O reconhecimento de sua dignidade e heroísmo, ainda que tardio, inspira a contínua exigência de justiça e reafirma que a dignidade não se curva à opressão. João Cândido pavimentou o caminho para que, hoje, militares e civis negros exijam e ocupem seu lugar de direito sem o fardo da chibata. Ainda no campo da palavra, a trajetória de Carolina Maria de Jesus é um marco incontornável. Sua obra Quarto de Despejo constitui uma denúncia crua da miséria e uma das vozes mais potentes da literatura brasileira. Embora tenha sido inicialmente tratada pelas elites como um "fenômeno exótico" e tenha morrido no anonimato, seu sucesso efêmero não apagou o impacto duradouro de sua escrita. Carolina provou que a literatura pode - e deve - nascer da vivência da favela, legitimando narrativas até então silenciadas. A persistência de sua obra na academia e nas escolas garante que a voz da intelectualidade periférica tenha espaço, alimentando a Escrevivência que seria mais tarde consolidada por Conceição Evaristo . Conceição Evaristo é considerada um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Imagem: Itaú Social A excelência literária e a profunda contribuição de Conceição Evaristo, que nos presenteou com o conceito de Escrevivência, enfrentaram a longa luta pela validação da excelência negra em um cânone literário historicamente excludente. O reconhecimento consolidado de sua obra na grande mídia e nas academias só foi alcançado após décadas de intensa produção e resistência. No entanto, o seu triunfo é uma vitória coletiva. Conceição não apenas conquistou seu espaço, mas também abriu caminhos para uma nova geração de escritoras e escritores negros que, hoje, desfrutam de maior visibilidade e acolhimento no mercado editorial e nas salas de aula. Sua trajetória demonstra que a persistência transforma-se em excelência e que a palavra negra, quando afirmada, impõe sua legitimidade. Essa imposição também se manifesta nas artes cênicas, através do pioneirismo de Zezé Motta . Ao protagonizar, em 1984, a primeira mulher negra em posição central na teledramaturgia, ela enfrentou uma reação pública profundamente racista, absorvendo os ataques de uma sociedade que se insurgiu contra sua ascensão social. Zezé carregou o peso de ser a primeira, pagando um preço pessoal pela visibilidade. Seu sacrifício, contudo, foi o catalisador de uma mudança lenta, mas irreversível. Graças à sua coragem e talento, atrizes negras hoje ocupam papéis de destaque com maior frequência e centralidade, inspirando milhões e tornando a representação negra na televisão brasileira uma realidade cada vez mais plural e forte. O sucesso negro brasileiro insiste em ser considerado ilegítimo pela estrutura racista, exigindo a luta pela sobrevivência digna do próprio sucesso. Ainda assim, ao revisitar as vidas de João Cândido, Carolina Maria de Jesus, Zezé Motta e Conceição Evaristo, percebemos que essas batalhas deixaram um legado de resiliência inquebrantável. Eles não apenas sobreviveram, mas prosperaram, transformando o preço pessoal do pioneirismo em um investimento para o futuro. Suas trajetórias provam que a luta não é em vão: abriram portas para que a atual geração de líderes, intelectuais e artistas negros não precise começar do zero, mas sim dar continuidade, com maior visibilidade e força, à marcha rumo à plena equidade e ao reconhecimento da excelência negra brasileira. Desmascarando o Velado e Afirmando a Luta O racismo brasileiro é uma máquina de confusão e autonegação . Ele impediu que Carolina Maria de Jesus fosse reconhecida como intelectual e obrigou Zezé Motta a pagar o preço pela ousadia. O choque de perceber que até nós, por vezes, aceitamos a invisibilidade e a ausência de nome para as crianças negras assassinadas (como os meninos de Belford Roxo) é a prova definitiva do sucesso desse racismo estrutural. Esta negação se manifesta até mesmo na memória dos nossos ícones. A narrativa pública sobre Garrincha insiste em destacar o alcoolismo e a tragédia, ofuscando o gênio do drible e o herói absoluto do Bicampeonato Mundial de 1962. O imaginário coletivo que pairava sobre o "Anjo das Pernas Tortas" estava marcado pela hipersexualização do homem negro e pela virilidade. O fato de ter nascido e vivido em Pau Grande reforçava, no subconsciente nacional, a ideia de uma força bruta e descontrolada, minimizando sua inteligência e talento como se fossem meramente instintivos. Já sobre Elza Soares , a ênfase recai sobre a violência sofrida e as mazelas da vida, enquanto se minimiza a "Melhor Cantora do Universo" (título concedido pela BBC em 2000), aclamada por nomes como Louis Armstrong e BB King. O Brasil, de forma recorrente, cultiva o hábito de destacar o sofrimento e a decadência de seus ícones negros, em vez de celebrar o sucesso e o brilho  que eles representam. A luta negra no Brasil é, essencialmente, a luta por letramento e consciência contra uma estrutura que se esconde. Ao desmascarar o racismo "velado" e afirmar nossa identidade, nossa produção intelectual e artística, estamos finalmente nos equipando para desmantelar a engenharia social que nos roubou a força. O projeto não é apenas resistir, mas florescer; não é só confrontar o opressor, mas reconhecer e afirmar o nosso próprio valor. A próxima etapa da nossa jornada é declarar quem somos em nossa plenitude, a partir de nossas vivências e origens, transformando a memória da dor em potência e futuro. A resistência não é um lamento, mas um projeto. No Brasil, ela é, acima de tudo, um ato de coragem contra o silêncio imposto, um grito de afirmação de que estamos aprendendo a reconhecer nosso valor, de que não aceitamos mais viver no quarto de despejo da nação e de que os nossos têm nome, brilho e dignidade . Texto escrito por Denise Reis Carioca, sagitariana e apaixonada por numerologia cabalística, Denise Reis é administradora de empresas, com especializações em gestão de pessoas, diversidade e inclusão. Gerente de Operações e Pessoas no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC), tem uma rica experiência no terceiro setor. Viagem, corrida de rua, boa música e a companhia de amigos são suas fontes de inspiração. Por muitos anos, dedicou-se a cozinhar como voluntária para a população em situação de rua e hoje colabora em um núcleo que se aprofunda no cuidado e bem-estar dos profissionais da sociedade civil. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • The Swarm: Quando o oceano responde

    The Swarm  é uma série alemã de ficção científica e suspense ecológico que mergulha nas profundezas do oceano — e da consciência humana  — para explorar o impacto devastador da ação humana sobre o planeta. Baseada no best-seller de Frank Schätzing, a produção internacional combina ciência, drama e mistério em uma narrativa que é tão visualmente impressionante quanto intelectualmente provocadora. Imagem promocional da série Enredo de The Swarm O thriller ambiental The Swarm  se passa nos dias atuais, quando anomalias e comportamentos incomuns em animais marinhos começam a causar agitação em todo o mundo. A série acompanha um grupo internacional de cientistas que se reúne para enfrentar um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade. Eles fazem uma descoberta arrepiante: nas profundezas do oceano, reside uma inteligência coletiva  que sofreu os estragos da civilização  em seu habitat - e decidiu revidar. Uma ameaça invisível e global A trama começa com uma série de eventos inquietantes: baleias atacam embarcações, crustáceos invadem praias, e fenômenos sísmicos inexplicáveis ocorrem em regiões costeiras. Cientistas ao redor do mundo começam a investigar e descobrem que esses incidentes não são aleatórios — há uma inteligência desconhecida e poderosa agindo nas profundezas do oceano.  O planeta parece estar reagindo à exploração desenfreada e à negligência ambiental da humanidade. Essa premissa transforma o oceano em um personagem vivo, misterioso e vingativo. A série não recorre a monstros ou alienígenas tradicionais, mas sim a uma força natural que desafia a lógica humana e exige uma resposta ética e científica. Trata-se de um terror ecológico muito bem estruturado, que nos convida a refletir profundamente sobre o que estamos fazendo com a natureza. Realismo científico e tensão narrativa Um dos grandes méritos de The Swarm  é seu compromisso com o realismo científico. A série se apoia em disciplinas como oceanografia, biologia marinha, geologia e climatologia para construir uma trama verossímil e envolvente . Os protagonistas — cientistas, pesquisadores e especialistas — não são heróis convencionais, mas pessoas comuns enfrentando dilemas morais e profissionais  diante de uma crise sem precedentes. A tensão cresce à medida que os personagens descobrem que a ameaça não pode ser combatida com armas ou tecnologia , mas exige compreensão, humildade e cooperação global. Com uma produção de alto nível, The Swarm  impressiona pela qualidade visual: cenas subaquáticas bem executadas, efeitos especiais discretos e uma fotografia que alterna entre o sombrio e o sublime. A ambientação é global, com locações na Noruega, Japão, Canadá, França e Alemanha, reforçando o caráter internacional da ameaça. O elenco é diverso e competente, as atuações transmitem a urgência  e o desespero de quem tenta decifrar um enigma que pode significar o fim da civilização como conhecemos. Mais do que uma série de suspense, The Swarm  é um alerta sobre os limites da exploração ambiental e a arrogância humana diante da natureza.  A narrativa levanta questões sobre mudanças climáticas, destruição de ecossistemas, ética científica e responsabilidade coletiva.  Ao transformar o oceano em um agente de justiça ecológica, a série convida o público a repensar sua relação com o planeta. The Swarm  é uma obra instigante, ideal para quem busca uma ficção científica com profundidade temática e relevância contemporânea.  Embora o ritmo possa oscilar em alguns episódios, a série compensa com uma atmosfera envolvente, personagens bem construídos e uma mensagem poderosa. É uma produção que une entretenimento e reflexão, e que deixa o espectador com uma pergunta inquietante: e se a Terra decidir se defender? Escrevi essa resenha justamente por sua relação com a COP 30, realizada este ano no Brasil. Afinal, trata-se de uma conferência crucial para definir como enfrentaremos o aquecimento global daqui para frente. E a série The Swarm , mesmo sendo uma ficção, nos mostra o que pode acontecer se não levarmos esse assunto mais seriamente. Texto escrito por Eliane Gomes Uma leitora voraz de livros policiais. Já foi programadora e atuou como professora, tanto no ensino infantil como de música. Além disso é mãe, casada e colunista e revisora no Portal Águia. Revisão: Eliézer Fernandes Edição: João Guilherme V.G.

  • Quatro motivos para assistir “My Brilliant Friend” e se emocionar

    Acompanhamos a vida das protagonistas da infância ao amadurecimento. Imagem: Reprodução HBO My Brilliant Friend  é uma das séries mais intensas e comoventes disponíveis na Max. Baseada na Tetralogia Napolitana  da escritora Elena Ferrante , a produção mergulha na trajetória de duas amigas, Elena e Lila, desde a infância na Nápoles dos anos 1950.  Trata-se de uma história que vai muito além do retrato de uma amizade: é um panorama sobre como o amor, a inveja e a busca pela independência moldam duas mulheres em um mundo que insiste em limitá-las. Ao longo de quatro temporadas produzidas pela HBO, acompanhamos as diferentes fases da vida dessas protagonistas , da infância ao amadurecimento. É uma obra sensível e realista que revela como laços afetivos se transformam e resistem em meio à pobreza, à violência e às pressões sociais. A seguir, veja quatro motivos para assistir a essa joia da televisão italiana: 1. Uma amizade feminina intensa e complexa A relação entre Elena e Lila foge dos padrões convencionais : é uma amizade marcada por amor, inveja, admiração e raiva. Esse vínculo, muitas vezes contraditório, é o eixo central da narrativa e convida o espectador a   refletir sobre as nuances e verdades ocultas  na dinâmica das duas. Mesmo com atitudes ambíguas e decisões difíceis, a conexão entre elas é construída de forma tão sensível  que o público se vê envolvido em suas dores, conquistas e alegrias . Em um contexto social dominado pela pressão patriarcal, o laço entre Elena e Lila emerge como um gesto de resistência  e uma busca profunda por identidade.   2. Um retrato realista da Itália pós-guerra O bairro de Nápoles não serve apenas como cenário da narrativa - ele se transforma em um verdadeiro personagem. Acompanhamos sua evolução paralela às mudanças que a Itália vivencia ao longo das décadas : de um distrito cinzento e marginalizado, marcado pela pobreza e pela violência, para uma região modernizada, impulsionada pelo crescimento urbano e imobiliário. Movimentos estudantis tinham grande impacto na época. Imagem: Reprodução HBO A série também mergulha nas tensões sociais, culturais e políticas  que marcaram o período. Temas como o avanço do movimento feminista, os protestos estudantis e os conflitos entre comunismo e facismo permeiam a trama,  ao lado da presença de organizações criminosas (máfias)  e da corrupção institucionalizada. Esse contexto histórico dá profundidade à narrativa e reforça os desafios enfrentados pelas protagonistas. 3. O poder do conhecimento           O conhecimento é a força motriz da narrativa. Elena encontra nos estudos e na escrita uma forma de libertação; Lila, por sua vez, enxerga nesse caminho uma oportunidade que lhe foi negada.  Essa ambiguidade - o  saber como ponte e barreira - é o que torna a relação entre elas ainda mais complexa e fascinante. A educação como ferramenta de emancipação feminina  é um dos pilares da série, especialmente em um contexto histórico em que as mulheres eram destinadas quase exclusivamente às tarefas domésticas. A busca pelo saber representa, para ambas, uma tentativa de romper com os limites impostos pela sociedade  e de construir uma identidade própria. Elena encontra nos estudos uma forma de mudar de vida. Imagem: Reprodução HBO 4. Uma cenografia impecável e atuações de tirar o fôlego Com fotografia naturalista, figurinos detalhados, trilha sonora sutil e direção cuidadosa, a série encanta visualmente e emociona profundamente. Cada cenário  parece narrar uma história paralela à das personagens. Da fragilizada Nápoles a efervescente Pisa, as mudanças  de paisagens refletem as transformações  internas de Elena e Lila. Outro destaque são as atuações. As atrizes, em todas as fases das protagonistas, entregam performances comoventes e autênticas, conferindo  realismo e profundidade à trama. É impossível não se envolver com a intensidade emocional que elas imprimem em cada cena. Um relacionamento que se mantém firme mesmo com a passagem do tempo. Imagem: Reprodução HBO Mais do que um drama de época, My brilliant friend é um retrato profundo e comovente do que significa ser mulher em uma sociedade que frequentemente silencia vozes femininas.  A série transcende o tempo e o espaço ao explorar temas universais como identidade, liberdade, afeto e resistência. Com uma narrativa poderosa e estética refinada, ela convida o espectador a refletir sobre os desafios da condição feminina — ontem e hoje — e sobre a força que emerge quando mulheres se apoiam, mesmo em meio às contradições. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V. G.

  • “Nasceu ontem, morreu hoje”: as tendências da internet

    Camila Pudim, influenciadora digital, reproduzindo a trend ‘Asoka Makeup’, que conta com mais de 620 milhões de visualizações no Tiktok (Tiktok/Divulgação) Num passado não tão distante, blogs, fotologs e fóruns eram considerados espaços online de troca genuína. Fosse no Brasil ou mundo afora, quem escrevia sobre maquiagem, livros ou games não buscava monetizar esse conteúdo, mas compartilhar suas próprias experiências com um público totalmente desconhecido,  que em pouco tempo se transformava em uma comunidade fiel de seguidores engajados. Os anos passaram, as tecnologias evoluíram, e a internet cresceu no mesmo ritmo acelerado. Pode-se dizer que ela criou o terreno perfeito para uma evolução natural do comportamento social no meio digital, principalmente com a chegada de plataformas como YouTube, Facebook, Twitter e, mais tarde, o Instagram. Contudo, os famigerados memes, dancinhas e challenges   se tornaram ferramentas — ou melhor, tendências — poderosas na batalha pela visibilidade, ainda que apareçam e desapareçam em questão de dias. A influência deixou de ser uma forma espontânea de conexão para se transformar em moeda. Compartilhar a rotina ou dar dicas de produtos virou estratégia de marketing; a espontaneidade cedeu lugar à corrida por alcance, relevância e status digital - transformando-se, inclusive, em profissão.  Cada conteúdo agora é cuidadosamente calculado para capturar a atenção do público, impulsionar o engajamento e, claro, garantir que criadores se mantenham no topo — de um feed online, ainda que isso signifique sacrificar (ou sequer construir) a própria autenticidade. Do lado de cá, o maior desafio dos usuários é acompanhar o que está rolando dentro da internet. O que acontece no mundo inteiro conseguiu ser reduzido ao acesso em poucos toques em uma pequena e retangular tela de celular, causando bombardeio de informações a cada segundo, cada vez mais simplificadas ou contextualizadas. Na era do TikTok, então? Tudo se acelerou. O formato de vídeos com menos de um minuto fala muito sobre o novo comportamento da humanidade dentro da era digital: um ritmo alucinante, onde o usuário médio se vê pressionado a consumir, reproduzir e performar constantemente - mesmo quando não entende exatamente o porquê. A lógica do "se não postar, não viveu"  se mistura ao medo de ficar por fora, criando uma ansiedade silenciosa de estar sempre atualizado. Manda quem pode, obedece quem quer viralizar Por trás de cada tendência que viraliza existe uma engrenagem invisível decidindo o que merece atenção. Atualmente, as redes sociais majoritariamente não são sobre o que é mais criativo, verdadeiro ou necessário - é sobre o que retém cliques, arranca reações e mantém o usuário preso a ela. O algoritmo não entende de contexto, cultura, muito menos de limites - mas é mestre em comportamento. E, feito uma máquina, se retroalimenta de horas olhando feed, com curtidas e compartilhamentos moldando o universo digital único e exclusivo do usuário. O resultado? Uma bolha personalizada onde você acredita estar fazendo escolhas e acompanhando as pessoas certas, quando, na verdade, está sendo guiado o tempo todo. “As tendências, portanto, nascem não porque são geniais, mas porque o algoritmo decidiu impulsioná-las.” Abrasileirando a crítica, o relatório “ The Creator Revolution ” aponta que existem cerca de 362 milhões de criadores de conteúdo nos 20 países analisados. Dentre eles, só no Brasil são aproximadamente 1 em cada 20 brasileiros que, independentemente do número de seguidores, produzem conteúdo original para redes sociais. Vale ressaltar que,  hoje, o Brasil possui uma população estimada de 212,6 milhões de pessoas ¹. Mas quando o assunto é uso de celulares, segundo a 35ª Edição da Pesquisa do Uso da TI, conduzida pela FGV, o cenário cresce para  258 milhões de aparelhos em uso, sendo em média 1,2 celulares por cada habitante . Pessoas até então desconhecidas explodem da noite para o dia, enquanto outros criadores tentam, mas seguem invisíveis. É como uma loteria onde poucos ganham, mas todos continuam jogando. E quando uma tendência perde força, o algoritmo já está alimentando outra. Se desconectando da realidade Capa do livro "O Clube das 5 da Manhã" de Robin Sharma “ 5AM Club ” Alguém em sã consciência gosta de levantar-se cedo? Aparentemente a resposta é sim para os membros do movimento que ganhou força após o livro homônimo de Robin Sharma, chamado  “O Clube das 5 da Manhã”. Defendendo que acordar às cinco da manhã seria a chave para a produtividade, sucesso e vida plena, a ideia central do livro é que, enquanto o mundo dorme, os grandes líderes já estão dominando o dia. Talvez o que o autor do livro não esperava é que, na realidade de muitas pessoas, acordar às cinco horas da manhã nem sempre é uma escolha - é uma necessidade. Muitas já têm rotinas exaustivas, turnos longos e pouco descanso. Ainda assim, são bombardeadas com conteúdo que sugerem que quem consegue acordar cedo, treinar, estudar e empreender antes do expediente comum é visto como alguém mais digno de admiração. Mas por trás disso está a velha lógica da performance disfarçada de motivação , onde descanso é pecado, e rotina intensa sem pausas é “o prêmio da guerra”. Estética Clean Girl A estética da Clean Girl  parece simples à primeira vista: pele natural, penteado com gel, blush cremoso, argolas douradas e roupas com cores sóbrias e recortes minimalistas. Foto: Hailey Bieber ( Instagram / Divulgação) Embora se venda como “beleza natural”, o rosto mais comum associado à tendência é o de mulheres brancas, magras, de traços delicados e com poder aquisitivo elevado . É um padrão que reforça ideais eurocêntricos de beleza, onde pele sem manchas, sem acne, com glow na medida certa, não é um acaso - exige cuidados com a pele caros, procedimentos estéticos constantes, uma rotina disciplinada de exercícios e alimentação que poucos conseguem sustentar e, principalmente, um racismo velado de tendência estética. A “Clean Girl” não se trata só de aparência, mas de uma performance de controle, estabilidade emocional e sucesso silencioso das mulheres - ainda mais das mulheres negras e pobres. É uma mulher que parece ter tudo sob controle, mas só porque tem tempo, dinheiro e um corpo que já se encaixa no padrão imposto socialmente. No fundo, o discurso do “menos é mais” vira desculpa para vender mais: mais produtos “clean”, mais organização, mais autocuidado como obrigação. E quem não se encaixa na imagem vendida, sente que está falhando em ser simples o suficiente. No fim das contas… O que se vende como “liberdade” virou manual de instruções. Essa lógica transforma até os momentos mais íntimos em conteúdo. Dormir bem? Se render engajamento. Ter uma pele “natural”? Apenas se incluir os produtos certos - e mais caros. Tendência após tendência, bolha por bolha, moldando nossa percepção do que é sucesso, saúde, beleza, valor. No fundo, somos influenciados o tempo inteiro, até quando achamos que estamos no controle. A tal “influência” de hoje é uma corrida sem linha de chegada. Numa sociedade que já exige tanto, as redes adicionam mais uma camada: a de só parecer estar vivendo da melhor forma possível — sempre com filtros, com ritmo, com propósito… E nunca sendo o suficiente. Se desconectar, portanto, pode parecer um ato radical, mas talvez seja só o primeiro passo para reconectar com o que realmente importa - que muitas vezes não precisa ser postado para, de fato, fazer sentido. ¹Fonte: IBGE Texto escrito por Jeane Queiroz É jornalista e pós-graduanda em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação. Orgulhosa "fã de carteirinha" de K-pop, fundou o coletivo Liga Comunarmy, que une fãs do grupo sul-coreano BTS focados em disseminar a perspectiva da luta de classes através do incentivo e análises das músicas da banda. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências: https://www.tudocelular.com/mercado/noticias/n223130/brasil-tem-mais-smartphone-que-pessoas-pesquisa.html https://revistamarieclaire.globo.com/beleza/noticia/2024/11/as-9-tendencias-de-beleza-que-cresceram-no-tiktok-e-se-destacaram-em-2024.ghtml https://eaesp.fgv.br/producao-intelectual/pesquisa-anual-uso-ti https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2024-12/brasil-tem-141-milhoes-de-usuarios-de-internet-aponta-pesquisa https://revistamarieclaire.globo.com/beleza/noticia/2024/11/morning-shed-explicamos-a-trend-de-skincare-que-preve-passos-excessivos-a-noite-para-uma-manha-pratica.ghtml https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41111-populacao-estimada-do-pais-chega-a-212-6-milhoes-de-habitantes-em-2024 https://brandpublishing.com.br/tempo-medio-online/ https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41026-em-2023-87-2-das-pessoas-com-10-anos-ou-mais-utilizaram-internet#:~:text=Entre%20186%2C9%20milh%C3%B5es%20de,necessidade%20(25%2C9%25).&text=Em%202023%2C%20estima%2Dse%20que,foi%20de%2086%2C5%25 . https://www.infomoney.com.br/colunistas/convidados/o-brasil-tem-quase-10-milhoes-de-criadores-de-conteudo-e-quase-ninguem-vivendo-disso/#:~:text=De%20acordo%20com%20o%20relat%C3%B3rio,1%20em%20cada%2020%20brasileiros .

  • A romantização do corporativismo: Quando “vestir a camisa” vira uma armadilha

    Fonte: Imagem gerada por IA Nos últimos anos, o trabalho passou a ocupar um lugar quase emocional  na vida das pessoas. O discurso sobre propósito, pertencimento e paixão  pelo trabalho ganhou força e, à primeira vista, isso parece positivo. Afinal, quem não deseja se sentir engajado e orgulhoso da própria trajetória profissional? O problema começa quando o engajamento saudável se transforma em romantização , uma narrativa que disfarça sobrecargas , normaliza o cansaço  e transforma o “amor pelo trabalho” em justificativa para tudo. O cenário se agrava ainda mais quando esse discurso vira uma exigência constante. Nesse momento, algo se perde pelo caminho: o que deveria inspirar, acaba sufocando ; o que deveria motivar, começa a adoecer. No imaginário de muitas empresas, o profissional ideal ainda é aquele que está sempre “ligado”: responde mensagens fora do horário, participa de tudo e “veste a camisa” sem questionar. Já nas redes sociais, frases como “trabalhe com o que ama e nunca mais precisará trabalhar” reforçam a ideia de que a paixão justifica o excesso. Mas será mesmo? A verdade é que o amor pelo trabalho não precisa - e nem deve - vir acompanhado de culpa por descansar. Quando o engajamento se transforma em devoção, o limite entre realização e exaustão desaparece.  O corpo sente, fala, e a dor sobrepõe o amor com facilidade. Um estudo clássico realizado em 2022 propõe um modelo em que a paixão pelo trabalho (“work passion”) se divide em dois tipos: paixão harmoniosa  (“harmonious passion”) e paixão obsessiva  (“obsessive passion”). O modelo sugere que a paixão obsessiva está associada a maiores conflitos entre trabalho e vida pessoal e, consequentemente, a um risco elevado de burnout  - algo cada vez mais comum entre os chamados “workaholics”. Mas, afinal, o que leva tantos profissionais a romantizarem o trabalho em excesso? Em entrevista ao Portal Águia , a psicoterapeuta Dra. Darlene Vieira explica que esse comportamento muitas vezes está relacionado a necessidade de reconhecimento e pertencimento , alimentada por uma cultura que reforça a ideia de que “quem não é visto, não é lembrado”. Trata-se de uma defesa psíquica, mas também de uma armadilha , já que o sujeito acaba se convencendo de que o excesso é uma virtude. Neste sentido, nota-se que muitas empresas aprenderam a usar essa lógica a seu favor. Um funcionário “apaixonado pelo que faz” tende a produzir mais e questionar menos, muitas vezes gerando um acúmulo de demandas. O colaborador eficiente e engajado acaba sobrecarregado, sem que haja necessariamente uma remuneração proporcional ao volume de trabalho. As “recompensas” vêm em formato de descompressão : os famosos ambientes com puffs, slogans como “somos uma família” e eventos motivacionais que criam uma ilusão de cuidado . No entanto, quando esse discurso não é acompanhado de políticas reais de equilíbrio e reconhecimento, o colaborador passa a entender que o afeto é moeda de troca, e não uma política de valorização.   No fundo, tudo se resume a um jogo simbólico, onde a promessa de conquista serve para sustentar a engrenagem. A romantização do trabalho mina a autonomia , o senso de pertencimento  genuíno e até a criatividade . Ela forma profissionais que têm medo de descansar , sentem culpa por priorizar a vida pessoal e enxergam o autocuidado como um luxo. O resultado é adoecimento, frustração e, consequentemente, alta rotatividade nas empresas - o famoso “turnover”. Afinal, a ilusão de satisfação com o trabalho chega ao fim. Cedo ou tarde, o profissional busca libertação, ainda que isso signifique recomeçar o mesmo ciclo em outro lugar. Um ciclo vicioso, mas agora com o “luxo” de se permitir uma nova chance - em um cenário diferente, mas com as mesmas armadilhas disfarçadas de propósito. Uma Análise do Tempo: Do Sucesso Exaustivo à Constante Busca por Qualidade de Vida Fonte: Banco de imagens do Canva Entre as décadas de 1970 a 1990, trabalhar muito era sinônimo de caráter. As gerações mais antigas, especialmente os “ baby boomers”  e a geração X, cresceram ouvindo que o sucesso dependia de resistência, sacrifício e lealdade à empresa. O ambiente corporativo era marcado por hierarquias rígidas e pelo medo da instabilidade. Ter um emprego fixo, construir carreira em uma única empresa e ser reconhecido pelo esforço eram símbolos de sucesso. O profissional “forte” era aquele que não reclamava, não demonstrava fragilidade e se orgulhava de “dar conta de tudo”. Já os millennials (Geração Y  - nascidos entre 1981 e 1996) começaram a questionar essa lógica. Vivenciaram as crises econômicas dos anos 2000 , o avanço da tecnologia, o surgimento do discurso do propósito, de que o trabalho precisa “fazer sentido” e o boom das startups , que prometiam ambientes mais leves e criativos. No entanto, esse novo modelo trouxe um efeito colateral: o romantismo profissional.  Ou seja, o trabalho deixou de ser apenas um meio de sustento e passou a ser um símbolo de identidade . Muitos jovens passaram a buscar realização pessoal e emocional no ambiente corporativo, alimentando a crença de que ser apaixonado pelo trabalho justifica o excesso. A Geração Z (nascidos a partir de 1997), por sua vez, cresceu vendo pais e irmãos mais velhos adoecerem por excesso de dedicação, o que trouxe a necessidade de romper esse ciclo. Com isso, surgiram novas prioridades:  saúde mental, flexibilidade e qualidade de vida. Essa geração questiona abertamente a cultura do “trabalhar até cair” e valoriza empresas com propósito real , jornadas sustentáveis, modelos híbridos de trabalho, flexibilidade de horários e limites claros . Enquanto gerações anteriores viam o descanso como “fraqueza”, os novos profissionais o enxergam como uma condição básica para a performance sustentável. Uma via de mão dupla: O papel da empresa na romantização do trabalho Fonte: Banco de imagens do Canva A romantização do trabalho não se sustenta sozinha: ela costuma ser alimentada por culturas organizacionais que disfarçam a exploração com discursos inspiradores sobre pertencimento , espírito familiar, humanização e sucesso profissional. Promessas que, muitas vezes, funcionam como ferramentas de manipulação emocional , mascarando a sobrecarga, a ausência de limites e exploração afetiva. Segundo Byung-Chul Han, filósofo e autor de Sociedade do Cansaço  (2015), vivemos uma era em que o sujeito se tornou “empresário de si mesmo”, acreditando que fracassar no trabalho é fracassar como pessoa. Esse pensamento abre espaço para que empresas tóxicas transfiram toda a responsabilidade do adoecimento para o indivíduo, enquanto mantêm estruturas de produtividade insustentáveis. Está cada vez mais comum ver profissionais adoecendo silenciosamente  e buscando apoio psicológico para reconstruir uma vida mais digna e equilibrada. Muitos recorrem a afastamentos estratégicos, tentando evitar o colapso que se anuncia em crises de ansiedade , disfarçadas em idas demoradas ao banheiro ou em momentos de aparente distração. A normalização desse cenário expõe a face perversa de gestões que priorizam o lucro acima das pessoas e evidencia o paradoxo de um sistema em que as vítimas buscam ajuda terapêutica, enquanto os responsáveis sequer reconhecem - ou se importam - com o dano que provocam. Para evitar o agravamento desse ciclo, reconhecer um ambiente tóxico é apenas o primeiro passo . Essa identificação passa por observar comportamentos e práticas que, embora normalizados, revelam uma cultura corporativa adoecedora. Entre os principais sinais, destacam-se: Culto à disponibilidade:  quando o colaborador mais valorizado é aquele que está sempre acessível, mesmo fora do expediente, e que não se opõe a permanecer em atividade após a jornada de trabalho. Glorificação do sacrifício:  expressa nos elogios constantes a quem “resolve tudo”, mesmo às custas da própria saúde e bem-estar. Culpabilização das necessidades pessoais:  ocorre quando o cuidado com a saúde física ou mental é interpretado como “falta de compromisso” ou “falta de vontade”. Ausência de coerência:  empresas que discursam sobre propósito e meritocracia, mas promovem competição desleal, metas inalcançáveis e jornadas exaustivas. Reconhecer esses sinais é fundamental para romper o ciclo da romantização do trabalho e resgatar a dignidade por trás da palavra produtividade . Preservar-se emocionalmente é essencial para estabelecer e respeitar os próprios limites, tornando mais provável a libertação sem culpa. De acordo com a psicóloga Emma Seppälä (Universidade de Yale), estratégias como autocompaixão, distanciamento emocional e apoio social  são fundamentais para evitar que o trabalho domine a identidade pessoal. A principal forma de proteção é a consciência crítica. Compreender que há interesses corporativos por trás da romantização é essencial para não cair na armadilha do “amor ao trabalho” que tudo justifica. Empresas éticas não precisam convencer seus colaboradores de que são uma “família”, elas demonstram isso com práticas justas, respeito e limites saudáveis. Como resume a filósofa Marcia Tiburi (2018), “quando o amor é usado como ferramenta de controle, ele deixa de ser afeto e se torna opressão”. Romantizar o trabalho é, portanto, uma forma sutil de naturalizar o desequilíbrio, e questionar isso é um ato de maturidade profissional. No fim das contas, não se trata de amar menos o que se faz, mas de amar mais a si mesmo dentro do que se faz. Trabalhar com propósito é valioso, desde que o propósito não nos custe a saúde, o sono e a sanidade. Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G. Referências: BYUNG-CHUL, Han.   Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. TIBURI, Marcia.   Filosofia prática: ética, vida cotidiana, vida virtual.  Rio de Janeiro: Record, 2018. SEPPÄLÄ, Emma.   The Happiness Track: How to Apply the Science of Happiness to Accelerate Your Success.  New York: HarperOne, 2016. DELOITTE.   Global Gen Z and Millennial Survey 2024. Disponível em: https://www.deloitte.com/global/en/issues/work/genz-millennial-survey.html . VALLERAND, Robert J.; BLANCHARD, C.; MAGEAU, G. A.; KOESTNER, R.; RATELLE, C.; LEONARD, M.; GAGNE, M.  “On Passion for Work and Its Relation to Harmonious and Obsessive Involvement.” Journal of Personality and Social Psychology , v. 85, n. 4, p. 756–767, 2003. HARVARD BUSINESS REVIEW. Beyond Burned Out.  2021. Disponível em: https://hbr.org/2021/02/beyond-burned-out .

  • O caráter assimétrico do acordo entre o Mercosul e a União Europeia

    Foto por Ricardo Stuckert/PR O Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia são protagonistas de um dos acordos comerciais mais ambiciosos das últimas décadas.  As negociações, iniciadas há mais de 20 anos, foram marcadas por sucessivos atrasos de ambas as partes, motivados por razões políticas e, sobretudo, por divergências quanto à direção que o bloco latino-americano deveria seguir. Do lado europeu, os principais entraves vieram da resistência de alguns países com forte setor agrícola, liderados pela França. Diante do recente avanço da China, a União Europeia se tornará o primeiro grande parceiro comercial a formalizar um acordo com o Mercosul – feito que nem os Estados Unidos nem a própria China alcançaram  – oferecendo acesso preferencial aos países do bloco em uma região historicamente muito protegida. Para o Mercosul, trata-se também do maior tratado já negociado (Latorre, María C.; Yonezawa, H., e Olekseyuk, Z., p. 49). Recentemente, sob a Presidência Pro Tempore da Argentina no Mercosul, o presidente Javier Milei destacou que o bloco deve avançar "para um esquema comercial e regulatório muito mais livre , em vez da cortina de ferro à qual estamos submetidos, no qual cada país possa gozar de maior autonomia para aproveitar suas vantagens comparativas  e seu potencial exportador". Essa postura está alinhada com a transformação que o bloco vem experimentando desde o início do século XXI, ao transitar de um “regionalismo autônomo” para um “regionalismo aberto” (Merino citado em Simonoff, A., p. 59). Ambas as regiões compartilham uma história comum, enraizada em vínculos culturais, sociais e políticos  que as conectam há séculos. Há, portanto, uma percepção amplamente difundida de que esse passado compartilhado pode contribuir para estabelecer um marco de entendimento  que favoreça o diálogo e a negociação comercial, mais do que com outras regiões do mundo. Sob essa mesma perspectiva otimista, a associação comercial representa uma oportunidade incontestável. O acordo prevê a redução de tarifas em mais de 90% das exportações  totais do bloco regional, amplia o acesso a um mercado de 450 milhões de pessoas, coloca os exportadores do Mercosul em condições de igualdade com concorrentes de países que já mantêm acordos comerciais com a União Europeia, viabiliza o fornecimento mais barato de insumos para a produção e simplifica os processos de certificação, que atualmente mais dificultam do que garantem a segurança nas transações comerciais. Outro aspecto relevante é o potencial de estímulo a novos investimentos europeus na região,  considerando que a União Europeia é o principal investidor global. Segundo estimativas oficiais, os investimentos poderiam crescer 177% “dez anos após a assinatura do tratado” (Chancelaria Argentina, 2025). O otimismo em torno do acordo é tal que se argumenta que sua conclusão fortaleceria a integração latino-americana ao estabelecer um “denominador comum” nos requisitos de origem com países que já mantêm acordos semelhantes com a União Europeia. Em outras palavras, sugere-se implicitamente, que a integração regional só seria viável por meio da Europa. No entanto, esse entusiasmo tende a obscurecer a profunda assimetria  existente entre as duas regiões. A concretização do acordo pode resultar em uma inserção internacional dependente, com potenciais prejuízos para setores econômicos estratégicos, como a indústria manufatureira do Mercosul, curiosamente apontada como uma das principais beneficiárias da associação. As significativas disparidades de capacidade entre as economias europeia e latino-americana lançam dúvidas sobre o potencial do acordo como motor de desenvolvimento para a região sul-americana. Como adverte Dani Rodrik: “os defensores do livre comércio costumam admitir que algumas pessoas podem sair prejudicadas no curto prazo, mas em seguida argumentam que, a longo prazo, todos (ou ao menos a maioria) sairão ganhando” (Rodrik citado em Simonoff, 2011). Sem dúvidas, o Mercosul precisa traçar estratégias eficazes para fortalecer sua inserção internacional.  Um caminho possível consiste em estabelecer parcerias com regiões que tenham superado suas defasagens tecnológicas e estruturais por meio da industrialização, e não pela subordinação  a blocos mais desenvolvidos. As economias do Sudeste Asiático representam um exemplo claro dessa trajetória. Diante disso, cabe questionar: este acordo contribuirá efetivamente para o fortalecimento das capacidades produtivas e tecnológicas do Mercosul, ou representará apenas um ganho para as empresas europeias? As assimetrias entre o Mercosul e a União Europeia. Por ora, é preciso olhar para o presente, onde as assimetrias entre as duas regiões são evidentes.  Basta observar indicadores como o desempenho econômico, a composição do comércio inter-regional, as capacidades tecnológicas e de inovação, além das diferenças normativas, sociais e ambientais. Segundo dados do Banco Mundial (2025), a União Europeia apresenta um Produto Interno Bruto (PIB) de 15 trilhões de dólares  e um PIB per capita de 34.859 dólares  – ambos calculados a preços constantes de 2015. Por sua vez, de acordo com a CEPAL, o Mercosul registra um PIB agregado de 2,9 trilhões de dólares  e um PIB per capita de 10.500 dólares , com valores ajustados a preços constantes de 2018. No plano comercial, a União Europeia importa predominantemente bens primários do Mercosul  e exporta bens manufaturados (produtos farmacêuticos, máquinas, equipamentos industriais e eletrodomésticos). O Mercosul, por sua vez, exporta principalmente petróleo, alimentos, minerais e matérias-primas. No campo da inovação, a disparidade entre as regiões também é evidente. Em 2023, a União Europeia investiu 2,26% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D) , enquanto o Mercosul destinou apenas 1% em 2021 . Segundo dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), a União Europeia registrou 199.275 pedidos de patente, em contraste com os 5.841 pedidos apresentados pelo Mercosul. Quanto à capacidade industrial, os países europeus ocupam posições de destaque no Índice de Desempenho Industrial Competitivo da UNIDO: Alemanha (1º), Países Baixos (10º), Itália (11º) e França (12º). Entre os países latino-americanos, o Brasil aparece como o melhor colocado (42º), seguido pela Argentina (55º), Uruguai (78º) e Paraguai (87º). No plano normativo, as exigências da União Europeia em matéria de propriedade intelectual  e compras governamentais introduzem tensões significativas. A ampliação dos direitos de propriedade intelectual pode restringir a produção de medicamentos genéricos, comprometendo a soberania sanitária dos países do Mercosul.  Paralelamente, a abertura das compras governamentais às empresas europeias reduz a margem de manobra dos Estados sul-americanos para fomentar a indústria local, enfraquecendo instrumentos de desenvolvimento endógeno (Infobae, 2024). No que diz respeito às questões ambientais e trabalhistas, as assimetrias também são evidentes. A União Europeia exige compromissos vinculantes relacionados ao Acordo de Paris, ao combate ao desmatamento e à conformidade com os padrões trabalhistas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) . Em contraste, os países do Mercosul operam sob marcos regulatórios mais flexíveis e dispõem de menor capacidade de fiscalização (Infobae, 2024). Esse descompasso pode se traduzir em barreiras comerciais e na consolidação de um novo tipo de “protecionismo verde” , que condiciona o acesso de produtos sul-americanos ao mercado europeu sob o argumento da sustentabilidade. Diante de todos esses elementos, o Acordo de Associação Estratégica entre o Mercosul e a União Europeia configura-se como uma oportunidade relevante para ampliar mercados e atrair investimentos , mas também como um desafio que pode aprofundar as desigualdades estruturais já existentes.  As assimetrias econômicas, tecnológicas e normativas entre as duas regiões indicam que os benefícios do acordo tendem a ser distribuídos de forma desigual, potencialmente reforçando a dependência do Mercosul em relação ao bloco europeu. Nesse cenário, o verdadeiro desafio para o bloco sul-americano não reside apenas na obtenção de condições tarifárias mais favoráveis, mas sobretudo no fortalecimento de suas capacidades produtivas, tecnológicas e institucionais. Somente por meio desse esforço será possível transformar um acordo comercial assimétrico em uma ferramenta efetiva de desenvolvimento sustentável e soberano. Texto escrito por Jorgelina Gimenez Ruiz É cientista política pela UNSTA (Argentina). Mestranda em Relações Internacionais (IRI-UNLP) e diplomada em Práticas Aduaneiras (UTN). Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G Referências: Latorre, María C.; Yonezawa, Hidemichi; Olekseyuk, Zoryana (2021). O impacto econômico do acordo União Europeia-Mercosul na Espanha . Disponível em: https://comercio.gob.es/es-es/publicaciones-estadisticas/Documents/Impacto_EU-MCS_VF_v4(corregido).pdf https://www.argentina.gob.ar/noticias/el-presidente-javier-milei-cerro-la-cumbre-del-mercosur-con-una-fuerte-critica-la Simonoff, A. (2020). Acordos Mercosul-União Europeia sob a perspectiva da política externa argentina . Iconos 34(68), 57-73. Infobae (2024). Mercosul – União Europeia: muito mais que um acordo de livre comércio . Disponível em: https://www.infobae.com/revista-chacra/2024/06/23/mercosur-union-europea-mucho-mas-que-un-acuerdo-de-libre-comercio/ Milhorance, F. Desmatamento e leis trabalhistas: a disputa no Acordo UE-Mercosul . Disponível em: https://elsurti.com/reportaje/2023/08/18/que-exige-la-union-europea-al-mercosur-en-ambiente?

  • A visão estereotipada sobre o continente africano

    A percepção distorcida de que a África é um continente homogêneo , onde todos os países e culturas são iguais, é um problema antigo  que continua a persistir entre muitos estrangeiros, especialmente em pessoas da América do Norte e da Europa. Em geral, quando indivíduos de alguns países europeus e americanos se referem a assuntos relacionados aos países africanos, costumam usar expressões como “aconteceu na África” ou “viajou para a África”, deixando de lado a menção ao país especifico.  Esse ponto de vista estereotipado decorre de uma falta de compreensão e ignorância sobre a natureza diversa e multifacetada do continente africano. Uma das principais razões para esse equívoco é a exposição limitada que muitos indivíduos têm às culturas e sociedades africanas. Essa limitação começa nas escolas e universidades, onde pouco ou nada se ensina sobre os países africanos. Além disso, as representações da mídia frequentemente se concentram em estereótipos negativos , como pobreza, conflitos e doenças, reforçando ainda mais a ideia de uma África homogeneizada. Além disso, o legado colonial das potências europeias, que dividiram o continente sem considerar as fronteiras tribais existentes, contribuiu para a falsa noção de que a África é uma entidade única. Adicionalmente, as lideranças africanas têm contribuído, de forma indireta, para essa visão distorcida do continente . Isso ocorre porque,  muitas vezes, em conferências entre estados africanos e países europeus ou americanos, os países africanos apresentam-se como um único bloco   reunido com outro estado. Exemplos recentes incluem  conferências de cooperação econômica, como Rússia-África (27 e 28 de julho de 2023), EUA-África (6 a 9 de maio 2024), China-África (4 a 6 de setembro 2024). Embora seja inegável a importância dessas conferências - que tratam de temas como industrialização, desenvolvimento sustentável, segurança, trocas comerciais e investimento, buscando aproximar os diferentes estados soberanos -, para pessoas menos informadas dos países onde esses encontros ocorrem, a ideia da homogeneidade do continente africano acaba sendo reforçada.   Há também fatores históricos e culturais , como a colonização generalizada do continente  por várias potências europeias, que contribuíram para a visão simplificada e homogeneizada da África . O imperialismo, focado na exploração econômica e política da África pelos países europeus, reforçou ainda mais a ideia de que o continente era uma  entidade única e monolítica. Quando estrangeiros acreditam que a África é uma entidade singular com características uniformes, e les ignoram a vasta diversidade de etnias, línguas, histórias e tradições que existem dentro de suas fronteiras.  Essa perspectiva simplificada resulta na incapacidade de apreciar a riqueza e a complexidade das sociedades africanas, reduzindo-as a uma identidade monolítica e unidimensional. Fonte: Wikimedia Commons Ao ampliarmos nossa visão sobre este lindo continente, composto por 54 Estados soberanos , e nos aprofundamos em sua essência,  podemos constatar sua extraordinária diversidade cultural, representada por mais de 2.000 línguas nativas , inúmeras  tradições, uma beleza natural rica em savanas, desertos, cascatas, rios, montanhas e praias deslumbrantes. Além disso, o continente abriga uma vasta e diferenciada fauna e flora , bem como demonstra uma admirável resiliência e hospitalidade em relação aos visitantes. Infelizmente, a África ainda enfrenta inúmeros desafios que contribuem para sua percepção negativa, como altos níveis de pobreza e desigualdade em quase todos os países, conflitos e instabilidade politica , o que alimenta medo,  desconfiança  e reforça  preconceitos ou estereótipos sobre seus habitantes. Exemplos disso são a visão da África como um continente "atrasado" ou "selvagem".  É essencial  reconhecer e desafiar essas percepções, promovendo uma compreensão mais informada e respeitosa sobre a  diversidade e a complexidade do continente africano. Apesar dos desafios, muitos países africanos estão experimentando desenvolvimento e progresso consideráveis. Exemplos notáveis incluem Ruanda, África do Sul, Namíbia, Etiópia, Egito, Marrocos e Tunísia, entre outros.  Para alcançar esse desenvolvimento, diversos países africanos contam com o apoio de bancos regionais ou continentais, como o Afreximbank e o Banco Africano de Desenvolvimento , cuja principal missão é  promover a transformação das sociedades, economias e melhorar a qualidade de vida das populações do continente. Fonte: raizdosambaemfoco.wordpress.com É importante destacar que as dificuldades e desafios enfrentados pela África também oferecem várias oportunidades para investimento, comércio e cooperação , criando um ambiente promissor para iniciativas sustentáveis e mutuamente benéficas. Apresento aqui alguns fatos interessantes sobre o continente africano : Localização : A África está localizada no hemisfério oriental, entre os oceanos Atlântico, Índico e Mediterrâneo. Tamanho : O continente africano tem uma área de aproximadamente 30,3 milhões de km², sendo o terceiro maior continente do planeta, cobrindo cerca de 20% da área total da Terra. É um espaço  r ico em diversidade cultural, linguística, geográfica e biológica. Países : A África é composta por 54 países ou estados independentes. População : De acordo com estimativas mais recentes, a população da África é de cerca de 1,5 bilhão de pessoas, o que representa cerca de 15% da população mundial. Línguas : M ais de 2.000 línguas são faladas no  continente africano , o que representa cerca de 30% das línguas faladas no mundo. Culturas : A África é o berço de uma rica diversidade cultural, abrigando muitas civilizações e impérios históricos, como o Egito Antigo, a Núbia  ( uma região situada no vale do rio Nilo ) e o Império do  Mali. Geografia : O continente é caracterizad o  por uma grande variedade de paisagens, incluindo savanas, desertos, montanhas e florestas tropicais. Biodiversidade : A África abriga uma incrível biodiversidade, com inúmeras e spécies de animais e plantas que não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. Para realmente entender e apreciar a África, é essencial reconhecer e celebrar sua diversidade.  Cada país do continente tem sua própria história, costumes e tradições únicas que moldam sua identidade. Ao reconhecer e respeitar as particularidades de cada nação africana, estrangeiros podem deixar para trás a visão ultrapassada de que a África é um continente monolítico  e, em vez disso, abraçar a riqueza de suas diversas e vibrantes culturas. Isaac Jorge  - É licenciado no Curso de Relações Internacionais pela Universidade Privada de Angola e trabalhou durante alguns anos na Missão Diplomática da República de Angola em Pretória - África do Sul. Além a experiência diplomática, nos últimos 18 anos tem estado ligado a atividade bancária, tendo assumido várias responsabilidades tais como Subdiretor na Direção de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, onde desenvolveu-se estudos para internacionalização do banco. Foi chefe de Departamento da banca de investimentos e Chefe de Departamento da Direção de Organização e Qualidade. Tem estado ligado a diferentes projetos de desenvolvimentos e de melhorias de produtos e serviços bancários e na formação de técnicos trabalhadores. É amante de esportes, principalmente o futebol. Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme Grecco Referências https://www.worldometers.info/world-population/africa-population/ https://www.afdb.org/pt https://www.afreximbank.com/ https://www.queroviajarmais.com/category/africa/

  • Anulação de Roe x Wade marca retrocesso social nos EUA

    A questão que causou mais alvoroço nos Estados Unidos estas últimas semanas tem a ver com a suspensão do direito constitucional ao aborto pela Suprema Corte do país. Isso ocorre depois de quase 50 anos de jurisprudência conquistada no famoso caso de 1973, Roe vs. Wade. Norma McCorvey (Jane Roe) e sua advogada Gloria Allred nos degraus da Suprema Corte, 1989. Foto: Wikipedia. O caso Roe vs Wade Roe v. Wade foi uma decisão histórica da Suprema Corte dos Estados Unidos, na qual a Corte decidiu que a Constituição dos Estados Unidos protege a liberdade de uma mulher escolher fazer o aborto. A decisão derrubou muitas leis federais e estaduais sobre aborto, e alimentou um debate sobre o aborto nos Estados Unidos sobre se, ou até que ponto, o aborto deveria ser legal, quem deveria decidir a legalidade do aborto e qual deve ser o papel das visões morais e religiosas na esfera política. O caso foi trazido para a Corte por Norma McCorvey - conhecida pelo pseudônimo legal "Jane Roe" - que em 1969 engravidou de seu terceiro filho. McCorvey queria um aborto, mas ela morava no Texas, onde o procedimento era ilegal, exceto quando necessário para salvar a vida da mãe. Seus advogados, Sarah Weddington e Linda Coffee, entraram com uma ação em seu nome no tribunal federal dos EUA contra o promotor local, Henry Wade, alegando que as leis de aborto do Texas eram inconstitucionais. Um tribunal especial de três juízes do Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Norte do Texas ouviu o caso e decidiu em seu favor. As partes recorreram dessa decisão ao Supremo Tribunal Federal. Em 22 de janeiro de 1973, a Suprema Corte emitiu uma decisão de 7 contra 2 sustentando que a Cláusula do Devido Processo da Décima Quarta Emenda à Constituição dos Estados Unidos fornece um "direito à privacidade" fundamental, que protege o direito de uma mulher grávida ao aborto. A Corte também considerou que o direito ao aborto não é absoluto e deve ser equilibrado com os interesses do governo de proteger a saúde da mulher e a vida pré-natal. A Corte resolveu esses interesses conflitantes anunciando um calendário trimestral de gravidez para reger todas as regulamentações de aborto nos Estados Unidos, sendo que o nos dois primeiros trimestres, nenhuma lei estadual poderia impedir uma mulher de abortar. A Corte também classificou o direito ao aborto como "fundamental" , o que exigia que os tribunais avaliassem as leis de aborto contestadas sob o padrão de "escrutínio estrito", o nível mais rigoroso de revisão judicial nos Estados Unidos. Anulação da decisão e efeitos políticos Em 24 de junho de 2022, a Suprema Corte decidiu num voto 6 contra 3 anular Roe v. Wade. Semelhante ao que havia já vazado anteriormente na mídia, o parecer do tribunal escrito pelo juiz Alito afirmou que Roe estava "gravemente errado desde o início" e seu raciocínio "excepcionalmente fraco". Também afirmou que Roe "incendiou o debate e aprofundou a divisão" e que anular isso "devolveria a questão do aborto aos representantes eleitos do povo". A opinião da maioria baseou-se em uma visão histórica constitucional dos direitos ao aborto, dizendo: "A Constituição não faz referência ao aborto, e nenhum tal direito é implicitamente protegido por qualquer disposição constitucional". Como resultado, os estados dos EUA recuperaram autonomia para passar leis sobre o assunto, o que resultará em pelo menos metade deles impondo restrições e novas regras sobre onde o aborto pode ou não ser realizado. Além das questões de saúde pública que essas campanhas abordam e todo o debate sobre direitos reprodutivos e das mulheres, as deliberações da Suprema Corte são importantes por outros motivos: Ressaltam que a justiça não é objetiva ou puramente técnica, mas sim - e principalmente - um espaço de negociação política. Na foto os juízes nominados por presidentes republicanos estão em vermelho, e aqueles nomeados por presidentes democratas, em azul. A decisão vem depois que o judiciário tem recebido uma maioria de juízes conservadores nos últimos anos, grande parte destes apontada pelo ex-presidente Donald Trump. O Supremo Tribunal, composto por nove membros, tornou-se uma área ativa de disputa, envolvendo não apenas aspectos ideológicos básicos, mas também competição partidária direta. A anulação vem em um momento muito específico: um dia após a vitória histórica de Biden sobre o controle de armas no Congresso. O Senado dos EUA acaba de aprovar, com apoio bipartidário, uma série de medidas para limitar a venda de armas no país, além de financiar programas voltados à saúde mental e segurança escolar. Essa é uma promessa central da campanha de Biden. Boas notícias para os democratas, mas notícias perturbadoras e particularmente sensíveis para a maioria dos republicanos. Assim, a decisão sobre o aborto foi uma "coincidência" conveniente para a oposição. Em um ano de eleições legislativas estratégicas, tudo indica que os votos serão amplamente afetados pela crise econômica do país. A inflação nos EUA atingiu um recorde. Dívida, déficit, desigualdade, perda de renda, capacidade de consumir e investir. Tudo isso constitui uma realidade há décadas e que impactou ainda mais fortemente o cotidiano das famílias norte-americanas em um mundo pós-COVID. Uma questão de natureza multifacetada que requer estudo especializado - como o aborto - acaba virando mais uma onda que incentiva a polarização como forma de tentar despertar as paixões dos eleitores com objetivos de curto prazo. Esse tipo de discussão geralmente é muito mais complicada do que isso e envolve direitos básicos e fundamentais para as mulheres, porém mais uma vez se torna vítima de uma estratégia metódica realizada pelos conservadores para derrubar qualquer chance do tema ser ao menos discutido, em nome de uma retórica religiosa fundamentalista que vem tomando conta dos discursos republicanos pelos últimos anos. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador do Zero Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Fontes: https://noticias.uol.com.br/colunas/fernanda-magnotta/2022/06/24/suspensao-do-direito-ao-aborto-nos-eua.htm Documentário Roe x Wade: Direitos das Mulheres nos EUA.

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