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  • Revisionismo histórico nas artes: reparação histórica ou apagamento?

    Podemos dizer que, de maneira lenta, a sociedade tem vivido um movimento progressista. Esse movimento evolutivo tem ocorrido graças a diversos fatores, como os movimentos sociais, que vem reivindicando e lutando por seus direitos, o acesso à informação e, entre eles, a arte . Sabemos que ela tem um papel fundamental de nos questionar e nos incomodar, provocando debates sobre o normal e o ordinário. Mas o que acontece quando a arte vem carregada de preconceitos e julgamento? Apesar do sucesso da animação "Pocahontas", o clássico da Disney pouco tem a ver com a história real da indígena nativo-americana, e realça vários preconceitos sobre os povos originários da América do Norte. A expressão artística traz consigo um recorte da sociedade em que ela está inserida. Não é possível que em uma obra de arte a carga histórica, social e cultural seja desvinculada de seu artista. O que é produzido pelo artista, quer ele queira ou não, trará na obra reflexos daquele momento social. Nossos pais e avós pularam vários carnavais e nós também ainda pulamos cantando "o teu cabelo não nega mulata" , de Lamertine Barros e os irmãos Valença, e brincamos entre amigos cantando "olha a cabeleira do Zezé, será que ele é?" . Diversas vezes, durante a década de 1990, demos risadas assistindo à Escolinha do professor Raimundo com o personagem Costinha, vivido por Lírio Mario da Costa, fazendo piadas machistas e homofóbicas. E como não se lembrar também com saudades do monstro da comunicação, Jô Soares, fazendo suas piadas gordofóbicas no extinto Viva o gordo, na TV Globo, no final da década de 80. Além disso, também apreciamos em diversas outras formas, obras carregadas de preconceito e ofensas em livros, músicas, peças de teatro e exposições de artes. O nosso amor é a base de açúcar, afeto e machismo Aos trancos e barrancos, o progressismo tem alcançado cada vez mais espaços. Graças aos movimentos sociais e acesso à informação, preconceitos tem sido questionados, expressões tem sido revistas, vozes antes não ouvidas e validadas tem recebido o devido reconhecimento, dando espaço ao diálogo, aos questionamentos a comportamentos antes considerados normais, mas que agora não são mais aceitos. Chico Buarque anunciou em 2022, que não cantaria mais a canção "Com açúcar e com afeto" , escrita por ele em 1967 e eternizada na voz da falecida cantora Nara Leão. Segundo o compositor e cantor, a música, carregada com conteúdo machista, coloca a mulher como submissa e dependente do marido. De acordo com o pronunciamento, a canção não deve ser mais cantada, uma vez que esse comportamento e postura não deve ser mais aceito na sociedade. Em movimento parecido, a Disney tem editado e colocado na abertura de alguns dos seus desenhos mensagens alertando sobre o contexto da época e que não são mais aceitos. No texto acima é declarada a seguinte mensagem: "O programa a seguir inclui representações negativas de pessoas ou culturas. Esses estereótipos eram errados na época e são errados hoje. Ao invés de remover este conteúdo, nós admitimos o impacto negativo do mesmo, aprendemos e gostaríamos de provocar um debate para criar um futuro mais inclusivo juntos. A Disney está comprometida em criar histórias com temas inspiradores que refletem a rica diversidade da experiência humana ao redor do globo. Para aprender mais sobre como as as histórias impactaram a sociedade, visite: www.Disney.com/StoriesMatter Além dos exemplos acima, temos diversos outros que tem sido trazidos para o debate. Ao escrever "Sítio do pica-pau amarelo" , Monteiro Lobato expõe em seus textos o racismo presente naquela época, destacado em falas da Emília sobre Tia Nastácia, em um país praticamente recém saído da escravidão. Atualmente há um movimento onde Tia Nastácia assumiria papel de amiga de infância de Dona Benta e não mais a empregada, tirando de contexto a obra do autor. Se reunidas, as obras da autora inglesa Agatha Christie, importante escritora policial do século XX, fica atrás apenas que a Bíblia em quantidade de vendas. Porém, mesmo assim, seus livros não estão isentos do preconceito. Em seus romances, a autora usa estereótipos para se referir ao povo egípcio, em A morte no Nilo, de 1937. O comportamento da escritora reflete a sociedade inglesa da época, com seu comportamento imperialista e colonizador. Há algum tempo, editoras tem realizado o movimento de retirar expressões e citações preconceituosas dos textos da famosa autora. Revisionismo ou apagamento? Diversas outras obras tem passado por um movimento parecido. Ao se debruçar sobre elas, conseguimos visualizar através do seu conteúdo a sociedade àquela época. Seus autores estavam inseridos em um determinado contexto e carregados de uma estrutura social, o que era possível perceber em suas obras. Esse movimento gera alguns questionamentos: Essas obras devem ser revistas, revisadas e atualizadas? Os preconceitos estruturais contidos nelas devem ser excluídos? O revisionismo literário nas obras de Monteiro Lobato, Agatha Christie e diversos outros artistas é um tanto quanto problemático. Esse movimento faz com que suas obras não reflitam a sociedade em que viveram, seus comportamentos e descolam o artista da sua época, endeusando o artista e descontextualizando suas obras . Há um grande perigo nesse movimento. O movimento revisionista faz com que a ligação histórica e suas obras fiquem desconexas. É varrer para debaixo do tapete a realidade daquele momento. É apagar e desqualificar lutas e movimentos sociais, temporais as épocas, que permitiram que a sociedade chegasse aos dias atuais e tivesse a oportunidade de realizar questionamentos sobre essas obras. A saída então seria o movimento de esquecimento desses artistas e suas obras? O caminho seria deixar que fossem produzidas novas edições dos livros, que as músicas fossem retiradas dos streamings e as obras de artes esquecidas em depósitos? Acredito que também não é o caminho. Apagar e esquecer obras de autores, artistas e compositores que refletiram a sua sociedade. Esquecer o que já foi produzido nos coloca em um caminho perigoso, onde o comportamento social vivido por esses artistas, de alguma forma, tenha a possibilidade de voltar e direitos e espaços conquistados ao longo de duras lutas sejam colocados em risco. A arte cumprindo seu papel Chico Buarque, ao decidir não cantar mais "Com açúcar e com afeto", e a Disney ao colocar mensagens alertando sobre expressões que não são mais aceitas, trazem a tona o papel da arte. O de questionar. Duvido que nunca mais ouviremos nos streamings de música, Nara Leão cantando: Com açúcar, com afeto Fiz seu doce predileto Pra você parar em casa Qual o quê Com seu terno mais bonito Você sai, não acredito Quando diz que não se atrasa Afinal, o machismo ainda é algo impregnado nas nossas canções em pleno século XXI. O que dizer de canções de vários estilos musicais que promovem o machismo e a submissão feminina como em versos produzidos em meados dos anos de 2010: Tá doido que eu vou Fazer propaganda de você Isso não é medo de te perder, amor É pavor! Por isso, é extremamente importante que, ao invés de apagar ou deletar qualquer tipo de obra, devamos nos debruçar e analisar esses comportamentos, refletindo sobre as estruturas preconceituosas da sociedade, trazendo debates a partir delas, com a devida crítica e respeito a importância de cada uma delas. Nós ainda vamos assistir Peter Pan e sentir a nostalgia de nossas infâncias, porém, porquê não usar essas e outras obras como ferramentas de discussão? Porque professores não poderiam usar textos de Agatha Christie para contextualizar o imperialismo inglês nas salas de aula? Utilizar textos de Monteiro Lobato e apresentar como o racismo estrutural está enraizado em nossa sociedade? A opinião desse colunista é que essas e outras obras devem ser usadas como referências de um tempo onde esses comportamentos foram aceitos, porém não cabem mais para a sociedade atual e para o futuro. A arte tem cumprido seu papel, o de nós questionar e nos incomodar. É necessário, a partir da nossa sociedade atual, que sejam produzidas novas obras, com novos conceitos, reflexo do progresso que tanto é pregado. É importante que daqui há 50, 70 anos, se verifique a evolução que tanto é sinalizada. Devemos sim, nos debruçar sobre essas obras, nos questionar como sociedade e realizar à luz do que foi construído e fazer as devidas críticas sobre elas é o que ela espera de nós. Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Revisão: Mateus Santana Edição: Eliézer Fernandes Fontes https://opopular.com.br/magazine/obras-de-autores-do-passado-passam-por-revis-es-e-alterac-es-1.3021238 https://veja.abril.com.br/cultura/obras-classicas-e-artistas-celebrados-caem-na-mira-de-onda-revisionista/ https://istoe.com.br/agatha-christie-reescrita/ https://revistaforum.com.br/blogs/socialista-morena/2022/2/9/chico-entendeu-as-feministas-os-antifeministas-que-no-entenderam-chico-109878.html https://cnnportugal.iol.pt/james-bond/ian-fleming/depois-de-roald-doahl-e-a-vez-dos-livros-de-james-bond-serem-revistos-para-serem-menos-racistas-e-ofensivos/20230301/63ff22280cf2c84d7fca4d99 https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/marchinhas-de-carnaval-especialista-discute-versos-preconceituosos.phtml

  • De “irresponsáveis” a “cringe”: o que aconteceu com os Millennials?

    Este artigo integra o Dossiê: Gerações do Pós-Guerra (Parte II) Começo o texto pedindo a licença que me cabe! Falar dessa geração é mais do que uma mera revisão histórica geracional, é quase um relato pessoal. Eis aqui uma colunista nascida na década de 1990 e pertencente a injustiçada Geração Y , ou como é conhecida, os “Millennials” (1981 – 1995). Foto: Pexels Atualmente somos a maior população economicamente ativa no Brasil e no mundo, por isso, ganhamos mais notoriedade atualmente e podemos ditar algumas “tendências”. Porém, se por um lado podemos ver como algo positivo, de outro somos uma das gerações mais criticadas. Não somos visados apenas pelas gerações que vieram antes de nós, mas também pelas mais novas. Se para os Baby Boomers e Geração X somos irresponsáveis e desinteressados, para as posteriores Gerações, Z e Alpha, somos cringe, nome usado para descrever alguém como fora de moda, algo como “vergonha alheia” em uma expressão que os Millennials vão reconhecer. Geração Millennials: Quem são? De onde vem? Para onde vão? É preciso repensar esses rótulos, pois falar de uma geração sem fazer um recorte histórico é injusto e leviano. Como falei no meu artigo anterior, nada é estático e imutável, pois estamos em constantes mudanças históricas, econômicas e sociais. Os Millennials foram criados, em sua grande maioria, por pessoas que não imaginavam o quanto a tecnologia poderia transformar e revolucionar a humanidade. A Geração Millennials era adolescente ou criança quando a internet foi aos poucos, ganhando mais espaço nos lares e empresas. A grande contradição disso é que nós, pertencentes a essa geração, fomos ensinados a buscar estabilidade justamente em um cenário que já dava indícios de muitas instabilidades, não só no Brasil, com o fim da Ditadura Militar e a inflação galopante, mas também no restante do mundo, que vivia os suspiros finais da Guerra Fria e inúmeros conflitos geopolíticos. Enquanto nossos pais e avós, que são oriundos de outras gerações, nos ensinaram que estabilidade e muito estudo eram ingredientes na receita da “vida perfeita”, fora de casa vimos uma realidade bem diferente em que o mundo não dá mais garantia alguma de estabilidade empregatícia. Tivemos como cenário algo que destoa completamente: o aumento da precarização e pejotização (Termo usado para trabalhadores no modelo Pessoa Jurídica) da força de trabalho. Assistimos a frequentes demissões em massa, crescentes exigências para nos manter produtivos, competitivos e com salários razoáveis, o que gera um abismo ainda maior entre as classes sociais. Consequentemente, somos a geração que mais acumula empregos para complementar a renda. Reprodução: Healthline Estudo realizado pelo Serasa neste ano de 2023, mostrou que os Millennials são os mais endividados. Segundo Patrícia Camillo, Gerente do Serasa: “é a faixa etária em que o jovem conquista a independência. Então, há uma necessidade diferente, como a de adquirir moradia e todas as outras contas que vem com isso”. As principais dívidas dos Millennials estão no cartão de crédito (33,17%) e em gastos como gás, água e energia elétrica (15,84%), que somados representam quase 50% da sua renda. Essa preocupação com custos básicos para sobrevivência reflete em inúmeras inseguranças quanto ao futuro. De acordo com a nova edição da pesquisa global “Gen Z and Millennial Survey”, elaborada pela Deloitte, foram entrevistadas pessoas de 44 países, incluindo 500 da geração Z e 300 Millennials do Brasil, foi encontrado o cenário: “No topo das cinco principais preocupações para a geração Z brasileira, temos em terceiro lugar a discriminação e falta de equidade (30%) e isso não compõe o ranking global (...) Já no topo do ranking aparecem desemprego e custo de vida, que tanto afetam o Brasil.” Habla, Millennials! Nossa geração fala mais abertamente sobre saúde mental e temos menos tabus em falar de temas antes escondidos, tais como ansiedade e depressão. Nossa necessidade de querer estar atualizado o tempo todo e sermos “multitarefas" nos faz ficar horas a fio em redes sociais e sujeitos a constantes notificações. Por isso, a saúde mental costuma ser um assunto recorrente nas rodas de conversas dos Millennials. Foto: Pxhere Contrário ao rótulo de "desinteressados”, temos como característica questionar as coisas e por vezes sermos também imediatistas nestas mudanças. Somos abertos a inovação e a liberdade. Rompemos com alguns comportamentos das gerações anteriores, sobretudo quanto a costumes. Abraçamos pautas ligadas a direitos civis e coletivos, como enfrentamento ao racismo, apoio as causas feministas, sustentabilidade e na defesa da comunidade LGBTQIAPN+. Somos uma das gerações que mais questiona as hegemonias religiosas, ao contrário do que disse George Barma, coordenador do Centro de Pesquisa Cultural da Arizona Christian University, relata em sua pesquisa: “Novos Insights sobre a Geração de Influência Crescente: Millennials na América”, onde o autor alega que somos uma geração que sofre de analfabetismo espiritual. E não para por aí! Barma afirma que “o caos moral que caracteriza a geração também pode ser atribuído a uma falta de instrução religiosa coerente e pragmática” . Talvez o autor não saiba, ou não queira saber, que a sociedade que herdamos não é satisfatória para nossa geração. Esse apego desesperado ao status quo , é uma tentativa de manter a desigualdade e violência estruturais , que marginaliza populações minoritárias. É característica da Geração Millennials o desapego a esses ideais e a crescente desconfiança em líderes religiosos. O que era ‘comum’ já não é mais… A casa própria virou um “sonho distante", graças aos preços dos imóveis e a inflação, o que agravou ainda mais um cenário já desanimador. A pandemia de COVID-19 também foi um grande marco de ruptura. Além disso, enfrentamos inúmeras crises econômicas e as frequentes demissões em massa, que a nossa geração tem enfrentando. Diferente dos nossos pais e avós, não priorizamos a estabilidade e sim o reconhecimento, embora a estabilidade não seja algo que não almejamos. Não queremos casar e ter filhos cedo, como fomos ensinados. Muitos de nós queremos explorar novos rumos antes dos “marcos da vida adulta”. Outra característica é que estamos morando mais tempo com nossos pais, o que é usado como exemplo pelas gerações anteriores como “preguiça e acomodação”. Porém, diferente do que muitos pensam, tem pouco a ver com conforto essa “saída do ninho”. Ela está mais relacionada ao sentimento de inaptidão e frustração. Isso é expressado por uma das entrevistadas da Deloitte: “O custo de vida está cada vez mais alto. Tenho preocupações de não conseguir pagar minhas contas e não dar aos meus filhos a educação e a vida que eles merecem”. E agora, Millennials? Esta colunista, naturalmente Millennials, tentou mostrar neste artigo que estamos cada vez mais exaustos, ansiosos e endividados. Mas também conseguimos romper estruturas rígidas e dar visibilidade a temas antes esquecidos ou escondidos. Se a Geração X começou a questionar alguns padrões, a Geração Y veio ainda mais disposta a abrir espaços mais inclusivos. As cobranças excessivas das redes sociais, da família e da sociedade, nos fazem reviver as nossas cobranças de que não vivemos a vida que sonhamos e almejamos. Não há nada de errado com os Millennials, as expectativas criadas pelas gerações anteriores eram altas demais e precisamos repensar se realmente devem ser alcançadas. Somos apenas uma geração que quer seguir um caminho diferente e o custo disso não tem sido baixo. Sigamos, Millennials! Texto escrito por Katiane Bispo É formada em Relações Internacionais, especialista em Políticas Públicas e Projetos Sociais. É podcaster no “O Historiante”, colunista no jornal “Zero Águia” e ativista em causas ligadas aos Direitos Humanos. Instagram: @uma_internacionalista Revisão por Felipe Bonsanto Edição por Eliézer Fernandes Fontes https://en.wikipedia.org/wiki/Gabriela_%281975_TV_series%29 http://www.cyta.com.ar/ta0203/v2n3a2/v2n3a2.htm https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-e-a-teoria-do-caos/ https://rockcontent.com/br/blog/dossie-das-geracoes/ https://vimeo.com/16641689 https://einvestidor.estadao.com.br/comportamento/inadimplencia-endividamento-por-geracao/ https://fastcompanybrasil.com/news/Millennials-e-genzs-buscam-segundo-emprego-para-pagar-as-contas-do-mes/ https://www.ihu.unisinos.br/categorias/614723-geracao-Millennials-desconfia-de-lideres-religiosos-mostra-pesquisa

  • Elis Regina e a breve finitude da existência

    Cristalizar a imagem, por meio de foto ou vídeo, de alguém que partiu foi uma forma de manter viva a memória de uma pessoa querida. Mas, e se pudéssemos trazê-la à vida para uma última aparição? Vídeo que mostra Elis Regina, recriada com uso de IA e Maria Rita, conduzindo um veículo da Volkswagen. Foto: Reprodução/Volkswagen Elis Regina reaparece, décadas após sua morte, num dueto emocionante com sua filha, Maria Rita, ao volante de um modelo de carro extremamente emblemático , conectando passado e presente. O simpático personagem Chaves reaparece em uma peça publicitária, ressuscitando o falecido comediante Roberto Bolaños. Ele, o personagem, contracena com o ator Eugenio Derbez, fazendo uma homenagem à cultura mexicana e latina. Os dois casos que menciono aqui são apenas alguns dos mais emblemáticos envolvendo o retorno de artistas falecidos para o público, por meio da inteligência artificial. A ressurreição de pessoas através da Inteligência Artificial (IA), sem o seu consentimento, é um tema complexo e ético, que levanta várias questões importantes. Sobre conforto e alento A ideia de usar a IA, para trazer de volta pessoas queridas que já partiram, pode oferecer conforto e alento para aqueles que estão de luto. Imaginar que poderíamos interagir novamente com entes queridos que faleceram, mesmo que em uma forma digital, pode ser uma fonte de consolo para muitas pessoas que enfrentam a dor da perda. Além disso, a possibilidade de ressurreição virtual pode ser vista como uma forma de preservar a memória e o legado de pessoas notáveis ​​ou influentes da história, permitindo que suas ideias e conhecimentos continuem a ser compartilhados e aprendidos por gerações futuras. No entanto, por mais tentador que possa parecer, isso levanta questões éticas e filosóficas profundas. Uma das preocupações mais óbvias é o respeito à privacidade e à autonomia dos indivíduos falecidos. Se essas pessoas não deixaram registros explícitos de que desejavam ser revividas digitalmente, a ação de fazê-lo pode ser interpretada como uma violação de sua identidade e vontade. Recentemente, Madonna, uma das mais influentes e importantes cantoras da música pop mundial, manifestou sua opção de não ter sua imagem revivida em qualquer formato . Após passar por um processo infeccioso, que a levou para a UTI, a intérprete de sucessos como “Like a prayer”, “Material girls” e “La isla bonita” , resolveu mudar seu testamento e proibiu quaisquer tentativas de que sua imagem fosse ressuscitada digitalmente. Madonna em uma apresentação na Alemanha. Foto: Getty Images, Cassy Athena Além disso, a própria noção de reviver alguém através da IA pode ser percebida como uma forma de negar a mortalidade e a importância do ciclo natural da vida. A mortalidade é um aspecto intrínseco da condição humana. Nascemos, vivemos e inevitavelmente morremos. Essa impermanência da vida é o que confere significado, urgência e beleza à nossa existência. No entanto, com o avanço da tecnologia, a inteligência artificial tem apresentado a perspectiva de contornar os limites da mortalidade humana, e é fundamental refletirmos sobre a necessidade de respeitar esse aspecto natural da vida. Uma história da mortalidade A compreensão da mortalidade tem sido um elemento central em diversas culturas e filosofias ao longo da história da humanidade. No Egito Antigo, a partir do Livro dos Mortos, havia a compreensão de que o ser humano era composto por diversos elementos, materiais e imateriais, mortais e imortais. Dentre eles, o ka (força vital que acompanha a pessoa por toda a vida) e o ba (um princípio de movimento, que faz o indivíduo se manifestar) acompanhavam o defunto para o Duat (o além), momento em que o Tribunal de Osíris faria seu julgamento: o coração do morto era pesado tendo do outro lado uma pena da deusa da justiça, Maat. Livro dos Mortos (cujo nome original, em egípcio antigo, era Livro de Sair Para a Luz) é a designação dada a uma coletânea de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias do Antigo Egito, escritos em rolos de papiro e colocados nos túmulos junto das múmias. Foto: Arcanoteca Blog Se o coração pesasse menos do que a pena, o defunto teria acesso ao Duat no Reino de Osíris, a vida após a morte. Nas tradições orientais, que recorrentemente chamamos de Hinduísmo, a essência vital do ser humano tem um caráter imortal, retornando de tempos em tempos ao mundo físico, mediante uma série de reencarnações, condicionadas a conduta do indivíduo na vida anterior. Saindo da matriz religiosa e indo para a filosófica, Platão legou ao pensamento ocidental a perspectiva do Mundo das Ideias: a princípio, todas as coisas existem, de maneira perfeita, num local imaterial e puro. Ali estaria nossa alma ( psiche ), que não morreria, por ser a existência humana cíclica, composta por várias mortes e renascimentos. Em “A República” , no livro X, Platão conta o “Mito de Er” , a história de um camponês que vai ao Hades após sua morte e contempla as almas em seu estado puro. Aquelas que se destinavam a retornar à vida eram forçadas a beber das águas do Rio Lethe (esquecimento). A finitude como orientação A consciência de que nossa existência é finita impulsiona-nos a atribuir valor ao tempo que temos e a buscar significado em nossas ações. A apreensão da morte também estimula a criatividade, a inovação e o desejo de deixar um legado positivo no mundo enquanto estamos aqui. Criar uma cópia digital de alguém pode levar a dilemas sobre o que realmente define uma pessoa: sua consciência, suas experiências vividas ou apenas uma coleção de dados e informações? Essas questões têm implicações profundas em relação à nossa compreensão de nós mesmos como seres humanos. Texto escrito por Pablo Michel Magalhães Escritor, historiador e filósofo baiano. Observador atento de política, cultura e signos midiáticos. Podcaster no Historiante, onde tece críticas e constrói processos educativos. Professor da educação pública no Estado de Alagoas. Autor do livro "Olhares da cidade: cotidiano urbano e as navegações no Velho Chico" (2021). Revisão por Felipe Bonsanto Edição por Eliézer Fernandes

  • Resgatando a História: Inflação nos anos 80 e o Plano Cruzado

    O segundo Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND II), encabeçado pelo governo militar nos anos 1970, vislumbrava, sobretudo, prosseguir com os altos índices de crescimento que marcaram o período do “milagre econômico” , embasando-se no aprofundamento da política de substituição de importações e no desenvolvimento do setor de bens de capitais, que para o plano garantiria de modo permanente a realização da tão perseguida substituição de importações. Índice de crescimento Porém, se no período do milagre o crescimento era puxado sobretudo pelo crédito externo , havendo, portanto, um cenário favorável a esse tipo de operação, seja pelos juros baixos, seja pela boa recepção que a economia brasileira gozava nos mercados creditícios; a realidade se altera significativamente na década de 1970 em razão dos choques do petróleo e da abrupta elevação do juro internacional, colocando ao II PND um ambiente externo mais desfavorável daquele gozado no “milagre”. Os choques e a consequente elevação dos juros contribuíram para desacelerar a economia mundial, restringindo o crédito e agravando a dívida externa brasileira . Assim, se o plano de desenvolvimento dos militares vislumbrava alterar as estruturas internas do país para que este ficasse menos vulnerável às oscilações externas, sua execução prévia deveria se basear no que sustentara o “milagre”, isto é, a dívida externa, o que definitivamente não era mais possível. Frente a este cenário bastante adverso, o II PND contou mais com a participação estatal do que com o entusiasmo dos investimentos privados para dar sequência ao projeto. Com um crescimento ancorado na dívida externa desde o “milagre” (e passando pelo II PND), a crise que se acentua a partir dos anos 1980 obriga uma mudança de rumo na economia para cumprir com os compromissos da dívida, levando o governo a estimular as exportações e restringir as importações. Logo, medidas recessivas visando conter consumo e os investimentos passaram a ser adotados , apesar da contrariedade do empresariado e da sociedade civil. As consequências dessas ações foram corrosivas para o país , que experiencia queda de receitas do governo, recessão da indústria (seu principal setor), além do cenário externo altamente desfavorável. A situação se deteriora ainda mais em razão da moratória da dívida mexicana em setembro de 1982, o que praticamente inviabiliza o crédito externo aos países em desenvolvimento. Assim, o Brasil recorre ao FMI, que impõe condições de forte reajusta sobre as “ absorções internas ” para conceder um crédito aquém do necessário para amortização. Essas medidas, que visavam, sobretudo, obter os superávits na balança comercial para atenuar a situação externa, fazem com que os anos 1980 quebre a média de crescimento das décadas anteriores, se observando forte retração nos investimentos (públicos e privados), queda na renda e retração da indústria. O fracasso do plano econômico dos militares , porém, não pode obscurecer seus méritos. É preciso salientar que o projeto deu sequência ao plano desenvolvimentista iniciado no varguismo e prosseguido no governo JK. O fracasso demonstra mais a fragilidade dos capitalistas brasileiros em aplicar inversões na economia , uma vez que o “milagre” militar dependeu mais do investimento público e do crédito externo, sendo que a restrição deste último demonstrou as limitações da burguesia nacional em financiar o crescimento econômico nos patamares do “milagre” e dos anos 1960 e 1950. Assim, fica evidente que o PND do governo militar não logrou o sucesso que pretendia mais em razão de fatores externos (a conjuntura dos anos 1970, com forte elevação dos juros e crise da dívida externa), do que propriamente das imperfeições de sua política. A especificidade da inflação do Brasil ao longo dos anos 1980 A indexação da economia brasileira iniciada ainda no período militar foi a causa da manutenção da inflação em patamar elevado na década de 1980 , é o que defende o economista e ex-ministro Luiz Bresser-Pereira. A inflação do Brasil, para além de alta, se mantinha em patamares elevados e não dava indício de queda. Dada essa atipicidade da inflação, economistas como Bresser-Pereira, Francisco Lopes, Persio Arida e André Lara Resende desenvolvem novos estudos, que fugiam da interpretação tradicional da ortodoxia sobre a inflação. Estes estudiosos perceberam que o que explicava a manutenção da inflação em patamares elevados na economia brasileira seria propriamente o que denominaram por inflação inercial , que escaparia, por sua vez, da tradição ortodoxa que entendia o fenômeno da inflação apenas como um componente das pressões da demanda sobre a oferta. A inflação inercial, portanto, seria independente da demanda e estaria relacionada, por sua vez, à indexação , isto é, ao reajuste de preços vinculados. Na prática, esse tipo de inflação transfere para o presente a inflação passada, seja mediante indexação formal ou informal, gerando um ciclo vicioso e desarticulado no tempo . A indexação, portanto, produzia uma “ memória inflacionária ” , ou seja, o reajuste das empresas em resposta à inflação repassava os custos para outras empresas, que por inércia se viam obrigadas a reajustar (por isso não se tratava de uma inflação por demanda). Na interpretação ortodoxa , a inflação decorre sobretudo pela expansão monetária, o que pressionaria a demanda e, portanto, elevaria a inflação. Bresser-Pereira, por sua vez, demonstra que a expansão da moeda ocorre em razão da elevação dos preços (puxados pela inércia inflacionária) e não o contrário. Neste caso, a elevação dos preços não era acompanhada pelo crescimento em igual proporção da oferta monetária, mas também pela velocidade da moeda, que ganhava uma rapidez ainda maior na medida que a inflação se agravava. Portanto, a tese ortodoxa de que a causa inflacionária estava na forte expansão da moeda não se sustentava , uma vez que não observou a inércia inflacionária na economia, mas apenas as forças da pressão da demanda, que na prática inexistiam. Assim, as medidas para combater esse tipo de inflação tiveram que fugir do tradicionalismo ortodoxo e se orientar em novos paradigmas que visassem atacar a indexação e reorientar a economia para um certo nível de preços médios reais reajustados. Plano Cruzado Desta maneira, o Plano Cruzado buscou congelar preços e controlar os reajustes dos salários e dos títulos de maneira mais centralizada, tentando com essas medidas mediar a disputa pela distribuição da renda, um dos principais fatores das indexações. O sucesso do Plano, porém, foi curto. Dentre os motivos de seu colapso, um deles foi a expansão da liquidez, que reduz os juros e amplia os investimentos (alimentados por um ambiente favorável de inflação controlada). Prateleiras vazias em supermercado na década de 1980 Esses fatores destravam a demanda, e num contexto de congelamento de preços, gera-se um irreversível desabastecimento , colocando em xeque qualquer credibilidade do plano que se sustentava, justamente, sob o congelamento de preços. Assim como o fracasso do plano de desenvolvimento dos militares, há também de se reconhecer as boas intenções do Plano Cruzado (embora tenha falhado em seu intento). O reconhecimento de um tipo específico de inflação foi crucial para que na década seguintes encontrássemos o meio correto de acabar com a inflação alta e constante (tipificada pelos pensadores do plano real como uma inflação do tipo inercial). O Plano Cruzado ao menos representou um primeiro movimento político no sentido de atacar as verdadeiras razões da inflação. A volta à ortodoxia como método de controle da inflação, isto é, recorrendo à asfixia da demanda demonstrou-se infrutífera e agravante, como ficou demonstrado no Plano Collor. Ambos os fracassos devem ser abordados não sob a luz dos “ derrotados e vencedores” , mas principalmente sob a perspectiva de seus legados. Do mesmo modo que o Plano Cruzado reconhece a verdadeira “anatomia” da inflação, deixando ao menos um ferramental importante para seu controle na década seguinte (da qual jamais poderia vir da ortodoxia), o PND militar, embora bastante limitado pelo ambiente externo extremamente desfavorável, pôde atrair investimento importantes para o Brasil, como na parte energética no que confere às construções das usinas de Itaipu e Angra, fundamentais para o país e para sua etapa moderna. Texto escrito por João Vitor Bortoleto Professor de História e Sociologia; formado em História pela USP e especialista em Humanidades pelo IF-SP. Atualmente é graduando em Ciências Econômicas pela UNIFESP e colunista do “Zero Águia”. Revisão por Eliézer Fernandes Edição por Felipe Bonsanto

  • Terror Espacial e Reflexões Sociais: Alien, o Oitavo Passageiro (1979)

    No vasto cenário do cinema, poucas obras conseguem ecoar nas mentes dos espectadores décadas após o seu lançamento. "Alien, o Oitavo Passageiro" é um exemplo notável desse poder, trazendo um misto de horror, suspense e reflexões sociais que ressoam até os dias de hoje. O filme, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1979, não se limita a ser apenas uma experiência cinematográfica, mas sim uma jornada que evoca medos humanos profundos e levanta questionamentos sobre a exploração espacial e as complexas relações de trabalho. No núcleo do filme está uma criatura que personifica os medos mais profundos da humanidade. A ameaça desconhecida, sem origem clara, é ocultada habilmente e revelada aos poucos, mergulhando a audiência em um estado de suspense contínuo. O elemento surpresa é habilmente utilizado para instigar nossos instintos mais primários de medo. História do filme A narrativa se desenrola em um cenário peculiar: um cargueiro estelar que reboca uma refinaria interplanetária. Esse contexto serve como alegoria para as complexas dinâmicas do capitalismo e da exploração espacial, além de pano de fundo para uma análise mais profunda das relações de trabalho. A década turbulenta em que o filme foi lançado, marcada pela escassez de combustíveis, os efeitos do escândalo Watergate e greves operárias, proporcionou o terreno perfeito para as inquietações expostas no roteiro. Funcionários descontentes lutam contra uma empresa cruel que os vê como peças descartáveis em sua busca pelo lucro. Yuval Noah Harari , autor de "21 Lições para o Século 21" , explora o impacto das inovações tecnológicas e a transformação das relações de trabalho. Aqui, a exploração espacial é apresentada como uma extensão desse cenário, onde os tripulantes arriscam suas vidas motivados pela busca de salários vinculados à conclusão da missão. No cenário contemporâneo, as inovações tecnológicas têm sido protagonistas de mudanças significativas nas dinâmicas das relações de trabalho. Harari oferece uma lente analítica valiosa para entendermos como esses dois elementos se entrelaçam e desafiam a nossa compreensão sobre o futuro do trabalho. A acelerada evolução das tecnologias, como a inteligência artificial, automação e aprendizado de máquina, são forças que estão redefinindo a natureza do trabalho humano. A automação, por exemplo, tem o potencial de substituir uma ampla gama de tarefas repetitivas e padronizadas, levando a um questionamento sobre o valor que o ser humano agrega em um cenário onde máquinas podem ser mais eficientes. As relações de trabalho, por sua vez, têm sido profundamente afetadas por essa revolução tecnológica. A fragmentação do trabalho, impulsionada por plataformas digitais, traz consigo desafios como a falta de segurança social e a desvalorização de benefícios tradicionais. A interseção entre inovações tecnológicas e relações de trabalho também coloca em pauta questões éticas. A inteligência artificial, por exemplo, pode trazer melhorias substanciais para diversos setores, mas também levanta questionamentos sobre privacidade, discriminação algorítmica e a concentração de poder nas mãos de poucas empresas. Por fim, "Alien, o Oitavo Passageiro" transcende o status de mero entretenimento. Sua narrativa obscura lança luz sobre as complexidades da natureza humana, as engrenagens do capitalismo e as implicações da exploração espacial. Enquanto os personagens lutam para sobreviver, nós, espectadores, somos convidados a questionar nossas próprias jornadas e as fronteiras entre o conhecido e o desconhecido em nossa própria existência. Aliando a discussão proposta por Harari, temos um convite à reflexão sobre como as inovações tecnológicas estão reconfigurando as relações de trabalho e, consequentemente, nosso modo de vida. À medida que avançamos nesse novo contexto, é necessário considerar não apenas o potencial das tecnologias, mas também as implicações éticas, sociais e econômicas que elas carregam. Detalhes do filme Filme: Alien: O 8º Passageiro (Alien) Elenco: Sigourney Weaver (Ripley), Tom Skerritt (Dallas), John Hurt (Kane), Veronica Cartwright (Lambert), Harry Dean Stanton (Brett), Ian Holm (Ash), Yaphet Kotto (Parker) Direção: Ridley Scott Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=LjLamj-b0I8 Trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=yc94TrMnwaw&list=OLAK5uy_nJvXT8-seY9obznMSHM_2-C0NemdkIR98 Avaliação IMDB: https://www.imdb.com/title/tt0078748/?ref_=nv_sr_srsg_0 (8.5) Avaliação Rotten Tomatoes: https://www.rottentomatoes.com/m/alien Texto escrito por Gustavo Longo Atuante na área da tecnologia há vinte anos, conciliador, curioso, disposto e apaixonado em sempre ajudar as pessoas, além de crente no poder transformador da Educação. Nas horas vagas, busca aprender sobre mercado de ações e em descobrir curiosidades do mundo do cinema através do canal Youtube Faro Frame. Acaba de iniciar um projeto pessoal com sua esposa para viajar e "viver" como um cidadão local em cada capital brasileira por 30 dias nos próximos anos. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Referências Livros Título: 21 lições para o século 21 Autor: Yuval Noah Harari Editora: Companhia das Letras ISBN: 978-85-359-3091-7 Título: O guia geek de cinema Autor: Ryan Lambie Editora: Seoman ISBN: 978-85-5503-097-0 Outras fontes https://pt.wikipedia.org/wiki/Alien,_o_Oitavo_Passageiro https://en.wikipedia.org/wiki/Alien_(film)

  • O peso do preconceito - Proibição do casamento LGBTQIA+

    Quem viveu os anos 2000, com certeza se lembra da figura icônica de Clodovil Hernandes. Estilista paulista, que transitou por diversas áreas da televisão, participando de programas de auditório e fofoca. Porém, para quem não se lembra, ou não sabe, Clodovil também atuou na política, entre os anos de 2007 e 2009, sendo Deputado Federal pelo antigo PTC/SP. Em 27 de Março de 2007, o ex-deputado, apresentou o Projeto de Lei (PL) 508. Foi baseado nesse PL que todo um movimento foi trazido de volta à tona à Câmara dos Deputados em setembro de 2023, pelo Deputado Federal Pastor Eurico (PL-PE). O PL 508 apresentado por Clodovil Hernandes, acrescentaria à Lei nº10.406, de 2002, o direito e a garantia no Código Civil em que, casais homoafetivos pudessem se casar. Como é sabido, o projeto não vingou. Porém, foi resgatado e repaginado pelo Deputado Federal Pastor Eurico (PL-PE), onde o político apresenta a proibição do casamento de casais homoafetivos. Para se entender o resgate do PL apresentado por Clodovil Hernandes, 16 anos depois, é necessário um mergulho nesse intervalo de tempo. Um direito garantido, porém, nem tanto Embora todos sejam considerados iguais perante a Constituição Federal, alguns direitos garantidos nela não são estendidos a todos. Um desses exemplos é o casamento homoafetivo. Foi pensando na necessidade dessa garantia, que Clodovil apresentou a proposta em 2007. Embora o país estivesse em meio a um governo progressista, o movimento feito por ele não surtiu efeito. O PL não seguiu e o direito não foi garantido em lei à essa parcela da população. O tema voltou a ser debatido em 2011, quando a Senadora Marta Suplicy (PMDB-SP), apresentou o PL nº612, na tentativa de garantia ao direito básico do matrimônio civil a pessoas do mesmo sexo. O PL não seguiu e o tema, mais uma vez, foi abandonado pelos congressistas. Em Maio do mesmo ano, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovou de maneira unânime, equiparando as relações de casamento entre pessoas do mesmo sexo com o mesmo valor de pessoas de sexo diferente. A garantia pelo STF da união estável foi o pontapé para outras garantias, como a adoção de crianças (2015), a criminalização da homofobia (2019) e também a possibilidade de doação de sangue (2021). Foto do Supremo Tribunal Federal. É possível entender que, nenhuma das garantias adquiridas à população LGBT foi através de leis, mas sim, de maneira jurídica. Isso pode ser preocupante para essa parcela da população. Uma vez interpretada pelos Ministros a legalidade e garantia de qualquer uma das conquistas sinalizadas anteriormente, uma possível futura formação com tendências conservadoras, pode desengavetar novamente os textos e tornar todas essas conquistas ilegítimas, anulando e retirando os direitos ora vistos como legais. Algo bem semelhante aconteceu recentemente nos EUA, onde a Corte, o órgão americano equivalente ao STF, revogou o direito ao aborto em 2022 . Um Congresso conservador em um Governo progressista Embora tenha sido um alívio ao Estado Democrático de Direito, as eleições de 2022 mandaram um recado bastante contundente: O conservadorismo e a oposição ao movimento progressista estariam fortalecidos dentro do Congresso Nacional. A formação para o Senado foi uma das mais conservadoras de todos os tempos. Esse recado tem sido lembrado constantemente. Pode-se lembrar ao longo do ano de 2023 inúmeras declarações racistas, transfóbicas, homofóbicas e misóginas proclamadas no plenário da Câmara e em formatos de Projetos de Lei ou Emendas Constitucionais. A deturpação do PL criado por Clodovil, feita pelo Deputado Federal Pastor Eurico, é mais um recado da onda conservadora. No texto, o Deputado apresenta o casamento como algo direcionado apenas para procriação, algo de cunho extremamente conservador e tendencioso ao conservadorismo religioso e não como um direito civil, que deveria ser garantido pelo Estado Laico. Além disso, trazer a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, fortalece os discursos sobre cura gay . O que tem sido considerado por movimentos progressistas como tortura psicológica, provocando até suicídio em pessoas que procuram essa prática, como exemplo a influenciadora bolsonarista, Karol Eller, que tirou a própria vida um mês após anunciar que havia passado por procedimentos de “cura gay” . Embora o Projeto de Lei tenha sido aprovado de maneira baixa na Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família da Câmara de Deputados, ela é considerada pela OAB e juristas algo inconstitucional . A ala conservadora do Congresso Nacional reconhece que é muito difícil que o PL sobreviva e siga tendo continuidade, porém, há algum sucesso no movimento realizado. A ala conservadora tem conseguido transmitir o seu recado. O levante de pautas como o casamento homoafetivo e a legalização do aborto, por exemplo, é uma forma de agitar as suas bases eleitorais e mostrar que estão lutando. Outro recado enviado por essa ala é a tentativa de mensurar forças com o Supremo, alegando que, as leis devem ser criadas e votadas por aqueles que foram eleitos de maneira direta pela população, ou seja, deputados e senadores, respeitando o desejo das maiorias, ali representadas por eles. Porém, na democracia, os direitos das minorias também precisam ser respeitados e garantidos. Sendo assim, quando os direitos das minorias, seja ela qual for, não é respeitado, são necessárias ações para garantia. No Brasil, o órgão responsável e com direito a essa intervenção é o STF. A atuação do STF com votações favoráveis a população LGBT tem por intenção não só a garantia de direitos básicos, mas também de pressionar aos congressistas que desenvolvam, votem e apliquem leis e políticas públicas direcionadas a essas minorias. Mas infelizmente o Estado tem sido omisso a isso. Desde bem antes ao icônico Clodovil, a população tem sido ignorada pelos governantes e é lembrada e pautada apenas em período eleitoral. O barulho criado pelo desserviço do Deputado Pastor Eurico, coloca em risco não só o casamento, mas a garantia do cotidiano das famílias LGBT. Como desde o simples direito de compartilhamento de plano de saúde, se estendendo a possibilidade de pensão em caso de morte. Milhares de famílias correm o risco de serem desfeitas por simples preconceito. Há um arco-íris no fim do túnel Embora conservador, o Congresso Nacional conta com nomes progressistas de peso. Érika Hilton (PSOL) e Duda Salabert (PDT), são nomes LGBTs de peso no congresso, que tem como aliado o Pastor Henrique Vieira (PSOL), que tem lutado fortemente contra o conservadorismo. Durante a votação contra o casamento homoafetivo, eles e diversos outros nomes políticos criaram a Frente Parlamentar em Defesa da Cidadania e dos Direitos da Comunidade LGBTI+, que tem por objetivo bloquear ondas conservadoras, garantir direitos básicos e lutar por políticas públicas dessa comunidade. É entendido que, o direito garantido a essa população não se limita a ela, mas se estende também a diversas outras minorias, que também estão na mira da atual onda conservadora no congresso. Ainda há muita luta, mas não estamos sós! Texto escrito por Felipe Bonsanto Formado em Administração de empresas, pós-graduação em marketing e apaixonado por Los Hermanos. É militante pelos direitos LGBTQIAP+, trabalha com educação há oito anos, atua como co-host no podcast O Historiante e é colunista do Zero Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Referências https://www.otempo.com.br/politica/congresso/deputados-lancam-frente-lgbt-em-resposta-a-projeto-que-proibe-uniao-homoafetiva-1.3237226 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pl-que-proibe-casamento-homoafetivo-gera-debate-mas-pode-ser-declarado-inconstitucional/ https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pl-que-proibe-casamentos-homoafetivos-no-brasil-e-inconstitucional-diz-advogada/ https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/10/11/Qual-o-c%C3%A1lculo-pol%C3%ADtico-do-discurso-contra-a-popula%C3%A7%C3%A3o-LGBTI https://www.nexojornal.com.br/explicado/2017/06/17/A-trajet%C3%B3ria-e-as-conquistas-do-movimento-LGBTI-brasileiro

  • A Colonização Sionista e a Resistência Palestina

    Desde o ataque realizado pelo Hamas em 7 de Outubro deste ano, a atenção internacional tem se voltado novamente para o conflito palestino-israelense. A região e a guerra que se seguiu tem sido tema de notícias e análises em diversos jornais, com professores e pesquisadores tentando explicar as origens do conflito e como essa situação tem escalado para se tornar o que é atualmente um genocídio em execução, com a invasão de Gaza por parte do exército israelense. Porém neste artigo, irei abordar as origens do conflito de uma forma diferente. Irei explicar como o movimento sionista tem um teor colonialista e desde a criação do estado de Israel, tem se esforçado de forma ativa e coordenada em realizar uma limpeza étnica na região, expulsando o povo árabe para criar assentamentos, da mesma forma que os europeus fizeram na América Latina, África, Ásia e Oceania , o que tem gerado revolta e indignação no povo palestino, que teve seu território tomado à força pelo estado israelense. Inclusive, esse processo continua em andamento, com a invasão de Gaza, porém irei me aprofundar nessa parte depois. O Movimento Sionista e Eretz Israel O sionismo é um movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel (Eretz Israel). Esse movimento surgiu no fim do século XIX na Europa , entre judeus que viviam sob a pressão das perseguições e massacres provocados pelo antissemitismo. Um de seus principais fundadores é Theodor Herzl, um jornalista judeu austro-húngaro que viveu em Paris na época do famoso caso Dreyfus , um claro episódio de antissemitismo em que um oficial judeu do exército francês foi acusado injustamente de espionar em favor dos alemães. Ao testemunhar a série de fraudes engendradas por elementos da oficialidade francesa para culpar Dreyfus com alegações antissemitas, Theodor Herzl começou a imaginar um estado judeu, onde o povo judeu não sofreria esse tipo de preconceito. Herlz inclusive escreve um um livro - Der Judenstaat – Versuch Einer Modernen Lösung der Judenfrage - O Estado Judeu - Uma Solução Moderna para a Questão Judaica, onde descreve suas visões de como tornar possível a construção de uma futura nação judaica. É importante observar que Herzl é considerado um herói para o atual estado de Israel, e muitas de suas ideias serviram de inspiração para os primeiros legisladores do dito estado. Porém, Herzl tinha uma visão bem específica de como a criação desse estado seria realizada. Ele propôs a colonização de um território , seguindo o modelo europeu, onde o povo que vivia naquele local seria deslocado e os judeus iriam criar assentamentos. Durante o primeiro congresso sionista , reunião presidida por Herzl, discutiu-se onde deveria ser instalado o Estado Judeu , dividindo-se os congressistas entre a Palestina otomana ou algum território teoricamente desabitado, como a ilha de Chipre, a Patagônia e até em alguma das colônias europeias na África, como o Congo ou Uganda . Venceram os partidários da Palestina, com o argumento de que aquela era a região de origem de toda identidade judaica na Antiguidade. "Os grandes políticos do vosso país foram os primeiros a reconhecer a necessidade da expansão colonial. Por isso tremula em todos os mares a bandeira de uma Grã-Bretanha ainda maior. (...) Em benefício da Europa, edificaremos lá uma trincheira contra a Ásia, representaremos o posto avançado da civilização contra a barbárie." T. Herzl, em carta endereçada ao governo britânico . O sionismo como colonialismo é o paradigma que vê o sionismo e o conflito israelense-palestiniano como uma forma de colonização , sendo a sua expressão máxima a construção massiva de colonatos. Em contraste com o colonialismo clássico, no caso sionista, o foco está na eliminação, em vez de exploração , dos habitantes originais de um território, ou seja, dos palestinos. Nakba e a Resistência Palestina Em 1947, a Assembleia Geral das Nações Unidas propôs a partição do Mandato Britânico da Palestina em dois estados - um judeu e outro árabe. A comunidade judaica aceitou o Plano de Partição da Palestina, enquanto a comunidade árabe palestina, apoiada pela Liga Árabe, rejeitou o plano , declarando que oporia resistência armada à sua implementação. Nakba é uma palavra árabe (النكبة) que significa "catástrofe" ou "desastre" e designa o êxodo palestino de 1948 quando pelo menos 711.000 árabes palestinos, segundo dados da Organização das Nações Unidas, fugiram ou foram expulsos de seus lares, em razão da Guerra Civil de 1947-1948 e da Guerra Árabe-Israelense de 1948 . O êxodo palestino marca o início do problema dos refugiados palestinos, um dos principais elementos do conflito árabe-israelense. Esse é o primeiro passo no projeto de colonização israelense, que visava povoar inteiramente o que era o território palestino com judeus, forçando assim a criação de uma identidade nacional . Segundo o acadêmico palestino Nur-eldeen Masalha mais de 80% dos habitantes árabes da região que viria a ser o Estado de Israel abandonaram suas cidades e aldeias. O avanço dos judeus, como o ocorrido em Haifa, somado ao medo de um massacre, após o ocorrido em Deir Yaassin, e o colapso da liderança palestina fizeram com que muitos dos habitantes árabes fugissem devido ao pânico . Uma série de leis israelenses sobre a propriedade da terra, aprovadas pelo primeiro governo israelense, impediu que os árabes palestinos retornassem posteriormente aos seus lares ou fizessem valer seus direitos de propriedade. Essas pessoas e muitos dos seus descendentes continuam a ser considerados refugiados. Esse movimento de colonização gerou muita indignação e revolta nos palestinos, culminando na criação de movimentos populares para libertação do povo palestino, tal como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), o Fatah , o Hamas e a Frente Popular para a Libertação da Palestina . Todos esses movimentos tem como objetivo a libertação do povo palestino através da luta armada, e há muito utilizam de técnicas de guerrilha e combate urbano para lutar contra o estado israelense. Conclusão Tendo em vista o projeto de colonização sionista, que tem como objetivo a assimilação total do território que era o antigo reino de Israel, eliminando de forma sistemática qualquer outra população que se encontre na região, podemos dizer que a invasão que ocorre hoje em 2023 na faixa de Gaza é nada menos que a continuação desse projeto. O ataque realizado pelo Hamas foi violentíssimo e sim, provocou o estado de Israel, porém é resultado de mais de 75 anos de opressão perpetrados por um estado colonialista e racista, que vê os povos árabes como inferiores e indignos. Liberdade ao Povo Palestino! Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Portal Águia, é desenvolvedor de software, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Fontes: Sionismo – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org) Hamas: o que é, origem, atuação, questão palestina (uol.com.br) A criação de Israel e a origem do conflito na Palestina - YouTube

  • As conseqüências do governo de Jair Bolsonaro

    Crescimento do movimento antivacina, casos de morte por asfixia em Manaus e entraves em obras públicas no estado de São Paulo são somente alguns exemplos de conseqüências do descaso de Jair Bolsonaro ao exercer o cargo de líder executivo do Brasil. Foto tirada por Jade Scarlato de um grafite no qual Jair Bolsonaro diz: "E daí?", em resposta às mortes por Covid-19. O presidente Jair Bolsonaro, eleito em 2018, desde sempre foi visto como uma figura polêmica tanto pela mídia brasileira como internacional, porém suas ações nunca tiveram conseqüências muito impactantes no âmbito geral da política e da economia nacional. Porém com sua eleição para o executivo, tudo isto mudou. Desde seu primeiro ano de governo, Bolsonaro tem tomado ações que podem ser classificadas no mínimo como duvidosas politicamente, que aos poucos minaram sua imagem como presidenciável. O jornal Folha de S. Paulo compilou ao menos 23 situações em que Bolsonaro, em seus dois anos de governo até aqui, promoveu atitudes que podem ser enquadradas como crime de responsabilidade, e que vão da publicação de um vídeo pornográfico em suas redes sociais no Carnaval de 2019 aos reiterados apoios a manifestações de cunho antidemocrático . Vídeo retirado do canal do Estadão, com um compilado de frases ditas por Jair Bolsonaro durante a pandemia em relação ao COVID-19, com expressões como "Histeria" e "gripezinha". Desde o início da crise, o presidente relativizou o potencial devastador do novo Corona vírus. A Constituição lista em seu artigo 85 os atos do presidente que configuram crime de responsabilidade. Entre eles está os que atentam contra o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais. No caso, a saúde estando no último grupo. A Lei dos Crimes de Responsabilidade também define ser crime de responsabilidade violar "patentemente" os direitos sociais. Ao contrário de crimes comuns, esse tipo de infração recai em um grupo restrito de pessoas, como presidentes, prefeitos, ministros de Estado e ministros do Supremo Tribunal Federal, e é o que dá base jurídica a pedidos de impeachment. Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem desconsiderado as opiniões de especialistas, dizendo que o novo Corona vírus não seria uma grande ameaça ao povo brasileiro. Em alguns momentos, o político inclusive se gaba de ter "histórico de atleta" e que o vírus não o iria derrubar. Manaus e a crise do oxigênio Enterro de vítima da Covid-19 no Cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus (AM). Foto: Edmar Barros Conforme a Folha de S. Paulo tem deixado claro em diversas reportagens, o governo soube com antecedência e ignorou alertas da iminência do colapso de oxigênio em Manaus. Ao mesmo tempo, montou e financiou força-tarefa para pressionar a cidade e médicos do Amazonas a receitar medicamentos não respaldados pela comunidade científica, como a cloroquina e a ivermectina, no que chama de "tratamento precoce" . O Ministério Público Federal no Amazonas instaurou inquérito civil para apurar possível improbidade administrativa. "Percebemos que essa campanha, que seria incentivada pelo Ministério da Saúde, teria acontecido no momento em que já se vislumbrava uma possível e grave falha de abastecimento de oxigênio", afirma o procurador da República José Gladston Viana Correia, um dos responsáveis pela investigação. Além do exemplo acima, temos a denúncia de várias pessoas em relação a um aplicativo do Ministério da Saúde, indicado a profissionais da área, que recomendava remédios sem eficácia contra a Covid. A partir do preenchimento de um formulário eletrônico com os sintomas do paciente, o TrateCOV sugeria a prescrição de hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina em qualquer idade, inclusive para bebês, e em situações diversas, não só para Covid-19. Além da comunidade científica nacional e internacional, a própria Anvisa, ao autorizar o uso emergencial das primeiras vacinas no país, ressaltou não haver alternativa terapêutica aprovada e disponível para prevenir ou tratar a Covid. O ministério tirou o aplicativo do ar nesta quinta-feira (21). Atraso de obras públicas no estado de São Paulo Os entraves nas negociações de obras e programas paulistas não são novidade, mas, na avaliação de integrantes do governo Doria, desentendimentos antes tidos como pontuais já são definidos como uma ação coordenada da gestão Bolsonaro. O objetivo, segundo eles, seria inviabilizar projetos desejados pela administração paulista que beneficiariam o Estado. Há atraso em pelo menos duas obras que dependem diretamente da Caixa Econômica Federal e do Ministério da Infra-estrutura, além de outros projetos atingidos. Segundo interlocutores do presidente, Bolsonaro teria proibido integrantes do governo de atender a qualquer demanda do governador, a quem classificou de "moleque" após ser chamado de "facínora" por Doria. Piscinão Jaboticabal, área de 154 mil m² e capacidade de armazenamento de 900 mil m³. (Foto: Cesar Ogata / Secom) São Paulo se queixa de um recuo da gestão Bolsonaro na construção do Piscinão Jaboticabal, obra tida como a solução para evitar as enchentes do Rio Tamanduateí e dos ribeirões dos Couros e dos Meninos, que ocorrem nas divisas da capital paulista com as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. A obra estaria orçada em R$ 300 milhões e seria financiada pela Caixa, segundo acordo que o secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente paulista, Marcos Penido, disse ter firmado com o banco. Mas, depois de todas as tratativas, a linha de crédito ficou congelada e, quando liberada, atendeu a um volume de recursos menor, de R$ 100 milhões. "Teremos agora de buscar, dentro do Tesouro do Estado, os recursos para a construção", disse Penido. Informações retiradas dos sites Política Ao Minuto, G1, Folha de S. Paulo e Estadão.

  • Gaza: a guerra viva por uma terra morta

    Um cenário desesperador de destruição em massa se estende há vastos 75 anos e parece estar longe do fim. A Palestina tem sido, há décadas, símbolo de resistência diante da ocupação e da violência. Mas, entre os escombros de Gaza, esconde-se uma dimensão frequentemente ignorada do conflito: a destruição deliberada dos recursos naturais, a privatização da água, a degradação do solo e a manipulação climática como instrumentos de dominação . Este artigo convida à reflexão por um novo ângulo: a ecocolonialidade na Palestina , onde não apenas o povo, mas também a terra, o clima e a água são alvos da ocupação. Foto: Getty, IDF A Faixa de Gaza é um dos territórios mais densamente povoados do mundo e, ironicamente, um dos menos abastecidos com água potável. Segundo a ONG israelense B’Tselem,  mais de 90% da água subterrânea está contaminada por salinidade e esgoto. Desde 2007, com o bloqueio israelense, a entrada de materiais para o tratamento da água foi severamente restringida . A destruição de infraestrutura hídrica não é colateral, mas sistemática. Além disso, a política de “zonas militares” em terras agricultáveis  impede que famílias palestinas acessem suas plantações. Terras férteis são tomadas sob o pretexto de segurança, mas transformam-se em colônias, condomínios e bases militares. O cenário atual demonstra que a colonização não se volta apenas contra corpos, mas contra solos, rios e sementes , observação já prevista por Ailton Krenak, líder indígena e ativista dos direitos dos povos originários do Brasil, ao afirmar em muitos de seus discursos que “a principal infraestrutura de uma nação é o seu território” e que, ao destruir florestas, rios e montanhas, destrói-se a base vital de um povo.  Tal reflexão, pensada nos cenários indígenas do Brasil, aplica-se igualmente à Palestina. Água: um campo de batalha invisível Foto: Getty, IDF / Divulgação: FBBC Na Cisjordânia, Israel controla mais de 80% da água potável , embora a maior parte da fonte esteja em território palestino. Assentamentos ilegais recebem água encanada, enquanto aldeias palestinas são obrigadas a comprar caminhões-pipa a preços inflacionados, muitas vezes, do próprio governo israelense . O acesso à água se tornou um privilégio colonial. Em Gaza, bombardeios israelenses destruíram repetidamente usinas de dessalinização e estações de tratamento de esgoto. A contaminação dos aquíferos não afeta apenas os palestinos, mas compromete todo o ecossistema regional. A Palestina e o ecocolonialismo: uma leitura necessária O conceito de ecocolonialismo  denuncia como os projetos coloniais modernos perpetuam-se por meio da dominação dos ecossistemas . O controle do território, da energia solar, do acesso à terra e da água integra um projeto maior de enfraquecimento da soberania palestina. Não se trata apenas de ocupação física, mas de destruição ecológica como método silencioso de dominação . O clima, já naturalmente hostil, agrava-se com a devastação ambiental provocada pelas guerras, comprometendo diretamente a agricultura e a sobrevivência palestina. Nesse contexto, ativistas como Greta Thunberg  e o brasileiro Thiago Ávila  tornaram-se vozes dissidentes ao conectar a luta climática à libertação dos povos oprimidos . Ambos foram criticados por se posicionarem em apoio à Palestina, expondo-se a riscos ao tentar prestar solidariedade às vítimas da ocupação. Por que incomoda quando o ativismo ambiental toma posição política? Talvez porque escancara a hipocrisia do “ambientalismo branco”, aquele que protege florestas distantes, mas silencia diante de povos que morrem de sede ou vivem sem luz. Greenwashing de Estado: potências sustentáveis e o silêncio diplomático Israel promove-se como um polo de inovação ambiental, destacando tecnologias de irrigação e dessalinização. No entanto, impede que essas mesmas soluções sejam acessíveis à Palestina.  Esse paradoxo alimenta o chamado greenwashing estatal : uma ecologia performática que mascara crimes ambientais e violações humanitárias. Enquanto isso, na arena internacional, países ditos “verdes” continuam a vender armamentos a Israel  ou se abstêm em votações sobre cessar-fogo. O meio ambiente, nesse cenário, torna-se moeda diplomática, diluído entre interesses geopolíticos e discursos vazios. O apagamento definitivo de uma terra sem povo, para um povo sem terra Em Gaza, a destruição ultrapassa o físico:  ela é também simbólica, cultural e histórica.  O projeto colonial busca apagar um povo por completo, pela bala, pela escassez e pela memória. A água contaminada não apenas adoece, mas impossibilita rituais ancestrais de purificação. Oliveiras centenárias, símbolo da resistência e da cultura palestina, são arrancadas e incineradas. Cada ruína de uma casa destruída carrega vidas interrompidas, idiomas calados, músicas sufocadas e modos de existir que não cabem mais na paisagem imposta . Em Gaza, o apartheid ambiental se entrelaça com o risco real de etnocídio : a extinção progressiva de uma cultura inteira. A morte ali é plural . É a infância impedida de brincar, o agricultor que não pode plantar, a canção sem voz no palco. É o tempo que se desfaz, porque todo povo precisa de chão, de presente e de futuro para continuar existindo. Ao contrário do discurso dominante, esse não é um embate entre iguais . É um processo assimétrico, sistemático e respaldado internacionalmente, em que um povo é empurrado para a invisibilidade Gaza não representa apenas uma crise humanitária. É um laboratório de colapso climático, de engenharia social e de apagamento cultural.  Um espelho brutal do mundo que estamos construindo e, sem memória, não haverá futuro. Torna-se ainda mais doloroso perceber que essa disputa sangrenta gira em torno de um pedaço de terra historicamente tratado como “de ninguém”. E, no meio da briga, matou-se a própria terra, ela que deveria ser o trunfo do vencedor, acabou por se tornar também a vítima. A guerra segue viva por uma terra morta. Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão:  Eliane Gomes Edição:  João Guilherme V.G. REFERÊNCIAS: B’TSELEM – The Israeli Information Center for Human Rights in the Occupied Territories.   Water crisis in Gaza . Disponível em: https://www.btselem.org/gaza_strip/20140209_gaza_water_crisis . KRENAK, Ailton.   Discurso de posse na ABL . Academia Brasileira de Letras, 2024. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/ailton-krenak/discurso-de-posse . UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP).   Environmental impact of the conflict in Gaza: preliminary assessment . 2024. Disponível em: https://www.unep.org/resources/report/environmental-impact-conflict-gaza-preliminary-assessment-environmental-impacts . FERREIRA, Josivaldo et al.   A guerra Israel–Palestina: questões históricas, religiosas e geopolíticas . Revista Rease, v. 4, n. 1, p. 1–14, 2024. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/18939/11115 . CNN BRASIL.   Com 39% dos hospitais fechados, médicos escolhem qual paciente vai sobreviver em Gaza . 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/com-39-dos-hospitais-fechados-medicos-escolhem-qual-paciente-vai-sobreviver-em-gaza/ . CNN BRASIL.   Como começou o conflito entre Israel e palestinos . 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/como-comecou-o-conflito-entre-israel-e-palestinos/ .

  • Misoginia política e o silenciamento de Marina Silva

    Foto: Lula Marques/Agência Brasil Em maio de 2025, uma das vozes mais respeitadas do país foi silenciada diante das câmeras. Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima , foi alvo de um ataque misógino e racista durante audiência pública na Câmara dos Deputados.  O episódio escancarou o que muitas mulheres negras já sabem : ocupar espaços de poder no Brasil é, ainda, um ato de resistência. Marina foi interrompida de forma agressiva, desrespeitosa e com conotação sexual , por um parlamentar que, em vez de debater ideias, optou por atacar a sua dignidade. O gesto ultrapassa a esfera do desacordo político.  Trata-se de um padrão que tenta, sistematicamente, minar a presença de mulheres  em espaços públicos e políticos. Esse tipo de violência é um mecanismo de controle . O silenciamento de mulheres, especialmente negras, é uma estratégia histórica do patriarcado para deslegitimar suas vozes, reduzir sua autoridade  e desencorajá-las a permanecer. No caso de Marina, o ataque também carrega um componente simbólico: atinge não só a mulher, mas a ministra que representa pautas de preservação ambiental, justiça climática e direitos dos povos originários. A reação da sociedade civil e de movimentos sociais não tardou. Mulheres de diferentes espectros políticos se manifestaram em solidariedade à ministra. Ainda assim, o episódio evidencia o quanto precisamos avançar na responsabilização institucional.  Não basta a indignação coletiva — é preciso ação efetiva. É urgente entender que o que está em jogo não é apenas o respeito a uma autoridade pública, mas a sobrevivência da democracia. Quando uma mulher como Marina é interrompida e desrespeitada, todas nós somos afetadas. A mensagem enviada é clara: ainda há quem acredite que determinados corpos não devem ocupar determinados espaços. A misoginia política não é um problema isolado. Ela está enraizada na cultura parlamentar brasileira, que naturaliza a hostilidade contra mulheres que ousam contrariar estruturas de poder consolidadas.  Em um país onde a representatividade feminina na política é ainda tão baixa, cada ataque como esse tem efeito multiplicador — inibe candidaturas, esvazia o debate e afasta novas lideranças. Portanto, é preciso nomear o que aconteceu: misoginia, racismo, silenciamento. Só assim poderemos criar mecanismos de prevenção, proteção e reparação para que casos como esse não se repitam. Nomear é o primeiro passo para transformar. Texto escrito por Christiane Figueiredo Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G

  • Revés da Extrema-Direita no Brasil

    No dia 18 de fevereiro deste ano, a Procuradoria Geral da República apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma denúncia contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais 33 pessoas . Bolsonaro foi acusado de crimes relacionados a um plano de golpe de Estado para impedir Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de assumir o poder após as eleições de 2022. Foto de Marcello Casal Jr/ Agência Brasil. A denúncia detalha uma série de crimes graves , incluindo tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada, danos contra o patrimônio da União e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Enquanto em vários países a extrema-direita tem conquistado espaços de poder e voz na política, aqui em terras brasileiras, felizmente, a onda fascista sofreu um revés pesado com a denúncia meticulosamente elaborada, que envolve não só Bolsonaro como diversos atores do fracassado golpe de 2022. Tendo em vista a recente vitória de Donald Trump nas eleições estadunidenses, a onda de novos líderes políticos de extrema-direita na Europa e os abusos de poder do governo fascista de Israel, é uma notícia animadora ver um ex-presidente dessa ala ser indiciado pelo sistema judiciário, com a possibilidade de pegar até 30 anos de prisão caso seja condenado . O Plano do Golpe Bolsonaro, durante seu governo, negligenciou a ciência e as vacinas contra a COVID-19 , acenou para o neonazismo , inflamou uma suposta “guerra cultural”  e diversas vezes ameaçou realizar um golpe de estado no Brasil , com o intuito de destruir as raízes democráticas da república . Seu mandato foi marcado pela crise de saúde mais grave da história recente do país, com mais de 690 mil mortos pela COVID-19, mortes que poderiam ter sido evitadas com um gerenciamento estatal mais responsável e mais humano, apoiado na ciência e na tecnologia. Foto de: Leonardo André/Alagoas, retirada da página do MST. Porém, não contente, o ex-presidente e seus aliados tentaram desacreditar o processo eleitoral brasileiro e criar um ambiente favorável para uma intervenção militar . Durante o ano de 2022 inteiro, o chamado “gabinete do ódio” , um grupo de assessores de Jair Bolsonaro, que operavam no Palácio do Planalto e eram coordenados por ele e seu filho, Carlos Bolsonaro, foram responsáveis por orientar as redes sociais do ex-presidente e disseminar notícias falsas para atacar adversários políticos e desestabilizar o processo democrático no Brasil. O grupo foi inicialmente revelado pela deputada Joice Hasselmann em 2019 , que descreveu a existência de uma "milícia virtual"  que utilizava perfis falsos em redes sociais para difundir fake news . As investigações da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmaram a existência do "gabinete do ódio" e sua atuação na propagação de notícias falsas e ataques a instituições democráticas. O projeto de gerar fake news  tinha como objetivo manipular a opinião pública e criar um ambiente de desconfiança   em relação ao processo eleitoral e às instituições democráticas. As fakes news  disseminadas pelo grupo incluíam informações falsas sobre urnas eletrônicas, vacinas e outros temas sensíveis. A atuação do "gabinete do ódio" foi considerada uma ameaça significativa à democracia brasileira , comprometendo a transparência e a integridade do processo democrático. Charge do Nani ( Nanihumor.com ) Esse processo, por fim, culminou numa tentativa de golpe de estado , que tinha como objetivo assassinar o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.  Esse plano foi denominado "Punhal Verde e Amarelo" e foi elaborado por membros da organização criminosa liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o plano envolvia o monitoramento das rotas e a utilização de recursos bélicos para executar os assassinatos. O general Mário Fernandes, secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência, foi identificado como o autor do esboço criminoso e teria informado Bolsonaro sobre o plano em duas ocasiões . Além disso, a Polícia Federal (PF) coletou provas, como registros de entrada em prédios públicos, localização por satélite e mensagens interceptadas, que indicam o conhecimento e a anuência de Bolsonaro em relação ao plano. A denúncia da PGR também menciona a tentativa de cooptação das Forças Armadas para apoiar o golpe, mas encontrou resistência entre os militares, o que impediu a concretização do plano. Em suma, o alto comando não quis participar do golpe pois não via probabilidade de sucesso. 8 de Janeiro e as Consequências da Campanha de Desinformação Além de abordar o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de golp e, a denúncia da PGR não deixa dúvidas sobre a conexão direta do ex-presidente com os ataques de 8 de janeiro de 2023 contra as sedes dos Três Poderes da República . Naquele dia, uma horda de apoiadores radicais de Bolsonaro, furiosos com a eleição e posse do presidente Lula, invadiu e devastou o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, essa ação violenta foi instigada e facilitada pela organização criminosa liderada por Bolsonaro . O grupo é responsabilizado por atos que atentam à ordem democrática, com o objetivo claro de romper a ordem constitucional, impedir o funcionamento dos Poderes e desafiar o Estado de Direito Democrático. A denúncia ainda aponta que a destruição causou prejuízos financeiros superiores a R$ 20 milhões. Os envolvidos estão inclusive já sendo responsabilizados por suas ações devastadoras contra a democracia brasileira. Um exemplo é Maria de Fátima Mendonça Jacinto Souza, conhecida como "Fátima de Tubarão", foi condenada a 17 anos de prisão por sua participação nos eventos golpistas. Ela foi condenada pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração do patrimônio tombado e associação criminosa armada. É inegável que a investigação levou um período considerável de tempo para reunir provas suficientes de forma que não haja chance do ex-presidente e a organização terrorista que ele lidera saírem impunes. Porém, é urgente que ocorra um julgamento rápido e certeiro, para que nossas próximas eleições de 2026 não sejam marcadas por elementos da extrema-direita se radicalizando e tentando um novo golpe de estado . Esse processo deve ser educativo e exemplar, um verdadeiro golpe no orgulho da extrema-direita no cone sul da América. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Portal Águia, é desenvolvedor de software, podcaster, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme Fontes https://mst.org.br/2022/10/06/17-escandalos-de-corrupcao-do-governo-bolsonaro/?form=MG0AV3 https://mst.org.br/2021/09/29/7-escandalos-de-corrupcao-do-governo-bolsonaro/?form=MG0AV3 https://www.cartacapital.com.br/politica/governo-bolsonaro-acumula-escandalos-de-corrupcao-confira-os-principais/?form=MG0AV3 https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/11/23/prints-fotos-e-videos-veja-a-cronologia-da-tentativa-de-golpe-de-estado.ghtml?form=MG0AV3 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/12/03/golpe-da-ditadura-militar-e-fracasso-de-2022-podem-ser-comparados.htm?form=MG0AV3 https://tribunadaimprensalivre.com/documento-do-stf-explica-como-funciona-o-gabinete-do-odio/?form=MG0AV3 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/em-decisao-stf-classifica-gabinete-do-odio-como-associacao-criminosa/?form=MG0AV3 https://www.bbc.com/portuguese/articles/cqx0j11p9gzo

  • Fake News: A tragédia por trás da desinformação

    UNESCO - A propagação de fake news nas redes sociais desafia a credibilidade da informação no mundo digital As fake news , ou notícias falsas, não são um fenômeno recente.  No entanto, a forma como se propagam no mundo digital tem preocupado especialistas e jornalistas. Com o avanço das redes sociais, a desinformação ganhou força e tornou-se um desafio global  para veículos de comunicação e para a sociedade. Donald A. Barclay, bibliotecário e autor especializado em informação digital afirma: “A desinformação não é novidade. O que é novo é a rapidez e a amplitude com que ela pode se espalhar graças à internet e às mídias sociais” , Segundo ele, a velocidade com que boatos e informações manipuladas circulam dificulta a checagem  e confunde a opinião pública. Plataformas como X (antigo Twitter), Facebook e outras redes sociais possibilitam que qualquer pessoa, mesmo sem se identificar, compartilhe conteúdos que atingem milhares  — ou até milhões — de usuários em segundos. Com isso, montagens, textos manipulados e boatos passaram a fazer parte da rotina digital. Para o jornalista e escritor britânico Matthew d’Ancona, a crise da verdade é um dos maiores dilemas da atualidade. “A verdade deixou de ser um consenso coletivo e passou a ser uma escolha individual” Esse cenário abriu espaço para que grupos formassem suas próprias bolhas informacionais , sustentadas por teorias sem base científica, como o terraplanismo e os movimentos antivacina. O termo " fake news " ganhou notoriedade em 2016. Nos últimos anos , a propagação de notícias falsas tem causado danos irreparáveis  em diversas partes do mundo. Em alguns casos, a desinformação ultrapassa os limites do virtual e resulta em mortes trágicas. A seguir, três episódios emblemáticos mostram o impacto fatal que boatos sem fundamento podem provocar na sociedade. Caso Fabiane Maria de Jesus – Brasil (2014) Caso Fabiane Maria de Jesus e o post na pagina do Facebook Guarujá Alerta. Em maio de 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi brutalmente linchada por moradores do bairro Morrinhos, no Guarujá, litoral de São Paulo. A violência foi motivada por uma notícia falsa que circulava nas redes sociais.  O boato alegava que uma “bruxa” estaria sequestrando crianças para rituais de magia negra, acompanhado por uma imagem que, segundo os agressores, se assemelhava à de Fabiane. Sem qualquer prova ou verificação, a população decidiu fazer justiça com as próprias mãos. Fabiane foi espancada em plena luz do dia e morreu dois dias depois no hospital. O caso teve grande repercussão nacional e expôs a força destrutiva das fake news quando aliadas à desinformação e ao medo coletivo. Cloroquina e Ivermectina na Pandemia – Brasil (2020–2021) Durante os anos críticos da pandemia de COVID-19, o mundo buscava desesperadamente tratamentos eficazes  contra o novo coronavírus. Nesse cenário, surgiram diversas informações falsas sobre medicamentos que supostamente preveniam ou curavam a doença . No Brasil, a cloroquina e a ivermectina foram amplamente promovidas por políticos e apoiadores como “soluções milagrosas”, apesar da ausência de comprovação científica. Caixas de medicamentos ineficazes indicados no combate a COVID-19 Mesmo após alertas das autoridades de saúde, muitos brasileiros continuaram utilizando os medicamentos de forma indevida. Um dos casos mais chocantes foi o de um homem do interior do país que morreu por overdose de ivermectina. O nome e a localização da vítima nunca foram divulgados oficialmente, mas o caso é citado por especialistas como exemplo dos perigos do uso não supervisionado de fármacos, motivado por desinformação. Linchamentos em Massa na Índia – (2017–2018) Na Índia, entre os anos de 2017 e 2018, um boato que circulava em grupos do WhatsApp relatava a presença de supostos sequestradores de crianças em diversas regiões do país. A histeria coletiva gerada por essas mensagens resultou em uma série de linchamentos públicos. Estima-se que mais de 30 pessoas foram mortas por grupos de cidadãos que, baseando-se unicamente em informações falsas, decidiram agir por conta própria. A onda de violência forçou o governo indiano a pressionar a Meta , empresa responsável pelo WhatsApp, a tomar medidas para conter a disseminação de conteúdo enganoso , incluindo a limitação do número de encaminhamentos de mensagens no país. Boatos inofensivos? Caos social. Casos como esses revelam que as fake news  não são meramente boatos inofensivos. Elas podem gerar medo, caos social, crises de saúde pública e, em muitos casos, levar à morte de inocentes . Especialistas alertam para a importância da verificação de informações antes de compartilhá-las , especialmente em tempos de polarização e incerteza. A desinformação, quando combinada à velocidade das redes sociais, pode ser tão letal quanto qualquer arma — e combater seu avanço tornou-se um dos maiores desafios do nosso tempo. Texto escrito por Kauan Oscar Estudante de Jornalismo, apaixonado por esportes e literatura, encontrou na profissão uma oportunidade perfeita para contar sobre suas paixões por meio de histórias que inspirem outras pessoas. Revisão  por Eliane Gomes Edição  por João Guilherme V.G Referências https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/05/bcomo-internetb-contribuiu-para-morte-brutal-de-fabiane.html https://www.brasildefato.com.br/2021/07/14/depois-de-milhares-de-mortos-ministerio-da-saude-reconhece-ineficacia-do-kit-covid/ https://exame.com/mundo/dez-pessoas-sao-presas-por-linchamento-causado-por-fake-news-na-india/

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