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- As conseqüências do governo de Jair Bolsonaro
Crescimento do movimento antivacina, casos de morte por asfixia em Manaus e entraves em obras públicas no estado de São Paulo são somente alguns exemplos de conseqüências do descaso de Jair Bolsonaro ao exercer o cargo de líder executivo do Brasil. Foto tirada por Jade Scarlato de um grafite no qual Jair Bolsonaro diz: "E daí?", em resposta às mortes por Covid-19. O presidente Jair Bolsonaro, eleito em 2018, desde sempre foi visto como uma figura polêmica tanto pela mídia brasileira como internacional, porém suas ações nunca tiveram conseqüências muito impactantes no âmbito geral da política e da economia nacional. Porém com sua eleição para o executivo, tudo isto mudou. Desde seu primeiro ano de governo, Bolsonaro tem tomado ações que podem ser classificadas no mínimo como duvidosas politicamente, que aos poucos minaram sua imagem como presidenciável. O jornal Folha de S. Paulo compilou ao menos 23 situações em que Bolsonaro, em seus dois anos de governo até aqui, promoveu atitudes que podem ser enquadradas como crime de responsabilidade, e que vão da publicação de um vídeo pornográfico em suas redes sociais no Carnaval de 2019 aos reiterados apoios a manifestações de cunho antidemocrático . Vídeo retirado do canal do Estadão, com um compilado de frases ditas por Jair Bolsonaro durante a pandemia em relação ao COVID-19, com expressões como "Histeria" e "gripezinha". Desde o início da crise, o presidente relativizou o potencial devastador do novo Corona vírus. A Constituição lista em seu artigo 85 os atos do presidente que configuram crime de responsabilidade. Entre eles está os que atentam contra o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais. No caso, a saúde estando no último grupo. A Lei dos Crimes de Responsabilidade também define ser crime de responsabilidade violar "patentemente" os direitos sociais. Ao contrário de crimes comuns, esse tipo de infração recai em um grupo restrito de pessoas, como presidentes, prefeitos, ministros de Estado e ministros do Supremo Tribunal Federal, e é o que dá base jurídica a pedidos de impeachment. Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem desconsiderado as opiniões de especialistas, dizendo que o novo Corona vírus não seria uma grande ameaça ao povo brasileiro. Em alguns momentos, o político inclusive se gaba de ter "histórico de atleta" e que o vírus não o iria derrubar. Manaus e a crise do oxigênio Enterro de vítima da Covid-19 no Cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus (AM). Foto: Edmar Barros Conforme a Folha de S. Paulo tem deixado claro em diversas reportagens, o governo soube com antecedência e ignorou alertas da iminência do colapso de oxigênio em Manaus. Ao mesmo tempo, montou e financiou força-tarefa para pressionar a cidade e médicos do Amazonas a receitar medicamentos não respaldados pela comunidade científica, como a cloroquina e a ivermectina, no que chama de "tratamento precoce" . O Ministério Público Federal no Amazonas instaurou inquérito civil para apurar possível improbidade administrativa. "Percebemos que essa campanha, que seria incentivada pelo Ministério da Saúde, teria acontecido no momento em que já se vislumbrava uma possível e grave falha de abastecimento de oxigênio", afirma o procurador da República José Gladston Viana Correia, um dos responsáveis pela investigação. Além do exemplo acima, temos a denúncia de várias pessoas em relação a um aplicativo do Ministério da Saúde, indicado a profissionais da área, que recomendava remédios sem eficácia contra a Covid. A partir do preenchimento de um formulário eletrônico com os sintomas do paciente, o TrateCOV sugeria a prescrição de hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina em qualquer idade, inclusive para bebês, e em situações diversas, não só para Covid-19. Além da comunidade científica nacional e internacional, a própria Anvisa, ao autorizar o uso emergencial das primeiras vacinas no país, ressaltou não haver alternativa terapêutica aprovada e disponível para prevenir ou tratar a Covid. O ministério tirou o aplicativo do ar nesta quinta-feira (21). Atraso de obras públicas no estado de São Paulo Os entraves nas negociações de obras e programas paulistas não são novidade, mas, na avaliação de integrantes do governo Doria, desentendimentos antes tidos como pontuais já são definidos como uma ação coordenada da gestão Bolsonaro. O objetivo, segundo eles, seria inviabilizar projetos desejados pela administração paulista que beneficiariam o Estado. Há atraso em pelo menos duas obras que dependem diretamente da Caixa Econômica Federal e do Ministério da Infra-estrutura, além de outros projetos atingidos. Segundo interlocutores do presidente, Bolsonaro teria proibido integrantes do governo de atender a qualquer demanda do governador, a quem classificou de "moleque" após ser chamado de "facínora" por Doria. Piscinão Jaboticabal, área de 154 mil m² e capacidade de armazenamento de 900 mil m³. (Foto: Cesar Ogata / Secom) São Paulo se queixa de um recuo da gestão Bolsonaro na construção do Piscinão Jaboticabal, obra tida como a solução para evitar as enchentes do Rio Tamanduateí e dos ribeirões dos Couros e dos Meninos, que ocorrem nas divisas da capital paulista com as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. A obra estaria orçada em R$ 300 milhões e seria financiada pela Caixa, segundo acordo que o secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente paulista, Marcos Penido, disse ter firmado com o banco. Mas, depois de todas as tratativas, a linha de crédito ficou congelada e, quando liberada, atendeu a um volume de recursos menor, de R$ 100 milhões. "Teremos agora de buscar, dentro do Tesouro do Estado, os recursos para a construção", disse Penido. Informações retiradas dos sites Política Ao Minuto, G1, Folha de S. Paulo e Estadão.
- Gaza: a guerra viva por uma terra morta
Um cenário desesperador de destruição em massa se estende há vastos 75 anos e parece estar longe do fim. A Palestina tem sido, há décadas, símbolo de resistência diante da ocupação e da violência. Mas, entre os escombros de Gaza, esconde-se uma dimensão frequentemente ignorada do conflito: a destruição deliberada dos recursos naturais, a privatização da água, a degradação do solo e a manipulação climática como instrumentos de dominação . Este artigo convida à reflexão por um novo ângulo: a ecocolonialidade na Palestina , onde não apenas o povo, mas também a terra, o clima e a água são alvos da ocupação. Foto: Getty, IDF A Faixa de Gaza é um dos territórios mais densamente povoados do mundo e, ironicamente, um dos menos abastecidos com água potável. Segundo a ONG israelense B’Tselem, mais de 90% da água subterrânea está contaminada por salinidade e esgoto. Desde 2007, com o bloqueio israelense, a entrada de materiais para o tratamento da água foi severamente restringida . A destruição de infraestrutura hídrica não é colateral, mas sistemática. Além disso, a política de “zonas militares” em terras agricultáveis impede que famílias palestinas acessem suas plantações. Terras férteis são tomadas sob o pretexto de segurança, mas transformam-se em colônias, condomínios e bases militares. O cenário atual demonstra que a colonização não se volta apenas contra corpos, mas contra solos, rios e sementes , observação já prevista por Ailton Krenak, líder indígena e ativista dos direitos dos povos originários do Brasil, ao afirmar em muitos de seus discursos que “a principal infraestrutura de uma nação é o seu território” e que, ao destruir florestas, rios e montanhas, destrói-se a base vital de um povo. Tal reflexão, pensada nos cenários indígenas do Brasil, aplica-se igualmente à Palestina. Água: um campo de batalha invisível Foto: Getty, IDF / Divulgação: FBBC Na Cisjordânia, Israel controla mais de 80% da água potável , embora a maior parte da fonte esteja em território palestino. Assentamentos ilegais recebem água encanada, enquanto aldeias palestinas são obrigadas a comprar caminhões-pipa a preços inflacionados, muitas vezes, do próprio governo israelense . O acesso à água se tornou um privilégio colonial. Em Gaza, bombardeios israelenses destruíram repetidamente usinas de dessalinização e estações de tratamento de esgoto. A contaminação dos aquíferos não afeta apenas os palestinos, mas compromete todo o ecossistema regional. A Palestina e o ecocolonialismo: uma leitura necessária O conceito de ecocolonialismo denuncia como os projetos coloniais modernos perpetuam-se por meio da dominação dos ecossistemas . O controle do território, da energia solar, do acesso à terra e da água integra um projeto maior de enfraquecimento da soberania palestina. Não se trata apenas de ocupação física, mas de destruição ecológica como método silencioso de dominação . O clima, já naturalmente hostil, agrava-se com a devastação ambiental provocada pelas guerras, comprometendo diretamente a agricultura e a sobrevivência palestina. Nesse contexto, ativistas como Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila tornaram-se vozes dissidentes ao conectar a luta climática à libertação dos povos oprimidos . Ambos foram criticados por se posicionarem em apoio à Palestina, expondo-se a riscos ao tentar prestar solidariedade às vítimas da ocupação. Por que incomoda quando o ativismo ambiental toma posição política? Talvez porque escancara a hipocrisia do “ambientalismo branco”, aquele que protege florestas distantes, mas silencia diante de povos que morrem de sede ou vivem sem luz. Greenwashing de Estado: potências sustentáveis e o silêncio diplomático Israel promove-se como um polo de inovação ambiental, destacando tecnologias de irrigação e dessalinização. No entanto, impede que essas mesmas soluções sejam acessíveis à Palestina. Esse paradoxo alimenta o chamado greenwashing estatal : uma ecologia performática que mascara crimes ambientais e violações humanitárias. Enquanto isso, na arena internacional, países ditos “verdes” continuam a vender armamentos a Israel ou se abstêm em votações sobre cessar-fogo. O meio ambiente, nesse cenário, torna-se moeda diplomática, diluído entre interesses geopolíticos e discursos vazios. O apagamento definitivo de uma terra sem povo, para um povo sem terra Em Gaza, a destruição ultrapassa o físico: ela é também simbólica, cultural e histórica. O projeto colonial busca apagar um povo por completo, pela bala, pela escassez e pela memória. A água contaminada não apenas adoece, mas impossibilita rituais ancestrais de purificação. Oliveiras centenárias, símbolo da resistência e da cultura palestina, são arrancadas e incineradas. Cada ruína de uma casa destruída carrega vidas interrompidas, idiomas calados, músicas sufocadas e modos de existir que não cabem mais na paisagem imposta . Em Gaza, o apartheid ambiental se entrelaça com o risco real de etnocídio : a extinção progressiva de uma cultura inteira. A morte ali é plural . É a infância impedida de brincar, o agricultor que não pode plantar, a canção sem voz no palco. É o tempo que se desfaz, porque todo povo precisa de chão, de presente e de futuro para continuar existindo. Ao contrário do discurso dominante, esse não é um embate entre iguais . É um processo assimétrico, sistemático e respaldado internacionalmente, em que um povo é empurrado para a invisibilidade Gaza não representa apenas uma crise humanitária. É um laboratório de colapso climático, de engenharia social e de apagamento cultural. Um espelho brutal do mundo que estamos construindo e, sem memória, não haverá futuro. Torna-se ainda mais doloroso perceber que essa disputa sangrenta gira em torno de um pedaço de terra historicamente tratado como “de ninguém”. E, no meio da briga, matou-se a própria terra, ela que deveria ser o trunfo do vencedor, acabou por se tornar também a vítima. A guerra segue viva por uma terra morta. Texto escrito por Mayara Ribeiro Mayara Ribeiro é jornalista e escritora. Autora do livro "Bennin: Onde habita a resiliência feminina". Defensora dos Direitos Humanos com visão analítica técnico jurídica, sem tendencias de cunho político-partidárias. Atualmente atua na área de treinamento corporativo e endomarketing, além de ser colunista no Portal Águia. Pertencente ao Clube de Desbravadores, ponto chave de sua trajetória, que fortalece diariamente sua paixão por liderança, serviço comunitário e desenvolvimento humano. Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme V.G. REFERÊNCIAS: B’TSELEM – The Israeli Information Center for Human Rights in the Occupied Territories. Water crisis in Gaza . Disponível em: https://www.btselem.org/gaza_strip/20140209_gaza_water_crisis . KRENAK, Ailton. Discurso de posse na ABL . Academia Brasileira de Letras, 2024. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/ailton-krenak/discurso-de-posse . UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Environmental impact of the conflict in Gaza: preliminary assessment . 2024. Disponível em: https://www.unep.org/resources/report/environmental-impact-conflict-gaza-preliminary-assessment-environmental-impacts . FERREIRA, Josivaldo et al. A guerra Israel–Palestina: questões históricas, religiosas e geopolíticas . Revista Rease, v. 4, n. 1, p. 1–14, 2024. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/18939/11115 . CNN BRASIL. Com 39% dos hospitais fechados, médicos escolhem qual paciente vai sobreviver em Gaza . 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/com-39-dos-hospitais-fechados-medicos-escolhem-qual-paciente-vai-sobreviver-em-gaza/ . CNN BRASIL. Como começou o conflito entre Israel e palestinos . 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/como-comecou-o-conflito-entre-israel-e-palestinos/ .
- Misoginia política e o silenciamento de Marina Silva
Foto: Lula Marques/Agência Brasil Em maio de 2025, uma das vozes mais respeitadas do país foi silenciada diante das câmeras. Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima , foi alvo de um ataque misógino e racista durante audiência pública na Câmara dos Deputados. O episódio escancarou o que muitas mulheres negras já sabem : ocupar espaços de poder no Brasil é, ainda, um ato de resistência. Marina foi interrompida de forma agressiva, desrespeitosa e com conotação sexual , por um parlamentar que, em vez de debater ideias, optou por atacar a sua dignidade. O gesto ultrapassa a esfera do desacordo político. Trata-se de um padrão que tenta, sistematicamente, minar a presença de mulheres em espaços públicos e políticos. Esse tipo de violência é um mecanismo de controle . O silenciamento de mulheres, especialmente negras, é uma estratégia histórica do patriarcado para deslegitimar suas vozes, reduzir sua autoridade e desencorajá-las a permanecer. No caso de Marina, o ataque também carrega um componente simbólico: atinge não só a mulher, mas a ministra que representa pautas de preservação ambiental, justiça climática e direitos dos povos originários. A reação da sociedade civil e de movimentos sociais não tardou. Mulheres de diferentes espectros políticos se manifestaram em solidariedade à ministra. Ainda assim, o episódio evidencia o quanto precisamos avançar na responsabilização institucional. Não basta a indignação coletiva — é preciso ação efetiva. É urgente entender que o que está em jogo não é apenas o respeito a uma autoridade pública, mas a sobrevivência da democracia. Quando uma mulher como Marina é interrompida e desrespeitada, todas nós somos afetadas. A mensagem enviada é clara: ainda há quem acredite que determinados corpos não devem ocupar determinados espaços. A misoginia política não é um problema isolado. Ela está enraizada na cultura parlamentar brasileira, que naturaliza a hostilidade contra mulheres que ousam contrariar estruturas de poder consolidadas. Em um país onde a representatividade feminina na política é ainda tão baixa, cada ataque como esse tem efeito multiplicador — inibe candidaturas, esvazia o debate e afasta novas lideranças. Portanto, é preciso nomear o que aconteceu: misoginia, racismo, silenciamento. Só assim poderemos criar mecanismos de prevenção, proteção e reparação para que casos como esse não se repitam. Nomear é o primeiro passo para transformar. Texto escrito por Christiane Figueiredo Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G
- Revés da Extrema-Direita no Brasil
No dia 18 de fevereiro deste ano, a Procuradoria Geral da República apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma denúncia contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais 33 pessoas . Bolsonaro foi acusado de crimes relacionados a um plano de golpe de Estado para impedir Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de assumir o poder após as eleições de 2022. Foto de Marcello Casal Jr/ Agência Brasil. A denúncia detalha uma série de crimes graves , incluindo tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada, danos contra o patrimônio da União e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Enquanto em vários países a extrema-direita tem conquistado espaços de poder e voz na política, aqui em terras brasileiras, felizmente, a onda fascista sofreu um revés pesado com a denúncia meticulosamente elaborada, que envolve não só Bolsonaro como diversos atores do fracassado golpe de 2022. Tendo em vista a recente vitória de Donald Trump nas eleições estadunidenses, a onda de novos líderes políticos de extrema-direita na Europa e os abusos de poder do governo fascista de Israel, é uma notícia animadora ver um ex-presidente dessa ala ser indiciado pelo sistema judiciário, com a possibilidade de pegar até 30 anos de prisão caso seja condenado . O Plano do Golpe Bolsonaro, durante seu governo, negligenciou a ciência e as vacinas contra a COVID-19 , acenou para o neonazismo , inflamou uma suposta “guerra cultural” e diversas vezes ameaçou realizar um golpe de estado no Brasil , com o intuito de destruir as raízes democráticas da república . Seu mandato foi marcado pela crise de saúde mais grave da história recente do país, com mais de 690 mil mortos pela COVID-19, mortes que poderiam ter sido evitadas com um gerenciamento estatal mais responsável e mais humano, apoiado na ciência e na tecnologia. Foto de: Leonardo André/Alagoas, retirada da página do MST. Porém, não contente, o ex-presidente e seus aliados tentaram desacreditar o processo eleitoral brasileiro e criar um ambiente favorável para uma intervenção militar . Durante o ano de 2022 inteiro, o chamado “gabinete do ódio” , um grupo de assessores de Jair Bolsonaro, que operavam no Palácio do Planalto e eram coordenados por ele e seu filho, Carlos Bolsonaro, foram responsáveis por orientar as redes sociais do ex-presidente e disseminar notícias falsas para atacar adversários políticos e desestabilizar o processo democrático no Brasil. O grupo foi inicialmente revelado pela deputada Joice Hasselmann em 2019 , que descreveu a existência de uma "milícia virtual" que utilizava perfis falsos em redes sociais para difundir fake news . As investigações da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmaram a existência do "gabinete do ódio" e sua atuação na propagação de notícias falsas e ataques a instituições democráticas. O projeto de gerar fake news tinha como objetivo manipular a opinião pública e criar um ambiente de desconfiança em relação ao processo eleitoral e às instituições democráticas. As fakes news disseminadas pelo grupo incluíam informações falsas sobre urnas eletrônicas, vacinas e outros temas sensíveis. A atuação do "gabinete do ódio" foi considerada uma ameaça significativa à democracia brasileira , comprometendo a transparência e a integridade do processo democrático. Charge do Nani ( Nanihumor.com ) Esse processo, por fim, culminou numa tentativa de golpe de estado , que tinha como objetivo assassinar o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Esse plano foi denominado "Punhal Verde e Amarelo" e foi elaborado por membros da organização criminosa liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o plano envolvia o monitoramento das rotas e a utilização de recursos bélicos para executar os assassinatos. O general Mário Fernandes, secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência, foi identificado como o autor do esboço criminoso e teria informado Bolsonaro sobre o plano em duas ocasiões . Além disso, a Polícia Federal (PF) coletou provas, como registros de entrada em prédios públicos, localização por satélite e mensagens interceptadas, que indicam o conhecimento e a anuência de Bolsonaro em relação ao plano. A denúncia da PGR também menciona a tentativa de cooptação das Forças Armadas para apoiar o golpe, mas encontrou resistência entre os militares, o que impediu a concretização do plano. Em suma, o alto comando não quis participar do golpe pois não via probabilidade de sucesso. 8 de Janeiro e as Consequências da Campanha de Desinformação Além de abordar o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de golp e, a denúncia da PGR não deixa dúvidas sobre a conexão direta do ex-presidente com os ataques de 8 de janeiro de 2023 contra as sedes dos Três Poderes da República . Naquele dia, uma horda de apoiadores radicais de Bolsonaro, furiosos com a eleição e posse do presidente Lula, invadiu e devastou o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, essa ação violenta foi instigada e facilitada pela organização criminosa liderada por Bolsonaro . O grupo é responsabilizado por atos que atentam à ordem democrática, com o objetivo claro de romper a ordem constitucional, impedir o funcionamento dos Poderes e desafiar o Estado de Direito Democrático. A denúncia ainda aponta que a destruição causou prejuízos financeiros superiores a R$ 20 milhões. Os envolvidos estão inclusive já sendo responsabilizados por suas ações devastadoras contra a democracia brasileira. Um exemplo é Maria de Fátima Mendonça Jacinto Souza, conhecida como "Fátima de Tubarão", foi condenada a 17 anos de prisão por sua participação nos eventos golpistas. Ela foi condenada pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração do patrimônio tombado e associação criminosa armada. É inegável que a investigação levou um período considerável de tempo para reunir provas suficientes de forma que não haja chance do ex-presidente e a organização terrorista que ele lidera saírem impunes. Porém, é urgente que ocorra um julgamento rápido e certeiro, para que nossas próximas eleições de 2026 não sejam marcadas por elementos da extrema-direita se radicalizando e tentando um novo golpe de estado . Esse processo deve ser educativo e exemplar, um verdadeiro golpe no orgulho da extrema-direita no cone sul da América. Texto escrito por Eliézer Fernandes Fundador e editor-chefe do Portal Águia, é desenvolvedor de software, podcaster, formado em Segurança da Informação pela FATEC e fascinado por história e relações internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme Fontes https://mst.org.br/2022/10/06/17-escandalos-de-corrupcao-do-governo-bolsonaro/?form=MG0AV3 https://mst.org.br/2021/09/29/7-escandalos-de-corrupcao-do-governo-bolsonaro/?form=MG0AV3 https://www.cartacapital.com.br/politica/governo-bolsonaro-acumula-escandalos-de-corrupcao-confira-os-principais/?form=MG0AV3 https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/11/23/prints-fotos-e-videos-veja-a-cronologia-da-tentativa-de-golpe-de-estado.ghtml?form=MG0AV3 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/12/03/golpe-da-ditadura-militar-e-fracasso-de-2022-podem-ser-comparados.htm?form=MG0AV3 https://tribunadaimprensalivre.com/documento-do-stf-explica-como-funciona-o-gabinete-do-odio/?form=MG0AV3 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/em-decisao-stf-classifica-gabinete-do-odio-como-associacao-criminosa/?form=MG0AV3 https://www.bbc.com/portuguese/articles/cqx0j11p9gzo
- Fake News: A tragédia por trás da desinformação
UNESCO - A propagação de fake news nas redes sociais desafia a credibilidade da informação no mundo digital As fake news , ou notícias falsas, não são um fenômeno recente. No entanto, a forma como se propagam no mundo digital tem preocupado especialistas e jornalistas. Com o avanço das redes sociais, a desinformação ganhou força e tornou-se um desafio global para veículos de comunicação e para a sociedade. Donald A. Barclay, bibliotecário e autor especializado em informação digital afirma: “A desinformação não é novidade. O que é novo é a rapidez e a amplitude com que ela pode se espalhar graças à internet e às mídias sociais” , Segundo ele, a velocidade com que boatos e informações manipuladas circulam dificulta a checagem e confunde a opinião pública. Plataformas como X (antigo Twitter), Facebook e outras redes sociais possibilitam que qualquer pessoa, mesmo sem se identificar, compartilhe conteúdos que atingem milhares — ou até milhões — de usuários em segundos. Com isso, montagens, textos manipulados e boatos passaram a fazer parte da rotina digital. Para o jornalista e escritor britânico Matthew d’Ancona, a crise da verdade é um dos maiores dilemas da atualidade. “A verdade deixou de ser um consenso coletivo e passou a ser uma escolha individual” Esse cenário abriu espaço para que grupos formassem suas próprias bolhas informacionais , sustentadas por teorias sem base científica, como o terraplanismo e os movimentos antivacina. O termo " fake news " ganhou notoriedade em 2016. Nos últimos anos , a propagação de notícias falsas tem causado danos irreparáveis em diversas partes do mundo. Em alguns casos, a desinformação ultrapassa os limites do virtual e resulta em mortes trágicas. A seguir, três episódios emblemáticos mostram o impacto fatal que boatos sem fundamento podem provocar na sociedade. Caso Fabiane Maria de Jesus – Brasil (2014) Caso Fabiane Maria de Jesus e o post na pagina do Facebook Guarujá Alerta. Em maio de 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi brutalmente linchada por moradores do bairro Morrinhos, no Guarujá, litoral de São Paulo. A violência foi motivada por uma notícia falsa que circulava nas redes sociais. O boato alegava que uma “bruxa” estaria sequestrando crianças para rituais de magia negra, acompanhado por uma imagem que, segundo os agressores, se assemelhava à de Fabiane. Sem qualquer prova ou verificação, a população decidiu fazer justiça com as próprias mãos. Fabiane foi espancada em plena luz do dia e morreu dois dias depois no hospital. O caso teve grande repercussão nacional e expôs a força destrutiva das fake news quando aliadas à desinformação e ao medo coletivo. Cloroquina e Ivermectina na Pandemia – Brasil (2020–2021) Durante os anos críticos da pandemia de COVID-19, o mundo buscava desesperadamente tratamentos eficazes contra o novo coronavírus. Nesse cenário, surgiram diversas informações falsas sobre medicamentos que supostamente preveniam ou curavam a doença . No Brasil, a cloroquina e a ivermectina foram amplamente promovidas por políticos e apoiadores como “soluções milagrosas”, apesar da ausência de comprovação científica. Caixas de medicamentos ineficazes indicados no combate a COVID-19 Mesmo após alertas das autoridades de saúde, muitos brasileiros continuaram utilizando os medicamentos de forma indevida. Um dos casos mais chocantes foi o de um homem do interior do país que morreu por overdose de ivermectina. O nome e a localização da vítima nunca foram divulgados oficialmente, mas o caso é citado por especialistas como exemplo dos perigos do uso não supervisionado de fármacos, motivado por desinformação. Linchamentos em Massa na Índia – (2017–2018) Na Índia, entre os anos de 2017 e 2018, um boato que circulava em grupos do WhatsApp relatava a presença de supostos sequestradores de crianças em diversas regiões do país. A histeria coletiva gerada por essas mensagens resultou em uma série de linchamentos públicos. Estima-se que mais de 30 pessoas foram mortas por grupos de cidadãos que, baseando-se unicamente em informações falsas, decidiram agir por conta própria. A onda de violência forçou o governo indiano a pressionar a Meta , empresa responsável pelo WhatsApp, a tomar medidas para conter a disseminação de conteúdo enganoso , incluindo a limitação do número de encaminhamentos de mensagens no país. Boatos inofensivos? Caos social. Casos como esses revelam que as fake news não são meramente boatos inofensivos. Elas podem gerar medo, caos social, crises de saúde pública e, em muitos casos, levar à morte de inocentes . Especialistas alertam para a importância da verificação de informações antes de compartilhá-las , especialmente em tempos de polarização e incerteza. A desinformação, quando combinada à velocidade das redes sociais, pode ser tão letal quanto qualquer arma — e combater seu avanço tornou-se um dos maiores desafios do nosso tempo. Texto escrito por Kauan Oscar Estudante de Jornalismo, apaixonado por esportes e literatura, encontrou na profissão uma oportunidade perfeita para contar sobre suas paixões por meio de histórias que inspirem outras pessoas. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme V.G Referências https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/05/bcomo-internetb-contribuiu-para-morte-brutal-de-fabiane.html https://www.brasildefato.com.br/2021/07/14/depois-de-milhares-de-mortos-ministerio-da-saude-reconhece-ineficacia-do-kit-covid/ https://exame.com/mundo/dez-pessoas-sao-presas-por-linchamento-causado-por-fake-news-na-india/
- Confronto entre os poderes
As disputas entre legislativo e executivo: Introdução sobre o processo legislativo Explicando quais os meios que cada casa pode ter em iniciativa de projetos e as medidas provisórias. Como ocorre o processo de veto ou sanção presidencial. A administração do Estado brasileiro e a divisão dos poderes foi abordada na série de artigos Dossiê: Funcionamento do Estado brasileiro , de Katiane Bispo . Essa relação entre os poderes nem sempre é fácil já que envolve muito prestígio e capital político e recursos financeiros. As Casas Legislativas podem ter a iniciativa de proposição de Leis e Projetos de Emendas à Constituição (PEC) enquanto o poder Executivo tem a sua disposição as Medidas Provisórias (MPs). Todos esses instrumentos necessitam, em certa medida, do apoio do outro poder para que entrem em vigência plena. Por exemplo, tanto os projetos de leis quanto as emendas precisam da sanção presidencial para serem incorporadas ao ordenamento jurídico brasileiro. Se existir discordância por parte do presidente, este pode vetar artigos inteiros ou a lei por completo , no veto considerado político. Quando ocorre a percepção de que a lei possui inconstitucionalidades , seja de forma ou de conteúdo, também é possível vetar . Entretanto não cabe ao presidente a palavra final, visto que o veto pode ser derrubado pelas casas legislativas caso ocorra a aprovação por maioria absoluta (257 deputados e 41 senadores). Essa dependência e harmonia entre a vontade dos poderes também deve ocorrer com as medidas provisórias. Embora o funcionamento seja diferente de leis ordinárias quanto à tramitação e a vigência, as MPs também precisam da aprovação do congresso dentro do prazo para que possam continuar vigendo. Ou seja, com frequência ocorre a negociação entre as partes para que seja atingida a maioria para a aprovação de projetos, antes ou depois do veto. Um congresso mais organizado e alinhado politicamente “pode cobrar” um preço maior pelo seu apoio aos projetos do executivo e isso ocorre com a indicação de cargos e repasse de verbas. Dessa forma o fisiologismo de alguns partidos, bastante aflorado nos últimos anos, trouxe mais capital político para os presidentes das casas legislativas. Estes passaram a ter acesso a fatias mais substanciais do orçamento ao utilizar as emendas parlamentares , atingindo aproximadamente 20% da verba orçamentária disponível com as emendas impositivas. Casos concretos: Essa disputa, nem sempre visando os interesses da população , tem sido demonstrada em importantes projetos e políticas públicas. Por exemplo, a tentativa de reonerar as folhas de pagamento tiveram iniciativa no executivo com a edição de uma MP . Buscava-se mais recursos para programas de governo e a diminuição do déficit fiscal. Entretanto, a forma utilizada não agradou parte do congresso já que uma Medida Provisória não precisa de um debate anterior a sua edição . Dessa forma, houve uma movimentação para que ela não fosse aprovada (tornada definitiva após o prazo de 60 dias, prorrogáveis por outros 60 dias), sem que houvesse uma discussão mais profunda para definir quais setores e a forma como seria feita a reoneração. Um exemplo que mostra a natureza tanto política quanto jurídica do veto foi a PEC do Marco Temporal . Uma matéria que havia sido anteriormente julgada inconstitucional em setembro de 2023 pelo STF foi revitalizada e aprovada pelo congresso no final do ano. O presidente em exercício vetou parcialmente a PEC mas o veto acabou sendo derrubado na sequência pelo Congresso Nacional. Ou seja, iniciativas que são contrárias aos planos do governo e que o presidente se manifesta contrariamente ainda assim podem ser implementadas se houver organização e votos por parte do congresso. Atrair ou desestimular esses votos tem custado cada vez mais caro para o governo. O mais recente caso, e que exemplifica a discordância entre um legislativo mais conservador do que o executivo, foi a aprovação por parte do Senado do fim das saídas temporárias em feriados e datas comemorativas de presos do regime semi-aberto . Ainda que o executivo eventualmente vete a proposta, o custo político e a indisposição entre os poderes deve ser levado em conta no cálculo político. Vetar uma iniciativa, sabendo que o veto será derrubado pode servir para marcar a oposição do governo ao projeto. Por isso é importante entender o funcionamento e as responsabilidades na execução das políticas públicas e nas iniciativas legislativas. Nem sempre o que o governo planejar será aprovado, ou ainda, nem tudo que o governo rejeitar poderá ser arquivado. Então é importante olhar para o papel de cada um dos que ocupam cargos políticos na aprovação e execução de políticas públicas. Existe muito espaço para retaliações e a disputa de poder tende a ficar ainda mais aquecida em ano de eleições locais. Texto escrito por João Guilherme Grecco Formado em Relações Internacionais e grande entusiasta da carreira diplomática. Estudou para o Concurso de Admissão a Carreira Diplomática (CACD) e atualmente é colunista do Jornal Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Felipe Bonsanto Fontes: https://www.congressonacional.leg.br/materias/vetos/entenda-a-tramitacao-do-veto
- Burkina Faso: a Terra dos Homens Íntegros
Burkina Faso é um país localizado na África Ocidental, também conhecida como região do Sahel, devido às suas características ecológicas e climáticas singulares. A capital é Uagadugu (em francês: Ouagadougou), e o país faz fronteira com seis nações: Mali (a oeste), Níger (a leste), Costa do Marfim (a sudoeste), Benim (a sudeste), Togo e Gana (ao sul). Situado entre áreas áridas ao norte e savanas ao sul, a maior parte dos quase 24 milhões de habitantes enfrenta vulnerabilidades endêmicas, ligadas à agricultura de subsistência e a variações climáticas extremas. Mapa de Burkina Faso Após a revolução que destituiu Jean-Baptiste Ouédraogo em 1983, Thomas Sankara assumiu a presidência e, em 1984, renomeou o país de “Alto Volta” para "Burkina Faso". O nome tem raízes em duas línguas nativas: "Burkina", da língua Mossi, que significa homens íntegros, enquanto “Faso", da língua Dioula, que significa país ou terra. Assim, “Burkina Faso” pode ser traduzido como “Terra dos Homens Íntegros”. O país conquistou a independência da França em 5 de agosto de 1960. Instabilidade política e sucessão de golpes Atualmente, Burkina Faso é liderado por Ibrahim Traoré, presidente de apenas 37 anos. Ele chegou ao poder após o golpe militar de 30 de setembro de 2022, que destituiu o então presidente Paul-Henri Sandaogo Damiba . Foto de Ibrahim Traoré, atual presidente de Burkina Faso. Capitão do Exército, Traoré passou a comandar o país, cuja população gira em torno de 24 milhões de habitantes. O golpe liderado por Ibrahim Traoré foi o nono bem-sucedido desde a independência em 1960 . Entre os principais episódios históricos do país estão os golpes de 1966, 1974, 1980, 1982, 1983, 1987, 2014 e 2015. Em seus 65 anos como Estado soberano, o país teve apenas um governo que completou um mandato de sete anos: o de Roch Kaboré, entre 2015 e 2022. Curiosamente, em 2022, Burkina Faso foi governado por três presidentes distintos: Roch Kaboré, Paul-Henri Damiba e Ibrahim Traoré. Nos meses seguintes à sua ascensão, Traoré rompeu os laços de segurança e defesa com a França , culminando na retirada das tropas francesas em fevereiro de 2023. Em uma mudança estratégica, fortaleceu os laços com a Rússia e estabeleceu a Aliança dos Estados do Sahel com Mali (Coronel Assimi Goïta) e Níger ( General Abdourahamane Tchiani) , visando combater o jihadismo na região. A visita de Estado de Ibrahim Traoré à Federação Russa, realizada entre os dias 8 e 11 de maio de 2025, foi marcada por rigorosas medidas de segurança. À época, circulavam informações sobre a possível atuação de grupos armados dentro do país e em nações vizinhas, como o Benim, que planejavam incursões militares com o objetivo de atingir populações civis e alvos estratégicos de defesa nacional. A presidência de Ibrahim Traoré tem sido caracterizada pela repressão de diversas tentativas de golpe. As mais notórias ocorreram em 27 de setembro de 2023, quando a junta militar anunciou ter frustrado uma conspiração por parte de membros insatisfeitos das Forças Armadas. Em janeiro de 2024, novas prisões foram realizadas, envolvendo indivíduos acusados de planejar ações contra o presidente. No dia 9 de dezembro de 2024, o então primeiro-ministro Apollinaire Joachim Kyélem de Tambèla foi acusado de conspirar contra o governo, sendo substituído por Rimtalba Jean Emmanuel Ouédraogo. Posteriormente, em 25 de maio de 2024, o regime militar anunciou a prorrogação do período de transição pré-eleitoral por cinco anos, com início em 2 de julho de 2024 e término previsto para 2029. Reformas Socioeconômicas e Políticas Segundo o relatório de abril de 2024 do Grupo Banco Mundial, a economia de Burkina Faso cresceu 3,2% em 2023 , mesmo diante da crise de segurança. A inflação caiu para 0,7%, com redução nos preços de produtos locais. Após um fraco desempenho em 2022 (1,8%), o PIB voltou a crescer, com avanço do PIB per capita em 0,6%. A crise de segurança, no entanto, continuou a impactar negativamente a economia. Graças a uma temporada agrícola bem-sucedida, a inflação se manteve em queda no primeiro semestre de 2023, tornando-se negativa de maio a outubro. Ainda assim, a instabilidade do país afetou setores estratégicos como a mineração de ouro, que representa 77% das exportações, 16% do PIB e 22% da arrecadação do governo . O número de mortes relacionadas à segurança dobrou, atingindo 8.494 em 2023. Foto de população buscando água. A pobreza, que havia aumentado 1,8 ponto percentual entre 2018/2019 e 2021/2022 (atingindo 43,2%) manteve-se estável desde então, mas a situação humanitária permanece crítica , com cerca de 2,3 milhões de deslocados internos e aproximadamente 2,3 milhões enfrentando grave insegurança alimentar em dezembro de 2023. Desafios regionais e ineficiência da assistência social A perspectiva econômica de Burkina Faso continua sujeita a múltiplas incertezas relacionadas à dinâmica regional e aos riscos negativos decorrentes da insegurança, instabilidade política, choques climáticos e variações de troca. No campo das reformas na assistência social, os gastos públicos representam cerca de 2,6% do PIB , um valor que, teoricamente, seria suficiente para reduzir pela metade a diferença de pobreza, estimada em cerca de 6% do PIB em 2021. Esses investimentos cresceram significativamente nos últimos 15 anos, passando de 0,3% do PIB em 2005, e estão acima da média registrada pelos países da África subsaariana. No entanto, o impacto positivo é comprometido pela baixa eficiência do sistema , marcada por uma estrutura fragmentada. Na prática, os programas de assistência social não têm beneficiado prioritariamente os grupos mais vulneráveis: mais da metade dos beneficiários das diversas intervenções não está entre os mais pobres. Políticas fiscais e reformas governamentais em prol do desenvolvimento Em 2023, o governo de Burkina Faso suspendeu gradualmente programas que incluíam transferências monetárias, ainda que esses fossem os mecanismos de assistência social mais progressistas disponíveis no país. O relatório do Grupo Banco Mundial recomenda a adoção de novas políticas para fortalecer a sustentabilidade macrofiscal e melhorar a assistência social. Entre as sugestões estão: Aumentar a eficiência da mobilização de receitas; Melhorar a eficácia da despesa pública; Mitigar os impactos econômicos decorrentes da saída da CEDEAO. Além dessas, duas opções complementares são destacadas: Aperfeiçoar a focalização das políticas voltadas à pobreza; Otimizar a eficiência dos gastos com assistência social. Nesse contexto, Ibrahim Traoré tem conduzido reformas profundas com foco na governança eficaz . Entre suas principais iniciativas estão: fortalecimento das Forças Armadas , promoção da estabilidade econômica , ampliação do apoio social às camadas mais vulneráveis da população , incentivo à educação e à saúde , com destaque para o ensino universitário e técnico gratuito aos melhores alunos , combate à pobreza e à corrupção, investimentos em agricultura, turismo, exploração mineral, e consolidação da segurança nacional e regional. Diversificação econômica e mudança geracional no poder africano No contexto do desenvolvimento socioeconômico, e diante da forte dependência da agricultura , Burkina Faso busca diversificar sua economia. Para isso, o país tem intensificado os investimentos no setor agrícola, com foco na segurança alimentar e na qualidade dos produtos , visando a exportação e a geração de empregos dignos e sustentáveis. Historicamente, a África tem sido marcada por lideranças de longa duração. Entre os presidentes mais longevos destacam-se: Paul Biya dos Camarões (92 anos); Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, da Guiné Equatorial (83 anos); Denis Sassou Nguesso (82 anos); Yoweri Museveni, do Uganda (81 anos); Isaias Afwerki, da Eritreia (79 anos). Contudo, observa-se uma mudança de paradigma. O continente vem sendo liderado, cada vez mais, por presidentes “jovens”, como: Ibrahim Traoré, do Burkina Faso (37 anos); Mahamat Déby, do Chade (41 anos); Assimi Goita, do Mali (43 anos); Mamady Doumbouya, da Guiné (45anos); Bassirou Diomaye Faye, do Senegal, (45 anos). Entre eles, Ibrahim Traoré se destaca como figura emblemática, dado os inúmeros desafios enfrentados durante o seu mandato: tentativas de golpe de Estado, dificuldades socioeconômicas, esforços de unificação nacional e articulação estratégica no plano regional. Seu compromisso com a governança, o fortalecimento institucional e o desenvolvimento de Burkina Faso tem lhe rendido reconhecimento de diversas figuras nacionais e internacionais. Com isso, o país vai, pouco a pouco, consolidando-se como uma verdadeira “Terra dos Homens Íntegros”. Isaac Jorge - É licenciado no Curso de Relações Internacionais pela Universidade Privada de Angola e trabalhou durante alguns anos na Missão Diplomática da República de Angola em Pretória - África do Sul. Além a experiência diplomática, nos últimos 18 anos tem estado ligado a atividade bancária, tendo assumido várias responsabilidades tais como Subdiretor na Direção de Desenvolvimento de Negócios Internacionais, onde desenvolveu-se estudos para internacionalização do banco. Foi chefe de Departamento da banca de investimentos e Chefe de Departamento da Direção de Organização e Qualidade. Tem estado ligado a diferentes projetos de desenvolvimentos e de melhorias de produtos e serviços bancários e na formação de técnicos trabalhadores. É amante de esportes, principalmente o futebol. Revisão: Eliane Gomes Edição: João Guilherme Referências https://www.worldbank.org/en/country/burkinafaso/publication/burkina-faso-economic-update-2024-special-chapter-maintaining-reform-momentum-on-social-assistance Imagens: https://ichef.bbci.co.uk/ace/standard/976/cpsprodpb/D7B5/production/_128312255_bbcmp_burkinafaso.png https://imagens.ebc.com.br/aEavwsuAibMP3RKfOa82buQatEg=/1170x700/smart/https://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/default/files/thumbnails/image/2025/05/23/burkina_01jpeg.jpg?itok=zTy44ZCL https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcT3EXuIdjA0P4aV6NFjwaVeldiOAjuINqJI3Q&s
- Minorias em perigo
A menos de dois anos da publicação do artigo “Imigrantes LGBTQIAP+, uma dupla discriminação” , o assunto tornou-se pauta nos meios de comunicação tanto nos Estados Unidos quanto na Argentina, pois ambos os presidentes começaram a mudar suas atitudes em relação às minorias. Embora se saiba que os diversos instrumentos de direitos humanos aprovados pelos Estados não são suficientes para a população LGBTQIAP+ e que a mesma enfrenta uma grave discriminação aprofundada por variáveis associadas à questão migratória , somado a o rápido aumento da presença de imigrantes nos diferentes países, o interesse sobre o aspecto da heterogeneidade se incrementou (BRAVO, 2023). Esse incremento pode ser visto refletido nos assuntos de políticas tanto internas como externas. Fonte: Mídia Ninja No caso do presidente argentino, Javier Milei, que assumiu a presidência em 10 de dezembro de 2023, expressou o seguinte: “...uma polêmica comparação entre o Estado e um pedófilo: “Aqui a questão é a seguinte. Reconheça quem é nosso verdadeiro inimigo. Nosso verdadeiro inimigo é o Estado. O Estado é o pedófilo no jardim de infância, com as crianças acorrentadas e banhadas em vaselina.” (PERFIL, 2023). O que ele exteriorizou dois anos atrás não foi um ato isolado. Milei foi além no discurso que fez em janeiro , quando viajou para a cidade suíça de Davos para participar da reunião anual do Fórum Econômico Mundial. Em Davos, ele declarou o seguinte: “Há algumas semanas, o caso de dois americanos homossexuais ganhou as manchetes em todo o mundo que, levantando a bandeira da diversidade sexual, foram condenados a cem anos de prisão por abusarem e filmarem seus filhos adotivos há mais de dois anos. Quero deixar claro que, quando digo abuso, não é um eufemismo, porque nas suas versões mais extremas, a ideologia de gênero constitui simplesmente abuso infantil. Eles são pedófilos. Portanto, quero saber quem endossa esses comportamentos.” (MILEI, 2025) Fonte: Internet Essas palavras no discurso não passaram despercebidas; foram criticadas, e os Grupos LGBTQIAP+ e feministas conseguiram apoio de organizações sociais, políticas e sindicais para a realização da Marcha do Orgulho Antifascista e Antirracista , que reuniu milhares de pessoas contra Milei em diferentes cidades da Argentina e em outros lugares do mundo , como, por exemplo, em Berlim, Roma, Paris, Barcelona, Madrid, Londres, Lisboa e Amsterdã. Houve também concentrações em Santiago do Chile, Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Montevidéu, Nova York e Cidade do México. A esse respeito, é relevante mencionar que, já em fevereiro de 2024, foi solicitado o impeachment do presidente, argumentando “conduta repreensível e inaceitável exibida em plataformas digitais, com atos de discriminação e outros recursos questionáveis contra determinados grupos sociais” (RADIO UNR, 2024). Mesmo com o pedido e os movimentos contrários ao pensamento de Javier Milei, ele leva à ação o que afirmou em mais de uma oportunidade. Recentemente, ele manifestou que “este governo defende a igualdade perante a Lei consagrada na nossa Constituição Nacional. Nenhuma vida vale mais que outra” e que pretende reverter as leis que ampliaram os direitos das mulheres e das pessoas LGBTQIAP+ no país. Para isso, promoverá no Congresso uma reforma do Código Penal que elimine a figura do feminicídio, que agrava a pena no caso de homicídios de mulheres por razões de gênero. O anúncio surge após Milei ter definido o feminismo, a diversidade, o aborto e a ideologia de género, entre outros, como “cabeças de uma mesma criatura cujo propósito é justificar o avanço do Estado” sobre a liberdade dos indivíduos. As posições de Milei contra o que ele chama de “ideologia de gênero” ganharam força com a posse de Donald Trump nos Estados Unidos. Horas depois de tomar posse, Trump assinou uma ordem executiva que põe fim aos programas de diversidade, equidade e inclusão no governo federal. Trump restringiu os procedimentos de transição de gênero em menores e descreveu-os como mutilação, afirmando: “Esta tendência perigosa será uma mancha na história da nossa nação e deve acabar”. Em todo o país, os profissionais médicos mutilam e esterilizam um número crescente de crianças impressionáveis”, diz a ordem executiva. Como consequência de suas palavras, metade dos estados nos Estados Unidos proibiu o tratamento de menores que não se identificam com o seu gênero de nascimento. Fonte: AP Photo/Ben Curtis Em relação ao assunto, pessoas influentes como a cantora Madonna, se expressaram nas redes sociais : “É muito triste ver nosso novo governo desmantelando lentamente todas as liberdades pelas quais lutamos e conquistamos ao longo dos anos” ... “Não desista da luta!”. Cabe destacar que Madonna tem sido uma forte apoiadora da comunidade, especialmente desde os anos 90. Há algum tempo, em um show em Barcelona, ela se envolveu em uma bandeira da comunidade e cantou “Não chore por mim, Argentina”. As semelhanças nos pensamentos e ações de Trump e Milei chegam até a questão das fronteiras. Embora o muro fronteiriço entre os Estados Unidos e o México tenha começado a ser construído há mais de um quarto de século, foi na primeira presidência de Donald Trump (2017-2021) que ele ganhou maior impulso. Porém, não conseguiu construir um muro que percorresse toda a fronteira. As barreiras só foram levantadas nas zonas mais sensíveis. No que diz respeito à administração do governo argentino, foi confirmado que pretendem instalar uma cerca na passagem fronteiriça da cidade de Aguas Blancas, na província de Salta, no norte do país . A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, afirmou que a área “estava completamente descontrolada”. A cerca tentará delimitar a distância entre a rodoviária local e o escritório de imigração do Porto de Chalanas, onde as pessoas circulam sem passar por controles, afirmam as autoridades. A cerca será de arame com cerca de 200 metros, tentando impedir a passagem ilegal de pessoas e, segundo as autoridades, o tráfico de drogas. Em relação às ações, o Governo da Bolívia expressou a sua preocupação com a medida e observou que “as questões fronteiriças devem ser abordadas através de mecanismos de diálogo bilateral”. Tanto o presidente dos Estados Unidos como o da Argentina, compartilham ideias e pensamentos em relação ao aborto, direitos LGBTQIAP+, ideologia de gênero, liberdade dos indivíduos, diversidade, equidade, inclusão, migrações, questão das fronteiras e assuntos de políticas internas e externas. Ambos expressam que é momento de “acordar” ( woke ) e de “considerar que as políticas implementadas representam não só uma ameaça aos valores familiares, mas até à própria democracia”. O termo “ woke ” ressurgiu na última década com o movimento “ Black Lives Matter ”, ou seja, contra a violência policial, “ Me Too ” contra o abuso sexual, e a favor dos direitos LGBTIQ+. O Dicionário Oxford, em 2017, acrescentou este novo significado de “ woke ”, definindo-o como: “Estar atento às questões sociais e políticas, especialmente ao racismo” . O conceito surgiu dentro da comunidade negra nos Estados Unidos e originalmente pretendia alertar para a injustiça racial. Mas o termo é muito mais complexo e pode refletir com quais posições políticas se está mais alinhado. Enquanto para alguns estar “ woke ” é ter consciência tanto social como racial e poder questionar os paradigmas e as normas opressivas, para outros descreve aqueles que se consideram moralmente superiores e querem impor suas ideias progressistas sobre o resto. Os críticos da cultura questionam os métodos coercivos utilizados por alguns contra aqueles que dizem coisas ou cometem atos que consideram misóginos, homofóbicos ou racistas. Seguindo as palavras de Milei em relação a “ woke ”: “A grande epidemia do nosso tempo que deve ser curada é o câncer que deve ser removido.” “Hoje venho dizer-lhes que a nossa batalha não está vencida, que, embora a esperança tenha renascido, é nosso dever moral e nossa responsabilidade histórica desmantelar o edifício ideológico do wokismo doentio”. E acrescentou: “O wokismo é o resultado da inversão dos valores ocidentais, cada um dos pilares da nossa civilização foi alterado por uma versão distorcida de si mesmo, através da introdução de vários mecanismos da sua versão cultural”. Também descreveu o wokismo como “um regime único de pensamento” e sustentou que “feminismo, diversidade, inclusão, equidade, imigração, aborto, ambientalismo, ideologia de género, entre outros, são cabeças da mesma criatura cujo propósito é justificar o progresso” (MILEI, 2025). O que começou como um choque cultural transformou-se num confronto em todos os aspectos, não só político. Mais uma vez, pode-se ver que estamos ante uma batalha, e o que foi dito há algum tempo, através da pergunta: “como podemos ajudar os migrantes LGBTQIAP+ a tornar visível sua existência, cooperar em sua integração na sociedade e garantir o acesso a direitos?” , cobra mais relevância que nunca. Neste contexto, podemos ajudar as minorias , aos migrantes LGBTQIAP+ a tornar visível sua existência por meio de um papel ativo na sociedade, cooperando para que sua integração permaneça nas melhores condições possíveis, além das medidas que o governo de turno queira implementar. Não é uma tarefa fácil quando existem presidentes que afirmam que “é hora de sair desse roteiro e de ser ousado, escrevendo seus próprios versos”, parecendo esquecer que essa “ousadia” atenta contra a vida de milhares de pessoas. Políticas como estas têm um efeito prejudicial, especialmente na saúde mental. O apoio à saúde e ao bem-estar transcende a política, e as autoridades eleitas e os meios de comunicação que compreenderem os perigos que as políticas e a retórica anti-LGBTQIAP+ e anti-imigrantes representam devem se posicionar e ser a voz daqueles que não podem se expressar livremente. Editorial do Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme REFERÊNCIAS https://cnnespanol.cnn.com/2025/01/22/eeuu/aconsejan-comunidad-lgbtq-precauciones-trump-traxhttps://elordenmundial.com/mapas-y-graficos/mapa-muro-mexico-estados-unidos/ https://www.pagina12.com.ar/800963-el-mundo-se-sumo-a-la-marcha-antifascista-y-antirracistahttps://www.bbc.com/mundo/noticias-63465024https://chequeado.com/el-explicador/el-discurso-de-javier-milei-en-davos-que-es-la-ideologia-woke/ https://radio.unr.edu.ar/2024/02/29/solicitan-juicio-politico-al-presidente-javier-milei/ https://legrandcontinent.eu/es/2025/01/25/milei-en-davos-el-discurso-completo-2/ https://www.perfil.com/noticias/politica/pedofilia-violaciones-holocausto-y-discapacidad-las-polemicas-comparaciones-que-usan-en-la-libertad-avanza.phtml https://www.telenoche.com.uy/mundo/donald-trump-restringe-los-procedimientos-transicion-genero-menores-lo-califico-mutilacion-n5379644 https://www.eldiarioar.com/espectaculos/madonna-critico-medidas-milei-trump-comunidad-lgbtq-triste_1_12003542.html https://www.vozdeamerica.com/a/milei-planea-eliminar-feminicidio-codigo-penal-argentino-se-alinea-trump-contra-diversidad-/7949778.html https://www.bbc.com/mundo/articles/c4g7745w9vgo https://www.portalaguia.com/post/imigrantes-lgbtqiap-uma-dupla-discrimina%C3%A7%C3%A3o
- O novo papa e o futuro da Igreja: O que esperar?
Robert Francis Prevost é o primeiro pontífice agostiniano e o segundo americano a ocupar o cargo, sendo originário de Chicago, Illinois. Mas o que significa “agostiniano”? A Ordem de Santo Agostinho (OSA) é uma comunidade religiosa de tradição mendicante, fundada oficialmente em 1244 e presente hoje em mais de 40 países, abrangendo todos os continentes. Papa Leão XIV acena aos fiéis em sua primeira aparição pública / Foto: REUTERS/Yara Nardi A eleição de Prevost rompe com um costume não escrito do Colégio Cardinalício, segundo o qual os candidatos ao papado costumavam surgir entre os clérigos seculares ou de outras ordens mais visíveis, como os jesuítas ou os franciscanos. Robert Francis Prevost , nascido em 14 de setembro de 1955, é filho de Louis Marius Prevost e Mildred Martínez, possuindo ascendência francesa, italiana e espanhola. Graduado em Matemática e Filosofia pela Villanova University, ingressou no noviciado da Ordem de Santo Agostinho (OSA) em 1977. Após concluir sua formação em Teologia e Direito Canônico, foi ordenado sacerdote em 1982. Robert Francis Prevost teve uma carreira significativa na missão agostiniana no Peru, atuando como diretor de formação, professor e vigário judicial. Entre 1999 e 2007, ocupou cargos importantes, incluindo o de prior geral da Ordem de Santo Agostinho . Em 2014, foi nomeado bispo titular de Sufar e administrador apostólico da diocese de Chiclayo , no Peru, cargo que ocupou até 2015, quando foi nomeado bispo de Chiclayo pelo Papa Francisco. Além de seu trabalho mencionado, Robert Francis Prevost foi eleito vice-presidente da Conferência Episcopal Peruana e integrou importantes congregações do Vaticano, incluindo a Congregação para o Clero e a Congregação para os Bispos . Em 2023, foi nomeado Prefeito do Dicastério para os Bispos e presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina , sendo promovido a arcebispo e criado cardeal no mesmo ano. Também participou de assembleias sinodais e foi membro de vários dicastérios vaticanos . Seu lema episcopal é “In Illo uno unum”, reflete a unidade em Cristo. Ele tem desempenhado um papel ativo em eventos importantes do papado de Francisco, incluindo orações e celebrações em momentos de crise, como durante a hospitalização do Papa Francisco. Sua trajetória é marcada por uma forte ligação com a missão agostiniana e uma liderança focada na sinodalidade — termo frequentemente utilizado pelo Papa Francisco, derivado do grego sínodo , que significa “caminhar juntos”—, além de um compromisso com educação e cultura . O caminho até o conclave Os 133 cardeais na Capela Sistina durante o conclave — Foto: Reprodução / Vaticano O termo conclave vem do latim cum clave , que significa "com chave", refletindo a tradição de manter os cardeais confinados durante o processo de escolha do novo Papa. Os líderes da Igreja Católica se reuniram no Vaticano para o conclave, um processo confidencial pelo qual será eleito o sucessor de Francisco, o primeiro Papa latino-americano, que faleceu no dia 21 de abril de 2025, aos 88 anos , na segunda-feira de Páscoa . Ao longo da história, os conclaves trouxeram mudanças significativas para a Igreja Católica, pois cada novo Papa deixa sua marca. Apenas os cardeais , dirigentes católicos com menos de 80 anos , podem votar. A escolha de um novo pontífice é considerada tanto um dever quanto uma responsabilidade espiritual. No passado, desacordos entre facções podiam prolongar os conclaves por meses. Desta vez, os cardeais se reuniram novamente na Cidade do Vaticano , um estado independente no coração de Roma, para eleger o 267º Papa. São Pedro, considerado o primeiro Papa pela tradição católica, foi escolhido por volta do ano de 30 d.C . Dados relevantes sobre o processo Início do conclave: 7 de maio de 2025. Duração do conclave: Segundo as normas vaticanas, o conclave deve começar entre 15 e 20 dias após a morte do papa, mas pode ser estendido até um máximo de 20 dias. Neste caso, decidiu-se iniciar o conclave em 7 de maio, após a morte de Francisco em 21 de abril. Término do conclave: A duração do conclave pode variar, mas, nos últimos tempos, o novo papa tem sido eleito em poucos dias. Nome e legado Encíclica Rerum Novarum sobre a condição dos operários foi escrita pelo Papa Leão XIII, em 15 de maio de 1891. Foto: Vatican News Embora não exista uma norma doutrinária que obrigue a troca de nome, a prática se tornou uma tradição há mais de um milênio. Praticamente todos os papas passaram a ser conhecidos por um nome diferente do seu de nascimento. Esse costume surgiu no início da Idade Média , sendo o primeiro a adotá-lo João II , que optou por abandonar seu nome de batismo, Mercúrio, por considerá-lo ligado à mitologia pagã. A partir de então, a prática se consolidou e ganhou especial importância quando com a eleição de pontífices não italianos: adotar um nome em latim ajudava a “disfarçar” suas origens estrangeiras e contribuía para que fossem melhor aceitos. Em relação ao nome escolhido e sua história, Leão XIII (1878–1903) foi o último papa com esse nome até a eleição do atual e um dos mais influentes do século XIX. Autor da encíclica Rerum Novarum ("Sobre as coisas novas"), é considerado o pai da chamada “ doutrina social da Igreja ”. Ele buscou reconciliar a Igreja com o mundo moderno, abordando questões trabalhistas, defendendo os direitos dos trabalhadores e propondo um novo papel para a Igreja na era contemporânea. Seu nome é amplamente valorizado por setores reformistas e sociais do catolicismo. Os analistas especializados no Vaticano opinam que o mais provável é que o o novo Papa tenha se inspirado em Leão XIII , uma figura profundamente associada à justiça social , mas também à modernização prudente da Igreja. Sua escolha transmite uma mensagem de equilíbrio entre a postura reformista de Francisco e um perfil mais diplomático e conciliador. A visão do novo papa Papa Leão XIV falando aos cardeais no Vaticano. — Foto: Vatican Media/Handout via REUTERS O Papa Leão XIV , apresenta uma abordagem que combina continuidade e mudança em relação ao legado de seu antecessor, Francisco . Embora mantenha o compromisso com questões sociais como migração e meio ambiente , adota posturas mais conservadoras em temas como diversidade sexual e o papel das mulheres na Igreja . COMUNIDADE LGBTQ+ O Papa Leão XIV alinha-se à doutrina tradicional da Igreja, considerando a homossexualidade um pecado. Em um discurso proferido em 2012 , dirigido a bispos, Robert Francis Prevost mencionou a “simpatia por crenças e práticas que estão em desacordo com o evangelho” como uma ameaça à vida cristã. Entre essas práticas, incluiu explicitamente “o estilo de vida homossexual” e a existência de “famílias alternativas formadas por casais do mesmo sexo e seus filhos adotivos”, segundo reportou a revista Newsweek . Sua oposição ao ensino sobre diversidade de gênero também foi explícita durante sua atuação episcopal no Peru . De acordo com o The New York Times , Prevost rejeitou propostas educacionais do governo que promoviam a inclusão de conteúdos sobre identidade de gênero nas escolas. Ele as classificou como “confusas”, argumentando que “criam gêneros que não existem”. Esse tipo de declaração tem sido utilizado por setores conservadores como defesa da doutrina tradicional , mas tem gerado preocupação entre defensores dos direitos humanos e grupos LGBTQ+. Em 2024 , reconheceu os desafios culturais enfrentados por bispos africanos na aplicação de políticas sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, destacando que a realidade cultural em algumas regiões torna inviável a implementação dessas políticas. MIGRAÇÃO O Papa Leão XIV tem uma postura de apoio aos migrantes , enfatizando a dignidade humana e a necessidade de acolhimento. Durante seu episcopado no Peru , demonstrou solidariedade com os mais de 1,5 milhão de venezuelanos que chegaram ao país, afirmando que "a migração é parte da missão de Cristo". MULHERES NA IGREJA Reconhece a contribuição significativa das mulheres na Igreja, mas mantém a posição tradicional de não ordenar mulheres ao sacerdócio . Em 2023 , afirmou que "clericalizar as mulheres geraria novos desafios" . MEIO AMBIENTE Demonstra continuidade com o legado ecológico de Francisco . Em 2024 , durante um seminário, classificou o dano ambiental como um "pecado estrutural" e destacou que a crise não é apenas ambiental, mas também social , afetando principalmente os países do sul global. ABORTO E EUTANÁSIA O Papa Leão XIV mantém a posição tradicional da Igreja Católica, opondo-se firmemente tanto ao aborto quanto à eutanásia . Em 2021 , apoiou uma carta dos bispos peruanos que criticava a decisão judicial que permitiu a eutanásia para Ana Estrada Ugarte , enfatizando que “a eutanásia sempre será o caminho errado, pois atenta contra o direito inalienável à vida". Conclusão O pontificado de Leão XIV sinaliza uma Igreja que busca uma postura conciliadora , combinando tradição e pragmatismo , equilibrando compromissos sociais com posturas conservadoras em questões doutrinárias. Pode-se dizer que ele é considerado um progressista moderado , pois mantém sua fidelidade à doutrina tradiciona l da Igreja, ao mesmo tempo em que demonstra um forte compromisso social. Sua trajetória foi, sem dúvida, influenciada por sua experiência missionária no Peru. Editorial Portal Águia Revisão por Eliane Gomes Edição por Eliézer Fernandes Referências https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2025-05/robert-francis-prevost-la-biografia-del-nuevo-papa.html https://www.bbc.com/mundo/resources/idt-904185ba-2600-4d37-9419-9204b4da5167#:~:text=Los%20l%C3%ADderes%20de%20la%20Iglesia%20Cat%C3%B3lica%20se,el%20cual%20se%20elegir%C3%A1%20un%20nuevo%20Papa.&text=Cada%20cardenal%20emite%20su%20voto%20en%20una,y%20a%C3%B1ade%20el%20nombre%20del%20candidato%20elegido . https://elpais.com/internacional/2025-05-12/el-nuevo-papa-un-autentico-golpe-de-efecto.html https://www.infobae.com/america/mundo/2025/05/08/comunidad-lgbtq-mujeres-migrantes-y-cambio-climatico-la-posicion-del-papa-leon-xiv-sobre-temas-clave/ https://elpais.com/internacional/2025-05-09/las-claves-del-pensamiento-de-leon-xiv-eutanasia-ordenacion-de-mujeres-doctrina-de-la-iglesia-y-cambio-climatico.html https://www.infobae.com/peru/2025/05/19/los-7-mensajes-de-esperanza-unidad-y-humildad-del-papa-leon-xiv-en-su-homilia-inaugural-de-su-papado-en-el-vaticano/ https://www.infobae.com/america/mundo/2025/05/08/quienes-son-los-agustinos-la-orden-del-nuevo-papa-una-comunidad-mendicante-con-800-anos-de-historia-y-vocacion-misionera/ https://www.bbc.com/mundo/articles/clw0gypj7v2o https://historia.nationalgeographic.com.es/a/por-que-leon-xiv-que-nombre-nuevo-papa-dice_23660
- Raul Seixas, 80 anos: a semente da Sociedade Alternativa ainda germina
Raul Seixas e cinegrafista. Foto: Claudinê Petrolli/Estadão Em maio de 1973, durante o Phono 73 — festival de música promovido pela Phonogram, atual Universal Music, no Centro de Convenções do Anhembi —, Raul Seixas protagonizou uma de suas apresentações mais antológicas. Ele entoou em alto e bom som: "É necessário gritar, gritar... pera aí!" Soltou o microfone no chão, pegou um batom e desenhou em seu tórax o símbolo da Sociedade Alternativa. Em seguida, agachou-se, recuperou o microfone e continuou: "Está lançada aqui a semente, a semente de uma nova idade, da qual vocês todos são testemunhas..." Anos depois, ao assistir essa apresentação pela primeira vez, perguntei-me qual era o verdadeiro significado daquela fala. Já conhecia algumas músicas do Raul e, como muita gente, estava habituado à eterna exclamação: "Toca Raul!" — mas nunca havia refletido sobre o que ele realmente queria comunicar com aquela performance carregada de símbolos. Com o tempo, investigando mais sobre sua vida e obra, compreendi que aquela “nova idade” não se referia a uma data no calendário, mas sim a uma ideia — um despertar das consciências , uma ruptura com as normas impostas e uma busca radical por liberdade. Esse conceito estava profundamente ligado à Sociedade Alternativa, movimento filosófico e cultural criado por Raul Seixas e o escritor Paulo Coelho , inspirado nos escritos do ocultista britânico Aleister Crowley . Mais do que um grupo, era uma proposta de vida: viver sem amarras, criar suas próprias leis, reinventar a própria existência. A máxima “Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei” resumia esse pensamento provocador, que desafiava as convenções religiosas, políticas e morais da época. Naquele gesto performático, naquele grito aparentemente caótico, havia algo profundamente calculado e simbólico. Raul não queria apenas cantar. Ele queria provocar, instigar, plantar dúvidas. Abrir brechas nas certezas prontas, nos dogmas engessados, nas rotinas impostas. Ele sabia que a verdadeira revolução não começava nas ruas — mas dentro de cada indivíduo. A Sociedade Alternativa propunha justamente isso: escapar das estruturas tradicionais de poder, fosse o Estado, a Igreja, a escola ou a família. Foi uma manifestação corajosa em pleno auge da ditadura militar. Não era apenas arte — era resistência. Em um país onde a censura proibia canções, prendia artistas e torturava corpos, Raul expôs o próprio corpo como manifesto. O símbolo desenhado com batom no peito não era enfeite: era grito silencioso. E quem quisesse entender, entenderia. A Sociedade Alternativa, tornava-se, nesse contexto, uma utopia possível. Não por transformar o mundo de fora para dentro, mas por reconhecer que a mudança verdadeira começa de dentro para fora. Essa pergunta ressoa ainda mais forte agora, em 2025 — ano em que, em 28 de junho, Raul Seixas teria completado 80 anos. Oito décadas desde o nascimento do homem que transformou contradição em poesia e rebeldia em filosofia cotidiana. Ainda assim, parece que ele nunca esteve tão presente. O legado de Raul não está apenas nos discos, nas capas psicodélicas ou nas letras cheias de enigmas. Está, sobretudo, no pensamento que ajudou a semear — uma visão de mundo que ainda inspira os que não se conformam com respostas prontas. Raul plantou a Sociedade Alternativa não como um movimento a ser seguido, mas como um chamado a ser vivido. Em um mundo sufocado por algoritmos, pressões sociais, conservadorismos renovados e crises de identidade, sua mensagem de autolibertação soa quase profética. Viver segundo a própria lei — no sentido de reconhecer e honrar aquilo que realmente importa para si — talvez seja hoje uma das maiores ousadias possíveis. Celebrar os 80 anos de Raul Seixas, portanto, não é apenas relembrar um artista genial que rompeu padrões da música brasileira. É revisitar um pensamento libertário que ainda desafia, provoca e transforma. É perceber que a semente lançada em 1973 não apenas germinou — mas continua brotando em corações inquietos, mentes abertas, almas que ainda ousam sonhar com outro mundo possível. Raul vive em cada pessoa que se recusa a dobrar-se ao cinismo. Em cada artista que não aceita ser domesticado. Em cada jovem que, mesmo sem saber de onde vem aquela ideia, sente que pode — e deve — criar seu próprio caminho. A Sociedade Alternativa continua viva, mesmo que invisível. Porque, como ele mesmo dizia, “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Que seus 80 anos sejam menos uma comemoração nostálgica e mais uma convocação. Raul Seixas não é passado. Ele é presente. E, talvez mais importante, possibilidade de futuro. texto escrito por Filipi Costa Filipi Costa é jornalista formado pela Universidade Paulista e atua na área da comunicação há cinco anos. Possui formação técnica em Processos Fotográficos e é pós-graduado em Roteiro Audiovisual pelo Senac. Pesquisa temas sociais, culturais e ambientais por meio do jornalismo e da documentação audiovisual. Revisão por Eliane Gomes Edição por João Guilherme Referências Apresentação do Raul no Phono 73: https://www.youtube.com/watch?v=mfWDYaW_W-Q Sobre o Festival Phono 73: https://www.noize.com.br/phono-73-o-festival-que-marcou-para-sempre-a-musica-brasileira Sobre o legado de Raul Seixas: https://www.youtube.com/watch?v=ptCOztTnjSc Sobre a Sociedade Alternativa: https://www.letras.mus.br/blog/o-que-e-sociedade-alternativa/ Fonte da imagem: https://www.estadao.com.br/fotos/acervo/fotos-ineditas-do-phono-73-o-festival-com-as-maiores-estrelas-da-mpb-em-1973/?srsltid=AfmBOopaVAB4TC6kstl0kpj4ohSQgrTD3gn_7k8L0cJ8KuzRPjDQG7nE&token=%7B%22current%22%3A21%7D
- FOMO: Por que temos tanto medo de ficar sem saber?
Nos últimos meses, você provavelmente se deparou com a palavra FOMO em algum meme ou tuíte nas redes sociais. Mas, afinal, o que significa esse termo que se tornou tão recorrente na web? Foto: Mídia do Wix. FOMO é uma sigla que vem da expressão em inglês Fear of missing out , uma condição caracterizada pelo medo de ficar de fora de algum assunto, e também a ansiedade de estar perdendo algo. Trata-se de uma discussão pertinente quando se fala no uso excessivo de redes sociais, principalmente em um momento no qual a cultura digital se infiltra nas relações sociais. A origem do FOMO Ao contrário do que muitos pensam, o fenômeno do FOMO não é tão recente. O termo foi criado no início dos anos 2000, mas se popularizou apenas a partir de 2010, quando as redes sociais passaram a ter uma relevância maior no dia a dia das pessoas. Dessa forma, passou-se a notar uma mudança generalizada de comportamento com o avanço das plataformas digitais. Conhecidos como os usuários que mais engajam nas redes, os brasileiros se destacam por sua presença marcante no meio digital. Segundo dados do relatório Digital 2024: 5 Billion Social Media Users , o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking dos países que mais passam tempo online, com uma média de 9h13min por dia. Ademais, é necessário considerar os efeitos do fenômeno da midiatização , uma teoria do campo da comunicação que aborda o impacto da mídia na cultura e na sociedade, cada vez mais dependente dos meios de comunicação. A mídia deixa de ser apenas um canal de transmissão de informações, passando a moldar a forma como as pessoas se relacionam e se organizam em sociedade. Foto: IA Assim, a midiatização acaba por promover um ambiente no qual as regras de visibilidade e conexão, características centrais do FOMO , tornam-se experiências comuns da vida digital contemporânea. As consequências Ansiedade, insatisfação e comparação constante: esses são sintomas característicos de quem sofre com o FOMO , além da dificuldade de foco e estresse social. A dependência digital resulta de um excesso de estímulos ocasionados pela dopamina, neurotransmissor responsável por transmitir sensação de prazer. Quando estamos conectados, a dopamina liberada em nosso cérebro pode causar alívio e conforto; mas, a longo prazo, pode afetar nosso comportamento e provocar impulsividade. Essa cultura se infiltra nas relações sociais e pode causar prejuízos. Por isso, é fundamental estar atento a padrões de comportamento que apontam para a dependência digital. Como “fugir” do FOMO? Fugir do FOMO não significa se isolar ou se desligar do mundo. Pode ser, na verdade, uma oportunidade de escapar das pressões das redes sociais, ou até mesmo um momento de reconexão consigo mesmo. Por isso, estabelecer limites e valorizar experiências fora das telas pode ser muito enriquecedor. Aqui vão algumas dicas para escapar das armadilhas do mundo digital: Reduzir o tempo de tela Evite passar tanto tempo no celular e, se necessário, use ferramentas que controlam o tempo de uso dos aplicativos. É uma dica simples, mas com efeitos siginificativos a longo prazo. Rever o conteúdo que consome Selecione conteúdos que realmente te representem. Lembre-se: o que é mostrado na internet não reflete 100% a realidade. Muitas pessoas exibem uma vida perfeita que, na verdade, não existe. Evitar esse tipo de conteúdo ajuda a manter a saúde mental em dia. Viva o momento Curta uma festa, aprenda um hobby novo ou faça um passeio diferente. Faça tudo isso não para postar nas redes ou mostrar para os outros, mas por você. No fim das contas, estar vivo é se permitir experimentar os momentos que te aguardam. Texto escrito por Alice Trindade É graduada em Comunicação Social - Jornalismo, gosta de bons livros, cafés da tarde e sempre está em busca de novos hobbies. Atualmente, integra a equipe de colunistas do Portal Águia. Revisão: Eliane Gomes Edição: Eliézer Fernandes Referências https://zenklub.com.br/blog/para-voce/sindrome-de-fomo-o-que-e-fear-of-missing-out https://g1.globo.com/saude/noticia/2023/02/13/fomo-saiba-mais-sobre-a-sindrome-do-medo-de-ficar-de-fora-principalmente-do-mundo-digital.ghtml https://revistas.usp.br/matrizes/article/view/82929/85963
- “Minta, minta, minta, algo permanecerá”
A frase que intitula o artigo é de Joseph Goebbels que foi Ministro do Esclarecimento Público e Propaganda durante o Terceiro Reich, Joseph afirmava que: Joseph Goebbels “Antes, quando algo cair, quanto maior a mentira, mais as pessoas acreditarão”. O tempo passou mas a sentença continua vigente e particularmente em relação ao Presidente da Argentina, Javier Milei que tanto nos debates presidenciais como nos anúncios feitos por seus ministros, fez o que disse que não ia fazer, ou seja, mentiu. No debate presidencial, Milei incorporou plenamente a visão da vice-presidente, Victoria Villarruel expressando que os crimes contra a humanidade eram “excessos” , tendo o mesmo argumento do genocida Jorge Rafael Videla. Expressar uma opinião sobre o pior sucesso na História Argentina não é brincadeira e tem que ser levada a sério. Além disso, quando se pesquisa sobre as ideias do presidente argentino fica evidente que ele não tem um pensamento crítico; cada uma das ideias dele foram ideais ou opiniões de outras pessoas e coincidir -ou não- com outras está bem, o errado é falar como se as ideias, argumentos ou planos sejam exclusivos dele. Ele não dá o crédito ao outro, como se evidenciou nos plágios que ele fez relacionados ao Fundo Monetário Internacional (FMI) mas o plágio não se limitou a colunas de opinião ou livros, está presente até em sua autobiografia *. A questão das mentiras foi mais além da esfera doméstica e durante a Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial em Davos de 2024, e elas podem ser vistas nas expressões de Mieli. A seguir destaco algumas frases na mesma ordem do discurso: “Estamos aqui para dizer-lhes que as experiências coletivistas nunca são a solução para os problemas que afligem os cidadãos do mundo, mas, pelo contrário, são a sua causa. Acredite em mim, ninguém melhor do que nós argentinos para dar testemunhos destas duas questões." Permitam-me discordar do presidente argentino e concordar com o argumento de Paulo Freire que expressou que “Ninguém se salva sozinho, ninguém salva ninguém, todos nós salvamos em comunidade”. Pensamento que anda de mãos dadas com o Papa Francisco que durante a pandemia disse que “Ninguém se salva sozinho”, refletindo que nenhuma solução próspera pode ocorrer a partir do individualismo. Continuando, Milei afirmou que: “Quando adotamos o modelo da liberdade, no ano de 1860, em 35 anos nos tornamos a primeira potência mundial.” Porém, esqueceu de falar quais eram as condições da população nesse tempo. Os pontos mais importantes foram que a Argentina estava se organizando no nível estatal e o motor do seu crescimento econômico foram as exportações de produtos primários porém as receitas do Estado nunca conseguiram cobrir as suas despesas, pelo que o déficit fiscal era comum. A emissão de dívida pública para cobrir a crescente despesa pública levou a um aumento da taxa de juros do sistema e a uma eventual queda da taxa de investimento do setor privado. Este efeito tornou-se mais pronunciado em tempos difíceis, quando os investidores preferiram a segurança dos títulos do Estado à rentabilidade na esfera privada. ( ROCCHI, 200) Em relação à seguinte frase: “Agora, não só que o capitalismo gerou uma explosão de riqueza desde o momento em que foi adotado como sistema econômico, mas, se você analisar os dados, o que se observa é que o crescimento vem acelerando ao longo de todo o período.” Seria bom para ele ler Noam Chomsky para compreender que o capitalismo produziu “uma escalada aparentemente interminável de guerras, catástrofes ambientais, níveis sem precedentes de desigualdade tanto na riqueza como nos rendimentos globais. E regimes autoritários cada vez mais repressivos." (CHOMSKY & WATERSTONE, 2021) Com respeito ao Produto Interno Bruto (PIB), expressou que: “Agora, quando se estuda o PIB per capita, desde o ano 1800 até hoje, o que se observa é que, após a Revolução Industrial, o PIB per capita mundial se multiplicou por mais de 15 vezes, gerando uma explosão de riqueza que tirou da pobreza 90 por cento da população mundial.” Exatamente como ele fala, “agora, quando se estuda o PIB…” não se considera seus números como indicadores vitais para analisar o crescimento econômico de um país porque não leva em conta o que exatamente está sendo produzido ou qual é a qualidade do que é produzido; fazendo difícil comparar a produção entre diferentes períodos. Por último, segundo Milei diz: “A conclusão é óbvia: longe de ser a causa dos nossos problemas, o capitalismo de livre empresa, como sistema econômico, é a única ferramenta que temos para acabar com a fome, a pobreza e a indigência em todo o planeta. A evidência empírica é inquestionável … Por isso, como não há dúvida de que o capitalismo de livre mercado é superior em termos produtivos… Graças ao capitalismo de livre empresa, hoje, o mundo está no seu melhor. Nunca houve, em toda a história da humanidade, um momento de maior prosperidade do que o que vivemos hoje. O mundo de hoje é mais livre, mais rico, mais pacífico e mais próspero do que qualquer outro momento da nossa história. Isso é verdade para todos, mas em particular para aqueles países que são livres, onde respeitam a liberdade econômica e os direitos de propriedade dos indivíduos”. Pensando em suas palavras, uma forma de respeitar a liberdade e direitos dos indivíduos é vedar o congresso nacional, pressionar os governadores – anunciando cortes pela Nação – a votarem leis que nada tem a ver com necessidades e emergências, e reprimir cidadãos que manifestam o seu desacordo com os planos econômicos do presidente eleito? Para finalizar, vou lembrar uma frase de Myriam Bregman que foi dita no debate presidencial, ela enfatizou os laços empresariais do economista ultraliberal expressando que: “ Ele não é um leão, é um gatinho fofinho do poder econômico ” (El País, 2023). O que será que Bregman quis dizer? Disso vamos falar no próximo artigo , onde vamos também vamos repensar os conceitos tão falados por Milei: liberdade, poder econômico e direitos. * Se você quiser saber mais sobre plágio, acesse: https://interferencia.cl/articulos/los-multiples-plagios-de-javier-milei-en-sus-libros-y-columnas-que-sergio-massa-refloto-en Texto escrito pela equipe Zero Águia , portal de notícias e análises sobre Política e Relações Internacionais. Revisão por Eliane Gomes Edição por Felipe Bonsanto Bibliografía: Chomsky, N., & Waterstone, M. (2021). Las consecuencias del capitalismo. La fábrica de descontento y resistencia. “Davos 2024: Discurso especial de Javier Milei, presidente de Argentina”, World Economic Forum, 19 de enero de 2023. https://es.weforum.org/agenda/2024/01/davos-2024-discurso-especial-de-javier-milei-presidente-de-argentina/ "Javier Milei sale con vida del primer debate de candidatos presidenciales de Argentina", Diario El País, 2 de octubre de 2023. https://elpais.com/argentina/2023-10-02/javier-milei-sale-con-vida-del-primer-debate-de-candidatos-presidenciales-de-argentina.html “ Los múltiples plagios de Javier Milei en sus libros y columnas que Sergio Massa reflotó en el debate”, Interferencia, 14 de noviembre de 2023. https://interferencia.cl/articulos/los-multiples-plagios-de-javier-milei-en-sus-libros-y-columnas-que-sergio-massa-refloto-en Rocchi, F. (2000). El péndulo de la riqueza: la economía argentina en el período 1880-1916. Nueva historia argentina , 5 , 15-69.















